sexta-feira, 7 de maio de 2021

O BC voltou!

O segundo aumento consecutivo da Selic em 0,75 pontos marca uma guinada correta e necessária na política monetária. O discurso de que a inflação resulta de um choque e voltará naturalmente a um patamar mais baixo não mais corresponde às decisões do Copom, isso é bom, mas seria ainda melhor se representantes do BC parassem de dizer que está tudo bem ou coisas do tipo (ver aqui). Entendo que a intenção pode ser acalmar o mercado, mas, na prática, a falta de consistência entre discursos e ações pode fazer mais mal do que bem.

Para ilustrar o tamanho da virada na política monetária fui buscar as decisões do Copom em relação à Selic desde janeiro de 2001. A decisão mais frequente é manter a taxa inalterada, ocorreu em 68 das 184 reuniões consideradas, em seguida vem a decisão de subir ou descer 0.5 pontos, cada uma ocorreu 27 vezes. A mais extrema foi aumentar em 3 pontos, ocorreu duas vezes: outubro e dezembro de 2008 quando o BC resolveu tirar o atraso de decisões que deveriam ter sido tomadas anteriormente. A maior queda foi de 2,50 em agosto de 2003, seguida por uma queda de 2 pontos em setembro do mesmo ano. A decisão de subir a taxa em 0,75 pontos ocorreu em apenas 7 ocasiões, a última antes das decisões deste ano foi em 2010 quando a Selic estava em torno de 10% ao ano. A figura abaixo mostra a variação da meta de Selic e quantas vezes cada variação ocorreu.

 


Diante dos números é difícil negar o caráter excepcional das decisões do Copom nas últimas duas reuniões. Minha leitura é que a razão para essa pressa é que o BC tenha finalmente percebido que segurou a Selic por muito tempo em um valor muito baixo e que, sem uma mudança drástica na política monetária, poderia perder o controle das expectativas e, por consequência, da inflação. Entendo que alguns colegas não gostem da minha leitura, afinal estamos em crise e as expectativas de inflação não deram sinais de alerta. Quanto a crise, bem... o que não faltam são exemplos de inflação fora de controle com desemprego nas alturas e PIB caindo ou patinando, se não acredita em mim dá uma olhada no vizinho do norte ou do sul.

Em relação às expectativas o problema é que os modelos de previsão perdem poder diante de mudanças de regime, o próprio Paulo Guedes anunciou a mudança de regime em 2019 e reforçou em 2020 (link aqui e aqui), e na presença de incerteza, não preciso dizer que a pandemia mandou a incerteza lá para cima. Essa é a razão do “pessoal do mercado” ter errado consistentemente para baixo a previsão de inflação.

Para visualizar o que estou dizendo peço que o leitor se coloque no lugar de um empresário que depende de insumos importado de forma que uma desvalorização do real representa um aumento nos custos de produção. É razoável supor que decisão do empresário de repassar para os preços o aumento dos custos dependa do que ele espera acontecer com o câmbio. Se ele entender que a desvalorização é passageira, o repasse para os preços deve ser pequeno ou mesmo nulo, se entende que é permanente talvez ele tente repassar para os preços no menor prazo possível. Como a natureza da desvalorização, transitória ou permanente, depender do regime é justo supor que a decisão de ajuste de preços por conta da desvalorização também dependa do regime. Se o exemplo for representativo as estimativas de que o efeito do câmbio nos preços é baixo, realizadas com dados do regime anterior, talvez não valham mais no regime de “juros baixos e câmbio desvalorizado”.

A questão é saber o tamanho do atraso que BC deve recuperar e quanto tempo há para que o ajuste possa ser feito sem comprometer a credibilidade da política monetária. Estimativas de colegas sugerem que a Selic deve chegar em 6,5% ao ano para estancar a pressão nos preços, o problema é que essa estimativa depende da previsão de inflação e essa, como nos mostra a experiência recente, não é muito confiável. O lado bom é que a atual direção do BC conta com a confiança do mercado, o que dá uma margem maior de manobra, Tombini e Mantega devem ficar intrigados com a paciência que turma tem com Campos e Guedes. O lado ruim (e perigoso) é que ainda não sabemos o tamanho do rombo fiscal causado pela pandemia e pela política de usar o orçamento agradar os amigos tocada pelo atual governo.

Embora a principal alavanca para controlar a inflação ainda seja a política monetária é inegável que a pressão fiscal ajuda a jogar os preços para cima. Na falta de ajuste fiscal resta ao BC apertar a política monetária, no atual modelo (que é o padrão nos bancos centrais de economias desenvolvidas) isso significa aumentar a meta para Selic. Até quando o BC vai conseguir segurar a inflação com política monetária é coisa que não sei dizer, mas se esse dia chegar temos que vamos ficar sabendo rapidamente. Se permite terminar com um conselho, torçam para esse dia nunca chegar.

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Boletim Focus aumenta expectativa de inflação para este ano. Voltamos ao padrão da época do governo Dilma?

O Boletim Focus divulgado hoje mostra que o “pessoal do mercado” mais uma vez atualizou para cima a expectativa de inflação para 2021. Começar com um valor baixo para inflação esperada e atualizar para cima durante o ano foi o padrão no governo Dilma. Em 2016, ano do impeachment, e nos dois anos do governo Temer o padrão ficou invertido: a expectativa de inflação começava alta e caia durante o ano. No governo Bolsonaro voltou o padrão de expectativas baixas (eu chamo de excesso de otimismo) no começo do ano e ajuste durante o ano. A figura abaixo ilustra esses padrões, note que por usar escalas diferentes no eixo vertical a figura não deve ser usada para comparar as expectativas de inflação de cada ano e sim a dinâmica destas expectativas em cada um dos anos.

 


Por que o Banco Central de Roberto Campos não consegue entregar a inflação igual ou menor do que a esperada pelo “pessoal do mercado” no começo de cada ano? Difícil responder. É fácil encontrar declarações de figurões do BC colocando a culpa no lado fiscal. De fato, a política fiscal é um problema, mas o BC não sabe disso? O quão razoável foi apostar a estabilidade do real em um ajuste fiscal no meio de uma pandemia e liderado por um governo com notória dificuldade em liderar? O quão razoável foi imaginar que uma moeda emitida por um dos países emergentes mais endividados do mundo e sem grau de investimento nas agências de risco atrairia investidores por ser uma espécie de porto seguro?

A verdade é que já faz algum tempo a política fiscal do Brasil é problemática, tentativas de ajuste fiscal são barradas pelos mais diversos lobbys. Com a chegada de Bolsonaro ao Planalto, a despeito dos desejos da equipe econômica, a situação piorou. Incapaz de gerenciar conflitos naturais em uma democracia o governo ficou refém de interesses pontuais e agora sequer consegue ter um orçamento. O problema é que a questão fiscal já deve estar embutida nas expectativas de inflação do começo do ano, é preciso entender qual foi a surpresa que levou o mercado a “errar para baixo” no começo de 2019, 2020 e, aparentemente, 2021. Alguém pode dizer que em 2020 teve a pandemia, não compro a tese, o efeito da pandemia foi de baixar a inflação como mostram os números do IPCA em abril e maio do ano passado, porém, mesmo que tenha sido a pandemia a surpresa ocorreu em março e até outubro as expectativas estevam bem abaixo da inflação que ocorreu em 2020.

Uma comparação de 2020 e 2018 pode ser didática. Em 2018 a greve dos caminhoneiros pegou o mercado de surpresa, a resposta foi um aumento da expectativa de inflação para aquele ano. O susto do mercado foi justificado, mas a política econômica soube controlar as expectativas e entregou uma inflação de 3,75%. Repare quem 2020 o movimento foi diferente, logo após o choque não houve um crescimento forte das expectativas de inflação. A reação inicial do mercado foi projetar que a pandemia levaria a uma queda na variação do IPCA. O que aconteceu?

Como disse acima é difícil explicar o que está acontecendo. O problema pode estar nas projeções do “pessoal do mercado” que parece insistir em ignorar a mudança de regime que ocorreu no governo Bolsonaro segundo o próprio Paulo Guedes. Para piorar a incerteza aumentou muito por conta da pandemia. Outra possibilidade é que política econômica, fiscal e monetária, tiveram uma melhor condução no governo Temer no sentido de surpreender o mercado com menos e não com mais inflação. Enfim deixo mais perguntas do que respostas, mas vale registrar que talvez seja o momento para o BC colocar a barba de molho. A barba da vizinha política fiscal já está pegando fogo faz tempo.

 

sábado, 17 de abril de 2021

Como a pandemia afetou a relação dívida/PIB dos diversos países?

Em post anterior explorei a base de dados do FMI para avaliar o impacto da pandemia no crescimento das economias em 2020 (link aqui). Nesse post farei exercício semelhante, porém o foco será na relação dívida/PIB. É importante ter em mente que a relação dívida/PIB á afetada pela variação do PIB e da dívida, desta forma o crescimento desta relação pode ocorrer por conta do crescimento da dívida ou da queda do PIB. Como na maioria dos países ocorreu queda do PIB e aumento dos gastos para combater e amenizar os efeitos da pandemia, o crescimento da relação dívida/PIB observado nos dados era esperado. Mesmo assim o exercício pode ser interessante por mostrar o que aconteceu nos diversos países e o tamanho do aumento da relação dívida/PIB.

Para fazer o exercício selecionei os países com mais de 10 milhões de habitantes em 2020, mais uma vez a Venezuela foi excluída da amostra, o que me deixou a amostra com 87 países. Em 2019 a média da relação dívida/PIB nos países da amostra foi de 59,6%, em 2020 subiu para 69,1%. Na comparação de 2020 com 2019 a relação dívida/PIB caiu em apenas 7 dos 87 países da amostra, desses cinco estão na África Subsaariana (Zimbabwe, Etiópia, Chade, República Democrática do Congo e Tanzânia), um na América Latina e Caribe (Haiti) e um no Oriente Médio (Irã). A figura abaixo mostra o deslocamento da distribuição da relação dívida/PIB entre 2020 e 2019 com destaque para as médias de cada ano.

 


Os três países com maior crescimento da relação dívida/PIB ficam no Oriente Médio: Iraque (70%), Emirados Árabes Unidos (43%) e Arábia Saudita (32%). No Brasil o crescimento desta relação foi de 13%, o que nos coloca na parte inferior da turma, ou seja, entre os países onde a relação dívida/PIB cresceu menos. Para ser preciso em 33% dos países a relação dívida/PIB cresceu menos do que a do Brasil. A figura abaixo mostra o crescimento da relação dívida/PIB nos países da amostra com destaque para alguns países, quanto mais para esquerda (ou para baixo) menor o crescimento da relação dívida/PIB. Repare que esta relação cresceu menos no Brasil do que nos Estados Unidos e na China, países onde o PIB teve melhor desempenho do que no Brasil em 2020.

 


Na comparação com os países da amostra que pertencem ao grupo América Latina e Caribe o Brasil teve o menor crescimento da relação dívida/PIB dentre os países onde essa relação cresceu. Isso é bom porque mostra que a deterioração do quadro fiscal no Brasil foi menor do que em países que normalmente são usados como referência em comparações internacionais. Entre os países do BRICS, outro grupo de comparação, o Brasil teve o menor crescimento na relação dívida/PIB como pode ser visto na figura acima.

 


O resultado relativamente bom no crescimento da razão dívida/PIB significa que temos melhores condições fiscais que outros países semelhantes? Não creio que seja o caso. Apesar de ter crescimento menos do que na maioria dos países da amostra, a relação dívida/PIB no Brasil é alta quando compara à dos mesmos países. Em cerca de 80% dos países da amostra a relação dívida/PIB é menor do que no Brasil, quase todos são países avançados ou estão na África Subsaariana. Temos a maior relação dívida/PIB entre os países do BRICS.

 


Considerando apenas os países da América Latina e caribe que estão na amostra, apenas a Argentina tem uma relação dívida/PIB maior do que a nossa. Mesmo tendo crescido mais em 2020 a relação dívida/PIB no Chile ainda é cerca de um terço da nossa. A figura abaixo mostra a relação dívida/PIB nos países da América Latina e Caribe.

 


Os números relativos à dívida como proporção do PIB mostram que essa relação cresceu menos por aqui do na maioria dos países, porém continuamos com uma relação muito alta em comparação com América Latina e com países emergentes em geral. A elevada relação dívida/PIB acaba funcionando como um limite para o aumento da dívida e, por consequência, dificulta medidas para amenizar o sofrimento da população com a pandemia. Como mostra o aumento da inflação: existe mais limites para a política fiscal do que parecem pensar os críticos do teto de gastos.

 

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Inflação no Brasil e em países selecionados

Sempre que falo de inflação aparece alguém dizendo que a inflação daqui está baixa ou que a inflação subiu no mundo todo por conta da pandemia. Por conta disso resolvi checar a inflação em outros países. Encontrei no site inflation.eu (link aqui), a inflação dos preços aos consumidores referente a 2020 para 38 países. A maior inflação ocorreu na Turquia, 14,6%, que ficou fora da amostra para não distorcer a figura. Depois da Turquia veio a Rússia com 4,91% e o Brasil com 4,52% fecha o grupo dos países da amostra com inflação acima de 4% em 2020. A figura abaixo mostra a inflação em cada país.


 Para os curiosos a média das taxas de inflação dos países da amostra, excluída a Turquia, foi 0,99% e a mediana foi 0,56. Doze países tiveram redução nos preços aos consumidores em 2020. Olhando para os países da América Latina presentes na amostra o México ficou com 3,155 de inflação e o Chile com 2,97%. A China, que muita gente gosta de apontar como exemplo de política econômica, teve 0,27% de inflação em 2020.

Enfim, a comparação da inflação no Brasil com a dos outros países da amostra não permite afirmar que a inflação de 2020 foi baixa. Se considerarmos as taxas de inflação medidas pelo IPCA nos últimos a de 2020 foi a maior desde 2016 (2,95%, 3,75%, 4,31% e 4,53% para 2017, 2018, 2019 e 2020, respectivamente), ano que a inflação sofreu influência do desastre do governo Dilma. É isso.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Crescimento no Brasil e no Mundo em 2020 de acordo com os números do FMI

Com a divulgação dos dados do FMI referentes a 2020 é possível avaliar o tamanho do estrago que a pandemia causou no crescimento econômico pelo mundo. Considerando os países com mais de dez milhões de habitantes em 2020 e excluindo a Venezuela por motivos óbvios a média das taxas de crescimento em 2019 foi de 2,98%, em 2020 essa mesma média foi de -3,29%. Em 2019 a maior taxa de crescimento entre os países da amostra foi de 9,4% na Ruanda, o pior desempenho foi do Zimbabwe com queda de 7,4%. Em 2020 o melhor desempenho foi na Etiópia, que cresceu 6,1%, e o pior foi no Peru onde o PIB teve queda de 11,1%. A mediana das taxas de crescimento caiu de 2,3% em 2019 para -3,6% em 2020. A figura abaixo mostra a distribuição do crescimento em 2019 e 2020, o deslocamento para esquerda da parte em vermelho mostra queda geral do crescimento em 2020.


Dos oitenta e oito países da amostra em apenas dezenove foi observado crescimento do PIB em 2020. Dos países que cresceram dez estão na África subsaariana, quatro são países emergentes da Ásia, dois do Oriente Médio, um pertence ao grupo dos países avançados, um é parte da Comunidade de Países Independentes e um é emergente da Europa. Nenhum país da América Latina e Caribe cresceu em 2020. Mesmo considerando apenas os países que cresceram a média das taxas de crescimento, 2,4%, foi menor que a média de crescimento de todos os países da amostra em 2019. A figura abaixo mostra a variação do PIB em cada um dos países onde houve crescimento.

 

No Brasil o PIB teve queda de 4,1% em 2020, o resultado foi melhor do que o previsto pelo FMI em meados do ano passado. Em termos relativos o Brasil melhorou de posição no ranking dos países da amostra. No ano de 2019 cerca de 78% dos países tiveram melhor desempenho do que o Brasil, essa proporção caiu para cerca de 57% em 2020. A figura abaixo mostra a variação do PIB em todos os países da amostra com alguns destaques. O eixo horizontal mostra a variação do PIB e no eixo vertical é possível ver a proporção dos países com variação do PIB menor do que a do país em destaque. Desta forma a figura mostra que cerca de 91% dos países cresceram menos do que a China e cerca de 48% e cerca de 52% cresceram menos do que os Estados Unidos.

 

Considerando apenas os países da América Latina e caribe o Brasil teve o terceiro melhor desempenho. A menor queda ocorreu na Guatemala seguida pelo Haiti, Brasil, Chile e República Dominicana. O pior resultado foi no Peru com queda de 11,1% no PIB. Se o leitor está desconfortável com a retirada da Venezuela da amostra este é um bom momento para informar que o PIB venezuelano caiu 35% em 2019 e 30% em 2020. A figura abaixo mostra a variação do PIB nos países da América Latina e Caribe que estão na amostra.

 

Dos grupos de países considerados pelo FMI a América Latina foi o que teve o pior desempenho em termos de média das taxas de crescimento do PIB. Em 2019 o pior desempenho ocorreu no Oriente Médio. A pandemia pegou em cheio nuestra America em um momento em que as coisas já não estavam bem.

 

Entre os países do BRICS apenas na China o PIB cresceu em 2020. O Brasil ficou no meio com desempenho pior do que China e Rússia e melhor do que Índia e África do Sul.

 

Os números mostram que a pandemia teve um forte impacto no crescimento dos diversos países. O resultado contrasta com os números observados durante a Gripe Espanhola onde a média das taxas de crescimento foi positiva nos três anos da pandemia (ver aqui). O Brasil ficou na parte de baixo da amostra em termos de variação do PIB, mas estamos perto do meio. Em termos relativos foi uma melhora, em 2019 estávamos na parte baixo mais para o fim do que para o meio. Uma melhora relativa no meio de uma queda tão forte não deve servir de alento para um país que está em mais uma década perdida, mas sugere que podia ter sido pior.

 

segunda-feira, 8 de março de 2021

Contas Nacionais do quarto trimestre de 2020: ruins, mas poderiam ter sido muito piores!

O IBGE divulgou as contas nacionais referentes ao quarto trimestre de 2020 (link aqui). A recuperação da queda causada pela Coviv-19 no primeiro semestre de 2019 aparece nos números do PIB. Em relação ao trimestre anterior o PIB cresceu 3,2%, o alto valor do crescimento faz parte do mesmo movimento que levou à queda recorde de 9,6% no terceiro trimestre e ao crescimento, também recorde, de 7,7% no terceiro trimestre.

Assim como as quedas nos primeiros trimestres de 2020, o crescimento do terceiro e do quarto trimestre dificilmente podem ser analisados na perspectiva da dinâmica de crise e recuperação que costumo usar nos posts sobre contas nacionais. O máximo que pode ser feito é entender como será a recuperação da crise causada pela pandemia e tentar especular sobre como esta recuperação pode afetar a dinâmica da economia brasileira na ótica das contas nacionais.

A figura abaixo mostra o crescimento da economia desde 1996, as barras mostram o crescimento em relação ao trimestre anterior (com ajuste sazonal) e a linha mostra o crescimento acumulado em quatro trimestres. No acumulado houve uma queda 4,1%, o que mostra que, apesar do crescimento no segundo semestre, a crise do Covid-19 ainda não está no retrovisor.


 

Como é tradição no blog a análise será feita pelo lado da produção, a análise da despesa, preferida por vários colegas de profissão, é interessante para entender como foi a distribuição do PIB. A figura abaixo mostra o crescimento dos grandes setores da economia. No acumulado de quatro trimestres a agropecuária, que no quarto trimestre de 2020 respondeu por 4,8% do valor agregado e 4,1% do PIB, cresceu 1,8%; o setor de serviços, 74,9% do valor agregado e 63,4% do PIB, teve uma queda de 4,5%; finalmente, a indústria, que responde por 20,3% do valor agregado e 17,2% do PIB, teve uma queda de 3,5%. Na comparação com o trimestre anterior a agropecuária teve queda de 0,5%, a indústria teve crescimento de 1,9% e nos serviços o crescimento foi 2,7%.

 


No acumulado de quatro trimestres a construção teve queda de 7,0%. Na indústria de transformação a queda foi de 4,3%. Ao contrário de outros períodos quando a queda na indústria de transformação podia ser vista como parte da arrumação de casa após a sequência de investimentos questionáveis, para dizer o mínimo, da primeira metade da década., esta queda reflete o impacto da pandemia no setor A indústria extrativa teve crescimento de 1,3%. Na comparação com o trimestre anterior a construção teve queda de 0,4%, a indústria extrativa caiu 4,7% e a indústria de transformação cresceu 4,9%. Vale registrar que no quarto trimestre de 2020 a indústria extrativa correspondeu a 16,4% da indústria total, a construção por 14,7% e a de transformação por 55%.

 


Nos serviços o maior crescimento ficou por conta do setor de atividades financeiras, de seguros e serviços relacionados que cresceu 2% no acumulado de quatro trimestres, também de 2,5% nas atividades imobiliárias. Administração, defesa, saúde e educação públicas e seguridade social teve queda de 4,7%., as maiores quedas foram de 9,2% no setor de transportes e 12,1% em outras atividades de serviços A figura abaixo mostra o crescimento no setor de serviços. Na comparação com o trimestre anterior apenas o setor “Atividades financeiras, de seguros e serviços relacionados” registrou queda Mais uma vez o crescimento faz parte do mesmo movimento que causou a queda no trimestre anterior.

 


Por fim, passemos a análise pelo lado da demanda, ou seja, como foi distribuída a produção do país. O investimento, a parte do produto destinada a criar mais produto no futuro, teve queda de 0,8% no acumulado em quatro trimestres. Em tempos normais isso seria preocupante, pois sugeriria redução da capacidade de produção nos próximos períodos e pouca confiança no futuro da economia, em tempos de pandemia o resultado pode até ser visto com algum otimismo. Na comparação com o trimestre anterior o investimento cresceu 20%.

O consumo das famílias caiu 5,5% e o consumo do governo caiu 4,7%, ou seja, no acumulado de quatro trimestres a fatia do bolo que vai para as famílias caiu mais do que a fatia que vai para o governo. As exportações caíram 1,8% e as importações caíram 10%. Na comparação com o trimestre anterior o consumo das famílias cresceu 3,4%, o consumo do governo cresceu 1,1%, as exportações caíram 1,4% e as importações tiveram aumento de 22%.

 


Os números das contas nacionais mostram que a pandemia do coronavírus interrompeu o processo de lenta recuperação que vínhamos seguindo desde 2017, mas sugerem uma rápida recuperação em relação a queda causada pela própria pandemia. Essa recuperação pode ter sido comprometida pelo recrudescimento da pandemia no primeiro trimestre de 2021. De fato, o comportamento da economia depende essencialmente dos rumos da pandemia. Sem uma campanha de vacinação em massa só um milagre pode nos tirar da crise.

Para ter crescimento de longo prazo o governo precisaria liderar uma sólida agenda de reformas, algo que parece cada vez mais distante, por exemplo, a abertura da economia, que já foi chamada de mãe de todas as reformas, nem aparece mais nas conversas sobre os rumos da economia. Continua valendo que se o governo partir para políticas de estímulos turbinadas por planos como o Pró-Brasil, Casa Verde e Amarela e uso de estatais podemos até ter bons números no curto prazo, ainda assim condicionados à dinâmica da pandemia, mas começaremos outra caminhada em direção ao abismo. A disparada dos preços no atacado, levando junto o IGP-M, mostra que, além da recuperação do PIB, o governo deve se preocupar em evitar que a inflação chegue nos preços aos consumidores.

 

P.S. Os gráficos setoriais não são os ideais, continuo procurando uma forma melhor de passar os desempenhos dos setores se abrir mão de grande parte da série.

 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Quebrados! O dia em que o Rei disse que o Rei está nu.


Em 2014, após vencer as eleições jurando de pés juntos que não havia problema fiscal no Brasil, Dilma reconhece que os gastos públicos são insustentáveis e começa com a sequência de tentativas de cortes de gastos. Ainda naquele ano, com Mantega na Fazenda, são apresentadas medidas para reduzir pensões e dificultar acesso ao seguro desemprego.

Em 2015, ciente que cortar gastos não era o forte de Mantega, Dilma coloca Joaquim Levy na Fazenda para aprofundar os cortes de gastos, ali a outrora campeã da defesa de gastos reconhecia de forma inequívoca que a trajetória de gastos era insustentável. Sem conseguir fazer os cortes de gastos que desejava e às turras com a Presidente e o PT, Levy sai do governo.

No lugar de Levy entra Nelson Barbosa. Meu colega de departamento e professor da FGV é uma referência entre economistas heterodoxos do país, inclusive entre os que negam a necessidade do ajuste fiscal. O contexto em que entrou no governo e o pouco tornam difícil comentar a passagem de Nelson Barbosa no comando da economia, mas é fato que tomou medidas de ajuste fiscal e controle dos gastos. Uma delas foi adiar reajustes de servidores públicos, lembro porque foi naquela época que consegui ser acusado pela mesma pessoa e na mesma semana de golpista e defensor do governo.

Dilma caiu e Temer tomou posse como Presidente. Para Fazenda foi Henrique Meirelles, famoso pelo excelente trabalho à frente do BC na época de Lula, Meirelles seguiu a linha dos cortes de gastos. Uma de suas mais famosas medidas foi o Teto de Gastos que, apesar de ser acusado de causar uma crise que existia antes dele ser criado, é um responsáveis pela queda de juros e inflação durante o governo Temer quando a economia deixou de cair e começou a lenta recuperação. Meirelles saiu para se candidatar a Presidente, no lugar dele ficou Eduardo Guardia que seguiu as linhas de política econômica do antecessor.

Em 2019 foi a vez de Bolsonaro chegar ao Planalto e Paulo Guedes assumir o comando da economia. A necessidade de cortes de gastos foi reforçada pelo novo governo que também apresentou medidas para contenção de despesas. Faço esse histórico para o leitor ter em mente que desde o final de 2014 todos os presidentes, de Dilma a Bolsonaro, e todos os comandantes da área econômica do governo, de Mantega a Paulo Guedes, apontaram a necessidade de controlar gastos e/ou apresentaram medidas de ajuste fiscal. Todos, sem exceção.

Foi nesse estado que a pandemia nos pregou trazendo queda das receitas e aumento de gastos do governo. Para usar os termos da moda pegamos Covid com várias comorbidades. Como de costume, Bolsonaro foi infeliz na escolha da hora e dos termos, mas ao dizer que o Brasil está quebrado apenas reforça o que já sendo dito em declarações e ações de governantes e por ministros desde 2014. O Rei disse que o Rei está nu.

Mas não se desespere, meu amigo, com os horrores que eu lhe digo, apesar de não ser apenas uma canção, como no caso do poeta, estarmos quebrados sem o Presidente saber o que fazer não é o pior dos mundos. A considerar as propostas como as apresentadas por Ciro Gomes, um governo que não faz nada talvez seja uma benção.