sábado, 17 de outubro de 2020

Qual a relação entre a aprovação de Bolsonaro nas capitais e a votação que recebeu em 2018?

O G1 divulgou resultados de pesquisas a respeito da aprovação do presidente Bolsonaro em todas as capitais de estados com exceção de São Luís do Maranhão (link aqui). Fiquei curioso em saber qual a relação dessa aprovação com o desempenho de Bolsonaro nas eleições de 2018. A ideia é saber se a aprovação é maior ou menor do que a votação que Bolsonaro recebeu, ou seja, quero saber se o percentual da população que aprova o governo é maior ou menor que o percentual da população que votou no Presidente da República.

Para fazer o exercício considerei a votação no primeiro turno por considerar que é uma medida mais adequada da proporção de eleitores que queriam Bolsonaro no Planalto. A natureza do segundo turno faz que o candidato receba votos de quem não aprova, mas acredita que é uma opção melhor do que a única alternativa. Considerei duas medidas de aprovação: na primeira considerei apenas quem avaliou o governo como ótimo ou bom, na segunda acrescentei quem avaliou o governo como regular. Os dados foram obtidos no G1 (link aqui e aqui) relativos a pesquisas do Ibope e a apuração das eleições de 2018.

A figura abaixo mostra a aprovação (ótimo/bom) e a votação no primeiro turno de 2018, também estão na figura uma reta de 45º em azul escuro (pontos nessa reta significam que a provação é igual à votação em 2018, abaixo da reta significa aprovação menor do que votação e acima da reta significa aprovação maior do que votação) e uma reta de regressão em azul claro (pontos na reta significam que a aprovação é igual a prevista considerando apenas a votação em 2018, acima significa aprovação maior do que a prevista e abaixo significa aprovação menor do que a prevista). Repare que Aracaju é a única capital onde a aprovação de Bolsonaro não é menor que foi a votação. Também é relevante notar que em todas as capitas do Sudeste a aprovação é menor do que a sugerida pela votação em 2018.


 

A figura abaixo mostra a diferença entre a aprovação de Bolsonaro, medida pelas avaliações com ótimo ou bom, e a votação em 2018. Como era de se esperar a diferença é negativa em todas as capitais com exceção de Aracaju, a maior queda ocorre no Rio de Janeiro (24,3%) seguida pelas quedas em Curitiba (22,1%) e Rio Branco (21,4%).

 


Como não podia deixar de ser, a situação melhora para o governo quando é considerada medida de aprovação que inclui os que avaliam Bolsonaro como regular. A figura abaixo reproduz a primeira figura do post usando essa nova medida de aprovação, a interpretação das retas é a mesma. Note que apenas em Florianópolis a aprovação é menor do que a votação, em todas as capitais do Sudeste a aprovação ficou acima da votação em 2018, porém abaixo da aprovação esperada considerando apenas a votação em 2018.

 


As maiores diferenças entre aprovação e votos em 2018 foram observadas em Teresina (25,4%), Macapá (21,5%) e Aracaju 19,1%). Entre as cinco capitais com maiores diferenças entre aprovação e votação quatro são de estados do Nordeste, as dez maiores diferenças estão todas em capitais do Norte ou do Nordeste.

 


As figuras acima me parecem interessantes, por isso resolvi compartilhar com os leitores do blog, mas não oferecem uma conclusão clara a respeito do desempenho de Bolsonaro em 2018 e atual. A depender da medida a aprovação do presidente pode ter caído ao aumentando em relação a votação no primeiro turno de 2018. Um resultado que parece comum nas duas medidas é que a boa vontade com Bolsonaro cresceu mais, ou caiu menos, no Norte e no Nordeste.

Não recomendo o uso dos exercícios desse post para especular sobre o que vai acontecer em 2022. Estamos em um momento de muita tensão e incerteza, uma combinação que deixa o futuro ainda mais imprevisível do que costuma ser. Como vai ficar o novo Bolsa Família? Como vai ficar a economia, especialmente desemprego e inflação? Quais os efeitos da incorporação do Centrão ao governo na percepção de corrupção envolvendo Bolsonaro? Vamos te ruma segunda onda da pandemia como está acontecendo em partes da Europa? As respostas a essas perguntas estão no futuro e, creio eu, são mais decisivas para 2022 do que a aprovação atual de Bolsonaro.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Tarifa média aplicada a manufaturados: será mesmo que nossa referência deve ser a Venezuela?

Uma crítica comum ao processo de abertura á que isso é coisa de neoliberal entreguista e que todos os países do mundo protegem suas empresas de forma que não há razão para não fazermos o mesmo. Com isso em mente resolvi dar uma olhada nos dados de tarifas aplicadas à importação de manufaturados que estão disponíveis no Banco Mundial. Comecei olhando para América Latina e Caribe, como de costume trabalhei com valores médios de cinco anos (2014 a 2018) e países com mais de cinco milhões de habitantes.

 


É isso mesmo, temos a maior tarifa média do grupo. Argentina, Venezuela. Bolívia e mesmo Cuba praticam tarifas menores do que as nossas. Será que alguém dizer que os irmãos Castro e o bolivarianismo são regimes ultraliberais e entreguistas ou que nossas empresas enfrentam agruras maiores que as enfrentadas por empresas argentinas ou bolivianas? Se considerarmos a média ponderada no lugar da média simples, como na figura abaixo, apenas a Venezuela tem tarifa média maior que a nossa. Em outro post (link aqui) mostrei que o Peru foi o país da América Latina com maior crescimento no século XXI, talvez não seja por acaso que o Peru seja o país da região com menor tarifa média aplicada a produtos manufaturados.

 


Fiquei inconformado com a ideia de que, com exceção da Venezuela a depender da medida utilizada, somos o país com maior tarifa média da América Latina e Caribe. Os países da américa-latina são todos neoliberais entreguistas? Até Cuba? Até Morales? Resolvi então olhar outro grupo em que o Brasil se encontra: os países de renda média-alta segundo o Banco Mundial. Esses países certamente sabem proteger as indústrias que lá produzem. A figura abaixo mostra o resultado para média simples.

 


De novo ficamos com a maior tarifa média! Não pode, isso só prova que a média simples não é uma boa medida. A figura abaixo mostra a tarifa calculada com médias ponderadas, novamente só a Venezuela na nossa frente. Seria Maduro o único governante que sabe a importância de proteger a indústria local?

Não me dei por vencido. O leste da Ásia é a região que cresce e atrai novas indústrias, logo aqueles países devem ser uma boa referência. A figura abaixo mostra a tarifa média no Brasil e nos países do Leste da Ásia e do Pacífico.

 


Mais uma vez ficamos em primeiro! Sem países exemplares como Argentina, Venezuela e Bolívia ficamos sozinhos na lista de países com tarifas médias acima de 10%. Outra vez desconfiei do uso de médias simples e joguei minhas esperanças nas médias ponderadas. Como pode ser visto na figura abaixo, no critério de médias ponderadas também estamos na frente dos países do Leste da Ásia e do Pacífico. Seria também essa região um antro de governo neoliberais e entreguistas?

 


Quase sem ânimo algum e pronto para reconhecer resolvi olhar para todos os países com dados disponíveis e mais de cinco milhões de habitantes. Com o critério de média simples encontrei apenas três países com tarifa maior que a do Brasil: Camarões, Etiópia e Chade. Pensei em fazer alguma referência àqueles memes com “chad” da internet, achei melhor deixar quieto e dar uma conferida no critério de média ponderada. Finalmente! Foi a primeira lista que o Brasil não estava em primeiro ou segundo lugar, como é complicado fazer figuras com cerca de cem países ou regiões vou listar os doze países onde a tarifa média ponderada aplicada a produtos manufaturados é maior do que a nossa: Chade, Camarões, Etiópia, Nepal, Bangladesh, Paquistão, Benim, Venezuela, Togo, Senegal, Quênia e a República Democrática do Congo.

 


O leitor pode estar pensando que abusei da ironia nesse post, talvez eu tenha mesmo, mas foi uma forma de tentar chamar atenção para a necessidade urgente de discutirmos a abertura da economia e o quão fora da realidade é o discurso que as empresas instaladas no Brasil não resistirão a tarifas mais baixas. Temos nossos problemas, é fato, mas outros países também têm os seus e punem menos seus residentes com tarifas para dificultar a compra de produtos mais baratos e/ou de melhor qualidade produzidos no exterior.

Em tempos de reformas e combates a privilégios, pelo menos nos discursos oficiais, é mais do que necessário discutir o fim do privilégio de não enfrentar a concorrência de produtos vindos de outros países. Não faz sentido manter mais de duzentas milhões de pessoas reféns de empresas que alegam não conseguir sobreviver com alíquotas semelhantes as aplicadas na Colômbia, no México ou mesmo em Cuba.