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sábado, 9 de maio de 2020

Uma nota a respeito da (grande) desvalorização do real.


O Brasil tem um regime de câmbio flutuante e o Banco Central não tem compromisso com nenhuma taxa específica, ainda assim variações no câmbio, como em qualquer preço, têm efeitos na economia causando perdas e ganhos em grupos distintos de famílias e empresas. Isso não implica que o Banco Central deva impedir tais flutuações, mas acompanhar as variações no câmbio é importante para entender o que pode acontecer na economia após a pandemia.

Grosso modo os ganhadores com a desvalorização da moeda local, ou valorização da moeda externa, são os exportadores, que passam a receber mais reais por dólar exportado, e as empresas que concorrem com produtos importados, que são beneficiadas nem que temporariamente pelos preços mais altos dos concorrentes. Na outra ponta estão os que possuem renda em reais e compram produtos importados ou produtos cujo preço é sensível ao dólar, estão aí trabalhadores e pensionistas, empresas que precisam importar insumos ou máquinas e quem está endividado em dólares ou outras moedas estrangerias.

Um outro efeito da desvalorização do câmbio que costuma ser apontado por economistas desenvolvimentistas é o barateamento do custo da mão de obra do país em comparação com a mão de obra do exterior. Com esse efeito é possível que as empresas instaladas no país sejam beneficiadas não apenas pelo encarecimento dos produtos concorrentes importados como se tornem mais competitivas no exterior por enfrentarem custos mais baixos em comparação com as empresas instaladas em outros países. Isso torna ainda mais escandaloso o pedido de proteção de empresários nacionais mesmo diante de uma grande desvalorização do real.

Não vou entrar na questão dos efeitos do câmbio na competitividade da indústria, já fiz isso em outros lugares, apenas registro que acredito que esses efeitos são bem menores do que pensam meus colegas desenvolvimentistas e que podem até ir na direção contrária se o efeito sobre o custo de importar novas máquinas for muito significativo. O que quero ilustrar nesse post é que a desvalorização do real, para o bem o para o mal, foi grande, muito grande. A figura abaixo mostra a valorização do dólar em relação a moedas de diversos países ou regiões nos últimos trinta dias.




Em nove de abril o dólar custava R$ 5,11, na sexta-feira, oito de maio, estava em R$ 5,73, uma valorização de pouco mais de 12% frente ao real. Foi a maior valorização frente a moeda local em todas os países avaliados. A segunda maior valorização do dólar ocorreu na Turquia e foi 6,2%, quase metade da que ocorreu aqui.

Se considerarmos desde o começo do ano a maior valorização do dólar dentre os países selecionados também aconteceu por aqui e foi de 42,4%. Neste período o México ficou em segundo lugar com valorização de 25% do dólar e a Turquia, com 19,1%, ficou em terceiro.




Considerando os últimos seis meses a valorização do dólar também foi maior por aqui do que nos outros países da amostra. A ordem continua sendo Brasil, México e Turquia com valorizações de 38,2%, 23,7% e 22,8%, respectivamente.


O Brasil só perde a liderança quando o período é estendido para os últimos doze meses, nesse intervalo de tempo a maior valorização do dólar diante a moeda local ocorreu na Argentina. Se o amigo é daqueles que não gostam de perder para argentina nem quando o assunto é desvalorização da própria moeda talvez queira saber que perdemos por pouco, lá o dólar valorizou 48,7% e por aqui 45,2%, se as moeda dos dois países continuarem no mesmo ritmo das últimas semanas rapidinho passamos deles.



Piadas à parte a realidade é que a desvalorização do real diante ao dólar foi grande, se não ocorrer uma reversão a economia pós-pandemia terá uma dinâmica diferente da que vimos nos últimos anos. Caso Paulo Guedes (e os desenvolvimentistas) estiverem certos o combo “juros baixos e câmbio desvalorizado” pode ajudar no aumento do investimento e no fortalecimento da indústria de transformação instalada no país. Outra possibilidade, creio que mais provável, é que o crescimento não virá por conta dos juros baixos e do câmbio desvalorizado de forma que o Banco Central vai ter de escolher entre elevar juros ou aceitar uma inflação mais alta do que a dos últimos anos.


sábado, 9 de junho de 2018

Ainda não é hora de respirar aliviado, a dívida não deixa.


A semana foi tensa para a economia, em um certo momento parecia que iriamos de vez para o brejo. A elevação da taxa de juros nos EUA, sinalizando um provável ajuste na economia americana que está com baixo desemprego e começa a ter ameaça de inflação, já tinha dado sinal que faria estrago por aqui. Na quarta-feira, 23/05, parecia que as coisas estavam se acalmando, mas... naquele dia começou uma inacreditável sequência de erros que revelou a fragilidade do governo e, por consequência, da política econômica. Na terça-feira, 22/05, começava a ganhar força a greve dos caminhoneiros, o governo então acenou com a possibilidade de usar a CIDE para reduzir o preço do diesel, na quarta-feira, 23/05, Rodrigo Maia, presidente da Câmara, em um movimento irresponsável e populista ampliou a oferta do governo abrindo a possibilidade do Congresso reduzir o PIS/Cofins sobre o diesel (link aqui). O movimento de Maia botou o governo na defensiva e abriu a porteira para demandas cada vez mais absurdas dos caminhoneiros. A greve veio a terminar no começo de junho com os caminhoneiros conseguindo redução na CIDE e no PIS/Cofins, subsídios de R$ 0,30 por litro de diesel, tabela de preços mínimos para fretes e cota para autônomos em cargas da Conab (link aqui). O saldo final foi de aproximadamente R$ 4,5 bilhões em reduções de tributos, R$ 9,5 bilhões em subsídios, uma confusão até agora não resolvida nos preços dos fretes, a demissão do presidente da Petrobras que vinha fazendo um excelente trabalho (link aqui) e dezenas de bilhões de reais em prejuízos para vários setores da economia.

Já na quarta-feira o real retomou a trajetória de desvalorização frente ao dólar. A figura abaixo extraída da Bloomberg mostra o comportamento do real (em preto), do peso argentino (laranja) e da lira turca (azul) no período de um mês. Entre nove de maio e cinco de junho o real tinha desvalorizado 8,75% frente ao dólar, o peso argentino 10,1% e a lira turca 4,58%. Na sexta-feira, por conta de uma forte intervenção do Banco Central, o real valorizou cerca de 5% e fechou o período com uma desvalorização de 3,22% contra 4,32% da lira e 11,66% do peso. Não há como dizer o que vai acontecer durante a semana, é possível que o BC tenha conseguido “assustar” o mercado e conter a desvalorização do real, também é possível que o mercado “revide” e tenhamos outra sequência de desvalorizações. Declarações de Ilan Goldfajn sugerem fortemente que o BC não vai (ou não quer) usar juros para estabilizar a situação (link aqui). A situação é de fato complicada, se um analista acredita que estamos passando por um choque e que em breve a economia vai se ajustar, talvez com o real mais desvalorizado frente ao dólar, mas sem grandes mudanças em relação ao passado recente o BC fez a coisa certa. Porém, se o analista acredita que estamos passando por uma mudança de regime, uma mudança permanente na economia causada pelo ajuste americano, o correto seria antecipar aos fatos e elevar juros. Eu estou no segundo grupo, mas entendo os que estão no primeiro grupo.




De toda forma há uma aparente perplexidade em termos nos juntado a Argentina e Turquia no grupo dos países fortemente atingidos pela valorização do dólar. Mansueto Almeida, secretário do Tesouro Nacional e um dos melhores economistas do país, foi rápido em tentar acalmar o mercado mostrando diferenças entre o quadro atual e o quadro de 2002, um ano eleitoral em que houve uma grande desvalorização do real e a inflação chegou a 12,5%. Naquele ano também houve uma divisão entre os que acreditavam que o BC deveria elevar os juros e os que achavam que não, naquele ano também teve uma eleição presidencial... mas voltemos ao Mansueto, o secretário, de forma apropriada nos lembrou que em 2002 os fundamentos de nossa economia eram diferentes dos atuais (link aqui). De fato, eram diferentes, tão diferentes que alguns analistas passaram a ver os eventos da semana como um comportamento irracional do mercado. Não faltaram referências a comportamentos de manada, pânico e a uma pesquisa eleitoral que não trazia nada de realmente novo como culpados pela confusão. Com tudo isso fica a pergunta: somos iguais a Turquia e Argentina para estarmos no mesmo grupo que eles? Creio que não, mas essa é uma pergunta capciosa, façamos de outro jeito: estamos tão melhores que Turquia e Argentina e forma que não merecemos estar no mesmo grupo que eles? Minha reposta para essa pergunta também é não. Confuso? Então é hora de irmos aos números. Abaixo farei algumas comparações para mostrar que nossos problemas são diferentes dos problemas da Argentina e da Turquia, mas são muito graves e justificam o temor do mercado com o Brasil. Os dados são do FMI referentes a 2017 e previsões do próprio fundo para 2018, as previsões constam no relatório de abril e não incluem os eventos do último mês.

Comecemos pelo mais óbvio dos indicadores: o resultado em conta corrente. Grosso modo significa o quanto o país está pegando com o resto do mundo para se financiar, quanto maior o déficit mais o país precisa do resto do mundo. Na Turquia e na Argentina a previsão do FMI é que esse déficit em 2018 será superior a 5% do PIB, mais exatamente 5,1% na Argentina e 5,4% na Turquia. No Brasil a previsão é de um déficit de 1,6%, menos da metade dos outros países, em 2017 o Brasil teve um déficit em conta corrente ainda mais baixo que o dos outros dois países, foi 0,5% do PIB por aqui contra 4,8% na Argentina e 5,4% na Turquia. Some a isso o alto volume de reservas que temos (a base do FMI não disponibiliza essa variável para comparações) e fica difícil mesmo entender tamanha desvalorização do real.




Passemos agora para inflação, a variável citada pelo Mansueto oferece um balanço geral da estabilidade macroeconômica do país. Nesse quesito também estamos melhores que os outros dois países. Em 2017 tivemos inflação de 2,9% contra 11,9% na Turquia e 24,8% na Argentina, em 2018 as previsões do FMI sugerem 3,9% de inflação no Brasil, 19,2% na Argentina e 10,9% na Turquia. Pelos números vistos até agora dependemos menos que Argentina e Turquia do resto do mundo e nossa macroeconomia está bem mais arrumada que a deles.




Será que o problema está no lado fiscal? Aqui as coisas começam a complicar, de saída olhemos o resultado primário, o indicador favorito de nossos governos. Nesse quesito estamos melhores que a Argentina e piores que a Turquia. Nossos vizinhos tiveram um déficit primário de 4,5% em 2017 e a previsão para 2018 é de 3,5%, na Turquia os números são, respectivamente, 0,9% e 1,3% e por aqui 1,7% e 2,3%. Seria o resultado primário o culpado por estarmos juntos de Turquia e Argentina? Creio que não, mas a partir dele talvez cheguemos próximo a uma explicação.




O resultado primário é dado pelo resultado do governo excluídas as receitas e despesas financeiras. Mal comparando é como olhar o orçamento de uma empresa ou família ignorando os pagamentos e recebimentos de juros. Como o pagamento de juros está associado a decisões tomadas no passado a exclusão dessas variáveis passa uma ideia melhor do esforço fiscal do país, principalmente na perspectiva do FMI e dos credores. É como dizer para os credores algo como “olha, eu estou pedindo dinheiro emprestado, mas estou me esforçando; se não fossem os juros que pago a você minha necessidade de crédito seria bem menor”.  Quando um país como o Brasil, endividado e cheio de demandas por gasto, apresenta resultado primário positivo é justo dizer que o país está fazendo um esforço e seria cruel negar financiamento ao país com base em um déficit causado pelos juros. Infelizmente, como já disse Mário Henrique Simonsen, coração não é feito de tripas, por maior que seja o esforço associado a um resultado primário se no final do dia o país não conseguir manter a dívida sobre controle os credores, e mesmo o FMI, não vão financiar o país. Nessa perspectiva o resultado realmente relevante para avaliar as finanças de um país é déficit (também chamado de necessidade de financiamento do setor público, NFSP). Nesse quesito estamos mal.

Em 2017 nosso déficit foi de 7,8% do PIB, em 2018 está previsto para 8,3% do PIB. Na Argentina foi 6,5% em 2017 e está previsto para 5,5% em 2018, além de menor mostra uma expectativa de redução não aparece por aqui, e na Turquia foi 2,3% em 2017 e está previsto para 2,9% em 2018. No presente nossa casa está mais arrumada, mas no futuro estamos frágeis. De onde vem nosso déficit? Em parte das despesas primárias (não incluem pagamentos de juros), mas uma boa parte vem do que o governo paga de juros aos credores. Antes de amaldiçoar os credores e pedir para o governo não pagar mais juros vale lembrar que se o leitor tiver um dinheiro aplicado provavelmente é um credor do governo. Se isso não for suficiente lembre que o governo tem déficit primário, ou seja, se romper completamente com o sistema financeiro vai ter que cortar mais gastos ou cobrar mais impostos para pagar a conta dos gastos excluídos os juros. A vida é dura... a melhor maneira de não pagar juros é não se endividar, mas agora é tarde, a dívida existe e é grande.



A figura abaixo mostra a dívida como proporção do PIB no Brasil na Argentina e na Turquia. Fica fácil ver nosso problema, devemos cerca de 85% do PIB, a Argentina deve cerca de 55% do PIB e a Turquia cerca de 27%. Os leitores do blog já sabem do "problemão" que é nossa dívida, somos um dos países emergentes mais endividados do mundo (link aqui) e, mesmo sendo otimistas, nossa perspectiva não é muito boa (link aqui). A verdade é muito difícil para um país emergente carregar uma dívida de mais de 80% do PIB, uma elevação da taxa de juros, que se eu estiver certo e o que estamos vendo é um ajuste a um mundo de juros mais altos nos EUA vai acontecer queira ou não o BC, implica em uma dificuldade ainda maior.




A figura abaixo mostra a trajetória da dívida como proporção do PIB entre 2005 e 2023, as previsões são do FMI. Repare como temos um futuro sombrio pela frente e se pergunte se é interessante deixar o dinheiro no Brasil. Não creio que seja, apesar das promessas que fizemos e mesmo da emenda constitucional limitando o crescimento dos gastos não tomamos medidas efetivas para um ajuste de longo prazo nos gastos, na verdade sem uma reforma na previdência tal ajuste é praticamente impossível. A sociedade brasileira já mostra sinais que não está disposta a continuar aceitando aumento de impostos, do pato de 2015/16 aos caminhões de 2018 vimos reações fortes a elevação de impostos. Uma nova onda de crescimento parece improvável e, mesmo se acontecesse, já devíamos ter aprendido que tais ondas trazem mais ilusões que soluções de problemas.



Minha conclusão é que merecemos estar no grupo de países muito afetados pela valorização do dólar. Não se trata de um surto de irracionalidade nem de uma reação exagerada a uma pesquisa eleitoral, desde muito sabemos que não estávamos preparados para um cenário de juros um pouco mais elevados nos EUA. Não estou dizendo nada novo, em abril de 2017, por exemplo, o jornal O Globo publicou a seguinte declaração de Henrique Meirelles (link aqui):

“É imprescindível fazer a reforma da Previdência. Não é uma questão de opinião. É necessidade. Se a reforma não for feita, será insustentável. Um dos problemas do Rio de Janeiro é a previdência. E isso ocorre em vários estados. Tem que fazer a reforma agora enquanto há tempo para fazer. Não se pode postergar, se não a situação lá na frente será pior.”

A reforma não foi aprovada e a situação e “lá na frente” parece que chegou. Que ninguém diga que não sabia ou que não tivemos tempo.



domingo, 11 de outubro de 2015

Sobre dominância fiscal, política monetária e a proposta de âncora cambial

Dominância fiscal passou a ser o tema central no debate sobre macroeconomia no Brasil. A discussão foi colocada por Monica de Bolle em uma série de entrevistas e textos curtos (exemplos aqui e aqui), alguns economistas, dentre os quais este que vos escreve, não se mostraram convencidos com o diagnóstico que a economia brasileira vive um período de dominância fiscal e, mais importante, com a proposta que o Banco Central deveria controlar a inflação por meio do câmbio e não por meio da elevação da taxa de juros. A questão da dominância fiscal é uma questão acadêmica que deverá gerar algumas pesquisas nos próximos anos da mesma forma que gerou no passado, porém a proposta de política econômica derivada do diagnóstico de dominância fiscal é assunto urgente que não pode esperar pelos debates acadêmicos. Neste post vou tentar explicar o que é dominância fiscal e comentar a proposta de retomar um regime de câmbio fixo ou de bandas cambiais para controlar a inflação. Para explicar dominância fiscal vou ter de fazer uma incursão no estranho mundo dos macroeconomistas, se o leitor não quer se arriscar a perder a fé nos debates sobre política econômica talvez seja prudente pular os próximos parágrafos e ir direto para a parte que falo da política econômica (sexto parágrafo).

Comecemos nossa descida ao mundo da macroeconomia imaginando uma economia que consiste em um sujeito isolado que tem acesso a um único bem que serve para consumir e investir, se você não se sentiu bem com esta possibilidade ainda é tempo de considerar o conselho no final a parágrafo anterior e pular para a parte de política econômica. Para ajudar a imaginar o exemplo o leitor pode pensar em Robson Crusoé ou Chuck Noland preso na ilha deserta e vivendo à base de milho, parte do milho ele come (consumo) e parte ele planta para a próxima colheita (investimento), como ele faz para plantar sem possuir sequer uma pá é assunto para outras conversas. Tudo que o pobre naufrago tem a decidir é o quanto da sua riqueza ele vai usar para atender sua satisfação (o milho que vai comer) e o quanto ele vai transferir para o futuro (o milho que vai plantar), quanto mais ele comer menos milho terá no futuro, todas as transações dele com ele mesmo (eu avisei!) são feitas e contabilizadas em grãos de milhos.

Suponha agora que nessa ilha chegou uma entidade chamada governo. Esta entidade cria um pedaço de papel pintado que é chamado de moeda, a tal moeda não serve nem para comer e nem para plantar, porém por alguma razão o naufrago aceita fazer transações (!!)com a tal moeda e expressar o valor do milho na tal moeda. No lugar de destinar tantos quilos de milho para consumo e outros tantos para investimento o naufrago agora diz que vai destinar tantas unidades de moeda para consumo e outras tantas para investimento. Para fazer tudo mais concreto suponha que a todo momento existem quatro vezes mais moedas do que quilos de milho, ou seja, se existirem dez quilos de milho então existem quarenta moedas, sendo assim é natural que um quilo de milhos valha quatro unidades de moeda (falar de natural em um mundo assim beira a loucura, mas eu alertei). Se em determinado ano o naufrago colhe cem quilos de milho, come sessenta quilos e planta quarenta quilos podemos dizer que o produto da economia foi de 400 unidades de moeda, o consumo foi de 240 unidades de moeda e o investimento foi de 160 unidades de moeda.

Agora que temos uma economia monetária passemos ao próximo passo. O governo pega dinheiro emprestado com o náufrago. Para manter o exemplo suponha que o náufrago produziu o equivalente a 400 unidades de moeda, consumiu 240 unidades moeda, investiu 100 unidades de moeda e emprestou 60 unidades de moeda ao governo. De forma alternativa poderíamos dizer que o náufrago colheu 100 quilos de milhos, comeu 60 quilos, plantou 25 quilos e emprestou 15 quilos ao governo. Notem que a diferença é na forma como os valores são expressos, ocorre que para chegar até a dominância fiscal forma importa, e muito. Na segunda forma, a dos quilos, também conhecida como forma real não há espaço para dominância fiscal, se as transações são todas realizadas e contabilizadas em quilos de milho o governo vai ter de arranjar um jeito de devolver os 15 quilos de milho, muito provavelmente taxando o coitado do náufrago. Na primeira forma, a das unidades monetárias, também conhecida como nominal existe uma alternativa a taxar o náufrago. Como o governo está devendo em unidade de moeda e o governo tem o poder de criar moeda então o governo pode criar 60 unidades de moeda e pagar pelo milho que tomou emprestado. Entretanto, ao fazer isso, o governo muda a relação entre unidades de moeda e quilos de milho, se antes tínhamos 100 quilos de milho e 400 unidades de moeda agora vamos ter os mesmos 100 quilos de milho, porém existirão 460 unidades de moeda. Como consequência o quilo de milho que custava 4 unidades de moeda passará a custar 4,60 unidades de moeda. Chegamos assim em uma das mais tradicionais teorias de inflação conhecida como Teoria Quantitativa da Moeda (TQM), segundo tal teoria o nível de preços é proporcional à quantidade de moeda existente e a inflação será dada pela variação na quantidade de moeda.

Para chegar na dominância fiscal temos de ir além, alguns diriam ficar aquém, da TQM. Suponha que o náufrago perceba que o governo não tem como pagar a dívida, talvez porque o governo fique envergonhado de cobrar impostos do náufrago ou talvez porque o náufrago tenha um arco melhor que o do governo, não importa. Sabendo que o governo não tem como conseguir milho para pagar a dívida o náufrago passa a considerar duas hipóteses: o governo vai dar um calote ou o governo vai fazer moeda para pagar a dívida. No nosso exemplo as duas hipóteses têm o mesmo final e o náufrago perde os 15 quilos de milho que emprestou para o governo. No mundo real não pagar a dívida costuma ter efeitos bem mais danosos do que imprimir moeda, sendo assim vamos supor que o náufrago acredita que o governo vai pagar a dívida imprimindo moeda. Como nosso herói é náufrago mais não é bobo ele faz a conta que fizemos acima e define o preço do quilo de milho como 4,60 unidades de moeda. Sendo assim mesmo que o governo não tivesse pretensão de emitir moeda, talvez por considerar o calote ou talvez por ter conseguido um arco melhor ou um rifle, ocorrerá o aumento de preços. Ao contrário do previsto na TQM onde o aumento de preços ocorre por conta da política monetária temos agora um caso onde o aumento de preços foi causado pela dívida pública, ou seja, pelo lado fiscal. Quando isso ocorre dizemos que a economia está em dominância fiscal. Como de costume quando o assunto é macroeconomia existem debates intenso a respeito da possibilidade prática e teórica de ocorrer casos onde o lado fiscal determine os preços, não vou entrar o debate, para o leitor interessado deixo dois textos avaliando a possibilidade de dominância fiscal no Brasil (link aqui e aqui) e dois textos criticando teoricamente a possibilidade da dívida pública determinar preços (link aqui e aqui).

Passemos agora à questão da política econômica. Em condições normais o combate à inflação é feito por meio da política monetária. Quando o governo entende que é o momento de reduzir a inflação o BC reduz o ritmo de crescimento da moeda, na prática isso equivale a vender títulos no mercado de forma que o BC entrega títulos e recolhe as moedas que recebeu em troca dos títulos. Para que as pessoas queiram títulos o BC deve tornar os títulos mais atrativos o que, via de regra, significa aumentar juros. Sendo assim a política monetária é feita por meio de juros, no lugar de aumentar e diminuir a taxa de crescimento da moeda os governos pelo mundo, Brasil inclusive, reduzem e aumentam alguma taxa de juros de referência. Isso tudo funciona muito bem na TQM e outras condições onde não exista dominância fiscal, na presença de dominância fiscal a coisa fica mais complicada. Quando o BC aumenta os juros a dívida também aumenta, se é a dívida que determina os preços então o aumento da dívida levará a um aumento dos preços. Em um certo sentido a dominância fiscal é uma sinuca de bico cujo a única saída é cortar gastos deforma a reduzir a dívida. O que acontece quando o governo não dá sinais que vai cortar gastos?

É nesse ponto que entra a proposta da Mônica de Bolle de usar o câmbio para controlar a inflação. Ao atrelar o real ao dólar o governo impediria o aumento excessivo dos preços em reais, como fixar o câmbio costuma ser perigoso a proposta é fixar bandas móveis para o câmbio, se funcionar a desvalorização aceita para o valor máximo do câmbio funcionaria como teto para inflação. Se o BC avisa que permitirá uma desvalorização de no máximo 5% em um ano então as pessoas podem aceitar reajustar seus preços em 5% ou até menos a depender das condições de mercado. Para controlar o valor do câmbio o BC faria uso das reservas que possui. Dois pontos devem ficar claros: a proposta coloca um teto e um piso no câmbio e, mais importante, a proposta não é igual a infame banda diagonal endógena, de fato existem bandas diagonais, mas, se bem entendi a proposta, as bandas são exógenas e isso faz toda a diferença.

Qual o problema com a proposta? No lado mais acadêmico não sou exatamente um fã da teoria fiscal dos preços, a ideia que a dívida pública determina preços, e sem tal teoria o argumento não se sustenta. Não é que eu afirme que não existe dominância fiscal ou que eu seja um monetarista radical, menos do que defender uma teoria nessa nova versão do debate entre monetaristas e fiscalistas (sei que estou provocando!) fico na posição de quem não confia em nenhuma das duas teorias. A verdade é que os modelos macroeconômicos não estão desenvolvidos o suficiente para explicar fenômenos monetários de forma confiável. O “modelo” que usei para explicar dominância fiscal não é tão diferente dos modelos usados por macroeconomistas na academia e em bancos centrais. Como confiar nas previsões sobre inflação feitas por um modelo onde moeda não faz sentido? Para os que se interessaram pelo o assunto recomendo um blog (link aqui) e um artigo introdutório (link aqui). Não vou negar que em termos práticos eu acabe ficando do lado dos que querem usar política monetária, porém meus motivos estão mais associados a uma certa prudência conservadora do que a adesão a determinada teoria.

Para além do lado acadêmico tenho preocupações práticas com a proposta. No post anterior argumentei que o uso de reservas na Rússia não conseguiu segurar desvalorização do rublo (link aqui). Por que acreditar que no Brasil seria diferente? Caso as reservas não segurem o câmbio podemos entrar no pior dos mundos, forçado a defender o câmbio o Banco Central terá de aumentar juros para atrair capitais e impedir que o câmbio passe do teto estipulado para a banda. A experiência dos anos 90 mostra que quando o BC está obrigado a defender o câmbio as elevações de juros podem ser mais abruptas e maiores do que as elevações de juros necessárias para controlar a inflação. A verdade é que qualquer política que não venha acompanhada de um ajuste fiscal de médio e longo prazo estará fadada ao fracasso, não que tal ajuste vá resolver todos os nossos problemas, quem acompanha o blog sabe que na minha avaliação os grandes problemas do Brasil não foram causados por questões fiscais, mas sem tal ajuste será impossível mesmo pensar na solução dos grandes problemas. Talvez a economia brasileira atual mude o sentido da frase de Keynes que no longo prazo estaremos todos mortos....





domingo, 4 de outubro de 2015

Câmbio, reservas e juros: mensagens da Rússia

Tenho visto alguns amigos defendendo que o BC venda as reservas para segurar o câmbio e de quebra ajudar no lado fiscal, na verdade a ordem pode mudar e o amigo vir a defender que o BC venda reservas para aliviar o lado fiscal e de quebra segurar o câmbio. O segundo argumento faz parte das medidas de populismo econômico tão conhecidas por estas bandas, pensei em escrever a respeito faz algumas semanas quando várias pessoas me questionaram sobre a venda de reservas para ajudar o esforço fiscal, acabei desistindo um pouco por falta de tempo, um pouco por preguiça e um tanto porque discutir ideias assim tende a ser contraproducente. De toda forma os que estão empolgados em vender reservas para abater dívidas podem procurar no Google a respeito do conflito entre Cristina Kirchner e Martín Redrado (link aqui), então presidente do BC argentino que não obedeceu a ordem de Kirchner para colocar reservas em um fundo destinado a ajudar na dívida pública.

O primeiro grupo, os que querem vender reservas para segurar o câmbio, tem uma proposta mais interessante. Longe de ser uma maneira de prolongar políticas populistas, vender reservas para segurar o câmbio é uma estratégia que pode ser justificada a depender das circunstâncias da economia e do tipo de política econômica. Em um regime de câmbio flutuante, como pelo menos em tese é o regime brasileiro, o Banco central não deve influenciar o câmbio e, portanto, não faz muito sentido falar de usar reservas para evitar desvalorização do câmbio. Porém, com provam os infames swaps cambiais, nosso regime só é flutuante em tese, na prática o Banco Central opera para influenciar o câmbio, sendo assim e considerando que os swaps além de caros definitivamente não foram capazes de segurar o câmbio, eu entendo que a tese de usar reservas no lugar de fazer operações de swaps, bem definidas como “bolsa banqueiros” por um colega que não vou dizer quem é porque ele trabalha no governo, é defensável. Que fique claro que dizer que uma proposta é defensável não quer dizer que eu apoie a proposta, apenas que eu entendo a lógica de quem apoia. Minha tese é que o BC deve deixar o câmbio flutuar e gerenciar as reservas considerando questões como liquidez, credibilidade e coisas do tipo. Outro motivo para olhar com cuidado o uso de reservas para segurar o câmbio é o recente flerte do presidente do BC com a tese (link aqui).

Quem acompanha o blog já deve ter percebido que gosto de olhar para o que acontece em outros países, não por acreditar que o acontece em outros países seja exatamente igual ao que pode acontecer por aqui, mas por crer que é sempre possível tirar lições das experiências alheias. Pensando assim convido o leito a olhar o que aconteceu na Rússia no último ano. A escolha da Rússia é porque a moeda deles, o rublo, disputa com o real o título de moeda que mais desvalorizou nos últimos doze meses. A figura abaixo mostra a taxa de câmbio entre dólar e rublo desde de dois de outubro de 2014.




Repare a forte desvalorização entre o final de novembro e meados de dezembro, infelizmente não consegui dados diários para o volume de reservas da Rússia, os dados mensais obtidos na página do Banco Central da Federação Russa (link aqui) não permitem ver a variação no período específico, tudo que sei é que em 31/10/14 as reservas eram $428 bilhões e em 31/12/2014 tinham caído para $385 bilhões, notícias da época mostram queda de mais de $10 bilhões por semana (link aqui e aqui). Tamanha queda nas reservas não foi capaz de evitar a desvalorização do rublo, na realidade a queda ocorrida em meados de janeiro facilmente visível na figura segue a elevação da taxa de juros de 10,5% para 17% feita no dia dezesseis de dezembro. Aqui o gráfico com dados diários pode ser enganoso, a queda acentuada seguida de uma subida pode dar impressão que nada aconteceu, mas a realidade não é bem assim, no dia dezessete de janeiro, um dia após a elevação dos juros, o câmbio pulou de 59 para 65 rublos, porém na sequencia o câmbio caiu até fechar o ano em 56 rublos por dólar, depois retomou o crescimento, mas só voltou para 65 rublos por dólar em vinte de janeiro. No final de janeiro, quando o Banco Central da Federação Russa reduziu a taxa de juros para 15% o câmbio estava em 68 rublos por dólar. Entre o dia dezessete de dezembro de 2014 e trinta de janeiro de 2015 o rublo desvalorizou 4%, até o aumento dos juros o rublo tinha desvalorizado 30% só em dezembro de 2014.

A figura abaixo mostra o câmbio e as reservas com frequência mensal, lembrem que não consegui encontrar as reservas da Rússia com frequência diária, o período mais longo permite enxergar melhor a dinâmica que descrevi no parágrafo acima. É possível observar que o câmbio para de crescer em janeiro após a elevação dos juros em dezembro, também é possível observar que o uso de reservas, bem ilustrado pela queda de quase $100 bilhões nas reservas entre setembro de 2014 e fevereiro de 2015, não foi capaz de conter a desvalorização do rublo. Por fim é possível observar como a reversão da política de juros foi acompanhada de novas desvalorização do rublo, ver tabela ao lado.




Como disse acima países nunca são iguais, mas não raro, mesmo sendo diferentes, compartilham experiências semelhantes que podem, embora não necessariamente, oferecer lições comuns. A figura abaixo (link aqui) mostra a evolução do real e do rublo nos últimos doze meses, o dólar australiano está na figura apenas como referência de moeda de uma país que também depende de commodities, em um ano tanto o rublo como o real desvalorizaram mais de 60%, em seis meses o real desvalorizou 25% e o rublo 16%. O fato de terem moedas com desvalorizações superiores a 15% em um ano faz com que Brasil e Rússia tenham os mesmos problemas e as mesmas soluções? Não. Há pouco tempo falei da Colômbia (linkaqui), em um ano o peso colombiano desvalorizou 50%, mas Colômbia e Brasil possuem problemas diferentes. 



Então para que serve analisar o caso da Rússia? No mínimo serve para aprendermos mais sobre economia, mas também pode servir para ter em mente que queimar reservas não necessariamente segura o câmbio e que em alguns casos o aumento dos juros é inevitável. Terminando registrando que não estou sugerindo um aumento dos juros para segurar o câmbio, longe disso, como falei acima defendo o regime de câmbio flutuante, ademais a inflação prevista para este ano próxima a 9,5% e a inflação prevista para o próxima ano em torno de 6% já são motivos suficientes para um BC que tenha compromisso com o combate à inflação elevar os juros.



sexta-feira, 13 de março de 2015

Para não dizer que não falei do câmbio

Devo começar confessando que não gosto de falar de câmbio, aprendi desde cedo que Deus inventou o câmbio para ensinar humildade aos economistas. O passar do tempo não me fez pensar diferente, testes mostram que jogando uma moeda para saber se o câmbio vai subir ou descer você estará tão bem servido quando usando modelos econômicos para prever o câmbio (se quiser saber mais a respeito ver aqui, para ter alguma esperança ver aqui). Normalmente quando falo de câmbio é para dizer que o Banco Central deve deixar o câmbio flutuar ou para pegar no pé dos amigos que acreditam que a desvalorizar o câmbio é o caminho para fortalecer a indústria e colocar a economia brasileira em um caminho de crescimento de longo prazo.

Salvo engano a última vez que falei de câmbio no blog (link aqui) foi para dizer que eu acreditava que a desvalorização do câmbio em meados de 2013 parecia não ser igual as outras e para criticar a estratégia do Banco Central de usar swaps cambiais para tentar “segurar” o câmbio. De fato a desvalorização não foi passageira, pelo contrário, e a estratégia do Banco Central está saindo muito cara. Resolvi voltar ao tema porque vários amigos têm me questionado a respeito do câmbio. Vale a pena comprar agora? A desvalorização é culpa do governo? A crise política está afetando o câmbio? São perguntas que tenho recebido. De saída respondo que não vou desafiar Deus e tentar prever câmbio, tenho juízo. Porém é possível tirar algumas conclusões observando o que está acontecendo em outros países. Para fazer as comparações usei os dados Bloomberg (link aqui).

A primeira comparação foi com o Euro e com o Peso Colombiano. Escolhi o Euro porque é uma moda forte que está desvalorizando diante ao dólar e o Peso Colombiano porque a Colômbia é um país que “fez o dever de casa” e usufrui de uma combinação de taxa de juros baixa e crescimento razoável, porém a Ecopetrol, estatal colombiana de petróleo, tem tido fortes perdas nos últimos seis meses. No período as ADR da Ecopetrol na Bolsa de Nova York caíram 58% contra 69% da Petrobras, em um ano a Ecopetrol caiu 60% contra 54%, porém em três meses a Ecopetrol caiu pouco menos de 10% contra quase 30% da Petrobras. Sendo assim a Ecopetrol não vive o drama recente da Petrobras, mas está em situação bem difícil justificando a escolha da Colômbio no primeiro grupo.

A Figura abaixo mostra a taxa de câmbio entre o Real (em todos os gráficos será azul), Euro (roxo) e Peso Colombiano (verde) e o Dólar. Repare que as três moedas se desvalorizaram fortemente nos últimos meses. É verdade que de fevereiro para cá o Real se desvalorizou em ritmo mais intenso que as outras moedas (repare que a curva azul fica mais inclinada que as outras), porém em um ano a diferença entre as três taxas é muito pequena. Isto quer dizer que está tudo bem? Não. Durante o último ano o Banco Central entrou várias vezes no mercado para impedir a desvalorização do Real, além de implicar em possíveis perdas financeiras a estratégia do BC sinaliza que a desvalorização do Real incomoda o governo. A razão do incomodo é que com inflação bem acima do teto da meta que já é alto e previsão de crescimento negativo (salvo mudanças metodológicas de última hora) o governo teme que a desvalorização do Real deixe a inflação ainda mais alta e force um aumento na taxa de juros no meio de uma recessão. Na Colômbia a inflação está na casa de 3% ao ano, isto permite acomodar a desvalorização se perder o controle da inflação, mas mesmo que um aumento de juros seja inevitável, por não estar em recessão a Colômbia não tem muito a temer. Fazer o dever de casa não impediu a desvalorização da moeda colombiana, mas deixou o país preparado para não sofre e, quem sabe, até se beneficiar da desvalorização. Na Europa é um pouco diferente, a inflação lá está próxima a zero mas eles não estão crescendo bem, com a inflação perto de zero há muito espaço para absorver a alta do dólar. Na verdade a desvalorização do Euro era esperada e até desejada pelo Banco Central Europeu.




O segundo grupo que usei para fazer comparações é formado por México (verde) e Chile (roxo). O Chile por ser sempre referência para América Latina e o México por ser um país que até mesmo a turma que se ofende com comparações na América Latina aceita que comparem com o Brasil. Até fevereiro as moedas do México e do Chile apresentavam um padrão de desvalorização não muito diferente da nossa moeda. A partir de fevereiro porém o Real descolou das outras moedas mostrando uma forte desvalorização. Se o primeiro grupo sugeria que a desvalorização do Real não era uma questão interna este segundo grupo sugere o contrário, eu avisei que câmbio é um bicho cheio de surpresas.




O próximo grupo tem o Japão (verde) e a Austrália (roxo). O Japão está na lista por ter feito políticas de estímulo nos moldes que a Europa está fazendo e a Austrália por ser um país grande e rico que é forte em commodities. A Austrália vinha colada no Brasil até fevereiro, em padrão similar ao do Chile e do México a partir de fevereiro a moeda da Austrália não acompanha a forte desvalorização do Real. No Japão é possível perceber uma desvalorização mais intensa que a nossa desde o começo da comparação, esta desvalorização fica mais forte em novembro e partir de dezembro fica mais ou menos estável. Assim como Chile, México e Austrália a moeda do Japão não apresentou a forte desvalorização que a nossa apresentou nos últimos meses.




O último grupo é o dos BRICS, como só podia colocar dois países além do Brasil escolhi Rússia (roxo) e China (verde). A moeda da Índia fica mais ou menos estável como a da China e a da África do Sul tem uma desvalorização mais forte a partir de fevereiro, porém bem menor que a do Brasil. Como a Figura mostra a China mantém sua moeda colada no dólar, uma prática já antiga por lá. Na Rússia ocorreu uma brutal desvalorização no final de 2014 e agora há uma valorização do Rublo. Como um país fortemente dependente do petróleo, mais do que o Brasil, a Rússia está sentindo a queda do preço do petróleo que somada as sanções por conta dos conflitos na Ucrânia pode explicar o que ocorreu por lá. A lição da China é quem tem poupança alta pode ignorar solenemente o que acontece no mundo e “escolher” o câmbio que desejar, não é nosso caso. A lição da Rússia é que problemas específicos do país podem levar a uma desvalorização brutal da moeda, muito maior do que a estamos vivendo aqui.




Analisar câmbio é tarefa ingrata, os exemplos deste post mostraram isto, porém se é para tirar conclusões eu diria que apesar de existir uma tendência de valorização do dólar no mundo nossos problemas internos podem estar influenciando a atual desvalorização do Real (antes de fazer o post eu estava convencido que fatores externos eram bem mais relevantes). Outra conclusão é que se tivéssemos feito o dever de casa com uma inflação entre 3% e 4% ao ano poderíamos estar tranquilos e ao governo poderia até mesmo estar comemorando a desvalorização do Real sem que o Banco Central estivesse operando para segurar o câmbio. Uma terceira e última lição vem do exemplo da Rússia, condições específicas ao país podem levar a uma desvalorização ainda mais forte de nossa moeda.



quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Provocações de uma Noite Calorenta ou Eles não Cansam do Câmbio?

Acabei de terminar um parecer para o Conselho Administrativo da UnB, minha esposa está assistindo um filme, mas como perdi mais da metade não quis assistir, então, entediado em uma noite calorenta de Brasília, resolvi fazer uma provocação gratuita, barata e desnecessária (mas nem tanto) a alguns colegas. Olhem o gráfico abaixo:





Trata-se do saldo em transações correntes da economia brasileira, para não economistas grosso modo valores negativos representam o quanto de dinheiro temos de pegar no exterior para fechar nossas contas aqui no Brasil. Reparem que o valor mais baixo na série ocorre em 1983. Não é por acaso, no final da década de 1970 o mundo entrou em recessão por conta do Segundo Choque do Petróleo, mas o Brasil decidiu que não queira uma recessão e tratou de “comprar” a saída da crise, afinal a estratégia parecia ter dado certo no início da década de 1970 quando do Primeiro Choque do Petróleo. Para isso precisou se financiar no exterior, em 1983 esse financiamento ultrapassou 6% do PIB. Como ninguém pode se endividar para sempre era necessário reverter a tendência e ainda conseguir um extra para pagar a dívida acumulada.

A equipe econômica da época, então capitaneada por Delfim Netto, teve então uma daquelas ideias simples, claras e desastrosas. A lógica foi mais ou menos assim: temos que conseguir dólares, portanto temos de exportar, logo uma grande desvalorização do câmbio resolveria nossos problemas. Segundo esta lógica o câmbio desvalorizado estimularia as exportações e de quebra ainda dificultaria as importações o que, além de gerar caixa em dólares, seria um bom estímulo para a indústria nacional. Com esta certeza Delfim protagonizou o que foi para a história como a Maxi do Delfim (para um relato da época ver aqui), o então cruzeiro, nossa moeda da época, foi desvalorizado em 30%! Na sequência o déficit em transações correntes de fato foi revertido (as razões são motivos para outro post), mas tivemos mais de uma década de hiperinflação e estagnação, iniciou-se o processo de redução da participação da indústria de transformação no PIB e ainda vimos um aumento da concentração de renda. Como desgraça pouca é bobagem também decretamos moratória, salvo engano em 1987. Quase que literalmente matamos o paciente para curar a doença.

No final de década de 1999 vimos aparecer novamente o fantasma da crise externa, o déficit em transações correntes se aproximava de 5% e a trajetória de queda lançava temores que poderiam voltas aos níveis do começo da década de 1980. Não faltaram os que pediam uma nova (maxi)desvalorização, agora do Real, para resolver o problema. Porém a equipe econômica de 1999, capitaneada por Pedro Malan e com papel fundamental de Armínio Fraga, não caiu na tentação da saída fácil e potencialmente desastrosa de desvalorizar o câmbio. No lugar disto adotou o famoso Tripé Macroeconômico com o câmbio flutuante, a busca pelo ajuste fiscal e o regime de metas de inflação. Imagino ter sido uma escolha difícil, até hoje os responsáveis por esta decisão são acusados de inimigos do povo e outros impropérios, entre os acusadores é possível encontrar os que causaram a grande depressão e a hiperinflação da década de 1980. De saída o Tripé parecia que não ia funcionar, aconteceu uma desvalorização do câmbio, porém levada pelo mercado e não decidida pelo BC, e o saldo em transações correntes começou a subir. Mas a alegria durou pouco, em 2001 o problema estava de volta fazendo com que Fernando Henrique Cardoso declarasse que o novo grito de independência era “exportar ou morrer” (link aqui). Mas o governo persistiu com o Tripé, mesmo em 2002 quando ocorreu uma grande desvalorização do Real e a inflação parecia estar de volta o governo persistiu com o Tripé. Os resultados começaram a aparecer...

A grande surpresa veio em 2003, para espanto de muitos (inclusive deste blogueiro) o governo Lula manteve o Tripé, na realidade aprofundou e reforçou a política que vinha sendo implementada desde 1999. O ajuste fiscal de 2003 foi um dos maiores da história recente, o Banco Central, agora presidido por Henrique Meirelles, teve liberdade para agir contra a inflação e assim fez. Até o vice-presidente da república, José Alencar, reclamou publicamente do aumento dos juros, mas Lula não desautorizou Palocci, seu Ministro da Fazenda, nem o BC. Ainda em 2003 o saldo em transações correntes se tornou positivo, seguindo tendência que vinha desde 2001. Na sequência tivemos crescimento, inflação controlada, distribuição de renda e redução da pobreza, é fato que a indústria continuou crescendo menos que o PIB, mas isto já vinha desde meados da década de 1980.

Em 2005 o governo começou a muda o discurso e retomar algumas ideias desenvolvimentistas, timidamente, mas para um paranoico como eu já era bem concreto. Na minha avaliação o PAC foi a senha que acenou para a mudança no discurso (um registro de minha preocupação em maio de 2008 está aqui). Com a crise de 2008 a ideia do governo estimular a economia virou dominante. O saldo em transações correntes, que já vinha caindo, ficou novamente negativo, mas a economia crescia e os que alertaram passaram por pessimistas incorrigíveis. Em 2014 vemos que o saldo em transações correntes continua caindo, a estabilidade do último período pode decorrer mais de criatividade do que de ajustes na economia, novamente vemos o discurso do câmbio. Vale lembrar que no começo do governo Dilma o câmbio estava em R$ 1,60, chegou a R$ 2,40 e agora está em R$ 2,30, uma desvalorização de mais de 40%! Mesmo com esta gigantesca desvalorização sem efeito aparente tem ex-ministro pedindo câmbio acima de R$ 3,00 (ver aqui) com o argumento de que é preciso reverter o déficit em transações correntes, talvez não por acaso na época que o atual ex-ministro estava no cargo o Brasil vivia uma hiperinflação.

Depois de toda esta história, que nada mais é que uma provocação de um sujeito calorento e entediado, me pergunto qual será a estratégia para o próximo ano. Vão apostar na saída mágica da desvalorização cambial? Vão fazer os ajustes necessários? Aprendemos algo? Esquecemos algo?





sábado, 24 de agosto de 2013

O que está acontecendo com o câmbio?

O gráfico abaixo mostra a taxa de câmbio entre real e dólar no Brasil de janeiro de 2008 até hoje, peguei a série na página de cotações do UOL. Pelo gráfico podemos ver dois momentos em que a taxa de câmbio passou de R$ 2,40 por dólar. O primeiro foi no final de 2008, durante a crise financeira, e o segundo foi semana passada. Qual a diferença entre os dois momentos? Olhando o gráfico com cuidado é possível ver que em 2008 a subida se deu de forma repentina, em menos de um mês o dólar passou de menos de R% 1,60 para mais de R$ 2,40. Este tipo de movimento brusco costuma ser causado por movimentos especulativos.




Por alguma razão o mercado começa a comprar dólar, em 2008 a razão foi a crise, e o preço do dólar começa a subir. Esta subida faz com que todo mundo corra para comprar dólares antes que fique ainda mais caro levando a um aumento repentino da demanda por dólares e uma redução da oferta de dólares, afinal quem tem dólar não quer vender se acredita que o preço vai subir. Em situações como esta o Banco Central deve entrar no mercado vendendo dólares. Esta política tem dois efeitos: aumenta a oferta de dólares e sinaliza para o mercado que a alta do dólar pode ser revertida. Como ninguém quer vender barato, principalmente se comprou caro, o mercado começa a vender dólares. Manobras como esta, se bem executadas, podem trazer o câmbio de volta para o valor de antes de tudo começar. Foi o que aconteceu em 2008/09. Note que a intervenção do Banco Central foi para evitar um movimento especulativo que poderia ser danoso à economia como um todo, tal tipo de política não é exatamente um rompimento com o regime de câmbio flutuante. Embora deva reconhecer que é preciso alguma arte para saber quando começar intervir e quando parar de intervir nestas situações. Talvez o fato que em 2008 o Banco Central era presidido por um economista vindo do mercado tenha ajudado no timing.

Desta vez a subida se deu de forma diferente. O dólar saiu do patamar de R$ 1,60 no final de 2011, chegou a R$ 2,00 em meados de 2012 onde ficou por um bom tempo e recentemente teve uma subida íngreme (porém não tanto quanto em 2008) até passar de R$ 2,40. Perceberam a diferença entre uma desvalorização puramente especulativa como a de 2008 e uma desvalorização induzida pelo governo como a atual? Ocorre que câmbio é uma variável difícil de prever e controlar, tudo indica que a recente desvalorização foi mais rápida (não necessariamente maior) que a desejada pelo governo. Existem várias explicações para isto ter acontecido e quase todas guardam um pedaço da verdade. O fato é que o Banco Central resolveu agir como quem combate um movimento especulativo. Vais dar certo? Difícil prever.

Como falei acima câmbio é uma variável complicada. Neste caso além das dificuldades usuais tem um fator que pode complicar a estratégia do Banco Central. Nós não somos os únicos a olhar o gráfico deste post, todo o mercado o conhece. Isto significa que o mercado sabe que o governo deseja um real desvalorizado, até porque vários ministros já disseram isto em momentos diferentes. Sendo assim como acreditar que o governo de fato vai se emprenhar para trazer o dólar de volta a digamos R$ 2,00? Na semana passada o governo deu sinais fortes que não vai deixar o real se desvalorizar, tão fortes que deram resultados e o dólar recuou para menos de R$ 2,40. Mas e se o governo mudar de ideia? Não será a primeira vez que o governo muda de ideia em assuntos importantes, sequer será a primeira vez este ano. O próprio governo não mudou de ideia ao decidir intervir no mercado para não deixar o dólar chegar a R$ 2,50? Valor menor que o Ministro Mantega considerou ideal em 2009.

Esta incerteza tem custo. Se o governo de fato quiser “segurar” o dólar vai acabar gastando mais do que gastaria se tivesse a confiança do mercado. Se o governo mudar de ideia e resolver “aceitar” um câmbio a R$ 2,60 ou mais terá literalmente jogado dinheiro fora. Particularmente sou de opinião que o governo deva deixar o câmbio flutuar, isto evita a tarefa impossível de determinar a taxa de câmbio correta. Mas se o governo pretende fixar um valor ou um intervalo de flutuação para o câmbio é bom que faça isto de maneira clara. Do jeito que está é o pior dos mundos.


P.S. Dada a dificuldade de prever o que vai acontecer com o câmbio se você está com viagem de fim de ano marcado para o exterior e ainda precisa comprar dólares, comece a comprar agora e vá comprando aos poucos até o final do ano. Assim se o dólar subir você já comprou uma parte e não terá de comprar tudo tão caro e se o dólar cair você poderá comprar uma parte a preços mais baixos.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Salários da Indústria e o Motivo pelo qual Comemoram a Desvalorização do Real

O gráfico abaixo mostra o salário real médio da indústria dividido pela taxa de câmbio efetiva das importações brasileiras. Grosso modo é uma medida de quanto ganham os trabalhadores da indústria brasileira a preços internacionais, esta variável aumento quando o salário sobre ou o real se valoriza e desce nos casos contrários. Quando a curva do gráfico está subindo significa que os trabalhadores da indústria brasileira estão ganhando mais em termos de moedas estrangeiras. Quanto mais alta a curva mais fácil é para os brasileiros comprar produtos importados ou viajar para o exterior.




Notem que com o Plano Real a curva começa a subir, ou seja, os trabalhadores da indústria brasileira começaram a ganhar mais. O colapso do controle de câmbio na virada de 1998 para 1999 levou a uma grande desvalorização do real que jogou a curva para baixo, ou seja, ficamos mais pobres. Durante o primeiro mandato de Lula a variável subiu quase que continuamente, no segundo só caiu durante a Crise Financeira de 2008, mas se recuperou em seguida.  No começo do governo Dilma a variável continuou subindo, mas aí veio a reviravolta da política econômica e a curva começou a cair. O gráfico termina em junho deste ano, se for colocada a grande desvalorização que ocorreu desde junho o salário descrito no gráfico vai despencar. Por que isto aconteceu? Acredito que tenha ocorrido por decisão do governo.

Se o aumento do salário em moeda externa significa ganhos de renda para os trabalhadores também significa custos para a indústria. Durante os governos FHC e Lula os representantes da indústria não conseguiram convencer o governo a sacrificar a renda dos trabalhadores para tornar a indústria brasileira mais “competitiva”. Com Dilma tudo mudou. A presidente seguiu a cartilha desenvolvimentista de que é preciso desvalorizar o câmbio para aumentar a “competitividade” da indústria. Em termos práticos desvalorizar o câmbio para aumentar a “competitividade” da indústria significa reduzir os salários reais dos trabalhadores da indústria. Sem meias palavras: o governo decidiu que estávamos ganhando muito e era hora de reduzir nossos salários. É o que está acontecendo.