Mostrando postagens com marcador Dívida Pública. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Dívida Pública. Mostrar todas as postagens

sábado, 30 de julho de 2022

Outro post sobre a dívida pública no Brasil e em países emergentes

 No passado fiz vários posts comparando a dívida pública como proporção do PIB no Brasil com a mesma proporção observada em outros países emergentes. A intenção dos posts era colocar água no chopp de quem estava comemorando algum indicador como sinal de que não tínhamos um problema fiscal, sim, sou chato e nunca neguei. De uns tempos para cá vejo que está ganhando força aquela perigosa sensação de que o lado fiscal está deixando de ser um problema, não está, e para colocar água no chopp de quem está comemorando voltei com um post comparando a dívida pública do Brasil com a de outros países emergentes.

Começo com a versão atualizada de um gráfico que consta em outros posts em várias apresentações que fiz para mostrar que a dívida pública do Brasil é alta quando comparada a de países emergentes. A figura abaixo mostra o PIB per capita (corrigido por PPC) a dívida pública como proporção do PIB em países emergentes da Europa, emergentes da Ásia, da Comunidade Estados Independentes e da América Latina em Caribe. Estão listados 44 países, foram excluídos os países com menos de cinco milhões de habitantes e, por óbvio, os que não tinham dados disponíveis.

 


Dos 44 países apenas no Sri Lanka e no Laos a dívida pública é maior como proporção do PIB do que no Brasil. Em 2021 a média das dívidas como proporção do PIB nos países da amostra foi de 53,6%, a mediana foi de 50,3%, no Brasil foi de 93%. Alguém pode dizer que o grupo de comparação para o Brasil deveria ser o dos países ricos, onde a dívida pública costuma ser muito maior como proporção do PIB, não creio que seja o caso. Não somos um país, rico, nem chegamos perto, repare que nosso PIB per capita está no “meião” da turma dos emergentes.

Se nossa dívida é tão alta de onde vem a ideia de que o problema fiscal está sendo resolvido? A dívida como proporção do PIB caiu? Seria razoável observar uma queda da dívida, afinal em 2020 o PIB teve uma queda histórica e os gastos foram para o espaço por conta da pandemia. De fato, em 2020 a dívida como proporção do PIB foi maior do que em 2019 para todos os países da amostra com exceção do Haiti e do Turcomenistão, em 2021 houve queda de dívida como proporção do PIB em 20 dos 44 países da amostra. O Brasil é um dos vinte.

Essa queda talvez seja a razão da sensação que o problema fiscal está controlado, o problema é que 2020 está longe de ser um bom ano de referência. Se considerarmos a dívida como proporção do PIB em 2019, quando o atual governo reconhecia a existência de um grave problema fiscal, tão grave que motivou envio de PECs para tratar de emergência fiscal, a dívida como proporção do PIB aumentou de 87,9% para 93%. Entendo que a queda, que continua em 2022, dê uma sensação de alívio, mas é preciso lembrar que assim como a disparada em 2020, quando a dívida chegou a 98,7% do PIB, a queda atual deve ser vista no contexto da pandemia.

A figura abaixo mostra a variação da dívida como proporção do PIB e do PIB per apita (o PIB ficaria melhor, mas eu já tinha pegue o PIB per capita para a primeira figura...) entre 2019 e 2021. Apenas cinco países da amostra tiveram queda na dívida como proporção do PIB (Vietnam, Ucrânia, Haiti, Turcomenistão e Argentina), em todos os outros a dívida foi maior em relação ao PIB em 2021 do que em 2019. O Brasil fica bem no quadro, com um crescimento do PIB próximo da mediana (linha pontilhada vertical), ficamos com a sétima posição no quesito menor crescimento da dívida como proporção do PIB.

 


O problema, sempre tem um, é que a segunda melhor no ranking é a Argentina! Como pode? Um possível candidato para explicar o bom desempenho da Argentina é a inflação descontrolada por lá. Se isso for verdade a inflação de mais de 10% em 2021 pode explicar também nossa boa posição, afinal nossa inflação em 2021 foi a oitava maior na lista de 44 países.

Estabelecer causalidade em macroeconomia é tarefa de gincana, e das difíceis, não vou tentar fazer isso em um post. Apenas como curiosidade, mais para provocação, fiz uma regressão entre a variação na dívida como proporção do PIB e o logaritmo da inflação em 2021. Deu uma relação negativa e significativa, ou seja, quanto maior a inflação, menor a variação da dívida como proporção do PIB. A figura abaixo mostra a regressão.

 


Isso significa que nosso bem desempenho, no sentido de pequena variação da dívida como proporção do PIB, é por conta da inflação? Não. Como disse acima estabelecer causalidade em macroeconomia é complicado, além do mais quem chegou até aqui já deve estar cansado saber que correlação não implica causalidade. Teoricamente a inflação pode ser o motivo da pequena variação da dívida como proporção do PIB no Brasil, afinal com inflação alta é mais fácil controlar o gasto para que cresça menos do que a receita. Isso não é suficiente para estabelecer a causalidade, mas, a justificativa teórica somada a correlação da figura acima, são boas para colocar lenha na fogueira. O objetivo do post era colocar água no chopp, mas uma lenha na fogueira, ainda mais em ano eleitoral, é oportunidade que não posso deixar passar.

 

sábado, 17 de abril de 2021

Como a pandemia afetou a relação dívida/PIB dos diversos países?

Em post anterior explorei a base de dados do FMI para avaliar o impacto da pandemia no crescimento das economias em 2020 (link aqui). Nesse post farei exercício semelhante, porém o foco será na relação dívida/PIB. É importante ter em mente que a relação dívida/PIB á afetada pela variação do PIB e da dívida, desta forma o crescimento desta relação pode ocorrer por conta do crescimento da dívida ou da queda do PIB. Como na maioria dos países ocorreu queda do PIB e aumento dos gastos para combater e amenizar os efeitos da pandemia, o crescimento da relação dívida/PIB observado nos dados era esperado. Mesmo assim o exercício pode ser interessante por mostrar o que aconteceu nos diversos países e o tamanho do aumento da relação dívida/PIB.

Para fazer o exercício selecionei os países com mais de 10 milhões de habitantes em 2020, mais uma vez a Venezuela foi excluída da amostra, o que me deixou a amostra com 87 países. Em 2019 a média da relação dívida/PIB nos países da amostra foi de 59,6%, em 2020 subiu para 69,1%. Na comparação de 2020 com 2019 a relação dívida/PIB caiu em apenas 7 dos 87 países da amostra, desses cinco estão na África Subsaariana (Zimbabwe, Etiópia, Chade, República Democrática do Congo e Tanzânia), um na América Latina e Caribe (Haiti) e um no Oriente Médio (Irã). A figura abaixo mostra o deslocamento da distribuição da relação dívida/PIB entre 2020 e 2019 com destaque para as médias de cada ano.

 


Os três países com maior crescimento da relação dívida/PIB ficam no Oriente Médio: Iraque (70%), Emirados Árabes Unidos (43%) e Arábia Saudita (32%). No Brasil o crescimento desta relação foi de 13%, o que nos coloca na parte inferior da turma, ou seja, entre os países onde a relação dívida/PIB cresceu menos. Para ser preciso em 33% dos países a relação dívida/PIB cresceu menos do que a do Brasil. A figura abaixo mostra o crescimento da relação dívida/PIB nos países da amostra com destaque para alguns países, quanto mais para esquerda (ou para baixo) menor o crescimento da relação dívida/PIB. Repare que esta relação cresceu menos no Brasil do que nos Estados Unidos e na China, países onde o PIB teve melhor desempenho do que no Brasil em 2020.

 


Na comparação com os países da amostra que pertencem ao grupo América Latina e Caribe o Brasil teve o menor crescimento da relação dívida/PIB dentre os países onde essa relação cresceu. Isso é bom porque mostra que a deterioração do quadro fiscal no Brasil foi menor do que em países que normalmente são usados como referência em comparações internacionais. Entre os países do BRICS, outro grupo de comparação, o Brasil teve o menor crescimento na relação dívida/PIB como pode ser visto na figura acima.

 


O resultado relativamente bom no crescimento da razão dívida/PIB significa que temos melhores condições fiscais que outros países semelhantes? Não creio que seja o caso. Apesar de ter crescimento menos do que na maioria dos países da amostra, a relação dívida/PIB no Brasil é alta quando compara à dos mesmos países. Em cerca de 80% dos países da amostra a relação dívida/PIB é menor do que no Brasil, quase todos são países avançados ou estão na África Subsaariana. Temos a maior relação dívida/PIB entre os países do BRICS.

 


Considerando apenas os países da América Latina e caribe que estão na amostra, apenas a Argentina tem uma relação dívida/PIB maior do que a nossa. Mesmo tendo crescido mais em 2020 a relação dívida/PIB no Chile ainda é cerca de um terço da nossa. A figura abaixo mostra a relação dívida/PIB nos países da América Latina e Caribe.

 


Os números relativos à dívida como proporção do PIB mostram que essa relação cresceu menos por aqui do na maioria dos países, porém continuamos com uma relação muito alta em comparação com América Latina e com países emergentes em geral. A elevada relação dívida/PIB acaba funcionando como um limite para o aumento da dívida e, por consequência, dificulta medidas para amenizar o sofrimento da população com a pandemia. Como mostra o aumento da inflação: existe mais limites para a política fiscal do que parecem pensar os críticos do teto de gastos.

 

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Projeções do FMI para dívida pública no Brasil e em países da América Latina


O FMI divulgou a nova versão de sua base de dados com projeções até 2024 (link aqui). É uma boa oportunidade para dar uma olhada no que o FMI projeta para o Brasil e outros países, vou começar pela dívida pública e em outros posts falo de outras variáveis. Sei que alguns colegas de profissão gostam de comparar a dívida pública do Brasil com a de países ricos como se fizesse algum sentido comparar dívida de pobres, vá lá, emergentes, com dívida de ricos. Já tratei da questão de comparar nossa dívida com a de países ricos em outros posts (quem se interessar pode checar aqui, aqui e aqui), nesse post vou me limitar a comparar a dívida pública como proporção do PIB no Brasil e outros países da América Latina.

Para não ficar com gráficos de difícil leitura vou fazer as comparações em grupos de três, Brasil e mais dois. Para começar vou pegar o Chile, que é a referência de país ajustado do continente, e o México que é um país grande, com mais cem milhões de habitantes e que guarda algumas semelhanças importantes com o Brasil. A figura abaixo mostra a dívida pública como proporção do PIB no Brasil, no Chile e no México. Repare que a dívida do Brasil é bem mais alta como proporção do PIB do que as dívidas do México e do Chile, pelas projeções do FMI chegaremos a 2024 com uma dívida de 97,6% do PIB contra 28,3% no Chile e 54,3% no México.




No segundo exercício a comparação foi com a Colômbia e o Peru, mas uma vez estamos bem mais endividados que os outros países. A previsão do FMI é que o Pero chega a 2024 com uma dívida de 25% do PIB e a Colômbia com uma dívida de 40% do PIB, no Brasil, como já vimo a projeção é de 97,6% do PIB.




Para não ser acusado de trapacear na escolha dos países de comparação resolvi facilitar e colocar Argentina e Equador no próximo grupo, assim como o Brasil os dois países tiveram problemas com governos populistas de esquerda e a Argentina é famosa por ter problemas periódicos com a dívida pública. De fato, em 2018 a dívida pública da Argentina foi de 86,3% do PIB o que não é muito longe dos 87,9% do Brasil no mesmo ano. Porém, ao contrário do que acontece com o Brasil, as projeções do FMI apontam para uma trajetória de queda da dívida como proporção do PIB por lá. Em 2024 o FMI projeta uma dívida de 59,5% do PIB para Argentina, por aqui, como sabemos, a projeção é de 97,6%. No Equador a dívida deve subir mais um pouco chegando a 49,2% do PIB em 2019, mas depois caindo para 33,4% em 2024.




Eu poderia fazer mais grupos, mas não vale à pena, creio que o leitor já entendeu a mensagem: nossa dívida pública é muito alta para nossos padrões. Aos curiosos informo que as projeções do FMI são que a dívida como proporção do PIB em 2024 será de 58,3% na Bolívia, 22,4% no Paraguai e 71,3% no Uruguai. A bem da verdade devo dizer que o Brasil não foi o mais endividado dos países que pesquisei, tem um que a dívida chega a 272,8% do PIB em 2024. Não é preciso bola de cristal para adivinhar que estou falando da Venezuela. A figura abaixo mostra a dívida como proporção do PIB no Brasil e na Venezuela, repare como a dívida cresce rápido uma vez que começa o desastre. Até 2017 a Venezuela tinha uma dívida de 33,1% do PIB, mas como é impossível manter a sujeira de baixo do tapete indefinidamente em 2018 a dívida já era de 175% do PIN e em 2019 a previsão é de 214,5%.




Por certo não estamos na direção de uma trajetória explosiva como a da Venezuela, pelo menos não há indícios disso no momento, mas nossa situação é delicada e exige medidas drásticas. O déficit primário tem que ser reduzido nos próximos anos sob pena de perdermos o controle da dívida e agravar ainda mais a crise desta década. A reforma da previdência é um passo fundamental, mas tem que ser uma reforma que traga benefícios no curto prazo, nesse sentido considero um erro usar o que for poupado com a reforma para financiar um regime de capitalização. Precisamos de usar tudo que conseguirmos poupar na redução da dívida, se Paulo Guedes quer usar um trilhão para financiar a mudança de regime previdenciários então vamos ter de arrumar outro trilhão para segurar a dívida. Por importante que seja a reforma da previdência, não dá para não ter um Plano B em o caso da reforma demorar muito ou não sair (espero que não seja o caso). Esse Plano B pode incluir um programa mais ousado de privatizações, incluindo venda de ações da Petrobras; Caixa e BB, cobrança do dinheiro do Tesouro que está no BNDES, BB e Caixa; cortes de gasto mais duros que os exigidos pela lei do teto; adiamento por tempo indefinido da reestruturação da carreira dos militares, congelamento de salários de servidores e outras medidas do tipo. Tudo isso pode parecer muito duro para um país em crise, mas, acredite, é menos cruel que uma dívida fora de controle.



domingo, 4 de fevereiro de 2018

Situação fiscal: se tudo der certo ainda estaremos encrencados.

Mês passado o Ministério da Fazenda publicou o Relatório Anual da Dívida Pública Federal relativo ao ano de 2017 (link aqui). No relatório estão muitas informações essenciais para entender o tamanho do problema fiscal em que estamos, uma informação me pareceu resumir o tamanho do problema e, por isso, resolvi compartilhar com os leitores do blog. A figura abaixo está na apresentação (link aqui) que acompanha o texto principal e mostra as projeções da dívida bruta do governo geral.




No parágrafo anterior a versão da figura que aparece no texto principal (pg. 8) está a seguinte explicação:

“Considerando-se o espectro de risco, as simulações mostram a DBGG estabilizando-se ao redor de 80% do PIB nos cenários centrais, cujo cenário base incluem como premissas o cumprimento do teto dos gastos e os parâmetros macroeconômicos divulgados pela Secretaria de Política Econômica (SPE). Nas situações em que as reformas sejam implementadas integralmente, a DBGG tende a assumir trajetória estável. Por outro lado, a ausência de reformas promotoras da consolidação fiscal pode resultar em cenários mais adversos, nos quais a DBGG poderia superar 90% do PIB.”

Da figura e do parágrafo citado aprendemos que se tudo der certo e o governo conseguir respeitar o teto de gastos a dívida bruta vai estabilizar em 80% do PIB. Se o governo não conseguir respeitar o teto a dívida pode ultrapassar 90% do PIB sem garantia que vai estabilizar em algum ponto. Sejamos otimistas para além do razoável, o próprio governo parece estar desanimado em relação a aprovação da reforma da previdência que é fundamental para conseguir respeitar o teto de gastos nos próximos anos, e fiquemos com a hipótese que a dívida estabiliza em 80% do PIB. Quão razoável é esse patamar?

Para responder a pergunta peço que o leitor repare na figura abaixo, nela estão listadas a relação entre dívida pública e PIB nos países emergentes (emergentes da Europa, América Latina e Caribe, emergentes da Ásia e Comunidade dos Estados Independentes) com mais de dez milhões de habitantes que estão na base de dados do FMI, para evitar efeitos pontuais foi usado o valor médio dos anos de 2015, 2016 e 2017. Repare que apenas a Ucrânia tem uma dívida bruta superior a 80% do PIB. O valor médio da dívida como proporção do PIB é de 41%, a mediana é de 36% e apenas nove dos trinta e um países da amostra apresentam dívida brita acima de 50% do PIB. A Rússia tem uma dívida de 16% do PIB, a China de 44%, a Índia de 69%. Na América Latina a Argentina deve 55% do PIB, o Chile 21% e o México 55%.





A conclusão é preocupante: se tudo der certo no esforço fiscal proposto pelo governo vamos ser o país mais endividado da América Latina e, com a possível exceção da Ucrânia, também vamos ser o mais endividado dos emergentes. Mas pode ficar tranquilo, um economista falou no rádio que nossa dívida é baixa quando comparada a de países como Japão, França e outros do clube dos ricos...

domingo, 12 de novembro de 2017

A dívida pública continua ameaçando nossa economia... e nossa política.

Já faz algum tempo venho alertando a respeito da dívida pública. Um país em desenvolvimento como Brasil ter uma dívida pública em torno de 80% do PIB deveria ser motivo para deixar todo mundo preocupado com o futuro próximo. Certamente você já viu alguém dizendo que nossa dívida não é um problema porque existem países com dívidas muito mais altas que a nossa. É verdade, existem, mas são países ricos que conseguem se financiar a taxas muito mais baixas que as nossas. Para ilustrar mais uma vez a questão (outros posts sobre o tema aqui e aqui) apresento aos leitores do blog três gráficos com dados que mostrei em recente seminário sobre dívida pública organizado pela Secretaria do Tesouro Nacional.

O primeiro usa dados do FMI para comparar a dívida pública do Brasil com a de outros países emergentes. Para fazer o gráfico considerei os países da Comunidade de Países Independentes, os países Emergentes da Europa, os países Emergentes da Ásia e os países da América Latina e Caribe. Retirei da amostra os países com menos de cinco milhões de habitantes e tomei a média da relação dívida/PIB entre 2015 e 2017. Repare que apenas dois países, Ucrânia (82%) e Sri Lanka (79%), possuem governos mais endividados que o Brasil (78%). Dos quarenta e cinco países da amostra apenas seis possuem dívida pública maior que 60% do PIB, além dos citados estão nesta condição Hungria (74%), Sérvia (74%) e Índia (69%). Em média a dívida pública dos países emergentes é de 43% do PIB e a mediana é de 39% do PIB. Diante desta realidade insistir que não temos um problema de dívida pública por conta de comparações com países ricos é tentar tapar o sol com a peneira.




O próximo gráfico mostra que poucas vezes nossa dívida ficou tão alta e nas vezes que ficou tivemos problema. Para fazer o gráfico usei os dados disponibilizados por Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff na página do livro This Time is Different: Eight Centuries of Financial Folly (link aqui). Os dados mostram a relação dívida PIB no Brasil entre 1861 e 2010. Repare que em apenas três ocasiões a relação dívida/PIB no Brasil, conforme medida pelos autores do livro, fica acima de 90%. A primeira foi na transição do Império para a República, a segunda foi na transição da República Velha para o Estado Novo que coincidiu com a Grande Depressão e a terceira foi na transição do Regime Militar para a Nova República, período caracterizado, entre outras coisas, por uma década perdida e uma hiperinflação. Se a comparação internacional não foi suficiente para deixar o leitor preocupado espero que o retrospecto de nossa história faça isso. Dívida pública alta costuma vir acompanhada de problemas na economia e na política.




O último gráfico não estava na apresentação, na realidade é uma combinação do gráfico acima e do dos dados do FMI para dívida pública brasileira. Tais comparações são delicadas, dados elaborados de forma diferentes contam histórias diferentes e nem sempre são comparáveis, por exemplo a série do FMI considera o governo em geral e a do livro considera apenas o governo central. Ainda assim corri o risco na tentativa de mostrar o tamanho de nosso problema. Para dar clareza aos números optei por sobrepor as figuras e não por continuar uma série a partir da outra, assim o leitor pode ver claramente as diferenças nas duas medidas da dívida pública como proporção do PIB.




O problema é grande e precisa de solução. Ignorar o problema da dívida pública é contratar uma crise para os próximos anos que provavelmente virá acompanhada de inflação fora do controle. A solução via aumento de impostos não me parece adequadas, nossa carga tributária é alta para um país emergente (ver aqui), o caminho passa por redução de gastos. Entendo que redução de gastos causa problemas, eu não estou feliz com a possibilidade de não ter aumento no próximo ou de pagar mais para a previdência, mas a questão é que o ajuste será feito de um modo ou de outro. Por pior que sejam os cortes de gastos não são a pior forma de resolver o problema, isso é particularmente verdade quando se considera os mais pobres.


sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Sobre a absurdamente alta dívida pública do Brasil

Há cerca de um ano fiz um post argumentando que a dívida pública do Brasil é alta (link aqui), hoje, por conta do debate a respeito da PEC do teto de gastos, volto ao assunto. Assim como naquela época estou vendo pessoas comparando a dívida pública no Brasil com a de outros países para argumentar que nossa dívida é baixa. Feita a comparação, tentam-induzir o leitor a acreditar que não precisamos de um esforço de ajuste fiscal pois, como nossa dívida é baixa, podemos nos endividar para manter o ritmo de crescimento dos gastos até que a economia volte a crescer.

Via de regra o argumento é acompanhado de um gráfico ou uma tabela mostrando a dívida pública como proporção do PIB em um conjunto e países. Aí está o truque, o conjunto de países costuma estar repleto de países ricos com dívidas altas em relação ao PIB induzindo o leitor a pensar que se países como Japão, Estados Unidos e Itália podem viver com dívida pública maior que o PIB o Brasil, com uma dívida de aproximadamente 70% do PIB, não está tão mal. Levado pelo exemplo o leitor pode acabar esquecendo que comparar dívida de rico com dívida de pobre é um erro tolo e comprar o argumento, a depender do nível de empolgação o leitor pode até sair invadindo escolas e universidades por aí.

Ampliemos então o horizonte de comparação, no lugar de um punhado de países coloquemos todos os países com dados disponíveis na base de dados do FMI. Para tirar efeitos de um eventual ano ruim trabalhei com valores médios para o período de 2011 a 2015, também exclui os países com menos de cinco milhões de habitantes. Na amostra a dívida do Brasil ficou em torno de 64%, média de 2011 a 2015, o número atual já passa dos 70%, mas deixemos isso para o final do post. A figura abaixo mostra a média da relação dívida/PIB dos países de cada grupo conforme a definição do FMI.




Repare que apenas o grupo dos países avançados tem uma razão dívida/PIB média maior que os 64% do Brasil, para ser preciso a razão dívida/PIB neste grupo foi de 78%. Em todos os outros grupos a média ficou inferior a razão observada no Brasil, destaque para o grupo da América Latina e Caribe onde a dívida pública é, em média, 35% do PIB. A leitura de grupos pode ser enganosa, a figura abaixo mostra a razão dívida/PIB e o PIB per capita em todos os países da amostra.




Repare que com uma dívida de 64% do PIB o Brasil está bem acima da reta que relaciona PIB per capita e razão dívida/PIB, mas não fique tão impressionado com isso, retas de regressão como a do gráfico podem ser úteis, mas não costumam ser muito confiáveis. Preste atenção como a maioria dos países com razão dívida/PIB são países do grupo de países avançado, se excluirmos os países avançados sobram menos de dez países com razão dívida/PIB maior que a nossa. A próxima figura coloca uma lupa na figura anterior, para isso foram excluídos os países avançados e os países do Oriente Médio.




Repare como fica claro que nossa dívida é muito alta em relação a nosso PIB. Ficamos bem acima da massa de países, de fato, apenas cinco países apresentam razão dívida/PIB maiores que a nossa, são eles: Índia (67%), Sri Lanka (77%), Hungria (78%), Maláui (87%) e Eritreia (128%). Com a possível exceção da Índia, o único da lista com razão dívida/PIB abaixo de 70%, nenhum dos países é exemplo para o Brasil. Também é válido registrar que, ao contrário do Brasil, a dívida da Índia está caindo em relação ao PIB, sim, caso alguém tenha ficado curioso, a dívida da Hungria também deve crescer menos que o PIB de lá. Na foto dos países emergentes fica claro que o Brasil está devendo muito, se olharmos para América Latina o destaque do Brasil fica ainda mais impressionante conforme ilustra a figura abaixo.




A figura me parece autoexplicativa, mas, é sempre bom repetir: dos dezesseis países que ficaram na amostra nenhum teve uma razão dívida/PIB maior que a do Brasil! Antes de tentar culpar os últimos dois anos lembre que estou trabalhando com uma média de cinco anos, antes de tentar arrumar outra desculpe se pergunte se não é estranho devermos tão mais que os outros países de “nuestra” América. Além do Brasil o único que está acima de 50% é El Salvador. Desastres econômicos como a Venezuela (47%) e Argentina (43%) devem menos que o Brasil como proporção do PIB. Antes de se animar com os números de Argentina e Venezuela tenha em mente que se não fizermos nada em relação aos gastos públicos vamos reduzir nossa dívida com combinações das políticas usadas na Argentina e na Venezuela, ou seja, com uma combinação de inflação e calote.

Se após estas comparações internacionais você ainda não estiver convencido que nossa dívida é muito alta talvez seja melhor parar por aqui, não há mais nada que eu possa fazer para te convencer. Se, por outro lado, você estiver muito assustado com o tamanho de nossa dívida também pode ser o caso de parar, daqui para frente a coisa vai ficar mais assustadora. O FMI oferece cálculos e projeções para a razão dívida/PIB no Brasil entre 1980 e 2021. A figura abaixo mostra os números do FMI.




Isso mesmo. De acordo com as projeções do FMI em 2021 nossa dívida vai ultrapassar 90% do PIB, mais do que a média atual dos países avançados usada na primeira figura. Segundo o FMI, sem uma reversão da trajetória da razão dívida/PIB, em 2021 estaremos como a França está hoje (na França a razão dívida/PIB terá caído para 85%), porém com bem menos da metade da renda média que os franceses possuem hoje.

Como resolver? Isso é assunto para outro post, mas não será fácil. Para que o leitor tenha uma ideia do tamanho da encrenca que nos metemos se a dívida para de crescer hoje, algo que nem os mais radicais defensores do ajuste fiscal estão propondo, e o PIB crescer conforme previsto pelo FMI em 2021 nossa dívida seria de 53% do PIB. Se o leitor não lembra dos números anteriores eu ajudo, hoje, de todos os países da América Latina e Caribe da amostra, apenas El Salvador possui uma dívida maior que 53% do PIB. Quer mais? De todas as médias de grupos da primeira figura apenas a do grupo dos países avançados é maior que 50% do PIB.

Espero ter ajudado a mostrar o tamanho do problema que atinge nossas contas públicas. Se consegui, espero que quem leu até o fim lembre disso antes de afirmar que a PEC do teto dos gastos é muito dura ou muito radical. Não é. Se tivermos de criticar a PEC é pelo motivo oposto, o reajuste pela inflação do gasto público pode não ser capaz de reverter a trajetória da dívida. No limite, se isso ocorrer, não conseguiremos mais financiar nossa dívida e faremos o ajuste de forma caótica com perdas muito maiores para os mais pobres e/ou mais necessitados.