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domingo, 4 de agosto de 2019

Uma nota a respeito da queda da indústria de transformação no PIB


A forte queda da participação da indústria de transformação no PIB quando comparada a outros países parece estar voltando a ser assunto, se é que algum dia deixou de ser. Como em tantos outros casos o problema central é escolher o grupo comparação. Quem são nossos pares? Alguns gostam de responder essa pergunta olhando para OCDE, outros para a Ásia por conta do desempenho econômico de países emergentes nessa região.

Países da Ásia de fato tiveram um crescimento impressionante da economia como um todo e da indústria nas últimas décadas. Alguns creditam esse desemprenho a políticas industriais e coisas do tipo, o problema é que por aqui também tivemos essas políticas e não tivemos os mesmos resultados da Ásia. Talvez seja mais frutífero procurar aa razões para diferenças em fatores que não tivemos por aqui, por exemplo, o salto na educação e as altíssimas taxas de poupança. Mas isso é conversa para outro post, por agora quero apenas saber com quem comparar o Brasil para avaliar o desempenho de nossa indústria como proporção do PIB.

Países ricos também não parecem uma boa opção, como já registrei em vários outros posts comparar países ricos com países emergentes é tarefa complicada e perigosa. Creio que o melhor a fazer é procurar países aqui de “nuestra America” para fazer a comparação. Afinal somos todos “rapazes latinos”, sem poupança no banco e cheios de commodities para vender.

O problema de comparar com a América Latina é encontrar países onde a indústria era relevante nos anos oitenta de forma que faça sentido falar de decadência da indústria de lá para cá. Para encontrar esses países recorri a base de dados do Banco Mundial e peguei a participação da indústria de transformação no PIB em 1980 para todos os países da América Latina e Caribe com mais de cinco milhões de habitantes naquele ano. Aí a coisa complicou. Do grupo de países selecionados apenas o Brasil tinha uma indústria de transformação correspondente a mais de 30% em 1980. Baixei o filtro para 25%, apenas Brasil e Argentina ficaram na amostra. Baixei o filtro para 20%, ficaram na amostra, além de Brasil e Argentina, o Chile, o México e a Colômbia.

Pensei em baixar mais, mas ficaria estranho perguntar onde mais a indústria de transformação perdeu cerca de 20% do PIB desde 1980, como aconteceu no Brasil considerando países onde a indústria de transformação tinha menos de 20% do PIB em 1980. No melhor estilo “só tem tu, vai tu mesmo” fiz o gráfico abaixo com a participação da indústria de transformação no PIB entre 1965 (antes disso tinha muitos valores ausentes) até 2016.




De fato, existe uma forte queda no valor adicionado pela indústria de transformação como proporção do PIB no Brasil. Isso faz do Brasil um caso atípico? Aqui e preciso cuidado. A valer o grupo de comparação talvez seja mais correto falar que o Brasil está voltando a ser um caso típico. Apenas Brasil e Argentina andaram com uma indústria de transformação acima de 30% do PIB, nos dois a indústria de transformação aparece em forte queda em relação ao PIB. Uma curiosidade da figura é que o México, aquele que tem um acordo de livre comércio com os EUA, é o único país onde não houve queda da indústria de transformação como proporção do PIB nos últimos dez anos. Talvez o excesso de proteção tão típico por nossas bandas seja incompatível com uma indústria forte, talvez tenha sido a falta de altas taxas de poupança ou o fracasso em criar bons modelos de educação. Falta de política industrial é que não foi.

Os poucos países que usei na comparação não podem estar influenciando demais o resultado? É uma pergunta legitima, creio que tive bons motivos para minha escolha, mas não me custa aumentar o número de países nem que apenas por curiosidade. A figura abaixo mostra a participação da indústria de transformação no PIB para todos os países da América Latina e Caribe com mais de cinco milhões de habitantes em 1980. Como não é possível destacar cada um deles eu destaquei apenas o Brasil.




Mais uma vez a figura deixa a impressão que o Brasil era atípico nas décadas de 1970 e 1980, não agora. A grande queda que vai de meados da década de 1980 a meados da década de 1990 trouxe o Brasil de volta ao grupo dos países da América Latina e Caribe. O contraste com a Ásia é claro, a figura abaixo repete a figura acima trocando os países da América Latina e Caribe pelos países da Ásia e Pacífico. Se comparado com esse grupo o Brasil realmente parece ser um caso atípico, mas não creio que esse seja o melhor grupo de comparação para o Brasil. Como já registrei no começo o modelo asiático é muito diferente do nosso para esperarmos resultados semelhantes.



Para quem ficou curioso os dois países onde a indústria de transformação termina abaixo de 10% do PIB são a Austrália, 6,07% do PIB em 2016, e Hong Kong, 1,08% do PIB em 2016. Hong Kong por certo não vale como parâmetro para o Brasil ou para a maioria dos países, mas a Austrália pode ser um modelo interessante de como viver bem com uma indústria de transformação abaixo de 10% do PIB. A figura abaixo compara Brasil e Austrália. Infelizmente a série para Austrália é curta, mas se compararmos os últimos vinte anos, depois da “convergência” do Brasil para América Latina, a queda na participação da indústria de transformação no PIB foi mais forte na Austrália do que no Brasil.



Uma última comparação, quem acompanha o blog sabe que ela cedo ou tarde apareceria, é com os países de renda média-alta. A figura lembra a da América Latina e Caribe onde Brasil e Argentina estavam descolados do grupo e agora estão de volta à turma. A diferença é que os países de renda média-alta apresentam um comportamento mais diverso que os países da América Latina e Caribe, quase como se existissem duas turmas, uma com maior participação da indústria de transformação no PIB e outra onde essa participação é menor.



Sei que o tema é controverso, mas posto na devida perspectiva a queda da participação da indústria no PIB brasileiro não é algo absurdo, talvez absurda tenha sido a elevação da participação da indústria no pós-guerra. Migrar para um modelo asiático me parece fora de cogitação em um país que passou vinte anos discutindo para colocar idade mínima para ter direito a aposentadoria. É muito difícil, talvez impossível, compatibilizar altas taxas de poupança com rede de proteção social e, tudo indica, não estamos muito dispostos a abrir mão de proteção social. O Brasil, assim como boa parte da América Latino, é rico em commodities e não sei se faz muito sentido ignorar esse fato. Melhor do que amaldiçoar os recursos naturais que temos e seguir o modelo asiático pode ser tentar aprender com a Austrália e deixar d elado a obsessão com a participação da indústria de transformação no PIB que, além de tudo, é uma medida bem fraquinha da força da indústria de um país.


P.S. Duas notas: (1) os dados que usei foram da WDI conforme estava em julho de 2018; (2) o valor da participação da manufatura no PIB para o Brasil em 1990 não está na base de dados, para evitar quebras no gráfico fiz uma interpolação com os dados de 1989 e 1991.


sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Sem milagres nem marchas forçadas, é devagar que vamos mais longe.


Fiz um post no FB onde comentei uma entrevista de Winston Ling (link aqui) e registrei que apesar de concordar com as linhas gerais apresentadas na entrevista me incomodei com a referência a China pois não acredito que a maioria dos brasileiros queiram viver em uma nova China e que eu definitivamente não quero que o Brasil vire uma espécie de China. Vários amigos me alertaram que a referência a China era no sentido do crescimento econômico em contraponto a hipóteses que fosse em termos de instituições. Fiquei meio sem graça de dizer aos amigos que eu me referia ao crescimento econômico, isso mesmo, eu não quero que o Brasil busque uma trajetória de crescimento chinesa. Por certo não digo isso por conta do crescimento propriamente dito, mas por conta do que seria necessário para obter tal trajetória.

O crescimento da China vem de uma combinação de abertura para o setor privado, altas taxas de poupança e forte presença do estado nas decisões de investimento. A aparente contradição entre abertura para o setor privado e a forte presença do estado na economia é desfeita quando consideramos o ponto de partida da China. Depois de uma das mais brutais e desastrosas tentativas de implementar uma economia planificada o Partido Comunista Chinês percebeu que aquilo não levaria a lugar algum e começou um processo de abertura para investimentos privados, porém esse processo não retirou do estado o papel de condutor do processo de crescimento econômico. Nesse sentido a China de hoje vive uma experiencia similar a do Brasil do começo da década de 1970 onde o estado “comandava” uma dinâmica de crescimento que passou para história como Milagre Econômico. O que veio depois do Milagre não foi o paraíso das riquezas, pelo contrário, passamos a viver em um inferno econômico com direito a décadas perdidas, hiperinflação, calote de dívida pública e etc.

Não estou dizendo que esse será o destino da China, existem diferenças importantes que podem permitir que a China siga o rumo do Japão e da Coreia em vez de seguir o rumo do Brasil e da América Latina. Tais diferenças passam pela taxa de poupança absurdamente alta e um sistema de educação que parece ser bem superior ao brasileiro, pelo menos considerando os dados do PISA. Se isso vai ser suficiente é assunto para outro post, da minha parte creio que sem uma profunda mudança nas instituições de forma a garantir liberdades individuais a China não vai muito além de onde está em termos de PIB per capita, mas entendo quem discorda da minha avaliação. A questão desse post não é sobre a China, a questão é saber se um novo milagre econômico levará o Brasil ao paraíso ou nos manterá no inferno em que estamos.

Minha avaliação é que um novo milagre nos levará a um novo desastre. Para começo de conversa não vejo como ter poupança asiática sem desmontar a rede de proteção social aprofundada desde a redemocratização, mas existente desde muito antes. Basta ver a dificuldade para aprovar a reforma da previdência para que tenhamos noção de onde vai dar uma tentativa de acabar ou reduzir significativamente iniciativas como o SUS, o bolsa família, a rede de universidades públicas, as férias remuneradas, o seguro desemprego e tantas outras políticas públicas que tornam quase impossíveis níveis de poupança pública e privada com padrões asiáticos. Qual o nível de repressão necessário para reduzir drasticamente os ditos direitos sociais e trabalhistas? Qual o nível de repressão necessário para desmontar a rede de proteção social? Não sei e não quero pagar para saber.

Creio que se o Brasil quiser entrar em uma trajetória de crescimento deve esquecer os milagres asiáticos e buscar inspiração nos casos de sucesso dos Estados Unidos e Europa ou mesmo Austrália. Digo isso desde muito tempo, a referência mais antiga que encontrei em tempos de “print ou não aconteceu” foi uma matéria da Exame de 2010 (link aqui) onde digo que o Brasil não deve buscar crescimento chinês e que insistir nesse caminho acabaria levando a uma crise. Muita coisa mudou de lá ´para cá, mas não mudei minha avaliação, pelo contrário, a busca pelo PIBão nos levou a uma gigantesca crise e reforçou minha impressão que naõ devemos buscar milagres.

Para ilustrar a experiência de crescimento dos países hoje ricos usei a base de dados do projeto Maddison (link aqui) que apresenta dados de crescimento para vários países por um longo período de tempo. Selecionei nessa base todos os países com PIB per capita cima de $30.000 em 2016, depois escolhi os que tinham dados completos desde 1801, fiquei com Reino Unido, Itália, Suécia e Estados Unidos, por conta de anomalias no período da II Guerra retirei a Itália da amostra.

A figura abaixo mostra a taxa de crescimento dos EUA entre 1801 e 2016. Note que são poucos os anos em que os EUA cresceram mais de 10%, para ser preciso isso aconteceu em 1909, 1916, 1923, 1935, 1941 e 1942. Em 1909 a economia se recuperava de uma queda de 9,9% ocorrida em 1908, em 1935 era a recuperação da sequência de quedas iniciadas em 1930 com a Grande Depressão, 1941 e 1942 foram anos de guerra. Se baixarmos o sarrafo para um crescimento de 7,5% a lista passa a incluir os anos de: 1879, 1880, 1892, 1895, 1901, 1906, 1918, 1934, 1936, 1937, 1940, 1943 e 1950, repare que apenas nos períodos 1879-80 e 1936-37 os EUA cresceram mais de 7,5% por dois anos seguidos, note também a presença marcante de anos de guerra e da recuperação da Grande Depressão na lista. Baixando ainda mais o sarrafo para 5% entram na lista os anos de 1830, 1831, 1844, 1853, 1863, 1899, 1905, 1926, 1929, 1939, 1944, 1951, 1959, 1965, 1966 3 1984, mais uma vez não observamos sequencias de crescimento capazes de configurar um milagre. Considerados os 216 anos entre 1801 e 2016 os EUE cresceram mais que 5% em apenas 38 anos e em apenas dois casos o crescimento acima de 5% ocorreu em três ou mais anos seguidos: na recuperação da Grande Depressão entre 1934 e 1937 e no período da II Grande Guerra entre 1939-1944. De fato, não há uma só década em que os EUA tenham crescido mais de 5% ao em média, nem na década de 1950.



No Reino Unido a história não é muito diferente, assim como nos EUA não há uma década entre 1801 e 2016 com crescimento médio acima de 5% ao ano. No período o Reino Unido nunca cresceu mais que 10% ao ano, apenas em 1815, 1863, 1922, 1927, 1940 e 1941 o crescimento ficou entre 7,5% e 10%, entre 5% e 7,5% nos anos de 1807, 1810, 1827, 1835, 1844, 1856, 1894, 1915, 1934 e 1973. Dos 216 anos da amostra apenas em 17 a taxa de crescimento ficou acima de 5% ao ano. A figura abaixo mostra os dados.




Na Suécia, assim como nos EUA e no Reino Unido, não há registro de uma década com crescimento médio acima de 5% ao ano. O único ano com crescimento acima de 10% foi 1870, nos anos de 1810, 1883, 1906, 1946 e 1947 o crescimento ficou entre 7,5% e 10%, entre 5% e 7,5% em 1805, 1811, 1855, 1876, 1879, 1891, 1903, 1907, 1913, 1916, 1920, 1922, 1924, 1929, 1934, 1939, 1961, 1964, 1970 e 2010. Dos 2016 anos analisados em apenas 28 o crescimento ficou acima de 5% ao ano, não há casos de três anos seguidos com mais de 5% de crescimento. A figura abaixo mostra os dados da Suécia.




O número de países disponíveis para análise aumenta de forma considerável se em vez de escolher 1801 como ponto de partida a escolha for 1901. Para não deixar o post ainda mais cansativo vou me limitar a dois países nesse novo intervalo de tempo: Suíça e Austrália. No primeiro o crescimento ficou acima de 10% em 1922, 1937 e 1946, entre 7,5% e 10% em 1924 e entre 5% e 7,5% em 1904, 1916, 1920, 1927, 1951, 1955, 1956, 1959, 1961 e 1970. Considerando os 116 anos decorridos entre 1901 e 2016 a Suíça cresceu mais de 5% em 14 desses anos. Não há registro de três ou mais anos seguidos com crescimento acima de 5%, o único caso de dois anos seguidos com esse crescimento foi 1955 e 1956, não há caso de década com crescimento médio de mais de 5% ao ano. A figura abaixo mostra a taxa de crescimento na Suíça.




Dos 116 anos analisados a Austrália cresceu acima de 10% apenas em 1941 e 1942, não há caso de crescimento entre 7,5% e 10% e crescimento entre 5% e 7,5% aconteceu em 1903, 1904, 1906, 1909, 1935, 1940 e 1984. No total o crescimento foi maior que 5% em 10 dos 116 anos considerados, não há caso de década com crescimento médio de mais de 5% ao ano. A figura abaixo ilustra os dados.




O contraste com a Ásia é claro, considerando os dados do projeto Maddison a China cresceu em média 5,9% ao ano na década de 1990 e a uma média de 8,6% ao ano na década passada. A Coreia cresceu em média 5,9% ao ano na década de 1960, 6,7% ao ano na década de 1970, 7,8% ao ano na década de 1980 e 6,1% ao ano na década de 1990, foram quatro décadas seguidas crescendo a uma média superior a 5% ao ano. O Japão cresceu a uma média de 7,6% ao ano na década de 1950 e 9,3% ao ano na década de 1960. Singapura cresceu a uma média anual de 6,9%, 7,4% e 5,3% nas décadas de 1960, 1970 e 1980 respectivamente. Se recordarmos que Estados Unidos, Suécia e Reino Unido não tiveram uma década sequer de crescimento médio acima de 5% ao ano entre 1801 e 2016 e que Austrália e Suíça também não tiveram esse crescimento em nenhuma das décadas entre 1901 e 2016 fica claro o contraste entre a experiência de crescimento desses países e a experiência de crescimento dos países asiáticos no pós-guerra.

Talvez o caminho do Brasil, ou mesmo da América Latina como um todo, não seja nem o dos países ricos do ocidente nem o dos milagres asiáticos, é muito provável que “nuestra” América tenha de encontrar o próprio caminho para riqueza. O ponto que tento fazer nesse post é que comparando o quadro geral e as experiências anteriores de países como Brasil, Argentina, Colômbia e México é muito mais provável que nosso caminho para riqueza envolva uma marcha lenta e constante como a dos primeiros países analisados do que uma marcha forçada como as da Ásia. Já tivemos nossa marcha forçada e não gostamos dela, no que depender de mim andaremos devagar porque já tivemos pressa e já choramos demais.


quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Aumentar a taxa de poupança e expandir a rede de proteção social: A encruzilhada de Ciro Gomes.


Não creio ser útil ou necessário lembrar meu rosário de críticas ao desenvolvimentismo, o interessado pode pesquisas no blog que vai encontrar esse tipo de material em abundância, de fato, uma das razões que levou a criação desse blog foi tentar se contrapor a onda desenvolvimentista que dominava até meados da década passada. Entretanto tem um ponto que Ciro Gomes levantou ontem na entrevista na Globonews que é caro a muitos desenvolvimentistas e que quero comentar nesse post. Menos do que uma crítica ao desenvolvimentismo a questão que vou tratar é uma dúvida a respeito da viabilidade da proposta.

Ciro Gomes em um dado momento afirmou que países não crescem com poupança externa, na prática isso significa que se for presidente Ciro pretende que nosso crescimento seja financiado com nossa poupança. O problema é que a taxa de poupança no Brasil está na casa dos 16%, suficiente para financiar o investimento atual, mas muita baixa para financiar o investimento necessário para começar um período de crescimento sustentável. O leitor que estiver pensando que isso é efeito da crise está parcialmente correto, mas mesmo na época de bonança na virada da década a taxa de poupança no Brasil nunca passou dos 20%, ainda baixa para financiar uma experiência asiática.

Desta forma quando Ciro Gomes, ou quem quer que seja, afirma que vai fazer o Brasil retomar o crescimento e que esse crescimento não será financiado por poupança externa o que está sendo prometido é um aumento expressivo da taxa de poupança no Brasil. Como aumentar a taxa de poupança? Essa é a questão do post. Tudo ainda fica ainda mais difícil quando quem promete o aumento da taxa de poupança também promete manter ou aumentar a rede de proteção social. É muito difícil conciliar uma ampla rede de proteção social com altas taxas de poupança, isso acontece por vários motivos, dentre eles: (i) a manutenção da rede de proteção social demanda gastos do governo e assim força a poupança do governo para baixo, (ii) os gastos do governo são parcialmente financiados por impostos retirados de famílias e empresas, os altos impostos reduzem a renda disponível o que, tudo mais constante, deve levar a uma redução na taxa de poupança, (ii) a rede de proteção social oferece seguros que substituem a necessidade de poupar, para entender essa lógica considere que se você tem um carro e adquire um seguro contra roubo não há razão para fazer uma poupança para repor o carro em caso de roubo.

Os países da Ásia que conseguiram altas taxas de poupança de forma a não necessitar de financiamento externo fizeram isso com uma baixa rede de proteção social e com menos impostos que o Brasil. Por conta disso a poupança desses países, pública e/ou privada, é alta. Aspectos culturais podem até ter alguma relevância nessa história, mas incentivos econômicos importam. De fato, mesmo as sociais democracias europeias, como a Alemanha citada por Ciro Gomes, possuem baixas de taxas de poupança quando comparada à dos países asiáticos.

A figura abaixo mostra a taxa de poupança média entre 1970 e 2016 para países da Ásia, para o Brasil e para algumas sociais democracias europeias. Note que os grupos são quase que perfeitamente separados com os países da Ásia na parte de cima, taxas de poupança mais altas, e os países da Europa na parte de baixo, taxa de poupança mais baixa. Apenas a Noruega quebra o padrão, fenômeno que provavelmente está relacionado ao petróleo que, na Noruega dos últimos dez anos a renda do petróleo correspondeu a cerca de 6,5% do PIB contra cerca de 1,6% no Brasil. Repare que o Brasil está encaixado na turma da Europa e bem fora da turma da Ásia.




Uma comparação dos países do Leste da Ásia e Pacífico (East Asia & Pacific), área do Euro (Euro area) e Brasil ajuda a reforçar o ponto que a taxa de poupança não é só função da renda, a figura abaixo faz essa comparação. Na figura fica claro que a taxa de poupança no Brasil está longe da taxa de poupança da Ásia, de fato desde a estabilização e do processo de aumento do gasto social nossa taxa de poupança está abaixo da dos países da Europa. Se fosse por renda média o Brasil (PIB corrigido por PPC de $14,077) deveria estar mais próximo do Leste da Ásia e Pacífico ($15,778) do que da Área do Euro ($38,859).




De forma grosseira o Brasil deixa de financiar investimento para financiar a rede de proteção social. Aqui não é uma questão de juízo de valor, cabe a cada um decidir o que prefere e tentar influenciar (ou não) a política na direção do que deseja. Pelo menos da maneira como eu vejo as coisas a escolha entre taxa de poupança e rede de proteção social, principalmente em um país de renda média ou média-alta, é um fato.

Se Ciro Gomes for eleito o caminho que ele propõe o levará a uma encruzilhada, em algum momento ele vai ter de decidir se quer que o Brasil siga o caminho do modelo asiático com altas taxas de poupança e baixa proteção social ou se vamos seguir o caminho de reforçar a rede de bem-estar social do país as custas de redução do investimento público e da poupança interna. No fundo, sei que alguns não vão acreditar, esse é o dilema entre escolher o desenvolvimentismo e o “neoliberalismo” do Consenso de Washington. Pode ser que alguém diga que é possível fazer as duas coisas, de certa forma Lula e depois Dilma tentaram isso a partir de 2006, deu muito errado. Talvez Ciro Gomes e seus economistas acreditem que deu errado por falta de competência ou habilidade dos governos petistas, eu acredito que deu errado porque não tinha como dar certo.

P.S. Se alguém estiver incomodado com o longo período da primeira figura talvez queira saber que eu fiz com períodos menores, em particular com o período das décadas de 80 e 90, mas não achei válido colocar no post pois acrescentam muito pouco para o objetivo do post.