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domingo, 8 de novembro de 2020

Alguns números da economia dos Estados Unidos no governo Trump

As eleições nos Estados Unidos chamaram atenção para várias questões relacionadas ao país. Basta uma olhada nos jornais ou nas redes sociais para esbarrarmos em notícias sobre geopolítica, economia, política, racismo e outras questões relacionadas aos direitos civis no país que ainda se apresenta como Terra da Liberdade, embora já tenha sido bem mais livre, ou bem menos, a depender do ângulo que se olha e do conceito de liberdade usado pelo observador.

Para ajudar nas discussões, apresento nesse post alguns números relacionados à economia americana. Os dados são todos do FMI e estão disponíveis na versão de outubro de 2020 da base de dados do World Economic Outlook (link aqui), não inclui 2020 por conta da pandemia e porque trabalho com dados anuais e o ano ainda não acabou. Em cada uma das figuras a linha mostra os dados desde 2001, para dar uma ideia de tendência, e as barras mostram os dados no governo Trump.

Comecemos a história pelo lado fiscal. Durante o governo Obama os Republicanos fizeram muitas críticas por conta da política fiscal, as acusações giravam em torno da ideia que Obama, e Democratas em geral, gastava demais. De fato, no começo do governo Obama o déficit primário como proporção do PIB nos Estados Unidos deu um grande salto, uma tendência que vinha do governo Bush e está muito relacionada à Crise de 2008. Porém, depois do pico de 11,3% do PIB em 2009, o déficit primário como proporção do PIB apresentou uma trajetória de queda. No último ano do governo Obama o déficit primário foi de 2,4% do PIB, número que cresceu até chegar a 4,1% em 2019. Para 2020 a previsão do FMI é que o déficit primário dos Estados Unidos será de 16,7% do PIB, mas aí há de se considerar o efeito da pandemia.


 

O comportamento do déficit acaba refletido na dívida pública. Após o salto significativo na sequência da Crise de 2008, de 64,7% do PIB em 2007 para 103,3% do PIB em 2012, a dívida pública se estabiliza como proporção do PIB no segundo mandato do Presidente Obama com um aumento em 2016. Durante o governo Trump a dívida cresce mais que o PIB em todos os anos e chegou a 2019 na faixo de 109% do PIB. Em 2020 a previsão é de que a dívida chegará a 131% do PIB, mais uma vez a pandemia tem um efeito central no aumento. Em termos gerais parece justo dizer que a situação fiscal dos Estados Unidos piorou no governo Trump mesmo antes da pandemia.

 


Um dos grandes trunfos frequentemente citados pelos que simpatizam com o Presidente Trump é o aumento do crescimento e a queda do desemprego. A figura abaixo mostra o crescimento dos Estados Unidos. É fato que nos dois primeiros anos do governo a taxa de crescimento do PIB americano aumentou, mas houve perda de folego em 2019. A maior taxa de crescimento no governo Trump foi 3% em 2018, número próximo aos 3,1% de 2015 ainda no governo Obama. Para 2020 a expectativa é de queda de 4,3% no PIB americano.

 


O desemprego no governo Trump segue a tendência de queda iniciada a partir de 2010 chegando a um mínimo de 3,7% em 2019. Olhando os dados fiscais e desemprego fica a impressão de que havia um estímulo fiscal em uma economia com baixo desemprego, uma estratégia que, como bem sabemos por aqui, pode ser desastrosa no médio/longo prazo. Para 2020, por conta da pandemia, a previsão é que desemprego fique em 8,9%.

 


A última variável que vou falar é a inflação. Em 2008, ano da crise financeira, a inflação nos EUA caiu para 0,7%, nos primeiros anos do governo Obama a inflação sobe até chegar a 3,1% em 2011. A partir daí, concomitante a estabilização da dívida como proporção do PIB e na sequência da queda no déficit primário, a inflação volta a cair chegando a 0,5% em 2014. Em 2016, último ano do governo Obama, a inflação foi de 2,2%, número que se repetiu no primeiro ano do governo Trump. Em 2018 a inflação caiu para 1,9% e no ano seguinte subiu para 2,1%, onde, segundo as previsões do FMI, deve ficar em 2020.

 


O balanço do governo Trump, desconsiderando 2020, mostra uma piora no quadro fiscal sem um aparente impacto significativo no crescimento que, em média, foi de 2,5% nos três primeiros anos do Presidente Trump contra 2,4% nos três anos anteriores e 2,5% nos três primeiros anos do segundo mandato do Presidente Obama. O desemprego seguiu a tendência de queda. Onde a combinação de estímulos fiscais e desempregos baixo levaria não temos como saber, a pandemia mudou as trajetórias dessas variáveis, mas a experiência sugere que não seria a um lugar bom. A inflação ficou controlada no governo Trump.

O que vai acontecer nos próximos anos? Só o tempo dirá. Republicanos quando estão na oposição costumam impor resistência a políticas que aumentem o déficit do governo, isso pode ajudar a reverter o aumento do déficit e a estabilizar a dívida como proporção do PIB. Por outro lado, a pandemia impôs gastos e poderá continuar impondo a depender do que vai acontecer nos próximos meses ou anos. Arrisco dizer que só com uma vacina as coisas começarão a voltar ao normal, mas não arrisco dizer quando a vacina vai aparecer nem muito menos quando (e como) as pessoas serão vacinadas. A pandemia também deve ditar o ritmo de crescimento, é razoável esperar que as economias do mundo cresçam e criem empregos nos períodos seguintes à superação da pandemia.

A inflação vai depender da parte fiscal. Os Estados Unidos testaram o limite de endividamento na crise de 2008, deu certo, mas isso não quer que dizer que não existe limite. Meu médico diz que eu tenho de emagrecer. Ele não sabe dizer o peso máximo que posso ter sem algum problema sério, também não sabe dizer o que vai acontecer se eu chegar nos 160kg e muito menos quanto tempo posso ficar acima dos 150kg impunemente. Ele apenas me diz que em algum momento meu peso vai cobrar um preço da minha saúde, eu, que apesar de já sentir alguns sinais dessa cobrança não faço os ajustes necessários para perder peso, acredito nele.

 

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Sem milagres nem marchas forçadas, é devagar que vamos mais longe.


Fiz um post no FB onde comentei uma entrevista de Winston Ling (link aqui) e registrei que apesar de concordar com as linhas gerais apresentadas na entrevista me incomodei com a referência a China pois não acredito que a maioria dos brasileiros queiram viver em uma nova China e que eu definitivamente não quero que o Brasil vire uma espécie de China. Vários amigos me alertaram que a referência a China era no sentido do crescimento econômico em contraponto a hipóteses que fosse em termos de instituições. Fiquei meio sem graça de dizer aos amigos que eu me referia ao crescimento econômico, isso mesmo, eu não quero que o Brasil busque uma trajetória de crescimento chinesa. Por certo não digo isso por conta do crescimento propriamente dito, mas por conta do que seria necessário para obter tal trajetória.

O crescimento da China vem de uma combinação de abertura para o setor privado, altas taxas de poupança e forte presença do estado nas decisões de investimento. A aparente contradição entre abertura para o setor privado e a forte presença do estado na economia é desfeita quando consideramos o ponto de partida da China. Depois de uma das mais brutais e desastrosas tentativas de implementar uma economia planificada o Partido Comunista Chinês percebeu que aquilo não levaria a lugar algum e começou um processo de abertura para investimentos privados, porém esse processo não retirou do estado o papel de condutor do processo de crescimento econômico. Nesse sentido a China de hoje vive uma experiencia similar a do Brasil do começo da década de 1970 onde o estado “comandava” uma dinâmica de crescimento que passou para história como Milagre Econômico. O que veio depois do Milagre não foi o paraíso das riquezas, pelo contrário, passamos a viver em um inferno econômico com direito a décadas perdidas, hiperinflação, calote de dívida pública e etc.

Não estou dizendo que esse será o destino da China, existem diferenças importantes que podem permitir que a China siga o rumo do Japão e da Coreia em vez de seguir o rumo do Brasil e da América Latina. Tais diferenças passam pela taxa de poupança absurdamente alta e um sistema de educação que parece ser bem superior ao brasileiro, pelo menos considerando os dados do PISA. Se isso vai ser suficiente é assunto para outro post, da minha parte creio que sem uma profunda mudança nas instituições de forma a garantir liberdades individuais a China não vai muito além de onde está em termos de PIB per capita, mas entendo quem discorda da minha avaliação. A questão desse post não é sobre a China, a questão é saber se um novo milagre econômico levará o Brasil ao paraíso ou nos manterá no inferno em que estamos.

Minha avaliação é que um novo milagre nos levará a um novo desastre. Para começo de conversa não vejo como ter poupança asiática sem desmontar a rede de proteção social aprofundada desde a redemocratização, mas existente desde muito antes. Basta ver a dificuldade para aprovar a reforma da previdência para que tenhamos noção de onde vai dar uma tentativa de acabar ou reduzir significativamente iniciativas como o SUS, o bolsa família, a rede de universidades públicas, as férias remuneradas, o seguro desemprego e tantas outras políticas públicas que tornam quase impossíveis níveis de poupança pública e privada com padrões asiáticos. Qual o nível de repressão necessário para reduzir drasticamente os ditos direitos sociais e trabalhistas? Qual o nível de repressão necessário para desmontar a rede de proteção social? Não sei e não quero pagar para saber.

Creio que se o Brasil quiser entrar em uma trajetória de crescimento deve esquecer os milagres asiáticos e buscar inspiração nos casos de sucesso dos Estados Unidos e Europa ou mesmo Austrália. Digo isso desde muito tempo, a referência mais antiga que encontrei em tempos de “print ou não aconteceu” foi uma matéria da Exame de 2010 (link aqui) onde digo que o Brasil não deve buscar crescimento chinês e que insistir nesse caminho acabaria levando a uma crise. Muita coisa mudou de lá ´para cá, mas não mudei minha avaliação, pelo contrário, a busca pelo PIBão nos levou a uma gigantesca crise e reforçou minha impressão que naõ devemos buscar milagres.

Para ilustrar a experiência de crescimento dos países hoje ricos usei a base de dados do projeto Maddison (link aqui) que apresenta dados de crescimento para vários países por um longo período de tempo. Selecionei nessa base todos os países com PIB per capita cima de $30.000 em 2016, depois escolhi os que tinham dados completos desde 1801, fiquei com Reino Unido, Itália, Suécia e Estados Unidos, por conta de anomalias no período da II Guerra retirei a Itália da amostra.

A figura abaixo mostra a taxa de crescimento dos EUA entre 1801 e 2016. Note que são poucos os anos em que os EUA cresceram mais de 10%, para ser preciso isso aconteceu em 1909, 1916, 1923, 1935, 1941 e 1942. Em 1909 a economia se recuperava de uma queda de 9,9% ocorrida em 1908, em 1935 era a recuperação da sequência de quedas iniciadas em 1930 com a Grande Depressão, 1941 e 1942 foram anos de guerra. Se baixarmos o sarrafo para um crescimento de 7,5% a lista passa a incluir os anos de: 1879, 1880, 1892, 1895, 1901, 1906, 1918, 1934, 1936, 1937, 1940, 1943 e 1950, repare que apenas nos períodos 1879-80 e 1936-37 os EUA cresceram mais de 7,5% por dois anos seguidos, note também a presença marcante de anos de guerra e da recuperação da Grande Depressão na lista. Baixando ainda mais o sarrafo para 5% entram na lista os anos de 1830, 1831, 1844, 1853, 1863, 1899, 1905, 1926, 1929, 1939, 1944, 1951, 1959, 1965, 1966 3 1984, mais uma vez não observamos sequencias de crescimento capazes de configurar um milagre. Considerados os 216 anos entre 1801 e 2016 os EUE cresceram mais que 5% em apenas 38 anos e em apenas dois casos o crescimento acima de 5% ocorreu em três ou mais anos seguidos: na recuperação da Grande Depressão entre 1934 e 1937 e no período da II Grande Guerra entre 1939-1944. De fato, não há uma só década em que os EUA tenham crescido mais de 5% ao em média, nem na década de 1950.



No Reino Unido a história não é muito diferente, assim como nos EUA não há uma década entre 1801 e 2016 com crescimento médio acima de 5% ao ano. No período o Reino Unido nunca cresceu mais que 10% ao ano, apenas em 1815, 1863, 1922, 1927, 1940 e 1941 o crescimento ficou entre 7,5% e 10%, entre 5% e 7,5% nos anos de 1807, 1810, 1827, 1835, 1844, 1856, 1894, 1915, 1934 e 1973. Dos 216 anos da amostra apenas em 17 a taxa de crescimento ficou acima de 5% ao ano. A figura abaixo mostra os dados.




Na Suécia, assim como nos EUA e no Reino Unido, não há registro de uma década com crescimento médio acima de 5% ao ano. O único ano com crescimento acima de 10% foi 1870, nos anos de 1810, 1883, 1906, 1946 e 1947 o crescimento ficou entre 7,5% e 10%, entre 5% e 7,5% em 1805, 1811, 1855, 1876, 1879, 1891, 1903, 1907, 1913, 1916, 1920, 1922, 1924, 1929, 1934, 1939, 1961, 1964, 1970 e 2010. Dos 2016 anos analisados em apenas 28 o crescimento ficou acima de 5% ao ano, não há casos de três anos seguidos com mais de 5% de crescimento. A figura abaixo mostra os dados da Suécia.




O número de países disponíveis para análise aumenta de forma considerável se em vez de escolher 1801 como ponto de partida a escolha for 1901. Para não deixar o post ainda mais cansativo vou me limitar a dois países nesse novo intervalo de tempo: Suíça e Austrália. No primeiro o crescimento ficou acima de 10% em 1922, 1937 e 1946, entre 7,5% e 10% em 1924 e entre 5% e 7,5% em 1904, 1916, 1920, 1927, 1951, 1955, 1956, 1959, 1961 e 1970. Considerando os 116 anos decorridos entre 1901 e 2016 a Suíça cresceu mais de 5% em 14 desses anos. Não há registro de três ou mais anos seguidos com crescimento acima de 5%, o único caso de dois anos seguidos com esse crescimento foi 1955 e 1956, não há caso de década com crescimento médio de mais de 5% ao ano. A figura abaixo mostra a taxa de crescimento na Suíça.




Dos 116 anos analisados a Austrália cresceu acima de 10% apenas em 1941 e 1942, não há caso de crescimento entre 7,5% e 10% e crescimento entre 5% e 7,5% aconteceu em 1903, 1904, 1906, 1909, 1935, 1940 e 1984. No total o crescimento foi maior que 5% em 10 dos 116 anos considerados, não há caso de década com crescimento médio de mais de 5% ao ano. A figura abaixo ilustra os dados.




O contraste com a Ásia é claro, considerando os dados do projeto Maddison a China cresceu em média 5,9% ao ano na década de 1990 e a uma média de 8,6% ao ano na década passada. A Coreia cresceu em média 5,9% ao ano na década de 1960, 6,7% ao ano na década de 1970, 7,8% ao ano na década de 1980 e 6,1% ao ano na década de 1990, foram quatro décadas seguidas crescendo a uma média superior a 5% ao ano. O Japão cresceu a uma média de 7,6% ao ano na década de 1950 e 9,3% ao ano na década de 1960. Singapura cresceu a uma média anual de 6,9%, 7,4% e 5,3% nas décadas de 1960, 1970 e 1980 respectivamente. Se recordarmos que Estados Unidos, Suécia e Reino Unido não tiveram uma década sequer de crescimento médio acima de 5% ao ano entre 1801 e 2016 e que Austrália e Suíça também não tiveram esse crescimento em nenhuma das décadas entre 1901 e 2016 fica claro o contraste entre a experiência de crescimento desses países e a experiência de crescimento dos países asiáticos no pós-guerra.

Talvez o caminho do Brasil, ou mesmo da América Latina como um todo, não seja nem o dos países ricos do ocidente nem o dos milagres asiáticos, é muito provável que “nuestra” América tenha de encontrar o próprio caminho para riqueza. O ponto que tento fazer nesse post é que comparando o quadro geral e as experiências anteriores de países como Brasil, Argentina, Colômbia e México é muito mais provável que nosso caminho para riqueza envolva uma marcha lenta e constante como a dos primeiros países analisados do que uma marcha forçada como as da Ásia. Já tivemos nossa marcha forçada e não gostamos dela, no que depender de mim andaremos devagar porque já tivemos pressa e já choramos demais.


quinta-feira, 17 de maio de 2018

Mais uma vez nado contra a corrente: Por que acredito já ser hora de parar com a redução de juros?


A decisão do Copom e manter a taxa de juros em 6,5% ao ano causou alvoroço entre analistas econômicos. Uma entrevista de Ilan Goldfajn na semana anterior a reunião do Copom onde o presidente do BC deu a entender que haveria uma redução dos juros aumentou a confusão. Poucos devem discordar que presidentes de bancos centrais devem tomar cuidado com o que falam, um mal-entendido pode custar caro e pessoas que perdem dinheiro costumam ficar irritadas. Da minha parte, neurótico que sou com inflação, entendo que a declaração de Ilan Goldfajn visava preparar o mercado para a manutenção dos juros, a diferença entre minha percepção e a de vários colegas talvez seja que, ao contrário deles, eu estava esperando um aumento na taxa de juros. Vou além, acredito que se o BC errou ontem foi por excesso de ousadia.

A principal função de um banco central é manter a inflação controlada, isso é (ou deveria ser) mais forte no Brasil onde o BC trabalha com regime de metas de inflação. De acordo com o Boletim Focus a expectativa de inflação para este ano é de 3.45%, ou seja, está dentro do intervalo da meta. O Banco Central poderia reduzir a taxa de juros se entendesse que tal redução não colocaria em risco a meta, manter a taxa de juros se entendesse que era hora de esperar para ver ou elevar os juros se entendesse que a meta estava em risco. Dado o volume de incerteza com o movimento do dólar creio ser difícil pensar que alguma coisa não está em risco, dessa forma, segundo meu raciocínio reconhecidamente muito avesso a riscos de inflação, a escolha seria entre manter e aumentar. Por estar olhando para atividade o BC acabou por manter os juros em 6,5%, é um risco, baixo reconheço, que parece aceitável, principalmente se lembrarmos que a atual direção do BC já se mostrou extremamente habilidosa no controle da inflação.

Fiz o esclarecimento acima apenas para registro, não é meu interesse entrar no debate do erro de comunicação. Quando o presidente do BC fala ele não costuma estar pensando em professores de macroeconomia, o público alvo é o pessoal do mercado e, se boa parte desse pessoal entendeu errado, é porque algum problema de comunicação aconteceu. O verdadeiro objetivo desse post é alertar para alguns perigos de manter a queda da taxa de juros, especificamente duas questões serão colocadas: a diferença entre os juros aqui e nos EUA está ficando muito baixa e os juros reais também podem estar ficando perigosamente baixos para o Brasil.

Comecemos pelo diferencial de juros, a diferença entre a Selic e a taxa do FED. Quando alguém considera investir em título no Brasil ele deve considerar as alternativas, por simplicidade vou supor que a alternativa é investir em título nos EUA. A decisão final deve considerar a taxa de juros no Brasil, a taxa de juros nos EUA e a expectativa de desvalorização cambial. Se o sujeito tem dólares para investir no Brasil ele vai transformar os dólares em reais e comprar os títulos daqui. Após um ano ele vai ter os reais iniciais mais os juros. Por fim ele transforma os reais recebidos em dólares e compara com o ganho de investir em títulos americanos.

Para deixar a coisa mais clara vale um exemplo: o investidor pode investir US$ 10.000 no Brasil a uma taxa de 10% ou investir nos EUA a uma taxa de 5%, suponha que o câmbio é de quatro reais por dólar. Se escolher o Brasil ele vai transformar os US$ 10.000 em R$ 40.000 e no final do período terá R$ 44.000. Caso escolha os EUA ele não precisa transformar em reais e no final terá US$ 10.500. Qual foi a melhor opção? Depende do câmbio. Se o câmbio continuar quatro reais por um dólar ele transforma os R$ 44.000 em US$ 11.000 e terá sido melhor investir no Brasil. Se o câmbio tiver subido para, por exemplo cinco reais por dólar, ele vai transformar os R$ 44.000 em US$ 8.800, nesse caso o melhor seria ter investido nos EUA. É possível calcular qual o câmbio que faz com que investir no Brasil ou nos EUA tenha o mesmo resultado, para um cálculo aproximado basta pegar o valor que ele recebe em reais, R$ 44.000, e dividir pelo valor que ele recebe em dólares, US$ 10.500. O resultado é que um câmbio de aproximadamente 4,19 reais por dólar faria com que investir no Brasil fosse equivalente a investir nos EUA, de farto a esse câmbio os R$ 44.000 valeriam US$ 10.501,19. Repare que o valor do câmbio que igualou os resultados dos investimentos, 4,19 reais por dólar, equivale a uma desvalorização de aproximadamente 4,8% do real.

Grosso modo podemos dizer que a diferença entre taxas de juros de dois países, ignorando problemas de calotes ou coisas do tipo, deve ser aproximadamente a expectativa de desvalorização do câmbio. Se isso não for verdade os dólares vão migrar de um país para o outro. No nosso exemplo se a expectativa de desvalorização do câmbio for maior que 5% os dólares sairão do Brasil rumo aos EUA. A figura abaixo mostra a diferença de juros entre o Brasil e os Estados Unidos, repare que tal diferença está no menor valor de toda a série. Se a economia brasileira tivesse toda arrumadinha tal diferença não seria um problema, mas não é o caso. A dívida pública brasileira é muito alta (link aqui), a possibilidade de um ajuste fiscal minimamente razoável ficou bem mais distante com a não aprovação da reforma da previdência e, para complicar ainda mais, temos uma eleição em que não faltam candidatos prometendo rever reformas, nacionalizar ativos pertencentes a estrangeiros, iniciar um processo de elevação dos gastos, submeter a política monetária a supostas demandas da indústria e outras maluquices do tipo. Infelizmente não vejo outra conclusão possível que não a de que atual diferença entre taxa de juros no Brasil e EUA não é sustentável e, como dificilmente o FED vai reduzir as taxas de lá para agradar o Brasil, a alternativa é aumentar as taxas de cá.




O outro ponto é que os juros reais estão baixos. Esse é mais difícil de explicar, começa que medir juros reais não é tarefa trivial. Devemos usar a inflação passada ou a inflação esperada? Essa é fácil, depende do que queremos, mas não para aí. Como medir a expectativa de inflação? Para esse post vou usar como aproximação a diferença entre a Selic anualizada em um determinado mês menos a expectativa de inflação para o ano no mesmo mês. A escolha deve-se mais a facilidade de dados do que a qualquer outro motivo. A figura abaixo mostra a taxa de juros nominais (Selic) e reais (Selic menos expetativa de inflação) para o mesmo período da figura anterior. A taxa nominal está no valor mais baixo da série, a real já esteva mais baixa no passado, mas não é um período de boa lembrança.



Taxas de juros baixas podem parecer uma daquelas coisa que só fazem bem, mas não é o caso. A poupança no Brasil é muito baixa e incapaz de financiar mesmo a nossa baixa taxa de investimento, por mais que existam outros fatores relevantes para determinar a poupança reduzir a taxa de juros não vai ajudar em nada. Nos últimos anos muitos brasileiros investiram em fundos de pensão, alguns candidatos inclusive estão propondo que o atual regime de repartição seja substituído por um regime de capitalização, com juros baixos os fundos existentes e os que serão criados com uma eventual mudança para um regime de capitalização teriam de se expor a riscos elevados como forma de conseguir rentabilidade necessária para pagar os benefícios. Via de regra juros baixos induzem a tomada de riscos por parte de investidores. Um risco associado ao anterior é a formação de bolhas em alguns ativos, dentre os quais imóveis. Se nada disso impressiona o leitor peço que considere o argumento mais relevante. A taxa de juros reais baixa induz investimentos em projetos que não são rentáveis com taxas de juros mais altas, o que é visto por alguns como uma benção no médio e longo prazo pode se tornar uma maldição. Quando da elevação da taxa de juros esses projetos tornam-se inviáveis gerando frustração e perdas de capital aos investidores e desemprego aos trabalhadores. Esses investimentos não sustentáveis induzidos por taxas de juros artificiais, subsídios ou outros tipos de incentivos não sustentáveis são talvez os mais importantes ingredientes para construção de uma crise, deveríamos saber bem disso.


domingo, 11 de março de 2018

Proteção e tarifas nos EUA e no Brasil: Como estão as tarifas de cada país em relação as tarifas de países semelhantes?


O jornal Washington Post fez um texto interessante para questionar afirmações de Peter Navarro, assessor de Trump, dizendo que os EUA possuem as menores tarifas do mundo (link aqui). A conclusão do jornal é que as tarifas nos Estados Unidos estão entre as mais baixas, mas que dizer que são as mais baixas do mundo é ir muito longe. Resolvi pegar carona no artigo e olhar com mais cuidados os dados de tarifa do Banco Mundial e ver onde se enquadra os Estados Unidos. O artigo do Washington Post cita os dados que vou usar, mas a análise deles é centrada nos dados da Organização Mundial do Comércio que incluem barreiras não tarifárias. Além de divertido o exercício ilustra mais uma vez os perigos de comparar países ricos com países emergentes.

A medida de tarifa usada no post será a média ponderada das tarifas aplicadas por cada país no período que vai de 2011 a 2015, a ponderação é feita pela quantidade importada de cada produto. Comecemos comparando os Estados Unidos com a OCDE e grupos de países definidos pela renda de acordo com a classificação do Banco Mundial (link aqui). Os dados estão na figura abaixo, repare que de fato as tarifas médias nos Estados Unidos são mais baixas que em todos os grupos, inclusive o grupo dos países de renda alta e a OCDE. Desta forma está justificada a conclusão que os Estados Unidos possuem tarifas baixas. Note também que existem saltos entre as tarifas dos diversos grupos de países, o que ilustra os riscos de comparar países de grupos diferentes. Lembre disso quando comparar as tarifas dos EUA com as do Brasil, para ser mais claro: o Brasil não é referência para os Estados Unidos.




Para comparar os Estados Unidos com outros países ricos selecionei esse grupo de países e excluí os que possuem menos de dez milhões de habitantes. O procedimento me deixou com dezoito países, porém onze são países europeus que possuem as mesmas tarifas. Para não carregar a figura com dados redundantes juntei esses países com o rótulo “Países da Europa”. A figura abaixo mostra o resultado, repare que os Estados Unidos estão no meio da lista, abaixo da Coreia do Sul, Arábia Saudita, Chile e Austrália e acima dos Países da Europa, Japão e Canadá. A conclusão é que os dados do Banco Mundial reforçam a conclusão do Washington Post: as tarifas dos Estados Unidos são baixas, mas não dá para dizer que são as mais baixas do mundo.




E se fizermos o mesmo exercício para o Brasil? Na semana passada tanto o Banco Mundial quanto a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (SAE/PR) lançaram documentos recomendando que o Brasil abra mais a economia (link aqui e aqui). Os dados do Banco Mundial suportam a tese que a economia brasileira é fechada? A figura abaixo mostra as tarifas no Brasil comparadas com as dos mesmos grupos de renda de países usados para os Estados Unidos e com América Latina e Caribe no lugar da OCDE. Reparem que no Brasil a tarifa média está acima do grupo de países de renda média-alta, grupo onde o Banco Mundial classifica o Brasil, também está acima da média da América Latina e Caribe, de fato nossas tarifas só perdem para a média dos países de renda baixa.




A comparação no grupo de países não nos deixa em situação melhor. Aplicado o mesmo procedimento usado para os Estados Unidos, países do mesmo grupo com mais de dez milhões de habitantes, fiamos com a terceira tarifa mais alta, na “nossa frente” estão apenas Irã e Venezuela. Logo abaixo do Brasil aparece Argélia e depois Cuba, sim o Brasil tarifa mais do que Cuba. Nossa tarifa média de 8,34% está acima da observada na Rússia, 5,34%, e na China, 3,4%. Se considerarmos os países da América do Sul a Argentina aparece com 6,39%, seguida do Equador, 4,82%, Colômbia, 4,67% e Peru, 2,93%. No México a tarifa média é de 4,12%, menos da metade da nossa. Se alguém ficou curioso com Cuba nos países de renda média-alta eu informo que também desconfio do dado, é fato conhecido que dados oficiais de ditaduras são suspeitos. O Banco Mundial, uma organização multilateral, não pode destoar muito dos dados oficiais, não sei o Banco Mundial pode fazer como o FMI e excluir Cuba das bases de dados e, mesmos e puder, não sei se seria a melhor estratégia. Quem estiver interessado em estimativas não oficiais para a renda média de Cuba recomendo os dados do Projeto Maddison que usei em post sobre Cuba (link aqui).



Os dados para os Estados Unidos mostram um país com tarifas baixas, porém maiores do que afirmam os propagandistas do aumento de tarifas na terra da liberdade. Para o Brasil o recado é que destoamos dos países do nosso grupo em relação a tarifas, somos um país de renda média-alta com tarifas de país pobre. O resultado que o Brasil é mais fechado do que deveria ser aparece com outras medidas de abertura, em setembro de 2016 outro post do blog chegou a conclusões semelhantes quanto a abertura no Brasil usando dados de exportação e importação(link aqui). Podemos continuar criticando métricas e justificando porque somos diferentes ou aproveitar o embalo dos relatórios do Banco Mundial e da SAE/PR para começarmos a abrir nossa economia. Não precisamos nos inspirar em países com fama liberais, na situação atual reduzir nossas tarifas para o nível de Cuba já seria um avanço, ou, ironias à parte, podemos tentar chegar na média dos países de renda média-alta ou quem sabe no nível da China comunista... desculpem, não resisti.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Comparando Gigantes: Brasil, Rússia, China, Índia e Estados Unidos

Vez por outra comparo a desempenho econômico do Brasil com outros países, sempre aparece alguém apresentando bons motivos para justificar que o grupo escolhido não é adequado. Quando comparo com a América Latina dizem que a comparação é descabia porque somos mais industrializados que os outros países do continente, já questionei no blog a validade desse argumento (link aqui), ou porque somos muito maiores do que nossos vizinhos, o que é verdade embora não seja um impeditivo para comparação. Mesmo acreditando que a América Latina é uma boa referência para comparações com o Brasil (tratei do tema aqui) não raro aceito as críticas e procuro outros grupos de comparação, fiz isso no post a respeito da produtividade (link aqui). Outras vezes aparecem comparações com países em cima de uma única variável, nesses casos gosto de pegar o pais que serviu de comparação e avaliar outras dimensões (fiz um exercício do tipo aqui).

Por alguma razão alguém me enviou a figura abaixo sugerindo que o grupo de comparação para o Brasil seria composto por China, EUA, Índia e Rússia. A justificativa é que os cinco países são os únicos que simultaneamente possuem territórios com mais de dois milhões de quilômetros quadrados, mais de cem milhões de habitantes e PIB superior a seiscentos bilhões de dólares. Não me foi apresentada nenhuma razão para justificar porque os limites para comparação foram estabelecidos em dois milhões de quilômetros quadrados, cem milhões de habitantes ou PIB maior que seiscentos bilhões de dólares, mas não vou implicar com isso. Para definir um grupo de comparação é necessário estabelecer algum critério que de alguma forma acaba sendo arbitrário. O que realmente me incomoda é a ideia que tamanhos absolutos são adequados para definir grupos de comparação, eu prefiro medidas relativas. No lugar de PIB eu usaria PIB per capita e no lugar de área e população eu ficaria mais confortável com densidade demográfica. Não fico confortável em comparar um país onde a renda média é de aproximadamente U$ 55 mil, como os EUA, com um país onde a renda média é de aproximadamente U$ 6 mil como é o caso da Índia, no primeiro caso não crescer significa permanecer rico, no segundo não crescer significa permanecer pobre, a diferença qualitativa é gigantesca para ser ignorada.



Mesmo sem gostar dos critérios usados vou entrar no jogo e comparar os cinco países gigantes sugeridos pela figura, costumo dizer que o Brasil está mal comparado a (quase) qualquer grupo de países e não posso negar que os cinco países em questão formam um grupo. Farei a comparação em dois momentos, no primeiro será usado o período 2011 a 2014, correspondendo ao primeiro mandato da presidente Dilma, o segundo considerará 2015 e 2016 como forma de capturar o futuro próximo, todos os dados usados são do FMI e estão disponíveis na internet. A tabela abaixo mostra o crescimento do PIB de cada país nos dois períodos de interesse.

País
Crescimento 2011-2014
Crescimento 2015-2016
Brasil
2,14%
-0,02%
China
8,04%
6,53%
Índia
6,45%
7,46%
Rússia
2,40%
-,246%
EUA
2,13%
3,10%

No período 2011 a 2014 ficamos em penúltimo lugar, apenas os EUA, um país que já é rico e que foi o epicentro da crise de 2008 cresceu menos que o Brasil, repare que a diferença foi de 0,01%. O quadro fica ainda pior se considerarmos que só ficamos na frente dos EUA por conta de 2011, primeiro ano de governo Dilma onde é razoável supor que os efeitos da desastrosa Nova Matriz Econômica ainda não tinham sido sentidos, se excluirmos 2011 nosso crescimento médio teria sido de 1,55% contra 2,30% dos EUA e 1,77% da Rússia. Lamentavelmente o quadro não muda quando olhamos para frente, as projeções para 2015 e 2016 sugerem que continuaremos na penúltima posição no ranking de crescimento do PIB. A novidade é que a Rússia troca com os EUA e passa a ocupar a última posição. Me parece justo dizer que no critério crescimento não ficamos bem na comparação com o grupo dos gigantes.

A próxima variável a ser comparada é a taxa de inflação, os dados estão na tabela abaixo. Considerando a inflação do período entre 2011 e 2014 ficamos em terceiro lugar, se consideramos o que se espera para o futuro próximo voltamos ao penúltimo lugar. Aqui é interessante registrar que os dois países onde se espera crescimento negativo, Brasil e Rússia, são os mesmos dois países onde se espera aumento da inflação, nos dois países onde espera-se um aumento na taxa de crescimento a inflação deve cair. Não significa muito, mas é bom ter registros como este em mente para a próxima vez que disserem que o combate à inflação é inimigo do crescimento.

País
Inflação média 2011-2014
Inflação média 2015-2016
Brasil
6,14%
6,87%
China
3,16%
1,35%
Índia
8,92%
5,92%
Rússia
7,02%
13,87%
EUA
2,07%
0,80%

Passemos agora para variável trunfo do governo: a taxa de desemprego, o leitor sabe que toda vez que alguém faz críticas à política econômica é condenado a ouvir uma aula sobre como nosso desemprego é bem menor que o de outros países e como é importante manter o desemprego baixo. A tabela abaixo mostra os dados de desemprego, infelizmente não existiam informações para a Índia de forma que vamos ter de nos contentar com apenas quatro países. Considerado o período 2011 a 2014 nossa taxa de desemprego só foi maior do que a da China, ficou muito próxima da taxa da Rússia e bem menor que a dos EUA. Infelizmente o quadro deteriora no futuro próximo e voltamos a ficar em penúltimo lugar no esperado para 2015 e 2016, infelizmente mais próximos do último, que novamente é a Rússia, do que do segundo, que passa ser os EUA.

País
Desemprego 2011-2014
Desemprego média 2015-2016
Brasil
5,42%
6,10%
China
4,09%
4,09%
Índia
-
-
Rússia
5,65%
6,5%
EUA
7,63%
5,30%

Até agora não estamos nos saindo bem, ficamos mal em crescimento e inflação e as perspectivas para o emprego também não são favoráveis, não fosse a Rússia estaríamos colecionando últimos lugares, mas como só existe uma Rússia estamos colecionando penúltimos lugares. Ocorre que ao contrário do que fazia até as eleições do ano passado o governo não mais nega a existência de uma crise, o discurso oficial agora é que estamos em uma crise conjuntural e que o futuro será glorioso. Vimos que o futuro próximo não parece muito glorioso, mas ainda seria possível argumentar que estamos investindo para que no longo prazo possamos crescer, de fato é o que alguns autores governistas têm feito. Olhemos então para a taxa de investimento, os dados estão na tabela abaixo.

País
Taxa de Investimento 2011-2014
Taxa de Investimento 2015-2016
Brasil
20,80%
19,10%
China
47,68%
45,04%
Índia
34,80%
32,27%
Rússia
22,38%
17,78%
EUA
19,20%
20,67%

Mais uma vez ficamos em penúltimo lugar. No período 2011 a 2014 ficamos na frente apenas dos EUA, novamente cabe registrar que os EUA foram o epicentro da crise de 2008 e que é natural que países ricos invistam menos do que países em desenvolvimento. No futuro próximo novamente somos ultrapassados pelos EUA e ultrapassamos a Rússia. Espero que o leitor esteja percebendo que existem três padrões no grupo, o primeiro com China e Índia é de países em desenvolvimento com perspectiva de seguir uma trajetória de crescimento, o segundo engloba Brasil e Rússia e mostra países em desenvolvimento que estão em crise e com perspectivas ruins, o terceiro padrão é o dos EUA, um país rico saindo de uma crise grave. Dos cinco gingantes dois estão subindo; um já estava no alto, escorregou e está se levantando; e dois não apenas se mostram incapazes de continuar a subida como dão sinais que vão cair alguns degraus. Infelizmente somos um dos dois que estão com sérios problemas.

Um último indicador para comparação é o saldo em transações correntes. Grosso modo um saldo em transações correntes positivo significa que o país está poupando em relação ao resto do mundo, ou seja, o país ganha mais do que gasta, vale o contrário, um resultado negativo significa que o país gasta mais do que ganha e precisa se financiar com o resto do mundo ou vender ativos. A tabela abaixo mostra os dados do saldo em conta corrente como proporção do PIB. Tenha em mente que um déficit elevado em transações correntes não é necessariamente algo ruim, significa apenas que o país está se financiando no resto do mundo, se o dinheiro que o país pega com o resto do mundo for usado em algo que dê um bom retorno o país pagará suas dívidas e seguirá sua trajetória de crescimento. O problema aparece quando o recurso captado no resto do mundo não é bem aplicado de forma que o pagamento da dívida contraída trará sacríficos significativos para o país no futuro.

País
Transações correntes 2011-2014
Transações correntes 2015-2016
Brasil
-2,88%
-3,55%
China
2,10%
3,18%
Índia
-3,05%
-1,43%
Rússia
2,13%
3,10%
EUA
-2,64%
-2,33%

No caso das transações correntes ficamos em penúltimo no passado recente e último no futuro próximo. Lembrem que saldo em transações correntes negativo não é necessariamente um problema, tudo depende do que está sendo feito com o dinheiro. Entre 2011 e 2014 a Índia teve um grande déficit, mas estava investindo quase 35% do PIB, nós tivemos um déficit um pouco menor que o que o da Índia, mas estávamos investindo 20% do PIB. Quem deverá ter mais chances de pagar os credores sem grandes sacrifícios? O que pegou emprestado para investir ou o que pegou emprestado para consumir? Sei que eu tinha dito que o saldo em transações correntes seria o último indicador do post, mas para responder as perguntas vale à pena dar uma olhada nas taxas de poupanças de cada país. Prefiro voltar atrás no que disse do que deixar as perguntas em aberto, paciência... está terminando.

A tabela abaixo mostra a taxa de poupança nos cinco países do grupo de comparação. No passado recente nossa taxa de poupança só foi maior do que a dos EUA, para 2015 e 2016 a projeção é que nossa taxa de poupança será a menor do grupo. O quadro que se configura é que China e Rússia são países que poupam mais do que investem e, portanto, estão financiando o resto do mundo. Brasil, Índia e EUA são países que investem mais do que poupam e por isso são financiados pelo resto do mundo (não é coincidência que a avaliação da diferença entre investimento e poupança seja a mesma da avaliação da conta corrente, os dois conceitos medem a mesma coisa). Ocorre que a Índia está fazendo um considerável esforço de poupança e investimento e o Brasil não, nós estamos muito próximos à cigarra da fábula e o inverno já começou.

País
Taxa de poupança 2011-2014
Taxa de poupança 2015-2016
Brasil
17,92%
15,56%
China
49,78%
48,22%
Índia
31,76%
30,84%
Rússia
25,73%
23,60%
EUA
17,29%
18,34%

No primeiro bloco de comparação o Brasil apareceu junto à Rússia no grupo dos gigantes que pararam de crescer e dão sinais que podem encolher. No segundo bloco de comparação o Brasil aparece junto com os EUA no grupo dos gigantes que estão pegando dinheiro emprestado para financiar consumo, ambos poupam pouco e investem pouco, mas só um dos dois é rico. No quadro geral o Brasil aparece como um país que cresce pouco, tem inflação alta, poupa pouco, investe pouco e está se endividando. Não estávamos ruins no quesito desemprego, mas a perspectiva é que fiquemos. No final do dia mesmo considerando um grupo de comparação estranho como o dos cinco gigantes ficamos mal na foto. Para poupar trabalho dos que vivem a busca de um grupo onde não fiquemos mal na foto sugiro um com Rússia e Grécia, mas corram, em breve a Grécia pode estar melhor do que o Brasil.





P.S. Depois de escrever o post encontrei a figura que define o grupo dos gigantes em um post no blog Tijolaço. O texto que acompanha a imagem não fala de comparar os países, o ponto é que o Brasil tem vocação para ter um destino próprio e não para ser um satélite (link aqui). O link para o grupo do Facebook de onde o autor do post no Tijolaço estava quebrado, procurei o grupo no Facebook e lá encontrei a imagem sem um contexto específico (link aqui) e descobri que os dados da figura são de 2010. Porém me pediram uma comparação e uma comparação eu fiz.