quinta-feira, 5 de março de 2020

Um resumo dos números da economia em 2019


Com a divulgação dos números das contas nacionais referentes a 2019 dá para fazer um balanço geral de 2019 em comparação com os anos anteriores. A tabela abaixo resume os dados que serão usados no post.


            2017
            2018
            2019
Inflação
2,95%
3,75%
4,31%
Crescimento
1,32%
1,32%
1,14%
Taxa de investimento
14,6%
15,2%
15,4%
Desemprego
11,8%
11,6%
11,0%
Despesa primária (trilhões)
R$ 1,406
R$ 1,433
R$ 1,472
Despesa primária/PIB
19,4%
19,6%
19,9%
Dívida interna/PIB
76,89%
79,77%
81,95%
Taxa Selic
7,0%
6,5%
4,5%
Taxa de câmbio
R$ 3,31
R$ 3,87
R$ 4,14

Sei que estou em desacordo com a maioria dos meus colegas de profissão, inclusive aqueles que muito respeito, mas o maior problema de 2019 foi o crescimento da inflação que, ao contrário de 2017 e 2018, ficou acima do centro da meta. Sei que houve um aumento inesperado no preço da carne, mas em 2018 tivemos uma greve de caminhoneiros com forte impacto nos preços e nem por isso a inflação ficou acima da meta. Creio que a prioridade do governo este ano deveria ser trazer a inflação de volta para baixo da meta que agora é de 4%.

O crescimento ficou dentro do esperado, considerando o estrago feito na economia principalmente no período entre 2010 e 2014 um número muito mais alto é que seria preocupante. Não é hora de estímulos em busca de PIBão, a hora é de tentar arrumar a casa para evitar outra década perdida. A taxa de investimento ficou mais ou menos onde estava em 2018, pouquinho maior. Assim como no caso de crescimento seria possível um número maior, mas seria ruim se isso acontecesse. Uma retomada do investimento antes de maiores avanços nas reformas seria um sinal de que o governo estaria abusando de estímulos. O desemprego mostrou pequena redução compondo o cenário de lenta recuperação da economia.

O aumento da despesa primária é preocupante, principalmente porque sabemos que parte desse aumento decorre de bondades com a corporação do Presidente da República, definitivamente não era hora de dar aumentos nem de capitalizar estatais. A dívida interna subiu em proporção do PIB, mais um sinal de que temos um ajuste fiscal que não reduz gastos.

A queda da Selic é frequentemente comemorada como o grande feito do ano, eu estou fora dessa comemoração. O aumento da inflação e a (pequena) queda no crescimento mostra o risco de entre inflação e recessão o governo escolher a primeira e ficar com as duas. Não estou dizendo que isso ocorreu, apenas registrando o risco, tal qual o torcedor que não confia no goleiro do time dele fico na arquibancada torcendo, mas nervoso. Outro efeito da redução dos juros foi a saída de dólares e a desvalorização do real que está ganhando (muita) força este ano. Câmbio mata, já dizia o mestre, até agora a desvalorização não chegou na inflação, ponto para o BC, mas o perigo existe e aumenta a cada rodada de desvalorizações. Por quanto tempo as empresas que tiveram aumento de custos com a desvalorização do real ainda vão conseguir segurar os reajustes de preços? Essa conversa de que não existe risco de inflação com recessão ou baixo crescimento não resiste a uma olhada em nosso vizinho do norte, nem no nosso vizinho do sul e nem mesmo no nosso passado.

Minha leitura do quadro descrito na tabela acima é que do lado real a economia continua no mesmo ritmo do ano passado, o que é não é surpresa dado que o atual governo está mantendo a linha reformista do governo anterior. A preocupação está no lado nominal, o aumento de inflação e a desvalorização do real, essa última muito reforçada no começo deste ano, deveriam acender uma luz vermelha na condução da política monetária. Não parece que vai ser o caso, pelo contrário, notícias de jornais sugerem que o Banco Central vai entrar na onda do FED e de outros bancos centrais pelo mundo e apostar na redução de juros para enfrentar um choque de oferta. Mais um pouco e macroeconomistas vão anunciar que não precisamos mais nos preocupar com quarentena, vacinas e coisa do tipo, afinal redução de juros agora é remédio até para gripe.

Nota: A inflação é medida pelo IPCA conforme divulgado pelo IBGE. O crescimento e taxa de investimento estão nas contas nacionais trimestrais, essa última foi calculada como a razão entre formação bruta de capital fixo e o PIB. O desemprego foi medido pela taxa de desocupação no último trimestre de cada ano conforme os dados da PNAD. A despesa primária está em reais de janeiro de 2020 e foi obtida na STN, para calcular a despesa primária como proporção do PIB foram usados os dados em valores correntes também disponibilizados pela STN. A dívida interna é a calculada pela STN, foram usados os valores de dezembro de cada ano. A taxa Selic pode ser encontrada na página do Banco Central, usei a que estava valendo na última semana de cada ano. A taxa de câmbio é a de dezembro de cada ano conforme o portal da ADVFN Brasil.





quarta-feira, 4 de março de 2020

Contas nacionais do quarto trimestre de 2019: é devagar que se vai ao longe


O IBGE divulgou hoje as contas nacionais referentes ao quarto trimestre de 2019 (link aqui), com isso temos o quadro completo do PIB no ano passado. Houve um crescimento de 0,5% em relação ao trimestre anterior, já corrigido por sazonalidade, no acumulado de quatro trimestres, ou seja, durante todo o ano de 2019, o PIB cresceu 1,1%. No total o PIB de 2019 foi de R$ 7,257 trilhões, sendo que R$ 322 bilhões vieram da agropecuária, R$ 1,301 trilhão veio da indústria e R$ 4,590 trilhões vieram dos serviços. Na divisão do bolo o consumo das famílias ficou com R$ 4,712 trilhões, o investimento com R$ 1,114 trilhão e o consumo do governo com 1,472 trilhão.

Quando da divulgação dos números do terceiro trimestre alertei sobre os necessários cuidados com a empolgação, desta vez alerto para os riscos das frustrações. A escolha pela agenda de reformas implica na recuperação lenta, não estamos tentando mais um surto de crescimento que termina em grandes crises e décadas perdidas. O plano é arrumar a casa para depois crescer de forma consistente, embora não necessariamente rápida, como a casa estava (e ainda está) muito bagunçada ainda temos um longo caminho de crescimento baixo. Repito o que venho dizendo há mais de dez anos: para economia brasileira um crescimento muito alto é mais perigoso que um crescimento muito baixo. Se você está dirigindo um fusca velho não tente correr mais que uma Ferrari, caso consiga o motor do seu carro vai fundir e você vai ficar a pé.

A figura abaixo mostra o crescimento da economia desde 1996, as barras mostram o crescimento em relação ao trimestre anterior (com ajuste sazonal) e a linha mostra o crescimento acumulado em quatro trimestres. Repare que o crescimento está estabilizado em torno de 1% ao ano, a agenda de reformas tenta elevar esse valor por meio do aumento da produtividade, por isso os efeitos desta agenda são demorados. O risco de adotar estímulos é repetir o padrão de alto crescimento seguido de grande crise como aconteceu entre 2010 e 2015. De toda forma é sempre bom registrar que as reformas iniciadas em 2016 no governo Temer reverteram a trajetória de queda do PIB e aumento da inflação que foi o legado da hoje infame Nova Matriz Econômica.




Ao contrário de outros analistas que tentam entender como o bolo foi feito estudando a divisão do bolo aqui tenho insistido em começar a análise das contas nacionais pela produção, ou seja, pelo lado da oferta. A figura abaixo mostra o crescimento dos grandes setores da economia. A agropecuária, que respondeu por 5,2% do valor agregado e 4,4% do PIB, cresceu 1,3% no período; o setor de  serviços, 73,9% do valor agregado e 63,3% do PIB, também cresceu 1,3%; finalmente, a indústria, que responde por 20,1% do valor agregado e 17,9% do PIB, cresceu 0.46%. Repare que, por modesto que tenha sido, o crescimento ocorreu em todos os setores da economia.




No acumulado de quatro trimestres a construção cresceu 1,6% e teve o melhor desempenho entre os setores da indústria, como esse é um setor que está recebendo estímulos do governo há um risco de crescimento artificial o que pode ser um problema mais na frente. A indústria de transformação cresceu 0.1%, o baixo crescimento ou mesmo queda da indústria de transformação é parte fundamental da arrumação da casa. Muito investimentos ruins foram realizados neste setor no período de 2006 a 2014, são empresas sem perspectivas, algumas criadas apenas para viabilizar corrupção, que devem quebrar de forma a liberar capital e trabalho para empresas produtivas que ainda serão criadas. A indústria extrativa teve queda 1,1%, em parte por conta de Brumadinho. As quedas de 3% e 9,3$ no primeiro e segundo trimestres de 2019 não foram recuperadas pelo crescimento de 4% e 3,4% nos trimestres seguintes.




Nos serviços o maior crescimento novamente ficou por conta do setor de informação e comunicação que cresceu 4,1% no acumulado de quatro trimestres. As atividades imobiliárias também tiveram um bom desempeno com crescimento de 2,3%, vale aqui o alerta feito para construção. A figura abaixo mostra o crescimento no setor de serviços.




Por fim, passemos a análise pelo lado da demanda, ou seja, como foi distribuída a produção do país. O maior crescimento foi no investimento, a parte do produto destinada a criar mais produto no futuro, que cresceu 2,2% no acumulado em quatro trimestres reforçando a tendência iniciada no segundo trimestre de 2018. O consumo das famílias cresceu 1,8% e o consumo do governo caiu 0,4%, ou seja, a fatia do bolo que vai para o governo caiu. Isso não significa que o governo está contribuindo menos para o PIB, para fazer essa afirmação seria necessário avaliar a contribuição do governo pela ótica da oferta, a contribuição direta, medida pelo setor administração, defesa, saúde e educação públicas e seguridade social ficou estável com crescimento de 0,04%. As exportações caíram 2,5% e as importações subiram 1,1%.




Os números das contas nacionais reforçam que estamos em recuperação lenta, mas sólida. O choque do coronavírus deve comprometer o começo de 2020 aumentando a pressão na equipe econômica por parte dos que, dentro e fora do governo, pedem uma política que leve a um crescimento mais rápido. Da capacidade do time de Paulo Guedes resistir a essa pressão depende o futuro da economia brasileira. Lembro aos apressados que a experiencia recente nos mostra que crescimento rápido pode terminar muito mal e que os maiores beneficiados com os estímulos são os que correm para dizer que não vão pagar a conta.


domingo, 1 de março de 2020

Quem ganhou e quem perdeu recursos em 2019?


Conforme prometido no penúltimo post (link aqui) segue a comparação das despesas do governo central por área entre 2018 e 2019. Como o objetivo é avaliar as prioridades do governo foram consideradas apenas as despesas discricionárias, não que o governo tenha controle total sobre essas despesas, mas são as que podem ser ajustadas com mais facilidade (ou menos dificuldade). Por conta das distorções relativas à cessão onerosa para os leilões do pré-sal não será usado o total de despesas discricionárias (ver explicação aqui). Desta forma serão consideradas as despesas discricionárias em saúde, educação, defesa, transporte, administração, ciência e tecnologia, segurança pública e assistência social.

A figura abaixo mostra cada uma destas despesas em 2018 e 2019. A despesa discricionária em defesa de R$ 16,2 bilhões para R$ 19,7 bilhões e em assistência social subiu de R$ 3.5 bilhões para R$ 4 bilhões, todas as outras tiveram queda. Em termos absolutos a maior queda ocorreu na educação que foi de R$ 26.5 bilhões em 2018 para R$ 22,3 bilhões em 2019, uma perda de pouco mais de R$ 4 bilhões. Saúde, com R$ 29,8 bilhões, Educação, com R$ 22,3 bilhões, e defesa, com R$ 19,7 bilhões, foram as áreas com maiores despesas discricionárias em 2019.




A figura abaixo mostra a variação percentual em cada grupo de despesa. Assim como em termos absolutos a defesa foi onde ocorreu o maior aumento percentual da despesa discricionária, 22,1%, na assistência social o aumento foi de 11%. A maior queda percentual ocorreu nos transportes, 17,1%, seguida por administração, 16,9%, e educação, 16%. Ciência e tecnologia, 12%, fecha o grupo dos que tiveram queda de mais de 10%. Os dados de despesas discricionárias sugerem que o governo prioriza a defesa, não chega a ser uma surpresa, e para aumentar gastos nessa área sacrificou nas outras, com exceção de assistência social, sendo educação a maior perdedora.




Uma outra forma de avaliar as prioridades do governo é por meio do investimento. Os dados da STN detalham o investimento do governo federal por órgão, lá estão listados os investimentos realizados por cada ministério. Como houve criação, fusão e extinção de ministérios no começo de 2019 acompanhar o investimento de cada um dá um certo trabalho. Para evitar esse problema considerei apenas os investimentos dos ministérios da Saúde, Educação e Defesa, áreas com maior volume de gastos discricionários.

A figura abaixo mostra o investimento desses três ministérios em 2018 e 2019. O único que teve aumento de investimento foi o Ministério da Defesa que passou de R$ 12,1 bilhões em 2018 para R$ 16,5 bilhões em 2019, um aumento de R$ 4,4 bilhões. O Ministério da Educação reduziu investimentos em R$ 1,2 bilhões e o da Saúde reduziu em R$ 3 bilhões.




A figura abaixo mostra a variação do investimento entre 2018 e 2019 em cada um dos ministérios. Na defesa o crescimento foi de 44,9%, a queda do investimento do Ministério da Saúde foi de 44,9% e no Ministério da Educação foi de 23,7%. Mais uma vez os números mostram que o governo prioriza a área de defesa.




Um ano é pouco tempo para avaliar as prioridades de um governo, mas, feita essa ressalva, os números sugerem que há uma preferência do governo pela área de defesa e uma disposição para sacrificar recursos em outras áreas, notadamente educação, para financiar o aumento de gastos com defesa. É uma escolha, resta saber qual vai ser a reação dos prejudicados pelo remanejamento de recursos, tanto as corporações como os cidadãos que usam serviços dessas áreas. Isso só o tempo dirá.