sexta-feira, 29 de maio de 2020

Contas Nacionais referentes ao primeiro trimestre de 2020: Assusta, mas foi é só o começo.


O IBGE divulgou as contas nacionais referentes ao primeiro trimestre de 2020 (link aqui), com isso podemos começar a vislumbrar o impacto da Covid-19 na economia brasileira. As medidas de isolamento começaram em meados de março, mas antes disso a economia já sentia os efeitos da pandemia por conta do mercado financeiro e de dificuldades em exportar e em importar. Apesar de relevantes, os problemas do primeiro trimestre são pequenos perto do que aconteceu em abril e maio e deve acontecer em junho. Mesmo com pouco efeito das políticas de isolamento o quadro ficou bem preocupante.

O primeiro de trimestre de 2020 inicia uma série de trimestres onde será impossível falar de PIB e de outros indicadores sem fazer referência a pandemia de Convid-19. A estratégia de recuperação lenta e consistente buscando reformas e tentando não perder o controle do lado fiscal foi comprometida. A necessidade de gastos do governo para equipar hospitais e manter a economia o mais fria possível comprometeu os esforços de ajuste fiscal dos últimos anos. A agenda de reformas, por mais importante e necessária que seja, vai inevitavelmente perder espaço para o desafio (talvez impossível) de proteger a renda das famílias e a viabilidade das empresas em um cenário de estímulos à redução da produção. Esse é um ponto que não pode nunca ser esquecido, ao contrário de outras crises onde as políticas para aquecer a economia ajudam a elevar a renda e viabilizar empresas no curto prazo (pelo menos em tese) nessa crise as políticas para manter pessoas em casa e empresas fechadas levam a perda de renda e inviabilizam empresas no curto prazo. Daí o caráter único do desafio econômico e a razão de políticas de demanda como redução de juros e aumento de gastos não parecerem capazes de entregar crescimento nem no curto prazo.

A figura abaixo mostra o crescimento da economia desde 1996, as barras mostram o crescimento em relação ao trimestre anterior (com ajuste sazonal) e a linha mostra o crescimento acumulado em quatro trimestres. No acumulado a economia cresceu 0,9%, mas a última barra dá uma noção relativa do tamanho da queda de 1,5% neste primeiro trimestre. A maior queda continua sendo a do quarto trimestre de 2008 com a crise financeira iniciada nos EUA, 3,9%, seguida da queda no segundo trimestre de 2015 na série de quedas que se seguiram ao colapso da Nova Matriz Econômica, 2,1%, primeiro trimestre de 1998 com o colapso do regime de bandas de câmbio, 2,1%, primeiro trimestre de 2009 também com a crise financeira de 2008, 1,6%, e finalmente o primeiro trimestre de 2020 com queda de 1,5%.. Infelizmente é possível que neste trimestre estejamos vivendo uma queda maior que a do quarto trimestre de 2008.




Ao contrário de outros analistas que tentam entender como o bolo foi feito estudando a divisão do bolo, eu vou continuar insistido em começar a análise das contas nacionais pela produção, ou seja, pelo lado da oferta. A figura abaixo mostra o crescimento dos grandes setores da economia. No acumulado de quatro trimestres a agropecuária, que no primeiro trimestre de 2020 respondeu por 7,8% do valor agregado e 6,6% do PIB, cresceu 1,6% no período; o setor de  serviços, 72,4% do valor agregado e 61,7% do PIB, cresceu 0,9%; finalmente, a indústria, que responde por 19,9% do valor agregado e 16,9% do PIB, cresceu 0.7%. Mais uma vez os três grandes setores da economia mostraram crescimento, ainda que modesto. Na comparação com o trimestre anterior a agropecuária cresceu 0,6%, a indústria teve uma queda de 1,4% e nos serviços a queda foi 1,6%.




No acumulado de quatro trimestres a construção cresceu 1,7% e teve o melhor desempenho entre os setores da indústria, como esse é um setor que mesmo antes da pandemia recebeu estímulos do governo há um risco de crescimento artificial o que pode ser um problema mais na frente. A indústria de transformação cresceu 0.3%, o baixo crescimento ou mesmo queda da indústria de transformação é parte fundamental da arrumação da casa. Muito investimentos ruins foram realizados neste setor no período de 2006 a 2014, são empresas sem perspectivas, algumas criadas apenas para viabilizar corrupção, que devem quebrar de forma a liberar capital e trabalho para empresas produtivas que ainda serão criadas. A indústria extrativa teve crescimento de 0,7%. Na comparação com o trimestre anterior a construção de queda de 2,4%, a indústria extrativa teve queda de 3,2% e na indústria de transformação a queda foi de 1,4%. Os números mostram que no primeiro trimestre de 2020 a turma que mais faz barulho foi a que teve a menor queda dentre os grandes setores da indústria.




Nos serviços o maior crescimento novamente ficou por conta do setor de informação e comunicação que cresceu 3,4% no acumulado de quatro trimestres. As atividades imobiliárias também tiveram um bom desempeno com crescimento de 1,9%, vale aqui o alerta feito para construção. Administração, defesa, saúde e educação públicas e seguridade social mostrou queda de 0,13%. A figura abaixo mostra o crescimento no setor de serviços.




Por fim, passemos a análise pelo lado da demanda, ou seja, como foi distribuída a produção do país. O maior crescimento foi no investimento, a parte do produto destinada a criar mais produto no futuro, que cresceu 3% no acumulado em quatro trimestres reforçando a tendência iniciada no segundo trimestre de 2018. O crescimento do investimento acima do produto sem uma política agressiva de estímulos ou de investimentos públicos é um dos sinais do processo de recuperação sólido ainda que lento.
 O consumo das famílias cresceu 1,3% e o consumo do governo caiu 0,4%, ou seja, a fatia do bolo que vai para o governo caiu. As exportações caíram 2,7% e as importações subiram 2,9%. Na comparação com o trimestre anterior o investimento aumentou 3,1%, o consumo das famílias caiu 2%, o consumo do governo aumentou 0,2%, as exportações caíram 0,9% e as importações subiram 2,8%.




Os números das contas nacionais referentes ao acumulado de quatro trimestres reforçam que estávamos seguindo uma recuperação lenta, mas sólida. Os números comparando este trimestre com o anterior mostram que a recuperação foi interrompida (deve ficar pior no segundo trimestre). Na análise das contas do último trimestre de 2019 alertei que o coronavírus comprometeria o primeiro trimestre de 2020. Quando escrevi aquele post (link aqui) as políticas de isolamento ainda não estavam em vigor, de fato ainda havia a esperança do calor ou algum outro fator minimizar o impacto da doença por aqui. Agora que vimos que não fomos poupados, pelo contrário, o desafio para equipe econômica fica ainda mais complicado. Ao mesmo tempo que são necessárias medidas para minimizar os danos de uma economia com atividade reduzida, é necessário manter algum controle da política fiscal e não perder o horizonte da agenda de reformas.

Como se já não fosse difícil conciliar controle fiscal com a necessidade de gastar mais e a impossibilidade de aumentar receitas, como se já não fosse quase impossível manter o discurso das reformas diante de medidas mais urgentes que se impõem a cada semana a equipe econômica ainda vai ter de lidar com o aumento da pressão por políticas de estímulos decorrente da recessão e da incrível incapacidade de articulação política de Bolsonaro. O infame Plano Pró-Brasil é só uma amostra do que ainda pode aparecer nos próximos meses. Da minha parte continuo insistindo que qualquer plano no estilo do PAC que não seja precedido por profundas reformas nas regras de compras e contratações do setor público está fadado a repetir a triste história de euforia e crise que tantas vezes vivemos. Se não acredita em mim dá uma olhada nos escândalos nas compras de respiradores que se espalham pelo país, se aconteceu isso com equipamentos médicos no meio da crise de saúde imaginem o que vai acontecer com pontes e viadutos no pós-crise.



segunda-feira, 25 de maio de 2020

Efeitos da pandemia na arrecadação dos estados: comparação entre abril de 2020 e de 2019.


Uma das questões importantes no debate a respeito das ações do governo para amenizar os efeitos da pandemia de Covid-19 na economia é como a União deve agir para repor as receitas perdidas pelos estados. O tema foi motivo de debates entre políticos e economistas, com direito a uma proposta para lá de irresponsável da Câmara seguida por uma nova proposta do Senado que pediu como contrapartida que os estados não concedam aumentos de salário para servidores públicos até o final de 2021. Depois de algumas idas e vindas a respeito das contrapartidas, a proposta foi aprovada e está esperando pela manifestação do Presidente da República que avisou que vai vetar a lista de carreiras que podem receber aumento aprovada pelo Congresso.

No debate a respeito da ajuda aos estados é fundamental saber qual será a perda de arrecadação por conta da pandemia. Ainda não dá para saber, ainda não estamos no pico e não dá para estimar por quanto tempo as atividades econômicas ficarão reduzidas, com ou sem leis locais, por conta da doença. Entretanto os números de abril podem dar uma pista do que vai ocorrer, na maioria dos estados as medidas de isolamento começaram em março e, em algum grau, continuam até hoje. Desta forma o mês de abril foi o primeiro a ser todo comprometido pela pandemia.

Os dados utilizados são do Boletim de Arrecadação dos Tributos Estaduais do Confaz (link aqui). Serão utilizadas três medidas de arrecadação: o total arrecadado por todos os tributos estaduais, a arrecadação de ICMS e a arrecadação de ICMS do setor terciário incluindo energia elétrica e petróleo, combustível e lubrificantes); essas medidas estão disponíveis nos quadros 1, 4 e 5 do boletim. Por falta de dados para abril foram excluídos os estados do Amapá e Mato Grosso. Os dados foram deflacionados pelo IPCA.

Em comparação com abril de 2019 a queda na arrecadação total foi de 17,4%, com exceção de Rondônia, aumento de 3,2%, e Roraima, aumento de 9,5%, todos os estados tiveram queda de arrecadação. A maior queda ocorreu no Piauí, 43,7%, seguida da queda em Minas Gerais, 27,4%, e no Ceará, 27%. No Rio de Janeiro a queda de arrecadação foi de 8,7% e em São Paulo foi de 21,3%. A figura abaixo mostra a queda em cada estado e no DF.




Na soma dos estados da amostra e DF (todos com exceção do AP e MT) a arrecadação de ICMS caiu 15,3% em abril deste comparado ao do ano passado. No Pará a arrecadação de ICMS aumentou 6,1% e no Mato Grosso do Sul aumentou 2,9%, em todos os outros estados e no DF houve queda. Mais uma vez o Piauí lidera a perda de arrecadação, queda de 35,9%, seguido pelo Ceará, 25,9%, e Minas Gerais, 24%. No Rio de Janeiro a queda de arrecadação de ICMS foi de 16,9%% e em São Paulo foi de 15,4%. A figura abaixo mostra a queda em cada estado e no DF.




Considerando apenas o ICMS sobre setor terciário (incluindo energia elétrica bem como petróleo, combustível e lubrificantes) a queda da soma dos estados da amostra e DF foi de 12,3%. Mato Grosso do Sul, 3,3%, Pará, 2,4%, Maranhão, 0,4%, Roraima, 0,4%, e Espírito Santo, 0,1%, tiveram aumento real na arrecadação desse imposto. A maior queda ocorreu mais uma vez no Piauí, 37,3%, seguido por Santa Catarina, 24%, e Ceará, 23,2%. No Rio de Janeiro a queda de arrecadação desse subconjunto do ICMS foi de 19,9%% e em São Paulo foi de 11%. A figura abaixo mostra a queda em cada estado e no DF.




A queda na receita dos estados e DF foi significativa, mas, pelo menos em abril e com exceção do Piauí, foi menor que o 30% imaginados. É difícil fazer previsões no meio da pandemia, mas é possível que maio seja pior que abril. Se é verdade que alguns estados estão flexibilizando as medidas de isolamento também é verdade que há um aprofundamento da crise e que outros estados estão intensificando o isolamento.


domingo, 17 de maio de 2020

A ponta do iceberg: números do PIB referentes ao primeiro trimestre de 2020 em alguns países.


Os números referentes ao primeiro trimestre divulgados por vários países revelam o tamanho da crise que está por vir. A figura abaixo mostra a variação do PIB em relação ao período anterior para os países com dados disponíveis na base de dados da OCDE, o Brasil não aparece porque ainda não foram divulgados os números do primeiro trimestre de 2020. A maior queda aconteceu na China, uma das razões é que a China foi afetada antes dos outros países, na Europa a maior queda ocorreu na França. A queda média foi de 2,6% e a mediana foi de 1,9%. Os números assustam, para referência no primeiro trimestre de 2019 não houve queda do PIB em relação ao período anterior em nenhum dos países da figura, mas representam apenas a ponta do iceberg pois em vários países os meses de janeiro e fevereiro foram pouco afetados pela pandemia. Na Itália a quarentena foi imposta em nove de março.




Na comparação com o mesmo período do ano anterior, que é o primeiro trimestre de 2019, o quadro parece menos desolador, mas só parece. Um número significativo nesta comparação não significa “apenas” que o PIB encolheu durante a crise, significa que o encolhimento do PIB mais do que compensou o crescimento de 2019. Assim como na comparação com o trimestre anterior o destaque da China é influenciado pelo fato que a pandemia começou por lá.




As figuras acima nos mostram o começo da crise, no segundo trimestre o estrago certamente foi bem maior. É possível que as quedas nos produtos de vários países no segundo trimestre sejam maiores que a da China no primeiro trimestre, infelizmente Brasil não será exceção. A situação aqui fica agravada porque já estávamos em crise antes da pandemia começar e, ao contrário do que dizem algumas autoridades, não havia sinais de melhoras nos primeiros meses de 2020.


sábado, 9 de maio de 2020

Uma nota a respeito da (grande) desvalorização do real.


O Brasil tem um regime de câmbio flutuante e o Banco Central não tem compromisso com nenhuma taxa específica, ainda assim variações no câmbio, como em qualquer preço, têm efeitos na economia causando perdas e ganhos em grupos distintos de famílias e empresas. Isso não implica que o Banco Central deva impedir tais flutuações, mas acompanhar as variações no câmbio é importante para entender o que pode acontecer na economia após a pandemia.

Grosso modo os ganhadores com a desvalorização da moeda local, ou valorização da moeda externa, são os exportadores, que passam a receber mais reais por dólar exportado, e as empresas que concorrem com produtos importados, que são beneficiadas nem que temporariamente pelos preços mais altos dos concorrentes. Na outra ponta estão os que possuem renda em reais e compram produtos importados ou produtos cujo preço é sensível ao dólar, estão aí trabalhadores e pensionistas, empresas que precisam importar insumos ou máquinas e quem está endividado em dólares ou outras moedas estrangerias.

Um outro efeito da desvalorização do câmbio que costuma ser apontado por economistas desenvolvimentistas é o barateamento do custo da mão de obra do país em comparação com a mão de obra do exterior. Com esse efeito é possível que as empresas instaladas no país sejam beneficiadas não apenas pelo encarecimento dos produtos concorrentes importados como se tornem mais competitivas no exterior por enfrentarem custos mais baixos em comparação com as empresas instaladas em outros países. Isso torna ainda mais escandaloso o pedido de proteção de empresários nacionais mesmo diante de uma grande desvalorização do real.

Não vou entrar na questão dos efeitos do câmbio na competitividade da indústria, já fiz isso em outros lugares, apenas registro que acredito que esses efeitos são bem menores do que pensam meus colegas desenvolvimentistas e que podem até ir na direção contrária se o efeito sobre o custo de importar novas máquinas for muito significativo. O que quero ilustrar nesse post é que a desvalorização do real, para o bem o para o mal, foi grande, muito grande. A figura abaixo mostra a valorização do dólar em relação a moedas de diversos países ou regiões nos últimos trinta dias.




Em nove de abril o dólar custava R$ 5,11, na sexta-feira, oito de maio, estava em R$ 5,73, uma valorização de pouco mais de 12% frente ao real. Foi a maior valorização frente a moeda local em todas os países avaliados. A segunda maior valorização do dólar ocorreu na Turquia e foi 6,2%, quase metade da que ocorreu aqui.

Se considerarmos desde o começo do ano a maior valorização do dólar dentre os países selecionados também aconteceu por aqui e foi de 42,4%. Neste período o México ficou em segundo lugar com valorização de 25% do dólar e a Turquia, com 19,1%, ficou em terceiro.




Considerando os últimos seis meses a valorização do dólar também foi maior por aqui do que nos outros países da amostra. A ordem continua sendo Brasil, México e Turquia com valorizações de 38,2%, 23,7% e 22,8%, respectivamente.


O Brasil só perde a liderança quando o período é estendido para os últimos doze meses, nesse intervalo de tempo a maior valorização do dólar diante a moeda local ocorreu na Argentina. Se o amigo é daqueles que não gostam de perder para argentina nem quando o assunto é desvalorização da própria moeda talvez queira saber que perdemos por pouco, lá o dólar valorizou 48,7% e por aqui 45,2%, se as moeda dos dois países continuarem no mesmo ritmo das últimas semanas rapidinho passamos deles.



Piadas à parte a realidade é que a desvalorização do real diante ao dólar foi grande, se não ocorrer uma reversão a economia pós-pandemia terá uma dinâmica diferente da que vimos nos últimos anos. Caso Paulo Guedes (e os desenvolvimentistas) estiverem certos o combo “juros baixos e câmbio desvalorizado” pode ajudar no aumento do investimento e no fortalecimento da indústria de transformação instalada no país. Outra possibilidade, creio que mais provável, é que o crescimento não virá por conta dos juros baixos e do câmbio desvalorizado de forma que o Banco Central vai ter de escolher entre elevar juros ou aceitar uma inflação mais alta do que a dos últimos anos.


quinta-feira, 7 de maio de 2020

O isolamento no Brasil foi exagerado em comparação com o de outros países?

É difícil saber se o isolamento em um determinado país foi modesto ou exagerado, isso é verdade porque não sabemos qual é o nível de isolamento ótimo em cada país. Na falta do isolamento ideal uma alternativa é comparar o isolamento de um determinado país com o de outros países. Não é um exercício sem riscos, conceitualmente a comparação é perigosa porque é perfeitamente possível que o nível ideal de isolamento seja diferente entre os vários países, desta forma um país pode estar mais isolado que outros sem que isso implique em exagero no isolamento. Em termos de medida os riscos estão na escolha de variáveis e nas diferenças de mensuração em cada país.

Mesmo ciente dos riscos, resolvi comparar o isolamento no Brasil com o isolamento em outros países. Como medida de isolamento escolhi a variação do movimento em terminais de transportes em cada dia comparado com o período de referência para cada país, essa medida está disponível no Covid-19 Community Mobility Reports (link aqui). O período de referência é definido como a mediana do mesmo dia da semana no período entre três de janeiro e seis de março de 2020. Por exemplo, o índice do Brasil no dia quinze de abril, uma quarta-feira, é de -53, isso significa que naquele dia o movimento em terminais de transportes foi 53% menor que a mediana das quartas-feiras entre três de janeiro e seis de fevereiro de 2020.

O primeiro exercício consistiu em calcular o menor valor do índice para cada país, o período analisado vai de quinze de março a dois de maio, ou seja, será considerado o menor desvio em relação ao período de referência para cada país. Por exemplo, Brasil a maior queda ocorreu no dia dez de abril quando o movimento em terminais de transportes ficou 69% abaixo do movimento no período de referência, na Argentina ocorreu nos dias vinte e três e vinte quatro de março e a queda foi de 85% e nos Estados Unidos a maior queda foi de 56% e ocorreu no dia doze de abril. A figura abaixo mostra o menor valor do índice para cada país e destaque alguns países que considero interessantes.




A média da medida de isolamento foi de -72,6 e a mediana foi de -75, no Brasil a medida de isolamento foi de -69, ou seja, no período analisado o isolamento por aqui foi menor que a média e a mediana dos cento e vinte nove países da amostra, de fato 64,3% em 64,3% dos países da amostra a medida mostrou mais isolamento do que no Brasil. De todos países, o menor isolamento ocorreu no Iémen (-27) e o maior isolamento ocorreu nas Bahamas (um inacreditável índice de -100, ou seja, ninguém usou terminais de ônibus no dia dize de abril). Em nenhum dos países sul-americanos destacados o isolamento foi menor que no Brasil, o maior isolamento da região aconteceu no Peru. É curioso registrar que nos Estados Unidos e na Coréia do Sul a medida de isolamento sugere menor isolamento do que na Suécia, um país que vez por outra é apontado por ter evitado medidas de isolamento.

A medida utilizada no primeiro exercício pode ser muito afetada por eventos específicos de um dia, por exemplo, feriados ou greves. Para resolver esse problema o próximo exercício mostra o desvio do movimento nos terminais de transportes em todos os dias do período analisado e para todos os países da amostra. Como esse método não é possível destacar todos os países da primeira figura, escolhi os seis que considerei mais interessantes. 



É fácil ver na Itália e na Argentina o isolamento foi maior que no Brasil em todo o período, porém na Argentina ocorre uma aproximação nos últimos dias. A queda do movimento em terminais de transportes por aqui ficou próxima da observada nos Estados Unidos, se isso pode ser explicada pelas características dos dois países (federações com grandes áreas) ou dos governantes dos dois países é coisa que não vou ousar explicar. No começo do período o isolamento na Suécia foi maior que no Brasil, porém depois a situação mudou quando ocorre a grande queda de movimento em meados de março. A Coréia do Sul é um caso interessante, o movimento tem uma queda brusca, chegando a ser maior que na Itália no começo da amostra e depois se mantém constante em um nível de isolamento menor que nos outros países selecionados.

O exercício desse post possui severas limitações e não deve ser usado para inferir sobre o desenvolvimento da Covid-19 nos vários países. Se tiver alguma utilidade, além de me ajudar a passar o tempo e me tirar uma curiosidade, aponta que o isolamento por aqui não foi tão rígido como vez por outra alguém sugere. Uma questão curiosa seria saber se existe correlação entre o isolamento e a mudança na previsão de crescimento do país, mas, por enquanto, ainda não estou tão ousado para fazer um post com esse tema.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Outro post sobre as medidas econômicas de combate à crise causada pelo coronavírus.


Nesta semana, mais precisamente no dia 27/04, o Observatório de Política Fiscal do IBRE/FGV fez um apanhado das medidas econômicas de combate à crise causada pelo coronavírus. O documento apresenta uma comparação das medidas no Brasil e em outros países e faz algumas decomposições das medidas do Brasil, recomento que leiam o relatório completo (link aqui) ande de ler esse post que nada mais é do que minha leitura dos números que estão lá.

Comparações internacionais são sempre delicadas, a mais completa que conheço é do FMI (link aqui), mas até que o FMI sinta segurança para resumir em uma base de dado é melhor tomar cuidado e resistir à tentação de usar esses dados para comparações entre países. A nota do IBRE, assinada pelo Manoel Pires que é meu colega de departamento, faz ressalvas quanto aos números, recomendo que leiam. Aqui vou usar os números que estão na tabela partindo do princípio de serem os mais adequados para comparações.

A figura abaixo mostra os programas de combate à crise, excluídas medidas de crédito, nos países da amostra do IBRE. Repare que o Brasil só fica atrás do Canadá e da Austrália. O número está em claro contraste com análises que sugerem que o governo brasileiro está optando por austeridade no meio da pandemia. A impressão de excesso de timidez nos programas do governo talvez decorra da inacreditável sequência de declarações infelizes (para dizer o mínimo) do Presidente da República a respeito da pandemia somada aos constantes ataques às medidas de isolamento. O resultado do IBRE não pode ser comparado diretamente com os resultados de outro post que fiz sobre o assunto (link aqui), mas ambos negam a tese que os programas de ajuda do governo são tímidos.



Em contraponto aos programas governamentais, os gastos com créditos fiscais como proporção do PIB por aqui estão entre os menores da amostra. Vale, porém, ressaltar que estamos na frente da Argentina e do Chile, os dois únicos países latinos da amostra, de fato, todos os outros países são classificados pelo FMI como avançados. Se a posição modesta é por sermos emergentes em uma amostra composta majoritariamente por países ricos, se decorre de outras características do país, especialmente do sistema financeiro, ou se é excesso de timidez do governo deixo para discutir em outra oportunidade.




A figura abaixo junta os dados da segunda e da terceira tabela do texto do IBRE para comparar o quanto destinado aos vários tipos de ações do governo. Os três maiores itens foram:

  • Novas despesas: destaque para transferência de renda extraordinária (R$ 124,2 bilhões), um programa que ainda pode aumentar nos próximos meses, e complementação de redução da jornada com seguro desemprego *R$ 51,2 bilhões)
  • Adiamento de receitas: destaque para postergação do PIS/Cofins e contribuição patronal por dois meses (R$ 82 bilhões) e para o diferimento por três meses do FGTS (R$ 30 bilhões).
  • Suporte a Estados e Município: destaque para transferências diretas (saúde, alimentação escolar, SUAS e repasses diretos) e suspensão temporária das dívidas de estados e municípios com a União (R$ 22,6 bilhões).


Como a nota do IBRE tem como um de seus objetivos comparar os programas destinados ao setor privado (talvez fosse melhor falar empresas e famílias, mas isso é outra conversa) com os programas de suporte a estados e municípios os dados ficaram separados em duas tabelas. Fiquei preocupado que ao juntar eu acabasse incorrendo em dupla contagem, mas, como a soma dos gastos deu igual à do IBRE creio que não foi o caso. De fato, o único número da nota que não reproduzi foi o do gasto como proporção do PIB das medidas com impacto no gasto primário que deu 4,3% na nota e eu cheguei a 4,58%, a diferença parece vir das medidas de desoneração que , creio eu, devem entrar na conta, mas a nota desconsidera para chegar ao número final.

A figura abaixo mostra três diferentes composições para o gasto total. A primeira coluna mostra as medidas de crédito em azul (2,06% do PIB) e as outras medidas (6,98% do PIB) em vermelho. A segunda coluna mostra as medidas de suporte a estados e municípios (1,83% do PIB) em azul e as outras medidas em vermelho (7,21% do PIB). A última coluna mostra as medidas com impacto no gasto primário (4,58% do PIB) e azul e as medidas sem impacto no primário (4,46% do PIB) em vermelho. Ao contrário da discrição deste parágrafo, no gráfico apresento os valores em bilhões de reais.




Para uma análise do papel das medidas de crédito seria importante ter as medidas de crédito sem impacto fiscal, grosso modo as medidas tomadas pelo Banco Central envolvendo garantias, liberação de compulsórios e redução de juros. De modo geral creio que a melhor estratégia prioriza medidas de crédito em detrimento de políticas de gastos, mas entendo que nem sempre é possível perseguir a melhor estratégia, ainda mais no meio de uma pandemia e com todas as tensões políticas que estamos presenciando.

As medidas de suporte a estados e municípios devem ser discutidas na próxima semana, o mais prudente a fazer é esperar mais um pouco antes de qualquer avaliação. É certo que a União deve ajudar os entes subnacionais, mas a ajuda deve estar condicionada a contrapartidas pro parte de prefeitos e governadores. Como já foi dito em outros lugares, não faz sentido a ajuda da União virar aumentos ou gratificações para servidores públicos em carreiras sem envolvimento direto com o combate à pandemia.

Imagino que o pessoal do governo esteja fazendo um esforço para minimizar as medidas com impacto direto no gasto primário, desde antes da crise, na realidade desde o final de 2014, o governo vem tentando reduzir o déficit primário. Mesmo assim, como mostra a figura, cerca de metade do gasto para combater a crise vai afetar o gasto primário. O impacto das medidas de combate à crise no gasto primário vai comprometer o esforço fiscal dos últimos cinco anos e três governos, porém é inevitável e, dado que o governo vai ser obrigado a gastar o que não tem, sobra tentar fazer esse gasto com o máximo de zelo e eficiência. Um cuidado a ser tomado é priorizar medidas temporárias em detrimento de medidas permanentes, não esqueci a lição de Friedman sobre o caráter permanente das medidas temporárias adotadas pelos governos, me conforto imaginando que Paulo Guedes também não esqueceu.


sexta-feira, 17 de abril de 2020

Isolamento por atividades e unidades da federação até 11/04

Domingo fiz um post usando os dados do Google COVID-19 Community Mobility Reports (https://www.google.com/covid19/mobility/) para comparar o isolamento nos estados e no DF. Hoje vi que o Google liberou o arquivo com todos os dados e resolvi atualizar o post mostrando como está o isolamento dia após dia. Os indicadores são calculados tomando como referência as idas em tempos de permanência em cada tipo de área em proporção ao período de referência que é definido como a mediana para o mesmo dia da semana no período entre três de janeiro e seis de fevereiro de 2020. As áreas são as mesmas do post anterior:


  • Compras e recreação (Retail & recreation): restaurantes, cafés, shopping centers, parques temáticos, museus, bibliotecas e cinemas.
  • Mercados e farmácias (Grocery & pharmacy): mercearias, armazéns, quitandas, mercados, drogarias e farmácias.
  • Lazer (Parks): parques e jardins públicos, praias, marinas, praças e parques para cães.
  • Terminais de transportes (Transit stations): estações de metrô, trem e pontos de ônibus.
  • Locais de trabalho (Workplaces): locais de trabalho.
  • Áreas residenciais (Residential): áreas residenciais.


A figura abaixo mostra o comportamento de todos as unidades da federação e destaca na cor mais escura o isolamento no Brasil. É interessante notar que apesar dos estados não terem coordenado as medidas de isolamento o padrão é razoavelmente semelhante entre eles. Nas áreas residenciais ocorre um aumento do movimento de pessoas, quedas de movimento forte nas áreas de lazer, compras e recreação, locais de trabalho e terminais de transportes, quedas leves nas áreas de mercados e farmácias.




A próxima figura repete a anterior, porém como escalas diferentes para o eixo vertical (eixo y). A comparação entre as diferentes áreas fica comprometida, mas fica mais fácil observar as variações em cada área. Na figura é possível observar que no final de março começou um aumento da dispersão no movimento em áreas residenciais e um aumento do movimento nas áreas de compras em recreação. No Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul os desvios em relação ao período de referência nas áreas de compras e recreação ficam maiores que -30 no dia nove de abril.




A última figura reproduz a anterior considerando apenas Amazonas, São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. Os quatro primeiros são os candidatos a problemas mais sérios nos próximos dias, Amazonas e Ceará já anunciaram falta de vagas em UTIs, e o último é onde moro que aparentemente saiu da lista de mais propensos a problemas sérios. Os cinco seguem padrões semelhantes, o maior destaque parece ser a menor queda do movimento em terminais de transportes em São Paulo e a maior no Ceará.

No geral dois pontos me chamaram atenção. O primeiro é a semelhança entre o padrão de isolamento das unidades da federação, mesmo sem uma lei nacional ou uma coordenação entre os governadores todos os estados e o DF apresentaram quase o mesmo padrão de queda, estabilidade ou aumento em cada uma das áreas. O segundo, que pode ser preocupante, é o aumento do movimento em áreas de compras e recreação e nos terminais de transportes observado em vários estados.






quinta-feira, 16 de abril de 2020

Avaliação do impacto da Covid-19 no crescimento esperado a partir das estimativas do FMI em outubro de 2019 e abril de 2020


Com a divulgação dos dados do Outlook do FMI (ver aqui) é possível ter uma visão mais ampla das estimativas de impacto da Covid-19 no crescimento dos diversos países. Para fazer esse post considerei todos os países com mais de dez milhões de habitantes e com previsão para crescimento em 2020 na base de dados de outubro de 2019 e na base de dados de abril de 2020, foram 87 países.  A diferença entre a previsão de crescimento em outubro de 2019 e abril de 2020 é o que vou chamar de impacto da Covid-19 na estimativa de crescimento.

A figura abaixo mostra e compara o impacto da pandemia no Brasil e em outros países selecionados com o impacto em todos os países da amostra. No eixo horizontal está o impacto em cada país, o eixo vertical mostra quantos países sofrerão um impacto maior que o do país. Por exemplo, em outubro de 2019 a estimativa de crescimento para Argentina era de -1,281%, em abril de 2020 essa estimativa caiu para -5,719, o impacto da Covid-19 na estimativa de crescimento da Argentina é de -5,719 - (-1,281) = -4,438 e 75,9% dos países sofrerão um impacto maior do que a Argentina.



Como mostra a figura o impacto no Brasil será menor que no Chile, México, EUA e Alemanha, porém maior que na Bolívia, Equador e Colômbia. De forma mais precisa, o impacto no Brasil será de -7,342 e 32% dos países da amostra sofrerão um impacto maior que o Brasil, ou seja, se as estimativas do FMI estiverem corretas vamos sofrer um impacto significativo.




A previsão para o Brasil é de queda de 5,3% do PIB, é uma queda forte mesmo considerando nossa renda per capita em 2019. A figura abaixo mostra a relação entre PIB per capita e crescimento previsto para 2020 destacando os mesmos países da figura anterior e os grupos de países conforme classificação do FMI. Repare que a queda no PIB será mais acentuada nos países avançados. O grupo com melhor desempenho é a África subsaariana, 17 dos 27 países com previsão de crescimento em 2020 pertencem a esse grupo.




A próxima figura mostra o crescimento previsto em abril de 2020 em comparação ao crescimento previsto em outubro de 2019. Em todos os países o crescimento previsto em 2020 e menor que o previsto em 2019, isso deixa claro o impacto global da Covid-19. A reta de regressão está na figura apenas para ajudar na visualização, uma reta de 45º, mais adequada para esse tipo figura, só causaria distorções pois passaria muito acima de todos os pontos.

A avaliação do impacto por grupos de países confirma que os países avançados serão os mais atingidos. Tomando a média dos países de cada grupo, nos países avançados o crescimento de 2020 previsto em abril deste ano ficou 8,3% menor que o previsto em outubro do ano passado. Na África subsaariana a queda estimada foi de 4,6%, na América Latina e Caribe, a nuestra America, a queda foi de 6,5%. A figura abaixo mostra o impacto da Covid-19 em todos os grupos de países.




Considerando apenas os países que ficaram na amostra, as estimativas do FMI apontam que o impacto do coronavírus no Brasil vai ser menor do que no Peru, no México e no Chile. O menor impacto corre na Argentina, talvez por ser o único país do grupo onde havia previsão de queda do PIB já em 2019.




Em termos de previsão de crescimento para 2020 a maior queda deve ser no México, seguido de Equador e Argentina, logo após vem o Brasil. A menor queda está prevista para acontecer na República Dominicana. Dos países da América do Sul que estão na amostra a menor queda deve ser na Colômbia.




O balanço geral da comparação das estimativas de crescimento é desolador. A média de crescimento dos 87 países da amostra que era de 3,6% em outubro de 2019 virou uma queda de 2,6% em abril de 2020, a mediana foi de 3,1% para -3%. Nas previsões de 2019 apenas o Sudão (-1,5%) e a Argentina (1-,3%) teriam queda no PIB em 2020, agora a previsão é que 60 países terão queda no PIB. As maiores quedas estão previstas para Grécia, 10%, Itália, 9,1%, Portugal e Espanha, ambos com 8%.

Se serve de consolo registro que a incerteza é tão grande que mesmo previsões de instituições renomadas como o FMI devem ser olhadas com muita cautela, há uma enorme margem para erros. O problema é que não temos a menor ideia se os erros são para mais ou para menos;


terça-feira, 14 de abril de 2020

Como votaram os deputados no pacote de socorro aos estado, aka bomba fiscal, aprovado na Câmara?


Ontem a Câmara aprovou uma versão completamente distorcida do era conhecido como Plano Mansueto (ver aqui), um projeto destinado a socorrer estados com graves problemas fiscais em troca de contrapartidas que consistiam em escolher três das oitos medidas abaixo:

  • I - autorização para privatização de empresas dos setores financeiro, de energia, de saneamento ou de gás, com vistas à utilização dos recursos para quitação de passivos;
  • II - redução de, no mínimo, 10% (dez por cento) dos incentivos ou benefícios de natureza tributária dos quais decorram renúncias de receitas, instituídos por lei estadual, distrital ou municipal, no primeiro exercício subsequente à assinatura do Plano, ressalvados os benefícios ou incentivos concedidos por prazo certo e em função de condições determinadas e aqueles instituídos na forma estabelecida pela alínea “g” do inciso XII do § 2º do art. 155 da Constituição, além da suspensão das concessões de novos incentivos ou benefícios de natureza tributária pelo período de duração do Plano;
  • III - revisão do regime jurídico único dos servidores da administração pública direta, autárquica e fundacional para suprimir os benefícios ou as vantagens não previstas no regime jurídico único dos servidores públicos da União;
  • IV - instituição de regras e mecanismos para limitar o crescimento anual das despesas correntes à variação anual do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo - IPCA, ou de outro que vier a substituí-lo, ou à variação anual da receita corrente líquida apurada na forma do inciso IV do caput do art. 2º da Lei Complementar nº 101, de 2000, o que for menor;
  • V - eliminação das vinculações de receitas de impostos não previstas na Constituição e das vinculações que excedem aos limites previstos na Constituição;
  • VI - adoção do princípio de unidade de tesouraria, observado o disposto no art. 43 da Lei Complementar nº 101, de 2000, com vistas a implementar mecanismos de gestão financeira centralizada junto à Secretaria do Tesouro do ente federativo, ao qual cabe estabelecer as condições para o recebimento e a movimentação dos recursos financeiros, inclusive a destinação dos saldos não utilizados quando do encerramento do exercício;
  • VII - adoção de reformas e de medidas estruturantes na prestação do serviço de gás canalizado, de forma a refletir boas práticas regulatórias, inclusive no tocante aos consumidores livres, de acordo com diretrizes estabelecidas pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis; ou
  • VIII - contratação dos serviços de saneamento básico, pelo seu titular, de acordo com o modelo de concessões de serviço público previsto na Lei nº 8.987, de 13 de fevereiro de 1995, e, quando houver companhia de saneamento, a adoção do seu processo de desestatização.


Com a chegada do coronavírus seria razoável esperar alguma ajuda do governo federal aos estados e mesmo um adiamento das condições do Plano Mansueto original, por exemplo, o estado que escolhesse autorizar privatizações poderia aprovar ainda este ano, mas só realizar a venda em 2021. Outra possibilidade seria suspender por dois anos todo e qualquer reajuste para servidores de estados e municípios que resolvessem aderir ao plano se socorre. Ocorre que, liderados por Rodrigo Maia (DEM-RJ), os deputados resolveram jogar para escanteio a necessidade de contrapartidas e ainda criaram a figura de um seguro contra perdas de receitas a ser bancado pela União.

Como o modelo aprovado pelos deputados (ver aqui) um estado que não arrecadar nada de ICMS no período de vigência da medida terá uma receita igual à do ano passado paga pela União. Considerando que em janeiro e fevereiro deste ano a receita de ICMS para o país como um todo foi menor do que a do ano passado para os mesmos meses, é possível que a pandemia de Covid-19 deixe os governadores com mais receitas do que teriam sem a pandemia. Não por acaso já se fala de aumento para servidores no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Para a coisa não ficar tão escandalosa colocaram uma restrição para concessão de benefícios fiscais, mas, como ninguém é de ferro, abriram uma avenida para escapar da restrição. A malandragem está no nono parágrafo do segundo artigo:

§ 9º Será considerado nulo o ato que conceda ou amplie incentivo ou benefício de natureza tributária, nos termos do art. 14 da Lei Complementar nº 101, de 05 de maio de 2000, bem como isenção em caráter geral, diferimento, suspensão, alteração no prazo de recolhimento, ou benefício de natureza financeira ou creditícia que reduza a arrecadação de ICMS e do
ISS, ressalvadas:
I - a postergação de prazo de recolhimento de impostos por
microempresas e pequenas empresas; e
II - as renúncias e benefícios diretamente relacionadas ao
enfrentamento da Covid-19, se requeridas pelo Ministério da Saúde ou para
preservação do emprego.

É fácil imaginar alternativas para justificar muitas coisas com a exceção prevista no inciso II. A verdade é que ontem a Câmara armou uma das maiores bombas fiscais fá vistas no país.

Dada a importância da medida, creio que é justo que o eleitor saiba como cada deputado votou, o Poder 360 fez a lista com essa informação (ver aqui). Não faz muito sentido reproduzir a lista nesse post, dessa forma vou me limitar a agrupar os dados por partido e por unidades da federação.

Analisando por partido é fácil ver que, com exceção do PSL, todos os partidos deram forte apoio à medida. Como esperado PT e PCdoB deram 100% de votos a favor do projeto, na lista de apoio total estão também Avante, PV e Rede (que só tem um deputado), o PSOL não ficou com 100% porque as deputadas Luiza Erundina (SP) e Áurea Carolina (MG) faltaram à votação. Dos partidos que costumam defender ajuste fiscal destaco o PSDB com trina e dois votos favoráveis, apenas o deputado Pedro Cunha Lima (PB) votou contra, e o NOVO que de forma surpreendente deu seis votos favoráveis e apenas dois, Gilson Marques (SC) e Marcel van Hattem (RS) contrários. No DEM foram vinte e três votos favoráveis, uma falta e três votos contrários dados pelos deputados Kim Kataguiri (SP), Pedro Lupion (PR) e Sóstenes Cavalcante RJ). A figura abaixo resume o voto de todos os partidos. 



Da “bancada” do Livres (ver aqui), um movimento liberal que não é organizado como partido, votaram “sim” os deputados Franco Cartafina (PP-MG), Marcelo Calero (Cidadania-MG) e Tiago Mitraud (NOVO-MG), os deputados Alex Manente (Cidadania-SP), Daniel Coelho (Cidadania-PE), Gilson Marques (NOVO-SC) e Pedro Cunha Lima (PSDB-PB) votaram “não”. Confesso que, assim como no caso do NOVO, eu esperava uma rejeição maior ao projeto por parte da turma do Livres.
  
Agrupando por unidades da federação é possível observar que a propostas venceu fácil em todos os estados e no DF. O estado com menos adesão foi Santa Catarina, 56% dos cotos favoráveis, na outra ponta Acre, Amazonas, Amapá, Maranhão, Piauí, Roraima, Sergipe e Tocantins deram 100% dos votos pela aprovação do projeto. Vale registrar que nenhum dos estados que deram apoio total são das regiões Sul e Sudeste o que parece contrapor a tese que o governo é contra o pacote porque esse beneficiaria excessivamente os estados mais ricos. Por outro lado, o resultado pode apenas refletir uma maior homogeneidade em estados com bancadas maiores. Em São Paulo a adesão foi de 70% e aqui no DF foi de 75%, os votos contrários foram das deputadas Bia Kicis (PSL) e Paula Belmonte (Cidadania). A figura abaixo resume os votos por unidade da federação.




Os números mostram que o pacote do Maia, eu devia ter escrito bomba fiscal do Maia, recebeu forte apoio na Câmara tanto no corte por partidos quanto no corte por estados. Isso pode ser um sinal que reverter no Senado a decisão da Câmara será uma tarefa árdua, mas que tem que ser tentada. O governo vai ter de trabalhar para deixar claro que vai ajudar estados e municípios, mas não na forma desastrosa aprovada pela Câmara. Se o esforço no Senado falhar o certo a fazer é vetar o projeto e, se necessário for, buscar alguma falha no projeto que permita recursos ao STF. Em último caso vale um veto nem que seja para ser derrubado, isso pelo menos forçaria que os defensores da bomba fiscal passassem recibo do que estão fazendo. Alô pessoal do Novo e do Livres, estou de olho!


domingo, 12 de abril de 2020

Covid-19 e o movimento por áreas de interesse no Brasil


Ontem estava olhando um post no R-bloggers ensinando como pegar dados do Google de movimentação em áreas específicas em diversos países (link aqui). Por conta disso resolvi olhar o relatório para o Brasil e avaliar como o isolamento está afetando o movimento nessas áreas por aqui e agora compartilho alguns números com os leitores do blog. Os dados são Google - COVID-19 Community Mobility Reports (link aqui).

Os indicadores são calculados tomando como referência as idas em tempos de permanência em cada tipo de área em proporção ao período de referência que é definido como a mediana para o mesmo dia da semana no período entre três de janeiro e seis de fevereiro de 2020. Para este post vou usar os dados referentes a cinco de abril que é o último período da amostra, desta forma o período de referência é a mediana dos domingos entre três de janeiro e seis de fevereiro. Quando os dados estiverem maias atualizados eu já devo ter conseguido puxar os dados para todos os dias, afinal é do que trata o post no R-bloggers, e vou tentar fazer comparações com outros dias da semana, se ficar interessante coloco os resultados em outro post.

São avaliadas as movimentações nos seguintes tipos de áreas:
  • Compras e recreação (Retail & recreation): restaurantes, cafés, shopping centers, parques temáticos, museus, bibliotecas e cinemas.
  • Mercados e farmácias (Grocery & pharmacy): mercearias, armazéns, quitandas, mercados, drogarias e farmácias.
  • Lazer (Parks): parques e jardins públicos, praias, marinas, praças e parques para cães.
  • Terminais de transportes (Transit stations): estações de metrô, trem e pontos de ônibus.
  • Locais de trabalho (Workplaces): locais de trabalho.
  • Áreas residenciais (Residential): áreas residenciais.

A figura abaixo mostra o indicador em cada uma das áreas para o Brasil.




A maior queda de movimento ocorreu nas áreas de compras e recreação (67%), seguida de perto pelas áreas de lazer (66%), a menor queda foi nas áreas dedicadas a mercados e farmácias. O movimento nos locais de trabalho pode estar comprometido pela data ser um domingo, mas, mesmo assim, ocorreu uma queda de 30%. Como esperado o movimento em áreas residenciais aumentou. A magnitude da queda e áreas associadas a recreação e lazer, atividades voluntárias, sugere que houve adesão da população às medidas de isolamento. Naturalmente em locais que estavam fechados ou com acesso proibido por conta de decisão de prefeitos ou governadores a adesão não pode ser classificada de voluntária.

Apesar do Google dos riscos de comparar regiões diferentes, precisão e classificação de locais mudam de uma região para outra, no restante do post vou mostrar o movimento nas áreas acima por unidades da federação. A figura abaixo mostra a variação de movimento em locais dedicados a compras e recreação.




As maiores quedas ocorreram no Ceará e em Santa Catarina, ambos 74%, na sequência vieram Paraíba, Pernambuco e Amapá. As menores queda ocorreram em Tocantins, Rondônia e Mato Grosso. Apesar de inicialmente terem se destacado como áreas de preocupação o Distrito Federal, o Rio de Janeiro e São Paulo não se destacaram na redução de movimento em áreas de compras e recreação. Dessas três unidades da federação a maior queda foi no Rio de Janeiro (69%), seguida de São Paulo (67%) e Distrito Federal (64%).

A próxima figura mostra a queda na movimentação em áreas de mercados e farmácias. É natural que essa queda tenha sido menor que em outras áreas, afinal são comércios essenciais. Nessas áreas a maior queda ocorreu em santa Catarina (37%), seguida pela queda na Bahia (33%) e Piauí (32%). A menor queda ocorrer em Rondônia (11%), no Pará a queda foi de 16%, Goiás e Maranhão tiveram queda de 18%. Mais uma vez Rio de Janeiro, São Paulo e Distrito Federal não tiveram entre as unidades com maiores quedas.

  
Nas áreas de lazer novamente Santa Catarina liderou a queda (80%), desta vez o Rio de Janeiro teve destaque com uma queda de 78% segundo do Espírito Santo com queda de 72%. As menores quedas ocorreram em Tocantins (29%), Rondônia (30%) e Goiás (37%), é possível que o fato de nenhum dos três ter praias tenha contribuído para esse resultado. De fato, a queda média do movimento em áreas de lazer foi de 71% nos estados cuja capital tem praia e 50% nos estados onde as capitais não têm praia.




As maiores queda em áreas de transporte foram observadas em Sergipe (79%), no Piauí (77%) e no Amapá (73%). A data de referência ser um domingo ajuda aumentar o tamanho da queda no uso de transportes, mas a análise dos gráficos com o período completo que está no documento do Google sugere que nos outros dias também ocorreram fortes quedas.




O movimento no local de trabalho também sofre efeitos da comparação ser feito entre domingos, ao contrário do uso de transportes nos locais de trabalho a queda nos domingos tende a ser menor que nos outros dias. De toda forma, vale registrar que Rio de Janeiro e Santa Catarina tiveram a menor redução de movimentos nessas áreas (35%), seguidos do Distrito Federal (33%) e São Paulo (32%). A referência no domingo pode ter uma vantagem na análise do DF porque muitos servidores públicos normalmente não trabalham aos domingos, dessa forma a variação tem menos efeito do serviço público.




O movimento nas áreas residenciais, como esperado, aumentou em todos os estados e no Distrito Federal. Os maiores aumentos ocorreram no Rio Grande do Sul e no Rio Grande do Norte (18%), seguidos por Santa Catarina, Distrito Federal e Piauí (17%). Parte desse aumento pode por conta de pessoas que trocaram idas a shoppings, parque ou praias por movimentação nas redondezas de onde moram.




Para encerrar o post calculei as médias dos indicadores, com exceção do movimento nas áreas residenciais, depois de imaginar várias possíveis formas de ponderar cada área decidi usar uma média simples. A figura abaixo mostra os resultados. Pelo critério de média simples o estado onde ocorreu o maior isolamento foi Santa Catarina, queda de 59,6% na média de movimento das áreas, seguido da Bahia (54,6%) e do Ceará (53,8%).  Os menores isolamentos ocorreram em Rondônia (36,2%), Tocantins (36,8%) e Mato Grosso (37%).




No computo geral os números mostram que houve um engajamento da população, em alguns casos por conta de intimidação, nos esforços de isolamento. As quedas de 67% e 66% no movimento em áreas de compras e recreação e de lazer me parecem significativa (se eu conseguir arrumar os dados faço uma comparação com outros países, mas como referência as quedas nos EUA no mesmo período foram de 49% e 20%, respectivamente), as quedas menores em outras áreas podem ser explicadas por necessidades de compras, como em mercados e farmácias, ou por necessidade de trabalhar. Também é possível observar que, mesmo com diferentes graus de adesão, os esforços de isolamento podem ser percebidos em todos as unidades da federação.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Crescimento do PIB em tempos de Gripe Espanhola


Em tempos de pandemia foi impossível resistir à tentação de olhar para o passado e observar o que aconteceu em outros casos do tipo. É um exercício arriscado, os tempos são outros e tanto a medicina quanto a economia são muitos diferentes do que eram naquela época para permitir comparações impunemente.

Tome como exemplo a Gripe Espanhola, uma das grandes pandemias da história que atingiu o mundo nos anos de 1918, 1919 e 1920. Naquela época o mundo saia da Grande Guerra e observava a Revolução Russa de 1917, como separar os efeitos da Guerra, da Revolução e da Gripe Espanhola? A integração do mundo também era diferente, por mais que existisse comércio entre empresas e famílias de diferentes nações não é possível comparar com o mundo atual de aviões gigantes cruzando os céus e tecnologia da informação conectando as pessoas. A medicina então nem se fala, vivemos em outro planeta em relação a nossos antepassados que enfrentaram aquela pandemia.

Mesmo com todas essas diferenças, não resisti e fui olhar o crescimento do PIB nos diversos países entre 1918 e 1920. Não pretendo com isso estimar o que vai acontecer com o PIB nos próximos anos, deixo a tarefa para colegas mais chegados às artes das previsões, faço principalmente por curiosidade. Como se trata anterior à II Guerra usei os dados do Maddison Project (MPD 2018), uma das melhores e mais usadas fontes de dados históricos em economia. Selecionei os países com mais de um milhão de habitantes e dados completos para o período 1915 e 1925, para calcular o PIB multipliquei a variável rgdpnapc (medida de PIB per capita mais adequada para comparação de taxas de crescimento) e multipliquei pela população. A amostra ficou com trinta e oito países.

A média de crescimento dos países da amostra foi de 0,3% em 1918, 4,64% em 1919 e 3,12% em 1920, em nenhum dos anos a média foi negativa. A maior queda de PIB em 1918 foi de 21,1% e aconteceu na França, em 1919 a maior queda foi de 19,5% na Alemanha. É muito provável que o desastre na França em 1918 esteja mais associado à I Guerra do que à Gripe Espanhola, a segunda maior queda de 1918 foi na Bélgica, e o da Alemanha esteja mais associado as reparações de guerra, o Tratado de Versalhes foi assinado em junho de 1919 e a segunda maior queda foi na Áustria. Reforça a tese de que a queda está associada à I Guerra o fato que em 1919 a Bélgica cresceu 18% e a França cresceu 17,8%. A maior queda de 1920 foi de 20,4% e ocorreu no Uruguai.

A figura abaixo mostra a menor variação do PIB em cada ano para cada um dos países da amostra. Em 21 dos 39 dos países a menor variação ocorreu em 1918, linhas em verde, o que pode ser um indício de um forte efeito da I Guerra nesses números. Em dez países a maior queda foi em 1919 e em sete países a maior queda foi em 1920. Dos cinco países com maiores queda no período, quatro (Áustria, Bélgica, Alemanha e França) estiveram diretamente envolvidos na I Guerra. O quinto da lista, o Uruguai, teve uma nova Constituição promulgada em 1918 que entrou em vigor em 1919 e trouxe reformas importantes para o país.



Sete países da amostra não tiveram queda de PIB em nenhum dos anos entre 1918 e 1920, na Colômbia o menor crescimento foi de 6,2% em 1918, no ano seguinte o crescimento foi de 8,9%. Nos Estados Unidos ocorreu queda do PIB apenas em 1920 (-0,95%), em 1918 o PIB cresceu 9%. O Reino Unido, que também teve grande envolvimento na i Guerra, teve queda do PIB nos três anos, a maior foi de 12% em 1919. A figura abaixo mostra o crescimento do PIB no Brasil entre 1916 e 1925, a queda de 2% em 1918 foi bem mais do que compensada pelos crescimentos de 13,2% em 1919 e 9,9% em 1920.




Como disse no começo é difícil tirar lições para nossos tempos da pandemia de 1918-1920, o exercício deve ser visto mais como uma curiosidade do que como uma busca por insights. De toda forma é interessante registrar que as maiores quedas de PIB em 1918 e 1919 parecem mais associadas à guerra e as reparações de guerra do que à Gripe Espanhola e que, pelo menos no Brasil, a queda de 1918 foi mais do que compensada nos anos seguintes.


segunda-feira, 6 de abril de 2020

Medidas econômicas para enfrentar a Covid-19 no Brasil e no mundo


Ontem comentei no Twitter e no Facebook a respeito de um trabalho elaborado por Ceyhun Elgin, Gokce Basbug e Abdullah Yalaman (link aqui) a respeito das medidas que os países estão tomando para combater e aliviar os efeitos econômicos da Covid-19. No trabalho os autores apresentam várias métricas que tentam capturar a intensidade das políticas fiscais, monetárias e de balanço de pagamentos e elaboram um índice para medir a intensidade dos estímulos à economia em resposta à pandemia de Covid-19, o índice é chamado de CESI (do inglês: Covid-19 Economic Stimulus Index). Nesse post analiso os indicadores de política monetária e fiscal para ver como o Brasil está se saindo na comparação com outros países.

Como vou comentar vários indicadores considerei apenas os países em que estão disponíveis dados para todos os indicadores de política fiscal e monetária bem como o PIB per capita e o CESI, dessa forma fiquei com cento e quarenta e três países da amostra original de cento e sessenta e seis países. O CESI do Brasil foi de 0,09, de todos os países da amostra o maior foi observado no Bahrein, 4,85, e o menor na Argélia, -4,25. Nossos estímulos para amenizar os efeitos econômicos da Covid-19 medidos pelo CESI estão abaixo da média, 0,15, mas estão acima da mediana, -0,21. A figura abaixo mostra a CESI de todos os países da amostra e destaca alguns países da América Latina, China, Estados Unidos, Itália, Japão e Suécia. A reta de regressão é apenas ilustrativa, não recomendo tirar conclusões sem maiores cuidados. No grupo em destaque da América Latina apenas o Chile teve um CESI maior que o do Brasil.




O indicador fiscal leva em conta o tamanho dos gastos realizados para enfrentar a Covid-19 como proporção do PIB, no artigo essa medida para o Brasil é de 3,5. Na amostra como um todo a média é de 2,4 e a mediana é de 1. Em vinte e dois países o esforço fiscal foi zero e em dois países foi negativo, retirando esses países da amostra a média sobe para 2,9 e a mediana vai para 1,4, ainda estamos acima da média e da mediana. No grupo da América Latina em destaque apenas o Chile teve um pacote fiscal maior do que o brasileiro como proporção do PIB. A figura abaixo mostra o indicador fiscal para os países onde esse indicador foi maior que zero.




O próximo indicador que vou comentar mede o corte nos juros em relação à taxa vigente no começo de fevereiro. No Brasil esse indicador é de 28,5, a média da amostra é 13,20 e a mediana é zero, o maior valor foi igual a 100 e ocorreu nos Estados Unidos. Em setenta e sete países o indicador é zero, ou seja, não houve corte de juros, e em quatro o indicado é negativo. Retirando esses países da amostra a média passa ser 31,7 e a mediana 22,2, desta forma nosso corte de juros foi menor que a média dos países que cortaram, que é muito afetada pelos Estados Unidos, e menor que a mediana. No grupo da América Latina mais uma vez apenas o Chile teve o indicador maior que o do Brasil. A figura abaixo mostra o PIB per capita e a indicador de corte de juros para os países onde o indicador é positivo.



O indicador de medidas macro-financeiras mede a intensidade das medidas tomadas para estabilizar o mercado financeiro e é medido como o tamanho desse pacote em relação ao PIB. No Brasil esse indicador foi de 3,2, a média da amostra é de 2,2 e a mediana é zero. Oitenta e um países não tomaram medidas macro-financeiras, retirando esses países da amostra a média passa a ser 5 e a mediana 2,9, dessa forma o Brasil está abaixo da média, mas acima da mediana, dos países que tomaram medidas macro-fianceiras. Nesse indicador o Brasil teve o maior valor dentre os países destacados da América Latina.




A tabela resume os resultados dos parágrafos anteriores, quando for o caso média e mediana 1 são as da amostra completa e média e mediana 2 são a das amostras com os países onde o indicador é positivo.

Indicador
Brasil
Média 1
Média 2
Mediana 1
Mediana 2
CESI
0,09
0.15
---
-0.21
---
Fiscal
3,5
2,4
2,9
1,0
1,4
Corte de juros
28,5
13,2
31,7
0
22,2
Macro-financeiro
3,2
2,2
5,0
0
2,9


Um último indicador quantitativo que está no artigo e vou comentar mede o rigor das medidas não econômicas tomadas pelo governo (no original é chamado de stringency), basicamente considere medidas na área de saúde (mais aqui). O indicador está disponível para setenta e três países, no Brasil o valor é de 71, a média da amostra é de 54,2 e a mediana é de 57. Como referência na Argentina o indicador de rigor é de 43, na Itália 81, no Japão 62 e nos Estados Unidos é de 19. O maior valor observado foi de 95 na Áustria e no Qatar.

Pelos números apresentados não creio ser correto afirmar que as medidas tomadas pelo governo brasileiro são modestas. Via de regra estamos acima da mediana nos indicadores e em muitos casos estamos acima da média, o resultado acima da mediana permanece quanto dão retirados da amostra os países que não tomaram a medida em questão.