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Mostrando postagens de 2019

Impacto da pesquisa e PIB per capita: estamos mal quando consideramos nosso PIB per capita?

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Já comentei aqui no blog a respeito do trabalho do professor Marcelo Hermes do Instituto de Biologia da UnB no qual ele desafia a ideia que houve uma melhora significativa no desempenho da produção acadêmica nacional e mostra que o impacto da pesquisa realizada no Brasil é baixo. Grosso modo o professor Marcelo Hermes usa indicadores de qualidade para contrapor indicadores de quantidade normalmente usados para avaliar o desempenho da academia no Brasil. Quem tiver interesse pode ler alguns artigos para jornal disponíveis aqui, aqui e aqui.
Os números apresentados pelo Marcelo Hermes são fortes e costumam impressionar, mas, chato que sou, resolvi checar se o impacto de nossa produção científica é mesmo tão ruim quando levamos em conta o PIB per capita do Brasil. Uma maneira bem preliminar para avaliar esse ponto é fazer uma regressão entre o impacto da pesquisa e o PIB per capita, grosso modo essa regressão vai dizer qual seria o impacto da pesquisa se considerarmos apenas o PIB per c…

Teto de gastos, investimentos da União e a estranha tese dos que dizem que as consequências vêm antes.

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Nas últimas semanas ganhou destaque na imprensa a tese que o governo deveria flexibilizar o teto de gastos de forma a excluir os investimentos. Os autores da tese, creio eu, acreditam que essa é uma medida importante para tirar o país da crise. Parece justo supor que para a tese fazer sentido duas relações de causalidade devem valer pelo menos em algum grau: (i) o teto de gastos é responsável pela queda do investimento público e (ii) o aumento do investimento público vai tirar o país da crise. Longe de mim tentar estabelecer relações de causalidade em macroeconomia em um post, mas creio que dá para jogar um pouco de luz nas duas relações de causalidade a partir dos dados de investimento público e da máxima acaciana que “as consequências vêm sempre depois”.
Para conseguir a série de investimento público usei os dados disponíveis na página Tesouro Nacional Transparente (link aqui) com os gastos em investimento da União para os poderes executivo, legislativo e judiciário. Os dados mensa…

A nova divisão do infame Fundo Eleitoral

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O Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) para 2020 prevê R$ 2,5 bilhões para o Fundo Eleitoral. O valor representa um aumento de 47% em relação a 2018 (link aqui) e vai tornar o Fundo Eleitoral ainda mais escandaloso. Em tempos de cortes generalizados de gastos e ameaças de novos tributos todos os dias é um escarnio com os pagadores de impostos aumentar o infame fundo para financiar campanhas em cerca de R$ 820 milhões. Para que o leitor tenha ideia de grandeza o problema das bolsas do CNPq para este ano seria resolvido com R$ 330 milhões (link aqui), menos da metade do aumento do Fundo Eleitoral para o próximo ano.
De acordo com as regras vigentes a divisão dos R$ 2,5 bilhões será feita a partir do número de deputados eleitos com por cada partido. O maior aumento vai para o NOVO que recebeu R$ 980 mil em 2018 e vai receber R$ 45,3 milhões em 2020, vale destacar que o NOVO foi contra o aumento e se recusa a receber o dinheiro do fundo. O segundo maior aumento vai para o PSL, o part…

Contas Nacionais do segundo trimestre de 2019: Stay cool e siga com as reformas.

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As contas trimestrais divulgas pelo IBGE trouxeram um surpreendente crescimento do PIB, enquanto as expectativas apontavam para um crescimento de no máximo 0,2% ou mesmo queda o número apurado mostrou um crescimento de 0,4% em relação ao trimestre anterior. A notícia é boa, mas não é para soltar fogos. O cenário é de recuperação lenta, isso é bom dado que nas contas referentes ao primeiro trimestre havia uma ameaça de novo mergulho da economia em uma recessão. Também é bom evitar a tentação de creditar o resultado a expectativas positivas por conta da agenda de reformas que está andando, ainda é cedo para isso.
A figura abaixo mostra o crescimento do PIB em comparação com o trimestre anterior e com o mesmo trimestre do ano anterior. Fica claro o padrão de recuperação lenta, aqui cabe lembrar que, ao contrário de alguns colegas de profissão, eu não considero que a recuperação lenta seja um problema, pelo contrário, uma recuperação rápida provavelmente seria a construção de uma nova cr…

Uma contribuição à causa contra a volta de um imposto sobre transações

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Nos últimos meses vários economistas se manifestaram a respeito da volta de um imposto sobre transações nos moldes da infame CPMF. Vídeo do Marcos Lisboa na Globonews com críticas duras e consistentes ao imposto sobre transações (link aqui), Armínio Fraga declarou à Jovem Pan que “Qualquer imposto na linha do CPMF é um lixo” (link aqui), Bernardo Appy não poupou de críticas a proposta de Imposto Único sobre Transações Financeiras que corretamente classificou como desastrosa (aqui e aqui), Affonso Pastore, no Estadão, chamou impostos na linha da CPMF de “esparrela simplista” (link aqui) e, finalmente, Maílson da Nóbrega, na Veja fala de tributo disfuncional (link aqui). A lista pode crescer com mais tempo no Google, na Folha tem textos do Marcos Lisboa que não cito porque não tive acesso e não pude ler.
Empenhado em seguir colecionando avaliações a respeito de impostos sobre transações saí do Google e fui para o Ideas/Repec (link aqui) procurar textos acadêmicos. O mais recente que en…

Uma nota a respeito da queda da indústria de transformação no PIB

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A forte queda da participação da indústria de transformação no PIB quando comparada a outros países parece estar voltando a ser assunto, se é que algum dia deixou de ser. Como em tantos outros casos o problema central é escolher o grupo comparação. Quem são nossos pares? Alguns gostam de responder essa pergunta olhando para OCDE, outros para a Ásia por conta do desempenho econômico de países emergentes nessa região.
Países da Ásia de fato tiveram um crescimento impressionante da economia como um todo e da indústria nas últimas décadas. Alguns creditam esse desemprenho a políticas industriais e coisas do tipo, o problema é que por aqui também tivemos essas políticas e não tivemos os mesmos resultados da Ásia. Talvez seja mais frutífero procurar aa razões para diferenças em fatores que não tivemos por aqui, por exemplo, o salto na educação e as altíssimas taxas de poupança. Mas isso é conversa para outro post, por agora quero apenas saber com quem comparar o Brasil para avaliar o dese…

O principais desafios para a competitividade brasileira segundo o relatório anual sobre competitividade global

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Um dos desafios para a retomada do crescimento é tornar a economia brasileira mais competitiva. O Brasil ficou na septuagésima segunda posição no ranking da última edição do “The Global Competitiveness Report” (link aqui), o ranking (link aqui) é elaborado pelo Fórum Econômico Mundial (link aqui) e que considera várias dimensões relativas à competitividade de cento e quarenta países. Não chega a ser um desastre, mas é preocupante. Para o leitor ter uma ideia o México ficou na quadragésima sexta posição e a Colômbia ficou na sexagésima posição, logo acima do Brasil está Montenegro e logo abaixo a Jordânia. Temos trabalho a fazer.
Para entender o problema da competitividade no Brasil vou fazer alguns posts analisando os indicadores usados para avaliar os diversos países. A nota de cada país é composta por doze pilares que por sua vez são divididos em vários indicadores. Neste post vou comentar o desempenho do Brasil nos doze pilares, os posts seguintes serão dedicados a cada um dos pil…

Ainda não é o primeiro semestre de 2003, mas já podemos falar em ajuste fiscal.

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Com dados relativos a seis meses de governo já é possível dar uma primeira olhada no comportamento da despesa e verificar o esforço de ajuste fiscal do time do Paulo Guedes. No primeiro semestre de 2019 o governo gastou R$ 653,8 bilhões com despesas primárias em valores correntes, se for ajustado pela inflação o gasto foi de R$ 658,4 bilhões em valores de junho de 2019. Com os devidos ajustes o gasto no primeiro semestre corresponde 47,26% do total permitido pelo teto de gastos, um número preocupante se considerarmos que a despesa no segundo semestre costuma ser maior do que no primeiro semestre.
Considerado o período de 1997 a 2018 a despesa do segundo semestre foi em média 18% maior que a do primeiro semestre, se considerarmos apenas o período posterior a 2014 esta proporção cai para 13%. Desta forma a valer a proporção mais recente o governo está em cima do teto, não pode nem piscar, a valer a proporção do período inteiro o governo está acima do teto e vai precisar de mais ajuste…

A única crítica razoável ao programa "Saque Certo" é não ter permitido saques maiores, o resto é conversa de compadre.

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Imagine que um sujeito pagando juros de mais de 10% ao mês no cartão de crédito e com dinheiro aplicado na poupança a uma taxa menor que 0,5% ao mês te pede um conselho a respeito do que fazer com o dinheiro dele. Você recomendaria que ele colocasse o dinheiro no Tesouro Direto, em alguma aplicação vinculada ao CDI ou que pagasse a dívida? Supondo que você não tivesse raiva do sujeito e nem quisesse recomendar um calote ou algo do tipo creio que a sugestão seria que pagasse a dívida. Dificilmente o sujeito encontraria alguma alternativa com rendimentos maiores que os 11% que ele está pagando e que não tivesse um alto risco de colocá-lo na cadeia.
Essa mesma lógica pode ser aplicada ao FGTS. O dinheiro que está lá rende muito pouco, ainda menos que a poupança, e os juros pagos por quem está endividado são muito altos. Ao permitir o saque do FGTS, mesmo que de apenas R$ 500,00, o governo permite que os trabalhadores endividados sigam o conselho do parágrafo anterior, ou seja, paguem su…

Uma nota sobre a queda do risco do Brasil

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Em tempos de crise é importante a ficar atento a sinais a respeito do que se espera do país no futuro, um sinal particularmente importante é a percepção do risco do país por parte dos investidores. Existem instituições que tentam medir o risco de cada país e fazer uma classificação de risco, embora importantes essas avaliações não são a única maneira de avaliar o risco de um país. Existem instrumentos de mercado que sinalizam o quanto é seguro investir em títulos de um país, um deles é o Credit Default Swap (CDS). O CDS é um contrato que remunera o portador em caso de inadimplência da unidade de interesse que pode ser empresas ou países. Como é uma espécie de seguro contra calote o CDS está relacionado a probabilidade de inadimplência, dito de outra forma: quanto maior o CDS maior a chance de calote.
A boa notícia é que ocorreu uma queda significativa no CDS do Brasil. Segundo o Infomoney o CDS voltou a ser negociado a níveis de 2014, antes do Brasil perder o grau de investimento (li…

Nova PWT e velhos problemas... a produtividade por aqui continua indo de mal a pior

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Com a chegada da nova versão da PWT (link aqui) vale dar uma olhada no desempenho da produtividade total dos fatores no Brasil em comparação com a de outros países. Com esta finalidade selecionei todos os países disponíveis na PWT com mais de cinco milhões de habitantes em 2017 (último ano disponível) e classificados como países de renda média alta pelo Banco Mundial. Como medida de produtividade escolhi a “ctfp” que corresponde a produtividade do país como proporção da produtividade dos Estados Unidos corrigida por poder de compra. A figura abaixo mostra o resultado.



O Brasil apresenta o segundo pior desempenho. Entre 2013 e 2017 nossa produtividade caiu 13,6% em relação a dos EUA. O desempenho de países como Rússia e Cazaquistão sugere um efeito do petróleo na medida de produtividade utilizada, mas esse efeito, se for relevante, não é tão direto e nem nos salva do vexame. Considerando apenas o petróleo países como Rússia, Iraque, Cazaquistão e México deveriam ter um desempenho pior…

Fortaleza abriu mais empresas que Juazeiro do Norte, Caucaia e Maracanaú somadas! Jura?!? E daí?

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Hoje esbarrei em uma notícia compartilhada pelo Rodrigo Saraiva Marinho (link aqui) dando conta que o prefeito de Fortaleza estava comemorando que a foram abertas mais empresas na cidade do que em qualquer outra da Terra da Luz. Os que não conhecem as terras alencarinas podem não entender o tamanho do absurdo que é comparar em números absolutos a criação de empresas em Fortaleza e nas demais cidades do estado. Segundo dados do Empresômetro – Inteligência de Mercado (link aqui) 44% das empresas do Ceará estão em Fortaleza, é a oitava maior concentração de empresas na capital entre os estados brasileiros. A figura abaixo mostra o número de empresas nas quinze cidades cearenses com mais empresas.



Repare que Fortaleza tem quase doze vezes mais empresas que Juazeiro do Norte, segundo lugar na lista, nem Padre Cícero conseguiria fazer que abrisse menos empresas na terra dele do quem Fortaleza. Se no lugar do número absoluto olharmos a variação percentual no número de empresas em cada cidad…

Sobre a queda nas expectativas de crescimento e o excesso de otimismo de (quase) todo janeiro

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Em abril de 2014 fiz um post (link aqui) mostrando que o pessoal do mercado pecava por excesso de otimismo, na época o objetivo era desmistificar a tese que o mercado era pessimista e fazia terrorismo econômico. A verdade é que os números do Boletim Focus (link aqui), que resume as expectativas de mercado, mostravam o exato contrário: nos anos anteriores a 2014 o mercado estimava crescimento maior e inflação menor do que o crescimento e a inflação que de fato ocorreram.
Hoje volto ao otimismo de mercado, mas com outra perspectiva. Se em 2014 o otimismo do mercado era estranhamente percebido como pessimismo em 2019 a correção do otimismo do mercado durante o ano é vista como sinal de aprofundamento da crise. Por certo a recuperação é lenta e está ameaçada, não há questionamentos aqui, meu ponto é que a redução das expectativas de crescimento do Focus não é um bom termômetro para isso. A verdade é que normalmente as expectativas de crescimento para baixo são corrigidas para baixo duran…

Como votaram as bancadas em relação ao texto-base da reforma da previdência?

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Depois de olhar os votos por partidos e por estados (link aqui) resolvi olhar os votos por bancadas temáticas. Encontrar os deputados de cada bancada foi mais trabalhoso do que pensei, depois de algumas buscas encontrei uma página do DIAP (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar) com os deputados distribuídos por bancadas (link aqui). Peguei todas as bancadas disponíveis com exceção da “bancada dos parentes” e cruzei com os dados da votação do texto-base da previdência. O resultado está resumido na figura abaixo.



A bancada evangélica deu 90,4% dos votos para o texto-base da reforma, a bancada empresarial de 91,7%, a bancada feminina deu 67,5%, a bancada ruralista deu 91,9%, a bancada da segurança deu 94,9% e a bancada sindical deu 8,8%. Com exceção da bancada sindical todas as outras votaram em peso pela aprovação das reformas. A composição de cada bancada está na página do DIAP que citei acima. A bancada sindical é composta por trinta e cinco deputados sendo que dezenov…

Como votaram os partidos e as unidades da federação no texto-base da reforma da previdência?

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Com um número de votos maior do que o esperado o texto-base da reforma da previdência foi aprovado na Câmara em primeiro turno, enquanto escrevo os deputados discutem e votam os destaques de forma que não dá para falar sobre o texto final aprovado. De toda forma vale registrar alguns aspectos da distribuição de votos por estados e por partido bem como destacar alguns deputados que, para o bem ou para o mal, divergiram de seus partidos. Os dados foram obtidos junto ao G1 (link aqui) e excluem os votos dos deputados Bacelar (PODE-BA), General Girão (PSL-RN) e Luiz Carlos Motta (PL-SP) que lamentavelmente estavam ausentes na votação.
Comecemos pelos partidos. A figura abaixo mostra os votos por cada partido, em vermelho os votos contrários ao texto-base e em azul os votos favoráveis. O partido que deu mais votos para aprovação do texto base foi o PSL (52 votos), na sequência vieram PL (37 votos), PP (36 votos), MDB (34 votos) e PSD (34 votos).Na outra ponta PT (54 votos), PSB (21 votos)…