sábado, 27 de julho de 2019

Ainda não é o primeiro semestre de 2003, mas já podemos falar em ajuste fiscal.


Com dados relativos a seis meses de governo já é possível dar uma primeira olhada no comportamento da despesa e verificar o esforço de ajuste fiscal do time do Paulo Guedes. No primeiro semestre de 2019 o governo gastou R$ 653,8 bilhões com despesas primárias em valores correntes, se for ajustado pela inflação o gasto foi de R$ 658,4 bilhões em valores de junho de 2019. Com os devidos ajustes o gasto no primeiro semestre corresponde 47,26% do total permitido pelo teto de gastos, um número preocupante se considerarmos que a despesa no segundo semestre costuma ser maior do que no primeiro semestre.

Considerado o período de 1997 a 2018 a despesa do segundo semestre foi em média 18% maior que a do primeiro semestre, se considerarmos apenas o período posterior a 2014 esta proporção cai para 13%. Desta forma a valer a proporção mais recente o governo está em cima do teto, não pode nem piscar, a valer a proporção do período inteiro o governo está acima do teto e vai precisar de mais ajustes no segundo semestre. Não fosse o esforço fiscal do primeiro semestre a situação podia ser dramática, a figura abaixo mostra o gasto no primeiro semestre de cada ano desde 1997. Repare que este foi um dos poucos anos em que ocorreu queda no gasto.




Em todo o período entre 1998 e 2019 o gasto do primeiro semestre caiu em relação ao primeiro semestre do ano anterior apenas em 1999, 2003, 2015 e 2019. A figura abaixo ilustra a variação do gasto do primeiro semestre em relação ao primeiro semestre do ano anterior em cada ano. Repare que a queda deste ano só perde para a de 2003 que continua sendo a maior do período por larga margem. Se o ajuste deste ano combinado com a reforma da previdência vai conseguir estabilizar a dívida e ajudar na recuperação da confiança e do investimento só o tempo dirá, mas sem dúvida foi um esforço importante e necessário que merece registro.




Para entender a importância da reforma da previdência é válido dar uma olhada nos principais componentes da despesa primária do governo. A figura abaixo mostra esses componentes, repare que a previdência (em vermelho) não apenas é o maior gasto como é o que cresce de forma mais rápida e mais consistente. As despesas sujeitas a programação financeira, onde estão as despesas discricionárias, começou a ser ajustada ainda em 2015 quando Dilma reconheceu a necessidade do ajuste fiscal. Da mesma época começa o controle do gasto com pessoal, que teve um pulo no governo Temer, mas depois seguiu estável. Mesmo as despesas obrigatórias começam a ser ajustadas a partir de 2016, repare que a previdência parece estar fora de controle. O objetivo da reforma é controlar o gasto com previdência, só e tudo isso.




Uma última comparação que faço menos por considerar relevante e mais porque sempre aparece alguém perguntando diz respeito ao pagamento de juros. Não considero a comparação relevante porque pagamento de juros na verdade é pagar por despesas realizadas no passado, por exemplo, parte dos juros que pagamos diz respeito a gastos com previdência que foram pagos com empréstimos por falta de recursos para fazer o pagamento na época. Isso vale para outras despesas. Desta forma quando comparamos juros com alguma despesa estamos na verdade comparando a antecipação de despesas no passado, inclusive a que estamos comparando, com a despesa realizada no presente. Considerando o exemplo da previdência é como se estivéssemos comparando gasto com previdência no passado com gasto de previdência no presente e não gastos de natureza diferente como previdência e investimentos. A figura abaixo faz a comparação que não gosto e mostra o gasto com juros e com previdência no primeiro semestre de cada ano.




Repare que mesmo a despesa com juros não mostra a tendência de crescimento observada na despesa com benefícios previdenciários. Depois do pico de 2015 quando rentistas indignados com o tanto de dinheiro que estavam ganhando resolveram derrubar o governo para ganhar menos (ridículo, mas tem gente que acredita) os juros pagos pelo Tesouro tiveram queda e um comportamento oscilatório. Com a queda da Selic e da inflação é muito provável que o pagamento de juros siga em uma trajetória de queda nos próximos anos.

O resumo da história é que há um esforço fiscal por parte do governo e que apenas no primeiro semestre de 2003 foi observado um esforço maior quando é feita a comparação semestre a semestre. Graças a este esforço o governo segue uma trajetória de gastos compatível com o teto, o que pode significar menos tensões no segundo semestre. A combinação da reforma da previdência com a queda de juros e inflação pode levar a uma estabilização ou mesmo queda na relação dívida/PIB. É difícil falar em solução do problema fiscal com uma dívida bruta chegando a 80% do PIB, mas, com as devidas ressalvas, dá para falar que estamos melhorando no lado fiscal.


quinta-feira, 25 de julho de 2019

A única crítica razoável ao programa "Saque Certo" é não ter permitido saques maiores, o resto é conversa de compadre.


Imagine que um sujeito pagando juros de mais de 10% ao mês no cartão de crédito e com dinheiro aplicado na poupança a uma taxa menor que 0,5% ao mês te pede um conselho a respeito do que fazer com o dinheiro dele. Você recomendaria que ele colocasse o dinheiro no Tesouro Direto, em alguma aplicação vinculada ao CDI ou que pagasse a dívida? Supondo que você não tivesse raiva do sujeito e nem quisesse recomendar um calote ou algo do tipo creio que a sugestão seria que pagasse a dívida. Dificilmente o sujeito encontraria alguma alternativa com rendimentos maiores que os 11% que ele está pagando e que não tivesse um alto risco de colocá-lo na cadeia.

Essa mesma lógica pode ser aplicada ao FGTS. O dinheiro que está lá rende muito pouco, ainda menos que a poupança, e os juros pagos por quem está endividado são muito altos. Ao permitir o saque do FGTS, mesmo que de apenas R$ 500,00, o governo permite que os trabalhadores endividados sigam o conselho do parágrafo anterior, ou seja, paguem suas dívidas, e que os trabalhadores que não estão endividados possam consumir sem ter que se endividar. Se o leitor pensa que ninguém fica endividado por causa de R$ 500,00 talvez queria saber que 30% dos inadimplentes estão nesta condição por conta de valores menores que R$ 500,00. Considerando que são 63,2 milhões de pessoas com contas atrasadas estamos falando de quase vinte milhões de pessoas que poderiam ter evitado a inadimplência se tivesse tido aceso a R$ 500,00. É provável que boa parte dessa turma tivesse os tais R$ 500,00 presos em uma conta de FGTS.

Os dados usados no parágrafo anterior estão na apresentação feita pela equipe do Ministério da Economia por ocasião do lançamento do programa “Saque Certo – Direito de quem trabalha” (link aqui). Na página vinte e seis da apresentação tem uma tabela que sozinha justifica o apoio a qualquer programa que facilite o acesso ao dinheiro preso no FGTS, nela estão os valores de R$ 100 em janeiros de 2017 corrigidos por diversas taxas cobradas no mercado e pelo FGTS. Alguém que tenho pedido R$ 100 emprestados em janeiro de 2017 estaria devendo hoje R$ 412,58 se fosse no comércio, R$ 2.462,61 se fosse no cartão de crédito, R$ 2.159,38 se fosse no cheque especial, R$ 295,46 se fosse empréstimo pessoal em um banco e 683,36 se fosse empréstimo em financeira. Os mesmos cem reais aplicado pelo mesmo período no FGTS hoje valeriam R$ 110, 79. É assustador!

A figura abaixo expanda a tabela da apresentação do Ministério da Economia para outros valores. Um infeliz que pegou R$ 500,00 no cartão de crédito em janeiro de 2017 e deixou a conta rolar hoje deve mais de doze mil reais, os R$ 500,00 que ele tinha no FGTS hoje valem R$ 553,95. Mal comparando é como se ele tivesse perdido R$ 10.000 entre janeiro de 2017 e hoje pelo direito de deixar o dinheiro guardado no FGTS. Se em janeiro de 2017 o governo tivesse autorizado a retirada de R$ 500 do FGTS para pagar a dívida o sujeito hoje não estaria devendo cerca de doze mil reais. No caso de pegar dinheiro no comércio o coitado teve de “pagar” cerca de R$ 1.500 pelo direito de financiar o desenvolvimento nacional.




Alguém pode dizer que ele tem direito a multa em caso de demissão. É verdade, no caso de quem tinha R$ 500 no FGTS em janeiro de 2017 e hoje tem R$ 554 a multa seria de cerca de R$ 222 deixando o sujeito com R$ 776 nas mãos, pouco mais da metade do que ele estaria devendo se desde janeiro de 2017 tivesse deixado acumular uma dívida de R$ 500 em empréstimo pessoal de banco, o endividamento mais barato dentre os listados na tabela. Se tivesse deixado a dívida acumular no cartão os R$ 776 do FGTS mais multa seriam menos de 10% da dívida.

Só para dar uma ideia da crueldade que é deixar alguém endividado com dinheiro preso no FGTS fiz uma aproximação rápida da taxa de juros implícitas na tabela do Ministério da Economia. A figura abaixo mostra as taxas aproximadas, você não viu errado, é isso mesmo, a modalidade de crédito mais barata tem taxas mensais mais de dez vezes maiores que a taxa mensal paga pelo FGTS. Se o número verdadeiro do rendimento do FGTS for o dobro de minha aproximação e o número verdadeiro da taxa do empréstimo mais barato for metade da minha aproximação ainda assim teríamos um escândalo.




Muito vai ser dito sobre o impacto da liberação do FGTS sobre o PIB, não se preocupe tanto com isso, a questão do FGTS vai muito além de estimular a demanda. Pelo que conheço das pessoas que estão na equipe econômica a conversa sobre impacto na demanda é para animar jornalistas. Mesmo o impacto sobre a oferta, bem explorado na apresentação, é incerto e virá em futuro que não podemos prever. A verdadeira razão para liberar saques do FGTS é reduzir os absurdos que descrevi no post, desta forma a única crítica que posso fazer ao programa é não ter liberado mais.



terça-feira, 23 de julho de 2019

Uma nota sobre a queda do risco do Brasil


Em tempos de crise é importante a ficar atento a sinais a respeito do que se espera do país no futuro, um sinal particularmente importante é a percepção do risco do país por parte dos investidores. Existem instituições que tentam medir o risco de cada país e fazer uma classificação de risco, embora importantes essas avaliações não são a única maneira de avaliar o risco de um país. Existem instrumentos de mercado que sinalizam o quanto é seguro investir em títulos de um país, um deles é o Credit Default Swap (CDS). O CDS é um contrato que remunera o portador em caso de inadimplência da unidade de interesse que pode ser empresas ou países. Como é uma espécie de seguro contra calote o CDS está relacionado a probabilidade de inadimplência, dito de outra forma: quanto maior o CDS maior a chance de calote.

A boa notícia é que ocorreu uma queda significativa no CDS do Brasil. Segundo o Infomoney o CDS voltou a ser negociado a níveis de 2014, antes do Brasil perder o grau de investimento (link aqui). A queda continua e até o presidente Bolsonaro resolveu comemorar a notícia no Twitter (link aqui), como já sabemos se algo está no Twitter presidencial então é importante. Resolvi buscar os dados de CDS para comparar o desempenho do CDS do Brasil com o de outros países. A busca foi mais trabalhosa do que eu imaginava, como não encontrei séries longas para vários países com acesso livre tive de me contentar com os dados da página “World Government Bonds” (link aqui) com informações sobre CDS de cinco anos para vários países.

Na página estão disponíveis dados para quarenta e cinco países com CDS (5 anos), variação no último mês, variação nos últimos seis meses, probabilidade de inadimplência e nota de risco segundo a S&P. Retirei da amostra a Venezuela, o CDS de lá está 72.150,2 contra 871,72 da Argentina que é o segundo mais alto, também foram excluídos Catar e Bahrein por faltas de dados referentes a 23/07/2019.

Comecemos pela variação em um mês. Aqui temos a boa notícia: embora o padrão geral tenha sido de queda, a redução na CDS brasileira ficou bem abaixo da média de 7% observada para os países da amostra. Apenas Índia com queda de 18,51% e Turquia com queda de 17,52% tiveram queda maior que a do Brasil que foi de 17,03%. A figura abaixo mostra a variação no CDS (5 anos).




Considerando o CDS propriamente dito nossa posição não é boa, mas também não é de todo ruim. A figura abaixo mostra que dentre os países sem grau de investimento somos o que tem menor CDS, de fato estamos abaixo da Itália que tem grau de investimento. Se a tendência de queda continuar em breve será possível voltar a sonhar com a volta do grau de investimento o que pode ajudar muito no financiamento do investimento necessário para a recuperação da economia.




Como falei acima o CDS está relacionado com a probabilidade de inadimplência, a figura abaixo mostra essas probabilidades. Note que é praticamente uma repetição da figura anterior, porém com probabilidades no lugar do CDS. Aqui fica bem claro que dentre os países sem grau de investimento somos o que tem menor probabilidade de dar um calote e que nossa probabilidade de calote é menor do que a da Itália, porém é bem maior do que a do México.




A comparação com outros países mostra que estamos recuperando a confiança do mercado, porém ainda precisamos ganhar mais credibilidade para voltarmos ao grau de investimento e conseguirmos acesso a capitais que buscam segurança. O que precisa ser feito não é segredo: reforma da previdência, manutenção do teto de gastos e do controle da inflação e trabalhar em novas rodadas de reforma que permitam um crescimento saudável, mesmo que lento.


domingo, 21 de julho de 2019

Nova PWT e velhos problemas... a produtividade por aqui continua indo de mal a pior


Com a chegada da nova versão da PWT (link aqui) vale dar uma olhada no desempenho da produtividade total dos fatores no Brasil em comparação com a de outros países. Com esta finalidade selecionei todos os países disponíveis na PWT com mais de cinco milhões de habitantes em 2017 (último ano disponível) e classificados como países de renda média alta pelo Banco Mundial. Como medida de produtividade escolhi a “ctfp” que corresponde a produtividade do país como proporção da produtividade dos Estados Unidos corrigida por poder de compra. A figura abaixo mostra o resultado.




O Brasil apresenta o segundo pior desempenho. Entre 2013 e 2017 nossa produtividade caiu 13,6% em relação a dos EUA. O desempenho de países como Rússia e Cazaquistão sugere um efeito do petróleo na medida de produtividade utilizada, mas esse efeito, se for relevante, não é tão direto e nem nos salva do vexame. Considerando apenas o petróleo países como Rússia, Iraque, Cazaquistão e México deveriam ter um desempenho pior que o do Brasil posto que todos eles exportam mais petróleo que o Brasil (links aqui, aqui e/ou aqui) e possuem um PIB menor que o nosso de forma que as exportações de petróleo tem mais peso no PIB desses países do que no PIB brasileiro.

Caso o leitor não esteja satisfeito com essa aproximação pode checar as rendas do petróleo de cada país no banco de dados do Banco Mundial (link aqui). No Brasil essas rendas equivalem a 1,3% do PIB, no Iraque é de 37,8% do PIB, no Irã é de 15,3% do PIB, na Venezuela é de 11,3% do PIB, no Cazaquistão é de 10,2% do PIB, na Rússia é de 6,4% do PIB, no Equador é de 5,0% do PIB, na Colômbia é de 2,7% do PIB, no México é de 1,7% do PIB e no Brasil de 1,3% do PIB. Mais uma vez os números sugerem que é difícil culpar o petróleo por tamanha queda de produtividade no Brasil, principalmente quando lembramos que o fraco desempenho da produtividade por aqui já é observado há algumas décadas.

O problema da produtividade no Brasil decorre de um fenômeno microeconômico onde os incentivos para o investimento em capital físico (e humano!) respondem menos a incentivos de mercado do que a grupos de interesse, principalmente conluios entre políticos e grandes empresários, e a planos estratégicos do governo de plantão. Desde o final da década passada essas distorções voltaram a crescer por aqui. O poder destrutivo de incentivos errados não deve ser subestimado, se as distorções são grandes e se acumulam o suficiente podem destruir uma economia. Não acredita em mim? Então explica a queda de mais de 50% na produtividade relativa da Venezuela... ou o leitor acredita que lá foi o petróleo?



quinta-feira, 18 de julho de 2019

Fortaleza abriu mais empresas que Juazeiro do Norte, Caucaia e Maracanaú somadas! Jura?!? E daí?


Hoje esbarrei em uma notícia compartilhada pelo Rodrigo Saraiva Marinho (link aqui) dando conta que o prefeito de Fortaleza estava comemorando que a foram abertas mais empresas na cidade do que em qualquer outra da Terra da Luz. Os que não conhecem as terras alencarinas podem não entender o tamanho do absurdo que é comparar em números absolutos a criação de empresas em Fortaleza e nas demais cidades do estado. Segundo dados do Empresômetro – Inteligência de Mercado (link aqui) 44% das empresas do Ceará estão em Fortaleza, é a oitava maior concentração de empresas na capital entre os estados brasileiros. A figura abaixo mostra o número de empresas nas quinze cidades cearenses com mais empresas.




Repare que Fortaleza tem quase doze vezes mais empresas que Juazeiro do Norte, segundo lugar na lista, nem Padre Cícero conseguiria fazer que abrisse menos empresas na terra dele do quem Fortaleza. Se no lugar do número absoluto olharmos a variação percentual no número de empresas em cada cidade Fortaleza sai de um primeiro lugar disparado para um modesto sétimo lugar. Ocorre que é difícil separar o que acontece nas outras cidades do estado do que acontece em Fortaleza, a concentração econômica na capital é tão grande que não absurdo supor que a dinâmica da economia de Fortaleza afeta as outras cidades do Ceará.




Talvez uma comparação mais interessante seja avaliar o desempenho de Fortaleza contra a de outras capitais. Novamente a comparação em termos absolutos não é adequada devido a desproporção entre o número de empresas nas várias capitais. A figura abaixo mostra a distribuição de empresas nas capitais brasileiras. Repare que o número de empresas em São Paulo é mais de sete vezes o número de empresas em Fortaleza, mais de dez vezes o número de empresas em Recife e mais de trezentas vezes o número de empresas em Vitória. Aliás vale registrar que Vitória é a única capital brasileira que não lidera o número de empresas do estado, a cidade com mais empresas no Espírito Santo é Vila Velha.




Para reduzir os efeitos da grande diferença do número de empresas em cada capital vou repetir o exercício que fiz para o Ceará e olhar para a variação percentual no número de empresas. A figura abaixo mostra esse exercício. Repare que entre as vinte seis capitais estaduais e Brasília apenas São Luís, Macapá, Teresina e Porto Alegre tiveram um crescimento menor que Fortaleza no número de empresas ativas, ou seja, a capital dos verdes mares bravios ficou na vigésima terceira posição entre as vinte e sete cidades listadas. Não creio que seja motivo para comemorar.




Alguém pode argumentar que por estar em sétimo lugar no ranking de números de empresas era de se esperar que Fortaleza tivesse uma posição intermediária no ranking de crescimento de empresas. Além da base maior o grande número de empresas pode sugerir que existem menos oportunidades para abrir novos negócios. Argumentos dessa natureza podem ajudar a explicar as primeiras colocadas na lista de crescimento do número de empresas, mas perdem força para explicar o desempenho de Fortaleza diante do fato que todas as capitais com mais empresas que Fortaleza mostraram um crescimento do número de empresas maior que o de Fortaleza.


segunda-feira, 15 de julho de 2019

Sobre a queda nas expectativas de crescimento e o excesso de otimismo de (quase) todo janeiro


Em abril de 2014 fiz um post (link aqui) mostrando que o pessoal do mercado pecava por excesso de otimismo, na época o objetivo era desmistificar a tese que o mercado era pessimista e fazia terrorismo econômico. A verdade é que os números do Boletim Focus (link aqui), que resume as expectativas de mercado, mostravam o exato contrário: nos anos anteriores a 2014 o mercado estimava crescimento maior e inflação menor do que o crescimento e a inflação que de fato ocorreram.

Hoje volto ao otimismo de mercado, mas com outra perspectiva. Se em 2014 o otimismo do mercado era estranhamente percebido como pessimismo em 2019 a correção do otimismo do mercado durante o ano é vista como sinal de aprofundamento da crise. Por certo a recuperação é lenta e está ameaçada, não há questionamentos aqui, meu ponto é que a redução das expectativas de crescimento do Focus não é um bom termômetro para isso. A verdade é que normalmente as expectativas de crescimento para baixo são corrigidas para baixo durante o ano. A figura abaixo mostra a expectativa de crescimento na última semana de janeiro e na última semana de junho entre 2001 e 2019.




Com exceção do período 2006-08 e de 2010 em todos os anos a expectativa de crescimento em junho era menor do que em janeiro. É verdade que a queda deste ano ficou acima da média, mas isso se deve mais ao excesso de otimismo em janeiro do que a dinâmica da economia propriamente dita. Desde que a crise saiu do armário em 2014 até 2018 a economia brasileira encolheu em média 0,96% ao ano, neste mesmo período o maior crescimento foi de 1,1% em 2018. De onde o pessoal do mercado tirou a ideia que o crescimento em 2019 seria de 2,5%?

Terá sido empolgação com a vitória de Bolsonaro? Pode ser, mas, como eu já disse antes, esse padrão de superestimar o crescimento em janeiro não é atípico. Em onze dos dezoitos anos decorridos entre 2001 e 2018 o crescimento previsto em janeiro foi maior que o crescimento ocorrido de fato. A figura abaixo mostra a expectativa de crescimento em janeiro e o crescimento ocorrido no período posterior à crise.




Repare que apenas em 2017 o pessoal do mercado previu um crescimento menos que o ocorrido, mas foi por pouca coisa. Em 2018 mesmo após anos de crise o mercado em janeiro falava que a economia cresceria 2,66%! Os números dos anos anteriores não sugerem que o erro de 2019 foi excesso de empolgação com Bolsonaro, na verdade a comparação da série histórica de previsões em janeiro e da série de crescimento do PIB aponta que costuma ocorrer um excesso de otimismo em janeiro. Será que o pessoal do mercado acredita em Papai Noel?


quinta-feira, 11 de julho de 2019

Como votaram as bancadas em relação ao texto-base da reforma da previdência?


Depois de olhar os votos por partidos e por estados (link aqui) resolvi olhar os votos por bancadas temáticas. Encontrar os deputados de cada bancada foi mais trabalhoso do que pensei, depois de algumas buscas encontrei uma página do DIAP (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar) com os deputados distribuídos por bancadas (link aqui). Peguei todas as bancadas disponíveis com exceção da “bancada dos parentes” e cruzei com os dados da votação do texto-base da previdência. O resultado está resumido na figura abaixo.




A bancada evangélica deu 90,4% dos votos para o texto-base da reforma, a bancada empresarial de 91,7%, a bancada feminina deu 67,5%, a bancada ruralista deu 91,9%, a bancada da segurança deu 94,9% e a bancada sindical deu 8,8%. Com exceção da bancada sindical todas as outras votaram em peso pela aprovação das reformas. A composição de cada bancada está na página do DIAP que citei acima. A bancada sindical é composta por trinta e cinco deputados sendo que dezenove são do PT, quatro do PCdoB e um do PSOL de forma que 68,5% da bancada é composta por deputados de partido que votaram de forma unânime contra a reforma, do restante quatro são do PSB e um do PDT totalizando vinte e nove deputados em partidos que fecharam questão contra a reforma.

A análise por bancada é interessante por permitir avaliar o potencial da estratégia de trocar partidos por bancadas nas negociações com o Congresso. Comparando os resultados do post anterior com a análise da votação por partidos e estados com os resultados desse post não percebi um padrão claro que desse uma dica sobre a relevância de bancadas e partidos na definição de votos dos deputados. Talvez com mais análises e mais dados referentes a outras votações o resultado apareça, fica a dica para quem gosta de política e está sem assunto para monografia.


quarta-feira, 10 de julho de 2019

Como votaram os partidos e as unidades da federação no texto-base da reforma da previdência?


Com um número de votos maior do que o esperado o texto-base da reforma da previdência foi aprovado na Câmara em primeiro turno, enquanto escrevo os deputados discutem e votam os destaques de forma que não dá para falar sobre o texto final aprovado. De toda forma vale registrar alguns aspectos da distribuição de votos por estados e por partido bem como destacar alguns deputados que, para o bem ou para o mal, divergiram de seus partidos. Os dados foram obtidos junto ao G1 (link aqui) e excluem os votos dos deputados Bacelar (PODE-BA), General Girão (PSL-RN) e Luiz Carlos Motta (PL-SP) que lamentavelmente estavam ausentes na votação.

Comecemos pelos partidos. A figura abaixo mostra os votos por cada partido, em vermelho os votos contrários ao texto-base e em azul os votos favoráveis. O partido que deu mais votos para aprovação do texto base foi o PSL (52 votos), na sequência vieram PL (37 votos), PP (36 votos), MDB (34 votos) e PSD (34 votos).  Na outra ponta PT (54 votos), PSB (21 votos), PDT (19 votos), PSOL (10 votos) e PCdoB (8 votos) foram os partidos que mais deram votos contrários ao texto-base da reforma. Fica claro que a esquerda petista votou em peso contra reforma, mostrando que essa esquerda não apenas existe como está articulada.




Uma outra forma, talvez mais justa, de avaliar o compromisso de cada partido com a reforma da previdência é pela proporção de votos contrários e favoráveis de cada partido. A figura abaixo resume essas proporções. Cidadania, DEM, MDB, Novo, Patriota, PHS, PODE, PSL, PTB deram todos os votos a favor da aprovação do texto-base da reforma da previdência. Já o PCdoB, PMN, PSOL, PT e Rede deram todos os votos contra o texto-base da reforma da previdência. Mais uma vez fica clara a relação entre os partidos que apoiaram o PT no segundo turno das últimas eleições e os partidos contrários à reforma da previdência.




Considerando a votação por unidades da federação chama atenção quem em todas o percentual de votos favoráveis ficou igual ou maior que 50%. No Ceará, estado governado pelo PT e com forte presença do PDT de Ciro Gomes, o total de votos contrários foi igual ao de votos favoráveis, na sequência aparecem Pernambuco (56% de votos favoráveis), Amapá (62,5%), Sergipe (62,5%), Bahia (65,8%), Alagoas (66,7%) e Paraíba (66,7%), em todas as outras unidades da federação o percentual de votos favoráveis ficou acima de 70%. Grosso modo me parece válido dizer que o texto-base da reforma da previdência teve um amplo apoio nacional.




Por fim registro os deputados que destoaram de seus partidos. No primeiro grupo estão os deputados que votaram a favor do texto-base mesmo estando em partidos com maioria contrária, foram oito do PDT (Alex Santana, Flávio Nogueira, Gil Cutrim, Jesus Sérgio, Marlon Santos, Silvia Cristina, Subtenente Gonzaga e Tábata Amaral), onze do PSB (Átila Lira, Emidinho Madeira, Felipe Carreas, Felipe Rigoni, Jefferson Campos, Liziane Bayer, Luiz Flávio Gomes, Rodrigo Agostinho, Rodrigo Coelho, Rosana Valle e Ted Conti) e, por fim, dois do PV (Enrico Misasi e Leandre). No segundo grupos estão os deputados que votaram contra o texto-base mesmo estando em partidos com maioria favorável, foram três do PP (Eduardo da Fonte, Fernando Monteiro e Mário Negromonte Jr), um do Avante (André Janones), um do PL (Tiririca), dois do PRB (Aline Gurgel e Hugo Motta), dois do PROS (Capitão Wagner e Clarissa Garotinho), um do PSC (Valdevan Noventa), dois do PSD (Expedito Netto e Wladimir Garotinho), um do PSDB (Tereza Nelma) e um do SD (Paulo Pereira da Silva).

Para o primeiro grupo eu registro meu agradecimento e parabenizo pela coragem de enfrentar o ranço de seus partidos e votar pela aprovação de uma reforma que mesmo não sendo a ideal é urgente e necessária. Em relação ao segundo grupo eu dispenso comentários, imagino que tenham suas razões, mas considero que cometeram um erro grave em um momento crucial para o país e nem mesmo possuem o argumento de fazer parte de uma oposição de princípios ao governo Bolsonaro.

O resumo é que o texto-base da reforma teve apoio na maioria dos partidos, exceção aos partidos da órbita do PT por razões, e teve suporte em todas as unidades da federação com o menor apoio vindo do Ceará que mesmo assim deu 50% dos votos a favor do texto. Na condição de quem acompanha o debate sobre reforma da previdência há cerca de vinte anos o apoio expressivo à reforma foi uma boa surpresa, daquelas que não apenas anima o dia como renovam a esperança no Brasil.


sexta-feira, 5 de julho de 2019

Uma nota a respeito da previdência dos estados


Um dos temas mais polêmicos no atual estágio da reforma da previdência é a questão dos estados, em particular a questão é saber se os servidores dos estados devem ser incluídos nas mesmas regras dos servidores da União. Não é uma questão trivial pois coloca um conflito entre a questão fiscal e o pacto federativo, mais Brasília ou mais Brasil. Tudo fica mais grave por conta da tradição da União em socorrer estados com sérios problemas fiscais, o risco de governadores fugirem do custo político da reforma na esperança de mandar a conta para União é real. Por outro lado, incluir os estados nas regras da União por decisão do Congresso Nacional é apostar no modelo “one size fits all” onde cabe a Brasília decidir o que é bom para os estados.

Para jogar uma luz no problema busquei os dados da Instituição Fiscal Independente sobre as finanças estaduais (link aqui). Lá é possível encontrar várias informações sobre as contas dos estados, entre elas estão os gastos com pessoal ativo e inativo, os resultados previdenciários e as receitas correntes de cada estado. O último ano completo é 2017, por isso toda a análise deste post será feita com referência a 2017. Naquele ano o déficit da previdência em todos os estados foi de R$ 79 bilhões, para referência d leitor o déficit do RGPS em 2017 foi de R$ 184 bilhões e o déficit previdenciário dos servidores da União foi de R$ 86 bilhões. Como o leitor pode observar estamos falando de valores relevantes. Dos R$ 79 bilhões de déficit nos estados a região Centro-Oeste responde por R$ 4,9 bilhões, a região Nordeste por 12,8 bilhões, a região Norte por 623 milhões, a região Sudeste por 46,5 bilhões e a região Sul por 14,3 bilhões. A figura abaixo mostra o déficit de cada estado e o DF, repare que Roraima, Tocantins e Rondônia, estados jovens, apresentam superávit nas contas previdenciárias.




O valor do déficit por estado oferece uma dimensão do problema, mas não é adequado para comparações. É natural que estados maiores e mais ricos, e.g. São Paulo, tenham déficits maiores, para facilitar a comparação vou usar a razão entre resultado previdenciário e receita corrente de cada estado. Esse procedimento ajusta quanto cada estado está gastando para cobrir a diferença entre receitas e despesas previdenciárias como proporção do quanto o estado arrecada. Mal comparando é como analisar o gasto de uma família como proporção do salário desta família. A figura abaixo mostra a relação entre resultado previdenciário e receitas correntes para cada estado e o DF.




Repare que uma vez ajustado pela receita corrente o déficit de São Paulo fica bem menos em destaque do que na figura anterior. É como dizer que São Paulo gasta mias, mas tem mais dinheiro para pagar. O déficit previdenciário de São Paulo toma pouco mais de 10% da receita corrente do estado, o que não deixa de ser preocupante. Com esse quesito o campeão de déficit previdenciário é o Rio de Janeiro, cerca de 20% da receita corrente do estado vai para cobrir déficit previdenciário. O clube dos que usam mais de 15% da recita corrente para cobrir déficit previdenciário ainda tem Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte e Santa Catarina.




Um exercício interessante é focar apenas na receita tributária dos estados e observar o resultado previdenciário como proporção do que o estado de fato arrecada (lembre que a receita corrente inclui as transferências da União). A figura abaixo mostra esse indicador. Repare que por esse quesito Sergipe e Rio Grande do Norte ultrapassam o Rio de Janeiro, de fato, nesses estados mais de 40% da arrecadação vai para cobrir o resultado da previdência. Rio de Janeiro (33%), Minas Gerais (33%), Paraíba (31%) e Rio Grande do Sul (30%) completam o clube dos estados que usam mais de 30% do que arrecadam para bancar o déficit da previdência de seus servidores.




Um último exercício que pode ajudar a entender o problema é comparar o que cada estado gasta com pagamento de inativos e ativos, a figura abaixo mostra essa relação. Aqui o leitor pode entender o tamanho do problema do Rido de Janeiro, o estado gasta com inativos cerca de 1,6 vezes o que gasta com ativos. Isso mesmo, para cada R$ 100 que o Rio de Janeiro gasta com servidores ativos o gasto com servidores inativos é de R$ 160, em número fechados: no ano de 2017 o estado do Rio de Janeiro gastou R$ 15,1 bilhões com pessoal ativo e R$ 23,6 bilhões com pessoal inativo. Minas Gerais, Rio Grande do Norte, Santa Catarina, Bahia, Rio Grande do Sul, Sergipe e Paraíba gastam com inativos mais de 50% do que gastam com ativos.

A análise das figuras anteriores sugere que os estados apresentam situações diferentes em relação à questão previdenciária. Em estados mais jovens como Roraima, Tocantins e Rondônia o problemas previdenciário ainda está no futuro, em estados como Rio de Janeiro, Minas Gerias e Rio Grande do Norte o problema já é uma realidade. A figura abaixo tenta ilustrar os grupos de estados.




O grupo que parece mais problemático apresenta gasto com inativos acima de 50% do gasto com ativos e um déficit previdenciário que compromete mais de 10% da receita corrente, nesse grupo estão: Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte, Santa Catarina, Sergipe e Paraíba. Na outra ponta está o grupo onde a questão previdenciária é menos urgente: Roraima, Rondônia, Tocantins e Amapá, repare que o grupo é composto por estados criados na Constituição de 1988 o que sugere que a falta de problemas é pode ser por falta de tempo para a previdência virar um problema e não necessariamente porque o regime de previdência destes estados é sustentável no longo prazo. Os outros estados ficam no grupo intermediário com destaque para Bahia que apresenta um preocupante gasto com inativos superior a 50% do gasto com inativos.

Os números analisados nesse post sugerem que existem diferenças entre os estados que podem justificar que cada estado defina seu próprio regime de previdência. Por outro lado, a urgência do problema fiscal e o risco de a União ter de salvar estados que não fizerem reformas, que não necessariamente serão os que estão no grupo menos problemático, recomenda que o Congresso imponha as regras dos servidores da União para os servidores de todos os estados. O que fazer? Se existir escolha o ideal seria incluir os estados na reforma, é uma escolha mais por necessidade do que por convicção dado que considero que fortalecer a autonomia dos estados reduzindo os poderes da União no pacto federativo.

Como parece que não existe escolha talvez seja a oportunidade de confiar mais na descentralização e começar a cobrar dos governadores medidas para equilibrar a previdência nos estados que governam. De toda forma, como cautela não faz mal a ninguém, é recomendável incluir nos planos de ajuda aos estados uma cláusula com parâmetros explícitos de equilíbrios financeiro e atuarial do regime previdenciário de cada estado. Quem não atingir esses parâmetros não recebe ajuda.