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Teto de gastos, investimentos da União e a estranha tese dos que dizem que as consequências vêm antes.

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Nas últimas semanas ganhou destaque na imprensa a tese que o governo deveria flexibilizar o teto de gastos de forma a excluir os investimentos. Os autores da tese, creio eu, acreditam que essa é uma medida importante para tirar o país da crise. Parece justo supor que para a tese fazer sentido duas relações de causalidade devem valer pelo menos em algum grau: (i) o teto de gastos é responsável pela queda do investimento público e (ii) o aumento do investimento público vai tirar o país da crise. Longe de mim tentar estabelecer relações de causalidade em macroeconomia em um post, mas creio que dá para jogar um pouco de luz nas duas relações de causalidade a partir dos dados de investimento público e da máxima acaciana que “as consequências vêm sempre depois”.
Para conseguir a série de investimento público usei os dados disponíveis na página Tesouro Nacional Transparente (link aqui) com os gastos em investimento da União para os poderes executivo, legislativo e judiciário. Os dados mensa…

A nova divisão do infame Fundo Eleitoral

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O Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) para 2020 prevê R$ 2,5 bilhões para o Fundo Eleitoral. O valor representa um aumento de 47% em relação a 2018 (link aqui) e vai tornar o Fundo Eleitoral ainda mais escandaloso. Em tempos de cortes generalizados de gastos e ameaças de novos tributos todos os dias é um escarnio com os pagadores de impostos aumentar o infame fundo para financiar campanhas em cerca de R$ 820 milhões. Para que o leitor tenha ideia de grandeza o problema das bolsas do CNPq para este ano seria resolvido com R$ 330 milhões (link aqui), menos da metade do aumento do Fundo Eleitoral para o próximo ano.
De acordo com as regras vigentes a divisão dos R$ 2,5 bilhões será feita a partir do número de deputados eleitos com por cada partido. O maior aumento vai para o NOVO que recebeu R$ 980 mil em 2018 e vai receber R$ 45,3 milhões em 2020, vale destacar que o NOVO foi contra o aumento e se recusa a receber o dinheiro do fundo. O segundo maior aumento vai para o PSL, o part…

Contas Nacionais do segundo trimestre de 2019: Stay cool e siga com as reformas.

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As contas trimestrais divulgas pelo IBGE trouxeram um surpreendente crescimento do PIB, enquanto as expectativas apontavam para um crescimento de no máximo 0,2% ou mesmo queda o número apurado mostrou um crescimento de 0,4% em relação ao trimestre anterior. A notícia é boa, mas não é para soltar fogos. O cenário é de recuperação lenta, isso é bom dado que nas contas referentes ao primeiro trimestre havia uma ameaça de novo mergulho da economia em uma recessão. Também é bom evitar a tentação de creditar o resultado a expectativas positivas por conta da agenda de reformas que está andando, ainda é cedo para isso.
A figura abaixo mostra o crescimento do PIB em comparação com o trimestre anterior e com o mesmo trimestre do ano anterior. Fica claro o padrão de recuperação lenta, aqui cabe lembrar que, ao contrário de alguns colegas de profissão, eu não considero que a recuperação lenta seja um problema, pelo contrário, uma recuperação rápida provavelmente seria a construção de uma nova cr…

Uma contribuição à causa contra a volta de um imposto sobre transações

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Nos últimos meses vários economistas se manifestaram a respeito da volta de um imposto sobre transações nos moldes da infame CPMF. Vídeo do Marcos Lisboa na Globonews com críticas duras e consistentes ao imposto sobre transações (link aqui), Armínio Fraga declarou à Jovem Pan que “Qualquer imposto na linha do CPMF é um lixo” (link aqui), Bernardo Appy não poupou de críticas a proposta de Imposto Único sobre Transações Financeiras que corretamente classificou como desastrosa (aqui e aqui), Affonso Pastore, no Estadão, chamou impostos na linha da CPMF de “esparrela simplista” (link aqui) e, finalmente, Maílson da Nóbrega, na Veja fala de tributo disfuncional (link aqui). A lista pode crescer com mais tempo no Google, na Folha tem textos do Marcos Lisboa que não cito porque não tive acesso e não pude ler.
Empenhado em seguir colecionando avaliações a respeito de impostos sobre transações saí do Google e fui para o Ideas/Repec (link aqui) procurar textos acadêmicos. O mais recente que en…

Uma nota a respeito da queda da indústria de transformação no PIB

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A forte queda da participação da indústria de transformação no PIB quando comparada a outros países parece estar voltando a ser assunto, se é que algum dia deixou de ser. Como em tantos outros casos o problema central é escolher o grupo comparação. Quem são nossos pares? Alguns gostam de responder essa pergunta olhando para OCDE, outros para a Ásia por conta do desempenho econômico de países emergentes nessa região.
Países da Ásia de fato tiveram um crescimento impressionante da economia como um todo e da indústria nas últimas décadas. Alguns creditam esse desemprenho a políticas industriais e coisas do tipo, o problema é que por aqui também tivemos essas políticas e não tivemos os mesmos resultados da Ásia. Talvez seja mais frutífero procurar aa razões para diferenças em fatores que não tivemos por aqui, por exemplo, o salto na educação e as altíssimas taxas de poupança. Mas isso é conversa para outro post, por agora quero apenas saber com quem comparar o Brasil para avaliar o dese…

O principais desafios para a competitividade brasileira segundo o relatório anual sobre competitividade global

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Um dos desafios para a retomada do crescimento é tornar a economia brasileira mais competitiva. O Brasil ficou na septuagésima segunda posição no ranking da última edição do “The Global Competitiveness Report” (link aqui), o ranking (link aqui) é elaborado pelo Fórum Econômico Mundial (link aqui) e que considera várias dimensões relativas à competitividade de cento e quarenta países. Não chega a ser um desastre, mas é preocupante. Para o leitor ter uma ideia o México ficou na quadragésima sexta posição e a Colômbia ficou na sexagésima posição, logo acima do Brasil está Montenegro e logo abaixo a Jordânia. Temos trabalho a fazer.
Para entender o problema da competitividade no Brasil vou fazer alguns posts analisando os indicadores usados para avaliar os diversos países. A nota de cada país é composta por doze pilares que por sua vez são divididos em vários indicadores. Neste post vou comentar o desempenho do Brasil nos doze pilares, os posts seguintes serão dedicados a cada um dos pil…

Ainda não é o primeiro semestre de 2003, mas já podemos falar em ajuste fiscal.

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Com dados relativos a seis meses de governo já é possível dar uma primeira olhada no comportamento da despesa e verificar o esforço de ajuste fiscal do time do Paulo Guedes. No primeiro semestre de 2019 o governo gastou R$ 653,8 bilhões com despesas primárias em valores correntes, se for ajustado pela inflação o gasto foi de R$ 658,4 bilhões em valores de junho de 2019. Com os devidos ajustes o gasto no primeiro semestre corresponde 47,26% do total permitido pelo teto de gastos, um número preocupante se considerarmos que a despesa no segundo semestre costuma ser maior do que no primeiro semestre.
Considerado o período de 1997 a 2018 a despesa do segundo semestre foi em média 18% maior que a do primeiro semestre, se considerarmos apenas o período posterior a 2014 esta proporção cai para 13%. Desta forma a valer a proporção mais recente o governo está em cima do teto, não pode nem piscar, a valer a proporção do período inteiro o governo está acima do teto e vai precisar de mais ajuste…