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terça-feira, 9 de agosto de 2022

O preço dos alimentos subiu em julho, mas a variação do IPCA foi negativa.

Este mês o IPCA teve variação negativa, a turma das redes sociais já saiu para festa ou ataque de acordo com as cores políticas de cada um. De um lado parecem esquecer que a queda no IPCA foi por conta de uma intervenção para lá de polêmica da União nos impostos cobrados pelos estados. O custo da intervenção pode cair no colo da União mais cedo do que se pensava agravando o problema fiscal. A última vez que vi quatro estados (Alagoas, Maranhão, São Paulo e Piauí) já tinham conseguido liminares do STF para suspender pagamentos da dívida com a União por conta das perdas com a redução do ICMS. Do outro lado, há quem fale dos perigos da deflação e coisas do tipo. Não apenas esses perigos, se é que existem mesmo, podem ser bem menores do que apregoam alguns caros colegas de profissão como o que aconteceu um julho está longe de ser um episódio típico de deflação.

Uma olhada nos grupos que forma o IPCA ajuda a entender o que está acontecendo. A figura abaixo mostra cada um dos nove grupos ordenados do de menor para maior variação, em azul escuro está o índice geral. No grupo “Alimentação e bebidas” o crescimento foi de 1,3%, acima do crescimento de 0,8% em junho, outro grupo com crescimento maior do que 1% no mês foi o de “Despesas pessoais” que cresceu 1,13% em julho contra 0,49% em junho. Os grupos “Vestuário”, 0,58%, e “Saúde e cuidados pessoais”, 0,49%, também mostraram crescimento alto e preocupante.

 


Na outra ponta é possível ver a forte queda nos grupos “Transportes” e “Habitação”, as duas quedas estão diretamente relacionadas à marretada nos preços via corte de impostos com direito a lei obrigando postos a mostrar a variação nos preços no melhor estilo fiscais do Sarney. Uma olhada nos componentes do grupo “Habitação” deixa isso claro, itens como “Aluguel e taxas”, 0,86%, e “Condomínio”, 0,61%, tiveram altas significativas em julho, mesmo assim o grupo teve variação de -1,05% por conta da forte queda em “Combustíveis e energia” que caiu 4,26% por conta da queda de 5,78% em “Energia elétrica residencial”. Da mesma forma, a queda de 4,51% em transportes foi puxada pela queda de 14,15% em “Combustíveis (veículos)”. A análise dos grupos e subgrupos do IPCA deixa claro que a redução de preços em julho está mais relacionada à intervenção pontual do governo do que a uma redução dos desequilíbrios macroeconômicos que fizeram a inflação disparar em primeiro lugar.

São conhecidos os perigos de vender ilusão em economia. Friedman dizia que a inflação é sempre e em qualquer lugar um fenômeno monetário, Sargent mostrou que a origem desse fenômeno costuma estar em desequilíbrios fiscais. Redução de impostos, ainda que bem-vindas, não resolvem nem o problema monetário nem o fiscal. Na pior das hipóteses o corte de impostos agrava o problema fiscal nos fazendo trocar um imposto muito ruim, ICMS sobre combustíveis, pelo pior de todos os impostos que é a inflação. Na melhor das hipóteses o BC consegue controlar a inflação, mas ao custo de taxas de juros ainda maiores do que as que prevaleceriam em uma situação de melhor equilíbrio fiscal.

De toda forma, se o governo está convencido que inflação é doença dos preços e não da moeda, sugiro uma medida para limitar impostos sobre a melancia. Vocês acreditam que o preço da danada subiu 31,26% em julho? Só podia ser vermelha por dentro...

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Inflação no Brasil e nos países do G20

Resolvi dar outra olhada na inflação pelo mundo, os dados estão no Trading Economics (link aqui). Na grande maioria dos países a inflação acumulada em 12 meses está abaixo de 10%. Nas Américas, apenas Venezuela, 2.720%, Suriname, 59,8%, Argentina, 51,4%, Haiti, 12,2%, e Brasil, 10,25%, estão com inflação acima de 10% no acumulado de 12 meses. No México a inflação acumulada em 12 meses é de 6%, na Colômbia, aqui do lado, é de 4,51%, no Chile está em 5,3%. Não vou falar da Bolívia com 0,18%, até agosto, e do Equador com 1,07% para não me acusarem de chutar na canela.

A figura abaixo mostra a inflação acumulada em 12 meses nos países do G20. A maioria dos dados são referentes a setembro de 21, alguns outros são de agosto e apenas a Austrália é junho. Apenas Argentina, Turquia e Brasil estão com inflação acima de 10%.


 A inflação no Brasil já passou de 10% no acumulado de 12 meses outras vezes. O pior caso desde a estabilização foi de 17,3% em maio de 2003, o mais recente foi 10,4% em fevereiro de 2016. Nas duas vezes o Banco Central retomou o controle e a inflação voltou para o intervalo da meta, da última vez voltou bem rápido. É verdade que nos dois casos uma mudança de governo deu “vida nova” ao BC e isso pode ter facilitado a controle da inflação. Nada indica que vamos ter mudança de governo nos próximos meses e esperar até uma possível mudança em 2023 pode ser uma espera muito longa.

A boa notícia é que o atual BC parece ainda ter a confiança do mercado e tem gente de qualidade para correr atrás do prejuízo. A má notícia é que as eleições no próximo ano podem aumentar a pressão para aliviar o ajuste dos juros. Talvez seja a hora de descobrir se a autonomia do Banco Central vai dizer a que veio. Um perigo que me deixa particularmente preocupado é alguém sacar a obrigação de perseguir o pleno emprego, cavalo de Tróia na lei da autonomia do BC, para tentar intimidar o Copom.

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

É prudente guiar a política monetária pela expectativa de inflação para o ano seguinte?

Tenho visto alguns analistas de mercado e pessoas do BC argumentando que a inflação deste ano já era, mas as previsões de inflação para 2022 estão dentro do intervalo da meta. Não que eu goste de ser chato (mentira, eu gosto), mas tenho lá minhas dúvidas se expectativas para inflação do ano seguinte são um bom guia para política monetária. Por conta dessa dúvida resolvi dar uma olhada no Relatório Focus para dar avaliar a relação entre expectativa de inflação na última semana de agosto de cada ano e a inflação do ano seguinte. Sei que já estão disponíveis dados para setembro, mas, como além de chato sou velho, guardo os dados do Focus em uma planilha Excel com a última semana de cada mês. Um dia vou atrás de usar os pacotes do R que pegam dados do Focus, até lá sigo com minha velha planilha.

A figura abaixo mostra a previsão de inflação na última semana de agosto e a inflação do ano seguinte. A relação é positiva, mas não impressiona muito. Em uma regressão entre as duas variáveis não foi possível rejeitar a hipótese que não existe relação entre previsão de inflação no ano anterior e inflação no ano seguinte, o coeficiente estimado deu 1,12 (positivo, como é possível ver na figura), mas o p-valor foi de 0,172. Em português isso significa que a previsão de inflação na última semana de agosto não ajuda a saber quanto vai ser a inflação no ano seguinte. A correlação entre as duas variáveis é 0,33, usando o teste t padrão do R não foi possível rejeitar a hipótese que a correlação seja zero. O intervalo de confiança para a correlação vai de -0,15 a 0,68, repare que o zero está no intervalo.


Alguns exemplos podem ilustrar o problema para amigos que não ficam confortáveis com estatísticas e coisas do tipo. Na última semana de agosto de 2001 o Focus previa inflação de 4,5% em 2002, a inflação de 2002 foi 12,5%. Para quem não lembra, 2002 foi o ano da primeira eleição do Lula. Outro ano complicado em que a inflação passou de 10% foi 2015, naquele ano a inflação foi de 10,6%, na última semana de agosto de 2014 a previsão do Focus para inflação de 2015 foi de 6,3%. Em tempos problemáticos o ajuste das expectativas pode demorar, por exemplo, na última semana de agosto de 2002 o Focus previa 5% de inflação para 2003, deu 9,3%. Na última semana de agosto de 2003 a previsão para inflação de 2004 foi de 6,2%, deu 7,3%, só em 2004 as coisas começaram a se arrumar. Se alguém ficou curioso, informo que mesmo tirando 2002 e 2015 da amostra não foi possível rejeitar a hipótese que a correlação entre a previsão de inflação na última semana de agosto e a inflação do ano seguinte é zero.

Não é difícil perceber que estamos em um período de alta incerteza. Como vimos, em tempos assim é extremamente arriscado confiar nas estimativas de inflação para o ano seguinte. A figura abaixo mostra as previsões de inflação para 2021 entre janeiro de 2020 e agosto de 2021, a série começa em 3,8% e termina em 7,3%. É muito provável que a inflação de 2021 fique acima 7,3%, de fato, na primeira semana de setembro deste ano a expectativa de inflação já estava em 7,6%.


Torço muito para a pandemia ser controlada de forma que 2022 tenha menos incertezas que 2021 e 2020, o que deve facilitar as previsões. Mesmo assim, as eleições devem garantir um bocado de incerteza no próximo ano. A figura abaixo mostra a previsão de inflação para 2022 durante este ano de 2021. Como podem ver, essa projeção mês após mês, o que é mais um indício de não ser um bom guia para política monetária. 


O post termina repetindo um apelo que venho fazendo há um bom tempo. A mudança de regime trazida por Paulo Guedes, de juros altos/câmbio valorizado para juros baixos/câmbio desvalorizado, somada à incerteza trazida pela pandemia comprometem o uso de modelos econométricos (talvez mais ainda os DSGE) para prever inflação e outras variáveis macroeconômica. As relações estimadas no passado não mais valem para o futuro, um exemplo é o efeito do câmbio na inflação que o BC (e boa parte do mercado) dizia não ser um problema e agora é usado para explicar a alta da inflação.

O comprometimento dos modelos coloca o BC como um piloto voando sem instrumentos, é preciso usar o máximo de prudência. Está cada vez mais claro que estamos em uma crise de oferta, nesses casos a teoria ensina que uma política monetária expansionista tem pequeno (ou nulo) efeito no desemprego e aumenta a inflação. Um mínimo de prudência faria o BC parar com o estímulo monetário, infelizmente tudo indica que um mínimo de prudência é pouco.

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Inflação em 12 meses nos grupos que compõem o IPCA

Post rápido só para mostrar a inflação em cada um dos grupos que compõem o IPCA. Em quatro dos sete grupos a variação do IPCA acumulada em 12 meses está acima do teto da meta para 2021, em um está acima do centro da meta e abaixo do teto e em dois grupos está abaixo do centro da meta. É isso.





terça-feira, 10 de agosto de 2021

Inflação no Brasil comparada com a dos países do G20 e das Américas

A inflação no Brasil está alta. Pelos padrões definidos pelo Conselho Monetário Nacional a inflação medida pelo IPCA deveria ser 3,75% com tolerância até 5,25%, a inflação acumulada em 12 meses até julho deste ano é 8,99% e a previsão de inflação pelo pessoal do mercado está em 6,88%. Por qualquer critério é justo dizer que o BC não está conseguindo cumprir com a obrigação em relação ao controle da inflação.

Não é só no Brasil que a inflação está alta, nos EUA a inflação está em 5,4%, bem mais alta do que os 2% em média, não necessariamente no ano, prevista após a flexibilização do regime de metas em agosto de 2020. No resto do mundo, porém, encontramos países com valores mais baixos. De acordo com o site Trading Economics (link aqui) na Zona do Euro a inflação está em 2,2%, na China 1% e mesmo na Rússia está 6,46%, consideravelmente menor que os 8,99% do Brasil.

A figura abaixo mostra a inflação nos países do G20, o último dado é referente a junho ou julho de 2021. Apenas na Argentina. 52,2%, e na Turquia, 18,95%, a inflação está maior do que no Brasil. Mesmo com a Argentina puxando para cima a média das inflações dos países do G20 é de 6,01%, a mediana é 3%, a inflação por aqui está bem acima da média e muito acima da mediana. Aparentemente, mesmo que existam efeitos internacionais, não é razoável descartar os efeitos internos como, por exemplo, o BC ter reduzido demais os juros e segurado os juros baixos por muito tempo ou as aventuras fiscais do governo Bolsonaro.


 Caso o leitor esteja incomodado com o G20 ser usado como grupo de referência refiz a figura com os países das Américas, deixei de fora a Venezuela, por motivos, óbvios, e os países com último dado anterior a maio de 2021. Além da Argentina, apenas Suriname, 43,63%, Haiti, 12,7%, e República Dominicana, 9,32%, estão com mais inflação do que o Brasil. Mais uma vez, mesmo com Argentina e Suriname puxando para cima, a inflação do Brasil ficou acima da média dos países da América que estão na amostra, 7,41%. Também ficou acima da mediana que foi 3,94%.

 

Olhar para ouros países sugere que existe um componente interno na perda de controle da inflação no Brasil. Mal comparando, a situação lembra a que aconteceu em 2014/15 quando apontavam uma crise internacional para justificar o fraco desempenho da economia, mas os outros países cresciam bem mais do que o Brasil. É claro que desta vez existe uma crise internacional que explica, por exemplo, a queda do PIB em 2020, mas quem quer mandar a conta da inflação para o resto do mundo precisa explicar porque nossa inflação é tão mais alta do que a da maioria dos países do G20 e das Américas.

 

domingo, 1 de agosto de 2021

Em tempos normais a inflação aumentaria no segundo semestre, mas não estamos em tempos normais.

O padrão da inflação no Brasil é de queda até julho e subida a partir de agosto, esse padrão está associado a fatores não necessariamente relacionados à política econômica como safras e estações do ano, também pode ser afetado por reajustes salarias em algumas categorias e coisas do tipo. A figura abaixo mostra o padrão da inflação medida pelo IPCA no Brasil, são considerados três períodos: desde a estabilização (1996 a 2020), no século (2001 a 2020) e na década (2011 a 2020). A mudança significativa é que a subida em julho não está presente quando olhamos a década encerrada em 2020, não sei explicar por que o pico desapareceu, mas fica claro que a queda no primeiro semestre e subida no segundo semestre é um padrão presente em todos os períodos considerados.

 


A valer esse padrão a expectativa de aceleração da inflação a partir de agosto, mas talvez esse não seja o caso. Choques ou decisões de políticas econômicas podem fazer com a inflação de um determinado ano saia desse padrão. O fato de o desenho da curva não ser consequência da política econômica não quer dizer que a política econômica não possa mudar o desenho da curva. Confuso, eu sei, mas imagine que existe um padrão natural que pode ser alterado pela política econômica ou por choques que afetem a economia.

Um exemplo disso foi 2016, o ano do impeachment da Dilma. Segundo o padrão das médias, naquele ano a inflação deveria ter começado uma tendência de alta em agosto e chegado a dezembro mais alta do que em janeiro. Uma olhada na figura abaixo é suficiente para ver que isso não aconteceu, para facilitar o padrão das médias está na figura em azul escuro. Repare que não ocorreu a tradicional subida do segundo semestre. A razão provável é que a mudança no governo e política econômica levou a uma menor inflação esperada e isso jogou a curva para baixo. A subida que começou em setembro foi bem modesta.

 


Outro ano que saiu do padrão foi 2020, o choque da pandemia jogou a inflação para baixo já em abril e maio, nos dois meses a variação do IPCA foi negativa, a subida começa a partir de maio e é bem mais forte que a do padrão usual. Minha explicação para uma subida tão forte, mesmo com a pandemia e as restrições à abertura do comércio, foi a condução da política monetária que exagerou na redução dos juros e, mais importante, no tempo que segurou os juros muito baixos. Aqui vale uma nota: o BC se comporta como a maioria dos bancos centrais e usa juros como instrumento de política monetária, nesse sentido “aumentar os juros” é o equivalente do “reduzir a oferta de moeda” que aparece nos livros textos de macroeconomia. A figura abaixo mostra a inflação de 2020, mais uma vez o padrão médio da década aparece em azul escuro para facilitar a comparação.

 


O ano 2021 já começa como um ano fora de padrão. A segunda onda da pandemia mantém um alto nível de incerteza na economia e o BC começou uma reversão da política monetária com seguidos aumentos de 1% na meta para taxa Selic. A figura abaixo mostra a inflação em 2021 (até junho) e o padrão médio da década, a diferença é clara. Mesmo assim, tudo mais constante, acredito que o caminho natural seria uma elevação a partir de agosto ou, mais tardar, setembro, mas o “tudo mais” não está constante. A guinada na política monetária pode repetir 2016, sem a mudança de governo, e evitar, ou pelo menos suavizar muito, a elevação da inflação no segundo semestre. Para que isso aconteça é fundamental que sociedade acredite que o BC está disposto a dar um grande choque de juros se necessários for. 


Olhando de fora do BC e do mercado acredito que o atual ciclo de elevação não passa a mensagem que o BC está disposto a fazer o que for preciso para segurar a inflação, mas pode ser porque sou chato. Como bom botafoguense sigo dizendo que vai dar errado e, lá no fundo, torcendo (e até acreditando) que pode dar certo.

 

sexta-feira, 28 de maio de 2021

O IGP-M continua subindo muito!

A notícia que o IGP-M subiu 4,1% em maio deveria causar apreensão em todos que tenham algum interesse nos rumos da economia brasileira. Neste século apenas em três oportunidades o IGP-M subiu mais de 4% em um único mês. A primeira foi um aumento de 5,19% em novembro de 2002, as outras duas aconteceram nos últimos doze meses: 4,34% em setembro de 2020 e 4,14% e maio deste ano. No acumulado de doze meses o IGP-M atingiu a máxima do século, na verdade a máxima desde a estabilização.

O IGP-M é uma média de três índices: o IPA-M que mede os preços no atacado e responde por 60% do IGP-M, o IPC-M que mede os preços aos consumidores e responde por 30% do IGP-M e o INCC-M que mede os preços na construção civil e responde por 10% do IGP-M. O IPA-M é o responsável pela disparada do IGP-M, o índice que mede os preços no atacado acumula alta de mais de 50% nos últimos doze meses, outro recorde do século. A figura abaixo mostra o IGP-M e os componentes.

 


 

O aumento de preços estar muito concentrado nos preços no atacado leva alguns analistas a desprezarem o problema, não é difícil encontrar quem diga que esse aumento é passageiro e não vai chegar nos preços aos consumidores tomando por base relações estimadas durante a vigência de outro regime de política econômica, monetária e fiscal, e com menos incerteza do que vivemos atualmente. A dependência do comportamento econômico de empresas e famílias em relação à política econômica é bem conhecida dos economistas, o tema recebeu atenção de Robert Lucas, Thomas Sargent, Edward Prescott e Finn Kydland para ficar apenas nos que foram laureados com o Nobel. Um trecho no artigo “The End of Four Big Inflations” publicado pelo Thomas Sargent em 1982 resume essa ideia:

"Recent work in dynamic macroeconomics has discovered the following general principle: whenever there is a change in the government strategy or regime, private economic agents can be expected to change their strategies or rules for choosing consumption rates, investment rates, portfolios, and so on. The reason is that private agents' behavior is selfish, or at least purposeful, so that when the government switches its strategy, private agents usually find it in their best interests to change theirs. One by-product of this principle is that most of the empirical relations captured in standard econometric models cannot be expected to remain constant across contemplated changes in government policy regimes."

Voando sem instrumentos, pois a mudança de regime de política econômica e o brutal aumento de incerteza trazido pela pandemia tornaram os resultados obtidos por modelos econométricos pouco confiáveis, caberia ao BC ter adotado uma política de prudência. Não foi o que ocorreu, mesmo com a moeda derretendo e com os preços no atacado disparando o BC apostou que os preços aos consumidores ficaram blindados. No segundo semestre de 2020 estava claro que a inflação não ficaria baixa, ainda assim o BC segurou a Selic em inacreditáveis 2% ao ano. Quando finalmente resolveu ajustar, já em 2021, teve que correr com dois aumentos seguidos de 0,75% na Selic e muito provavelmente um terceiro está a caminho. Mesmo com os três aumentos a Selic vai ficar abaixo da inflação prevista para este ano, isso dá uma noção de quão baixa a Selic ficou e/ou de quanto a inflação está acima do que imaginava a vã filosofia dos que acreditavam que inflação não seria um problema.

O quadro descrito na figura deveria por um ponto final nas ilusões quanto a inflação. O IPC-M subiu mais de 7% nos últimos doze meses, o IPCA está próximo, é um valor muito alto ainda mais no meio de uma crise com desemprego crescendo. É cada vez mais urgente que o BC faça o que tem de ser feito para colocar a Selic pelo menos acima da inflação o quanto antes, sei que é difícil e a pressão será enorme, ainda mais com ano eleitoral chegando. Não acelerar o ajuste agora pode marcar Roberto Campos como mais um banqueiro central que entre inflação e desemprego escolheu a primeira e ficou com os dois.

 

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Boletim Focus aumenta expectativa de inflação para este ano. Voltamos ao padrão da época do governo Dilma?

O Boletim Focus divulgado hoje mostra que o “pessoal do mercado” mais uma vez atualizou para cima a expectativa de inflação para 2021. Começar com um valor baixo para inflação esperada e atualizar para cima durante o ano foi o padrão no governo Dilma. Em 2016, ano do impeachment, e nos dois anos do governo Temer o padrão ficou invertido: a expectativa de inflação começava alta e caia durante o ano. No governo Bolsonaro voltou o padrão de expectativas baixas (eu chamo de excesso de otimismo) no começo do ano e ajuste durante o ano. A figura abaixo ilustra esses padrões, note que por usar escalas diferentes no eixo vertical a figura não deve ser usada para comparar as expectativas de inflação de cada ano e sim a dinâmica destas expectativas em cada um dos anos.

 


Por que o Banco Central de Roberto Campos não consegue entregar a inflação igual ou menor do que a esperada pelo “pessoal do mercado” no começo de cada ano? Difícil responder. É fácil encontrar declarações de figurões do BC colocando a culpa no lado fiscal. De fato, a política fiscal é um problema, mas o BC não sabe disso? O quão razoável foi apostar a estabilidade do real em um ajuste fiscal no meio de uma pandemia e liderado por um governo com notória dificuldade em liderar? O quão razoável foi imaginar que uma moeda emitida por um dos países emergentes mais endividados do mundo e sem grau de investimento nas agências de risco atrairia investidores por ser uma espécie de porto seguro?

A verdade é que já faz algum tempo a política fiscal do Brasil é problemática, tentativas de ajuste fiscal são barradas pelos mais diversos lobbys. Com a chegada de Bolsonaro ao Planalto, a despeito dos desejos da equipe econômica, a situação piorou. Incapaz de gerenciar conflitos naturais em uma democracia o governo ficou refém de interesses pontuais e agora sequer consegue ter um orçamento. O problema é que a questão fiscal já deve estar embutida nas expectativas de inflação do começo do ano, é preciso entender qual foi a surpresa que levou o mercado a “errar para baixo” no começo de 2019, 2020 e, aparentemente, 2021. Alguém pode dizer que em 2020 teve a pandemia, não compro a tese, o efeito da pandemia foi de baixar a inflação como mostram os números do IPCA em abril e maio do ano passado, porém, mesmo que tenha sido a pandemia a surpresa ocorreu em março e até outubro as expectativas estevam bem abaixo da inflação que ocorreu em 2020.

Uma comparação de 2020 e 2018 pode ser didática. Em 2018 a greve dos caminhoneiros pegou o mercado de surpresa, a resposta foi um aumento da expectativa de inflação para aquele ano. O susto do mercado foi justificado, mas a política econômica soube controlar as expectativas e entregou uma inflação de 3,75%. Repare quem 2020 o movimento foi diferente, logo após o choque não houve um crescimento forte das expectativas de inflação. A reação inicial do mercado foi projetar que a pandemia levaria a uma queda na variação do IPCA. O que aconteceu?

Como disse acima é difícil explicar o que está acontecendo. O problema pode estar nas projeções do “pessoal do mercado” que parece insistir em ignorar a mudança de regime que ocorreu no governo Bolsonaro segundo o próprio Paulo Guedes. Para piorar a incerteza aumentou muito por conta da pandemia. Outra possibilidade é que política econômica, fiscal e monetária, tiveram uma melhor condução no governo Temer no sentido de surpreender o mercado com menos e não com mais inflação. Enfim deixo mais perguntas do que respostas, mas vale registrar que talvez seja o momento para o BC colocar a barba de molho. A barba da vizinha política fiscal já está pegando fogo faz tempo.

 

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Inflação no Brasil e em países selecionados

Sempre que falo de inflação aparece alguém dizendo que a inflação daqui está baixa ou que a inflação subiu no mundo todo por conta da pandemia. Por conta disso resolvi checar a inflação em outros países. Encontrei no site inflation.eu (link aqui), a inflação dos preços aos consumidores referente a 2020 para 38 países. A maior inflação ocorreu na Turquia, 14,6%, que ficou fora da amostra para não distorcer a figura. Depois da Turquia veio a Rússia com 4,91% e o Brasil com 4,52% fecha o grupo dos países da amostra com inflação acima de 4% em 2020. A figura abaixo mostra a inflação em cada país.


 Para os curiosos a média das taxas de inflação dos países da amostra, excluída a Turquia, foi 0,99% e a mediana foi 0,56. Doze países tiveram redução nos preços aos consumidores em 2020. Olhando para os países da América Latina presentes na amostra o México ficou com 3,155 de inflação e o Chile com 2,97%. A China, que muita gente gosta de apontar como exemplo de política econômica, teve 0,27% de inflação em 2020.

Enfim, a comparação da inflação no Brasil com a dos outros países da amostra não permite afirmar que a inflação de 2020 foi baixa. Se considerarmos as taxas de inflação medidas pelo IPCA nos últimos a de 2020 foi a maior desde 2016 (2,95%, 3,75%, 4,31% e 4,53% para 2017, 2018, 2019 e 2020, respectivamente), ano que a inflação sofreu influência do desastre do governo Dilma. É isso.

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Faz sentido as compras do mês estarem tão mais caras e a inflação tão baixa?

Basta ligar a TV no horário de algum jornal para termos notícia do aumento dos preços nos supermercados pelo Brasil, ainda assim a inflação acumulada no ano medida pelo IPCA está em menos de 1%, para ser preciso em 0,7%. Se “tudo” fica mais caro como pode a inflação estar tão baixa? Isso acontece porque a inflação é uma média de preços e, por incrível que pareça, nem tudo está ficando mais caro.

Essa é uma questão que aparece todo ano, mas neste ano ganhou mais força por conta da pandemia. Com as medidas de isolamento o padrão de consumo mudou de forma que estamos consumindo mais alimentos, grupo com grande aumento de preços, e menos transportes, grupo com queda de preços, o resultado é que a inflação do que realmente consumimos fica maior do que a inflação captada pelo IPCA. O fenômeno acontece em outros países, Alberto Cavallo, da Harvard Business School, avaliou as mudanças no consumo em vários países e constatou que, via de regra, a inflação do que consumimos na pandemia é maior do que a inflação medida com cestas de consumo tradicional (link aqui).

Se detalharmos o IPCA fica mais fácil entender o fenômeno. Para calcular a variação dos preços o IPCA considera nove grupos: Alimentação e bebidas (peso 20,05); Habitação (peso 15,64), Artigos de residência (peso 3,74); Vestuário (peso 4,45); Transportes (peso 19,64); Saúde e cuidados pessoais (peso 13,62); Despesas pessoais (peso 10,70); Educação (peso 6,39) e Comunicação (peso 5,8). O peso de cada grupo representa o quanto os bens e serviços do grupo pesam no orçamento de uma família média de acordo com o público alvo do índice que são famílias com renda de um a quarenta salários mínimos que vivem nas regiões metropolitanas selecionadas. A figura abaixo mostra a variação dos preços de cada grupo no acumulado do ano.


 Em 2020 os preços do grupo Alimentação e bebidas aumentou 4,91%, é muito, para comparação a meta de inflação para todo o ano de 2020 é de 4%. Por outro lado, o grupo de transportes teve queda de 3,46% no acumulado do ano, ou seja, está mais caro comer e está mais barato sair de casa. Ocorre que continuamos comendo e estamos saindo bem menos de casa, por isso o aumento de preços percebido, alguém pode dizer relevante, é maior que o medido pelos índices de preços aos consumidores como é o caso de IPCA.

Para ilustrar melhor o fenômeno a figura abaixo mostra o aumento de preços acumulado no ano para cada subgrupo do IPCA. O maior aumento ocorreu em Joias e bijuterias que é um subgrupo com peso baixo, apenas 0.21, no orçamento, a maior queda ocorre em Móveis e utensílios que tem peso 1,70 no orçamento. Se consideramos os subgrupos mais relevantes o que tem mais impacto é Transportes (peso de 19,64) que teve queda de preços de 3,46% em 2020, o que puxa o IPCA bem para baixo. Por outro lado, o subgrupo com segundo maior peso é Alimentação no domicílio (peso 14,07) com aumento de 6,10% no acumulado do ano. É esse aumento preços que sentimos nos supermercados.

 

Desagregar mais do que subgrupos talvez atrapalhe mais do que ajude no ponto desse post, os interessados podem checar os dados do IPCA do IBGE para os 51 itens e 377 subitens do IPCA. Aqui vou abrir os itens do grupo “Alimentação e bebidas” e os subitens do grupo “Transporte”. A escolha dos grupos foi por ocuparem os extremos, maior aumento e maior queda de preços. A razão de um ser avaliado por itens e outro por subitens é que o primeiro tem 17 itens e 168 subitens enquanto o segundo tem 3 itens e 28 subitens.

No grupo Alimentação e bebidas o maior aumento de preços no acumulado do foi de 20,77% ocorreu no item “Tubérculos, raízes e legumes”, seguido por 18,87% no item “Cereais, leguminosas e oleaginosas” e 13,86% no item “Frutas”. O único item do grupo com queda de preços no acumulado do ano foi “Carnes” com queda de 1,89%, desta forma se o leitor for vegetariano o aumento de preços está ainda pior do que para quem como carne. A figura abaixo ilustra esses dados. Só para atiçar a curiosidade do leitor informo que o subitem com maior aumento de preços no ano foi “Manga”, crescimento de 61,63%, a maior queda foi no subitem “Abacate”, 22,49%, seguido por “Filé-mignon” com queda de 18,44%, a turma do churrasco talvez queria saber que a “Alcatra” e “Contrafilé” tiveram queda de 12,31% e 8,31%, respectivamente, no acumulado do ano.

 

No caso do grupo “Transportes” dos itens tiveram queda de preço e um teve aumento no acumulado do ano. As quedas ocorreram em “Transporte público”, 12,57%, e “Combustíveis (veículos)”, 6,61%, enquanto o aumento ocorreu em “Veículo próprio” e foi de 0,96%. Como o grupo não tem muitos subitens deu para listar a variação de preços acumulada no ano para cada um dos subitens, o resultado está na figura abaixo. A grande queda de preços, 57,86%, ocorreu no subitem “Passagem aérea” seguida pela queda de 23,89% em “Transporte por aplicativo”. Também tiveram quedas de preços o etanol, os seguros voluntários de veículos, o óleo diesel, o aluguel de veículos, os ônibus interestaduais, a gasolina, o gás veicular e os automóveis usados. Os preços dos pneus aumentaram 5,5% no acumulado do ano, até aí sem grandes problemas, mas os aumentos de preços no metrô, 4,74%, transporte escolar, 4,13%, e ônibus intermunicipais, 3,14%, podem ter mais impacto nos bolsos de várias famílias.

 


Como o leitor pôde observar os preços dos diversos bens e serviços que compõem o IPCA tiveram comportamentos distintos neste ano, até aqui nada demais, o que parece ter causando confusão é a mudança de cesta de consumo por conta da pandemia que não está sendo devidamente considerada nos pesos do IPCA. Outra preocupação legítima é se o aumento de preços em alguns grupos vai acabar chegando nos outros grupos. É normal que os diferentes preços tenham comportamentos distintos, ainda mais diante de um choque tão forte quando a pandemia de Covid-19. Destes movimentos que aparecem as variações nos preços relativos que guiam o mercado. Se a política monetária for bem conduzida a história acaba aqui sem maiores consequências, do contrário pode ocorrer uma corrida de preços que alimenta um processo inflacionário. A disparada dos preços no atacado (ver aqui), que não entram em índices de preços aos consumidores como o IPCA, pode ser muito mais perigosa para acionar um processo inflacionário do que a forte subida nos preços dos alimentos, mas nada que uma boa política monetária não possa resolver. A bola está com Roberto Campos e a turma do Banco Central, alô rapaziada, prestem atenção que o jogo é sério e a tal capacidade ociosa sozinha não vai dar conta de garantir o resultado.

 

 

domingo, 9 de agosto de 2020

Uma nota sobre os preços no atacado e os preços ao consumidor

Um fenômeno que tem chamado atenção nos últimos meses é a diferença entre a inflação medida pelo Índice Geral de Preços (IGP) da FGV e o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) do IBGE. Tomando como referência o IGP-DI (o DI significa disponibilidade interna, uma medida que não considera os preços dos produtos exportados), a inflação acumulada este ano até julho foi de 6,97%, pelo IPCA a inflação acumulada no mesmo período foi de 0,46%. O fenômeno não é exatamente novo, em 2018 a inflação foi de 7,10% pelo IGP-DI e de 3,74% pelo IPCA enquanto em 2019 o IGP-Di teve uma variação de 7,67% contra 4,30% do IPCA. O contrário também acontece, em 2017 a inflação foi de -0,42% pelo IGP-DI e de 2,94% pelo IPCA. A figura abaixo mostra o acumulado dos dois índices desde janeiro de 2011.

 Repare que até 2014 os dois índices andam bem próximos, depois há uma queda do IGP-DI em relação ao IPCA. Em 2018 o IGP-DI começa a crescer mais que o IPCA, esse crescimento pode ser visto como uma “recuperação” das perdas nos anos anteriores. No começo de 2019 a diferença é compensada e, pela primeira vez na década, o IGP-DI começa a descolar para cima do IPCA.

Se algum apressado pensou em culpar o IBGE ou a FGV pela diferença, é melhor esquecer. A diferença é explicada pelo comportamento dos preços no atacado que correspondem a 60% do IGP-DI e que não entram no IPCA que, afinal, é um índice de preços aos consumidores. Para mostrar a diferença entre preços no atacado e aos consumidores vale dar uma olhada nos índices que compõem o IGP-DI. A maior parte do IGP-DI, precisamente 60%, vem do Índice de Preços no Atacado (IPA), depois, com 30%, aparece o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) e, finalmente, com 10%, aparece o Índice Nacional da Construção Civil (INCC), todos calculados pela FGV. Como era de se esperar o IPC anda bem mais próximo do IPCA do que o IGP, em julho, por exemplo, o IPCA deu 0,46%. A figura abaixo mostra o IPC-DI e o IPCA, fica clara a proximidade dos dois índices.

 

A próxima figura mostra o IPA-DI, o IPC-DI e o INCC-DI entre janeiro de 2011 e julho de 2020. Nela é fácil ver que o crescimento dos preços no atacado não pode mais ser visto como uma compensação das “perdas” acumuladas desde o começo da década. A forte desvalorização do real provavelmente explica boa parte do aumento dos preços do atacado, mas essa desvalorização não chegou aos consumidores finais. Parte desse fenômeno pode ser explicado pela crise, parte pode ser pela já citada “compensação” do crescimento maior dos preços aos consumidores no começo da década.

 

A figura abaixo, com os mesmos índices da figura anterior agora com base em janeiro de 2017, mostra como os preços no atacado se aproxima e ultrapassam os preços ao consumidor.

 

A questão é saber se (ou quando?) os preços aos consumidores vão começar a subir para “compensar” as perdas dos últimos meses. A relevância da questão tem dois motivos que merecem destaque. O primeiro é que aumentos nos preços aos consumidores têm um impacto mais direto no poder de compra das famílias do que aumentos dos preços no atacado. O segundo é que o Banco Central ajusta a política monetária de acordo com o IPCA, uma medida de preços aos consumidores, de forma que um aumento desses preços deve (ou deveria?) levar a uma reação do Banco Central que não ocorreu com o aumento dos preços no atacado.

Como o Banco Central vai reagir a um possível aumento nos preços aos consumidores se esse ocorrer ainda no rescaldo da perda de poder aquisitivo por conta da crise e da pandemia é coisa que eu não dizer. Sei que, dado a inexistência de perspectivas algo parecido com equilíbrio fiscal nos próximos anos, a resposta do BC pode decidir o cenário macroeconômico na próxima década.

 

P.S. A tese que a recessão é condição suficiente para evitar inflação não resiste a uma olhada na Argentina de nossos dias, no Brasil da década de 80, em vários países na década de 70 ou em tantos outros casos de inflação alta ou hiperinflação registrados na história. Na sequência de um choque de oferta gigante como o que estamos passando a tese fica ainda mais descabida.

 

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

É a inflação! Uma olhada nas crises políticas e na inflação.

Várias pessoas estão confusas com a passividade da população diante dos escândalos envolvendo políticos que continuam aparecendo em doses semanais. Só nesta semana vimos um apartamento cheio de dinheiro que foi associado a um dos homens forte do presidente Temer, Dilma e Lula denunciados duas vezes pelo Procurados Geral da República e Palocci reforçando o imenso clube dos acusadores do ex-presidente que acreditou ter refundado o Brasil. Isso tudo e ainda nem saímos dos inquilinos do Palácio do Planalto. Podemos colocar ainda as autoacusações do dono da JBS e principal beneficiário das ações do BNDES, os rolos de um procurador que trabalhava diretamente com Janot e um sem número de outras denúncias, investigações e prisões. Em um certo momento parecia que até o STF ia entrar na dança.

Com tudo isso por qual razão não vemos o povo nas ruas? Não creio que exista uma resposta única, vários fatores de naturezas distintas devem ser considerados. Como um economista interessado em política vou tentar apresentar um fator que me parece relevante: a inflação. Muita gente considera o desemprego o maior flagelo econômico, de fato o desemprego é cruel, a perda de parte da renda de uma família pode ter efeitos devastadores e de longo prazo. Porém, por pior que seja, o desemprego atinge muito os que perderam o emprego e muito pouco, em alguns casos nada, os que continuaram empregados, a inflação, por sua vez, atinge todo mundo. Empregados, desempregados e mesmo os que estão fora da força de trabalho sofrem com a inflação. A conta do supermercado crescendo a cada mês enquanto o salário, a pensão, a bolsa ou qualquer que seja a renda da família fica no mesmo lugar é desesperador. Abandonar hábitos porque o salário não chega mais ao final do mês é duro.

Na década de 1950 Alvarenga e Ranchinho registram o drama da inflação cantando “Tá Tudo Subindo”, a música começava com os versos:
“Do jeito que nós vai indo 
Com as coisa tudo subindo
Eu num sei como há de ser
Pra falar a verdade, moço
Essa vida tá um osso
Bem duro da gente roer”
A inflação medida pelo IGP-DI foi de 13,4% em 1950, ano em que Vargas foi eleito, caiu para 11,4% em 1952 e depois disparou chegando a 21,6% em 1953 e 25,1% em 1954, até então o maior valor observado tinha sido 23,7% em 1946 com queda drástica em 1947 quando ficou em 2,2%. Dois anos seguidos acima de 20% era novidade, vale notar que neste mesmo período a crise política aumentou culminando no suicídio de Vargas em 1954. Na primeira grande política do pós-guerra lá estava a inflação, “as coisas tudo subindo” e vida transformada em osso duro de doer não estavam apenas vendo de camarote a queda de Vargas, talvez tenham até subido ao palco.

Saiu Vargas, entrou JK e inflação continuou a subir. A instabilidade política continuou, desde a posse JK conviveu com ameaças de rebelião, mas conseguiu terminar o mandato. O mesmo não pode ser dito dos sucessores dele, Jânio renunciou e João Goulart foi deposto. Em 1961, ano da renúncia de Jânio, a inflação passou pela primeira vez de 50% ao ano. Na sequência a inflação foi aumentando e a crise política foi se agravando. Em 1964 a inflação chegou a 86,5%, neste mesmo ano foi dado o Golpe de Estado que tirou Goulart do Planalto e iniciou um novo período na história brasileira. A população que tinha ido às ruas contra Goulart ficou em casa na sequência do Golpe, talvez aliviada com a queda inflação para 36,1% já em 1965.

Com uma ditadura no poder a pressão da população contra a inflação, não por acaso também conhecida como carestia, ficou mais difícil. Mesmo assim o governo se esforçou para controlar a inflação que, apesar de absurdamente alta, caiu para 16,3% em 1973. Em 1974, na sequência do Choque do Petróleo, a inflação pulou para 34,1%. Assim começava o governo Geisel, um governo em que a inflação aumentou enquanto ganhava força a revolta contra o regime, a abertura lenta e gradual talvez tenha ganho um empurrãozinho da inflação. Figueiredo começa seu governo em 1979 com inflação de 79%, muito alta, mas ainda menor que a de 1964. Durante o governo dele a inflação acelera e chega a 212% em 1983, mais que o dobro da de 1964. A transição lenta e gradual que já tinha virado anistia ampla, geral e irrestrita não foi mais capaz de segurar a população que foi para as ruas pedir “Diretas Já”, movimento que conquistou o país em 1984, ano que a inflação foi de 227%. Mais uma vez o povo na rua coincide com a disparada da inflação.

Chega a Nova República e a inflação aumenta cada vez mais rápido. O Plano Cruzado faz com que a inflação caia para 60,1% em 1986 e transforma Sarney numa espécie de Rei do Brasil. O amor se transforma em ódio quando a inflação volta e já em 1987 chega a 431%. Talvez a Assembleia Constituinte de 1988 tenha segurado os ânimos no ano que inflação chegou passou de 1000% pela primeira vez e os vários movimentos “Fora Sarney” que existiam na época tenham sido derrotados. Sarney termina o governo de forma melancólica e no seu lugar chega Collor, o primeiro presidente eleito pelo voto direto desde a década de 1960. Em março de 1990 Collor toma posse com um plano para lá de desastrado para combater a inflação, por desastrado que tenha sido o Plano Collor a inflação caiu de 1216% em 1990 para 496% em 1991, mas a queda foi breve, em 1992 a inflação já era de 1167% e o povo foi para as ruas puxado pelos jovens estudantes de caras pintadas e pediu a saída de Collor. Pediu e conseguiu, Collor, o primeiro presidente eleito diretamente desde a década de 60, sofreu um impeachment.

Itamar chega com pressão para acabar com a inflação, mas em 1993 a inflação chegou a 2851%. O governo Itamar estava ameaçado, inclusive com pedido de impeachment protocolado pelo PT. Dois impeachments seguidos pareciam demais e Itamar teve folego para chegar a 1994 com o Plano Real. Em 1994 a inflação foi de 908%, em 1995 foi de 15% e por muito tempo a inflação ficou abaixo de 15%. O resultado foi que Itamar elegeu FHC, que tinha sido ministro de Itamar e era visto como criador do Plano Real, no primeiro turno. Em 1998 FHC concorreu à reeleição, a inflação medida pelo IGP-DI era 1,83% ao ano, FHC foi novamente eleito no primeiro turno, feito que nem Lula no auge da popularidade conseguiu repetir. No segundo governo de FHC a inflação voltou, em 1999 o IGP-DI foi de 27%, a população começou a abandonar FHC e o PT entrou com pedido de impeachment. A primeira fase do Plano Real acabou, Armínio Fraga foi para o Banco Central e implementou o regime de metas de inflação, em 2000 o IGP-D tinha caído para 9,5% e o governo respirou. A folga foi breve, em 2002 a inflação voltou para 27% e o homem que ganhou duas eleições em primeiro turno não conseguiu fazer o sucessor e foi transformado em uma espécie de inimigo público pelo governo que o sucedeu. Mais uma vez a inflação alta andou junto com mudanças na política.

Lula chegou e priorizou o combate à inflação. Colocou Meirelles, um homem que vinha do mercado financeiro na presidência do Banco Central, e o bancou mesmo contra o Vice-Presidente da República no esforço de redução da inflação. Em 2005 a inflação foi de 1,4%, em 2006 foi de 3,6% e mesmo com o Mensalão nos jornais Lula foi reeleito. Em 2009 o IGP-DI tem o único valor negativo da série, é verdade que foi para 11,2% em 2010, mas muito desta variação estava ligada a ajustes da crise de 2008 e não chegou ao consumidor, naquele ano o IPCA foi de 5,9%. Lula faz sua sucessora e ela resolve colocar crescimento como prioridade. O resultado desastroso é conhecido por todos, o crescimento não chega a inflação cresce. Em 2015 o IGP-DI chega a 11,2%, desta vez a conta chegou no consumidor e o IPCA chega a 10,7%, a última vez que o IPCA tinha passado de 10% tinha sido em 2002, o ano que Lula foi eleito. Longe de uma mudança de governo e com a inflação em alta a população foi às ruas pedindo a saída de Dilma que, como Collor, sofreu impeachment. Mais uma vez a crise política andou junto com a inflação. A figura abaixo ilustra a histórica que contei, repare que uma das grandes crises políticas é precedida por um aumento significativo da inflação.




Antes que alguém tire conclusões apressadas reforço que não é objetivo desse post dizer que a inflação sozinha explica as grandes crises políticas. Bem mais modesto que isso o post tem como objetivo mostrar que inflação é um dos ingredientes que levam a grandes crises políticas. Talvez a falta desse ingrediente ajude a explicar porque Temer não é alvo de protestos de rua, se for verdade que fique de lição para os próximos presidentes.


segunda-feira, 31 de julho de 2017

Recessão, inflação e (dificuldade de estabelcer) causalidade em macroeconomia.

Estabelecer relação de causalidade em economia é uma tarefa difícil, em macroeconomia é praticamente impossível. Criar experimentos está fora de cogitação para macroeconomistas, restam os tais experimentos naturais que são raros e cheios de ruídos, com muita perseverança o pessoal coloca algumas variáveis instrumentais para conseguir dizer alguma coisa com um pouquinho de segurança. Mas é tudo muito frágil e fica ainda mais frágil quando lembramos que dados macroeconômicos são difíceis de medir, não raro é difícil até mesmo estabelecer uma relação entre o conceito que aparece nos modelos e a variável que foi usada na estimação. O caso do consumo é um clássico, vários autores usam séries de consumo em suas estimativas esquecendo que na maioria dos países, inclusive o Brasil, tais séries incorporam o consumo de bens duráveis enquanto os modelos são construídos para bens não duráveis. Edward Prescott e Finn Kydland, ganhadores do Nobel em 2004, escreveram um artigo crucial para quem se interessou pela questão (link aqui), não por acaso já em seu título o artigo aponta o descompasso entre medida e teoria e as medidas do ciclo de negócios.

Apesar dessa dificuldade em estabelecer relações de causalidade não são poucas as pessoas que afirmam categoricamente a existência de uma relação de causalidade entre crescimento e inflação. Basta você falar da queda da inflação que aparece alguém dizendo que a inflação por causa da recessão. Políticos, jornalistas, interessados em geral e mesmo alguns profissionais da área parecem considerar que a existência de uma relação causal entre inflação e desemprego é tão natural quanto a relação causal entre apertar o botão do elevador e o elevador parar no andar desejado. Me pergunto de onde vem tanta certeza diante do conhecimento da dificuldade de estabelecer relações causais em macroeconomia.

De nossa história recente não é, creio que antes da crise atual o período de crise mais forte que a maioria dos brasileiros tem recordação foi a década de 80, a infame década perdida. Naquela década vivemos uma inflação alta e crescente. A inflação medida pelo IGP-DI foi de 95% em 1981 a 1.216% em 1990 chegando a 2.012% em 1989. A memória da década de 80 nos levaria a crer que aumento a inflação aumenta durante as crises. Tal percepção poderia até ser reforçada pela experiência de 1990, quando a economia encolheu 4,25% e a inflação, como já vimos, foi de 1.216%. A memória recente também não sugere que recessão cause queda da inflação, basta ver o aumento da inflação que acompanhou a chegada da recessão lá por 2014.

Uma alternativa para explicar a crença generalizada que queda no crescimento causa queda inflação seria a existência de uma correlação positiva entre as duas variáveis. Nesse caso poderíamos imaginar que a experiencia da década de 90 e do começo da atual recessão são casos atípicos onde outros fatores fizeram com que a inflação subisse apesar da crise. Algumas teorias bem aceitas dariam suporte a esta tese, se bem que existe teoria para todos os gostos quando o assunto é a relação entre inflação e recessão. Com isso em mente peguei os dados de inflação e crescimento no Brasil disponíveis no Ipeada. Como eu queira o maior período possível escolhi a inflação medida pelo IGP-DI, que está disponível a partir de 1945.

A figura abaixo mostra o resultado de uma regressão entre o logaritmo de um mais a taxa de inflação e o crescimento, repare que a relação descrita na figura é negativa, quanto maior o crescimento menor é a inflação. Tomando por base essa figura alguém concluiria que crescimento alto causa inflação baixa, exatamente o contrário da ideia que a queda no crescimento causou a queda da inflação. Mas a conclusão estaria errada, primeiro porque a correlação não significa causalidade e depois porque a relação negativa não é significativa. Para não incomodar o leitor com conceitos de estatística basta pensar que a relação que aparece é mero fruto do acaso, afinal dificilmente seria exatamente zero, e que os dados não mostram relação entre inflação e crescimento.




Muita coisa aconteceu entre 1945 e 2013, mudanças na forma de mensuração do PIB e da inflação, manipulação de dados e mesmo a hiperinflação podem estar contaminando o resultado. Para minorar tais problemas fiz a mesma regressão com dados de 1996 a 2013, o ano de 2013 foi escolhido porque é o último da série longa disponível no Ipeadata, a figura abaixo mostra o resultado. Agora a relação ficou positiva, porém continua não significativa, o que reforça a tese que tanto a correlação negativa quanto a positiva encontrada resultam do acaso e não de uma relação entre inflação e crescimento.



Seria o Brasil uma exceção? Seríamos como o cara que come feito um desgraçado e, mesmo sendo sedentário, não engorda. Seríamos como um infeliz que sempre pega um elevador quebrado de forma que nunca consegue parar no andar desejado? Para tirar a dúvida recorri aos dados do FMI, peguei dados de inflação e crescimento para todos os países com mais de cinco milhões de habitantes em 2016 e com dados disponíveis para o período 1981 a 2016, excluí 1980 para não ter de tirar o Brasil da lista de países selecionados. Para cada país fiz a regressão entre inflação e crescimento dos 66 países da amostra, a figura abaixo mostra o resultado para 64 desses países. Retirei a Bolívia e a República Democrática do Congo porque os coeficientes estimados, respetivamente -20,2 e -15,9, estavam muito longe dos outros e distorciam a figura.



Dos 64 países que aparecem na figura apenas 15 apresentam relações significativas a 5% entre inflação e crescimento, desses apenas dois, Japão e Cingapura, apresentam relação positiva, em todos os outros que apresentaram relação significativa a relação foi negativa, ou seja, quanto maior o crescimento menor a inflação. O Brasil, como esperado da análise na primeira parte do post, não apresentou relação significativa. Se formos um pouco mais exigentes e pedirmos um nível de significância de 1% então apenas oito países apresentam relação significativa, das quais seis são negativas.

Se procurar por aí o leitor vai encontrar econometristas muito bem formados com estimativas muito bem-feitas mostrando que a correlação existe e é positiva, infelizmente também vai encontrar econometristas muito bem formados com estimativas muito bem-feitas mostrando que a correlação existe e é negativa. Se bobear vai encontrar até alguns econometristas, não sei dizer se tão bem formados, encontrando relações de causalidade entre crescimento e inflação. Caso o leitor for mais audacioso e procurar nos modelos teóricos vai encontrar de (quase) tudo sem precisar da lista de ganhadores do Nobel, tem modelos onde crescimento causa inflação, tem modelo onde inflação causa crescimento, tem modelo onde existe uma correlação e não existe causalidade e tem modelo onde ne mesmo correlação aparece.

Não creio que a crença generalizada seja por conta dos econometristas e macroeconomistas incríveis e seus modelos voadores, por mais incríveis que sejam os textos que essa turma escreve não costumam ser lidos por tanta gente assim, ademais está cheio de coisas que eles dizem com mais convicção que a relação entre inflação e desemprego e ninguém parece acreditar. Será que é porque políticos, empresários amigos e banqueiros costumam ficar felizes com uma inflação “um pouquinho mais alta”? Não, não deve ser, só de pensar nisso já me vejo ficando paranoico. Olhei os dados, escrevi o post e ainda não sei de onde vem tanta certeza que a recessão causou a queda da inflação, principalmente quando vejo que houve uma clara mudança de trajetória logo após a mudança de governo (link aqui), deve ser coincidência... ao leitor que teve paciência de ler até aqui, lamento, mas não deu para dizer de onde vem tanta certeza, talvez seja porque o Mantega falou.


quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Ainda sobre o IPCA de 2016... O ano em que voltou a ser permitido ser pessimista sem ser acusado de terrorista econômico.

Nos últimos anos ficou comum ver certos jornalistas, políticos e membros da equipe econômica do governo de plantão atacando economistas que faziam previsões que desagradavam o governo, a pancada era ainda mais forte nos jornalistas que divulgavam tais previsões. Quem desafiava o ridículo otimismo do governo ganhava títulos como terrorista econômico, inimigo dos pobres, inimigo do estado, serviçal da banca ou piadista. Em um dos pontos mais absurdos da perseguição chegaram a ensaiar a tese estapafúrdia que economistas forçavam a expectativa de inflação para cima como forma de forçar o aumento dos juros, em um dos pontos mais patéticos criaram a figura do pessimildo.

O curioso é que no governo Dilma, auge da perseguição a quem contrariava o governo, o mercado via de regra era otimista com a inflação, no sentido que a regra era o mercado prever uma inflação menor que a inflação que acontecia. Para ilustrar esse fato a figura abaixo mostra a expectativa de inflação mês a mês conforme o último relatório de cada mês e a inflação que de fato aconteceu no ano (reta verde).



Repare que durante praticamente todo o ano de 2011, todo o ano de 2012, todo o ano de 2013, a maior parte do ano de 2014 e praticamente todo o ano de 2015 a previsão de inflação do mercado estava abaixo da inflação que realmente ocorreu, ou seja, o mercado foi otimista. O único ano em que o mercado errou para cima durante todo o ano foi em 2016.

Não acuso o mercado, longe disso, afinal eu também estou entre os que acreditavam que a inflação seria maior do que a que ocorreu de fato. É fácil de entender que dada a mudança de política os modelos tenham errado para mais, o que significa que a dificilmente a inflação abaixo da esperada pode ser explicada apenas pela recessão ou pelo câmbio, variáveis que devem estar nos modelos de previsão da turma do mercado. O que não é fácil de entender e que eu não pretendo esquecer nem perdoar é a razão de tanta perseguição a profissionais que de uma forma ou outra por desagradavam o governo por fazer previsões que, ainda que otimistas, não agradavam os devaneios do antigo governo e seu partido. Enfim, é bom viver novamente em um país onde errar uma previsão ou mesmo ser pessimista não transforma alguém em alvo da corte.



IPCA de 2016 fica dentro da meta e deixa claro o efeito da mudança na equipe econômica.

A inflação medida pelo IPCA terminou o ano dentro do intervalo da meta (link aqui), mesmo sabendo que nossa meta é alta e que uma inflação de 6,29% ainda é muito alta temos motivos para comemorar, afinal, contrariando as expectativas do mercado e minhas, o Banco Central conseguiu que a inflação ficasse abaixo do teto da meta ainda em 2016. Ilan Goldfajn tomou posse como presidente do Banco Central em nove de junho indicado por um governo que só saiu da condição de interino em trinta e um de agosto. A figura abaixo mostra como a chegada de Goldfajn e equipe mudou a trajetória da inflação.




Na figura estão os valores do IPCA de cada mês nos anos de 2011 a 2016. Repare que em todos os anos de 2011 a 2015 o IPCA cai até a metade do ano e sobe a partir deste período, o padrão está relacionado a sazonalidade de alguns preços e não é um problema em si. Tivesse o IPCA de 2016 seguido este padrão a inflação teria terminado o ano acima do teto da meta, talvez não tão alta quanto os 10,6% de 2015, mas superior a 7% como estava previsto no Relatório Focus divulgado pelo Banco Central. Porém, com a mudança nas expectativas por conta do governo e da chegada de uma nova equipe no Banco Central, foi possível fazer com que a inflação mudasse de trajetória de forma que, ao contrário de todos os outros anos entre 2011 e 2015, o IPCA não começou uma trajetória de alta depois do meio do ano. A figura abaixo mostra o comportamento do IPCA em 2016 e a média das medidas mensais do IPCA entre 2011 e 2015.




A mudança de comportamento fica clara. De fato, a partir de setembro de 2016, com o novo governo já sem a condição de interino, o IPCA ficou bem abaixo da média dos anos anteriores em todos os meses. Cabe ressaltar que essa mudança de trajetória da inflação, junto com as medidas fiscais que a Fazenda está tomando, possibilitou a redução da taxa de juros sem ocorrer um desastre semelhante ao do passado recente. Na condição de pessimista inveterado, enquanto houver inflação vou continuar reclamando e cobrando do Banco central que a mantenha controlada. Porém, se tinha alguém perguntando se alguma coisa melhorou depois da saída de Dilma, está aí uma resposta.

domingo, 4 de dezembro de 2016

O ajuste fiscal, cedo ou tarde, será feito. A questão é saber como será feito.

Via de regra governos não desejam fazer ajustes fiscais, talvez seja possível pinçar um ou outro governo em algum país que tenha escolhido fazer um ajuste fiscal, mas são exceções, o governante típico está preocupado em permanecer no poder e cortar gastos dificilmente ajuda nesse objetivo. Temer, assim como Dilma antes dele, certamente não está entre as exceções, o ajuste fiscal proposto por ambos decorreu dar necessidade e não de escolhas. A verdade é que desde muito sabemos que o Brasil precisava de um ajuste fiscal, a primeira tentativa séria, ainda no governo Lula, foi feita pelo ministro Palocci e derrotada por Dilma, então ministra da Casa Civil. Na sequência vimos uma série de tentativas tímidas que não tiveram sucesso em ajustar as contas públicas.

Uma rápida pesquisa na internet revela tais tentativas no governo Dilma. Em agosto 2011 o Valor anunciava que “Mantega pede sintonia fiscal entre os poderes para enfrentar a crise” (link aqui). Em 2013 o site O Economista citava o G1 para dizer que “Mantega pede a presidente da Câmara ajuda no corte de gastos” (link aqui). Em fevereiro de 2014 o Estadão anunciou que “Mantega 'venderá' ajuste fiscal no G-20” (link aqui). Convido o leitor a procurar mais exemplos, é fácil. Daí chega a campanha e Dilma resolve negar a necessidade de ajuste fiscal que o próprio ministro da Fazenda dela vinha pregando nos anos anteriores, em outubro de 2014, no meio da companha para presidente a Exame noticiou que “Dilma nega fazer ajuste fiscal caso seja eleita” (link aqui). Como entender a mudança? Política, é claro, Dilma sabia que o ajuste era necessário, mas para quem estava disposta a fazer o diabo para se reeleger negar que vai fazer o ajuste é fichinha. Se o leitor duvida de minha interpretação sugiro que dê uma olhada no que disse o Infomoney em setembro de 2015 em uma matéria com o título “’Você quer que eu perca eleição?’, rebateu Dilma sobre sugestão de Mantega para cortes” (link aqui).

Da proposta de Palocci em 2005 à tentativa de ajuste feita por Levy em 2015 foram dez anos. De 2005 a 2007 perdermos a oportunidade de ajustar em uma época de bonança, em 2011 perdemos a oportunidade de fazer o ajuste antes da crise chegar ao PIB, em 2012 e 2013 perdermos a oportunidade de fazer o ajuste antes da crise chegar no emprego, em 2014, por cálculo eleitoral de Dilma, perdemos a última oportunidade de fazer a juste antes da crise tomar conta do país. O cálculo eleitoral funcionou, Dilma foi eleita, mas as consequências foram desastrosas, inclusive para ela e o partido dela.

Já no final de 2014 o governo foi obrigado a negar o discurso de campanha e aumentar os juros para tentar controlar a inflação e cortar direitos de desempregados e viúvas para tentar ajustar o lado fiscal. O efeito político foi devastador e Dilma começou a caminhada para o impeachment que se consolidou por conta de fraude fiscal cometida no primeiro mandato dela e incrivelmente repetida em 2015. O efeito econômico mal foi sentido, tivessem sido tomadas antes, as mesmas medidas implementadas no final de 2014 poderiam ter sido vistas como o começo de um ajuste sério e ter surtido os impactos desejados pela equipe econômica do governo petista. Infelizmente no final de 2014 já era muito tarde, a cárie já tinha chegado na raiz e uma obturação não era mais suficiente.

Assim chegamos em 2015. Um governo desacreditado com um ministro acreditado, Joaquim Levy, tentando fazer das tripas coração para implementar o ajuste fiscal. Como já dizia o professor Mário Simonsen, infelizmente corações não são feitos de tripas e o esforço de Levy não deu os resultados desejados. O ano de 2016 começa com a possibilidade concreta de queda do governo Dilma, na Fazenda toma posse Nelson Barbosa, segundo os bastidores de Brasília já fazia muito tempo que Dilma o queria como responsável pela economia. O que Nelson Barbosa fez? Propôs um ajuste fiscal! O leitor incrédulo pode checar a matéria de dezembro de 2015 da revista Época intitulada “Nelson Barbosa reforça foco no ajuste fiscal” (link aqui), na própria página do Ministério da Fazenda em fevereiro de 2016 com a chamada “Governo contingencia R$ 23 bilhões em 2016 e propõe limitar gasto no longo prazo” (link aqui), repare na proposta de limitar gastos no longo prazo, ou na matéria do UOL de março de 2016 com o título “Conheça as 4 novas medidas fiscais anunciadas pelo governo” (link aqui). Nesta última são apresentadas as propostas de Barbosa para os estados, dentre elas destaco: “limitar o crescimento de outras despesas correntes à variação da inflação.”. Parece familiar?

A longa introdução mostra que a necessidade de ajuste fiscal no curto prazo e no longo prazo é conhecida dos economistas, inclusive dos economistas ligados ao PT, notadamente Mantega e Barbosa, muito do que estamos vendo com economistas dizendo que o ajuste fiscal de longo prazo será o fim das políticas sociais, o fim do contrato social brasileiro, seja lá o que for isso, e mesmo o fim do mundo é pouco mais do que teatro mal encenado. A verdade é que não apenas o ajuste fiscal é necessário como é inevitável. A questão relevante é como será feito o ajuste fiscal.

Para financiar o gasto crescente o governo pode se endividar, porém, como já mostrei aqui no blog, para um país emergente nosso governo está muito endividado (link aqui). A outra opção é aumentar impostos, não falo desses impostos para animar militância como o imposto sobre grandes fortunas e sobre heranças, impostos complicados em todo o mundo e ainda mais complicados em um país onde funcionários públicos que ganham mais de R$ 10.000,00 por mês acreditam piamente que são classe média baixa. Falo de impostos que realmente tragam receitas. Apesar de ser um caminho teoricamente possível a elevação de impostos não me parece provável, nem razoável e nem muito menos desejável. Não é provável nem desejável porque já pagamos impostos demais no Brasil, não creio que é razoável pois tenho dúvidas a respeito da capacidade do governo aumentar arrecadação via aumento de impostos.

A figura abaixo, feita com dados do FMI e considerando médias entre 2011 e 2015, mostra as receitas do governo como proporção do PIB em diversos grupos de países e no Brasil. Repare que nossa arrecadação de 33,83% do PIB está acima da média de todos os grupos com exceção dos países avançados e dos emergentes da Europa.




Sem apelar para dívida ou aumento de receita o governo terá de escolher entre cortar gastos ou ver a inflação fazer o serviço de ajustar o lado fiscal. A inflação tem o dom de reduzir o gasto real sem causar tanta comoção social. Ano passado a maioria das categorias de servidores públicos federais teve um reajuste de 5,5% contra uma inflação de 10,6%, uma redução de aproximadamente 5% no salário real sem que escolas e universidades fossem invadias e a Esplanada dos Ministérios depredada. Em março deste ano o governo adiou o reajuste dos servidores por cerca de seis meses, reajuste que foi inferior à inflação, mais uma vez não se viram atos de vandalismo nem ninguém falou de fim de mundo.

Se a inflação faz o trabalho sem tanta sujeira então por que não deixar que ela resolva o problema? Porque para resolver o problema não basta uma inflação alta, é preciso uma inflação crescente. Repare que, de acordo com os dados do FMI, entre os anos de 2011 e 2015 nossa inflação foi, em média, de 7,06% ao ano. Ficamos muito acima dos países avançados e dos países emergentes da Europa, aqueles com cargas tributárias próximas às nossa, também ficamos acima dos países emergentes da Ásia e da América Latina e Caribe (neste último grupo eu excluí a Venezuela). Definitivamente não temos inflação baixa e mesmo assim temos um problema fiscal, a razão, nunca esqueçam, é que para fazer efeito a inflação não precisa apenas ser alta, precisa ser crescente.




Corremos o risco de termos inflação crescente? Sim, foi esse caminho que ameaçou se impor entre 2015 e 2016. Alguns vão dizer que a inflação de 2015 foi puxada por preços administrados e câmbio, o que é verdade, mas sempre existem preços puxando a inflação. O objetivo da política monetária é impedir que tais preços contaminem os outros em um processo onde todos correm para não ficar atrás da média e assim puxam a média cada vez mais para cima. Reparem que nem mesmo as “taxas de juros reais mais altas do mundo”, como alguns gostam de dizer (há controvérsias!), estavam conseguindo impedir o processo de contaminação dos outros preços e consequente aumento da inflação. Em parte, pela ação do Banco Central, em parte, pela mudança nas expectativas após a saída de Dilma (link aqui) o problema da inflação parece estar momentaneamente controlado, mas uma virada no câmbio, talvez causada pelo aumento da taxa de juros nos EUA, pode tirar a inflação de controle novamente.

O processo inflacionário tem sido a principal ferramenta de ajuste das contas públicas no Brasil. De fato, se consideramos o pós-guerra, só tivemos inflação razoavelmente controlada a partir de meados da década de 1990, após o Plano Real. Um dos efeitos colaterais do processo inflacionário é a redução de renda real de assalariados, pensionistas e beneficiários de programas sociais. Em geral podemos dizer que todos que não reajustam suas rendas com frequência alta são penalizados pela inflação, neste grupo estão os mais pobres. É preciso reconhecer que tal redução de renda dos mais pobres não parece ter intimidado governos no passado, por ouro lado, nunca tivemos um conjunto tão amplo de eleitores e tantas formas de expressão e de organização da sociedade. Será que nossa democracia resiste a um processo inflacionário? Não sei dizer, mas as manifestações de 2013, a dos vinte centavos, sugerem que não.