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sexta-feira, 1 de julho de 2022

A PEC Kamikaze não é só ruim, é muito pior

Vejo muita gente, na verdade nem tanta, sugerindo que o problema fiscal está controlado ou algo do tipo. Da parte do governo, a crença no fim do problema fiscal parece ser grande o suficiente para lançar “pacotes de bondades” atropelando regras fiscais e eleitorais. A verdade é que o crescimento da inflação costuma gerar alívio fiscal, o aumento de preços chega nas receitas do governo antes de chegar nas despesas, mas esse alívio é ilusório.

Uma maneira de olhar o esforço de ajuste fiscal é pelo comportamento da despesa. Isso porque o aumento de despesas hoje será retirado da renda de famílias e empresas para pagar a conta. Essa retirada pode ser na forma de mais impostos, mais dívida ou mais inflação. Em qualquer dos casos, pagadores de impostos, presentes ou futuros, vão pagar a conta. 

A figura abaixo mostra o comportamento da despesa total do governo central desde 2017 quando começou a valer o Teto de Gastos. Repare que há uma estabilidade até o final de 2019 quando ocorre um salto. Esse aumento está relacionado a capitalização de estatais e da cessão onerosa (as explicações estão aqui), em março de 2020 as ações do governo para amenizar os impactos econômicos da pandemia mandam a despesa para o espaço. Com o fim dessas políticas a despesa começa a cair, mas não volta ao patamar anterior e, mais preocupante, parece começar uma tendência de crescimento.



A próxima figura reforça o ponto da anterior destacando a despesa em maio de cada ano. Em maio de 2020 a despesa foi de R$ 218 bilhões, em maio de 2021 ficou na casa de R$ 150 bilhões, menor do que em 2020, mas maior do que a observada entre 2017 e 2019. Em maio de 2022 a despesa ficou em R$ 161 bilhões, maior do que em 2021.



Aumentos pontuais de despesa podem ser resolvidos sem causar maiores estragos na economia, o mesmo não pode ser dito de aumentos permanente e, mais grave, de tendências de crescimento da despesa. A medida aprovada no Senado ontem, não por acaso chamada de PEC Kamikaze, é um forte indício que voltaremos a trajetória de gastos crescentes. É grave, mas não tão grave como voltarmos a uma época em que não tínhamos regras fiscais capazes de limitar a ação de governantes em busca de se perpetuar no poder. Temos sombrios...


quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Explicando o aumento do gasto em 2019

Hoje mais cedo fiz um post chamando atenção que o aumento do gasto em 2019 foi o maior desde o começo da ajuste fiscal. Logo depois, pelo Twitter, o Alexandre Schwartsman me alertou que o resultado tinha sido afetado pela cessão onerosa. Outros amigos fizeram o alerta até que o pessoal do Tesouro entrou em contado comigo, uma das coisas boas de ser professor em Brasília é que sempre tem um ex-aluno disposto a ajudar quando a oportunidade aparece, e me passaram os números da cessão onerosa e como esses números impactaram o resultado primário em 2019.

O aumento da despesa primária de fato foi 2,7%, conforme está no post, mas parte significativa do aumento foi por conta da capitalização da Petrobras de 2010 e da cessão onerosa. A figura abaixo, elaborada pelo pessoal do Tesouro, mostra a variação da despesa primária sem considerar esses gastos.


A próxima figura, também elaborada pelo pessoal do Tesouro, reproduz a que está no meu post. Repare que na primeira figura ainda aparece um crescimento da despesa de 0,33%, menor que os 2,7% da segunda figura (que é o número que mostrei no meu post) e menor do que o aumento de 2018 e 2015.


A figura acima (que reproduz a do meu post) está errada? Não, o gasto realmente aumentou 2,7%, mas a primeira figura (com a correção), faz mais justiça ao esforço fiscal do atual governo. Devo registrar que a preocupação em explicar o ocorrido para um professor que tem um blog com acesso bem menor que o de qualquer jornal ou de influenciadores com espaço permanente na mídia é uma demonstração e tanto de compromisso com ajuste fiscal.

A equipe da STN também fez o ajuste nos gráficos com a decomposição da despesa. A figura abaixo mostra a variação de cada item após a exclusão da capitalização da Petrobras de 2010 e da cessão onerosa.


A próxima figura é uma reprodução da figura do meu post feita pela equipe da STN. Repare que para os três primeiros itens a variação é a mesma. A diferença está na quarta coluna, a que mostra avariação das despesas do executivo sujeitas à programação financeira.


Comparando as duas figuras fica claro que o aumento na despesa discricionária, que de fato ocorreu, foi por conta da capitalização da Petrobras de 2010 e da cessão onerosa. Para efeitos práticos faz pouca diferença com que foi o gasto, importa que o gasto ocorreu, mas, para efeito de mostrar compromisso com o ajuste fiscal faz diferença e o registro deve ser feito.

Termino dizendo o que disse para um dos meus amigos que está no governo e falou do assunto e para a equipe do Tesouro: É fundamental que a pressão para o ajuste fiscal continue, é ano eleitoral e o pior que pode acontecer é um "consenso" que o problema fiscal está controlado o que fatalmente vai abrir as portas para todo tipo de pressão por aumento de gastos.

O mínimo que posso fazer é continuar sendo chato e neurótico com aumento de gastos e inflação. Agradeço aos amigos que me explicaram a origem do aumento do gasto, só coloquei o nome do Alexandre Schwartsman porque ele foi o único que fez o registro em público, mas quem falou comigo e quem me mandou os dados sabe o que fez e, se leu o primeiro post, imagino que vai ler esse também.




Mais sobre o resultado fiscal de 2019


Ontem fiz um post mostrando que, apesar da queda do déficit, ocorreu um aumento do gasto primário (link aqui). Hoje volto ao assunto olhando a variação do gasto primário e principais componentes. A figura abaixo mostra a variação do gasto primário entre 2011 e 2019, o crescimento observado este ano foi o maior desde o começo dos esforços de ajuste fiscal. Nem mesmo em 2015, com o reconhecimento das pedaladas, o gasto cresceu tanto com em 2019.




A próxima figura mostra a variação dos componentes do gasto desde 2015. Repare que em 2015 teve um pico nas “Outras Despesas Obrigatórias” que comprometeu o resultado daquele ano.  Em 2019 foi o contrário, as despesas obrigatórias caíram e o aumento do gasto veio do item “Despesas do Poder Executivo Sujeitas à Programação Financeira”, mais precisamente das despesas discricionárias.




Os números estão aí e mostram que Paulo Guedes e Bolsonaro entregaram em 2019 o maior aumento de despesa primária desde o começo do ajuste fiscal.

P.S. O aumento de gasto de fato ocorreu, mas é explicado pela capitalização da Petrobras feita em 2010 e a cessão onerosa. As explicações estão em outro post (link aqui).

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

O déficit caiu, mas o gasto não.


Os resultados fiscais da União para 2019, divulgados pelo Tesouro Nacional, trouxeram uma excelente notícia: o déficit primário caiu de R$ 126 bilhões em 2018 para R$ 96 bilhões em 2019 (despesa total menos receita líquida, valor sem ajuste metodológico), uma queda de quase 25% em um ano! A figura abaixo mostra esse feito, porém, antes de soltar fogos, botar a camisa amarela e sair nas ruas a gritar “é o maior, é o maior”, talvez seja útil conhecer algumas observações de um economista chato.




A figura abaixo mostra a receita e a despesa do governo e começa a acender uma luz amarela para quem está com pressa de comemorar a redução do déficit.  O gasto continuou a subir em 2019, a queda do déficit veio por conta da elevação da receita. O quadro fica ainda mais preocupante quando lembramos o papel das receitas extraordinárias no reforço de caixa do governo. É claro que é sempre melhor um déficit baixo do que um déficit alto, a dívida pública agradece, mas, olhando para frente, receitas extraordinárias não vão resolver nosso problema fiscal. Mal comparando, é como vender o carro para abater parte da dívida e continuar gastando mais do que ganha, o alívio é bem-vindo, mas é temporário.




Ficou preocupado? Não? Então repare na próxima figura. Nela estão as principais despesas primárias do governo. A previdência é aquela em verde claro que é maior de todas e segue subindo, o governo fez o que deu para segurar esse gasto. Em azul escuro esta a folha de pagamento, teve uma subida entre 2016 e 2017 por conta de reajustes concedidos pelo Temer, mas ficou comportada em 2018 e 2019. Apesar de um aumento generoso para os militares, o governo tem mostrado preocupação com a folha e mandou a PEC Emergencial para aumentar o controle sobre o pagamento dos servidores. Em azul claro estão as outras despesas obrigatórias, teve aquele pico em 2015, salvo engano por conta do reconhecimento das pedaladas, mas depois seguiu caindo e está menor do que em 2014. Até aqui os problemas ou estão controlados ou o governo está trabalhando para resolver.




A linha em verde escuro é que é o problema, nela estão as despesas do poder executivo sujeitas à programação financeira, o nome assusta, mas é onde estão as despesas discricionárias e as despesas obrigatórias com controle de fluxo. Repare que essa linha, onde teoricamente o governo tem mais controle, subiu esse ano, algo frustrante para um governo que afirma ter compromisso com ajuste fiscal. Vai piorar, em 2018 as despesas obrigatórias com controle de fluxo foram R$ 145,13 bilhões, já corrigidos pela inflação, em 2019 foram R$ 145,58 bilhões, não foi daí que veio o problema. As despesas discricionárias, aquelas que o governo realmente tem mais controle, foram de R$ 139,97 bilhões em 2018 e chegaram a R$ 166,14 bilhões em 2019. O aumento real foi de mais de 20%.

A figura abaixo mostra o gasto mês a mês em 2018 e 2019. Repare que até novembro o gasto vinha sendo controlado, até novembro a despesa tinha sido de R$ 126,23 bilhões contra R$ 127,53 bilhões em 2018, em dezembro que a coisa desandou. Boa parte desse pulo de gasto em dezembro foi por conta das despesas discricionárias, R$ 23,5 bilhões em dezembro de 2018 contra R$ 71,2 bilhões em 2019.




O que aconteceu? Parte disso foi capitalização de estatais, em dezembro foram R$ 9,6 bilhões dos quais R$ 7,6 bilhões para a Emgepron (o “m” também me incomodou, mas é da sigla, o link está aqui para quem quiser conferir) que é ligada à Marinha, como podemos ver a generosidade do governo com a corporação do Presidente não se limita a aumentos salariais. Mesmo descontando esses R$ 10 bilhões a diferença para 2018, tanto comparando ano a ano como dezembro a dezembro, ficou muito grande. O que aconteceu? Será que além do BC afrouxando a política monetária a Economia resolveu afrouxar a política fiscal? Como vai ser este ano?

Não vou me desculpar caso tenha estragado a festa de alguém, era essa a intenção. Melhor prevenir do que remediar, o combo de 2019 com inflação acima do centro da meta, gasto primário aumentando e déficit em conta corrente lá em cima pede muito cuidado e precaução. Não é hora de festa.

P.S. O aumento de gasto de fato ocorreu, mas é explicado pela capitalização da Petrobras feita em 2010 e a cessão onerosa. As explicações estão em outro post (link aqui).

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

PEC emergencial II: salário mínimo.


Uma característica da economia brasileira pós-estabilização foi a valorização do salário mínimo. Em janeiro de 1995 o salário mínimo era de R$ 358,88 (valores de hoje) e em dezembro de 2018 chegou a R$979,06 (valores de hoje), um crescimento real de 172%. Os efeitos do aumento de salário mínimo na economia não são triviais e animam debates entre economistas há muitos anos em vários países, não vou entrar nessa discussão aqui, apenas registro que muito provavelmente esses efeitos dependem de um conjunto de outros fatores relevantes. Por exemplo, o impacto do aumento do salário mínimo sobre o emprego depende do valor do salário mínimo e do ciclo econômico. Se o salário mínimo é muito baixo e a economia está em expansão pode não ter efeito algum, talvez esse não seja o caso se o salário mínimo é alto e a economia está em recessão.

A figura abaixo mostra a evolução do salário mínimo no Brasil desde 1995, lá estão os valores do salário mínimo em janeiro de cada ano e os valores médios do ano. Fica claro na figura o aumento real do salário mínimo no período, o que não fica tão claro é se hoje o salário mínimo está alto ou baixo. Figuras podem enganar, o ponto de partida, janeiro de 1995, foi escolhido por conta da estabilização, é muito difícil comparar valores de uma economia estabilizada com uma economia com inflação descontrolada, mas esse período foi marcado por um baixo valor do salário mínimo.




Parte do crescimento foi uma reposição de valores perdidos no passado, de fato, considerando a série do IPEA usada na figura o maior valo real do salário mínimo pós-estabilização ocorreu em janeiro de 2019 e era de R$ 1.020, 54. Um valor inferior ao pico de R$ 1.481,22 ocorrido em outubro de 1961. Seria o valor de 1961 o valor correto ou o salário mínimo estava muito alto naquela época? Seria correto o valor de R$ 289,32 que ocorreu em agosto de 1991? Cuidado com quem tenta dar respostas simples a essas perguntas.

Uma maneira de tentar avaliar o aumento do salário mínimo é comparar com a produtividade do trabalho. Não é uma maneira muito adequada, o salário mínimo pode estar relacionado a outras questões que não a produtividade, mas pode dar alguma pista do que aconteceu nos últimos anos. A figura abaixo mostra o crescimento do salário mínimo (média mensal) e da produtividade do trabalho (produto por trabalhador) entre 1995 e 2018, a diferença é brutal. Se o salário mínimo segue uma trajetória associada a uma renda mínima que garanta a dignidade dos trabalhadores e que não guarda relação com a produtividade marginal do trabalho, em tese seria o caso onde o salário mínimo é muito menor que a renda média, o crescimento maior que a produtividade pode não ser um problema. Caso contrário pode ser um problema grave.




Procurei a renda média do trabalho no Brasil. O melhor que achei foram dados do Ipeadata com a renda média do trabalho principal entre 1992 e 2014. Como os dados estavam em valores de outubro de 2014 e eu não sei qual foi o índice usado para correção pela inflação optei por comparar o crescimento em vez dos valores. Um dia ainda vou aprender a usar os dados da PNAD, até lá a figura abaixo é o que tem para hoje.




O crescimento maior do salário mínimo do que da renda média do trabalho sugere que mesmo que na década de 1990 o salário mínimo estivesse tão abaixo do salário médio que podia crescer sem maiores problemas esse talvez não seja mais o caso. À medida que o salário mínimo se aproxima do salário médio a produtividade do trabalho vai ficando mais importante para limitar o crescimento do salário mínimo.

Qual a relação dessa discussão com a PEC emergencial? Estaria a equipe econômica preocupada com os efeitos do salário mínimo sobre o desemprego? O governo fez o diagnóstico que o salário mínimo cresceu demais e agora só pode crescer se existirem ganhos de produtividade? Talvez a resposta para as duas perguntas seja afirmativa, mas muito provavelmente não foi por isso que a PEC emergencial determinou um congelamento do valor real do salário mínimo.

A verdade é que a principal motivação para o “congelamento” do salário mínimo é fiscal. Como o salário mínimo serve de piso para várias despesas do governo (e.g. BPC e seguro desemprego) o aumento do salário mínimo leva a um aumento no gasto da União. A estimativa é que cada um real a mais no salário mínimo leva a um aumento de R$ 303,9 milhões nos gastos da União (link aqui), não é pouco.

Se a motivação principal para o “congelamento” do salário mínimo fosse ligada ao mercado de trabalho e aos limites impostos pelo aumento da produtividade teríamos um longo (e bom) debate pela frente. A medida em vez de aparecer na PEC emergencial poderia aparecer em outra PEC ligada com a desregulamentação da economia e/ou aumento da produtividade. Como não é o caso, a principal motivação é fiscal, a medida é sim urgente e, por mais cruel que possa parecer, é necessária. O risco de não fazer o ajuste do gasto é perder o controle da dívida pública e isso levar a um processo inflacionário. Lembra que o ponto mais baixo do salário mínimo foi em agosto de 1991? Sabe quanto foi a inflação naquele ano?


terça-feira, 5 de novembro de 2019

PEC emergencial I: pagamento de Pessoal e Encargos Sociais na União e nos Estados.


Hoje começou a ser divulgado um conjunto de medidas apresentadas pelo governo com o nome de Plano mais Brasil. Segundo Paulo Guedes o objetivo é "transformar o Estado brasileiro" (link aqui). A espinha dorsal do plano é composta por três Propostas de Emenda de Constitucional (PEC): PEC emergencial, PEC do pacto federativo e PEC dos fundos públicos. Durante a semana vou comentar essas medidas e outras que possam aparecer. Hoje o foco vai para a PEC emergencial, em particular para a questão da folha nas despesas dos estados e da União.

A PEC emergencial será aplicada à União, aos estados e aos municípios e consiste em uma série de medidas emergenciais que poderão ser tomadas no caso das despesas de crédito da União superarem as despesas de capital em um ou ano e, no caso dos estados, quando a despesa excederem 95% das receitas em um ano. A lista de medidas emergenciais que podem ser usadas temporariamente em caso de crise fiscal foi retirada da reportagem do Estadão (link aqui):

  • Proibição de promover funcionários (com exceções), dar reajuste, criar cargo, reestruturar carreira, fazer concurso e criar verbas indenizatórias
  • Suspende criação de despesas obrigatórias e de benefícios tributários
  • Permite redução de 25% da jornada do servidor com adequação dos vencimentos
  • Suspensão de repasse dos recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)
  • Congelamento do salário mínimo: se aprovada em 2019, salário mínimo não terá aumento real em 2020 e 2021. Correção deverá ser apenas pela inflação.

As exceções para a primeira medida (a que barra progressões) são: juízes, procuradores, militares e diplomatas (link aqui). É de se lamentar que o governo tenha cedido mesmo antes de começar o jogo, é muito possível que outras carreiras usem dessa brecha para entrar na lista de exceções. Será que o governo vai defender que os estados/municípios devem priorizar a progressão funcional de juízes e procuradores em detrimento de médicos e professores? A União deve priorizar progressão de diplomatas em detrimento de outras carreiras? Os militares vão escapar de novo? Qual a lógica? Não precisa responder, infelizmente eu sei.

Apesar do descaramento da lista de exceções a PEC da emergencial de fato trata de assunto urgente. A crise fiscal da União já foi discutida diversas vezes aqui no blog (ver aqui) e em outros locais, menos atenção foi dada ao papel da folha de pagamentos na questão fiscal. A figura abaixo mostra as despesas com Pessoal e Encargos Sociais como proporção da Receita Corrente Líquida da União. Repare que apesar da elevação nos últimos anos o quadro geral é de queda. Em 1997 a despesa com Pessoal e Encargos Sociais correspondia a 29,8% da Receita Corrente Líquida, em 2013 essa proporção chegou ao mínimo de 10,6%. A partir daí, com a crise e queda da receita, começou uma trajetória de alta chegando a 24,6% em 2017 e 24,3% em 2018.




Menos do que a elevação do gasto com Pessoal e Encargos Sociais em relação a Receita Corrente Líquida, que parece ser um fenômeno mais relacionado à crise do que a um descontrole da folha, a razão de ser da PEC emergencial para União é ajudar no quadro geral de crise fiscal com o controle de uma conta que representa 4,3% do PIB e é a segunda maior despesa primária da União perdendo apenas para a previdência que leva 8,5% do PIB. Se a PEC emergencial for aprovada a crise, finalmente alguns podem dizer, vai bater na porta dos servidores da União com exceção de juízes, promotores, militares e diplomatas.

A situação dos estados em relação a gasto com pessoal é bem mais delicada que a União. De saída vale fazer o registro que comparar proporção do gasto com Pessoal e Encargos Sociais nos estados e na União não é adequado. As funções dos estados e da União são diferentes e explicam parte de qualquer diferença observada, por exemplo, cabe a União arcar com as despesas do RGPS que, como disse acima, levam 8,5% do PIB e quase 50% da Receita Corrente Líquida da União.

A figura abaixo mostra a proporção entre gasto com Pessoal e Encargos Sociais e Receita Corrente Líquida nos estados e no DF, os dados foram obtidos junto ao Instituto Fiscal Independente (IFI) e são relativos ao ano de 2017 (link aqui). O caso mais grave é o do Rio Grande do Sul onde a despesa com Pessoal e Encargos Sociais ficou acima da Receita Corrente Líquida, para ser preciso corresponderam a 112% da Receita Corrente Líquida. Na sequência aparecem Minas Gerais, onde o gasto com Pessoal e Encargos Sociais foi de 90% da Receita Corrente Líquida, Mato Grosso do Sul (89,2%), Rio Grande do Norte (88,2%) e Mato Grosso (87,7%). Na outra ponta estão o Amapá (54,4%), Amazonas (58,6%), Roraima (60,6%), Distrito Federal (61,8%) e Ceará (62%). Como pode ser visto apenas Amapá e Amazonas comprometiam menos de 60% da Receita Corrente Líquida com Pessoal e Encargos Sociais. Na média dos Estados e DF essa proporção é de 74,6% do PIB, a mediana é 73,7%.




A figura abaixo mostra a varação da razão entre a despesa em Pessoal e Encargos Sociais e Receita corrente líquida entre 2008 e 2017. No Rio de Janeiro, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina e em São Paulo essa razão mais do que dobrou entre 2008 e 2017, apenas no Ceará houve queda.




Ao contrário da União que mostra uma tendência de queda que é revertida com a crise, nos estados a tendência de alta aparece desde 2008. A figura abaixo mostra a trajetória da razão entre a despesa em Pessoal e Encargos Sociais e a Receita Corrente Líquida para todos os estados e o DF, em destaque aparece a média da razão. Repare que a tendência crescente é o padrão.




Para ilustrar com ainda mais detalhes a evolução do gasto com pessoal nos estados e DF a figura abaixo mostra a razão entre gasto com Pessoal e Encargos Sociais nos quatro estados onde ocorreram os maiores crescimentos. Repare que enquanto Espírito Santo, Mato Grosso do Sul e Santa Catarina apresentam uma tendência de crescimento no Rio de Janeiro ocorreu um salto pós-crise que lembra o padrão da União;




A próxima figura mostra os quatro com menor crescimento, queda no caso do Ceará, dos gastos em Pessoal e Encargos Sociais como proporção da Receita Líquida Total. Destaque para o DF, é verdade que o DF conta com transferências específicas que facilitam o financiamento da folha, mas isso não reduz o mérito do esforço realizado para contenção do crescimento da folha realizado no governo de Rodrigo Rollemberg (PSB) após o pico de 2015 que seguiu o padrão do Rio de Janeiro. Apesar, ou por causa, do ajuste fiscal Rollemberg não foi reeleito o que sugere que a população do DF pode não ter entendido o tamanho do problema que podia ter acontecido por aqui. Se isso for verdade nos estados, ou se os governadores acreditarem que é verdade, pode ser que as medidas emergenciais acabem não sendo usadas.




Uma análise dos 5.570 Municípios está fora do alcance desse post, mas o leitor pode imaginar os muitos problemas que apareceriam. A verdade é que se o Brasil vai mesmo passar por um ajuste fiscal é inevitável que a folha faça parte desse ajuste. Porém isso não impede que ocorra uma gigantesca resistência as medidas da PEC emergencial direcionadas ao ajuste da folha, resistência que deve contar com reforço das exceções aberta pelo próprio governo.


sábado, 27 de julho de 2019

Ainda não é o primeiro semestre de 2003, mas já podemos falar em ajuste fiscal.


Com dados relativos a seis meses de governo já é possível dar uma primeira olhada no comportamento da despesa e verificar o esforço de ajuste fiscal do time do Paulo Guedes. No primeiro semestre de 2019 o governo gastou R$ 653,8 bilhões com despesas primárias em valores correntes, se for ajustado pela inflação o gasto foi de R$ 658,4 bilhões em valores de junho de 2019. Com os devidos ajustes o gasto no primeiro semestre corresponde 47,26% do total permitido pelo teto de gastos, um número preocupante se considerarmos que a despesa no segundo semestre costuma ser maior do que no primeiro semestre.

Considerado o período de 1997 a 2018 a despesa do segundo semestre foi em média 18% maior que a do primeiro semestre, se considerarmos apenas o período posterior a 2014 esta proporção cai para 13%. Desta forma a valer a proporção mais recente o governo está em cima do teto, não pode nem piscar, a valer a proporção do período inteiro o governo está acima do teto e vai precisar de mais ajustes no segundo semestre. Não fosse o esforço fiscal do primeiro semestre a situação podia ser dramática, a figura abaixo mostra o gasto no primeiro semestre de cada ano desde 1997. Repare que este foi um dos poucos anos em que ocorreu queda no gasto.




Em todo o período entre 1998 e 2019 o gasto do primeiro semestre caiu em relação ao primeiro semestre do ano anterior apenas em 1999, 2003, 2015 e 2019. A figura abaixo ilustra a variação do gasto do primeiro semestre em relação ao primeiro semestre do ano anterior em cada ano. Repare que a queda deste ano só perde para a de 2003 que continua sendo a maior do período por larga margem. Se o ajuste deste ano combinado com a reforma da previdência vai conseguir estabilizar a dívida e ajudar na recuperação da confiança e do investimento só o tempo dirá, mas sem dúvida foi um esforço importante e necessário que merece registro.




Para entender a importância da reforma da previdência é válido dar uma olhada nos principais componentes da despesa primária do governo. A figura abaixo mostra esses componentes, repare que a previdência (em vermelho) não apenas é o maior gasto como é o que cresce de forma mais rápida e mais consistente. As despesas sujeitas a programação financeira, onde estão as despesas discricionárias, começou a ser ajustada ainda em 2015 quando Dilma reconheceu a necessidade do ajuste fiscal. Da mesma época começa o controle do gasto com pessoal, que teve um pulo no governo Temer, mas depois seguiu estável. Mesmo as despesas obrigatórias começam a ser ajustadas a partir de 2016, repare que a previdência parece estar fora de controle. O objetivo da reforma é controlar o gasto com previdência, só e tudo isso.




Uma última comparação que faço menos por considerar relevante e mais porque sempre aparece alguém perguntando diz respeito ao pagamento de juros. Não considero a comparação relevante porque pagamento de juros na verdade é pagar por despesas realizadas no passado, por exemplo, parte dos juros que pagamos diz respeito a gastos com previdência que foram pagos com empréstimos por falta de recursos para fazer o pagamento na época. Isso vale para outras despesas. Desta forma quando comparamos juros com alguma despesa estamos na verdade comparando a antecipação de despesas no passado, inclusive a que estamos comparando, com a despesa realizada no presente. Considerando o exemplo da previdência é como se estivéssemos comparando gasto com previdência no passado com gasto de previdência no presente e não gastos de natureza diferente como previdência e investimentos. A figura abaixo faz a comparação que não gosto e mostra o gasto com juros e com previdência no primeiro semestre de cada ano.




Repare que mesmo a despesa com juros não mostra a tendência de crescimento observada na despesa com benefícios previdenciários. Depois do pico de 2015 quando rentistas indignados com o tanto de dinheiro que estavam ganhando resolveram derrubar o governo para ganhar menos (ridículo, mas tem gente que acredita) os juros pagos pelo Tesouro tiveram queda e um comportamento oscilatório. Com a queda da Selic e da inflação é muito provável que o pagamento de juros siga em uma trajetória de queda nos próximos anos.

O resumo da história é que há um esforço fiscal por parte do governo e que apenas no primeiro semestre de 2003 foi observado um esforço maior quando é feita a comparação semestre a semestre. Graças a este esforço o governo segue uma trajetória de gastos compatível com o teto, o que pode significar menos tensões no segundo semestre. A combinação da reforma da previdência com a queda de juros e inflação pode levar a uma estabilização ou mesmo queda na relação dívida/PIB. É difícil falar em solução do problema fiscal com uma dívida bruta chegando a 80% do PIB, mas, com as devidas ressalvas, dá para falar que estamos melhorando no lado fiscal.


sábado, 27 de outubro de 2018

A volta do Pessimildo: desafios para 2019


Domingo à noite vamos saber quem será o novo presidente, cerca de dois meses depois, no dia primeiro de janeiro de 2019, o eleito tomará posse. Estou escrevendo no final da tarde de sábado, as pesquisas sugerem fortemente que Bolsonaro será eleito, mas nada é impossível quando se trata de eleições e pode ser que ocorra uma surpresa. O fato é que independente do que aconteça no domingo o próximo governo terá grandes desafios pela frente, pior, esses desafios não foram discutidos na campanha. Enquanto um lado promete fazer o povo feliz de novo congelando o preço do gás e forçando aumento de salário mínimo o outro diz que vai entregar saúde e educação de primeiro mundo combatendo a corrupção. Lamento informar, mas nada disso cai acontecer, não nos próximos anos e muito menos por esses caminhos.

O texto abaixo é inspirado em uma apresentação que preparei para a equipe do senador Álvaro Dias e serviu de base para algumas palestras que fiz nos últimos meses, na apresentação aponto três grandes desafios para a economia brasileira e faço algumas propostas para enfrentar esses desafios. No presente texto vou me limitar aos desafios, deixo as propostas para um próximo post. São três os desafios que vou discutir: o da produtividade, o do investimento e o ajuste fiscal. Em ordem de importância creio que os desafios seguem a lista, mas em ordem de urgência a lista está de trás para frente.

O primeiro desafio, que eu chamo de desafio de longo prazo, é a questão da produtividade. Como já disse Paul Krugman produtividade não é tudo, mas no longo prazo é quase tudo. No longo prazo a produtividade é o motor do crescimento e, verdade seja dita, esse nosso motor anda mal das pernas há cerca de quarenta anos. A figura abaixo mostra o crescimento da produtividade na Coreia do Sul, nos Estados Unidos e no Brasil, sei que Coreia do Sul é meio apelação, mas a figura ilustra o que é um caso de sucesso, o mínimo a se esperar de um país que pretende ficar rico e o desastre brasileiro. O crescimento da produtividade acima do ocorrido nos EUA permitiu a Coreia do Sul se aproximar das economias desenvolvidas. Um crescimento semelhante ao dos EUA não garante uma aproximação, mas pelo menos impede o distanciamento, no mais é razoável supor que uma economia emergente saudável tenha ganhos de produtividade acima dos EUA visto que, grosso modo, os americanos precisam inovar para ficarem mais eficiente e os países emergentes podem inovar ou adaptar tecnologias existentes. Como mostra a figura abaixo o Brasil não atende o teste básico e tem um crescimento da produtividade menor que os EUA, pior, após a subida na década de 1970, a produtividade no Brasil caiu e ficou praticamente estagnada nos níveis de 1970.




A figura abaixo faz uma comparação da produtividade no Brasil com a de países de renda média alta, grupo de países a que pertencemos de acordo com a classificação do Banco mundial. Repare que apenas Tailândia e China são menos produtivas que o Brasil. Com uma produtividade tão baixa não há como oferecer condições de trabalho, saúde, educação e uma rede de proteção social semelhante a de países de primeiro mundo. Não tem combate a corrupção nem congelamento de preços que mude isso.




Fica pior, a figura abaixo mostra o crescimento da produtividade no mesmo grupo de países da figura anterior. Lembra da China que estava em último lugar? Lá a produtividade é baixa, mas está crescendo bem, aqui nem isso. Temos a terceira produtividade mais baixa e só ficamos na frente da África do Sul em crescimento, no caso encolhimento, da produtividade. O assunto é relevante, em 2013, a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, na época sob o comando do Marcelo Neri, fez uma pesquisa chamada “Determinantes da produtividade do trabalho para a estratégia sobre sustentabilidade e promoção da classe média” (link aqui). A equipe foi coordenada pelo Ricardo Paes Barros e eu tive a boa sorte de participar, a avaliação era que sem uma mudança na trajetória da produtividade a nova classe média estava em risco. Em 2014 foi a vez do IPEA colocar a questão da produtividade no centro das atenções em dois volumes intitulados “Produtividade no Brasil: desempenho e determinantes” (link aqui), também participei desse trabalho, novamente aparecia a necessidade de mudar a trajetória da produtividade no Brasil. Em 2018 foi a vez do Banco Mundial lançar o documento “Emprego e crescimento: a agenda da produtividade” (link aqui), novamente a necessidade de ganhos de produtividade entra em cena. Sem resolver a questão da produtividade não vamos ter renda suficiente para entregar o que foi prometido nesta e em outras campanhas.






Se hoje é relativamente fácil concordar que nosso maior problema é a produtividade, não há nada parecido com um consenso quando o assunto é como aumentar a produtividade. Edward Prescott, Nobel de economia em 2004, diz que boa parte do baixo desempenho da produtividade pode ser explicada pela resistência a adoção de novas tecnologias e uso eficiente das tecnologias existentes e que essa resistência está relacionada às políticas empregadas por uma sociedade. Se Prescott está certo, eu acredito que está, nossa baixa produtividade está relacionada à nossas políticas. O lado bom é que pode ser o caso de uma mudança de políticas levar a uma rápida mudança no quadro de estagnação, o lado ruim é que essa mudança de políticas não é fácil. De fato, acredito que tais mudanças não estão no horizonte, pelo não com a intensidade necessária.

O próximo desafio, o desafio do médio prazo, é o do investimento. A figura abaixo mostra a taxa de investimento nos países da renda média alta, repare que apenas a Argentina tem uma taxa de investimento menor que a nossa. Esse é um problema sério, o investimento aumenta a capacidade de produção da economia, viabiliza a entrada de novas tecnologias embutidas em máquinas mais modernas e, para os que gostam de olhar para demanda, o investimento é parte da demanda agregada. Em tese é possível crescer apenas com ganhos de produtividade, na prática, sem um aumento da taxa de investimento isso dificilmente vai acontecer.




A baixa taxa de investimento traz um dos maiores perigos para o nosso futuro, a tentação de usar de estímulos para aumentar o investimento sempre ronda os palácios de governo. O que pode dar errado? O estímulo ao investimento em tempos de crise gera emprego, produção e impostos que acabam pagando parte do custo do estímulo. O que parece perfeito á primeira vista muitas vezes resulta em crises ainda maiores no futuro. Tratando desse assunto os economistas Timothy Kehoe e Gonzalo Córdoba alertara que usar estímulos para elevar investimento e emprego durante uma crise, se causar distorções suficientes, pode levar um país a uma depressão. Eu concordo com eles, vou além, acredito que boa parte da grande crise que começou em 2014 foi consequência das distorções causadas pelos estímulos ao investimento entre 2009 e 2014

Investimos mal. Construímos estádios que não têm uso, fizemos refinarias que não ficam prontas, grandes obras que não acabam, hidroelétricas de alto impacto ambiental e questionável eficiência econômica e energética, financiamos investimentos no Grupo X e na Oi, fizemos estaleiros, e, para fechar a lista com cave de ouro, investimos no Comperj. Alguém colocaria o próprio dinheiro nesses projetos? Duvido muito, mas com ajuda do governo o negócio ruim passa a ser bom (para poucos) e tudo passa a valer. Todo esse investimento poderia ter sido destinado a projetos mais relevantes tanto do ponto de vista social como econômico. Entre 2003 e 2016 apenas os subsídios implícitos nos empréstimos do Tesouro ao BNDES custaram cerca de R$ 150 bilhões (em valores de 2016). Qual teria sido o impacto de todo esse dinheiro se tivesse ido para saneamento básico? Quantos pequenos empreendedores apostaram suas economias em empresas na área do Comperj apostando em uma demanda que nunca veio? Quantos se mudaram em busca dos empregos que não chegaram? Qual o custo social e econômico de tudo isso? Esses investimentos ruins pioraram muito a alocação de capital no Brasil e dificultaram o crescimento da produtividade. Para investir mal às vezes é melhor não investir.

Mais uma vez a solução para o problema não é fácil. Os empregos destruídos na crise de fato nunca existiram, eram uma miragem sustentada com centenas de bilhões de reais dos pagadores de impostos. O tempo para que as mudanças necessárias para criar novos empregos em setores saudáveis, não ilusórios, é longo, é preciso que empresas que só existem por conta dos estímulos fechem e outras com vida própria cresçam, O processo além de longo é dolorido, mas é necessário para a construção de uma economia saudável. Para que os bons projetos virem empresas é necessário um aparato legal que minimize incertezas, o governo não precisa adicionar incertezas regulatórias as incertezas existentes no mercado. Não falo aqui de eliminar todas as regulações, sou mais modesto, peço apenas regras estáveis e tão claras quanto possíveis. A construção a aprovação desse novo marco regulatório leva tempo, assim como levará tempo para que faça efeito. Mais uma vez não vejo soluções de curto prazo.

O último e mais urgente desafio é o fiscal, o desafio do curto prazo. A figura abaixo mostra a projeção da dívida bruta do governo como proporção do PIB feita pelo FMI. Se seguirmos esse caminho vamos chegar a 2022 com uma dívida bruta acima de 95% do PIB, isso é inconcebível para um país emergente.




Sei que alguns citam países como Espanha e Japão para dizer que dívidas de cem por cento ou mais do PIB não são um grande problema, considero essa abordagem um erro grave. Países ricos conseguem se financiar a taxas de juros baixas, bem próxima de zero ou zero, não é o caso do Brasil. A figura abaixo mostra a dívida bruta como proporção do PIB para os países emergentes conforme a classificação do FMI. Apenas a Ucrânia tem uma dívida bruta acima de 80% do PIB, apenas Ucrânia e Sri Lanka têm dívidas brutas como proporção do PIB maiores que a do Brasil. Mantida a trajetória prevista pelo FMI podemos nos tornar o país emergente com a maior bruta como proporção do PIB. Sei que nos achamos especiais, que Deus é brasileiros e coisas do tipo, mas temos que os financiadores de nossa dívida não pensem o mesmo e comecem a procurar outros lugares para colocar o dinheiro, não faltam opções.



A solução para o problema fiscal passa por redução de gastos, aumento de impostos ou, mais provável, alguma combinação das duas coisas. Eu sou contra aumento de impostos, para minha sorte eu não estou (nem pretendo estar) no governo, um ajuste apenas por meio de gastos seria longo e exigiria uma reforma da previdência o mais rápido possível, não me parece crível que tamanho ajuste tenha um caminho fácil no Congresso. É verdade que o teto de gastos em tese nos deu vinte anos para fazer o ajuste, mas para que isso funcione é necessário mandar os sinais corretos, sem a reforma da previdência aprovada no próximo ano creio que poucos terão a coragem de nos dar vinte anos de crédito. Um ajuste por impostos poderia ser feito em um prazo menor, as propostas teriam de ser enviadas ao Congresso no começo do próximo ano, tão logo quanto possível, de forma que até o fim do ano alguns impostos já tivessem em vigor. Uma versão da CPMF podia aliviar o problema fiscal, mas se isso acontecer o lado que perder as eleições de domingo vai ter todo direito de acusar estelionato eleitoral do lado vencedor. Depois não adianta acusar de golpista quem for as ruas reclamar que foi enganado, se o plano é elevação geral de impostos e trazer de volta a CPMF os candidatos tinham obrigação de ter anunciado na campanha. É melhor perder uma eleição que ganhar enganando o eleitor, quem acompanhou os eventos políticos de 2015 e 2016 deve saber disso.

Desta forma, considerando que um ajuste fortemente ancorado em novos impostos pode minar o apoio do eleitor ao governo e que um ajuste com base nos gastos e lento e requer reformas difíceis não vejo solução de curto prazo nem mesmo para o mais urgente dos problemas. Posso estar enganado? Deus queira que eu esteja, mas se eu estiver certo vamos ter um período pesado pela frente. A campanha precisava de alguém com a grandeza de prometer trabalho e lágrimas até a superação final da crise, no lugar disso tivemos semeadores de ilusões.


domingo, 20 de maio de 2018

Parece que o aumento na taxa de juros dos EUA chegou. E agora?


Ao que parece o aumento da taxa de juros nos EUA dessa vez chegou mesmo. Não se trata de um evento inesperado, longe disso, desde muito sabemos que as taxas de juros americanas estavam muito baixas e que deveria subir. A figura abaixo mostra a taxa de juros dos títulos do Tesouro americano de um ano e de dez anos entre dois de janeiro de 1962 e dezessete de maio de 2018, foi a série mais longa que encontrei.




Nesses mais de cinquenta anos é possível perceber que as duas taxas andam juntas, mas que de tempos em tempos a taxa dos títulos de curto prazo, um ano, fica abaixo da taxa do título de longo prazo, dez anos. No século XXI é possível observar dois desses deslocamentos. O primeiro ocorreu depois da crise das “ponto-com” no começo do século quando estourou a bolha das empresas de alta tecnologia, na sequência dessa crise a taxa de juros dos títulos de curto prazo ficou abaixo da taxa dos títulos de longo prazo por um longo período. O ajuste aconteceu em meados da década passada, mas durou pouco, em 2008 mais uma crise, desta vez muito maior, levou o FED a reduzir as taxas de juros e os juros dos títulos de curto prazo descolaram dos títulos de longo prazo por um período ainda maior. Uma outra característica desse período foi a redução das duas taxas de juros. Desde o começo da década passada a taxa dos títulos de longo prazo está abaixo da média histórica, 6,2%, já a taxa dos títulos de curto prazo ficou um pequeno período acima da média no começo do século e voltou a média no período anterior a crise de 2008, no resto do tempo ficou abaixo da média.

Repare em uma trajetória de queda das taxas dos títulos de longo e curto prazo começa na virada da década de 1980 para a de 1990, a redução pode ter vindo para ficar. É razoável supor que uma sociedade mais velha tenha taxas de juros menores, afinal via de regra os jovens demandam mais empréstimos do que os mais velhos. A figura abaixo reproduz a figura anterior para o período entre janeiro de 1991 e maio de 2018. Na figura aparecem três deslocamentos entre as taxas de juros, já falei dos dois períodos deste século, o deslocamento da década de 90 pode ter mais lições para os próximos anos, foi no ajuste desse deslocamento, em meados da década de 1990, que ocorreu uma série de crises cambiais começando com o México em 1995 e que chegou no Brasil na virada de 1998 para 1999.




É difícil falar como vai ser o ajuste desta vez, se vamos ter uma crise no estilo das que pegaram os EUA e o mundo em 2000 e depois, com mais força, em 2008 ou se vamos ter uma crise cambial se espalhando por países emergentes como aconteceu na década de 1990. Por outro lado, não é tão difícil imaginar que as taxas de juros dos títulos de um ano e dez anos podem voltar a se encontrar e estão voltando para seus valores médios, se não o do período completo pelo menos o de 1991 para cá. Se isso for mesmo verdade, acredito que seja, estamos encrencados. Nossa gigantesca complacência com os desequilíbrios no setor público nos fez adiar demais o ajuste fiscal, agora talvez não tenhamos tempo, se for isso mesmo se preparem para anos ruins pela frente.



domingo, 4 de fevereiro de 2018

Situação fiscal: se tudo der certo ainda estaremos encrencados.

Mês passado o Ministério da Fazenda publicou o Relatório Anual da Dívida Pública Federal relativo ao ano de 2017 (link aqui). No relatório estão muitas informações essenciais para entender o tamanho do problema fiscal em que estamos, uma informação me pareceu resumir o tamanho do problema e, por isso, resolvi compartilhar com os leitores do blog. A figura abaixo está na apresentação (link aqui) que acompanha o texto principal e mostra as projeções da dívida bruta do governo geral.




No parágrafo anterior a versão da figura que aparece no texto principal (pg. 8) está a seguinte explicação:

“Considerando-se o espectro de risco, as simulações mostram a DBGG estabilizando-se ao redor de 80% do PIB nos cenários centrais, cujo cenário base incluem como premissas o cumprimento do teto dos gastos e os parâmetros macroeconômicos divulgados pela Secretaria de Política Econômica (SPE). Nas situações em que as reformas sejam implementadas integralmente, a DBGG tende a assumir trajetória estável. Por outro lado, a ausência de reformas promotoras da consolidação fiscal pode resultar em cenários mais adversos, nos quais a DBGG poderia superar 90% do PIB.”

Da figura e do parágrafo citado aprendemos que se tudo der certo e o governo conseguir respeitar o teto de gastos a dívida bruta vai estabilizar em 80% do PIB. Se o governo não conseguir respeitar o teto a dívida pode ultrapassar 90% do PIB sem garantia que vai estabilizar em algum ponto. Sejamos otimistas para além do razoável, o próprio governo parece estar desanimado em relação a aprovação da reforma da previdência que é fundamental para conseguir respeitar o teto de gastos nos próximos anos, e fiquemos com a hipótese que a dívida estabiliza em 80% do PIB. Quão razoável é esse patamar?

Para responder a pergunta peço que o leitor repare na figura abaixo, nela estão listadas a relação entre dívida pública e PIB nos países emergentes (emergentes da Europa, América Latina e Caribe, emergentes da Ásia e Comunidade dos Estados Independentes) com mais de dez milhões de habitantes que estão na base de dados do FMI, para evitar efeitos pontuais foi usado o valor médio dos anos de 2015, 2016 e 2017. Repare que apenas a Ucrânia tem uma dívida bruta superior a 80% do PIB. O valor médio da dívida como proporção do PIB é de 41%, a mediana é de 36% e apenas nove dos trinta e um países da amostra apresentam dívida brita acima de 50% do PIB. A Rússia tem uma dívida de 16% do PIB, a China de 44%, a Índia de 69%. Na América Latina a Argentina deve 55% do PIB, o Chile 21% e o México 55%.





A conclusão é preocupante: se tudo der certo no esforço fiscal proposto pelo governo vamos ser o país mais endividado da América Latina e, com a possível exceção da Ucrânia, também vamos ser o mais endividado dos emergentes. Mas pode ficar tranquilo, um economista falou no rádio que nossa dívida é baixa quando comparada a de países como Japão, França e outros do clube dos ricos...

domingo, 1 de outubro de 2017

Comentários a respeito dos cortes de gastos em ciência e tecnologia

Cientistas laureados com o Prêmio Nobel enviaram uma carta ao presidente Michel Temer alertando dos riscos de cortar verbas para a ciência (link aqui). A íntegra da carta não foi divulgada na reportagem do Estadão, em uma busca na internet eu não consegui encontrar. Mas pelas reportagens e os trechos divulgados parece que a carta alerta para os danos irreversíveis de cortes na ciência e recomenda que mesmo com as dificuldades que estamos passando a setor deveria ser preservado.

Na literatura de crescimento econômico não faltam argumentos mostrando a importância de investimentos em ciência e tecnologia para o bom desempenho de uma economia no longo prazo. Também não faltam teorias justificando que parte desse esforço deve ser feito pelo estado. Desta forma é justo afirmar que, na medida que seja possível falar de consenso entre economistas, existe um a respeito da importância dos investimentos que estão sendo cortados no Brasil.

Não me recordo de ter ouvido algum político afirmando que investimentos em ciência, tecnologia não são fundamentais. Pelo contrário, argumentos sobre a importância de ambos são abundantes na maioria dos programas de governo apresentados ao distinto público pelos pretendentes ao posto de inquilino do Palácio do Planalto e dos diversos palácios que sediam governos estaduais pelo país.

Se é assim porque os cortes? Alguma pessoas, inclusive cientistas, podem cair na tentação de acreditar que os cortes decorrem de uma opção de governo por condenar o Brasil a uma eterna dependência ou coisa parecida. Pelo que observo quanto o mais o comentarista é ou foi atraído pela esdrúxula teses que o atual governo resulta de um golpe de estado maior a probabilidade da adesão a tal tese. Não creio nisso, talvez por não crer que houve um golpe, pelo que sei de ajustes fiscais governos só os fazem quando não têm outra opção e uma vez que começa o ajuste os cortes são feitos onde é possível. Infelizmente na categoria possível encontram-se os investimentos em geral e os investimento em ciência e tecnologia em particular.

A lógica é simples, quase rasteira, quando percebem que a situação financeira do governo está insustentável alguns governantes tendem a empurrar com a barriga até que outro assuma o cargo e tenha que fazer os cortes. Outros ignoram o problema até conseguir se reeleger na crença que o eleitor saberá perdoar, no caso de Dilma, um caso extremo, foram usados diversos artifícios para não reconhecer o problema fiscal, inclusive as fraudes contábeis que acabaram por tirá-la do cargo. Quanto mais tempo dura a enganação, mais brutal e desastrado será o ajuste. No caso do Brasil demorou demais, e, por isso, o ajuste fiscal que começou ainda em 2014, logo após as eleições, foi tão destrambelhado. Quando o ajuste se impõe não é fácil encontrar onde cortar gastos, várias pessoas foram contratadas e não podem ser demitidas nem ter seus salários reduzidos, várias outras despesas são reguladas por lei e exigem reformas na lei ou mesmo na Constituição para serem cortadas, alguns programas tem forte apelo social e político e pro aí vai de forma que acaba sobrando para investimento e algumas despesas correntes discricionárias. Por isso Dilma entre 2014 e 2016 e depois Temer em 2016 e 2017 fizeram cortes em vários setores que os senso comum e os especialistas dizem não ser o melhor lugar para fazer cortes. Por isso é preciso pressionar permanentemente o governo por cortes, se ficar por conta dos políticos cortes sempre serão adiados e quando forem inevitáveis serão feitos sem critérios mais sofisticados do que o "corta onde dá para cortar".

Como todo argumento lógico o meu é tão bom quanto a boa vontade que o leitor me oferece, por isso resolvi olhar os dados. No sistema SIGRA/IBGE estão os dados de investimento em pesquisa e desenvolvimento como proporção do PIB (link aqui).. Infelizmente os dados só vão até 2014, ou seja, deixam de fora a maior parte do ajuste fiscal, mas mesmo assim é possível tirar algumas conclusões. A figura abaixo mostra o investimento federal em ciência e tecnologia entre 2000 e 2014. Dois fatos chamam atenção: o aumento drástico em 2013 e a queda em 2014.



Não é difícil ver que aquele aumento em 2013 não foi sustentável, também não é difícil ver como a queda começa ainda em 2014, ou seja, durante o governo Dilma. A figura ganha impacto quando lembramos que em 2014 o crescimento do PIB ficou próximo de zero, ou seja, não foi o denominador que derrubou a série. Por quê o governo Dilma resolveu cortar investimentos em pesquisa e desenvolvimento após tantos anos investindo no setor? Será que Dilma ficou "do mal" e resolveu condenar o Brasil a tal dependência eterna? Será que Dilma se concluiu que o dinheiro investido não estava dando retorno? Não me parece que nenhuma das perguntas tenha uma resposta afirmativa, no caso da segunda pergunta o ponto é válido, mas não creio que foi a abordagem usada por Dilma. Aliás, a comunidade científica deve explicações sobre o que foi ganho com todo o dinheiro investido no setor, segundo o prof. Marcelo Hermes o resultado foi frustrante (link aqui), mas isso é assunto para outro post. Dilma cortou no investimento em pesquisa e desenvolvimento porque foi onde deu para cortar. Assim são feitos ajustes fiscais em geral e tudo fica mais grave no caso de ajustes que foram adiados por muito tempo de forma irresponsável como foi o caso do Brasil.

Por que não houve gritaria em 2014? Em parte porque estava muito no começo do ajuste e o governo Dilma ainda tinha créditos com a comunidade científica. Em parte por afinidade política, não é segredo a proximidade da comunidade científica com o PT. Também porque parte dos cortes foram mascarados pela elevação dos investimento das empresas em pesquisa e desenvolvimento. A figura abaixo mostra o investimento total em pesquisa e desenvolvimento entre 2000 e 2014.




Repare que houve crescimento em 2014. Isso não é bom? O setor privado assumindo um papel relevante no financiamento da pesquisa? Melhor ir com calma. Na série do SIDRA/IBGE estão incluídos os investimentos das estatais. Sem saber o que é empresa estatal e o que é de empresa privada fica difícil avaliar se as estatais mascararam os cortes de investimento no setor, o que não seria exatamente uma novidade no Brasil, ou se o setor privado de fato segurou a onda em 2014. Mas a figura chama atenção de outro fato importante: a queda significativa do investimento em pesquisa e desenvolvimento como proporção do PIB nos primeiros anos do governo Lula dando sequência ao que vinha ocorrendo nos últimos anos do governo FHC. Não lembro se teve carta de prêmio Nobel ou tamanha reação da comunidade científica naquela época. Estou sugerindo que os cientistas que assinaram a carta são petistas? Claro que não, longe disso. Minha tese é que a comunidade científica se acostumou com um patamar de recursos que talvez não seja real e está ressentindo a volta a realidade. Pior, com mais gente para dividir o bolo.

domingo, 23 de abril de 2017

Ajustes fiscais pelo mundo: oito verdades e uma mentira.

Vez por outra aparece algum economista afirmando que o Brasil fez e está fazendo um ajuste fiscal duríssimo e que tal ajuste é o responsável pela crise que estamos enfrentando. Como um ajuste fiscal pode ser responsável por uma crise que começou antes de tal ajuste ser anunciado é coisa que eu não sei dizer. Esta “inconsistência temporal” é apenas uma parte do problema com a afirmação destes economistas, a outra parte é que não fizemos um duríssimo ajuste fiscal, de fato, não fizemos nem mesmo um ajuste fiscal.

Para ilustrar meu ponto vou recorrer a brincadeira que tomou conta do FB nesta semana: a história das nove verdades e uma mentira. Peço apenas uma pequena licença ao leitor para mudar a brincadeira para oito verdades e uma mentira, não por falta de exemplos, mas porque é mais fácil organizar nove do que dez gráficos. Os dados são da base de dados do FMI, na versão de abril de 2017 (link aqui). Comecemos com nove resultados primários.

O resultado primário mostra a diferença entre despesa e receita do governo sem considerar as despesas (ou receitas) financeiras, ou seja, ignora o pagamento de juros. É uma medida muito usada para estimar o esforço de um governo para ajustar as próprias contas. O pagamento de juros depende de decisões passadas e não está sob controle do governo que está prometendo o ajuste. A figura abaixo mostra o resultado primário no Brasil, na Alemanha, na Grécia, na Islândia, na Irlanda, na Polônia, em Portugal, na Espanha e no Reino Unido. Quando a linha está subindo é possível concluir que o país está fazendo um ajuste fiscal, quando está descendo o país está aumentando gastos primário em relação a suas receitas. Todos estes países falam ou falaram em ajuste fiscal, um parece não estar fazendo. Qual será?




Algumas pessoas não gostam de resultado primário, dizem que retirar os juros não é correto, afinal pagamento de juros também é uma despesa e se um país consegue gastar menos com juros pode ser o caso de fazer um esforço menor no resultado primário. A figura abaixo mostra o resultado do governo (incluindo pagamento de juros) para o mesmo grupo de países. Mais uma vez um país destoa dos outros, qual será? Repare que, ao contrário do primário, o resultado completo do governo brasileiro ficou menos deficitário em 2016 do que em 2015, isso indica uma redução no pagamento de juros.




Também tem uma turma que diz que olhar o resultado não vale pois ajustes costumam ser feitos em momentos de crises e, nestes momentos, a receita está caindo. É verdade, a queda da receita pode mascarar um esforço de redução dos gastos por parte do governo, mas não é um argumento que me convença, o governo deve se esforçar para que seus gastos caibam no seu orçamento. Mas não estou aqui para brigar, tudo que quero é brincar de verdades e mentiras. A figura abaixo mostra o gasto como proporção do PIB para cada um dos países das figuras anteriores. Reparem que em apenas um país não vimos uma queda do gasto como proporção do PIB. Qual foi?




No post usamos resultado primário, resultado do governo e despesa do governo, todos como proporção do PIB, para descobrir quais países fizeram ajuste fiscal e qual está apenas dizendo que fez. Fazendo paralelo com o jogo do FB podemos dizer que temos oito verdade e uma mentira. Deixo ao leitor a tarefa de adivinhar qual é a mentira.


domingo, 4 de dezembro de 2016

O ajuste fiscal, cedo ou tarde, será feito. A questão é saber como será feito.

Via de regra governos não desejam fazer ajustes fiscais, talvez seja possível pinçar um ou outro governo em algum país que tenha escolhido fazer um ajuste fiscal, mas são exceções, o governante típico está preocupado em permanecer no poder e cortar gastos dificilmente ajuda nesse objetivo. Temer, assim como Dilma antes dele, certamente não está entre as exceções, o ajuste fiscal proposto por ambos decorreu dar necessidade e não de escolhas. A verdade é que desde muito sabemos que o Brasil precisava de um ajuste fiscal, a primeira tentativa séria, ainda no governo Lula, foi feita pelo ministro Palocci e derrotada por Dilma, então ministra da Casa Civil. Na sequência vimos uma série de tentativas tímidas que não tiveram sucesso em ajustar as contas públicas.

Uma rápida pesquisa na internet revela tais tentativas no governo Dilma. Em agosto 2011 o Valor anunciava que “Mantega pede sintonia fiscal entre os poderes para enfrentar a crise” (link aqui). Em 2013 o site O Economista citava o G1 para dizer que “Mantega pede a presidente da Câmara ajuda no corte de gastos” (link aqui). Em fevereiro de 2014 o Estadão anunciou que “Mantega 'venderá' ajuste fiscal no G-20” (link aqui). Convido o leitor a procurar mais exemplos, é fácil. Daí chega a campanha e Dilma resolve negar a necessidade de ajuste fiscal que o próprio ministro da Fazenda dela vinha pregando nos anos anteriores, em outubro de 2014, no meio da companha para presidente a Exame noticiou que “Dilma nega fazer ajuste fiscal caso seja eleita” (link aqui). Como entender a mudança? Política, é claro, Dilma sabia que o ajuste era necessário, mas para quem estava disposta a fazer o diabo para se reeleger negar que vai fazer o ajuste é fichinha. Se o leitor duvida de minha interpretação sugiro que dê uma olhada no que disse o Infomoney em setembro de 2015 em uma matéria com o título “’Você quer que eu perca eleição?’, rebateu Dilma sobre sugestão de Mantega para cortes” (link aqui).

Da proposta de Palocci em 2005 à tentativa de ajuste feita por Levy em 2015 foram dez anos. De 2005 a 2007 perdermos a oportunidade de ajustar em uma época de bonança, em 2011 perdemos a oportunidade de fazer o ajuste antes da crise chegar ao PIB, em 2012 e 2013 perdermos a oportunidade de fazer o ajuste antes da crise chegar no emprego, em 2014, por cálculo eleitoral de Dilma, perdemos a última oportunidade de fazer a juste antes da crise tomar conta do país. O cálculo eleitoral funcionou, Dilma foi eleita, mas as consequências foram desastrosas, inclusive para ela e o partido dela.

Já no final de 2014 o governo foi obrigado a negar o discurso de campanha e aumentar os juros para tentar controlar a inflação e cortar direitos de desempregados e viúvas para tentar ajustar o lado fiscal. O efeito político foi devastador e Dilma começou a caminhada para o impeachment que se consolidou por conta de fraude fiscal cometida no primeiro mandato dela e incrivelmente repetida em 2015. O efeito econômico mal foi sentido, tivessem sido tomadas antes, as mesmas medidas implementadas no final de 2014 poderiam ter sido vistas como o começo de um ajuste sério e ter surtido os impactos desejados pela equipe econômica do governo petista. Infelizmente no final de 2014 já era muito tarde, a cárie já tinha chegado na raiz e uma obturação não era mais suficiente.

Assim chegamos em 2015. Um governo desacreditado com um ministro acreditado, Joaquim Levy, tentando fazer das tripas coração para implementar o ajuste fiscal. Como já dizia o professor Mário Simonsen, infelizmente corações não são feitos de tripas e o esforço de Levy não deu os resultados desejados. O ano de 2016 começa com a possibilidade concreta de queda do governo Dilma, na Fazenda toma posse Nelson Barbosa, segundo os bastidores de Brasília já fazia muito tempo que Dilma o queria como responsável pela economia. O que Nelson Barbosa fez? Propôs um ajuste fiscal! O leitor incrédulo pode checar a matéria de dezembro de 2015 da revista Época intitulada “Nelson Barbosa reforça foco no ajuste fiscal” (link aqui), na própria página do Ministério da Fazenda em fevereiro de 2016 com a chamada “Governo contingencia R$ 23 bilhões em 2016 e propõe limitar gasto no longo prazo” (link aqui), repare na proposta de limitar gastos no longo prazo, ou na matéria do UOL de março de 2016 com o título “Conheça as 4 novas medidas fiscais anunciadas pelo governo” (link aqui). Nesta última são apresentadas as propostas de Barbosa para os estados, dentre elas destaco: “limitar o crescimento de outras despesas correntes à variação da inflação.”. Parece familiar?

A longa introdução mostra que a necessidade de ajuste fiscal no curto prazo e no longo prazo é conhecida dos economistas, inclusive dos economistas ligados ao PT, notadamente Mantega e Barbosa, muito do que estamos vendo com economistas dizendo que o ajuste fiscal de longo prazo será o fim das políticas sociais, o fim do contrato social brasileiro, seja lá o que for isso, e mesmo o fim do mundo é pouco mais do que teatro mal encenado. A verdade é que não apenas o ajuste fiscal é necessário como é inevitável. A questão relevante é como será feito o ajuste fiscal.

Para financiar o gasto crescente o governo pode se endividar, porém, como já mostrei aqui no blog, para um país emergente nosso governo está muito endividado (link aqui). A outra opção é aumentar impostos, não falo desses impostos para animar militância como o imposto sobre grandes fortunas e sobre heranças, impostos complicados em todo o mundo e ainda mais complicados em um país onde funcionários públicos que ganham mais de R$ 10.000,00 por mês acreditam piamente que são classe média baixa. Falo de impostos que realmente tragam receitas. Apesar de ser um caminho teoricamente possível a elevação de impostos não me parece provável, nem razoável e nem muito menos desejável. Não é provável nem desejável porque já pagamos impostos demais no Brasil, não creio que é razoável pois tenho dúvidas a respeito da capacidade do governo aumentar arrecadação via aumento de impostos.

A figura abaixo, feita com dados do FMI e considerando médias entre 2011 e 2015, mostra as receitas do governo como proporção do PIB em diversos grupos de países e no Brasil. Repare que nossa arrecadação de 33,83% do PIB está acima da média de todos os grupos com exceção dos países avançados e dos emergentes da Europa.




Sem apelar para dívida ou aumento de receita o governo terá de escolher entre cortar gastos ou ver a inflação fazer o serviço de ajustar o lado fiscal. A inflação tem o dom de reduzir o gasto real sem causar tanta comoção social. Ano passado a maioria das categorias de servidores públicos federais teve um reajuste de 5,5% contra uma inflação de 10,6%, uma redução de aproximadamente 5% no salário real sem que escolas e universidades fossem invadias e a Esplanada dos Ministérios depredada. Em março deste ano o governo adiou o reajuste dos servidores por cerca de seis meses, reajuste que foi inferior à inflação, mais uma vez não se viram atos de vandalismo nem ninguém falou de fim de mundo.

Se a inflação faz o trabalho sem tanta sujeira então por que não deixar que ela resolva o problema? Porque para resolver o problema não basta uma inflação alta, é preciso uma inflação crescente. Repare que, de acordo com os dados do FMI, entre os anos de 2011 e 2015 nossa inflação foi, em média, de 7,06% ao ano. Ficamos muito acima dos países avançados e dos países emergentes da Europa, aqueles com cargas tributárias próximas às nossa, também ficamos acima dos países emergentes da Ásia e da América Latina e Caribe (neste último grupo eu excluí a Venezuela). Definitivamente não temos inflação baixa e mesmo assim temos um problema fiscal, a razão, nunca esqueçam, é que para fazer efeito a inflação não precisa apenas ser alta, precisa ser crescente.




Corremos o risco de termos inflação crescente? Sim, foi esse caminho que ameaçou se impor entre 2015 e 2016. Alguns vão dizer que a inflação de 2015 foi puxada por preços administrados e câmbio, o que é verdade, mas sempre existem preços puxando a inflação. O objetivo da política monetária é impedir que tais preços contaminem os outros em um processo onde todos correm para não ficar atrás da média e assim puxam a média cada vez mais para cima. Reparem que nem mesmo as “taxas de juros reais mais altas do mundo”, como alguns gostam de dizer (há controvérsias!), estavam conseguindo impedir o processo de contaminação dos outros preços e consequente aumento da inflação. Em parte, pela ação do Banco Central, em parte, pela mudança nas expectativas após a saída de Dilma (link aqui) o problema da inflação parece estar momentaneamente controlado, mas uma virada no câmbio, talvez causada pelo aumento da taxa de juros nos EUA, pode tirar a inflação de controle novamente.

O processo inflacionário tem sido a principal ferramenta de ajuste das contas públicas no Brasil. De fato, se consideramos o pós-guerra, só tivemos inflação razoavelmente controlada a partir de meados da década de 1990, após o Plano Real. Um dos efeitos colaterais do processo inflacionário é a redução de renda real de assalariados, pensionistas e beneficiários de programas sociais. Em geral podemos dizer que todos que não reajustam suas rendas com frequência alta são penalizados pela inflação, neste grupo estão os mais pobres. É preciso reconhecer que tal redução de renda dos mais pobres não parece ter intimidado governos no passado, por ouro lado, nunca tivemos um conjunto tão amplo de eleitores e tantas formas de expressão e de organização da sociedade. Será que nossa democracia resiste a um processo inflacionário? Não sei dizer, mas as manifestações de 2013, a dos vinte centavos, sugerem que não.