sexta-feira, 9 de abril de 2021

Inflação no Brasil e em países selecionados

Sempre que falo de inflação aparece alguém dizendo que a inflação daqui está baixa ou que a inflação subiu no mundo todo por conta da pandemia. Por conta disso resolvi checar a inflação em outros países. Encontrei no site inflation.eu (link aqui), a inflação dos preços aos consumidores referente a 2020 para 38 países. A maior inflação ocorreu na Turquia, 14,6%, que ficou fora da amostra para não distorcer a figura. Depois da Turquia veio a Rússia com 4,91% e o Brasil com 4,52% fecha o grupo dos países da amostra com inflação acima de 4% em 2020. A figura abaixo mostra a inflação em cada país.


 Para os curiosos a média das taxas de inflação dos países da amostra, excluída a Turquia, foi 0,99% e a mediana foi 0,56. Doze países tiveram redução nos preços aos consumidores em 2020. Olhando para os países da América Latina presentes na amostra o México ficou com 3,155 de inflação e o Chile com 2,97%. A China, que muita gente gosta de apontar como exemplo de política econômica, teve 0,27% de inflação em 2020.

Enfim, a comparação da inflação no Brasil com a dos outros países da amostra não permite afirmar que a inflação de 2020 foi baixa. Se considerarmos as taxas de inflação medidas pelo IPCA nos últimos a de 2020 foi a maior desde 2016 (2,95%, 3,75%, 4,31% e 4,53% para 2017, 2018, 2019 e 2020, respectivamente), ano que a inflação sofreu influência do desastre do governo Dilma. É isso.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Crescimento no Brasil e no Mundo em 2020 de acordo com os números do FMI

Com a divulgação dos dados do FMI referentes a 2020 é possível avaliar o tamanho do estrago que a pandemia causou no crescimento econômico pelo mundo. Considerando os países com mais de dez milhões de habitantes em 2020 e excluindo a Venezuela por motivos óbvios a média das taxas de crescimento em 2019 foi de 2,98%, em 2020 essa mesma média foi de -3,29%. Em 2019 a maior taxa de crescimento entre os países da amostra foi de 9,4% na Ruanda, o pior desempenho foi do Zimbabwe com queda de 7,4%. Em 2020 o melhor desempenho foi na Etiópia, que cresceu 6,1%, e o pior foi no Peru onde o PIB teve queda de 11,1%. A mediana das taxas de crescimento caiu de 2,3% em 2019 para -3,6% em 2020. A figura abaixo mostra a distribuição do crescimento em 2019 e 2020, o deslocamento para esquerda da parte em vermelho mostra queda geral do crescimento em 2020.


Dos oitenta e oito países da amostra em apenas dezenove foi observado crescimento do PIB em 2020. Dos países que cresceram dez estão na África subsaariana, quatro são países emergentes da Ásia, dois do Oriente Médio, um pertence ao grupo dos países avançados, um é parte da Comunidade de Países Independentes e um é emergente da Europa. Nenhum país da América Latina e Caribe cresceu em 2020. Mesmo considerando apenas os países que cresceram a média das taxas de crescimento, 2,4%, foi menor que a média de crescimento de todos os países da amostra em 2019. A figura abaixo mostra a variação do PIB em cada um dos países onde houve crescimento.

 

No Brasil o PIB teve queda de 4,1% em 2020, o resultado foi melhor do que o previsto pelo FMI em meados do ano passado. Em termos relativos o Brasil melhorou de posição no ranking dos países da amostra. No ano de 2019 cerca de 78% dos países tiveram melhor desempenho do que o Brasil, essa proporção caiu para cerca de 57% em 2020. A figura abaixo mostra a variação do PIB em todos os países da amostra com alguns destaques. O eixo horizontal mostra a variação do PIB e no eixo vertical é possível ver a proporção dos países com variação do PIB menor do que a do país em destaque. Desta forma a figura mostra que cerca de 91% dos países cresceram menos do que a China e cerca de 48% e cerca de 52% cresceram menos do que os Estados Unidos.

 

Considerando apenas os países da América Latina e caribe o Brasil teve o terceiro melhor desempenho. A menor queda ocorreu na Guatemala seguida pelo Haiti, Brasil, Chile e República Dominicana. O pior resultado foi no Peru com queda de 11,1% no PIB. Se o leitor está desconfortável com a retirada da Venezuela da amostra este é um bom momento para informar que o PIB venezuelano caiu 35% em 2019 e 30% em 2020. A figura abaixo mostra a variação do PIB nos países da América Latina e Caribe que estão na amostra.

 

Dos grupos de países considerados pelo FMI a América Latina foi o que teve o pior desempenho em termos de média das taxas de crescimento do PIB. Em 2019 o pior desempenho ocorreu no Oriente Médio. A pandemia pegou em cheio nuestra America em um momento em que as coisas já não estavam bem.

 

Entre os países do BRICS apenas na China o PIB cresceu em 2020. O Brasil ficou no meio com desempenho pior do que China e Rússia e melhor do que Índia e África do Sul.

 

Os números mostram que a pandemia teve um forte impacto no crescimento dos diversos países. O resultado contrasta com os números observados durante a Gripe Espanhola onde a média das taxas de crescimento foi positiva nos três anos da pandemia (ver aqui). O Brasil ficou na parte de baixo da amostra em termos de variação do PIB, mas estamos perto do meio. Em termos relativos foi uma melhora, em 2019 estávamos na parte baixo mais para o fim do que para o meio. Uma melhora relativa no meio de uma queda tão forte não deve servir de alento para um país que está em mais uma década perdida, mas sugere que podia ter sido pior.

 

segunda-feira, 8 de março de 2021

Contas Nacionais do quarto trimestre de 2020: ruins, mas poderiam ter sido muito piores!

O IBGE divulgou as contas nacionais referentes ao quarto trimestre de 2020 (link aqui). A recuperação da queda causada pela Coviv-19 no primeiro semestre de 2019 aparece nos números do PIB. Em relação ao trimestre anterior o PIB cresceu 3,2%, o alto valor do crescimento faz parte do mesmo movimento que levou à queda recorde de 9,6% no terceiro trimestre e ao crescimento, também recorde, de 7,7% no terceiro trimestre.

Assim como as quedas nos primeiros trimestres de 2020, o crescimento do terceiro e do quarto trimestre dificilmente podem ser analisados na perspectiva da dinâmica de crise e recuperação que costumo usar nos posts sobre contas nacionais. O máximo que pode ser feito é entender como será a recuperação da crise causada pela pandemia e tentar especular sobre como esta recuperação pode afetar a dinâmica da economia brasileira na ótica das contas nacionais.

A figura abaixo mostra o crescimento da economia desde 1996, as barras mostram o crescimento em relação ao trimestre anterior (com ajuste sazonal) e a linha mostra o crescimento acumulado em quatro trimestres. No acumulado houve uma queda 4,1%, o que mostra que, apesar do crescimento no segundo semestre, a crise do Covid-19 ainda não está no retrovisor.


 

Como é tradição no blog a análise será feita pelo lado da produção, a análise da despesa, preferida por vários colegas de profissão, é interessante para entender como foi a distribuição do PIB. A figura abaixo mostra o crescimento dos grandes setores da economia. No acumulado de quatro trimestres a agropecuária, que no quarto trimestre de 2020 respondeu por 4,8% do valor agregado e 4,1% do PIB, cresceu 1,8%; o setor de serviços, 74,9% do valor agregado e 63,4% do PIB, teve uma queda de 4,5%; finalmente, a indústria, que responde por 20,3% do valor agregado e 17,2% do PIB, teve uma queda de 3,5%. Na comparação com o trimestre anterior a agropecuária teve queda de 0,5%, a indústria teve crescimento de 1,9% e nos serviços o crescimento foi 2,7%.

 


No acumulado de quatro trimestres a construção teve queda de 7,0%. Na indústria de transformação a queda foi de 4,3%. Ao contrário de outros períodos quando a queda na indústria de transformação podia ser vista como parte da arrumação de casa após a sequência de investimentos questionáveis, para dizer o mínimo, da primeira metade da década., esta queda reflete o impacto da pandemia no setor A indústria extrativa teve crescimento de 1,3%. Na comparação com o trimestre anterior a construção teve queda de 0,4%, a indústria extrativa caiu 4,7% e a indústria de transformação cresceu 4,9%. Vale registrar que no quarto trimestre de 2020 a indústria extrativa correspondeu a 16,4% da indústria total, a construção por 14,7% e a de transformação por 55%.

 


Nos serviços o maior crescimento ficou por conta do setor de atividades financeiras, de seguros e serviços relacionados que cresceu 2% no acumulado de quatro trimestres, também de 2,5% nas atividades imobiliárias. Administração, defesa, saúde e educação públicas e seguridade social teve queda de 4,7%., as maiores quedas foram de 9,2% no setor de transportes e 12,1% em outras atividades de serviços A figura abaixo mostra o crescimento no setor de serviços. Na comparação com o trimestre anterior apenas o setor “Atividades financeiras, de seguros e serviços relacionados” registrou queda Mais uma vez o crescimento faz parte do mesmo movimento que causou a queda no trimestre anterior.

 


Por fim, passemos a análise pelo lado da demanda, ou seja, como foi distribuída a produção do país. O investimento, a parte do produto destinada a criar mais produto no futuro, teve queda de 0,8% no acumulado em quatro trimestres. Em tempos normais isso seria preocupante, pois sugeriria redução da capacidade de produção nos próximos períodos e pouca confiança no futuro da economia, em tempos de pandemia o resultado pode até ser visto com algum otimismo. Na comparação com o trimestre anterior o investimento cresceu 20%.

O consumo das famílias caiu 5,5% e o consumo do governo caiu 4,7%, ou seja, no acumulado de quatro trimestres a fatia do bolo que vai para as famílias caiu mais do que a fatia que vai para o governo. As exportações caíram 1,8% e as importações caíram 10%. Na comparação com o trimestre anterior o consumo das famílias cresceu 3,4%, o consumo do governo cresceu 1,1%, as exportações caíram 1,4% e as importações tiveram aumento de 22%.

 


Os números das contas nacionais mostram que a pandemia do coronavírus interrompeu o processo de lenta recuperação que vínhamos seguindo desde 2017, mas sugerem uma rápida recuperação em relação a queda causada pela própria pandemia. Essa recuperação pode ter sido comprometida pelo recrudescimento da pandemia no primeiro trimestre de 2021. De fato, o comportamento da economia depende essencialmente dos rumos da pandemia. Sem uma campanha de vacinação em massa só um milagre pode nos tirar da crise.

Para ter crescimento de longo prazo o governo precisaria liderar uma sólida agenda de reformas, algo que parece cada vez mais distante, por exemplo, a abertura da economia, que já foi chamada de mãe de todas as reformas, nem aparece mais nas conversas sobre os rumos da economia. Continua valendo que se o governo partir para políticas de estímulos turbinadas por planos como o Pró-Brasil, Casa Verde e Amarela e uso de estatais podemos até ter bons números no curto prazo, ainda assim condicionados à dinâmica da pandemia, mas começaremos outra caminhada em direção ao abismo. A disparada dos preços no atacado, levando junto o IGP-M, mostra que, além da recuperação do PIB, o governo deve se preocupar em evitar que a inflação chegue nos preços aos consumidores.

 

P.S. Os gráficos setoriais não são os ideais, continuo procurando uma forma melhor de passar os desempenhos dos setores se abrir mão de grande parte da série.

 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Quebrados! O dia em que o Rei disse que o Rei está nu.


Em 2014, após vencer as eleições jurando de pés juntos que não havia problema fiscal no Brasil, Dilma reconhece que os gastos públicos são insustentáveis e começa com a sequência de tentativas de cortes de gastos. Ainda naquele ano, com Mantega na Fazenda, são apresentadas medidas para reduzir pensões e dificultar acesso ao seguro desemprego.

Em 2015, ciente que cortar gastos não era o forte de Mantega, Dilma coloca Joaquim Levy na Fazenda para aprofundar os cortes de gastos, ali a outrora campeã da defesa de gastos reconhecia de forma inequívoca que a trajetória de gastos era insustentável. Sem conseguir fazer os cortes de gastos que desejava e às turras com a Presidente e o PT, Levy sai do governo.

No lugar de Levy entra Nelson Barbosa. Meu colega de departamento e professor da FGV é uma referência entre economistas heterodoxos do país, inclusive entre os que negam a necessidade do ajuste fiscal. O contexto em que entrou no governo e o pouco tornam difícil comentar a passagem de Nelson Barbosa no comando da economia, mas é fato que tomou medidas de ajuste fiscal e controle dos gastos. Uma delas foi adiar reajustes de servidores públicos, lembro porque foi naquela época que consegui ser acusado pela mesma pessoa e na mesma semana de golpista e defensor do governo.

Dilma caiu e Temer tomou posse como Presidente. Para Fazenda foi Henrique Meirelles, famoso pelo excelente trabalho à frente do BC na época de Lula, Meirelles seguiu a linha dos cortes de gastos. Uma de suas mais famosas medidas foi o Teto de Gastos que, apesar de ser acusado de causar uma crise que existia antes dele ser criado, é um responsáveis pela queda de juros e inflação durante o governo Temer quando a economia deixou de cair e começou a lenta recuperação. Meirelles saiu para se candidatar a Presidente, no lugar dele ficou Eduardo Guardia que seguiu as linhas de política econômica do antecessor.

Em 2019 foi a vez de Bolsonaro chegar ao Planalto e Paulo Guedes assumir o comando da economia. A necessidade de cortes de gastos foi reforçada pelo novo governo que também apresentou medidas para contenção de despesas. Faço esse histórico para o leitor ter em mente que desde o final de 2014 todos os presidentes, de Dilma a Bolsonaro, e todos os comandantes da área econômica do governo, de Mantega a Paulo Guedes, apontaram a necessidade de controlar gastos e/ou apresentaram medidas de ajuste fiscal. Todos, sem exceção.

Foi nesse estado que a pandemia nos pregou trazendo queda das receitas e aumento de gastos do governo. Para usar os termos da moda pegamos Covid com várias comorbidades. Como de costume, Bolsonaro foi infeliz na escolha da hora e dos termos, mas ao dizer que o Brasil está quebrado apenas reforça o que já sendo dito em declarações e ações de governantes e por ministros desde 2014. O Rei disse que o Rei está nu.

Mas não se desespere, meu amigo, com os horrores que eu lhe digo, apesar de não ser apenas uma canção, como no caso do poeta, estarmos quebrados sem o Presidente saber o que fazer não é o pior dos mundos. A considerar as propostas como as apresentadas por Ciro Gomes, um governo que não faz nada talvez seja uma benção.





sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Eu ainda não falaria em "V", deve ser porque sou chato.

Alguns economistas gostam de usar letras para descrever fenômenos relacionados à dinâmica da economia, o crescimento é um dos alvos favoritos dessa turma. No governo Dilma, lá por 2012, teve a turma do “J”. A teoria era que as políticas de Dilma, a hoje infame Nova Matriz Econômica, levaria a uma queda inicial e depois a um forte aumento na taxa de crescimento da economia. Não foi o que aconteceu, se a taxa caiu e lá ficou com um “L” ou se caiu e depois caiu mais seguindo alguma letra que agora não me vem a memória é coisa que deixo para o leitor especular.

Agora temos a recuperação em “V”. A tese é que a forte queda do PIB por conta da pandemia terá uma rápida recuperação. Da minha parte prefiro esperar para ver, mas ao me deparar com um gráfico de recuperação em “V” supostamente elabora pela Secom resolvi fazer a minha versão da recuperação da economia brasileira. Para isso usei o índice do PIB na tabela de séries encadeadas de índices de volume com correção sazonal, uma série que corrige pela variação nos preços e por fatores sazonais.

A figura abaixo mostra a recuperação do PIB. Usei a escala sugerida pelo ggplot/R, que também é minha preferida por permitir o foco no movimento de interesse. Repare que mesmo com o forte crescimento no terceiro trimestre ainda não voltamos ao nível do primeiro trimestre de deste ano, lembre que a série passou por ajuste sazonal.

 


Os dados adequados para avaliar a recuperação do nível de produção não descartam que o “V” possa acontecer, tudo vai depender do quarto trimestre, mas também não dá para dizer que o “V” já aconteceu. Como disse no post anterior a hora é de ter calma e seguir com as reformas até porque, mesmo com a recuperação da crise causada pela pandemia, ainda temos que nos recuperar da grande crise que fez desta uma década perdida mesmo antes deste novo Coronavírus aparecer.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Contas Nacionais no terceiro trimestre de 2020: calma!

O IBGE divulgou as contas nacionais referentes ao terceiro trimestre de 2020 (link aqui). A recuperação dos efeitos da Covid-19 na economia (pelo menos da primeira onda) aparecem nos números do PIB. Em relação ao trimestre anterior o PIB cresceu 7,7%, o maior número da série que começa em 1996, o valor exagerado do crescimento faz parte do mesmo movimento que levou à queda recorde de 9,6% no trimestre anterior e, de fato, não chega a compensar aquela queda.

Assim como a queda no trimestre anterior, o crescimento do terceiro trimestre deste ano dificilmente pode ser analisado na perspectiva da dinâmica de crise e recuperação que costumo usar nos posts sobre contas nacionais. O máximo que pode ser feito é entender como será a recuperação da crise causada pela pandemia e tentar especular sobre como esta recuperação pode afetar a dinâmica da economia brasileira na ótica das contas nacionais.

A figura abaixo mostra o crescimento da economia desde 1996, as barras mostram o crescimento em relação ao trimestre anterior (com ajuste sazonal) e a linha mostra o crescimento acumulado em quatro trimestres. No acumulado houve uma queda 3,4%, o que mostra que, apesar do crescimento de 7,7% no trimestre, a crise do Covid-19 ainda está longe de ser vista pelo retrovisor. É fácil observar nas barras como tanto a queda de 9,7% como o crescimento de 7,7% destoam do resto da série.

 


Como é tradição no blog a análise será feita pelo lado da produção, a análise da despesa, preferida por vários colegas de profissão, é interessante para entender como foi a distribuição do PIB. A figura abaixo mostra o crescimento dos grandes setores da economia. No acumulado de quatro trimestres a agropecuária, que no terceiro trimestre de 2020 respondeu por 6,5% do valor agregado e 5,6% do PIB, cresceu 1,8%; o setor de  serviços, 71,8% do valor agregado e 61,7% do PIB, teve uma queda de 3,5%; finalmente, a indústria, que responde por 21,8% do valor agregado e 18,7% do PIB, teve uma queda de 3,5%. Na comparação com o trimestre anterior a agropecuária teve queda de 0,5%, a indústria teve crescimento de 14,8% e nos serviços o crescimento foi 6,3%. Vale notar que a indústria teve a maior queda no segundo trimestre, 13%, e o maior crescimento no terceiro trimestre 14,8%.

 


No acumulado de quatro trimestres a construção teve queda de 5,8%. Na indústria de transformação a queda foi de 5,4%. Ao contrário de outros períodos onde a queda na indústria de transformação podia ser vista como parte da arrumação de casa após a sequência de investimentos questionáveis, para dizer o mínimo, da primeira metade da década., esta queda reflete o impacto brutal da pandemia no setor A indústria extrativa teve crescimento de 4,3%. Na comparação com o trimestre anterior a construção cresceu 5,6%, a indústria extrativa cresceu 2,5% e a indústria de transformação cresceu 23,7%. Vale registrar que no terceiro trimestre de 2020 a indústria extrativa correspondeu a 13% da indústria total, a construção por 15,4% e a de transformação por 58%. O crescimento extraordinário da indústria de transformação só pode ser compreendido se levarmos em conta a queda de 19,1% no período anterior, grosso modo esse setor da indústria parou boa parte da produção no segundo trimestre, por conta das medidas para contenção da pandemia, e retomou a atividade no terceiro trimestre. Considerando o índice encadeado também divulgado pelo IBGE, a produção da indústria de transformação foi menor do que no terceiro trimestre de 2019.

 


Nos serviços o maior crescimento ficou por conta do setor de atividades financeiras, de seguros e serviços relacionados que cresceu 4% no acumulado de quatro trimestres. Também foi registrado crescimento de 0,5% no setor de informação e comunicação e de 2% nas atividades imobiliárias. Administração, defesa, saúde e educação públicas e seguridade social teve queda de 3,7%., a maior queda foi de 8% no setor de transportes A figura abaixo mostra o crescimento no setor de serviços. Na comparação com o trimestre anterior todos os subsetores dos serviços cresceram, o maior crescimento foi no comércio, 16%, seguido por transportes, 12,5%. Mais uma vez o crescimento faz parte do mesmo movimento que causou a queda no trimestre anterior.

 


Por fim, passemos a análise pelo lado da demanda, ou seja, como foi distribuída a produção do país. O investimento, a parte do produto destinada a criar mais produto no futuro, teve queda de 4% no acumulado em quatro trimestres. Em tempos normais isso seria preocupante, pois sugeriria redução da capacidade de produção nos próximos períodos e pouca confiança no futuro da economia, em tempos de pandemia o resultado pode ser visto como um adiamento do investimento para o pós-pandemia. Na comparação com o trimestre anterior o investimento cresceu 11%, isso reforça a ideia que a pandemia levou a um adiamento do investimento.

O consumo das famílias caiu 4,1% e o consumo do governo caiu 3,7%, ou seja, no acumulado de quatro trimestres a fatia do bolo que vai para as famílias caiu pouco mais do que a fatia que vai para o governo. As exportações caíram 1,9% e as importações caíram 9%. Na comparação com o trimestre anterior o investimento cresceu 11%, após queda de 16,5% no segundo trimestre, o consumo das famílias cresceu 7,6%, após queda de 11,3%, o consumo do governo cresceu 3,5%, após queda de 7,7%, as exportações caíram 2,1% e as importações tiveram queda de 9,6%.

 


Os números das contas nacionais mostram que a pandemia do coronavírus interrompeu o processo de lenta recuperação que vínhamos seguindo desde 2017, mas sugerem uma rápida recuperação em relação a queda causada pela própria pandemia. Para ter crescimento de longo prazo o governo precisaria investir nas reformas, algo que é cada vez mais claro que não vai acontecer. Continua valendo que se o governo partir para políticas de estímulos turbinadas por planos como o Pró-Brasil, Casa Verde e Amarela e uso de estatais podemos até ter bons números para o PIB em 2021, mas começaremos outra caminha em direção ao abismo. O descaso com o lado fiscal, ilustrado pelo não andamento do orçamento de 2021, pode cobrar um preço alto ainda no governo Bolsonaro. A disparada dos preços no atacado, levando junto o IGP-M, mostra que, além da recuperação do PIB, o governo deve se preocupar em evitar que a inflação chegue nos preços aos consumidores.

 

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Distribuição dos votos dos eleitores das capitais pelos diversos partidos

No post apresento e comento os dados referentes aos resultados das eleições para prefeitos das capitais dos estados brasileiros. Das vinte e cinco capitais que foram às urnas, Macapá ficou de fora por conta dos problemas com energia elétrica, sete já definiram seus prefeitos. Alexandre Kalil (PSD) foi eleito em Belo Horizonte com 63,36% dos votos válidos, Marquinhos Trad (PSD) foi eleito com 52,58% dos votos válidos de Campo Grande, Rafael Greca (DEM) teve 59,74% dos votos em Curitiba, Gean Loureiro (DEM) teve 53,46% dos votos em Florianópolis, Álvaro Dias (PSDB) ganhou com 56,58% dos votos em Natal, Bruno Reis (DEM) teve 64,20% dos votos de Salvador, em Palmas, que não tem segundo turno por ter menos de duzentos mil habitantes, Cinthia Ribeiro (PSDB) ganhou com 36,24% dos votos válidos. Nas demais capitais só conheceremos os prefeitos após o segundo turno. Considerando os prefeitos já eleitos nas capitais o DEM está na dianteira com três prefeitos, seguindo pelo PSD e PSDM com dois prefeitos cada.

Goiânia e Curitiba tiveram dezesseis candidatos cada e foram as capitais com maior número de candidatos à prefeitura. A capital com menos candidatos a prefeito foi Rio Branco com sete candidatos. Das cinco capitais mais populosas a que teve mais candidatos foi Belo Horizonte, 15, seguida pelo Rio de Janeiro, 14, São Paulo, 13, Fortaleza, 11, e Salvador, 9. A figura abaixo mostra o número de candidatos a prefeito em cada capital.

 


O PSOL foi o partido com mais candidatos a prefeitos nas capitais, 22, depois aparece o PT com 20 e o PSTU com 16 candidatos. O MDB aparece em quarto com 14 candidatos e o PCO em quinto com 13 candidatos. A curiosa presença do PCO e do PSTU na lista dos cinco partidos com mais candidatos talvez mereça alguma atenção. Minha primeira impressão é que a listo mostra uma estratégia da extrema esquerda de usas estruturas partidárias para divulgar ideias, em uma leitura positiva, ou abocanhar mais verbas do governo, em uma leitura que não é positiva, mas talvez seja mais realista.

 


O quadro muda completamente quando consideramos os votos dos partidos nas capitais. O partido que mais recebeu votos, foram considerados todos os candidatos listados pelo TSE, foi o DEM, com pouco menos de 2,69 milhões de votos. Na sequência aparecem PSDB, cerca de 2,45 milhões de votos, PT, 1,73 milhões de votos, PSOL, 1,70 milhões, e REPUBLICANOS, 1,48 milhões. O PCO, apesar de ser o quinto partido em número de candidatos, teve pouco mais de três mil votos nas capitais ficando à frente apenas do PMN, que teve dois candidatos, e do PDB, que teve apenas um candidato. O PSTU ficou um pouco melhor que o PCO, os dezesseis candidatos do partido tiveram somados 16,4 mil votos, pouco mais da metade dos votos dos dois candidatos do PTB.

 


A capital onde o DEM teve mais votos foi o Rio de Janeiro onde Eduardo Paes teve cerca de 975 mil votos, um número de votos maior que os de Bruno Reis que levou Salvador com 64,2% dos votos (cerca de 780 mil votos). O maior número de votos do PSDB foi em São Paulo com Bruno Covas (1,75 milhões), a capital paulista também deu o maior número de votos para o PSOL, Guilherme Boulos com cerca de 1,08 milhões, e para o PT, Jilmar Tatto com 462 mil votos. O REPUBLICANOS, assim com o DEM, teve sua maior votação no Rio de Janeiro com Marcelo Crivella (577mil).

Os votos nas capitais reforçam a ideia de que o PSOL está em condições de desafiar a hegemonia do PT na extrema esquerda (se não gostou do termo pode substituir por esquerda bolivariana, esquerda democrática e popular ou qualquer nome que diferencie o PT e suas antigas linhas auxiliares de uma esquerda no estilo dos tucanos ou do PSB). A dificuldade do PT com os eleitores das capitais também aparece nos apenas dois candidatos do partido que disputam segundo turno, Marilia Arraes em Recife e João Coser em Vitória, com chances reais do PT ficar fora das prefeituras em todas as capitais do país.

Não sei o quanto esses resultados podem influenciar nas eleições de 2022. Os protagonistas da corrida presidencial em 2018 ficaram apagados nas capitais, se os problemas de Bolsonaro não aparecem nas figuras do post é porque o Presidente sequer tem um partido. Por outro lado, creio que é razoável concluir que o resultado das eleições mostram que os eleitores das capitais perderam o encanto com o projeto de poder do PT, que quase fez de Lula um Perón brasileiro, e de Bolsonaro, que nunca me pareceu capaz de ir muito além do que chegou em 2018. Isso é bom!