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quarta-feira, 4 de março de 2020

Contas nacionais do quarto trimestre de 2019: é devagar que se vai ao longe


O IBGE divulgou hoje as contas nacionais referentes ao quarto trimestre de 2019 (link aqui), com isso temos o quadro completo do PIB no ano passado. Houve um crescimento de 0,5% em relação ao trimestre anterior, já corrigido por sazonalidade, no acumulado de quatro trimestres, ou seja, durante todo o ano de 2019, o PIB cresceu 1,1%. No total o PIB de 2019 foi de R$ 7,257 trilhões, sendo que R$ 322 bilhões vieram da agropecuária, R$ 1,301 trilhão veio da indústria e R$ 4,590 trilhões vieram dos serviços. Na divisão do bolo o consumo das famílias ficou com R$ 4,712 trilhões, o investimento com R$ 1,114 trilhão e o consumo do governo com 1,472 trilhão.

Quando da divulgação dos números do terceiro trimestre alertei sobre os necessários cuidados com a empolgação, desta vez alerto para os riscos das frustrações. A escolha pela agenda de reformas implica na recuperação lenta, não estamos tentando mais um surto de crescimento que termina em grandes crises e décadas perdidas. O plano é arrumar a casa para depois crescer de forma consistente, embora não necessariamente rápida, como a casa estava (e ainda está) muito bagunçada ainda temos um longo caminho de crescimento baixo. Repito o que venho dizendo há mais de dez anos: para economia brasileira um crescimento muito alto é mais perigoso que um crescimento muito baixo. Se você está dirigindo um fusca velho não tente correr mais que uma Ferrari, caso consiga o motor do seu carro vai fundir e você vai ficar a pé.

A figura abaixo mostra o crescimento da economia desde 1996, as barras mostram o crescimento em relação ao trimestre anterior (com ajuste sazonal) e a linha mostra o crescimento acumulado em quatro trimestres. Repare que o crescimento está estabilizado em torno de 1% ao ano, a agenda de reformas tenta elevar esse valor por meio do aumento da produtividade, por isso os efeitos desta agenda são demorados. O risco de adotar estímulos é repetir o padrão de alto crescimento seguido de grande crise como aconteceu entre 2010 e 2015. De toda forma é sempre bom registrar que as reformas iniciadas em 2016 no governo Temer reverteram a trajetória de queda do PIB e aumento da inflação que foi o legado da hoje infame Nova Matriz Econômica.




Ao contrário de outros analistas que tentam entender como o bolo foi feito estudando a divisão do bolo aqui tenho insistido em começar a análise das contas nacionais pela produção, ou seja, pelo lado da oferta. A figura abaixo mostra o crescimento dos grandes setores da economia. A agropecuária, que respondeu por 5,2% do valor agregado e 4,4% do PIB, cresceu 1,3% no período; o setor de  serviços, 73,9% do valor agregado e 63,3% do PIB, também cresceu 1,3%; finalmente, a indústria, que responde por 20,1% do valor agregado e 17,9% do PIB, cresceu 0.46%. Repare que, por modesto que tenha sido, o crescimento ocorreu em todos os setores da economia.




No acumulado de quatro trimestres a construção cresceu 1,6% e teve o melhor desempenho entre os setores da indústria, como esse é um setor que está recebendo estímulos do governo há um risco de crescimento artificial o que pode ser um problema mais na frente. A indústria de transformação cresceu 0.1%, o baixo crescimento ou mesmo queda da indústria de transformação é parte fundamental da arrumação da casa. Muito investimentos ruins foram realizados neste setor no período de 2006 a 2014, são empresas sem perspectivas, algumas criadas apenas para viabilizar corrupção, que devem quebrar de forma a liberar capital e trabalho para empresas produtivas que ainda serão criadas. A indústria extrativa teve queda 1,1%, em parte por conta de Brumadinho. As quedas de 3% e 9,3$ no primeiro e segundo trimestres de 2019 não foram recuperadas pelo crescimento de 4% e 3,4% nos trimestres seguintes.




Nos serviços o maior crescimento novamente ficou por conta do setor de informação e comunicação que cresceu 4,1% no acumulado de quatro trimestres. As atividades imobiliárias também tiveram um bom desempeno com crescimento de 2,3%, vale aqui o alerta feito para construção. A figura abaixo mostra o crescimento no setor de serviços.




Por fim, passemos a análise pelo lado da demanda, ou seja, como foi distribuída a produção do país. O maior crescimento foi no investimento, a parte do produto destinada a criar mais produto no futuro, que cresceu 2,2% no acumulado em quatro trimestres reforçando a tendência iniciada no segundo trimestre de 2018. O consumo das famílias cresceu 1,8% e o consumo do governo caiu 0,4%, ou seja, a fatia do bolo que vai para o governo caiu. Isso não significa que o governo está contribuindo menos para o PIB, para fazer essa afirmação seria necessário avaliar a contribuição do governo pela ótica da oferta, a contribuição direta, medida pelo setor administração, defesa, saúde e educação públicas e seguridade social ficou estável com crescimento de 0,04%. As exportações caíram 2,5% e as importações subiram 1,1%.




Os números das contas nacionais reforçam que estamos em recuperação lenta, mas sólida. O choque do coronavírus deve comprometer o começo de 2020 aumentando a pressão na equipe econômica por parte dos que, dentro e fora do governo, pedem uma política que leve a um crescimento mais rápido. Da capacidade do time de Paulo Guedes resistir a essa pressão depende o futuro da economia brasileira. Lembro aos apressados que a experiencia recente nos mostra que crescimento rápido pode terminar muito mal e que os maiores beneficiados com os estímulos são os que correm para dizer que não vão pagar a conta.


domingo, 7 de maio de 2017

Reduzir distorções ou intervir nos preços? Custo de exportações e exportações da indústria.

Uma das diferenças mais significativas entre economistas como o que escreve esse blog e boa parte dos economistas desenvolvimentistas é que eu respeito preços, não acredito em políticas que tentam intervir diretamente nos preços forçando-os para cima ou para baixo. A questão é que preços são determinados a partir de uma infinidade de informações das quais apenas uma pequena parcela é conhecida por alguns agentes econômicos, ninguém conhece todas as informações necessárias para formar um preço. Hayek foi o economista que melhor expressou esse problema em um texto clássico chamado “The Use of Knowledge in Society” (link aqui) publicado na American Economic Review. A passagem abaixo deixa claro o ponto de Hayek:

“The peculiar character of the problem of a rational economic order is determined precisely by the fact that the knowledge of the circumstances of which we must make use never exists in concentrated or integrated form but solely as the dispersed bits of incomplete and frequently contradictory knowledge which all the separate individuals possess. The economic problem of society is thus not merely a problem of how to allocate "given" resources—if "given" is taken to mean given to a single mind which deliberately solves the problem set by these "data." It is rather a problem of how to secure the best use of resources known to any of the members of society, for ends whose relative importance only these individuals know. Or, to put it briefly, it is a problem of the utilization of knowledge which is not given to anyone in its totality.”

Desta maneira fixar o preço certo de um bem ou serviço é impossível, pior, tentar fazer isso é perigoso. Como ninguém conhece todas as informações que determinam um preço ninguém pode prever todos os efeitos de forçar a alteração do preço. Se isso é verdade para preços em geral é mais verdade ainda para preços como a taxa de câmbio. Muito se fala que desvalorizar o câmbio ajuda a indústria, pode até ser verdade em alguns casos e para algumas indústrias, infelizmente não sabemos quais casos e quais indústrias. A mesma desvalorização que, em tese, torna um produto local mais competitivo no exterior pode elevar o custo de um insumo que inviabilize uma outra indústria local. Qual o efeito líquido? Medir tal efeito para o passado é tarefa árdua, talvez inexequível, prever tal efeito para o futuro é tarefa impossível.

Então o governo nunca pode tentar alterar um preço? Não há nada que o governo possa fazer para estimular a indústria ou a agricultura? Nada que possa ser feito para estimular as exportações? Felizmente o mundo não é tão cruel para nós economistas. O governo pode fazer políticas que terão efeitos sobre o preço, mas efeitos indiretos. Políticas que são boas não apenas por conta de tal efeito, mas que podem ficar ainda melhores por conta de possíveis efeitos nos preços. Caso o efeito nos preços não seja o desejado sobram os outros efeitos positivos da política.

Ainda no exemplo da indústria e das exportações considere o problema do custo de exportar. Parte deste custo é devido a ações diretas do próprio governo via tributação inadequada, burocracia exagerada ou barreira legais a competição no setor. O governo pode tentar manter tudo isso e reduzir o preço de exportar um container na marra, mais ou menos como o governo Dilma tentou fazer com a energia e gerou um caos no setor, ou o governo pode buscar formas mais eficientes de tributação, reduzir burocracia e retirar barreiras a competição no setor. No primeiro caso a mudança forçada no preço levará a uma série de desequilíbrios que podem gerar um efeito contrário a intenção inicial do governo, novamente é válido lembrar da desastrosa intervenção no mercado de energia. No segundo caso também não há garantias que o governo vai conseguir o que quer, mas, mesmo que não consiga, ficaremos com uma tributação melhor, menos burocracia e/ou mais competição.

A figura abaixo mostra a relação entre participação da manufatura nas exportações e o custo de exportar um container. Os dados são do Banco Mundial referentes ao ano de 2014, forma considerados apenas país com mais de cinco milhões de habitantes. A relação é claramente negativa, ou seja, quanto maior o custo de exportar menor a participação da manufatura nas exportações. Como de costume vale alertar que a figura não permite inferir nenhuma forma de causalidade, é apenas uma correlação.




Repare que o Brasil está bem na linha de regressão, ou seja, dado o custo de exportar no Brasil a participação das exportações de manufaturas é mais ou menos igual a esperada pelo modelo. Também é possível notar que o custo de exportação no Brasil está acima da média dos países do mundo. É possível concluir que se o Brasil reduzisse o custo de exportação aumentaria a participação da manufatura nas exportações? Não, mas é possível especular que sim e é aceitável afirmar que nosso custo de exportação é muito alto. A última afirmação ganha força quando consideramos que grande parte dos países com custos de exportação maiores que os nossos são países da África subsaariana, uma região particularmente complicada.

Se consideramos apenas os países da América Latina e Caribe o Brasil tem o terceiro maior custo de exportação, perde apenas para Colômbia e Venezuela. A figura abaixo mostra o custo de exportação na América Latina e Caribe.




Já perdemos muito tempo e pagamos muito caro por tentativas de estimular a indústria e as exportações via câmbio. Não seria o caso de fazer um esforço para diminuir distorções causadas pela ação do governo que possam ter como efeito colateral a redução do custo de exportação do Brasil para a média da América Latina e Caribe? Não posso afirmar que a tal diminuição faria bem a indústria nacional, mas se não fizer no lugar de crises e desequilíbrios macroeconômicos com efeitos devastadores na vida dos mais pobres e de algumas empresas que dependem de insumos importados o efeito colateral será um país mais eficiente e as perdas deverão ficar concentradas em alguns empresários amigos que ganham dinheiro com as dificuldades impostas pelo excesso de burocracia e a falta de competição.


domingo, 27 de março de 2016

Uma breve nota sobre ALCA, NAFTA e a manufatura no Brasil e no México.

Em 2005 deveria ter começado a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), deveria, mas não aconteceu. Um grupo de países barrou a ALCA alegando que o acordo destruiria as indústrias locais, o Brasil teve destaque nesse grupo. Na ocasião a FIESP lançou um estudo mostrando as perdas que teríamos com a ALCA, também não faltaram especialistas apontando como o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA) havia destruído a indústria mexicana e que a ALCA faria o mesmo com a nossa. O gráfico abaixo mostra a produção manufatureira como proporção do PIB no Brasil e no México desde 2005, como podemos ver mais de dez anos depois é bem provável que nossa indústria estivesse feliz tendo o desempenho da indústria mexicana.




Da onde tiraram a ideia que o NAFTA destruiu a indústria do México? Para responder a pergunta basta olhar o mesmo gráfico começando em 1995, logo após a entrada em vigor do NAFTA a produção manufatureira do México subiu em relação ao PIB, a subida teve folego curto, de forma que entre 1998 e 2005 foi observada uma queda consistente na produção industrial mexicana. Tal queda poderia ter sido causada por vários motivos, mas os “combatentes do império” na época preferiram colocar a culpa no NAFTA. Mais dez anos se passaram e a manufatura mexicana se estabilizou em torno de 17% do PIB, a nossa está em 11% e caindo.




Cuidado ao leitor apressado, os gráficos acima não permitem concluir que a indústria mexicana se beneficiou do NAFTA nem que a queda na indústria brasileira teria sido evitada com a ALCA, longe disso, os gráficos acima apenas mostram que os que tentavam nos assustar com o exemplo do México poderiam ter sido mais cuidadosos. Não vou cometer o mesmo erro.

P.S. Os dados são do Banco Mundial e foram obtidos por meio do Quandl (link aqui).




terça-feira, 2 de setembro de 2014

Os Números da Indústria e o Descolamento da Realidade de Dilma na Defesa do Indefensável

A novidade do dia foi a divulgação da Pesquisa Industrial Mensal (PIM) mostrando que em relação a junho a indústria cresceu 0,7% em julho (link aqui). Não é um número que impressione, apesar de ajustes sazonais é praticamente impossível limpar os efeitos da Copa do Mundo deste resultado. O cenário fica mais claro quando se compara julho de 2014 com julho de 2013, queda de 3,6% na produção industrial. No acumulado do ano a queda é 2,8% e nos últimos doze meses a queda foi de 1,2%. Uma evidência forte que o aumento de julho pode ter sido uma compensação da queda de junho é obtida quando se observa que as categorias que mais subiram em julho foram as categorias que mais caíram em junho (link aqui). Bens de Consumo Duráveis aumentou 20,3% em julho, mas tinha caído 24,9% em junho e Bens de Capital que aumentou 16,7% em julho, mas tinha caído 9,7% em julho.

Deixemos então de lado a variação mensal e voltemos nossa atenção para o que é mais interessante: a comparação com julho de 2013. Como já sabemos neste período ocorreu uma queda de 3,6% na produção industrial. Dentre as grandes categorias a maior queda foi de 13,7% e ocorreu na categoria de Bens de Consumo Duráveis. A produção de bens de capital caiu 6,4%, a de bens intermediários caiu 3,6% e a produção total de bens de consumo caiu 2,8%. A única variação positiva foi em Bens de Consumo Semiduráveis e Duráveis que aumentou 0,6%. É um cenário particularmente preocupante por conta da queda na produção de bens de capital, sinalizando que a taxa de investimento pode continuar caindo, e da queda da produção de bens intermediários, que pode sinalizar planos de redução na produção. A queda gigantesca da produção de bens de consumo duráveis também é um péssimo sinal para um governo que vem apostando no aumento permanente do consumo como motor da economia. Outra aposta grande do governo que também caiu foi a atividade de veículos automotores, reboques e carrocerias, a queda foi de 22,8%!

Não deixa de ser curioso que no mesmo dia que estes números vieram a público a presidente Dilma resolveu criticar Marina dizendo que a proposta da candidata do PSB reduziria a política industrial a pó (link aqui). Seria cômico se não fosse... esquece, é cômico. Defender a atuação do BNDES para estimular a indústria e o investimento depois da chuva de números mostrando o fracasso inequívoco desta estratégia é sinal de um senso de humor fascinante ou de completa negação da realidade, quase uma loucura. Se um dia Maria Antonieta ficou atordoada sem entender a razão de na ausência de pão o povo não comer brioches, hoje nossa presidente parece atordoada sem entender a razão de na ausência de bons projetos de investimento os empresários não pegarem dinheiro barato do BNDES para investir em projetos ruins mesmo. O problema do baixo investimento no Brasil não é a falta de financiamento, é a falta de bons projetos. É impossível ter bons projetos quando a rentabilidade esperada depende do humor do governante, quando falta infraestrutura e quando falta mão de obra especializada.


Se eu te emprestasse o dinheiro a juros baixos você construiria uma ferrovia no Brasil? Antes de responder pense no tempo e na dificuldade para conseguir as licenças necessárias, nos embargos, nas ocupações do MST, nos desvios de trajeto para atender “lideranças locais”, nos desvios e/ou nos acordos para atender as demandas das populações originárias que aparecerão depois que começar a empreitada, na desvalorização do câmbio para anteder a “indústria local” que vai encarecer suas importações e, se for o caso, reduzir o valor em dólares de suas remessas de lucros... É tanta coisa que se você tiver juízo provavelmente não vai querer construir a ferrovia. Daí eu te pergunto se você não faria mesmo que eu te emprestasse dinheiro a juros menores que os que você consegue aplicando no mercado, juros menores até que a inflação. Agora pode ser que você aceite, não para fazer a ferrovia, mas para aplicar em outras opções mais rentáveis enquanto atrasa a obra. Parece familiar? É mais ou menos isto que acontece no Brasil. Não é por acaso que os empréstimos do BNDES só aumentam e o investimento só cai.


quarta-feira, 14 de maio de 2014

A Indústria e a Comparação do Brasil com Países da América Latina

Sempre que vejo comparações entre o PIB do Brasil e de países desenvolvidos eu aponto que a comparação é indevida e apresento uma comparação com países da América Latina. Meu argumento é que somos parte da América Latina e que isto não é um acaso. Nossa renda per capita é semelhante a dos outros países do continente e compartilhamos muito da cultura e da história do continente. Os que me criticam invariavelmente levantam a questão da indústria. O argumento é que o Brasil tem uma indústria forte e diversificada e não pode ser comparado com as economias exportadoras de commodities dos outros países da América Latina. Este argumento é tanto mais forte quanto mais a comparação fizer referência ao Chile. A figura abaixo mostra a participação da indústria nas economias da América do Sul (usei os dados do Banco Mundial disponíveis no Quanl e exclui a Venezuela por falta dado relativo a 2012).



Como podem reparar a participação da indústria no Brasil só é maior que no Uruguai. É fato que o número da figura inclui a indústria extrativa, mas também é fato que no Brasil a indústria extrativa é muito relevante e que usar apenas indústria de transformação não deve mudar muito o resultado geral que a figura ilustra. Grosso modo o resultado a que me refiro é que os críticos das minhas comparações com a América Latina devem buscar outros argumentos. Nossa indústria, como proporção do PIB, não é maior que a dos outros países da América do Sul.


sábado, 31 de agosto de 2013

Mais uma Tese para queda da Participação da Indústria no PIB

Esta semana foi muito corrida e não pude dar atenção ao blog, acontece. Porém entre viagens e esperas de reuniões consegui ler o Panoramada Indústria de Transformação Brasileira, recém lançado pela FIESP e um textodo José Oreiro e do Nelson Marconi sobre o que eles chamam de teses ortodoxas arespeito da desindustrizalização brasileira. O texto da FIESP é motivado pelo fenômeno ilustrado do Gráfico 1 do texto e que está reproduzido abaixo.




Fica bem claro que a participação da indústria de transformação no PIB está voltando aos níveis pré-JK. Também é possível observar que este fenômeno começou antes da abertura da economia, antes da estabilização macroeconômica com juros altos e câmbio valorizado e antes da Constituição de 1988. Sendo anterior a estes fenômenos, a prudência recomenda que explicações para queda da participação da indústria no PIB não dependam de nenhum destes fenômenos. Qual seria então a explicação para esta queda? Oreiro e Marconi citam dez teses que eles consideram englobar o pensamento ortodoxo sobre o tema e que eles consideram equivocadas. As teses são:

1. A desindustrialização é um fenômeno mundial.
2. A economia brasileira não está se desindustrializando.
3. A desindustrialização brasileira é decorrência natural do seu estágio de desenvolvimento
4. A indústria é um setor como outro qualquer.
5. O caso da Austrália mostra que a industrialização não é fundamental para um país se tornar membro do primeiro mundo.
6. A desindustrialização brasileira não se deve a apreciação da taxa de câmbio.
7. A apreciação cambial no Brasil é similar a dos demais países emergentes.
8. A perda de competitividade da indústria brasileira deve-se ao baixo dinamismo da produtividade e ao crescimento dos salários.
9. A apreciação cambial é decorrente da implementação do “Estado do Bem-Estar Social”.
10. O câmbio apreciado veio pra ficar.

Como eles mesmos reconhecem as teses não são necessariamente consistentes entre si, posto que defendidas por autores diferentes, mas também não são mutuamente exclusivas entre si, embora possam ser aos pares. Estritamente falando apenas as teses 3 e 8 tentam explicar a desindustrialização. A tese 1 se limita a contextualizar sem explicar o fenômeno. A tese 2 nega o fenômeno. As teses 4 e 5 dizem que o fenômeno não é relevante mas não tratam da existência ou natureza do fenômeno. A tese 6 fala sobre o que não é causa, mas não tenta explicar qual a causa. As teses 7, 8 e 10 tratam do câmbio e não da indústria. Naturalmente conhecendo a opinião dos autores sobre industrialização é possível inferir que estes veem o câmbio como variável fundamental para explicar a participação da indústria no PIB e, portanto, ao tentar explicar o câmbio as teses 7, 8 e 10 também explicariam a queda desta participação. Mas isto só é verdade se aceitarmos que a taxa de câmbio explica a participação da indústria no PIB, o que não é consenso entre economistas e particularmente não é consenso entre economistas ortodoxos que, afinal, seriam os autores das teses.
Desta forma teses propriamente ditas são duas:

3. A desindustrialização brasileira é decorrência natural do seu estágio de desenvolvimento
8. A perda de competitividade da indústria brasileira deve-se ao baixo dinamismo da produtividade e ao crescimento dos salários.

A terceira tese é interessante, mas da forma que está escrita não me comove muito. Sou meio cético a respeito de teorias que envolvem estágios de crescimento para tratar da indústria. No texto eles apresentam o problema de forma mais interessante, particularmente concordo que o aumento da renda per-capita explica parte da queda da participação da indústria no PIB. A oitava tese tem uma casca de banana. A parte do baixo dinamismo da produtividade está perfeita a parte dos baixos salários é controversa, alguém poderia reescrever a tese como: “Crescimento dos salários acima do crescimento da produtividade do trabalho” e não estaria mentindo se dissesse que é uma tese defendida por economistas heterodoxos à la Kaldor. Que fique claro que eu concordo que o baixo crescimento da produtividade é parte do problema.

Fiz esta introdução para apresentar outra tese a respeito da queda da participação da indústria de transformação no PIB, não vou dizer que é minha tese porque imagino que mais gente por aí já tenha dito o mesmo. Eis a tese:

Os fundamentos da economia brasileira (preferências, tecnologia, dotações e instituições) são tais que em equilíbrio a participação da indústria no PIB é baixa. O atual fenômeno nada mais é que um retorno ao equilíbrio após anos fora do equilíbrio devido a políticas pró-indústria.

Não é uma tese sem implicações. Vou falar sobre duas, no futuro escreverei em defesa da tese. A primeira implicação é que se o Brasil pretende reverter este fenômeno deve mudar os fundamentos da economia. Como querer indústria em um país com um dos piores sistemas de educação do mundo e onde é mais fácil ficar rico nos bastidores de Brasília do que empreendendo? Sem capital humano não tem produtividade e sem produtividade não tem indústria sustentável. A ideia do trabalhador-cliente que sustenta o processo de industrialização só faz sentido se este trabalhador for produtivo o suficiente para ter uma renda que o permita ser consumidor. De certa forma estou falando da tese 8, porém com ênfase na produtividade e não no salário. A outra implicação é que, sem mudanças nos fundamentos da economia brasileira, a queda da participação da indústria representa um retorno ao equilíbrio e, portanto, a princípio é desejável. Sendo desejável não deve ser combatida pelo governo.


Em resumo acredito que a participação da indústria de transformação na economia é uma variável endógena. Desta forma não deve ser objeto direto de políticas econômicas. Se é para ter uma indústria mais forte então que se mudem os fundamentos da economia da economia brasileira, do contrário estaremos condenados a ciclos de aumento e queda da indústria.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Salários da Indústria e o Motivo pelo qual Comemoram a Desvalorização do Real

O gráfico abaixo mostra o salário real médio da indústria dividido pela taxa de câmbio efetiva das importações brasileiras. Grosso modo é uma medida de quanto ganham os trabalhadores da indústria brasileira a preços internacionais, esta variável aumento quando o salário sobre ou o real se valoriza e desce nos casos contrários. Quando a curva do gráfico está subindo significa que os trabalhadores da indústria brasileira estão ganhando mais em termos de moedas estrangeiras. Quanto mais alta a curva mais fácil é para os brasileiros comprar produtos importados ou viajar para o exterior.




Notem que com o Plano Real a curva começa a subir, ou seja, os trabalhadores da indústria brasileira começaram a ganhar mais. O colapso do controle de câmbio na virada de 1998 para 1999 levou a uma grande desvalorização do real que jogou a curva para baixo, ou seja, ficamos mais pobres. Durante o primeiro mandato de Lula a variável subiu quase que continuamente, no segundo só caiu durante a Crise Financeira de 2008, mas se recuperou em seguida.  No começo do governo Dilma a variável continuou subindo, mas aí veio a reviravolta da política econômica e a curva começou a cair. O gráfico termina em junho deste ano, se for colocada a grande desvalorização que ocorreu desde junho o salário descrito no gráfico vai despencar. Por que isto aconteceu? Acredito que tenha ocorrido por decisão do governo.

Se o aumento do salário em moeda externa significa ganhos de renda para os trabalhadores também significa custos para a indústria. Durante os governos FHC e Lula os representantes da indústria não conseguiram convencer o governo a sacrificar a renda dos trabalhadores para tornar a indústria brasileira mais “competitiva”. Com Dilma tudo mudou. A presidente seguiu a cartilha desenvolvimentista de que é preciso desvalorizar o câmbio para aumentar a “competitividade” da indústria. Em termos práticos desvalorizar o câmbio para aumentar a “competitividade” da indústria significa reduzir os salários reais dos trabalhadores da indústria. Sem meias palavras: o governo decidiu que estávamos ganhando muito e era hora de reduzir nossos salários. É o que está acontecendo.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

O Mito da Indústria de Transformação

Uma tese que está sempre presente a respeito da economia brasileira é que é preciso estimular a indústria de transformação para que ocorra crescimento de longo prazo na economia brasileira. O argumento é simples. A indústria de transformação é o setor dinâmico da economia. É na indústria de transformação que estariam os melhores salários e onde surgem as novas tecnologias. A indústria de transformação também teria um papel estratégico por ligar os outros setores da economia. Isto é verdade porque esta indústria de transformação demanda matéria prima da indústria extrativa e da agricultura e oferta bens industrializados para o setor de serviços.

A partir de meados do século XX a ideia de que para que ocorra crescimento é preciso fortalecer a indústria de transformação virou dogma. Com exceção de Eugenio Gudin todos os pensadores da economia brasileira em algum momento defenderam a necessidade de industrializar o Brasil a qualquer preço. Além das razões citadas acima dois motivos colaboraram para construir este consenso. O primeiro é que naquela época prevalecia a tese que todas as nações desenvolvidas tinham a indústria de transformação como base de sua economia, ainda não existiam bases de dados internacionais que permitissem questionar esta tese. O segundo motivo é que as esquerdas abraçaram a tese da necessidade de fortalecer a indústria de transformação.

A posição da esquerda a primeira vista pode parecer estranha. Por quê pensadores de esquerda, que em tese estão preocupados com os mais pobres, iriam apoiar um modelo de crescimento baseado em massiva transferência de renda para a burguesia nacional os industriais? No campo teórico a resposta a esta pergunta vem da ideia de que a revolução comunista é posterior ao capitalismo industrial e, portanto, para que um dia tivéssemos a revolução antes teríamos de ter uma indústria sólida. Mas existe outro motivo bem mais pragmático para q eu a esquerda defenda a transferência de recursos para a burguesia nacional a indústria de transformação. A sobrevivência política da esquerda costuma depender de sindicatos fortes, trabalhadores da indústria de transformação costumam formar as bases destes sindicatos. A história de Lula e do PT é um exemplo perfeito da relação entre sindicatos e partidos de esquerda.

O fato é que a partir deste consenso o Brasil investiu pesado em uma política de industrialização a qualquer preço. Foram feitas transferências maciças de recursos para a indústria de transformação. Quando estas transferências mostraram-se incompatíveis com a ordem democrática sacrificamos a democracia para manter o processo de industrialização. E assim a industrialização foi feita. No início dos anos 1950 a indústria de transformação respondia por aproximadamente 20% do PIB brasileiro, no início da década de 1960 já passava de 25% chegando a 35% em meados da década de 1980 (estou ciente de distorções de preços relativos e mudanças metodológicas na série que usei, as séries corrigidas não mudam os argumentos e as conclusões deste post). A parte de cima da figura mostra a história deste sucesso.



Mas ao contrário do que previam os defensores da indústria o tal crescimento de longo prazo que viria como consequência da industrialização não veio. Nem ao menos a indústria de transformação conseguiu manter-se sem a superproteção do e as gigantescas transferências de renda do governo. Foi como se uma família tivesse escolhido um filho para mandar estudar na cidade e depois de adulto este filho não só não sustenta a família como ainda precisa pedir dinheiro aos pais para sobreviver. A figura ilustra isto. A parte debaixo da figura mostra que as taxas de crescimento da economia não ficaram maiores após a industrialização forçada. A parte de cima mostra que com um pouco de abertura e a redução nas transferências de renda, a participação da indústria no PIB despencou, em 2011, apesar da bolsa-empresário dada pelo BNDES, a indústria de transformação respondia por 15% do PIB.

A despeito da industrialização não ter cumprido a promessa de levar o Brasil ao grupo dos países desenvolvidos de uns tempos para cá os defensores da industrialização voltaram a influenciar a política econômica brasileira. Grosso modo repetem os mesmos argumentos da década de 1950 e propõem as mesmas políticas daquela época. Até agora conseguiram criar um rombo nas contas públicas mal encoberto pela contabilidade criativa governo, ameaçar a estabilidade e nos tornar mais pobres em relação ao resto do mundo. Nem sequer reverter a queda relativa da indústria de transformação eles conseguiram. Mas ainda assim insistem em pedir mais transferência de renda para indústria de transformação, redução dos salários, desvalorização do câmbio e proteção contra importação.

Podiam pelo menos explicar as razões da industrialização dos anos 1950 – 1980 não ter cumprido a promessa de crescimento.