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domingo, 8 de novembro de 2020

Alguns números da economia dos Estados Unidos no governo Trump

As eleições nos Estados Unidos chamaram atenção para várias questões relacionadas ao país. Basta uma olhada nos jornais ou nas redes sociais para esbarrarmos em notícias sobre geopolítica, economia, política, racismo e outras questões relacionadas aos direitos civis no país que ainda se apresenta como Terra da Liberdade, embora já tenha sido bem mais livre, ou bem menos, a depender do ângulo que se olha e do conceito de liberdade usado pelo observador.

Para ajudar nas discussões, apresento nesse post alguns números relacionados à economia americana. Os dados são todos do FMI e estão disponíveis na versão de outubro de 2020 da base de dados do World Economic Outlook (link aqui), não inclui 2020 por conta da pandemia e porque trabalho com dados anuais e o ano ainda não acabou. Em cada uma das figuras a linha mostra os dados desde 2001, para dar uma ideia de tendência, e as barras mostram os dados no governo Trump.

Comecemos a história pelo lado fiscal. Durante o governo Obama os Republicanos fizeram muitas críticas por conta da política fiscal, as acusações giravam em torno da ideia que Obama, e Democratas em geral, gastava demais. De fato, no começo do governo Obama o déficit primário como proporção do PIB nos Estados Unidos deu um grande salto, uma tendência que vinha do governo Bush e está muito relacionada à Crise de 2008. Porém, depois do pico de 11,3% do PIB em 2009, o déficit primário como proporção do PIB apresentou uma trajetória de queda. No último ano do governo Obama o déficit primário foi de 2,4% do PIB, número que cresceu até chegar a 4,1% em 2019. Para 2020 a previsão do FMI é que o déficit primário dos Estados Unidos será de 16,7% do PIB, mas aí há de se considerar o efeito da pandemia.


 

O comportamento do déficit acaba refletido na dívida pública. Após o salto significativo na sequência da Crise de 2008, de 64,7% do PIB em 2007 para 103,3% do PIB em 2012, a dívida pública se estabiliza como proporção do PIB no segundo mandato do Presidente Obama com um aumento em 2016. Durante o governo Trump a dívida cresce mais que o PIB em todos os anos e chegou a 2019 na faixo de 109% do PIB. Em 2020 a previsão é de que a dívida chegará a 131% do PIB, mais uma vez a pandemia tem um efeito central no aumento. Em termos gerais parece justo dizer que a situação fiscal dos Estados Unidos piorou no governo Trump mesmo antes da pandemia.

 


Um dos grandes trunfos frequentemente citados pelos que simpatizam com o Presidente Trump é o aumento do crescimento e a queda do desemprego. A figura abaixo mostra o crescimento dos Estados Unidos. É fato que nos dois primeiros anos do governo a taxa de crescimento do PIB americano aumentou, mas houve perda de folego em 2019. A maior taxa de crescimento no governo Trump foi 3% em 2018, número próximo aos 3,1% de 2015 ainda no governo Obama. Para 2020 a expectativa é de queda de 4,3% no PIB americano.

 


O desemprego no governo Trump segue a tendência de queda iniciada a partir de 2010 chegando a um mínimo de 3,7% em 2019. Olhando os dados fiscais e desemprego fica a impressão de que havia um estímulo fiscal em uma economia com baixo desemprego, uma estratégia que, como bem sabemos por aqui, pode ser desastrosa no médio/longo prazo. Para 2020, por conta da pandemia, a previsão é que desemprego fique em 8,9%.

 


A última variável que vou falar é a inflação. Em 2008, ano da crise financeira, a inflação nos EUA caiu para 0,7%, nos primeiros anos do governo Obama a inflação sobe até chegar a 3,1% em 2011. A partir daí, concomitante a estabilização da dívida como proporção do PIB e na sequência da queda no déficit primário, a inflação volta a cair chegando a 0,5% em 2014. Em 2016, último ano do governo Obama, a inflação foi de 2,2%, número que se repetiu no primeiro ano do governo Trump. Em 2018 a inflação caiu para 1,9% e no ano seguinte subiu para 2,1%, onde, segundo as previsões do FMI, deve ficar em 2020.

 


O balanço do governo Trump, desconsiderando 2020, mostra uma piora no quadro fiscal sem um aparente impacto significativo no crescimento que, em média, foi de 2,5% nos três primeiros anos do Presidente Trump contra 2,4% nos três anos anteriores e 2,5% nos três primeiros anos do segundo mandato do Presidente Obama. O desemprego seguiu a tendência de queda. Onde a combinação de estímulos fiscais e desempregos baixo levaria não temos como saber, a pandemia mudou as trajetórias dessas variáveis, mas a experiência sugere que não seria a um lugar bom. A inflação ficou controlada no governo Trump.

O que vai acontecer nos próximos anos? Só o tempo dirá. Republicanos quando estão na oposição costumam impor resistência a políticas que aumentem o déficit do governo, isso pode ajudar a reverter o aumento do déficit e a estabilizar a dívida como proporção do PIB. Por outro lado, a pandemia impôs gastos e poderá continuar impondo a depender do que vai acontecer nos próximos meses ou anos. Arrisco dizer que só com uma vacina as coisas começarão a voltar ao normal, mas não arrisco dizer quando a vacina vai aparecer nem muito menos quando (e como) as pessoas serão vacinadas. A pandemia também deve ditar o ritmo de crescimento, é razoável esperar que as economias do mundo cresçam e criem empregos nos períodos seguintes à superação da pandemia.

A inflação vai depender da parte fiscal. Os Estados Unidos testaram o limite de endividamento na crise de 2008, deu certo, mas isso não quer que dizer que não existe limite. Meu médico diz que eu tenho de emagrecer. Ele não sabe dizer o peso máximo que posso ter sem algum problema sério, também não sabe dizer o que vai acontecer se eu chegar nos 160kg e muito menos quanto tempo posso ficar acima dos 150kg impunemente. Ele apenas me diz que em algum momento meu peso vai cobrar um preço da minha saúde, eu, que apesar de já sentir alguns sinais dessa cobrança não faço os ajustes necessários para perder peso, acredito nele.

 

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Álbum de retratos da economia de alguns países da América Latina

O post apresenta uma espécie de coleção de fotografias de alguns países da América Latina olhando por vários ângulos, a ideia é dar um painel do estado geral de países da região. Colocar todos os países tornaria difícil reconhecer cada um na foto, dessa forma escolhi um grupo de onze países que costumam aparecer em várias comparações do tipo que aparecem na internet ou em artigos de jornais e revistas, são eles: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, México, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela.

Como é o caso em qualquer fotografia de família existem diferenças importantes entre os que aparecem nas imagens que não são captadas nas fotos, por exemplo, os menos de 3,5 milhões de habitantes espalhados em um território 176,2 mil quilômetros quadrados fazem do Uruguai um país bem diferente do Brasil com nossos mais de 200 milhões de habitantes em um território de cerca de 8,5 milhões de quilômetros quadrados. Ainda assim ambos aparecem nas figuras abaixo, afinal ambos fazem parte de nuestra América.

As dimensões consideradas são: PIB per capita, expectativa de vida, gastos com saúde, gastos com educação, distribuição de renda, acesso à internet, dependência de recursos naturais e participação da manufatura do PIB. Para cada variável foi usada a média de 2015 a 2019, em caso de faltar algum dado para um ou mais anos foi usada a média sem considerar o ano em questão, quando não estavam disponíveis dados para nenhum dos anos o país ficou de fora da figura (ou da foto). Os dados são do Banco Mundial.

Como de costume o ponto de partida é o PIB per capita. Por mais críticas que possam ser feitas a essa medida é fato que países com alto PIB per capita tendem a ter um melhor desempenho nas variáveis que o crítico aponta como ausentes no cálculo do PIB. Riqueza não compra felicidade nem saúda, mas ajuda um bocado. Para facilitar as comparações foi usado o PIB ajustado por paridade de poder de compra. O país mais rico da turma é o Chile seguido de perto pela Argentina, Brasil e Colômbia estão quase empatados no meio e a Bolívia está isolada na lanterninha. Alguns podem se assustar com a posição da Argentina, mas é isso mesmo, como eu já disse em outros lugares o drama da América do Sul no pós-guerra não é o Brasil virar Argentina, o drama é a Argentina estar virando Brasil.

 


A próxima variável é a expectativa de vida, ter dinheiro é bom, mas fica ainda melhor quando é possível aproveitar a vida por mais tempo. Nesse critério o Chile é novamente o líder, porém agora seguido por Uruguai e Colômbia. A Bolívia mais uma vez teve o pior desempenho, a Venezuela, que não pareceu na figura anterior, está colada na Bolívia. O Brasil está na parte de baixo da amostra. Usando o critério de PIB per capita e expectativa de vida para avaliar bem-estar o Chile é o líder da turma. Vale o registro que na Argentina, mesmo com o PIB per capita muito próximo do Chile, a expectativa de vida é a quinta maior entre os países selecionados.

 


Expectativa de vida nos leva a pensar em saúde. O país da amostra com o maior gasto em saúde como proporção do PIB é o Brasil que é seguido de perto pelo Uruguai. O Chile, com a maior expectativa de vida, aparece me terceiro lugar. O pior desempenho é observado na Venezuela.

 


O gasto com saúde pode dar uma ideia distorcida do acesso dos mais pobres ao sistema de saúde, isso é verdade porque a medida da figura anterior considera todos os tipos de gastos com saúde. A próxima figura mostra o gasto do governo com saúde, Uruguai e Argentina lideram nesse quesito. O Chile fica bem no meio da turma e o Brasil, que liderava na figura anterior, abre a turma onde o governo gasta menos de 4% do PIB com saúde. Aqui um ponto interessante, no gasto total Brasil e Uruguai estão praticamente empatados, porém, no gasto do governo com saúde, o Uruguai lidera e o Brasil foi para parte de baixo da figura. Difícil falar qual é o melhor modelo apenas com esses dados, mas os números sugerem que o financiamento do sistema de saúde do Uruguai é mais fincado no setor público enquanto no Brasil prevalece o setor privado.

 


Para avaliar os gastos dos governos com educação serão considerados os gastos por estudantes nos níveis de educação primário, secundário e terciário. Na educação primário o maior gasto por estudante ocorre no Chile que é seguido à distância pela Argentina e pelo Brasil. O país da amostra com menor gasto foi o Equador, note que Bolívia e Venezuela ficaram de fora por falta de dados.

 


No ensino secundário a liderança passa a ser da Argentina com o Chile ocupando o posto de segundo maior gasto por estudante. O Brasil caiu para a quarta posição e o Equador é novamente o país com menor gasto por aluno.

 


No ensino terciário, onde estão as universidades, o maior gasto do governo por aluno é no México. O Equador, que tinha o menor gasto nos níveis primário e secundário, tem o segundo maior gasto no nível terciário. O Brasil ficou com o quarto maior gasto, mesma posição que no secundário e uma posição abaixo do primário. O Chile, que liderou no primário e ficou em segundo lugar no secundário, aparece em quinto lugar no terciário, esses números sugerem que o sistema público de educação do Chile prioriza os níveis mais básicos de educação. O Peru é o país com menor gasto do governo por aluno no ensino terciário.

 


A desigualdade será medida pelo índice de Gini, a proporção da renda que vai para os 10% mais ricos e a proporção da renda que pertence aos 10% mais pobres. O maior índice de Gini é observado no Brasil que é seguido pela Colômbia. O Uruguai é o país da amostra onde a distribuição de renda é menos concentrada.

 


No Brasil os 10% mais ricos respondem por 41,9% da renda do país, é a maior proporção dentre os países da amostra. No Uruguai os 10% mais ricos ficam com 29,7% da renda e na Argentina ficam com 30%.

 


Aqui aparece um fato curioso, apesar de ficar pelo meio no índice de Gini e na renda destinada aos 10% mais ricos o Chile é o país da amostra onde os 10% mais pobres ficam com a maior fatia da renda. Brasil é o país onde os 10% mais pobres ficam com a menor parte da renda. Por qualquer dos critérios utilizados o Brasil é o país com a maior concentração de renda.

 


Em tempos de redes sociais e vidas virtuais achei válido olhar para o acesso à internet. O maior acesso ocorre no Chile, 80% da população, e o menor na Bolívia. O Brasil fecha a parte de cima da distribuição com acesso por menor que a Venezuela e maior que no México.

 


Por fim considerei duas varáveis relacionadas à estrutura de produção dos países: proporção da renda do país originada em recursos naturais e participação da manufatura no PIB. O Chile é o país da amostra com maior dependência de recursos naturais, talvez esse fato deva ser considerado por quem tenta explicar o desastre econômico em alguns países do continente com base na queda dos preços das commodities. A menor dependência ocorre na Argentina. No Brasil apenas 3,2% da renda tem origem em recursos naturais.

 


O Paraguai é o país da amostra onde a manufatura responde pela maior parte do PIB, se essa variável for usada como medida de industrialização então é justo dizer que o Paraguai é o país mais industrializado da turma. Em segundo lugar aparece o México, aquele que fez um acordo de livre comércio com os EUA. O Brasil, apesar (ou por causa?) dos subsídios, dos planos estratégicos para indústria, do protecionismo, etc, é o país onde a manufatura reponde pela menor proporção do PIB.

 


Como prometido o post apresentou retratos da países da América Latina tirados por diversos ângulos. É certo que outros autores, ou esse autor em outros dias, poderiam ter colocado outros países e escolhido outras variáveis, mas creio que os retratos desse post dão uma ideia relevante de como estão alguns dos principais países da região. Apesar dos inevitáveis comentários no decorrer do texto, deixo para o leitor decidir quais países apresentam o melhor desempenho geral.

 

sábado, 9 de maio de 2020

Uma nota a respeito da (grande) desvalorização do real.


O Brasil tem um regime de câmbio flutuante e o Banco Central não tem compromisso com nenhuma taxa específica, ainda assim variações no câmbio, como em qualquer preço, têm efeitos na economia causando perdas e ganhos em grupos distintos de famílias e empresas. Isso não implica que o Banco Central deva impedir tais flutuações, mas acompanhar as variações no câmbio é importante para entender o que pode acontecer na economia após a pandemia.

Grosso modo os ganhadores com a desvalorização da moeda local, ou valorização da moeda externa, são os exportadores, que passam a receber mais reais por dólar exportado, e as empresas que concorrem com produtos importados, que são beneficiadas nem que temporariamente pelos preços mais altos dos concorrentes. Na outra ponta estão os que possuem renda em reais e compram produtos importados ou produtos cujo preço é sensível ao dólar, estão aí trabalhadores e pensionistas, empresas que precisam importar insumos ou máquinas e quem está endividado em dólares ou outras moedas estrangerias.

Um outro efeito da desvalorização do câmbio que costuma ser apontado por economistas desenvolvimentistas é o barateamento do custo da mão de obra do país em comparação com a mão de obra do exterior. Com esse efeito é possível que as empresas instaladas no país sejam beneficiadas não apenas pelo encarecimento dos produtos concorrentes importados como se tornem mais competitivas no exterior por enfrentarem custos mais baixos em comparação com as empresas instaladas em outros países. Isso torna ainda mais escandaloso o pedido de proteção de empresários nacionais mesmo diante de uma grande desvalorização do real.

Não vou entrar na questão dos efeitos do câmbio na competitividade da indústria, já fiz isso em outros lugares, apenas registro que acredito que esses efeitos são bem menores do que pensam meus colegas desenvolvimentistas e que podem até ir na direção contrária se o efeito sobre o custo de importar novas máquinas for muito significativo. O que quero ilustrar nesse post é que a desvalorização do real, para o bem o para o mal, foi grande, muito grande. A figura abaixo mostra a valorização do dólar em relação a moedas de diversos países ou regiões nos últimos trinta dias.




Em nove de abril o dólar custava R$ 5,11, na sexta-feira, oito de maio, estava em R$ 5,73, uma valorização de pouco mais de 12% frente ao real. Foi a maior valorização frente a moeda local em todas os países avaliados. A segunda maior valorização do dólar ocorreu na Turquia e foi 6,2%, quase metade da que ocorreu aqui.

Se considerarmos desde o começo do ano a maior valorização do dólar dentre os países selecionados também aconteceu por aqui e foi de 42,4%. Neste período o México ficou em segundo lugar com valorização de 25% do dólar e a Turquia, com 19,1%, ficou em terceiro.




Considerando os últimos seis meses a valorização do dólar também foi maior por aqui do que nos outros países da amostra. A ordem continua sendo Brasil, México e Turquia com valorizações de 38,2%, 23,7% e 22,8%, respectivamente.


O Brasil só perde a liderança quando o período é estendido para os últimos doze meses, nesse intervalo de tempo a maior valorização do dólar diante a moeda local ocorreu na Argentina. Se o amigo é daqueles que não gostam de perder para argentina nem quando o assunto é desvalorização da própria moeda talvez queira saber que perdemos por pouco, lá o dólar valorizou 48,7% e por aqui 45,2%, se as moeda dos dois países continuarem no mesmo ritmo das últimas semanas rapidinho passamos deles.



Piadas à parte a realidade é que a desvalorização do real diante ao dólar foi grande, se não ocorrer uma reversão a economia pós-pandemia terá uma dinâmica diferente da que vimos nos últimos anos. Caso Paulo Guedes (e os desenvolvimentistas) estiverem certos o combo “juros baixos e câmbio desvalorizado” pode ajudar no aumento do investimento e no fortalecimento da indústria de transformação instalada no país. Outra possibilidade, creio que mais provável, é que o crescimento não virá por conta dos juros baixos e do câmbio desvalorizado de forma que o Banco Central vai ter de escolher entre elevar juros ou aceitar uma inflação mais alta do que a dos últimos anos.


domingo, 12 de abril de 2020

Covid-19 e o movimento por áreas de interesse no Brasil


Ontem estava olhando um post no R-bloggers ensinando como pegar dados do Google de movimentação em áreas específicas em diversos países (link aqui). Por conta disso resolvi olhar o relatório para o Brasil e avaliar como o isolamento está afetando o movimento nessas áreas por aqui e agora compartilho alguns números com os leitores do blog. Os dados são Google - COVID-19 Community Mobility Reports (link aqui).

Os indicadores são calculados tomando como referência as idas em tempos de permanência em cada tipo de área em proporção ao período de referência que é definido como a mediana para o mesmo dia da semana no período entre três de janeiro e seis de fevereiro de 2020. Para este post vou usar os dados referentes a cinco de abril que é o último período da amostra, desta forma o período de referência é a mediana dos domingos entre três de janeiro e seis de fevereiro. Quando os dados estiverem maias atualizados eu já devo ter conseguido puxar os dados para todos os dias, afinal é do que trata o post no R-bloggers, e vou tentar fazer comparações com outros dias da semana, se ficar interessante coloco os resultados em outro post.

São avaliadas as movimentações nos seguintes tipos de áreas:
  • Compras e recreação (Retail & recreation): restaurantes, cafés, shopping centers, parques temáticos, museus, bibliotecas e cinemas.
  • Mercados e farmácias (Grocery & pharmacy): mercearias, armazéns, quitandas, mercados, drogarias e farmácias.
  • Lazer (Parks): parques e jardins públicos, praias, marinas, praças e parques para cães.
  • Terminais de transportes (Transit stations): estações de metrô, trem e pontos de ônibus.
  • Locais de trabalho (Workplaces): locais de trabalho.
  • Áreas residenciais (Residential): áreas residenciais.

A figura abaixo mostra o indicador em cada uma das áreas para o Brasil.




A maior queda de movimento ocorreu nas áreas de compras e recreação (67%), seguida de perto pelas áreas de lazer (66%), a menor queda foi nas áreas dedicadas a mercados e farmácias. O movimento nos locais de trabalho pode estar comprometido pela data ser um domingo, mas, mesmo assim, ocorreu uma queda de 30%. Como esperado o movimento em áreas residenciais aumentou. A magnitude da queda e áreas associadas a recreação e lazer, atividades voluntárias, sugere que houve adesão da população às medidas de isolamento. Naturalmente em locais que estavam fechados ou com acesso proibido por conta de decisão de prefeitos ou governadores a adesão não pode ser classificada de voluntária.

Apesar do Google dos riscos de comparar regiões diferentes, precisão e classificação de locais mudam de uma região para outra, no restante do post vou mostrar o movimento nas áreas acima por unidades da federação. A figura abaixo mostra a variação de movimento em locais dedicados a compras e recreação.




As maiores quedas ocorreram no Ceará e em Santa Catarina, ambos 74%, na sequência vieram Paraíba, Pernambuco e Amapá. As menores queda ocorreram em Tocantins, Rondônia e Mato Grosso. Apesar de inicialmente terem se destacado como áreas de preocupação o Distrito Federal, o Rio de Janeiro e São Paulo não se destacaram na redução de movimento em áreas de compras e recreação. Dessas três unidades da federação a maior queda foi no Rio de Janeiro (69%), seguida de São Paulo (67%) e Distrito Federal (64%).

A próxima figura mostra a queda na movimentação em áreas de mercados e farmácias. É natural que essa queda tenha sido menor que em outras áreas, afinal são comércios essenciais. Nessas áreas a maior queda ocorreu em santa Catarina (37%), seguida pela queda na Bahia (33%) e Piauí (32%). A menor queda ocorrer em Rondônia (11%), no Pará a queda foi de 16%, Goiás e Maranhão tiveram queda de 18%. Mais uma vez Rio de Janeiro, São Paulo e Distrito Federal não tiveram entre as unidades com maiores quedas.

  
Nas áreas de lazer novamente Santa Catarina liderou a queda (80%), desta vez o Rio de Janeiro teve destaque com uma queda de 78% segundo do Espírito Santo com queda de 72%. As menores quedas ocorreram em Tocantins (29%), Rondônia (30%) e Goiás (37%), é possível que o fato de nenhum dos três ter praias tenha contribuído para esse resultado. De fato, a queda média do movimento em áreas de lazer foi de 71% nos estados cuja capital tem praia e 50% nos estados onde as capitais não têm praia.




As maiores queda em áreas de transporte foram observadas em Sergipe (79%), no Piauí (77%) e no Amapá (73%). A data de referência ser um domingo ajuda aumentar o tamanho da queda no uso de transportes, mas a análise dos gráficos com o período completo que está no documento do Google sugere que nos outros dias também ocorreram fortes quedas.




O movimento no local de trabalho também sofre efeitos da comparação ser feito entre domingos, ao contrário do uso de transportes nos locais de trabalho a queda nos domingos tende a ser menor que nos outros dias. De toda forma, vale registrar que Rio de Janeiro e Santa Catarina tiveram a menor redução de movimentos nessas áreas (35%), seguidos do Distrito Federal (33%) e São Paulo (32%). A referência no domingo pode ter uma vantagem na análise do DF porque muitos servidores públicos normalmente não trabalham aos domingos, dessa forma a variação tem menos efeito do serviço público.




O movimento nas áreas residenciais, como esperado, aumentou em todos os estados e no Distrito Federal. Os maiores aumentos ocorreram no Rio Grande do Sul e no Rio Grande do Norte (18%), seguidos por Santa Catarina, Distrito Federal e Piauí (17%). Parte desse aumento pode por conta de pessoas que trocaram idas a shoppings, parque ou praias por movimentação nas redondezas de onde moram.




Para encerrar o post calculei as médias dos indicadores, com exceção do movimento nas áreas residenciais, depois de imaginar várias possíveis formas de ponderar cada área decidi usar uma média simples. A figura abaixo mostra os resultados. Pelo critério de média simples o estado onde ocorreu o maior isolamento foi Santa Catarina, queda de 59,6% na média de movimento das áreas, seguido da Bahia (54,6%) e do Ceará (53,8%).  Os menores isolamentos ocorreram em Rondônia (36,2%), Tocantins (36,8%) e Mato Grosso (37%).




No computo geral os números mostram que houve um engajamento da população, em alguns casos por conta de intimidação, nos esforços de isolamento. As quedas de 67% e 66% no movimento em áreas de compras e recreação e de lazer me parecem significativa (se eu conseguir arrumar os dados faço uma comparação com outros países, mas como referência as quedas nos EUA no mesmo período foram de 49% e 20%, respectivamente), as quedas menores em outras áreas podem ser explicadas por necessidades de compras, como em mercados e farmácias, ou por necessidade de trabalhar. Também é possível observar que, mesmo com diferentes graus de adesão, os esforços de isolamento podem ser percebidos em todos as unidades da federação.

domingo, 29 de dezembro de 2019

Um balanço da economia (e da equipe econômica) em 2019


Este ano tive a honra de ter sido convidado para encerrar o ciclo de seções de conjuntura do Conselho Regional de Economia do DF (CORECON-DF) com uma avaliação da economia em 2019. O evento ocorreu no dia cinco de dezembro, nesse post faço um resumo do que falei. Como de costume minha leitura tem mais foco em desafios e dificuldades do que em comemorações. Não que não tenham ocorrido coisas boas ou que o saldo não seja positivo, mas é porque acredito que a função de um acadêmico que resolve participar do debate público é mostrar os perigos. Já tem muita gente dentro e fora do governo trabalhando para animar a galera.

Antes de começar a falar de 2019 é importante contextualizar o que vou falar na leitura que faço da economia brasileira, especificamente da crise que estamos passando. Creio que existem duas crises econômicas, uma de longo prazo e outra de curto prazo. A primeira está relacionada a características estruturais da economia brasileira e se arrasta desde meados da década de 1970, a segunda está relacionada a graves erros de política econômica que começaram no segundo mandato de Lula e tomaram proporções gigantescas no primeiro mandato de Dilma.

A crise de longo prazo é caracterizada pela baixa produtividade e pelo baixo crescimento da produtividade em associação com uma baixa taxa de investimento. Sair dessa crise é trabalho para vários governos empenhados em uma agenda de reformas que mude profundamente a economia brasileira. Essa agenda passa por educação, ambiente jurídico, ambiente de negócios, estrutura tributária e de gastos do governo, modelo de financiamento da pesquisa e educação superior, relações de trabalho e etc. Uma agenda que começou a ser implementada em meados da década de 1990 e foi abandonada lá por 2006.

A crise de curto prazo foi inicialmente caracterizada por um desequilíbrio fiscal com forte aumento da dívida pública e um descontrole da inflação e foi agravada por uma política de subsídios e desonerações mal desenhada e mal implementada. As distorções causadas por essas políticas levaram a investimento ruins agravando o problema da produtividade e do investimento. Creio que o maior risco para economia brasileira é um retorno aos subsídios e desonerações que podem até gerar algum ganho de curto prazo, mas vão comprometer ainda mais a alocação de capital e trabalho por meio de estímulos a negócios inviáveis na ausência desses incentivos.

Grosso modo o atual governo parece ciente desse problema, mas vez por outra nos assusta como nas desonerações do Programa Verde e Amarelo e no uso da Caixa para tentar forçar a queda dos juros. Imagino que seja muito difícil resistir às pressões para resultados de curto prazo, mas a capacidade de resistir a essas pressões pode definir o rumo da economia na próxima década. Forçar um crescimento alto no curto prazo pode ser fatal no futuro não muito distante.

Com esse pano de fundo passemos a avaliação de 2019 com direito a algumas perspectivas para 2020. Começo pelo crescimento, a figura abaixo mostra o crescimento do PIB brasileiro entre 1996 e 2019, as barras mostram o crescimento trimestral e a linha mostra o crescimento em relação ao trimestre anterior. Aqui é possível ver a economia afundando ainda no primeiro semestre de 2014 e a recuperação em 2016.




Em 2019 o PIB seguiu um ritmo muito parecido com o de 2018, ou seja, continua recuperação lenta iniciada em 2016. A boa notícia é que os temores de uma nova recessão técnica não se concretizaram, a má notícia é que a frustração pode levar a equipe econômica a acionar o uso de incentivos para garantir um crescimento maior em 2020.

A decomposição do crescimento do terceiro trimestre de 2019 (último dado disponível) e o mesmo trimestre do ano anterior mostra que o maior crescimento veio da agropecuária que responde por 4,3% do PIB (5,0% do valor agregado) e cresceu 2,1% no período. Um aumento da demanda externa, notadamente da China, pode levar a um crescimento ainda maior desse setor, mas antes de soltar fogos lembre que ele responde por menos de 5% do PIB. O segundo setor com maior crescimento foi o de serviços que responde por 62,5% do PIB (72,7% do valor agregado) e cresceu 1,0% no período. Por ser o maior setor da economia tanto do ponto de vista do PIB quanto da criação de empregos o setor de serviços tem um papel fundamental para o crescimento econômico, porém exige cuidados por ser um setor muito heterogêneo entrando de atividades básicas fortemente dependentes da dinâmica econômica local até atividades de alta tecnologia. O setor que menos cresceu foi a indústria que responde por 19,1% do PIB (22,2% do valor agregado) e teve um crescimento de 0,96%.




Centro das atenções durante o período desenvolvimentista e corriqueiramente apontado por alguns economistas como o eixo dinâmica da economia a indústria merece uma atenção especial. Não por suas supostas propriedades mágicas, mas porque a análise dos grandes setores da indústria pode me ajudar a explicar minha leitura do atual momento da economia brasileira. A figura abaixo mostra o crescimento da construção civil, da indústria extrativa e da indústria de transformação.




O setor industrial que mais cresceu foi a construção civil com crescimento de 4,4%, é um setor importante que costuma sinalizar crises e recuperações e com impacto no emprego. Ocorre que também é um setor sensível a taxas de juros. O quanto desse crescimento está relacionado a queda da taxa de juros? O quanto está relacionado a ação de bancos públicos? O quão sustentável é a queda dos juros? São as perguntas básicas para avaliar as perspectivas do setor. Infelizmente não tenho as respostas, pelo menos não com a segurança necessária para compartilhar aqui. De toda forma vale registrar que se o crescimento da construção resultar de juros artificialmente baixos podemos estar recebendo o tipo de cavalo de Troia a que me referi quando falei dos riscos que a equipe econômica venha a sucumbir à pressão por resultados de curto prazo. Na cola da construção civil vem a indústria extrativa com crescimento de 4,03%. Esse setor da indústria costuma estar relacionado ao setor externo, mas é muito possível que a recuperação da Vale após o desastre de Brumadinho seja responsável por esse crescimento, repare a queda do setor nos períodos anteriores.

A indústria de transformação encolheu 0,54% no período. Se meus colegas que creditam a esse setor propriedades únicas para puxar o crescimento de longo prazo e a produtividade estiverem corretos esse é um número para lá de preocupante. Como não faço parte desta turma vejo o número com outra preocupação. Enquanto o desempenho da construção civil pode estar relacionado a estímulos e o da indústria extrativa pode estar relacionado a recuperação de um choque e efeitos externos o desempenho da indústria de transformação está mais relacionado à dinâmica interna da economia. A não recuperação da indústria de transformação deve acender uma luz amarela sobre quão sólida é a retomada do crescimento. Naturalmente não é o caso de estimular a indústria de transformação para ter um crescimento sólido, isso seria o equivalente a tentar emagrecer manipulando a balança. A ideia é que um bom ambiente econômico levará a um quadro de crescimento da produtividade com expansão da indústria de transformação e da economia como um todo. A receita para esse bom ambiente econômico é complicada, mas certamente passa por mais liberdade para que empresas e famílias tomem decisões adequadas sem medo das incertezas jurídicas e coisas do tipo.

Alguns colegas dentro e fora do governo estão com uma leitura bem mais otimista que a minha, boa parte deles está olhando o PIB pelo lado da demanda. No lugar de olhar a composição do PIB entre atividades produtivas como agropecuária, serviços e indústria olham para a distribuição do PIB em categorias como consumo do governo, consumo das famílias e investimento. Há um extenso debate entre economistas a respeito do quando esse tipo de análise, também chamada de análise pela ótica da despesa, explica o crescimento de uma economia. Até o ponto onde seja possível falar de consenso ele aponta para que tais efeitos, se existem, são de curto prazo. Exceção óbvia para o investimento que além de representar um elemento da despesa representa aumento da capacidade futura de produção. É por essa última característica, e não por ser um elemento de despesa, que o investimento pode afetar o crescimento de longo prazo.

A figura abaixo mostra o crescimento dos principais elementos da despesa (consumo das famílias, investimento e consumo do governo). O otimismo deriva da ideia que como o consumo das famílias cresce mais que o consumo do governo a economia estaria sendo puxada pelo setor privado. Não compartilho desse otimismo que chega a ter ares de euforia. Primeiro porque não acredito que consumo algum puxe o crescimento, possível exceção para situações muito específicas e mesmo assim no curto prazo, e segundo porque não há nada novo no crescimento do consumo das famílias ser maior que o crescimento do consumo do governo.




O crescimento do investimento pode ser uma boa notícia, mas é preciso cuidado. Na década passada ocorreu um forte crescimento do investimento que desaguou na crise gigantesca que estamos vivendo. Como já disse em outros lugares investir mal é muito pior do que não investir, para apontar o crescimento do investimento é necessário analisar com cuidado para onde está indo esse investimento. Essa análise está fora do escopo desse post, mas aviso que se o investimento for em estruturas que só foram compradas por conta de estímulos como as reduções de juros da Caixa no longo prazo não vamos ter muito o que comemorar, pelo contrário.

Alguns colegas respondem meus alertas apontando para a estimativas de crescimento superior a 2,0% para 2020. Com sou chato e chuto canela sem cerimônia registro que desde o começo da crise, com exceção de 2017, o pessoal do mercado superestimou o crescimento da economia no começo do ano. Na figura abaixo a linha azul claro mostra as expectativas de crescimento no começo de cada mês e a reta azul escuro mostra o crescimento que ocorreu no ano. É claro que 2020 pode repetir 2017, mas o registro do passado recente sugere que o crescimento de 2020 deve ficar abaixo do que dizem as previsões de janeiro.




A outra variável fundamental para avaliar uma economia é a inflação. Em 2019 a inflação deve ficar dentro do intervalo da meta e abaixo do centro da meta. O Boletim Focus de 20 de dezembro, último antes desse texto ser escrito, projetava uma inflação de 3,98% para este ano, se consideradas as previsões dos “Top 5” a inflação deste ano vai ficar em 4,04%. Nos dois casos está abaixo da meta, porém não é baixa, a meta que é alta. O pico de inflação em novembro que parece vai se repetir em dezembro deveria ligar o sinal de alerta no Banco Central. É fato que as previsões para 2020 apontam um IPCA na casa de 3,6%, mas se há mesmo uma mudança de regime como sugeriu Paulo Guedes essas previsões têm pouco valor. A figura abaixo mostra a inflação nos últimos anos com destaque para impressionante habilidade da equipe econômica do governo Temer, com Ilan Goldfajn à frente do BC, em controlar a inflação. Note que a linha pontilhada mostra a meta atual que é menor que a meta vigente no governo Dilma.




Muito provavelmente o desempenho do câmbio vai ser a peça-chave para a inflação e para os juros em 2020. A redução da taxa de juros diminui o prêmio de comprar títulos do Brasil, isso tende a fazer com que ocorra uma saída de dólares do país. Com essa saída ficam menos dólares no país e o preço do dólar, que é a taxa de câmbio, aumenta. É por isso que Paulo Guedes falou de um novo regime de juros baixos e câmbio alto. A figura abaixo mostra a taxa de juros no Brasil e nos EUA e ilustra de forma clara a queda da diferença, ou seja, a queda do prêmio de colocar dinheiro no Brasil.




Qual o efeito da redução do prêmio na saída de dólares? Qual o efeito da saída de dólares no câmbio? Qual o efeito do câmbio na inflação? Essas são as perguntas fundamentais para política monetária em 2020. Estudos para o Brasil mostram que o efeito do câmbio na inflação é pequeno, ocorre que esses estudos foram feitos com dados do regime de juros altos e câmbio baixo e hoje, segundo o próprio Paulo Guedes, estamos mudando para um regime de juros baixos e câmbio alto. Uma das principais lições da macroeconomia dos anos 70 é que resultados obtidos com dados de um regime podem não valer quando muda o regime, desta forma estamos no escuro em relação às perguntas acima, especialmente em relação a última. Por isso tenho recomendado cautela e pedido cuidado com a redução dos juros, manda o juízo que dirigindo no escuro andemos devagar.


 Como é possível ver nos dados o descontrole da inflação foi resolvido no governo Temer e, salvo um grande erro na condução da política monetária, não deve assombrar 2020. Outro problema foi o ajuste fiscal, esse é mais demorado para resolver. A projeções de déficit abaixo de R$ 100 bilhões para este ano decorrem de receitas extraordinárias, a redução do gasto ainda é muito pequena para que o governo respire aliviado. Um aumento das receitas pode ajudar no ponto de vista do déficit e da dívida, mas, dado o Teto de Gastos, não vai facilitar a vida do governo. Isso é bom!




O ajuste fiscal de longo prazo ganhou um grande reforço com a aprovação da reforma da previdência. Não vou entrar em debates sem fim sobre o déficit da previdência, tratei disso em várias outras oportunidades, a figura abaixo deve ser suficiente para deixar claro a importância da reforma para o ajuste fiscal. Nela estão os principais componentes na despesa primária do governo central. É visível que o gasto com previdência é o maior, o que mais cresce e o único que não foi controlado com os esforços de ajuste iniciados no final de 2014. Não seria possível controlar o gasto da União sem controlar o gasto com previdência.




O Plano Mais Brasil traz outros reforços para a política fiscal, desta vez no controle da folha de pagamento da União e dos estados. Como é possível ver na figura acima o gasto com pessoal e encargos é a segunda maior despesa primária da União, não apresenta uma tendência crescente como o gasto com previdência, mas é alto. Nos estados e municípios a situação é bem mais complicada. A figura abaixo mostra o comprometimento dos estados com pessoal em 2017, repare que em vários estados o gasto com pessoal e encargos ultrapassa 60% da receita corrente líquida.




Não bastasse os valores altos a tendência dos gastos com pessoal como proporção da receita corrente líquida é de crescimento em vários estados e na média dos estados. A figura abaixo ilustra esse fato.




Para controlar a despesa com pessoal e encargos o Plano Mais Brasil traz um conjunto de medidas, das quais destaco:

       Proibição de promover funcionários (com exceções), dar reajuste, criar cargos, reestruturar carreiras, fazer concursos e criar verbas indenizatórias
       Suspenção criação de despesas obrigatórias e de benefícios tributários
       Permissão para redução de 25% da jornada do servidor com adequação dos vencimentos

Por mais antipáticas que sejam são medidas importantes. A aplicação dessas medidas depende de condições específicas definidas nas PECs encaminhadas pelo governo. Uma pena que o governo tenha comprometido o discurso da necessidade de ajuste na folha ao conceder aumentos generosos aos militares que também ficaram de fora de medidas como a proibição de progressão funcional em períodos de emergência fiscal. Fica difícil pedir sacrifícios para os outros quando se distribui bondades para os seus.

Outra medida importante e polêmica do Plano Mais Brasil é que em 2020 e 2021 o salário mínimo será corrigido apenas pela inflação, ou seja, não haverá ganho real. É um assunto delicado dadas as diversas implicações da medida, mas alguns fatores devem ser considerados. O primeiro é que nos últimos anos o salário mínimo cresceu bem mais que a produtividade do trabalho, isso está ilustrado na figura abaixo.




Alguém pode dizer que isso acontecer para ajustar as perdas salariais ocorridas na década de 1990 ou mesmo desde a década de 1970. É difícil tratar desse assunto, mas a figura abaixo mostra que o salário mínimo cresceu bem mais que a renda média do trabalho. Isso sugere que de fato o salário mínimo cresceu muito e um freio de arrumação é necessário.




Uma outra medida importante do Plano Mais Brasil é suspender repasses do FAT para o BNDES quando de emergências fiscais, quem me acompanha por aqui ou no FB sabe o quanto defendo esse tipo de medida. A revisão dos fundos que foi objeto de PEC específica também parece ser uma boa medida.

Para além do ajuste fiscal e já chegando na crise de longo prazo o governo aprovou a MP da Liberdade Econômica e anunciou um “revogaço”. O quanto dessas medidas se tornarão realidade ou terão efeitos práticos é algo que só o futuro dirá, mas reconhecer o problema de excesso de regulação e tentar melhorar o ambiente de negócios sempre merece registro positivo. A figura abaixo ilustra o tamanho do problema. Saber que dentre os países de renda média-alta apenas na Venezuela é mais difícil pagar impostos do que no Brasil e que apenas na Venezuela e na Bósnia-Herzegovina é mais difícil conseguir permissão para construções do que no Brasil deveria assustar quem quer que pense na capacidade do Brasil retomar o crescimento econômico.




No começo do ano o governo prometeu uma forte agenda de privatizações, chegamos ao fim do ano sem privatizar nem mesmo a Eletrobras. Em respeito ao Salim Mattar vou esperar mais um pouco antes de tirar conclusões mais fortes, mas devo dizer que em 2019 o ousado programa de privatizações que traria um trilhão de reais ficou que nem o caviar da música: “Nunca vi, nem comi, eu só ouço falar”. Outro front onde eu gostaria de ver mais avanços em 2020 é na abertura da economia.

Se o governo tem méritos inegáveis por tentar tocar uma agenda de reformas com vitórias importantes como a reforma da previdência também há uma agenda de contrarreformas que vez por outra dá as caras e assusta. As idas e vindas com a CPMF ou com a versão digital que apareceu no final do ano são um exemplo dessa agenda ruim. Até agora Bolsonaro aguentou firme em não bancar a volta desse tipo de imposto, mas a fixação de Paulo Guedes em taxar transações é algo inexplicável e um tanto quanto preocupante.

O uso da Caixa para reduzir juros é outra política da agenda de contrarreformas, o expediente foi tentado sem sucesso no governo da Dilma e até agora parece não ter dito a que veio no governo de Bolsonaro. Para uma equipe econômica classificada de ultraliberal é no mínimo intrigante entender a razão de no lugar de estarmos discutindo a privatização ou pelo menos a abertura de capital da Caixa estarmos discutindo mais uma tentativa de usar o banco para colocar mais distorções o mercado de crédito. No campo financeiro tivemos também um tabelamento dos juros no cheque especial, essa nem o Mantega tentou. Sei que bons economistas defenderam a medida, tenho muitas dúvidas se defenderiam a mesma medida se tomada por Tombini, mas eu não compro. Para não falar de uma estranhíssima elasticidade preço da educação financeira usada para justificar a decisão registro que o pessoal de economia comportamental, muito evocada para justificar a medida do BC, costuma falar de medidas pequenas. Confesso acompanhar esse campo apenas como curioso, mas se era para tabelar, fazer isso com valores próximos ao de mercado e reduzir o teto aos poucos com avaliações de impacto a cada redução está muito mais próximo do que se discute na área do que fixar do nada um teto que é metade do valor praticado pelo mercado.

As últimas duas contrarreformas que quero registrar são o Programa Verde e Amarelo e os incentivos para construção civil principalmente via Caixa. O primeiro é uma versão piorada das infames desonerações do governo Dilma com o agravante de tentar cobrar dos desempregados parte da conta dos direitos trabalhistas de quem está empregado. A alternativa seria a CPMF digital que, entre outras distorções, cobraria de quem está no setor informal os custos dos direitos trabalhistas dos empregados formais. Os incentivos a construção civil também foram tentados no governo Dilma, o que parecia ser um sucesso virou um problema. Todo cuidado é pouco para não repetir essa história, creio que melhor seria deixar o setor terminar de se ajustar.

Alguém poderia classificar os saques do FGTS como contrarreforma, não concordo que sejam. Primeiro porque trata-se de devolver aos legítimos donos um dinheiro retirado para bancar um fundo com retornos ridículos. Uma expropriação mal disfarçada de benesse, qualquer devolução de recursos do FGTS terá meu apoio com a única crítica da devolução não ter sido maior. Segundo porque existe no pacote onde está a medida um esforço legitimo e necessário para reduzir custos de demissão o que deve reduzir a rotatividade com possíveis efeitos positivos na produtividade do trabalho.

Encerro com um pequeno resumo desse post gigante. Em 2019 o PIB teve um comportamento semelhante ao de 2017 e 2018 mostrando uma recuperação lenta e sólida. Pode parecer frustrante, mas é muito melhor do que outra rodada de crescimento turbinado por estímulos. A inflação é alta, mas está na meta, portanto não posso falar de perda de controle ou de luz vermelha, mas a luz amarela está acesa e nervosa. O governo bancou uma agenda de reformas importante com destaque para a reforma da previdência e para a MP da Liberdade Econômica. Existe uma agenda de contrarreformas que até agora não comprometeu as reformas, mas demanda atenção máxima. O perigo está na esquina.



quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Brasil e Chile: o que dizem os números?


Por conta das manifestações no Chile começou a correr por aqui uma tese de falência do modelo chileno, sobrou até para Paulo Guedes por ter dito que o Chile é uma boa referência para o Brasil. Basta uma rápida lida no noticiário para lermos sobre como o neoliberalismo destruiu o Chile e coisas do tipo. Quem acompanha o crescimento econômico dos países da América Latina estranhou as crônicas sobre o fracasso do Chile e do neoliberalismo na América Latina, afinal se há algo que todo mundo que conhece um pouco do assunto sabe é que o Chile teve um desempenho econômico muito superior ao Brasil nas últimas décadas. De fato, o Chile ultrapassou e abriu larga vantagem sobre o Brasil em termos de renda por pessoa. Como o Chile não seria um bom exemplo?

A figura abaixo mostra o desempenho do PIB per capita corrigido por poder de compra no Brasil e no Chile desde 1990 (primeiro ano da série disponível na base de anos do Banco Mundial). A superioridade do desempenho econômico do Chile é evidente. Se o leitor está preocupado com a data ou com a fonte informo que segundo o FMI em 1980 o PIB per capita do Brasil era de $11.372,210 e o do Chile era de $7.986,483, enquanto em 2018 o PIB per capita do Brasil foi de $14.359,539 e o do Chile foi de $23.092,070.




Se há algo pouco discutido em teoria do crescimento econômico é que indicadores sociais costumam estar positivamente correlacionados com PIB per capita, por isso essa última variável costuma ser citada em comentários rápidos ou mesmo em artigos científicos comparando o desempenho econômicos de dois ou mais países. Por algum motivo que desconheço essa sabedoria convencional foi abandonada no caso do Brasil e do Chile e começou a circular uma tese que apesar do PIB per capita maior que o nosso os chilenos tinham uma vida pior que a nossa. Para checar essa tese resolvi dar uma olhada em vários indicadores disponíveis na base de dados do Banco Mundial.

Seguindo a recomendação do Angus Deaton, prêmio Nobel de Economia em 2015, comecei olhando a expectativa de vida. A expectativa de vida dos chilenos é maior que a nossa, ou seja, além de mais ricos eles vivem mais. Justiça seja feita a expectativa de vida deles era maior que a nossa desde quando eles eram mais pobres do que nós, logo fica difícil relacionar esse fato com o desempenho econômico do país nas últimas décadas. Alguém podia tentar comparar a variação na expetativa de vida, mas dado que parece existir um limite superior para essa variável, comparar variações pode ser complicado.




Resolvi olhar então para políticas sociais, especificamente os gastos com saúde e educação em cada país. A figura abaixo mostra que os gastos com saúde como proporção do PIB são maiores no Brasil do que no Chile, porém os gastos do governo com saúde são maiores no Chile do que no Brasil. Esses dados não confirmam a tese que a social democracia brasileira construiu um governo mais preocupado com a saúde do povo do que o neoliberalismo chileno.




Em termos de percentual do PIB per capita o governo brasileiro gasta mais com educação do que o governo chileno, alguém poderia concluir que essa é uma das causas das revoltas. Ocorre que o Chile tem um PIB per capita mais alto que o Brasil, como o gasto com educação, principalmente nos níveis primários e secundários, não cresce na mesma proporção da renda esse resultado não chega a ser surpreendente.




Se tomado o gasto absoluto o gasto do governo chileno por estudante é maior que o do governo brasileiro na educação primária e secundária. Na educação terciária, onde estão as universidades, o gasto do governo brasileiro é maior que o do governo chileno. Como as pessoas que chegam ao nível terciário costumam ter mais renda que as pessoas que param nos níveis primário ou secundário o dado sugere que a social democracia brasileira se preocupa menos com os mais pobres que o neoliberalismo chileno.




Uma comparação do Chile com o Brasil mostra que o Chile é menos desigual que o Brasil. Ambos apresentam altos índices de desigualdade e em ambos a desigualdade, medida pelo índice de Gini, está caindo nas últimas décadas. Se alguém culpa o neoliberalismo chileno pela desigualdade no país, mais culpa ainda deve creditar a social democracia brasileira pela desigualdade do Brasil. Vale registrar que alta desigualdade é quase que uma característica da América Latina.




A participação dos 10% na renda é maior no Chile neoliberal do que no Brasil social democrata. Nos dois países essa participação apresenta tendência de alta, porém no Brasil houve uma queda em 2017. Os pontos destacados na figura são os anos usados para construir a figura por conta de dados disponíveis para os dois países.




A fração da renda apropriada pelos 10% mais ricos mostra tendência de queda nos dois países, porém é menor no Chile do que no Brasil. Assim como nos 10% mais pobres, ocorre uma reversão no último ano na queda da fração de renda dos 10% mais ricos no Brasil. É possível que as duas reversões estejam relacionadas à grande crise iniciada em 2014, mas isso é assunto para outro post.




O acesso a internet pode ser um indicador interessante para entender a qualidade de vida nos dois países. Em ambos o percentual da população com acesso a internet apresenta tendência crescente. Em meados da década a tendência do Chile parece ter ficado mais forte, porém no último ano há uma pequena reversão.




Até agora os dados mostram que os chilenos são mais ricos, vivem mais, recebem mais do governo em saúde como proporção do PIB, recebem mais do governo em educação primária e secundária, moram em um pais menos desigual onde os 10% mais pobres apropriam uma fração maior da renda e os 10% mais ricos apropriam uma fração da renda menor do que o observado no Brasil. Deixei por último as comparações relativas a estrutura setorial da economia.




O Chile tem uma dependência de recursos naturais bem maior que o Brasil. Sabedoria comum no Brasil de meados do século passado e que nem tão supreendentemente tem força até hoje diria que isso faria do Chile um país mais pobre, mais desigual e mais sujeito a choques externos que o Brasil. Os dois primeiros vimos que não é verdade, o terceiro deixo para outra ocasião. Trouxe o assunto por desconfiar que alguns que proclamam a falência do neoliberalismo no Chile estão tirando conclusões a partir da sabedoria convencional de meados do século passado e sem olhar os dados.




Deixei por último a manufatura. Há quem diga que o neoliberalismo destrói a indústria do país. É fato que a participação da manufatura no PIB do Chile vem caindo desde a década de 1980, um fenômeno que não é exclusivo do Chile nem da América Latina. Ocorre que a queda da participação da manufatura do PIB no Brasil entre 1980 e 2018 foi muito maior que no Chile. Em 1980 a manufatura correspondia a 30,3% do PIB no Brasil e a 21,4% do PIB no Chile, em 2018 esses números eram 9,7% no Brasil e 10,6% no Chile. Se considerarmos o começo do século a queda no Chile foi maior que aqui, mas isso parece estar mais relacionado ao aumento de preços das commodities, recursos naturais são mais relevantes lá do que aqui, do que a herança neoliberal de Pinochet.

Nesse post mostrei vários indicadores mostrando que o Chile é mais rico e menos desigual que o Brasil. Mostrei indicadores dando conta que o governo do Chile gasta mais em proporção ao PIB com saúde que o governo brasileiro e que o governo do Chile tem mais foco em educação primária e secundária que o brasileiro. Por fim mostrei que apesar de ter maior dependência de recursos naturais o Chile tem uma manufatura como proporção do PIB quase igual à do Brasil, um pouco maior em 2018. Deixo para o leitor decidir se Paulo Guedes está certo ou errado em buscar inspiração no Chile para reformar a economia brasileira.