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quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Aumentar a taxa de poupança e expandir a rede de proteção social: A encruzilhada de Ciro Gomes.


Não creio ser útil ou necessário lembrar meu rosário de críticas ao desenvolvimentismo, o interessado pode pesquisas no blog que vai encontrar esse tipo de material em abundância, de fato, uma das razões que levou a criação desse blog foi tentar se contrapor a onda desenvolvimentista que dominava até meados da década passada. Entretanto tem um ponto que Ciro Gomes levantou ontem na entrevista na Globonews que é caro a muitos desenvolvimentistas e que quero comentar nesse post. Menos do que uma crítica ao desenvolvimentismo a questão que vou tratar é uma dúvida a respeito da viabilidade da proposta.

Ciro Gomes em um dado momento afirmou que países não crescem com poupança externa, na prática isso significa que se for presidente Ciro pretende que nosso crescimento seja financiado com nossa poupança. O problema é que a taxa de poupança no Brasil está na casa dos 16%, suficiente para financiar o investimento atual, mas muita baixa para financiar o investimento necessário para começar um período de crescimento sustentável. O leitor que estiver pensando que isso é efeito da crise está parcialmente correto, mas mesmo na época de bonança na virada da década a taxa de poupança no Brasil nunca passou dos 20%, ainda baixa para financiar uma experiência asiática.

Desta forma quando Ciro Gomes, ou quem quer que seja, afirma que vai fazer o Brasil retomar o crescimento e que esse crescimento não será financiado por poupança externa o que está sendo prometido é um aumento expressivo da taxa de poupança no Brasil. Como aumentar a taxa de poupança? Essa é a questão do post. Tudo ainda fica ainda mais difícil quando quem promete o aumento da taxa de poupança também promete manter ou aumentar a rede de proteção social. É muito difícil conciliar uma ampla rede de proteção social com altas taxas de poupança, isso acontece por vários motivos, dentre eles: (i) a manutenção da rede de proteção social demanda gastos do governo e assim força a poupança do governo para baixo, (ii) os gastos do governo são parcialmente financiados por impostos retirados de famílias e empresas, os altos impostos reduzem a renda disponível o que, tudo mais constante, deve levar a uma redução na taxa de poupança, (ii) a rede de proteção social oferece seguros que substituem a necessidade de poupar, para entender essa lógica considere que se você tem um carro e adquire um seguro contra roubo não há razão para fazer uma poupança para repor o carro em caso de roubo.

Os países da Ásia que conseguiram altas taxas de poupança de forma a não necessitar de financiamento externo fizeram isso com uma baixa rede de proteção social e com menos impostos que o Brasil. Por conta disso a poupança desses países, pública e/ou privada, é alta. Aspectos culturais podem até ter alguma relevância nessa história, mas incentivos econômicos importam. De fato, mesmo as sociais democracias europeias, como a Alemanha citada por Ciro Gomes, possuem baixas de taxas de poupança quando comparada à dos países asiáticos.

A figura abaixo mostra a taxa de poupança média entre 1970 e 2016 para países da Ásia, para o Brasil e para algumas sociais democracias europeias. Note que os grupos são quase que perfeitamente separados com os países da Ásia na parte de cima, taxas de poupança mais altas, e os países da Europa na parte de baixo, taxa de poupança mais baixa. Apenas a Noruega quebra o padrão, fenômeno que provavelmente está relacionado ao petróleo que, na Noruega dos últimos dez anos a renda do petróleo correspondeu a cerca de 6,5% do PIB contra cerca de 1,6% no Brasil. Repare que o Brasil está encaixado na turma da Europa e bem fora da turma da Ásia.




Uma comparação dos países do Leste da Ásia e Pacífico (East Asia & Pacific), área do Euro (Euro area) e Brasil ajuda a reforçar o ponto que a taxa de poupança não é só função da renda, a figura abaixo faz essa comparação. Na figura fica claro que a taxa de poupança no Brasil está longe da taxa de poupança da Ásia, de fato desde a estabilização e do processo de aumento do gasto social nossa taxa de poupança está abaixo da dos países da Europa. Se fosse por renda média o Brasil (PIB corrigido por PPC de $14,077) deveria estar mais próximo do Leste da Ásia e Pacífico ($15,778) do que da Área do Euro ($38,859).




De forma grosseira o Brasil deixa de financiar investimento para financiar a rede de proteção social. Aqui não é uma questão de juízo de valor, cabe a cada um decidir o que prefere e tentar influenciar (ou não) a política na direção do que deseja. Pelo menos da maneira como eu vejo as coisas a escolha entre taxa de poupança e rede de proteção social, principalmente em um país de renda média ou média-alta, é um fato.

Se Ciro Gomes for eleito o caminho que ele propõe o levará a uma encruzilhada, em algum momento ele vai ter de decidir se quer que o Brasil siga o caminho do modelo asiático com altas taxas de poupança e baixa proteção social ou se vamos seguir o caminho de reforçar a rede de bem-estar social do país as custas de redução do investimento público e da poupança interna. No fundo, sei que alguns não vão acreditar, esse é o dilema entre escolher o desenvolvimentismo e o “neoliberalismo” do Consenso de Washington. Pode ser que alguém diga que é possível fazer as duas coisas, de certa forma Lula e depois Dilma tentaram isso a partir de 2006, deu muito errado. Talvez Ciro Gomes e seus economistas acreditem que deu errado por falta de competência ou habilidade dos governos petistas, eu acredito que deu errado porque não tinha como dar certo.

P.S. Se alguém estiver incomodado com o longo período da primeira figura talvez queira saber que eu fiz com períodos menores, em particular com o período das décadas de 80 e 90, mas não achei válido colocar no post pois acrescentam muito pouco para o objetivo do post.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Minhas impressões sobre o discurso de Ciro Gomes na Universidade Católica de Brasília

Ontem participei de uma conversa com Ciro Gomes na Universidade Católica de Brasília (UCB), o evento é parte de uma iniciativa do departamento de economia da UCB que pretende levar vários candidatos à presidência para debater as perspectivas da economia brasileira. Antes de relatar minhas impressões a respeito da conversa é útil dizer para o leitor que acompanho a trajetória de Ciro desde muito tempo, de fato participei da campanha de Ciro para prefeito de Fortaleza em 1988. Naquela época Ciro era o destaque de um grupo de empresários liderado por Tasso Jereissati, então governador do Ceará, que buscava modernizar a gestão e a economia do estado depois de anos de domínio dos “coronéis” Virgílio Távora, Adauto Bezerra e César Cals. Naquela eleição Ciro Gomes enfrentou e venceu o radialista Edson Silva que, salvo engano, era do PDT, atual partido de Ciro, e representava uma frente de esquerdas.

Muita coisa mudou de lá para cá. A trajetória de Ciro não foi exatamente linear, pelo contrário, nas muitas voltas de sua vida política Ciro Gomes ajudou a fundar o PSDB do Ceará, foi ministro de Itamar, se aliou ao PT, foi ministro de Lula e hoje está no PDT. Nesse trajeto Ciro se tornou líder de um grupo que sucedeu o grupo original de Tasso e que governa o Ceará há mais de década, até onde sei a ruptura com Tasso foi política, em termos de proposta de governo o grupo deu sequência ao trabalho iniciado por Tasso. O relato é importante para entender minha leitura das falas de Ciro ontem na Católica,

Na primeira parte do evento Ciro fez uma apresentação a respeito das perspectivas da economia brasileira. A leitura que ele faz é claramente influenciada pelo novo-desenvolvimentismo proposto por Bresser. O foco na necessidade de estimular a indústria e a firme crença que o desenvolvimento da indústria só é possível com uma ação estratégica do estado são presenças fortes no discurso de Ciro. O papel do câmbio na história ficou mais confuso, Ciro defendeu a tese que o câmbio valorizado foi um fator fundamental para o processo de redução da participação da manufatura do PIB no Brasil, a dita desindustrialização, mas vez por outra Ciro afirmava que desvalorização do câmbio implica em perda de poder aquisitivo. Mais de uma vez Ciro falou que não comemos dólares, mas comemos pão cujo o preço depende do dólar. Não ficou claro até que ponto Ciro estaria disposto a sacrificar poder aquisitivo da população para estimular a indústria. Uma pena, pois essa é uma questão que considero crucial.

Outro ponto importante da tese novo-desenvolvimentista que Ciro tratou explicitamente foi a necessidade de poupança interna. É um assunto importante, da minha parte não vejo como conciliar taxas de poupanças asiáticas com os seguros e a tributação características de um estado de bem-estar. Como aumentar a poupança do governo diante das crescentes demandas da sociedade por gasto social? Como aumentar a poupança das famílias e empresas que pagam impostos altos para financiar os seguros providos pelo estado? Até que ponto seguros e poupanças são substitutos? Questões importantes que, creio eu, os novos desenvolvimentistas ainda têm que explicar melhor. Mas essa é uma questão técnica que deve ser feita para os economistas que apoiam Ciro, principalmente porque eu só tinha direito a uma questão.

Escolhi uma pergunta que tentava puxar o lado reformista de Ciro. Existem duas características importantes na economia do Ceará que estão claramente associadas ao projeto político iniciado por Tasso e continuado pelo grupo de Ciro: o relativo equilíbrio das contas públicas e o sucesso das escolas públicas cearenses nas avaliações feitas pelo MEC. Sobre a questão fiscal falo mais na frente, dirigi minha pergunta para a questão da educação. No Ceará as transferências para os municípios dependem do desempenho das escolas do município nas avaliações nacionais. Outro ponto importante é que no Ceará as escolas usam um material didático que vem da secretaria de educação, ou seja, o professor não ensina o que e como quer, mas o que a secretaria determina. Os dois pontos costumam ser objetos de crítica da esquerda por atender a dita agenda reformista neoliberal, o primeiro por fazer referência a meritocracia e o segundo por supostamente minar a autonomia dos professores. Perguntei se uma vez presidente Ciro proporia medidas semelhantes para o Brasil, especificamente queria saber se Ciro apresentaria uma emenda constitucional para atrelar as transferências aos resultados das escolas dos estados e municípios.

Não tive minha resposta. Ciro preferiu falar de reformas em geral e focou na reforma da previdência. Confesso que a questão previdenciária era uma das perguntas que considerei fazer, só não fiz porque conheço o Flávio Ataliba e conseguia imaginar qual seria a resposta. Ciro propõe uma mudança para regime de capitalização com um colchão de proteção que garante um salário mínimo para cada brasileiro em condições de se aposentar que não tenha essa renda e uma transição suave e longa para brasileiros de baixa renda. Para o restante da população a transição seria feita por meio de títulos que poderiam ser descontados quando da qualificação para se aposentar ou negociados em mercado secundário. A proposta dos títulos é semelhante ao que Pinochet fez no Chile, minha dúvida, por isso chamei a proposta de ousada, é quanto a viabilidade política dessa transição. Não lembro de alguma democracia que tenha conseguido fazer algo semelhante, será preciso uma complexa engenharia política para viabilizar tal transição, não sei se mesmo um político experiente como Ciro teria condições para tanto. A parte que mais me incomodou da proposta é que regime de capitalização não seria feito em bancos ou fundos privados escolhidos pelos donos das contas. A gestão seria feita pelo setor público com participação de representantes de trabalhadores e, não lembro bem, outros representantes da sociedade. A experiência recente de fundos de pensão de estatais geridos de forma semelhante deveria deixar qualquer um preocupado com a proposta. Imagino que Ciro teria respondido a esse questionamento dizendo que não se pode matar a vaca por conta do carrapato, mas mesmo assim o sistema proposto me parece demasiado arriscado, especialmente em um país com a fragilidade institucional que temos.

Na parte fiscal Ciro foi incisivo e afirmou várias vezes que nunca governou com um dia de déficit primário. No lugar do “dá bilhão” ele falou que todo o gasto tem que ser questionado e avaliado, chegou a afirmar, talvez com força de retórica, que quando governador sabia até o preço que o governo pagava pelo Melhoral. De fato, o Ceará tem uma posição de destaque quando olhamos a situação fiscal dos estados, não que seja uma maravilha, mas, dado o cenário geral, o Ceará está muito bem. Recentemente foi colocado como o estado em melhor situação fiscal por um relatório elaborado pela Federação das Indústria do Rio de Janeiro. A parte negativa na questão do gasto foi a referência ao infame gráfico de pizza que junta juros e amortizações da dívida pública, é verdade que ele fez ressalvas, mas se eu fosse assessor de Ciro faria tudo que estivesse a meu alcance para convencê-lo a esquecer do tal gráfico, falar disso queima o filme.

Na parte da receita Ciro falou que aumentaria e criaria impostos. Especificamente ele propôs a criação de um imposto sobre dividendos, aumento do imposto sobre heranças e a volta da CPMF com isenção para os mais pobres. Tenho críticas as três propostas. É verdade que o Brasil é um dos poucos países do mundo que não taxa dividendos, mas isso não quer dizer que não taxamos as empresas, pelo contrário, além do Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ) temos a Contribuição Social sobre Lucro Líquido (CSLL), ambos, apesar dos nomes, em vários casos incidem sobre faturamento. Taxar dividendos sem reduzir esses tributos é abusivo, taxar dividendos reduzindo tais tributos, de preferência eliminando a CSLL, pode ser um caminho, mas não vai resolver o problema fiscal posto que o ganho em um deve ser compensado com as perdas nos outros. Taxar herança é coisa para inglês ver, colocar uma alíquota alta, chegou-se a falar em 40%, sobre heranças da classe média é inadmissível, imagine pagar 40% do valor de um apartamento em bairro nobre do Rio ou São Paulo além dos custos com inventário. Em países com alíquotas altas o valor de isenção também é muito alto, o suficiente para só pegar quem tem como se proteger por meio de trustes e coisas do tipo. Espero que Ciro, e nenhum outro candidato, pretenda induzir que nossa classe média use trustes para proteger um apartamento de 100 metros quadrados na Asa Norte, se isso acontecer depois dos bens de luxo parcelados em 10 vezes sem juros vamos ter os trustes populares. A volta da CPMF também é um erro, aliás o próprio Ciro criticou as contribuições afirmando de forma correta que não é razoável taxar faturamento pois o sujeito acaba pagando imposto mesmo tendo prejuízo, o argumento é facilmente adaptável para a CPMF.

No final Ciro falou de metas de inflação e do tripé econômico. Ciro fez duras críticas ao tripé sugerindo que a combinação de superávits primários, câmbio flutuante e metas de inflação era uma anomalia da economia brasileira. A sugestão de fazer meta para o núcleo da inflação tem seu apelo, mas depois da criatividade contábil imagino o quão criativo seríamos para o cálculo do núcleo de inflação. A parte boa foi quando ele falou que a inflação ideal é zero, não sei se foi uma ironia, mas gostei de ouvir. Ciro também sugeriu que o combate a inflação pode ser feito por meio de aberturas as importações, uma tese questionável, mas que leva a um resultado bom. Mesmo que não reduza a inflação a abertura da economia se justifica por vários outros motivos, só não sei como ele vai conciliar isso com a turma dos desenvolvimentistas.

Para não dizer que não falei da parte política registro que Ciro fez uma boa defesa do Congresso ao questionar quais propostas que poderiam ter dado outro rumo ao Brasil não foram implementadas por conta dos deputados e senadores. Também merecer destaque a recusa de Ciro em referendar a tese que a Globo derrubou Dilma.

Enfim, Ciro fez um discurso articulado com fortes componentes de nacionalismo e desenvolvimentismo. Não é minha praia, mas se é para seguir por esse caminho recomendo olhar menos para a indústria automobilística e mais para Embraer. Políticas públicas para estimular empresas locais que desenvolvam tecnologia em parceira com centros de pesquisas nacionais não é exatamente algo que eu defenda, mas me parece fazer mais sentido que desvalorizar o câmbio e criar barreiras ao comércio para proteger filiais de multinacionais que, segundo o próprio Ciro, são useiras e vezeiras em importar tecnologias defasadas. Falar da Coreia é fácil, ter a poupança da Coreia, a educação da Coreia e lembrar que a Hyundai não é uma filial da General Motors é outra conversa. Não sei qual combinação de Ciro vai aparecer na campanha ou, se for o caso, na presidência. Da minha parte prefiro o governador do equilíbrio fiscal e que premia os municípios com melhor desempenho na educação, o ministro da Fazenda que deixou a economia mais aberta e não tentou mexer no câmbio e nos juros para agradar os compadres do que o candidato que defende as teses desenvolvimentistas da turma de Bresser.