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segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Álbum de retratos da economia de alguns países da América Latina

O post apresenta uma espécie de coleção de fotografias de alguns países da América Latina olhando por vários ângulos, a ideia é dar um painel do estado geral de países da região. Colocar todos os países tornaria difícil reconhecer cada um na foto, dessa forma escolhi um grupo de onze países que costumam aparecer em várias comparações do tipo que aparecem na internet ou em artigos de jornais e revistas, são eles: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, México, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela.

Como é o caso em qualquer fotografia de família existem diferenças importantes entre os que aparecem nas imagens que não são captadas nas fotos, por exemplo, os menos de 3,5 milhões de habitantes espalhados em um território 176,2 mil quilômetros quadrados fazem do Uruguai um país bem diferente do Brasil com nossos mais de 200 milhões de habitantes em um território de cerca de 8,5 milhões de quilômetros quadrados. Ainda assim ambos aparecem nas figuras abaixo, afinal ambos fazem parte de nuestra América.

As dimensões consideradas são: PIB per capita, expectativa de vida, gastos com saúde, gastos com educação, distribuição de renda, acesso à internet, dependência de recursos naturais e participação da manufatura do PIB. Para cada variável foi usada a média de 2015 a 2019, em caso de faltar algum dado para um ou mais anos foi usada a média sem considerar o ano em questão, quando não estavam disponíveis dados para nenhum dos anos o país ficou de fora da figura (ou da foto). Os dados são do Banco Mundial.

Como de costume o ponto de partida é o PIB per capita. Por mais críticas que possam ser feitas a essa medida é fato que países com alto PIB per capita tendem a ter um melhor desempenho nas variáveis que o crítico aponta como ausentes no cálculo do PIB. Riqueza não compra felicidade nem saúda, mas ajuda um bocado. Para facilitar as comparações foi usado o PIB ajustado por paridade de poder de compra. O país mais rico da turma é o Chile seguido de perto pela Argentina, Brasil e Colômbia estão quase empatados no meio e a Bolívia está isolada na lanterninha. Alguns podem se assustar com a posição da Argentina, mas é isso mesmo, como eu já disse em outros lugares o drama da América do Sul no pós-guerra não é o Brasil virar Argentina, o drama é a Argentina estar virando Brasil.

 


A próxima variável é a expectativa de vida, ter dinheiro é bom, mas fica ainda melhor quando é possível aproveitar a vida por mais tempo. Nesse critério o Chile é novamente o líder, porém agora seguido por Uruguai e Colômbia. A Bolívia mais uma vez teve o pior desempenho, a Venezuela, que não pareceu na figura anterior, está colada na Bolívia. O Brasil está na parte de baixo da amostra. Usando o critério de PIB per capita e expectativa de vida para avaliar bem-estar o Chile é o líder da turma. Vale o registro que na Argentina, mesmo com o PIB per capita muito próximo do Chile, a expectativa de vida é a quinta maior entre os países selecionados.

 


Expectativa de vida nos leva a pensar em saúde. O país da amostra com o maior gasto em saúde como proporção do PIB é o Brasil que é seguido de perto pelo Uruguai. O Chile, com a maior expectativa de vida, aparece me terceiro lugar. O pior desempenho é observado na Venezuela.

 


O gasto com saúde pode dar uma ideia distorcida do acesso dos mais pobres ao sistema de saúde, isso é verdade porque a medida da figura anterior considera todos os tipos de gastos com saúde. A próxima figura mostra o gasto do governo com saúde, Uruguai e Argentina lideram nesse quesito. O Chile fica bem no meio da turma e o Brasil, que liderava na figura anterior, abre a turma onde o governo gasta menos de 4% do PIB com saúde. Aqui um ponto interessante, no gasto total Brasil e Uruguai estão praticamente empatados, porém, no gasto do governo com saúde, o Uruguai lidera e o Brasil foi para parte de baixo da figura. Difícil falar qual é o melhor modelo apenas com esses dados, mas os números sugerem que o financiamento do sistema de saúde do Uruguai é mais fincado no setor público enquanto no Brasil prevalece o setor privado.

 


Para avaliar os gastos dos governos com educação serão considerados os gastos por estudantes nos níveis de educação primário, secundário e terciário. Na educação primário o maior gasto por estudante ocorre no Chile que é seguido à distância pela Argentina e pelo Brasil. O país da amostra com menor gasto foi o Equador, note que Bolívia e Venezuela ficaram de fora por falta de dados.

 


No ensino secundário a liderança passa a ser da Argentina com o Chile ocupando o posto de segundo maior gasto por estudante. O Brasil caiu para a quarta posição e o Equador é novamente o país com menor gasto por aluno.

 


No ensino terciário, onde estão as universidades, o maior gasto do governo por aluno é no México. O Equador, que tinha o menor gasto nos níveis primário e secundário, tem o segundo maior gasto no nível terciário. O Brasil ficou com o quarto maior gasto, mesma posição que no secundário e uma posição abaixo do primário. O Chile, que liderou no primário e ficou em segundo lugar no secundário, aparece em quinto lugar no terciário, esses números sugerem que o sistema público de educação do Chile prioriza os níveis mais básicos de educação. O Peru é o país com menor gasto do governo por aluno no ensino terciário.

 


A desigualdade será medida pelo índice de Gini, a proporção da renda que vai para os 10% mais ricos e a proporção da renda que pertence aos 10% mais pobres. O maior índice de Gini é observado no Brasil que é seguido pela Colômbia. O Uruguai é o país da amostra onde a distribuição de renda é menos concentrada.

 


No Brasil os 10% mais ricos respondem por 41,9% da renda do país, é a maior proporção dentre os países da amostra. No Uruguai os 10% mais ricos ficam com 29,7% da renda e na Argentina ficam com 30%.

 


Aqui aparece um fato curioso, apesar de ficar pelo meio no índice de Gini e na renda destinada aos 10% mais ricos o Chile é o país da amostra onde os 10% mais pobres ficam com a maior fatia da renda. Brasil é o país onde os 10% mais pobres ficam com a menor parte da renda. Por qualquer dos critérios utilizados o Brasil é o país com a maior concentração de renda.

 


Em tempos de redes sociais e vidas virtuais achei válido olhar para o acesso à internet. O maior acesso ocorre no Chile, 80% da população, e o menor na Bolívia. O Brasil fecha a parte de cima da distribuição com acesso por menor que a Venezuela e maior que no México.

 


Por fim considerei duas varáveis relacionadas à estrutura de produção dos países: proporção da renda do país originada em recursos naturais e participação da manufatura no PIB. O Chile é o país da amostra com maior dependência de recursos naturais, talvez esse fato deva ser considerado por quem tenta explicar o desastre econômico em alguns países do continente com base na queda dos preços das commodities. A menor dependência ocorre na Argentina. No Brasil apenas 3,2% da renda tem origem em recursos naturais.

 


O Paraguai é o país da amostra onde a manufatura responde pela maior parte do PIB, se essa variável for usada como medida de industrialização então é justo dizer que o Paraguai é o país mais industrializado da turma. Em segundo lugar aparece o México, aquele que fez um acordo de livre comércio com os EUA. O Brasil, apesar (ou por causa?) dos subsídios, dos planos estratégicos para indústria, do protecionismo, etc, é o país onde a manufatura reponde pela menor proporção do PIB.

 


Como prometido o post apresentou retratos da países da América Latina tirados por diversos ângulos. É certo que outros autores, ou esse autor em outros dias, poderiam ter colocado outros países e escolhido outras variáveis, mas creio que os retratos desse post dão uma ideia relevante de como estão alguns dos principais países da região. Apesar dos inevitáveis comentários no decorrer do texto, deixo para o leitor decidir quais países apresentam o melhor desempenho geral.

 

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Projeções do FMI para dívida pública no Brasil e em países da América Latina


O FMI divulgou a nova versão de sua base de dados com projeções até 2024 (link aqui). É uma boa oportunidade para dar uma olhada no que o FMI projeta para o Brasil e outros países, vou começar pela dívida pública e em outros posts falo de outras variáveis. Sei que alguns colegas de profissão gostam de comparar a dívida pública do Brasil com a de países ricos como se fizesse algum sentido comparar dívida de pobres, vá lá, emergentes, com dívida de ricos. Já tratei da questão de comparar nossa dívida com a de países ricos em outros posts (quem se interessar pode checar aqui, aqui e aqui), nesse post vou me limitar a comparar a dívida pública como proporção do PIB no Brasil e outros países da América Latina.

Para não ficar com gráficos de difícil leitura vou fazer as comparações em grupos de três, Brasil e mais dois. Para começar vou pegar o Chile, que é a referência de país ajustado do continente, e o México que é um país grande, com mais cem milhões de habitantes e que guarda algumas semelhanças importantes com o Brasil. A figura abaixo mostra a dívida pública como proporção do PIB no Brasil, no Chile e no México. Repare que a dívida do Brasil é bem mais alta como proporção do PIB do que as dívidas do México e do Chile, pelas projeções do FMI chegaremos a 2024 com uma dívida de 97,6% do PIB contra 28,3% no Chile e 54,3% no México.




No segundo exercício a comparação foi com a Colômbia e o Peru, mas uma vez estamos bem mais endividados que os outros países. A previsão do FMI é que o Pero chega a 2024 com uma dívida de 25% do PIB e a Colômbia com uma dívida de 40% do PIB, no Brasil, como já vimo a projeção é de 97,6% do PIB.




Para não ser acusado de trapacear na escolha dos países de comparação resolvi facilitar e colocar Argentina e Equador no próximo grupo, assim como o Brasil os dois países tiveram problemas com governos populistas de esquerda e a Argentina é famosa por ter problemas periódicos com a dívida pública. De fato, em 2018 a dívida pública da Argentina foi de 86,3% do PIB o que não é muito longe dos 87,9% do Brasil no mesmo ano. Porém, ao contrário do que acontece com o Brasil, as projeções do FMI apontam para uma trajetória de queda da dívida como proporção do PIB por lá. Em 2024 o FMI projeta uma dívida de 59,5% do PIB para Argentina, por aqui, como sabemos, a projeção é de 97,6%. No Equador a dívida deve subir mais um pouco chegando a 49,2% do PIB em 2019, mas depois caindo para 33,4% em 2024.




Eu poderia fazer mais grupos, mas não vale à pena, creio que o leitor já entendeu a mensagem: nossa dívida pública é muito alta para nossos padrões. Aos curiosos informo que as projeções do FMI são que a dívida como proporção do PIB em 2024 será de 58,3% na Bolívia, 22,4% no Paraguai e 71,3% no Uruguai. A bem da verdade devo dizer que o Brasil não foi o mais endividado dos países que pesquisei, tem um que a dívida chega a 272,8% do PIB em 2024. Não é preciso bola de cristal para adivinhar que estou falando da Venezuela. A figura abaixo mostra a dívida como proporção do PIB no Brasil e na Venezuela, repare como a dívida cresce rápido uma vez que começa o desastre. Até 2017 a Venezuela tinha uma dívida de 33,1% do PIB, mas como é impossível manter a sujeira de baixo do tapete indefinidamente em 2018 a dívida já era de 175% do PIN e em 2019 a previsão é de 214,5%.




Por certo não estamos na direção de uma trajetória explosiva como a da Venezuela, pelo menos não há indícios disso no momento, mas nossa situação é delicada e exige medidas drásticas. O déficit primário tem que ser reduzido nos próximos anos sob pena de perdermos o controle da dívida e agravar ainda mais a crise desta década. A reforma da previdência é um passo fundamental, mas tem que ser uma reforma que traga benefícios no curto prazo, nesse sentido considero um erro usar o que for poupado com a reforma para financiar um regime de capitalização. Precisamos de usar tudo que conseguirmos poupar na redução da dívida, se Paulo Guedes quer usar um trilhão para financiar a mudança de regime previdenciários então vamos ter de arrumar outro trilhão para segurar a dívida. Por importante que seja a reforma da previdência, não dá para não ter um Plano B em o caso da reforma demorar muito ou não sair (espero que não seja o caso). Esse Plano B pode incluir um programa mais ousado de privatizações, incluindo venda de ações da Petrobras; Caixa e BB, cobrança do dinheiro do Tesouro que está no BNDES, BB e Caixa; cortes de gasto mais duros que os exigidos pela lei do teto; adiamento por tempo indefinido da reestruturação da carreira dos militares, congelamento de salários de servidores e outras medidas do tipo. Tudo isso pode parecer muito duro para um país em crise, mas, acredite, é menos cruel que uma dívida fora de controle.



terça-feira, 20 de junho de 2017

América Latina e países emergentes da Ásia: Ambiente de negócios.

Seguindo o post anterior (link aqui) nesse post vou comentar as diferenças no ambiente de negócios nos países emergentes da Ásia e nos países da América Latina e Caribe. Para fazer essa comparação usei os dados do Doing Business (link aqui) elaborados pelo Banco Mundial disponíveis entre 2005 e 2015 junto com a classificação de grupos de países usada pelo FMI, fiquei com 22 dos 30 países emergentes da Ásia e 28 dos 32 países da América Latina e Caribe. Usei as variáveis de tempo por acreditar que são mais fáceis de comparar entre países do que custos como proporção do PIB e número de procedimentos. Desta forma useis as variáveis: tempo para construir armazém, tempo para fazer valer um contrato, tempo para pagar impostos, tempo para resolver insolvência e tempo para começar um negócio.

A figura abaixo mostra a média de cada uma destas variáveis para os países emergentes da Ásia e para América Latina e Caribe. Repare que embora a diferença não seja muito grande os países emergentes da Ásia, que (ainda) são mais pobres do que nós, se saíram melhor em todos os itens usados para comparação.




Para uma visualização melhor das diferenças entre os países dos sois grupos a figura abaixo mostra o diagrama de caixa para cada grupo de países e cada variável considerada. Repare que em todos os critérios menos o tempo para abrir um negócio a mediana, linha vertical em negrito, da América Latina e Caribe fica cima do mediana dos países emergentes da Ásia. Isso significa que o país que está bem no meio da amostra da América Latina e Caribe leva mais tempo para cada um dos procedimentos, com exceção do tempo para abrir um negócio, que os país que está bem no meio da amostra dos emergentes da Ásia. Isso é preocupante para “nuestra” América. Como bem sabemos aqui no Brasil em um ambiente de negócios ruim mesmo que sejam jogados bilhões de dólares em subsidio a investimento o resultado não é dos melhores. Nem semente boa prospera em terra ruim. Por falar em Brasil, vejam aquele ponto que distorce totalmente o diagrama de caixa para tempo de pagar impostos na América Latina e Caribe, aquele país que está acima de 2000 horas enquanto a média nos países emergentes da Ásia é de 231 horas e a média na América Latina e Caribe é de 415 horas, pois bem, somos nós.




Uma outra maneira de ver a diferença entre os dois grupos de países é olhando a densidade das duas distribuições, densidade é um conceito técnico que não costumo usar aqui no blog, grosso modo quanto mais para esquerda estiver cada grupo melhor, pois estar à esquerda significa mais países com menos tempo para cada um dos critérios usados. Repare que no tempo para construção de armazéns, no tempo para fazer valer um contrato e no tempo para pagar impostos os países emergentes da Ásia aparecem com mais frequência nos valores mais baixos, esquerda do gráfico. No quesito tempo para resolver insolvência os países emergentes da Ásia dominam a posta esquerda e a ponta direita, ou seja, alguns estão muito bem e outros estão muito mal, a turma da América Latina e Caribe fica pelo meio. Por fim, no tempo para começar um negócio os dois ficam bastante próximos, com a América Latina e Caribe se saindo melhor quando consideramos a mediana e os emergentes da Ásia se saindo melhor quando o critério é a média. Isso acontece por conta de um país que “puxa” a distribuição da América Latina e Caribe para direita, aquela mancha verde no final do gráfico. O país é o Suriname, mas não reclame de nossos vizinhos, aquela mancha verde que “puxa” a distribuição do tempo de pagar impostos na América Latina e Caribe somos nós.




Os critérios usados nesse post sugerem que os países emergentes da Ásia possuem um ambiente de negócios mais favorável ao empreendedorismo do que os países da América Latina e Caribe. A diferença não é tão grande, mas é consistente entre os vários critérios. Como foi visto no post anterior, os países emergentes da Ásia, em média, são mais pobres que os países da América Latina e Caribe, mas estão se aproximando. Lá vimos que eles poupam e investem mais do que nós, aqui vimos que estão com ambiente de negócios melhor que os nossos. Depois não se espantem quando seus netos resolverem migrar para a Indonésia ou para Índia.


domingo, 18 de junho de 2017

América Latina e países emergentes da Ásia. Vamos ficar para trás de novo?

Quando pensamos em países pobres que estão tentando crescer é comum lembrarmos dos países da Ásia, excluídos países avançados como Japão e Coreia do Sul tais países são, em média, mais pobres que o Brasil e a média da América Latina e Caribe. Ocorre que tais países estão crescendo mais rápido que nós e, mantendo esse ritmo, em breve poderão repetir o feito da Coreia do Sul e os outros “Tigres Asiáticos” nos deixando para trás. Seria mais uma confirmação da tese dos economistas Harold Cole, Lee Ohanian, Alvaro Riascos e James Schmitz (link aqui) que a América Latina é o caso mais difícil de explicar de fracasso em termos de crescimento econômico? Por que mesmo usufruindo de relativa paz e baixa intensidade de conflitos étnicos ou culturais não conseguimos crescer? Estamos condenados a mais cem anos de solidão?

Estou entre os que acreditam que o maior problema da América Latina é a baixa produtividade e que este fenômeno não é explicado apenas por problemas de capital humano, não estou sozinho, os economistas que citei acima seguem essa mesma tese. Caso tenha interesse no tema recomendo fortemente que leiam o texto no link. Mas, como falo sempre de produtividade e tem gente que não gosta muito do assunto vou destacar outras diferenças entre os países da América Latina e do Caribe e os países emergentes da Ásia. Nesse post vou caracterizar a aproximação na renda dos dois grupos de países e tratar da poupança e investimento, em posts futuros farei outras comparações.

Os dados utilizados são do FMI (link aqui), selecionei as variáveis já agregadas por grupos de países. Para uma lista dos países de cada grupo ver aqui, vale registrar que na lista dos países asiáticos não estão países considerados avançados como Japão, Coreia do Sul e Singapura. A figura abaixo mostra o PIB per capita, corrigido por paridade do poder de compra, dos países da América Latina e Caribe e dos países emergentes da Ásia, repare que ainda somos mais ricos, mas a diferença está diminuindo.




Caso a aproximação da renda não tenha ficado visível a figura abaixo mostra o PIB per capita dos países emergentes da Ásia como proporção do PIB per capita dos países da América Latina. É fácil ver que tal proporção cresce com o tempo. Em 1980, primeiro ano da amostra, os países emergentes da Ásia tinham um PIB per capita que era aproximadamente 12% do PIB per capita dos países da América Latina e Caribe, e, 1990 essa proporção tinha subido para 21%, em 2000 já era de 31% e em 2016, último ano da amostra, chegou a 70%. Se esta proporção continuar subindo assim nossos netos, ou mesmo nossos filhos, vão olhar para o Vietnã como hoje olhamos para Coreia do Sul, uma mistura de admiração e inconformismo de porque não fizemos o mesmo.




Para quem gosta de taxas de crescimento a figura abaixo mostra o que aconteceu em cada grupo de países entre 1980 e 2016. Repare que em praticamente todos os anos do período analisado os países emergentes da Ásia cresceram mais que os países da América Latina e Caribe. Não é período homogêneo, aqui no Brasil durante este tempo tivemos o final do regime militar, a transição democrática de Sarney, a crise política de Collor, o período reformista de FHC e Lula, a guinada desenvolvimentista no segundo mandato de Lula, o governo Dilma e a crise política de Dilma e Temer. Outros países do continente também passaram por mudanças do tipo, alternando governos autoritários, reformistas e populistas. Tivemos a crise da década de 1980, o boom das commodities e o colapso dos regimes populistas. Porém, em todos estes períodos, não conseguimos crescer consistentemente mais do que os países emergentes da Ásia. Qual o nosso problema? Quais as virtudes deles?




Comecemos pelo suspeito usual. A figura abaixo mostra a taxa de investimento nos dois grupos de países. Notem como a taxa de investimento subiu nos países emergentes da Ásia e comparem com a trajetória de nossa taxa de investimento. Enquanto eles saem de um patamar próximo a 30% e vão para um nível próximo a 40%, nós ficamos estagnados em torno de 20%. Investir mais significa mais capacidade de produção e, talvez mais importante, incorporar novas tecnologias ao processo produtivo, claro, desde que o investimento seja bem feito. Naturalmente investir mais também significa sacrifícios presentes em nome da construção do futuro, os asiáticos poderiam ter um melhor padrão de consumo se investisse menos, mas, muito provavelmente, não estariam crescendo tão mais que a América Latina e Caribe se tivessem feito isso. Se nossos filhos se perguntarem porque ficamos para trás talvez seja o caso de respondermos dizendo que escolhemos pensar mais em nós do que neles.




Sempre que falamos em investimento pensamos em poupança. Existe muito debate sobre se poupança determina investimento ou se investimento determina poupança, eu estou entre os que acreditam que ambos são determinados conjuntamente como costuma ocorrer com quaisquer quantidades demandas e ofertadas que estejamos analisando. Porém, deixando de lado o debate teórico, é fato que poupança financia investimento no sentido que para alguém investir é preciso que exista poupança. Se todos consomem completamente a própria renda não existe investimento. Claro que um país pode financiar seu investimento pegando emprestado com cidadãos de outros países, é a chamada poupança externa, mais uma vez o campo aqui é minado em termos de teoria, mas do ponto de vista de financiar o investimento, que é o que interessa aqui, mais poupança, interna ou externa, permite que sejam feitos mais investimentos. A figura abaixo mostra a taxa de poupança nos países emergentes da Ásia e nos países da América Latina e Caribe, repare que os asiáticos não apenas investem como poupam mais que o latino americanos e os caribenhos. Notem que eles são mais pobres que nós, logo dizer que somos pobres e por isso não poupamos não é um bom argumento.





A questão da taxa de poupança é particularmente relevante para os desenvolvimentistas. É fácil olhar para países asiáticos e falar do câmbio, ocorre que câmbio é preço, e, como todo preço é determinado por vários fatores que interagem no mercado. Um destes fatores é a poupança. Se um país poupa o suficiente para financiar seu investimento talvez não precise atrair poupança externa, quando acontece o contrário, caso do Brasil e de boa parte da América Latina, o país precisa atrair capital externo, ou seja, precisa atrair dólares, isso aumenta a oferta de dólares e age no sentido de valorizar a moeda local. Levando isso em conta é um espanto que tantos economistas que se dizem desenvolvimentistas tenham se omitido, ou mesmo aplaudido, o aumento dos gastos, particularmente dos gastos públicos da década anterior.

Voltando a atenção para o Brasil é válido registrar que sofremos de dois males quanto ao nosso investimento. Não apenas investimos pouco como também investimos mal, o aumento na taxa de investimento que ocorreu na década passada poderia ter ajudado muito no crescimento desta década. Não foi o que aconteceu, no lugar de empresas sustentáveis investimos nas tais campeãs nacionais, no lugar de infraestrutura de transportes ou energia investimos em estádios. Deu no que deu, mas isso é assunto para outro post.


domingo, 11 de junho de 2017

Temer no Planalto é retrocesso na agenda de reformas!

Durante a década de 1990 vários países da América Latina fizeram reformas no sentido de facilitar o funcionamento do mercado, as ditas reformas liberalizantes. Abertura da economia, controle da inflação, taxas de juros realistas, controle ou pelo menos reconhecimento da questão fiscal e outras medidas do tipo deram o tom daquela década em “nuestra” América. Como resultado a combinação de recessão com (hiper)inflação que marcou o continente na década de 1980 saiu de cena, mas não veio o crescimento sonhado na maioria dos países (sobre este período no Brasil ver aqui, para uma palestra minha sobre o tema ver aqui). O crescimento frustrante levou vários economistas a buscar entender o que tinha acontecido. Para uma discussão mais ampla sobre o tema recomendo o livro “Left Behind: Latin America and the False Promise of Populism” (link aqui) escrito pelo Sebastian Edwards. Para uma referência em forma de artigo científico recomendo “Why Have Economic Reforms in Mexico Not Generated Growth?” (link aqui), Timothy Kehoe e Kim Ruhl, e “The Interaction and Sequencing of Policy Reforms” (link aqui) de  Jose Asturias, Sewon Hur, Timothy Kehoe e Kim Ruhl.

Grosso modo a literatura concluiu que reformas, particularmente abertura econômica, possuem efeitos grandes em países muito pobres, como China e Índia, ocorre que, a medida que a renda do país aumenta, o efeito não apenas diminui como passa a depender muito de outras reformas. Para deixar a questão mais concreta suponha um país muito pobre que resolve abrir a economia, em um primeiro momento a chegada de novas empresas, talvez atraídas pelos baixos salários, tem um impacto muito grande na economia do país que passa a experimentar um crescimento significativo. Porém, a medida que a renda aumenta, ou se o país que fez a reforma já tiver uma renda mais alta, será necessário que empresas cada vez mais sofisticadas e competitivas comecem a operar no país. Tais empresas precisam de mão-de-obra qualificada, estabilidade política e macroeconômica, garantias de direito de propriedade e outras medidas que dependem de novas reformas. Uma economia sem essas características, por mais que tenha baixos salários, terá dificuldades em ter empresas altamente produtivas que criem e usem tecnologia de ponta.

O Brasil e boa parte da América Latina estão exatamente nesse segundo grupo, os ditos países de renda média. Não somos pobres o suficiente para atrair empresas com salários baixíssimos como fez a China, porém não temos as condições necessárias para atrair ou criar empresas que pagam salários mais altos e trabalham próximas a fronteira tecnológica. Existem várias estratégias para resolver esse problema. Em uma ponta está a agenda de reformas que busca criar as condições para atrair ou permitir o desenvolvimento de empresas de ponta; economistas que seguem essa linha estão sempre a pedir reformas que melhorem o ambiente de negócios, garantam estabilidade macroeconômica, qualifiquem a mão-de-obra, aumentem a produtividade e etc. Na outra ponta está o que vou chamar com alguma impropriedade de desenvolvimentismo; economistas dessa linha acreditam que via controle de preços, especialmente câmbio e juros, e subsídios o governo pode atrair de empresas de ponta que não viriam em condições normais, uma vez que as empresas tivessem instaladas seria mais fácil criar as condições para que continuassem operando. Entre as duas pontas existem uma infinidade de possibilidades que costumam aparecer em vários países, inclusive no Brasil e na América Latina.

Pois bem, a partir de 2006 o Brasil largou a agenda de reformas e tomou o caminho do desenvolvimentismo. Vários economistas desenvolvimentistas, ressabiados com os anos onde a agenda de reformas predominou, correram para apoiar os governos que aplicaram a estratégias de subsídios e controle de preços. Alertados para os vários escândalos que tais governos estavam envolvidos, inclusive comprometendo a aplicação da agenda desenvolvimentista, muitos deles preferiram fazer vista grossa em nome do que acreditavam, ou queriam acreditar, ser a oportunidade de implementar políticas econômicas que consideravam corretas. Por conta disso economistas desenvolvimentistas, inclusive os que pularam do barco antes do naufrágio, acabaram pagando a conta perante a opinião pública quando a experiencia de política econômica pós-2006 desaguou na maior crise econômica de nossa história.

Aqui chego ao ponto central do post de hoje: eu não vou cometer o mesmo erro dos desenvolvimentistas. Desde o final de 2014 o governo vem acenando uma guinada na direção da agenda de reformas. Porém, apenas após a posse de Temer, foi possível ver o governo realmente empenhado com as reformas. O teto de gastos, a reforma de previdência e a reforma trabalhista são as mais visíveis, mas o tom reformista do governo apareceu em outras ações. Mesmo com críticas pontuais apoiei cada uma das reformas propostas pelo governo Temer. Fiz isso por acreditar que tais reformas tornarão o Brasil um país melhor e mais rico.

Desde a divulgação do áudio da JBS a coisa mudou de figura. A permanência de Temer no governo pode até ajudar com algumas reformas, particularmente a trabalhista, mas definitivamente vai na contramão da melhora do ambiente institucional que tanto precisamos. A lei trabalhista brasileira espanta empresas, mas a existência de empresas cujos donos se reúnem com o Presidente da República na calada da noite para discutir crimes e tratar de interesses da empresa espanta mais ainda. Pior, as empresas que mais fogem de coisas assim são as que mais precisam de estabilidade institucional, exatamente as empresas que usam e criam tecnologia de ponta. Da mesma forma são tais empresas que fogem de cortes que julgam de acordo com a conveniência dos poderosos de plantão. Para extrair minério a condição institucional do país talvez não seja tão importante, abundância de recursos naturais e salários baixos podem ser mais do que suficientes para garantir boas margens de lucro. Para produzir tecnologia e/ou trabalhar na fronteira salários baixos e abundância de recursos naturais talvez sejam irrelevantes, é preciso um bom ambiente de negócios, são necessárias instituições que garantam o direito de propriedade, enfim, é preciso que exista confiança.

Manter o governo Temer depois de tudo que aconteceu é assinar mais um atestado de República de Bananas, o tipo de coisa que vai contra tudo que acredito ser a agenda reformista. Por isso, e por outros motivos, creio que mesmo que as reformas em andamento sejam prejudicadas o melhor para o Brasil é a retirada de Temer do Palácio do Planalto.



domingo, 7 de maio de 2017

Reduzir distorções ou intervir nos preços? Custo de exportações e exportações da indústria.

Uma das diferenças mais significativas entre economistas como o que escreve esse blog e boa parte dos economistas desenvolvimentistas é que eu respeito preços, não acredito em políticas que tentam intervir diretamente nos preços forçando-os para cima ou para baixo. A questão é que preços são determinados a partir de uma infinidade de informações das quais apenas uma pequena parcela é conhecida por alguns agentes econômicos, ninguém conhece todas as informações necessárias para formar um preço. Hayek foi o economista que melhor expressou esse problema em um texto clássico chamado “The Use of Knowledge in Society” (link aqui) publicado na American Economic Review. A passagem abaixo deixa claro o ponto de Hayek:

“The peculiar character of the problem of a rational economic order is determined precisely by the fact that the knowledge of the circumstances of which we must make use never exists in concentrated or integrated form but solely as the dispersed bits of incomplete and frequently contradictory knowledge which all the separate individuals possess. The economic problem of society is thus not merely a problem of how to allocate "given" resources—if "given" is taken to mean given to a single mind which deliberately solves the problem set by these "data." It is rather a problem of how to secure the best use of resources known to any of the members of society, for ends whose relative importance only these individuals know. Or, to put it briefly, it is a problem of the utilization of knowledge which is not given to anyone in its totality.”

Desta maneira fixar o preço certo de um bem ou serviço é impossível, pior, tentar fazer isso é perigoso. Como ninguém conhece todas as informações que determinam um preço ninguém pode prever todos os efeitos de forçar a alteração do preço. Se isso é verdade para preços em geral é mais verdade ainda para preços como a taxa de câmbio. Muito se fala que desvalorizar o câmbio ajuda a indústria, pode até ser verdade em alguns casos e para algumas indústrias, infelizmente não sabemos quais casos e quais indústrias. A mesma desvalorização que, em tese, torna um produto local mais competitivo no exterior pode elevar o custo de um insumo que inviabilize uma outra indústria local. Qual o efeito líquido? Medir tal efeito para o passado é tarefa árdua, talvez inexequível, prever tal efeito para o futuro é tarefa impossível.

Então o governo nunca pode tentar alterar um preço? Não há nada que o governo possa fazer para estimular a indústria ou a agricultura? Nada que possa ser feito para estimular as exportações? Felizmente o mundo não é tão cruel para nós economistas. O governo pode fazer políticas que terão efeitos sobre o preço, mas efeitos indiretos. Políticas que são boas não apenas por conta de tal efeito, mas que podem ficar ainda melhores por conta de possíveis efeitos nos preços. Caso o efeito nos preços não seja o desejado sobram os outros efeitos positivos da política.

Ainda no exemplo da indústria e das exportações considere o problema do custo de exportar. Parte deste custo é devido a ações diretas do próprio governo via tributação inadequada, burocracia exagerada ou barreira legais a competição no setor. O governo pode tentar manter tudo isso e reduzir o preço de exportar um container na marra, mais ou menos como o governo Dilma tentou fazer com a energia e gerou um caos no setor, ou o governo pode buscar formas mais eficientes de tributação, reduzir burocracia e retirar barreiras a competição no setor. No primeiro caso a mudança forçada no preço levará a uma série de desequilíbrios que podem gerar um efeito contrário a intenção inicial do governo, novamente é válido lembrar da desastrosa intervenção no mercado de energia. No segundo caso também não há garantias que o governo vai conseguir o que quer, mas, mesmo que não consiga, ficaremos com uma tributação melhor, menos burocracia e/ou mais competição.

A figura abaixo mostra a relação entre participação da manufatura nas exportações e o custo de exportar um container. Os dados são do Banco Mundial referentes ao ano de 2014, forma considerados apenas país com mais de cinco milhões de habitantes. A relação é claramente negativa, ou seja, quanto maior o custo de exportar menor a participação da manufatura nas exportações. Como de costume vale alertar que a figura não permite inferir nenhuma forma de causalidade, é apenas uma correlação.




Repare que o Brasil está bem na linha de regressão, ou seja, dado o custo de exportar no Brasil a participação das exportações de manufaturas é mais ou menos igual a esperada pelo modelo. Também é possível notar que o custo de exportação no Brasil está acima da média dos países do mundo. É possível concluir que se o Brasil reduzisse o custo de exportação aumentaria a participação da manufatura nas exportações? Não, mas é possível especular que sim e é aceitável afirmar que nosso custo de exportação é muito alto. A última afirmação ganha força quando consideramos que grande parte dos países com custos de exportação maiores que os nossos são países da África subsaariana, uma região particularmente complicada.

Se consideramos apenas os países da América Latina e Caribe o Brasil tem o terceiro maior custo de exportação, perde apenas para Colômbia e Venezuela. A figura abaixo mostra o custo de exportação na América Latina e Caribe.




Já perdemos muito tempo e pagamos muito caro por tentativas de estimular a indústria e as exportações via câmbio. Não seria o caso de fazer um esforço para diminuir distorções causadas pela ação do governo que possam ter como efeito colateral a redução do custo de exportação do Brasil para a média da América Latina e Caribe? Não posso afirmar que a tal diminuição faria bem a indústria nacional, mas se não fizer no lugar de crises e desequilíbrios macroeconômicos com efeitos devastadores na vida dos mais pobres e de algumas empresas que dependem de insumos importados o efeito colateral será um país mais eficiente e as perdas deverão ficar concentradas em alguns empresários amigos que ganham dinheiro com as dificuldades impostas pelo excesso de burocracia e a falta de competição.


terça-feira, 17 de maio de 2016

Aliança do Pacífico vs Mercosul: Taxa de Investimento

Na primeira comparação entre os países da Aliança do Pacífico e do Mercosul vimos que os países da Aliança do Pacífico tiveram maiores taxas de crescimento (link aqui). Na segunda comparação vimos que os países do Mercosul estão mais endividados (link aqui). Nesse post a variável em foco será a taxa de investimento. Muitos países fazem políticas econômicas voltadas para aumentar a taxa de investimento pois entendem, com um bocado de razão, que essa taxa é a chave para uma renda per capita mais alta no futuro. Mais investimento significa mais capital no futuro e mais capital aumenta a possibilidade de produção e a produtividade do trabalho. Aqui no Brasil, desde 2006 o governo passou a usar intensivamente bancos públicos, especialmente o BNDES, como forma de estimular o investimento (link aqui), a estratégia não deu certo e acabou sendo a principal responsável pela atual crise fiscal que estamos enfrentando. Assim como nos posts anteriores a análise exclui o Paraguai e foi feita com os dados do FMI (link aqui).

A figura abaixo mostra a relação entre taxa de investimento e PIB per capita nos países do Mercosul e nos países da Aliança do Pacífico, os países do Mercosul estão em verde e os países da Aliança do Pacífico em laranja, os anos são representados pelos símbolos nos pontos. Repare que os países da Aliança do Pacífico estão concentrados na parte acima da linha, enquanto os países do Mercosul estão mais presentes na parte abaixo da linha. Isso significa que, dado o PIB per capita, os países da Aliança do Pacífico investem mais como proporção do PIB do que os países do Mercosul. Em 2013 (bolinhas) e 2014 (triângulos) ainda aparecem países do Mercosul acima da linha, em 2015 (quadrados) e 2016 (sinais de soma) apenas países da Aliança do Pacífico aparecem acima da linha, em qualquer ano apenas países da Aliança do Pacífico aparecem com taxas de investimento superiores a 24%. Vale registrar que nenhum país da Aliança do Pacífico possui um banco de desenvolvimento do porte do BNDES, talvez existam estratégias mais eficientes (e mais baratas!) para incentivar o investimento do que usar o dinheiro dos pagadores de impostos para fazer empréstimos subsidiados a empresários amigos.




Seguindo o padrão dos posts anteriores a figura abaixo mostra o “boxplot” das distribuições da taxa de investimento nos dois países. A diferença é ainda mais marcante do que no caso da dívida pública. Em geral os países do Mercosul investem menos do que os países da Aliança do Pacífico.




No terceiro post da série o cenário já está ficando desolador para os países do Mercosul. Nosso grupo investe menos, está mais endividado e cresce menos que os países da Aliança do Pacífico. Fica cada vez mais claro que escolhemos políticas ruins para a economia, se serve algum consolo podemos sempre trocar tais políticas.



segunda-feira, 16 de maio de 2016

Aliança do Pacífico vs Mercosul: Dívida/PIB

No post anterior comecei uma série de comparações entre o desempenho econômico dos países do Mercosul e dos países da Aliança do Pacífico. A primeira comparação teve como foco o crescimento (link aqui), vimos que os países da Aliança do Pacífico cresceram mais que os países do Mercosul e que a diferença de desempenho aumentou com o passar do tempo. Neste post a comparação terá como foco as finanças públicas, especificamente a dívida bruta como proporção do PIB. Assim como no post anterior o Paraguai será excluído da amostra, os dados novamente são do FMI (link aqui).

A figura abaixo mostra a relação entre a razão dívida/PI e o PIB per capita para os países dos dois grupos entre 2013 e 2016. Repare que os países do Mercosul (verde) estão concentrados acima da linha enquanto os países da Aliança do Pacífico (laranja) dominam a parte do gráfico que está abaixo da linha, ou seja, dado o PIB per capita, os países do Mercosul tendem a ser mais endividados do que os países da Aliança do Pacífico. De fato, os países do Mercosul aparecem abaixo da linha apenas três vezes: Argentina em 2013 e 2014 e a Venezuela em 2016. O caso da Argentina é curioso, o país deu calote na dívida em 2001, na sequência de crises políticas e econômicas do período (o país teve três presidentes entre 2001 e 2003) a dívida chegou a 137,7% do PIB em 2002. Depois com a chegada de Nestor Kirchner e a estabilização da economia e da política a dívida entrou em trajetória de queda chegando a 37,6% do PIB em 2012. Como costuma ser o caso em governos populistas o aparente sucesso econômico tem pernas curtas e em 2015 a dívida já estava em 56,5% do PIB em 2015 e é prevista terminar o ano d 2016 em 60,7%, maior que a de qualquer país da Aliança do Pacífico. No caso da Venezuela a queda da dívida está relacionada ao caos econômico que na prática equivale a um calote da dívida pública, inclusive por conta da inflação descontrolada. Também é válido registrar que de todos os países analisados apenas o Brasil aparece com relação dívida/PIB superior a 70% (lembre-se que estou usando dados do FMI), mais uma evidência que temos um sério problema fiscal (mais sobre o assunto aqui).




A análise por meio do “boxplot” confirma a impressão que os países do Mercosul estão mais endividados que os da Aliança do Pacífico. Na figura abaixo é possível reparar que a distribuição dos países do Mercosul está “acima” da distribuição dos países da Aliança do Pacífico, ou seja, na maioria dos anos a maioria dos países do Mercosul está mais endividada que a maioria dos países da Aliança do Pacífico. O quadrado em destaque representa as médias de endividamento de cada grupo, mais uma vez é fácil ver que, em média, os países do Mercosul são mais endividados que os países da Aliança do Pacífico.




Assim como no caso do crescimento é possível enxergar os efeitos da piora do cenário externo no desempenho dos países dos dois grupos. Repare que na primeira figura as "bolinhas" (dados referentes a 2013) estão mais baixas que os "sinais de soma" (dados referentes a 2016), ou seja, existe um padrão geral de aumento da dívida pública como proporção do PIB entre 2013 e 2016. Porém, assim como no caso do crescimento, é possível observar que os países do Mercosul tiveram um desempenho pior do que o dos países da Aliança do Pacífico. Considerando os dois posts com comparações entre os grupos podemos ver que os países da Aliança do Pacífico cresceram mais e estão menos endividados do que os países do Mercosul, confesso que não estou nem um pouco surpreso.



quinta-feira, 5 de maio de 2016

Aliança do Pacífico vs Mercosul: Crescimento

Em 2013 a revista The Economist fez uma reportagem intitulada “A continental divide” (link aqui) onde comentava a divisão da América Latina em dois grupos: Aliança do Pacífico e Mercosul. O primeiro grupo liderado por Chile, Colômbia, México e Peru apostava em políticas econômicas mais direcionadas ao livre mercado e ao comércio internacional. O segundo grupo formado por Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Venezuela apostava em políticas intervencionistas e no comércio regional ou orientado a grupos específicos de países. Hoje começo uma série de posts a respeito do desempenho dos países de cada grupo de lá para cá. Como o Paraguai foi suspenso do Mercosul por um tempo e a partir daí seguiu políticas diferentes dos outros países do grupo resolvi excluir o país da amostra. A primeira variável a ser analisada será crescimento econômico.

A figura abaixo mostra a relação entre crescimento e PIB per capita para os países dos dois grupos entre 2013 e 2016 (valores previstos) de acordo com o World Economic Outlook do FMI (link aqui). Observe que os países da Aliança do Pacífico (laranja) estão concentrados acima da linha, ou seja, apresentaram crescimento maior do que o esperado considerando apenas a renda per capita, e os países do Mercosul (verde) estão concentrados abaixo da linha. Mais interessante é olhar o movimento com o passar do tempo. Em 2013 é possível observar que os quatro países do Mercosul estão acima da linha (bolas verdes), como o mesmo vale para os países da Aliança do Pacífico a conclusão é que o ano de 2013 foi bom para os países dos dois grupos, o que não é surpresa. A medida que o tempo de bonança vai acabando torna-se possível observar que os países do Mercosul vão apresentando um desempenho pior do que os da Aliança do Pacífico. Em 2014 apenas um país do Mercosul, o Uruguai, estava acima da linha (triangulo verde). Em 2015 e nas previsões para 2016 todos os países do Mercosul estão abaixo da linha. Repare também que a partir de 2015 alguns países do Mercosul começam a apresentar taxas de crescimento negativas enquanto que nenhum dos países da Aliança do Pacífico apresenta crescimento negativo.




Uma outra forma de visualizar as diferenças no crescimento dos países de cada grupo é por meio de um “boxplot”, um gráfico onde estão descritas as distribuições de crescimento de cada grupo com destaque para a mediana e os quartis. A figura abaixo mostra o “boxplot” da taxa de crescimento nos dois grupos, a média está marcada por um quadrado. Repare que tanto a mediana (linha preta) quanto a média (quadrado preto) dos países da Aliança do Pacífico estão acima da mediana e da média dos países do Mercosul, mais ainda a “caixa” da Aliança do Pacífico está toda acima da “caixa” do Mercosul.




Não discuto que a redução nos preços das commodities afetou todos os países da América Latina, porém não se pode concluir que a sorte de cada um dos países foi determinada pelos preços da commodities. Já passa da hora dos países da América Latina pararem de procurar causas externas para os próprios problemas e começarem a procurar entender como as decisões tomadas por cada país afetou o desempenho do país. Analisar grupos de países que tomaram decisões diferentes pode ser um bom caminho para “olhar para dentro”. Foi isso que eu quis dizer na recente conferência da OCDE a respeito da América Latina e China (link aqui) quando afirmei que se não começarmos a resolver nossos problemas em alguns anos o que hoje chamamos de oportunidade vinda da China poderá se transformar em ressentimento e a China acabará se juntando a Portugal, Espanha, Inglaterra e Estados Unidos na lista dos “exploradores” culpados por nossas desgraças.



sexta-feira, 25 de março de 2016

Crescimento no Brasil, Na América Latina e no Mundo nos Governos Lula, FHC e Dilma

Segundo os dados do FMI (link aqui) em 2002, um ano antes do PT chegar ao governo federal, o PIB brasileiro correspondia a 3,2% do PIB mundial, hoje, segundo estimativas do FMI, corresponde a 2,84%, menos do que em 2002 e menos do que os 3,17% de 2010, último ano de Lula. No período FHC a participação do Brasil no PIB mundial caiu de 3,47% em 1994, ano anterior a posse de FHC, para 3,2% em 2002. Tais números mostram que crescemos menos que o mundo nos anos FHC, ficamos mais ou menos estáveis nos anos de Lula e caímos muito com Dilma, de fato, nos cinco anos de governo Dilma perdemos mais proporção do PIB mundial do que nos dezesseis anos de FHC e Lula. A figura abaixo mostra a participação do Brasil no PIB mundial, a série observada são os dados do FMI e a série simulada consiste nos dados até 2002 nos anos seguintes foi aplicada a taxa de decrescimento médio do período 1995 a 2002.




É relevante que o abandono da agenda de reformas e a volta de políticas desenvolvimentistas onde o governo tentava induzir e coordenar o crescimento tenha levado a um aumento da participação do Brasil no PIB mundial. De fato, políticas desenvolvimentistas conseguem gerar uma onda de crescimento, porém, a onda gerada pelo desenvolvimentismo petista foi muito curta, quase uma “marolinha”, durou de 2006 a 2011 e depois nos jogou em queda livre. Hoje estamos caindo mais rápido do que antes e nem mesmo temos o consolo da melhora em indicadores de bem-estar ou da inflação controlada. De fato, praticamente todo o ganho do crescimento entre 2006 e 2011 já foi perdido e, a valer as projeções para os próximos anos, em breve a linha observada ficará abaixo da simulada.

Os números acima devem ser lidos com cuidado, vários fatores que não estão relacionados a nosso governo podem afetar nossa participação no PIB mundial. Um exemplo é a ascensão da China, nenhum governo conseguiria colocar o Brasil para crescer no mesmo ritmo da China. Sendo assim é conveniente comparar um país com países semelhantes por algum critério, como já expliquei em outros posts aqui no blog meu grupo favorito de comparação é a América Latina. Temos PIB per capita semelhantes, temos tradições culturais semelhantes e, ao contrário do que diz a lenda, o Brasil não é muito mais industrializado que os outros países do continente, pelo contrário (link aqui). Comparações com países ricos não são adequadas porque tais países possuem uma dinâmica de crescimento muito diferente da nossa, tanto no sentido do que é necessário para crescer quanto nas escolhas entre crescimento e outros objetivos. Por motivos semelhantes não gosto de comparar o Brasil com todos os países em desenvolvimento porque na lista existem países com dinâmicas muito diferentes da nossa, destaque para os milagres de crescimento da Ásia.

Comparando com a América Latina estamos mais pobres hoje do que estaríamos se tivéssemos seguido como nos anos FHC. Para fazer essa afirmação calculei nosso crescimento em proporção a América Latina e Caribe entre 1995 e 2002 e apliquei a proporção nas taxas de crescimento observadas na América Latina e Caribe entre 2003 e 2015 para criar uma nova série de crescimento para o Brasil. Para ser mais preciso: entre 1995 e 2002 nosso crescimento foi aproximadamente 10% maior que a média da América Latina e Caribe, calculei quanto teria sido crescimento entre 2003 e 2015 se tivéssemos continuado crescendo 10% mais do que a média da América Latina e Caribe. A metodologia subestima o que teria sido nosso crescimento sem a crise atual, isso ocorre porque o Brasil está puxando para baixo a média da América Latina e Caribe e eu não tive ânimo de construir uma série excluindo o Brasil. Mesmo assim achei os números interessantes e resolvi compartilhar com vocês.




De acordo com o FMI em 2015 nosso PIB per capita foi de $15.690,00 em dólares internacionais (corrigido por paridade do poder de compra), segundo minha estimativa no universo alternativo onde tivéssemos continuado crescendo em proporção a América Latina e Caribe da forma como crescemos durante o período FHC nosso PIB per capita seria de $17.126,87, ou seja, em média ganhamos 8% menos do que estaríamos ganhando mantida a tendência do período FHC ajustado pela América Latina e Caribe. A Figura abaixo mostra o PIB per capita observado e o simulado.

Observe que o PIB per capita simulado está sempre acima do observado o que significa que ajustando pelo que ocorreu na América Latina e Caribe a economia brasileira teve um pior desempenho nos governos Lula e Dilma do que no governo FHC (o mesmo resultado foi discutido aqui). Se o exercício apresentado fizer algum sentido, ou seja, se a América Latina e Caribe formarem um grupo de comparação adequado para o Brasil então podemos dizer que o Brasil não soube aproveitar as oportunidades que apareceram com o boom das commodities nem mesmo no período Lula.



domingo, 25 de outubro de 2015

Inflação e Crescimento em 2015

Na semana passada comparei a dívida pública de diversos países para mostrar que considerando nosso PIB per capita a dívida pública brasileira é alta. Hoje vou aproveitar a base de dados da semana passada e comparar a inflação e o crescimento do Brasil com a inflação e o crescimento dos países da amostra. Para os que não lembram e estão com preguiça de checar o post anterior a amostra é composta pelos países da OCDE, pelos BRICS e por países selecionados da América Latina (Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, México, Paraguai, Peru e Uruguai), tirei a Venezuela para não distorcer os gráficos. Para fins de comparação entre grupos Chile e México, que pertencem a OCDE, foram considerados no grupo América Latina. A figura abaixo mostra a inflação e o crescimento previsto para 2015 pelo FMI para todos os países da amostra.




É possível perceber que a inflação brasileira é uma das mais altas da amostra, perde para Rússia (15,8%) e para Argentina (16,8%), e que nosso crescimento também é um dos menores da amostra, apenas a Rússia (-3,8%) está prevista para crescer menos que o Brasil em 2015. Não estamos mal em absoluto e bem em relação a outros países, estamos mal em termos absolutos e em termos relativos, sendo assim é difícil comprar a tese que nossa crise é consequência do que acontece no resto do mundo. Nenhum dos países da OCDE, incluídos Grécia e Itália, deve crescer menos que o Brasil em 2015, no grupo da América Latina, uma região famosa por conviver com altas taxas de inflação, apenas a Argentina tem inflação prevista para 2015 maior que o Brasil. A verdade é que ao abrir mão do controle da inflação para buscar mais crescimento o Brasil ficou sem crescimento e com muita inflação.

Outro ponto interessante, perdoem os amigos econometristas e estatísticos, é a inclinação negativa da reta de regressão. É claro que para afirmar alguma coisa com mais seriedade seria preciso uma amostra maior e técnicas mais sofisticadas de análise estatística, porém não posso deixar passar batido que a relação entre crescimento e inflação é negativa e significativa, ou seja, em 2015 os países da amostra que controlaram melhor a inflação vão crescer mais do que os que descuidaram da inflação.


segunda-feira, 19 de outubro de 2015

A dívida pública no Brasil é alta!

Vez por outra esbarro em um argumento que diz que a dívida pública do Brasil é baixa porque países como Reino Unido, França e Estados Unidos possuem dívidas muito maiores em proporção ao PIB. É verdade, segundo as projeções do FMI os Estados Unidos vão terminar 2015 com uma dívida bruta equivalente a 105% do PIB, no Reino Unido será de 89% e na França de 97%, números pequenos se comparados aos 246% do Japão, porém grandes se comparados aos 66% do Brasil. É fato que existem países muito mais endividados que o Brasil, porém o argumento que por conta disso não temos problemas é, para dizer o mínimo, questionável. Em primeiro lugar existe um viés de seleção na escolha da amostra, a existência de países mais endividados que o Brasil não implica que nossa dívida esteja abaixo da média, mal comparando é como um sujeito que pesa 120 quilos argumentar que não está tão gordo porque existem pessoas que pesam mais do que ele. Outro ponto diz respeito às características dos países que estão com dívidas em proporção ao PIB maiores que a nossa, para manter o exemplo do peso é como se um gordo que pesa 120 quilos argumentasse que não está com problemas de peso porque existem atletas com mais de 120 quilos.

Para abordar as duas questões acima, a amostra de comparação e as características específicas de cada país, resolvi comparar a razão entre dívida bruta e PIB no Brasil e em uma amostra formada pelos países da OCDE, um grupo de países da América Latina (Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, México, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela) e os países dos BRICS. Para efeito de separação dos grupos o México e o Chile, que são da OCDE e da América Latina, foram considerados como parte da América Latina e o Brasil foi retirado tanto da América Latina quanto dos BRICS. Os dados utilizados são as projeções do FMI para 2015 disponíveis no World Economic Outlook Database (link aqui).

Tomando a amostra completa a dívida brasileira não se destaca nem como muito alta nem como muito baixa, a média da razão entre dívida bruta e PIB na amostra é de 66% e no Brasil o valor é de 70% (69,9% para os que ficam nervosos com 70%), estamos acima da mediana (53%) porém abaixo do terceiro quartil (84%), ou seja, estamos na metade de cima da amostra, mas mais perto do meio do que da parte de cima. A figura abaixo mostra a relação entre dívida e PIB per capita para todos os países da amostra e ilustra a conclusão anterior, se consideramos a linha de regressão diríamos que o Brasil, ponto verde, está bem próximo à linha, ou seja, nossa dívida é só um pouco superior ao que seria esperado dado nosso PIB per capita.




A figura acima resolve o primeiro ponto, seleção da amostra, uma vez que mostra que em uma amostra muito maior que não foi escolhida a partir do endividamento o Brasil não se destaca como um país particularmente endividado. Porém, olhando a figura com mais cuidado, é possível ver um padrão preocupante relacionado à segunda questão, a que condiciona a relação entre dívida e PIB às características específicas de cada país. Na figura os pontos roxos (não fui quem escolhi as cores) representam os países da OCDE, o clube dos países ricos, é possível perceber que se o grupo de comparação do Brasil fosse a OCDE não faria muito sentido falar de um problema de dívida pública no Brasil, salvo de falássemos que muitos países da OCDE estão com problemas sérios de dívida pública, uma hipótese que eu não recomendo descartar, mas, de toda forma, estaríamos na média.

O problema é que nosso grupo de comparação não é a OCDE, não somos um país rico, somos um país de renda média ou emergente. Nosso PIB per capita de $ 8,8 mil nos deixa muito mais perto da América Latina, PIB per capita médio entre países de $8,1 mil, e dos BRICS, PIB per capita médio entre países de $ 6 mil, do que da OCDE, PIB per capita médio entre países de $ 36 mil; da mesma forma nossa inflação esperada de 8,85% nos deixa mais próximos dos 21% da América Latina, se tirarmos a Venezuela cai para 5,7%, e dos 6,8% dos BRICS do que dos 0,6% da OCDE. Olhando na figura acima é possível ver que o Brasil, bolinha verde, está mais alto do que todos os países da América Latina, bolinhas laranjas, e dos BRICS, bolinhas azuis, ou seja, se excluirmos os países da OCDE passamos a ser o país mais endividado da amostra. Se não está fácil de ver na figura acima repare na figura abaixo que reproduz a figura acima sem os países da OCDE.




Qual a conclusão? Comparando com um amplo grupo de países não estamos mal, porém comparando com países mais parecido conosco estamos muito mal. Dito outra forma: se fossemos ricos talvez nossa dívida não fosse um problema, mas, como não somos ricos, nossa dívida é um problema. Lembra do gordo no começo do post? Pois bem, os que falam que a dívida do Brasil não é alta agem como um gordo sedentário que vai a um concurso de fisiculturismo ou a uma luta de pesos pesados e ao ver o peso dos atletas conclui que não precisa emagrecer.



domingo, 22 de março de 2015

Desempenho dos Estudantes da América Latina e da Ásia no PISA

Explicar o que faz com que os estudantes de um determinado país sejam bem avaliados em exames internacionais e os de outros sejam mal avaliados não é uma tarefa fácil nem simples, pelo contrário, exige um esforço de coleta e análise de dados significativo de forma a permitir ao pesquisador avaliar diversos fatores que podem determinar o desempenho dos estudantes. É possível que um país gaste muito com educação, porém o gasto não é bem canalizado para permitir o melhor aprendizado dos alunos, uma escola de ouro sem bons professores dificilmente formará bons alunos. Também é possível que questões culturais bem como outros fatores que não dependem da escola tenham papel significativo no desempenho do aluno. Um estudante em uma boa escola com bons professores pode ter seu desempenho prejudicado por uma família ou uma vizinhança abusiva ou por um meio cultural que desestimule os estudos. São muitos aspectos de forma que não é pretensão deste post esgotar ou mesmo fazer uma abordagem científica do tema. A ideia do post é tão somente argumentar que com a renda per capita que tem o Brasil poderia ter um sistema educacional que permitisse a nossos estudantes um melhor desempenho nos testes internacionais. Dito de outra forma nossa pobreza não é desculpa para nossos resultados ruins.

Para apresentar meu argumento peguei a nota de cada país no programa internacional de avaliação de alunos (PISA) de 2012 e comparei com o PIB per capita de 2011. Escolhi 2011 porque é o último ano da Penn World Table PWT), reproduzi as contas com dados do FMI para 2012 e os resultados foram os mesmos, como a PWT permitiu usar mais países escolhi não usar os dados do FMI. O PISA é composto por três provas: leitura, ciências e matemática, para a análise usei a média das três provas (link aqui). Consegui dados para 65 países, após cruzar com a PWT e retirar outliers fiquei com 61 países.

Dos 61 países sete (Albânia, Argentina, Colômbia, Indonésia, Jordânia, Peru e Tunísia) ficaram com média inferior à do Brasil, destes apenas a Argentina tem PIB per capita maior do que o brasileiro. Por outro lado China, Tailândia e Vietnam conseguiram médias maiores do a do Brasil mesmo tendo PIB per capita inferior ao brasileiro. Até aqui não há muito a concluir. Porém alguma conclusão começa a ser esboçada quando observamos que dos 15 países com melhores notas (o quarto superior) sete estão na Ásia (China, Hong Kong, Japão, Coreia, Cingapura, Taiwan e Vietnam) e que dos quinze países com a piores notas (o quarto inferior) oito são latino americanos (Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, México, Peru e Uruguai). Difícil não pensar que existe algo no sistema de ensino da Ásia que faz com que os alunos de países pobres e ricos se saiam bem e que existe algo no sistema de ensino da América Latina que faz com os alunos apresentem desempenho baixo.

A figura abaixo ilustra o ponto. Na figura estão marcados o PIB per capita e a média do PISA nos 61 países da amostra, os países da América Latina estão em destaque. Repare que todos ficam abaixo da linha de regressão (para os curiosos o p-value foi 9.82e-09 e o R2 foi 0.43). A linha de regressão mostra o quando devia ser a nota de cada país para cada valor do PIB per capita. O significado disto é que se usarmos apenas o PIB per capita para explicar o desempenho dos estudantes (espero ter deixado claro no primeiro parágrafo as limitações do exercício) os países latino americanos estão com notas menores do que as que deviam.





A próxima figura repete a anterior porém destaca os países do leste da Ásia excluindo a Jordânia que é parte do Oriente Médio e o Cazaquistão que é uma antiga república soviética. Repare que com exceção da Malásia todos os países estão na linha ou acima da linha. Vietnam e China são particularmente impressionantes no sentido que mesmo com PIB per capita muito baixo conseguem excelente desempenho nos exames do PISA. A última figura destaca apenas o Brasil.








Insisto mais uma vez que os resultados do post devem ser vistos como uma provocação ou quando muito como uma exploração preliminar. Neste sentido que concluo que existe alguma diferença entre os sistemas de ensino da América Latina e da Ásia que faz com que estudantes asiáticos tenham melhor desempenho no PISA quando comparados aos estudantes latino americanos mesmo quando se leva em conta o PIB per capita dos países. Embarcando no clima de provocação e fazendo uma pequena homenagem ao pessoal do Instituto Liberal doCentro Oeste (ILCO) que andou sendo criticado pelo crime supremo de questionar a obra de um intelectual respeitado vou chamar este efeito que diferencia os estudantes da Ásia dos estudantes da América Latina em geral e do Brasil em particular de Efeito Paulo Freire. Assim, além de homenagear o ILCO, também faço uma reverência ao “maior intelectual da América Latina” e patrono da educação brasileira.