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quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Estimular a demanda não funciona quando o choque é de oferta.

Logo no começo da pandemia houve um forte choque de demanda, evidência disso foi a queda de preços nos primeiros meses, mas na sequência, fica cada vez mais claro, o cenário é de choque de oferta. Nesses casos olhar para hiato de produto, seja lá o que for isso, ou desemprego para desenhar política monetária é um erro perigoso. A maneira adequada de ler a queda da produção, que algum pensam ser o tal hiato, é condicionar aos choques que mudaram as condições de oferta.

Um exemplo mais simples do que a pandemia é um eventual racionamento de energia. Não faz muito sentido ler a queda de produção advinda desse choque como uma diferença do produto observado em relação ao produto potencial, mais correto é entender que, pelo menos enquanto durar o racionamento, o produto potencial diminuiu. O caso da pandemia é mais complicado, inclusive por conta do choque de demanda muito forte no início, mas a lógica é a mesma: pelo menos temporariamente há uma redução do produto potencial. Dito de outra forma, o produto deve ser lido como condicionado ao choque de produtividade.

O perigo da confusão vem do tipo de política que acaba sendo usada. Se a queda de produção (ou aumento do desemprego) tem origem na demanda há justificativas teóricas para defender a expansão da demanda, e.g. política monetária expansionista, como solução. No caso de um choque de oferta negativo, porém, esse tipo de política vai bater forte nos preços. É o que está acontecendo no Brasil e em outros países.

Não é algo novo. Fenômeno semelhante aconteceu quando do Choque do Petróleo no começo (e no final dos anos 70), naquela época também fizeram essa confusão e o resultado foi inflação em vários países, em alguns casos ocorreu a estagflação. Outra consequência foi o “renascimento” dos modelos macroeconômicos com foco em choques de oferta que mudaram o jeito de fazer macroeconomia. 

Aparentemente os métodos desenvolvidos nesse “renascimento” ficaram, vide modelos DSGE, mas as lições relativas aos choques de oferta foram esquecidas. Pena. Tivesse feito a leitura pelo lado do choque de oferta, a que eu considero adequada, o BC (e a turma do mercado) não teria errado tanto.




sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Eu ainda não falaria em "V", deve ser porque sou chato.

Alguns economistas gostam de usar letras para descrever fenômenos relacionados à dinâmica da economia, o crescimento é um dos alvos favoritos dessa turma. No governo Dilma, lá por 2012, teve a turma do “J”. A teoria era que as políticas de Dilma, a hoje infame Nova Matriz Econômica, levaria a uma queda inicial e depois a um forte aumento na taxa de crescimento da economia. Não foi o que aconteceu, se a taxa caiu e lá ficou com um “L” ou se caiu e depois caiu mais seguindo alguma letra que agora não me vem a memória é coisa que deixo para o leitor especular.

Agora temos a recuperação em “V”. A tese é que a forte queda do PIB por conta da pandemia terá uma rápida recuperação. Da minha parte prefiro esperar para ver, mas ao me deparar com um gráfico de recuperação em “V” supostamente elabora pela Secom resolvi fazer a minha versão da recuperação da economia brasileira. Para isso usei o índice do PIB na tabela de séries encadeadas de índices de volume com correção sazonal, uma série que corrige pela variação nos preços e por fatores sazonais.

A figura abaixo mostra a recuperação do PIB. Usei a escala sugerida pelo ggplot/R, que também é minha preferida por permitir o foco no movimento de interesse. Repare que mesmo com o forte crescimento no terceiro trimestre ainda não voltamos ao nível do primeiro trimestre de deste ano, lembre que a série passou por ajuste sazonal.

 


Os dados adequados para avaliar a recuperação do nível de produção não descartam que o “V” possa acontecer, tudo vai depender do quarto trimestre, mas também não dá para dizer que o “V” já aconteceu. Como disse no post anterior a hora é de ter calma e seguir com as reformas até porque, mesmo com a recuperação da crise causada pela pandemia, ainda temos que nos recuperar da grande crise que fez desta uma década perdida mesmo antes deste novo Coronavírus aparecer.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Outro post sobre as medidas econômicas de combate à crise causada pelo coronavírus.


Nesta semana, mais precisamente no dia 27/04, o Observatório de Política Fiscal do IBRE/FGV fez um apanhado das medidas econômicas de combate à crise causada pelo coronavírus. O documento apresenta uma comparação das medidas no Brasil e em outros países e faz algumas decomposições das medidas do Brasil, recomento que leiam o relatório completo (link aqui) ande de ler esse post que nada mais é do que minha leitura dos números que estão lá.

Comparações internacionais são sempre delicadas, a mais completa que conheço é do FMI (link aqui), mas até que o FMI sinta segurança para resumir em uma base de dado é melhor tomar cuidado e resistir à tentação de usar esses dados para comparações entre países. A nota do IBRE, assinada pelo Manoel Pires que é meu colega de departamento, faz ressalvas quanto aos números, recomendo que leiam. Aqui vou usar os números que estão na tabela partindo do princípio de serem os mais adequados para comparações.

A figura abaixo mostra os programas de combate à crise, excluídas medidas de crédito, nos países da amostra do IBRE. Repare que o Brasil só fica atrás do Canadá e da Austrália. O número está em claro contraste com análises que sugerem que o governo brasileiro está optando por austeridade no meio da pandemia. A impressão de excesso de timidez nos programas do governo talvez decorra da inacreditável sequência de declarações infelizes (para dizer o mínimo) do Presidente da República a respeito da pandemia somada aos constantes ataques às medidas de isolamento. O resultado do IBRE não pode ser comparado diretamente com os resultados de outro post que fiz sobre o assunto (link aqui), mas ambos negam a tese que os programas de ajuda do governo são tímidos.



Em contraponto aos programas governamentais, os gastos com créditos fiscais como proporção do PIB por aqui estão entre os menores da amostra. Vale, porém, ressaltar que estamos na frente da Argentina e do Chile, os dois únicos países latinos da amostra, de fato, todos os outros países são classificados pelo FMI como avançados. Se a posição modesta é por sermos emergentes em uma amostra composta majoritariamente por países ricos, se decorre de outras características do país, especialmente do sistema financeiro, ou se é excesso de timidez do governo deixo para discutir em outra oportunidade.




A figura abaixo junta os dados da segunda e da terceira tabela do texto do IBRE para comparar o quanto destinado aos vários tipos de ações do governo. Os três maiores itens foram:

  • Novas despesas: destaque para transferência de renda extraordinária (R$ 124,2 bilhões), um programa que ainda pode aumentar nos próximos meses, e complementação de redução da jornada com seguro desemprego *R$ 51,2 bilhões)
  • Adiamento de receitas: destaque para postergação do PIS/Cofins e contribuição patronal por dois meses (R$ 82 bilhões) e para o diferimento por três meses do FGTS (R$ 30 bilhões).
  • Suporte a Estados e Município: destaque para transferências diretas (saúde, alimentação escolar, SUAS e repasses diretos) e suspensão temporária das dívidas de estados e municípios com a União (R$ 22,6 bilhões).


Como a nota do IBRE tem como um de seus objetivos comparar os programas destinados ao setor privado (talvez fosse melhor falar empresas e famílias, mas isso é outra conversa) com os programas de suporte a estados e municípios os dados ficaram separados em duas tabelas. Fiquei preocupado que ao juntar eu acabasse incorrendo em dupla contagem, mas, como a soma dos gastos deu igual à do IBRE creio que não foi o caso. De fato, o único número da nota que não reproduzi foi o do gasto como proporção do PIB das medidas com impacto no gasto primário que deu 4,3% na nota e eu cheguei a 4,58%, a diferença parece vir das medidas de desoneração que , creio eu, devem entrar na conta, mas a nota desconsidera para chegar ao número final.

A figura abaixo mostra três diferentes composições para o gasto total. A primeira coluna mostra as medidas de crédito em azul (2,06% do PIB) e as outras medidas (6,98% do PIB) em vermelho. A segunda coluna mostra as medidas de suporte a estados e municípios (1,83% do PIB) em azul e as outras medidas em vermelho (7,21% do PIB). A última coluna mostra as medidas com impacto no gasto primário (4,58% do PIB) e azul e as medidas sem impacto no primário (4,46% do PIB) em vermelho. Ao contrário da discrição deste parágrafo, no gráfico apresento os valores em bilhões de reais.




Para uma análise do papel das medidas de crédito seria importante ter as medidas de crédito sem impacto fiscal, grosso modo as medidas tomadas pelo Banco Central envolvendo garantias, liberação de compulsórios e redução de juros. De modo geral creio que a melhor estratégia prioriza medidas de crédito em detrimento de políticas de gastos, mas entendo que nem sempre é possível perseguir a melhor estratégia, ainda mais no meio de uma pandemia e com todas as tensões políticas que estamos presenciando.

As medidas de suporte a estados e municípios devem ser discutidas na próxima semana, o mais prudente a fazer é esperar mais um pouco antes de qualquer avaliação. É certo que a União deve ajudar os entes subnacionais, mas a ajuda deve estar condicionada a contrapartidas pro parte de prefeitos e governadores. Como já foi dito em outros lugares, não faz sentido a ajuda da União virar aumentos ou gratificações para servidores públicos em carreiras sem envolvimento direto com o combate à pandemia.

Imagino que o pessoal do governo esteja fazendo um esforço para minimizar as medidas com impacto direto no gasto primário, desde antes da crise, na realidade desde o final de 2014, o governo vem tentando reduzir o déficit primário. Mesmo assim, como mostra a figura, cerca de metade do gasto para combater a crise vai afetar o gasto primário. O impacto das medidas de combate à crise no gasto primário vai comprometer o esforço fiscal dos últimos cinco anos e três governos, porém é inevitável e, dado que o governo vai ser obrigado a gastar o que não tem, sobra tentar fazer esse gasto com o máximo de zelo e eficiência. Um cuidado a ser tomado é priorizar medidas temporárias em detrimento de medidas permanentes, não esqueci a lição de Friedman sobre o caráter permanente das medidas temporárias adotadas pelos governos, me conforto imaginando que Paulo Guedes também não esqueceu.


domingo, 5 de abril de 2020

The Economist e o impacto da Covid-19 nas economias dos países do G20.


Enquanto não soubermos a duração das medidas de isolamento que estão sendo tomadas para reduzir a velocidade de contágio da Covid-19 não será possível obter estimativas confiáveis do estrago que esta pandemia vai causar nas economias de todos os países do mundo. A relação é direita, se, por milagre, amanhã aparecer um remédio barato e de fácil acesso capaz de curar e imunizar a todos, então as empresas retomarão as atividades e as pessoas voltarão a comprar. Neste caso os empregos que ainda não foram destruídos serão retomados e o estrago causado pelo coronavírus não será tão grande. Porém, se até setembro ou outubro não aparecer uma cura ou uma vacina e tivermos de sair do isolamento, mesmo que parcial, no desespero e sem confiança para comprar ou investir o estrago será enorme. No meio do caminho existem várias possibilidades, casa uma com impacto diferente na economia.

Mesmo com tanta incerteza a unidade de inteligência da revista The Economist resolveu elaborar previsões para o crescimento em 2020 para os países do G20 já levando em conta os efeitos da Covid-19 (link aqui). Dado que a fonte é respeitada e fazia tempo que não postava aqui, resolvi comparar as previsões pré-crise com as previsões pós-crise.

Antes da crise a média de crescimento dos países do G20 previsto pela The Economist era de 2%. O maior crescimento foi previsto para Índia, 6%, seguida de China, 5,9%, e Indonésia, 5,1%, apenas a Argentina tinha previsão de queda no PIB. Neste mundo pré-crise o crescimento do Brasil estava previsto em 2,4%, menor apenas que os dos três já citado e da Turquia, 3,8%. A figura abaixo mostra o crescimento previsto antes da crise.




Como era de se esperar a pandemia mudou todo o cenário, a média das previsões pós-crise aponta uma queda de 3%, apenas Índia, 2,1%, Indonésia, 1%, e China, 1%, vão crescer este ano de acordo com as previsões da The Economist. A maior queda é prevista para Itália, o Brasil deve ter a quarta maior queda de PIB com uma variação de -5,5%. Além da Itália, apenas Alemanha e Argentina têm previsão de queda no PIB maiores que no Brasil. A figura mostra o crescimento previsto depois da crise.




Um último exercício consiste em comparar os números das duas figuras. A maior diferença entre o crescimento previsto antes da crise e o crescimento previsto depois da crise é observada no Brasil. A valer as previsões da The Economist dentre os países do G20 o Brasil é o que terá a maior perda de crescimento por conta da Covis-19, a figura abaixo ilustra a diferença entre as previsões de crescimento antes de depois da pandemia.




O artigo da The Economist Intelligence Unit não aprofunda na discussão das razões para uma variação tão grande no Brasil, eu também não vou fazer isso. Está tudo muito incerto para arriscar análises mais profundas, resta seguir buscando alternativas para minimizar o impacto da crise na economia e manter a esperança que o pessoal da áreas de saúde, que tem a liderança nesta crise, encontre o mais rápido possível uma cura, uma vacina ou alguma outra forma de superar essa pandemia e permitir que voltemos à nossas vidas normais.


segunda-feira, 3 de junho de 2019

A construção de uma crise

Cerca de 85% da construção de navios do mundo está concentrada em três países: China, Japão e Coreia do Sul. Mesmo assim um tecnocrata em Brasília resolve que por ter uma grande costa ou por ser a terra do Medina que é um grande surfista o Brasil deveria produzir navios.
O sujeito leva a ideia para um político que rapidamente encontra empresários que se prontificam a tocar a empreitada. Não com dinheiro deles, é claro, com dinheiro do governo, subsídios, garantia de estatais comprando os navios e coisas do tipo. Por coincidências os empresários são grandes doadores para campanhas do partido do governo...
Por certo a construção dos navios gera empregos e atrai novos investimentos. De donos de restaurantes a grandes indústrias que vão vender para os estaleiros todo mundo fica feliz e ganha dinheiro. O desemprego cai, o salário aumenta, a economia cresce. O milagre da intervenção fez seu trabalho, mas...
O tempo passa e os navios produzidos, quando ficam prontos, não são páreo para navios asiáticos. Não é por acaso que Estados Unidos ou Inglaterra não lideram a construção naval, a turma da Ásia é boa nisso. As empresas que compraram os navios, via de regra estatais, começam a pagar o preço da ineficiência.
Para surpresa de ninguém, talvez apenas do tecnocrata, os estaleiros se mostram inviáveis. Os navios ficam sem uso, mas como não dá para dobrar e guardar navios no armário os custos começam a aumentar.
A ilusão então se acaba. Os empregados criados são destruídos, parte das empresas criadas para atender os estaleiros perde o sentido de existir, projetos desenvolvidos para atender a demanda dos estaleiros também perdem a razão de ser.
Há que chame isso de capacidade ociosa, mas não é, está mais capacidade inútil. Outros sugerem estimular a demanda por navios ruins, mais outro erro. A verdade é que os estaleiros criados dessa forma nunca deveriam ter existido, por isso não faz sentido colocar mais dinheiro neles.
Isso quer dizer que não existem estaleiros viáveis no Brasil? Não. Isso quer dizer que nunca vão existir estaleiros viáveis no Brasil? Também não. O que isso é quer dizer é que fizemos tudo errado no caso dos estaleiros e em tantos outros casos de projetos realizados apenas para atender ego de burocratas e interesses de políticos e grandes empresários.
A verdade é que ali pela virada da década não estávamos construindo estaleiros, refinarias e etc. Estávamos construindo uma grande crise.


domingo, 2 de junho de 2019

Investimento é bom, mas pode ser muito perigoso.


A queda do investimento observada nas contas nacionais relativas ao primeiro trimestre de 2019 assustou um bocado de gente. O susto tem suas razões. Queda no investimento significa redução na capacidade de produção futura e sugere que os empresários não estão confiantes com o futuro da economia. Fica pior, como a compra de novas máquinas e equipamentos é uma das maneiras mais importantes de colocar novas tecnologias no processo produtivo a falta de investimentos pode acabar por comprometer a produtividade afetando o crescimento de longo prazo. Se o leitor é daqueles que olha a macroeconomia pela demanda a queda do investimento traz uma preocupação adicional que é a queda na demanda agregada. Enfim, existem muitos bons motivos para se preocupar com a queda do investimento.

Todos os perigos acima e mais uns tantos outros foram e estão sendo discutidos em vários textos em blogs, jornais e rede sociais. Porém tem um perigo que raramente é apontado e que pode ser mais desastroso que qualquer um dos outros que citei. Meu maior medo com a queda do investimento é que a pressão para estimular a economia por meio de subsídios ou outras medidas focadas no investimento se torne insuportável. Conheço boa parte da equipe econômica, sei que eles sabem o perigo que seria estimular o investimento, mas também sei que algumas vezes a pressão política fica muito forte e a equipe econômica acaba sendo obrigada a escolher entre ceder ou pedir para sair. No momento não creio que estejamos próximos a esse ponto, mas, paranoico que sou, resolvi fazer o alerta menos para equipe econômica e mais para quem já começa a pressionar por medidas de estímulo ao investimento.

Como disse antes nesse mesmo post investimento é uma variável importante, também já disse em outros lugares que a taxa de investimento no Brasil é baixa e precisaria ser mais alta para que possamos ter uma boa trajetória de crescimento. Ocorre que o aumento da taxa de crescimento não pode ser obtido a qualquer custo, a verdade é que investimento é uma variável muito perigosa. É muito fácil errar na mão nas tentativas de estimular o investimento e acabar gerando desastres.

Antes de seguir peço licença ao leitor para fazer uma comparação que não tem relação com economia. Imagine um jovem muito fraquinho que precisa ganhar massa muscular, o caminho para isso passa por uma dieta adequada e intermináveis seções de ginástica/musculação. Se fizer tudo direitinho o jovem vai ficar mais forte e mais saudável, mas existem tentações no caminho. Durante os intermináveis (e infernais) treinos na academia o jovem pode esbarrar com a possibilidade de tomar anabolizantes que aceleram o crescimento muscular. Em circunstâncias específicas e com o devido acompanhamento médico os anabolizantes podem até ajudar, não sei dizer, mas no mais das vezes os anabolizantes podem fazer um estrago na saúde com consequências muito mais graves que se o jovem tivesse ficado fraco. Mal comparando os estímulos ao investimento são como os anabolizantes. Teoricamente, se aplicados de forma correta e com o devido acompanhamento podem até ajudar, mas no mais das vezes são desastrosos.

A figura abaixo mostra a taxa de investimento, medida como a razão entre formação bruta de capital fixo e o PIB, no Brasil pós-estabilização. Repare que fica abaixo de 20% durante quase todo o período apresentando trajetória de queda até 2003, considerando o esforço para evitar uma volta à hiperinflação a queda da taxa de investimento a partir de meados da década de 90 não chega a ser um espanto. Em 2003 a taxa de investimento bate em 16,5% e começa a subir. Não foi um crescimento artificial, pelo contrário, em 2003 o recém empossado governo Lula implementou um aperto fiscal com Palocci na Fazenda e um aperto monetário com Meirelles no BNDES. Em 2005 o aumento da taxa de investimento ganha força, naquele ano começava a ser preparada a guinada na política econômica. Foi em 2005 que a então Ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, barrou o plano de ajuste fiscal de longo prazo apresentado por Palocci, em 2006 o Ministro da Fazenda passa a ser Guido Manega, um entusiasta das teses desenvolvimentistas, e em 2007 é lançado o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC).




A tacada decisiva para a guinada da política econômica veio em 2008 com a Crise Financeira nos EUA. A queda da taxa de investimento em 2009 era absolutamente natural e até certo ponto desejável dado que representava a adequação da economia brasileira ao mundo pós-crise. A equipe econômica liderada por Mantega pensava diferente e aprofundou a estratégia de estímulo ao investimento simbolizada pelo Programa de Sustentação do Investimento (PSI). Ao contrário do PAC que era mais uma peça de propaganda vinda da unificação de vários planos de investimento existentes com foco em infraestrutura o PSI era um típico programa de estímulo com uso e abuso de crédito subsidiado. O Programa Minha Casa Minha Vida (PMCMV), também de 2009, complementava o PAC como mecanismo ao estímulo de investimento em residências.

O objetivo de elevar a taxa de investimento deu certo. Mesmo no meio de uma crise internacional a taxa de investimento no Brasil ficou acima de 20% de 2010 a 2014, em nenhum outro período desde a estabilização tivemos taxas de investimento tão altas. Na verdade, desde 1989 não tínhamos taxas de investimento acima de 20%. Ocorre que no lugar de prosperidade os cinco anos seguidos de taxa de investimento acima de 20% desembocaram na crise gigantesca que ainda estamos vivendo. Em 2014 os anabolizantes cobraram o preço e a taxa de investimento começou a cair. Com todo tipo de malandragem que incluíram fraude fiscal para bancar as políticas de estímulo de ao investimento foi possível manter a taxa de investimento acima de 20% em 2014. O esforço desesperado e destrambelhado foi suficiente para que o governo ganhasse a eleição daquele ano, mas agravou ainda mais a crise que já se revelava. A última dose de anabolizante para chegar forte no verão quase matou o paciente.

Em 2015 a taxa de investimento caiu para 18,2%, em 2016 foi de 16,5% e em 2017 chegou a 16,9%, valor mais baixo da série, em 2018 houve uma recuperação e a taxa foi para 16,5%. A queda do investimento no primeiro trimestre de 2019 faz parte desse processo, por certo existe na queda um reflexo das confusões que o governo fez em seus primeiros meses, mas isso não muda a realidade do contexto em que ocorre a queda. Se a queda decorre unicamente das confusões, como parecem acreditar alguns colegas, a solução é acabar com as confusões e não fazer políticas de estímulo ao investimento. Particularmente perigosa é a ideia de calibrar a política monetária (ou cambial) olhando para estímulos ao investimento e não pela inflação. Deixem o Banco Central fazer o trabalho dele no controle da inflação, manter a estabilidade é melhor contribuição que o BC pode dar ao crescimento, ao combate à pobreza, a redução da desigualdade e etc.

Não é a primeira vez que vemos um ciclo de investimento alto ser seguido por uma crise no Brasil. A figura abaixo expande a anterior para incluir o período de 1970 a 1995. Repare que o ciclo de altas taxas de investimento, entre 1974 e 1976 ficou acima de 30%, é seguido de uma queda brusca chegando a 20,1% em 1984. No meio de todo tipo de distorções valendo desde maxidesvalorizações do câmbio no governo Figueiredo até congelamento de preços no governo Sarney conseguiram “recuperar” a taxa de investimento que chegou a um pico de 23,2% em 1986. Foi a última vez que tivemos uma taxa de investimento superior a 23%, a partir daí foi ladeira abaixo com direito a década perdida e hiperinflação.




Não estou dizendo que a crise da década de 1980 ou a crise atual decorrem unicamente de políticas de incentivo ao investimento, assim como a queda de um avião grandes crises resultam de uma série de erros, mas afirmo que tais políticas tiveram um papel decisivo na construção dessas crises. Via de regra estímulos ao investimento levam à produção de bens que não são desejados ou à produção ineficiente de bens desejados. Nos dois casos ocorre uma perda de eficiência da economia, em tese, se muito bem trabalhada, essa perda de eficiência pode ser pequena e até mesmo vir a ser compensada por ganhos de eficiência no futuro. Mesmo que essa tese seja verdadeira a prática do Brasil mostra que não sabemos dosar os estímulos, tanto a década de 70 quanto período entre 2005 e 2014 foram pródigos em projetos megalomaníacos, compadrios e projetos simplesmente errados.

No caso mais recente a Polícia Federal e o Ministério Público mostraram para além de qualquer dúvida razoável que muitos dos estímulos foram movidos à corrupção. Da década de 70 é mais difícil falar, não possuíamos na época a instituições necessárias para expor as entranhas dos estímulos. De toda forma, com ou sem corrupção, retomar uma política de estímulos é repetir um erro que já nos custou algumas décadas e nada indica que dessa vez será diferente. O caminho das reformas é lento e sofrido, mas é o único caminho que temos para corrigir os erros passados e preparar um futuro melhor. Paulo Guedes sabe disso, espero que Bolsonaro também saiba o suficiente disso para resistir as pressões que virão e seguir no caminho das reformas.


segunda-feira, 23 de outubro de 2017

A crise é culpa de nossa, vá lá, dependência de recursos naturais?

O estoque de desculpas para isentar a política econômica desastrosa de Dilma pela crise que estamos passando é gigantesco, quase infinito, uma que recentemente é que a crise deve ser debitada na queda nos preços das commodities. A tese tem seu apelo, de fato houve uma queda de preços nas commodities e naturalmente países produtores desse tipo de produto sofreram com tal queda, curiosamente os que apontam a queda do preço como causa da crise não costumavam apontar a elevação dos mesmo preços como explicação para o crescimento nos mandatos de Lula, mas isso é outra conversa.

Voltemos a tese que a crise é culpa das commodities. Para checar se procede peguei na base de dados do Banco Mundial a valor das rendas dos recursos naturais como proporção do PIB em todos os países disponíveis. Fiz a média entre 2009 e 2013, os cinco anos anteriores ao início oficial da crise, e selecionei os países onde a renda de recursos naturais como proporção do PIB foi maior do que a observada no Brasil. Feita a seleção fui na base de dados do FMI e peguei a taxa de crescimento desses países entre 2014 e 2017, o valor de 2017, naturalmente, é uma estimativa do FMI. Por fim exclui os países com menos de um milhão de habitantes.

Em média as rendas dos recursos naturais correspondem a 20,3% do PIB desses países, no Brasil corresponde a 5,6% do PIB, a mediana foi 15,9%. O maior valor foi encontrado na República do Congo, 63,3%, além da República do Congo o Kuwait tem rendas de recursos naturais acima de 50% do PIB. Na Arábia Saudita, Gabão, Mauritânia, Iraque, Azerbaijão, Turcomenistão e Qatar as renda de recursos naturais ficaram acima de 40% do PIB. De todos esses com mais de 40% do PIB advindo de recursos naturais apenas o Azerbaijão teve crescimento médio negativo entre 2014 e 2017, mesmo assim a queda de -0,2% ao ano foi menor que a queda de -1,5% ao ano observada no Brasil.

Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru, todos com rendas de recursos naturais correspondendo a mais de 10% do PIM< cresceram entre 2014 e 2017. O México, onde essa renda é de 8%, cresceu em média 2,3% ao ano no período. De fato, o crescimento médio dos países onde a renda de recursos naturais como proporção do PIB é maior que no Brasil foi de 3,29%, o mediano foi de 3,31%. Alguns países da amostra tiveram desempenho pior que o Brasil, um deles foi a Venezuela onde as rendas dos recursos naturais corresponderam a 24,1% do PIB e a taxa de crescimento média foi de -9,6% ao ano, por pura coincidência, é claro, por lá também tentam colocar o desastre econômico na conta da queda dos preços das commodities. Além da Venezuela dos 70 países na amostra apenas a Ucrânia e Trinidade e Tobago tiveram um desempenho pior que o do Brasil. Serra Leoa, Azerbaijão, Rússia e Burundi tiveram crescimento negativo, porém a queda nesses países foi menor que no Brasil. A figura abaixo mostra a proporção das rendas de recursos naturais no PIB e a taxa de crescimento no Brasil e em todos os países da amostra com exceção da Venezuela que foi retirada para evitar distorções.





Como pode ser visto a relação é negativa, isso não quer dizer muita coisa. O que impressiona na figura é que países onde as rendas dos recursos naturais como proporção do PIB são muito mais expressivas que no Brasil tiveram um desempenho econômico bem melhor que o nosso. Naturalmente alguns políticos e economistas vão continuar culpando a queda nos preços das commodities por nossa crise (e também pela crise na Venezuela), o que essas pessoas dificilmente vão conseguir explicar é porque países tão distintos como Índia, Peru, Rússia, Arábia Saudita, Chile, México, Noruega, Colômbia e Uzbequistão, além de tantos outros que não receberam destaque na figura, se saíram melhor que o Brasil, alguns muito melhor, mesmo com a tal dependência de recursos naturais ainda maior que a nossa. Talvez por que não tenham tido algo parecido com a Nova Matriz Econômica... vai saber.


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Mais mentiras da propaganda do PT: Quando começaram os cortes de gastos nas áreas sociais?

Ontem fiz um post desmentindo uma das teses da propaganda do PT: a de que em 2015 estávamos em crise por conta de fatores externos (link aqui). Hoje o foco vai para outra tese ainda mais absurda e ofensiva: a de que em 2016 ocorreu um golpe que tinha como um de seus objetivos cortar gastos sociais. Segundo a propaganda petista vivíamos em um país maravilhoso até que em 2015 uma crise causada por fatores externos abateu nossa economia e golpistas malvados derrubaram Dilma com o objetivo de fazer o povo sofrer. Na tese delirante os golpistas começaram a cortar gastos sociais, especialmente em saúde e educação, tão logo chegaram ao poder e isso fez com que o Brasil voltasse a ser um país cheio de injustiças e miséria.

Fora da fantasia petista os cortes começaram ainda no governo Dilma e foram causados pelo mais elementar motivo para cortes de gastos: o dinheiro acabou. Anos de políticas econômicas irresponsáveis com bilhões em desonerações e subsídios para empresários amigos do governo, investimento sem retornos também em parceria com empresários amigos e programas mal planejados inviabilizaram as políticas do governo federal. Para ilustrar o ocorrido peguei os dados de despesas discricionárias do Ministério do Desenvolvimento Social, do Ministério da Saúde e do Ministério da Educação. Os dados estão na página da Secretaria do Tesouro Nacional (STN, link aqui), usei o acumulado em doze meses com valores deflacionados para agosto de 2017. Usei os gastos discricionários porque são os que costumam ser cortados em caso de ajustes, cortar gastos obrigatórios exige mudanças na legislação e/ou um longo período de ajuste para que a inflação faça o trabalho. A figura abaixo mostra os dados.




Repare que todos os gastos começaram a cair antes da posse de Temer como presidente interino. De fato, após a posse de Temer, observamos um aumento do gasto discricionário do Ministério da Saúde e estabilidade no gasto discricionário do Ministério do Desenvolvimento Social. Ambos vinham em tendência de queda no final dos governos petistas, expressão usada na propaganda do partido, e tiveram a tendência revertida no governo de Temer. O gasto discricionário do Ministério da Educação foi o único que teve queda no período, mas tal queda apenas continua a tendência herdada de Dilma.

Ao PT não bastou mentir na propaganda, foram além, insistiram em dividir o país entre apoiadores do partido e golpistas ressentidos com melhoras na vida dos mais pobres que o partido, a despeito das evidências internacionais, insiste em creditar a si mesmo e a liderança messiânica de Lula. Não parou aí, a propaganda teve ataques e a justiça que estariam agindo em aliança com os tais golpistas que povoam a versão petista para o ocorrido nos últimos anos. Enfim, ontem o PT mostrou sua pior face: mentiras, demonização dos oponentes, ataques a imprensa e as instituições e a defesa fanática de um líder messiânico. Palocci, fundador e por muito tempo um dos maiores quadros do PT, se referiu ao partido como uma seita, pode ser, não tenho o mesmo conhecimento do PT que ele, o que vi ontem não pareceu uma seita, pareceu um partido fascista.


quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Propaganda do PT insiste na tese da crise internacional em 2015, eu insisto em desmentir o PT.

A propaganda do PT voltou a absurda tese que a crise de 2015, que na realidade começou antes e já estava instalada em 2014, foi decorrência de uma crise internacional. Não creio que alguém ainda caia nessa conversa, mentira creio sim, mas, de toda forma, vale dar uma olhada nos dados de crescimento em 2015. Para isso peguei a base de dados do FMI, versão de abril de 2017, e selecionei a taxa de crescimento de todos os países com mais de cinco milhões de habitantes em 2015. Dos 114 países apenas 12 tiveram taxa de crescimento negativo e apenas 7 cresceram menos do que o Brasil, são eles: Iémen, Serra Leoa, Ucrânia, Líbia, Venezuela, Burundi e Belarus. Naquele ano atém mesmo a Grécia, foco da atenção de todos que falavam de crise, se saiu melhor que o Brasil. A figura abaixo mostra os países com crescimento negativo em 2015.




No resto do mundo o padrão foi de crescimento positivo. A média de crescimento dos países com mais de cinco milhões de habitantes foi de 2,59%, a mediana foi de 3,03%. A figura abaixo mostra a taxa de crescimento em todos os países da amostra com os países que tiveram crescimento positivo em verde e os países que tiveram crescimento negativo em laranja. Uma olhada na figura mostra o absurdo da afirmação da propaganda petista.




Essa não foi a única mentira da propaganda petista, tiveram várias outras, mas uma que também merece um post é a que ignora que os cortes na saúde e educação bem como as ditas perdas de direito começaram, para usar a expressão da propaganda, nos governos petistas. Até o fim de semana tento fazer um post sobre isso.


quinta-feira, 1 de junho de 2017

Contas Nacionais do primeiro trimestre de 2017: ainda não temos o que comemorar.

Saíram as contas nacionais relativas ao primeiro trimestre de 2017 (link aqui e aqui), depois de uma sequência de quedas o PIB voltou a crescer. Foi o suficiente para o governo comemorar e anunciar o fim da recessão (link aqui), eu não seria tão rápido em abrir o champanhe. Primeiro porque os dados não refletem os impactos da delação da turma da JBS; segundo porque, mesmo ignorando as delações, o crescimento do primeiro trimestre não parece muito robusto; terceiro porque houve mudanças metodológicas que afetam o resultado e por fim depois de tantas quedas um crescimento em um trimestre relativo ao anterior não é exatamente algo a ser comemorado com muito barulho.

A figura abaixo mostra o crescimento do PIB quando comparados os últimos quatro trimestres com os quatro trimestres anteriores, o atual trimestre com o trimestre anterior, o atual trimestre com o mesmo trimestre do ano anterior e o acumulado ao longo deste ano com o acumulado ao longo do mesmo período do ano anterior. Repare que pelo primeiro critério, o que captura os últimos doze meses, o PIB caiu 2,3%. Repare também que quando comparado ao trimestre anterior o PIB caiu 0,4%. O aumento só aparece quando são comparados o primeiro trimestre de 2017 com o último trimestre de 2016 e após o ajuste de sazonalidade.




Comecemos analisando o festejado 1% de crescimento neste trimestre em comparação ao trimestre anterior. A figura abaixo mostra o crescimento dos componentes do PIB pela ótica da despesa e pela ótica da produção. Pelo lado da despesa houve queda no investimento, no consumo das famílias e no consumo do governo, vale destacar que desta vez o esforço de contenção de gastos do governo foi maior que o das famílias. Como as importações entram de forma negativa no cálculo do PIB o único componente que puxou a despesa para cima foram as exportações. Isso significa que o crescimento da despesa ocorreu por conta do resto do mundo, isso não necessariamente é bom ou ruim, mas merece registro.




Na ótica da produção os serviços, maior de todos os setores, teve crescimento zero, ou seja, ficou parado e a indústria cresceu 0,9%. O crescimento significativo ocorreu na agropecuária que aumentou o valor da produção em 13,4% quando comparado ao último trimestre de 2017. Juntando o lado da produção com o da despesa é possível concluir que o crescimento for praticamente todo devido ao aumento da venda de produtos agropecuários para o exterior. Nada de muito surpreendente, mas não pode ser creditado à política econômica. O festejado crescimento foi um choque externo positivo.

Quando comparamos o primeiro trimestre de 2017 com o primeiro trimestre de 2016 observamos uma queda de 0,4% no PIB. A figura abaixo mostra o crescimento do PIB pela ótica da despesa e pela ótica da produção. Assim como na comparação com o trimestre anterior a análise pela ótica da despesa mostra queda no consumo das famílias, no consumo do governo e no investimento. Porém, nesta comparação, o esforço das famílias foi maior que o do governo, o que mostra que o governo vem aumentando o esforço de contenção de gastos de consumo. A queda significativa do investimento mostra que uma recuperação consistente da economia ainda não está no horizonte.



Pelo lado da produção houve queda 1,7% nos serviços e de 1,1% na indústria, mais uma vez a agropecuária salvou o período com crescimento de 15,2%. Confundir choques positivos vindos do exterior com uma trajetória de crescimento sustentando é um erro que não podemos cometer novamente. Tais choques devem ser vistos como uma oportunidade de compensar efeitos negativos de curto prazo de reformas estruturais e do ajuste fiscal.

Na agricultura receberam destaque do IBGE a soja, crescimento de 17,5% na quantidade produzida, o milho (46,8%), o arroz (13,5%) e o fumo (28,4%). Na indústria a queda não foi maior por conta da indústria extrativa mineral, que cresceu 9,7%, assim como a agropecuária tal crescimento foi devido a fatores externos. A indústria da construção civil uma queda de 6,3% e, o aprofundamento da incerteza por conta da crise política, pode adiar a recuperação desse setor. No setor de serviços vale destacar a queda de 2,5% no comércio, atacado e varejo, comportamento consistente com a contração o consumo das famílias.

A comparação com os quatro últimos trimestres, que reflete o desempenho da economia no último ano corrido o PIB caiu 2,3%. Assim como as figuras anteriores a figura abaixo ilustra a variação do PIB nesta comparação. Tanto pela ótica da despesa quando pela ótica da produção o único crescimento observado foi na agropecuária. A queda de 6,7% do investimento dá a dimensão da crise que estamos passando.




Olhando um maior período de tempo fica claro que menos que uma recuperação estamos vivendo uma diminuição da intensidade da queda, tal diminuição começou no terceiro trimestre de 2016. Como já foi discutido aqui no blog o Brasil passa por duas crises econômicas (link aqui). Uma de curto/médio prazo que está associada aos desequilíbrios macroeconômicos do governo Dilma e dos erros de política que começaram lá por 2006, outra de longo prazo que é caracterizada pelo baixo crescimento da produtividade nas últimas décadas. A redução no ritmo de queda do PIB está relacionada as expectativas de melhoras na política macroeconômica e na reversão das políticas erradas, mas, por mais importante que sejam, expectativas sozinhas não movem moinhos. Para que saiamos da crise de curto médio/prazo é necessário que pelo menos ocorra um ajuste fiscal e um controle da inflação. Os números mostram que tais medidas estão em andamento, o grande perigo é que a crise política leve o governo a rever tais medidas e a apostar em estímulos que podem ter efeitos de curtíssimo prazo ao preço de agravar mais ainda as duas crises que vivemos.



Um último ponto a ser comentado é o aumento da taxa de poupança que foi de 13,9% no primeiro trimestre de 2016 para 15,7% no primeiro trimestre deste ano. O valor ainda é baixo, mas o aumento da taxa de poupança no meio de uma crise pode ser um sinal que estamos começando a nos preocupar mais com o futuro. Ademais, por conta da queda na taxa de investimento, a taxa de poupança ficou maior que a taxa de investimento que foi 15,6% neste trimestre. Assim como outros números de comércio exterior a taxa de poupança ficar acima da taxa de investimento não é algo necessariamente bom ou ruim, mas merece ser registrado.


sábado, 13 de maio de 2017

Sobre a crise, a grita dos compadres com a presidente do BNDES, os riscos e as esperanças para economia brasileira.

Na origem do déficit público, da baixa qualificação da mão-de-obra, dos desequilíbrios macroeconômicos, da péssima infraestrutura e do excesso de burocracia está o capitalismo de compadres. Por capitalismo de compadres me refiro a um arranjo onde grandes empresários aumentam suas fortunas por conta de favores prestados pelos inquilinos do poder e, em troca, financiam a campanhas políticas para que os inquilinos continuem no poder. Em um capitalismo desse tipo leis eficientes, boa infraestrutura, mão-de-obra qualificada e equilíbrio macroeconômico são úteis, até importantes, mas não são essenciais. No capitalismo brasileiro o que é essencial, o que transforma empreendimentos em grandes empresas, o que faz a diferença para chegar ao topo é o acesso aos bastidores do poder.

O grande problema desse tipo de capitalismo é que ele não incentiva ganhos de produtividade. Entre um engenheiro e um político as empresas preferem investir no político. Por certo em todas as economias capitalistas existe algum grau de compadrio, nem políticos e nem empresários são santos ou abnegados e não costumam desperdiçar as oportunidades de alianças mutuamente benéfica. O grau de compadrio vai depender da frequência com que tais oportunidades aparecem e tal frequência depende do tamanho do estado. Aqui aparece outro conceito delicado, quando falamos do tamanho do estado é útil deixar claro em que dimensão estamos falando. Neste post estou me referindo à dimensão em que o estado faz políticas para ajudar aos muito ricos, para dar exemplos: não estou falando do Bolsa-Família ou de escolas públicas para crianças, estou falando do BNDES.

Aliás a motivação deste post, e de tantos outros, é exatamente o BNDES. Não os escândalos envolvendo o banco que apareceram nas páginas policiais, destes falaremos em outras oportunidades, falo do que apareceu nas páginas econômicas. Durante a semana a Revista Época divulgou que o presidente Temer havia escalado Moreira Franco para encontrar um novo presidente para o BNDES (link aqui). Aparentemente o desejo de fazer tal substituição decorreu das reclamações de empresários sobre queda do volume de empréstimos do banco.

De fato, ocorreu uma queda significativa nos desembolsos do BNDES, para ser justo a queda começou ainda no governo Dilma. Grande parte desta queda foi porque o dinheiro fácil da União acabou, outra parte foi porque, ao contrário de seu antecessor, Maria Sílvia Bastos, atual presidente do BNDES, não faz parte do credo que prega que a melhor maneira de ajudar os pobres é transferir dinheiro para os muito ricos. Por fim, o sucesso da Operação Lava Jato em expor as entranhas do capitalismo de compadres no Brasil também merece crédito por parte de redução dos desembolsos do BNDES.

A figura abaixo mostra dados mensais de desembolsos do BNDES entre janeiro de 2001 e março de 2017, os dados foram acumulados em doze meses para limpar efeitos sazonais e outras irregularidades, a fonte é o BNDES (link aqui). Os dados foram trazidos para valores de março de 2017 com o IGP-DI. Note que por volta de 2006 os desembolsos começam uma tendência de alta que toma força na sequência da crise de 2008. Em 2011 parecia que ia começar o ajuste, mas o governo recuou e retomou o ritmo de desembolsos acima dos R$ 200 bilhões a cada doze meses. Este aumento gigantesco dos desembolsos do BNDES foi um dos elementos que permitiram ao governo brasileiro de chamar a crise de 2008 de “marolinha”, porém também foi um dos fatores que nos colocou na maior crise registrada de nossa história.




O governo “bateu o motor” da economia. No processo o capitalismo de compadres que sempre foi forte no Brasil ganhou ainda mais força. Impérios empresariais foram construídos ou consolidados com esse aumento dos desembolsos do BNDES e com outras políticas do governo. Nas canções ingênuas de alguns desenvolvimentistas tais impérios dariam retorno em forma de crescimento da economia e da arrecadação do governo criando um círculo virtuoso que nos levaria ao desenvolvimento. No mundo de verdade, onde nem políticos nem empresários são anjos, ganhou força uma aliança entre empresários e políticos visando a manutenção da festa do dinheiro barato, dos mercados garantidos por leis e das sociedades com empresas estatais. O mundo é bem pior que as canções, já dizia Belchior, o retorno sonhado nunca veio, o dinheiro barato acabou e as empresas que viviam dele ficaram inviáveis. O resultado foi a crise que estamos vivendo. Se engana quem pensa que a Lava Jato causou a crise, tudo que a Lava Jato fez foi mostrar as engrenagens que nos levaram à crise.

A figura abaixo mostra os desembolsos do BNDES por setor. Lembram quando diziam que o setor de serviços era quem salvava o emprego? Parte da razão para isso foi que na retomada dos desembolsos do BNDES por volta de 2012 foi esse o setor que passou a receber mais recursos do banco. Quando o dinheiro acabou, ainda com Dilma, o ajuste teve de ser feito na marra, foi assim que saímos de um quase pleno emprego para os mais de treze milhões de desempregados. O pleno emprego era apenas uma canção, a vida, muito pior, teve de pagar os custos do cenário armado para mostrar a canção.


Exatamente aí entra a suposta pressão pela saída de Maria Sílvia Bastos da presidência do BNDES. Empresários e trabalhadores organizados querem a volta do mundo de fantasia. Se o governo negar o desejo desta turma, persistir na agenda de reformas e na busca do ajuste fiscal a médio e longo prazo as empresas vão encontrar outros caminhos para crescer. Caminhos mais tortuosos, porém mais consistentes. Não é um cenário de recuperação de curto prazo, os frutos da política de Temer serão colhidos por outros presidentes. Se o destino for realmente cruel podem ser colhidos pela mesma turma que colheu os frutos das reformas da década de 1990 só para depois renegar as reformar e nos colocar onde estamos.

Por outro lado, se Temer ceder aos que pedem a volta do “dinheiro barato” bancado pelo pagador de impostos a economia pode se recuperar de forma mais rápida. Temer saíra do governo como o presidente que nos tirou da crise, talvez até eleja o sucessor que, a depender de aspectos conjunturais, pode ser ele mesmo. O custo disso será o prolongamento da agonia de nossa economia e uma crise ainda mais longa e/ou mais profunda nos próximos anos. 

Para minha surpresa, até agora Temer parece estar apostando no caminho longo e tortuoso, nunca esperei isso do homem que foi fundamental para reconduzir Dilma ao Planalto em 2014. Muita água ainda vai rolar, muitas tentações e pressões virão, por enquanto me contento com observar cada dia de uma vez. A notícia da Época dando conta da possível saída da presidente do BNDES foi publicada no dia sete de maio, no outro dia a Exame publicou que o governo tinha negado a notícia (link aqui). Governo negar saída de autoridades é como presidente de clube de futebol negar a saída do técnico, coisas que não se escrevem, mas enquanto escrevo sei que ela ainda está por lá. Um dia de cada vez.



terça-feira, 7 de março de 2017

Números das Contas Nacionais: o Pessimildo estava certo.

Os números das contas nacionais divulgados pelo IBGE (link aqui e aqui) não deixam dúvidas: vivemos na maior crise registrada em nossa história. Não é nenhuma surpresa, aqui no blog este é um tema recorrente (por exemplo: aqui, aqui e aqui), mas a notícia merece ser registrada. Comecemos pelo tamanho e amplitude da queda. A figura abaixo mostra a variação do PIB em 2016 (em azul), a variação da produção de cada setor em 2016 (em verde) e a variação dos principais elementos da despesa (em vermelho). Todos foram negativos!




Pelo lado da oferta a queda de 3,6% do PIB é decomposta em queda de 6,6% na agropecuária, 3,8% na indústria e 2,7% nos serviços. Como podemos ver a agropecuária, que nos salvou em outros anos, inverteu os papéis em 2016 e mostrou a maior queda entre os três grandes setores. Desde que o desempenho da agropecuária é muito afetado por condições climáticas e pela demanda externa é possível que o setor melhore em 2016. Na indústria, um setor que está mais a associado a dinâmica interna da economia, a queda foi de 3,8%. Na indústria extrativa mineral, dos setores industriais o mais ligado ao que acontece no resto do mundo, a queda foi de 2,9%. Na construção civil e na indústria de transformação a queda foi de 5,2%, ou seja, a depender apenas de fatores internos a queda da indústria poderia ter sido ainda mais severa. O setor de serviços, que responde pela maior parte do PIB, teve queda de 2,7%. Para quem gosta de esperança o lado da oferta traz uma notícia boa, a produção de eletricidade subiu 4,4% em 2016, isso pode dar espaço para um aumento da produção. Lembrem sempre que energia é um limitante para nosso crescimento, não fosse a crise provavelmente já teríamos tido um colapso de energia e água.

Pelo lado da demanda houve queda de 10,2% no investimento (FBCF), o que sugere que uma recuperação de fato ainda está distante, queda de 4,2% no consumo das famílias e queda de 0,6% no consumo do governo. Fica claro que o esforço de ajuste do consumo foi maior nas famílias do que no governo, só isso já é motivo suficiente para rechaçar qualquer proposta de aumento de impostos. Não faz sentido penalizar quem fez um ajuste mais intenso para facilitar a vida de quem fez o menor ajuste. As importações tiveram queda 10,3%, magnitude semelhante a queda no investimento, e a exportações aumentaram 1,9%. De fato, com a crise que estamos vivendo, é de se esperar que as pessoas comprem menos importados e as firmas façam um esforço maior para conseguir mercados externos.

Olhando a dinâmica da crise é possível que ainda estamos descendo, porém a uma velocidade menor. A figura abaixo mostra a taxa de crescimento do PIB acumulada em quatro trimestres em relação ao mesmo período do ano anterior. Repare que no primeiro e segundo trimestres de 2016 a queda foi de mais de 4,5% (-4,7% e -4,8%, respectivamente), no terceiro trimestre a queda foi de 4,4% e no quarto trimestre a queda foi de 3,6%. Um otimista diria que estamos melhorando, eu prefiro dizer que estamos piorando menos.




A verdade é que estamos voltando para o começo da década em termos de PIB. Se considerarmos as séries encadeadas com valores de 1995, uma medida de quantidade que tenta eliminar variações de preços relativos, o valor observado no quarto trimestre de 2016 (161,5) é menor que o observado no terceiro trimestre de 2010 (163,6). A figura abaixo mostra o valor do índice no quarto trimestre de cada ano, o retrocesso é inegável.




É sempre importante considerar a taxa de investimento e a taxa de poupança. A taxa de investimento aponta os rumos da recuperação, para que a produção aumente de forma consistente a médio prazo é preciso investir. A taxa de poupança mostra nossa capacidade de financiar o investimento. A figura abaixo mostra que ambas estão caindo, mas a taxa de poupança está caindo mais devagar que a taxa de investimento, ou seja, a diferença entre as duas está caindo. De fato, a diferença está nos níveis de 2013, antes da crise tomar força e ficar explícita. Isso significa que precisamos menos dinheiro do exterior para financiar o investimento, mas não é para comemorar, se a taxa de investimento voltar a crescer, condição necessária para uma recuperação saudável da economia, vamos de ter nos financiar no resto do mundo ou poupar mais.



O quadro final é desolador. todos os grandes setores encolheram em 2016. Construção e indústria de transformação encolheram mais de 5%, a agropecuária caiu mais de 6,5%! No geral estamos voltando no tempo em termos de renda. A queda no investimento sugere que a recuperação que precisamos ainda não está no horizonte, a queda no consumo das famílias mostra o sacrifício que já fizemos, nesse ambiente chega a ser cruel sugerir aumento de impostos para facilitar a vida do governo. A taxa de poupança, baixa e caindo, mostra que não temos fôlego para aventurar que tentam retomar o crescimento sem considerar a necessidade de atrair capitais externos. A análise das contas nacionais de 2016 mostra que se alguma crítica pode ser feita ao Pessimildo é que ele foi otimista.


terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Usar o BNDES para estimular a economia é um erro grave!

Hoje a revista Época deu uma notícia que me deixou preocupado. Segundo a revista “Temer quer uma ‘forcinha’ do BNDES para ajudar a destravar a economia” (link aqui). É um erro, não um erro simples, mas um erro que pode custar caro e colocar a economia em mais uma década perdida em um futuro próximo. Pior, é um erro que foi cometido há pouco tempo e que, em última instância, selou o destino de Dilma e colocou Temer no Planalto. Ao comprometer o lado fiscal para estimular uma economia que não respondeu aos estímulos o governo Dilma acabou sendo empurrado para as pedaladas como forma de financiar o gasto público sem escancarar o problema fiscal. Tivesse a economia crescido como previsto pelos entusiastas do BNDES ou não tivesse o governo gasto bilhões com o BNDES as pedaladas não teriam alcançado o volume que alcançaram e Temer ainda seria vice-presidente.

É fato que usar o BNDES é tentador para o governo. A crise é grande e mesmo que o fim da queda esteja próximo ainda vai demorar um bocado para voltarmos aos níveis de renda de 2013. O desemprego alto é um problema para qualquer político, principalmente um ano antes das eleições. Neste cenário de caos empresários aparecem dizendo que se receberem dinheiro barato vão aumentar a produção e tirar a economia da crise. O problema é que isso não vai acontecer. O dinheiro barato vai deixar os empresários mais ricos, mas não vai criar empregos e, se criar, será por pouco tempo, exatamente como aconteceu no passado.

A figura abaixo mostra os desembolsos do BNDES para indústria de transformação entre 2001 e 2015. Os dados de desembolso estão na página do BNDES (link aqui), os dados de variação real da produção da indústria de transformação são do IPEA e do IBGE. O intervalo foi determinado pela disponibilidade de dados, a série de variação do PIB da indústria de transformação pela metodologia nova das contas nacionais só está disponível para este período. Escolhi a indústria de transformação porque é onde os empréstimos do banco tem mais potencial de estimular a produção, agropecuária e indústria extrativa são muito influenciadas por fatores externos que estão fora de controle do BNDES.




Como pode ser visto não existe relação positiva entre os desembolsos do BNDES para indústria de transformação e o a variação na produção desta indústria. De fato, se retiramos o ano de 2010, como é feito na figura abaixo, a relação fica negativa. Não esqueçamos que 2010 foi um atípico em vários sentidos.




Isto quer dizer que o dinheiro do BNDES reduz a produção industrial? Não! Esta não é uma conclusão que possamos tirar destas figuras, para fazer tal afirmação seria preciso trabalhar os dados para além do objetivo deste post. É sempre possível que relação negativa venha do governo aumentar o desembolso em épocas de crise. Porém, as figuras mostram que não há razões para acreditar que desembolsos do BNDES vão dar uma “forcinha” para tirar a economia da crise. Sendo assim, não vejo motivos para comprometer o lado fiscal com mais desembolsos do BNDES. Se o governo quer dar as indústrias uma força para sair da crise deveria começar a trabalhar seriamente para reduzir os custos de nossa burocracia, melhorar o ambiente de negócios e, se possível, emplacar a reforma trabalhista. O resto é conversa para agradar doador de campanha.


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

2016 - O ano em que voltamos a falar de reformas

A valer as previsões do Relatório Focus, divulgado pelo Banco Central, este ano vamos terminar em média 3,49% mais pobres do que começamos. Dois anos seguidos de queda do PIB era algo que não se via desde a década de 1930, não por acaso estamos assustados e preocupados com a economia. Porém eu arrisco dizer que, apesar dos números ruins de crescimento e emprego, 2016 pode ainda vir a ser lembrado como o ano em que começamos a tentar arrumar o desastre econômico que foi construído entre 2006 e 2015, vou além, se o governo tivesse forçado a barra para ter números melhores para crescimento e emprego ainda em 2016 eu estaria mais preocupado do que estou. De certa forma 2016 foi o tipo de ano em que quanto melhor, pior.

Para facilitar meu ponto será preciso fazer uma breve explicação da origem da crise, para uma explicação mais cuidadosa recomendo um post de 2015 chamado “Billie Jean“ (link aqui), um post de 2016 chamado “Sobre a dupla natureza da crise econômica” (link aqui) e um post de 2013 chamado “Oferta, Demanda e o Erro de Diagnóstico de 2011” (link aqui). Grosso modo a crise tem duas origens. A primeira e mais importante foi uma série de investimento ruins estimulados por políticas erradas, a partir de 2006 o governo resolveu tomar a liderança no processo de crescimento da economia e começou uma política de escolher empresas campeãs e setores que deveriam crescer. O resultado desta política foi uma série de investimento em projetos de baixo retorno ou sem retorno, uma má alocação de capital a nível macroeconômico. Na lista estão o Grupo X de Eike Batista, a Oi, os estaleiros construídos para “retomada da indústria naval”, o Comperj, a refinaria de Abreu Lima em Pernambuco, as refinarias prometidas para o Ceará e Maranhão, bem como obras gigantescas que nunca ficam prontas (ver link aqui), das quais destaco a transposição do rio São Francisco. Todo esse capital mal direcionado comprometeu a produtividade de nossa economia, que desde muito já não vinha bem, e criou a crise de médio e longo prazo. A outra origem da crise está nas políticas que o governo usou para minimizar os efeitos da crise de 2008 e criar a sensação que a guinada de 2006 estava dando resultados. Neste grupo está a redução forçada de juros que comprometeu a credibilidade do Banco Central, as operações de swap para influenciar o câmbio que pesaram na dívida pública e o adiamento do ajuste nos gastos que levou à crise fiscal.

Em 2015 o governo parece ter chegado ao limite das políticas que levaram à crise, na verdade já tinha ultrapassado tal limite, e precisou começar o processo de ajuste. Ocorre que, depois da campanha presidencial de 2014, era impossível para a presidente Dilma Roussef liderar um esforço de ajuste fiscal, aperto monetário e acabar com os instrumentos de direcionamento do investimento, ou seja, Dilma não tinha como liderar uma agenda que visava destruir tudo que ela tinha feito pelo menos desde 2005 quando derrotou a proposta de ajuste fiscal de longo prazo apresentado por Palocci, então ministro da Fazenda. Esta impossibilidade fez com que a crise econômica virasse uma crise política que culminou com o impeachment de Dilma e chegada ao poder de Michel Temer. O vice-presidente de Dilma, agora ocupando a presidência, sofre do mesmo mal que Dilma: venceu as eleições garantindo que não existia crise e que não havia necessidade de ajustes e mudanças de rumo e tem que governar fazendo o oposto do que prometeu na campanha. A situação de Temer é agravada por não ter o apoio da máquina petista que o considera traidor de Dilma e do PT e amenizada por não ter a mesma resistência das forças políticas e dos eleitores que se sentiram trapaceados em 2014.

Temer teve de escolher entre dois caminhos quando chegou ao poder. O primeiro seria tomar medidas de curto prazo para aliviar a crise, é o caminho das saídas fáceis, e o segundo seria apostar em medidas de médio e longo prazo para resolver os problemas criados nos últimos dez anos de governos petistas, é o caminho das reformas. Tivesse tomado o primeiro caminho, Temer estaria com melhores índices de popularidade, porém teria colocado o país em rota de uma crise ainda mais profunda que quase certamente viria acompanhada de taxas de inflação altas e crescentes, não falo de uma Venezuela, mas provavelmente teríamos tido uma inflação semelhante a observada na Argentina. Até agora tudo indica que Temer escolheu o segundo caminho, montou uma equipe econômica que impressiona qualquer observador que entenda do assunto e tem usado capital político para bancar as decisões da equipe liderada por Henrique Meirelles. A decisão de vetar a manobra de Rodrigo Maia, deputado do DEM do RJ que preside a Câmara, é um sinal forte do compromisso de Temer com as reformas.

Qualquer um que me acompanhe ou tenha prestado atenção nos parágrafos anteriores sabe que considero que o segundo caminho, o caminho das reformas, é o que eu considero correto. Infelizmente, apesar de correto, o caminho das reformas é longo e árduo, pior, é cheio de promessas de atalho que levam a lugar nenhum e oportunidades de retorno ao caminho das saídas fáceis. O grande desafio de Temer é não cair na tentação de pegar os atalhos e retornos. Assim como Thatcher, que até hoje é lembrada pelo “You turn if you want to. The lady's not for turning” em referência à possibilidade de retorno (U-turn), Temer terá de convencer que não fará retorno, até agora ele parece que vai conseguir.

A primeira grande medida de Temer foi aprovar a PEC do teto de gastos, com a provação a Constituição quase que obriga a aprovação de outras reformas que permitam o ajuste fiscal, destaque para a reforma da previdência. Na sequência Temer propôs as medidas de "Crescimento, Produtividade e Desburocratização", o fato de ligar crescimento à produtividade e desburocratização no lugar de investimento e valores específicos para preços como juros e câmbio ilustra o compromisso do governo com as reformas. Analisando as medidas (link aqui) é possível perceber a preocupação com a melhora do ambiente de negócios, fator que considero fundamental para o crescimento da produtividade. Como não poderia deixar de ser os retornos e os atalhos estão presentes nas medidas, especificamente no item oito que trata do BNDES e direciona crédito para micro, pequenas e médias empresas não sem antes definir que uma empresa com faturamento de R$ 300 milhões é uma média empresa. No lado monetário o Banco Central resistiu às pressões iniciais para reduzir juros, quando começou o processo de redução o compromisso do governo com o ajuste fiscal estava bem sinalizado e, mesmo assim, está fazendo a redução lentamente. O resultado é que mesmo com a queda de juros a inflação deve fechar o ano dentro do intervalo da meta, algo que era considerado impossível não faz muito tempo. Assim como no lado real é preciso tomar cuidado no lado monetário, os atalhos e retornos estão convidativos, mesmo dentro do intervalo da meta nossa inflação continua muito alta, um descuido do Banco Central pode comprometer todo o esforço dos últimos meses. É certo que a pressão por redução dos juros vai crescer nos próximos meses, mas o Banco Central já mostrou que resiste a pressões, melhor assim.

Salvo alguma surpresa, especialmente no ritmo de elevação de juros nos EUA, 2017 pode começar com um cenário fiscal mais promissor do que 2016, a inflação estará dento da meta, em 2016 foi de 10,6%, a taxa de juros caindo e o ambiente de negócios, principalmente na questão trabalhista, um pouquinho melhor. Então em 2017 a crise acaba? Creio que não, talvez lá pelo segundo semestre apareça algum crescimento, mas não é o crescimento que precisamos ou queremos. O estrago da década de contrarreformas, grosso modo de 2006 a 2015, foi grande, todo aquele capital mal direcionado ainda tem que ser recriado e/ou redirecionado, vários postos de trabalho e respectivas qualificações de mão de obra também terão de ser recriados e/ou redirecionados, um processo longo e penoso. Muitos servidores públicos foram contratados não necessariamente para os postos onde se fazia necessário contratar, o que significa mais um longo processo de ajuste.

Me parece justo dizer que 2016 foi o ano em que o governo voltou a falar seriamente de reformas para melhorar o ambiente de negócios, reformas para flexibilizar as relações de trabalho, reformas para melhorar a educação, reformas para controlar a questão previdenciária, reformas para permitir o ajuste fiscal e outras reformas importantes. Espero que 2017 seja o ano da volta definitiva das reformas e decrete o tardio fim da agenda de contrarreformas que durou uma década e pode ter nos tomado mais de duas décadas. Se assim for em 2018 o terreno estará favorável para que plantemos um crescimento saudável, um crescimento puxado pela oferta via aumento da produtividade. Se persistirmos no caminho das reformas e escaparmos dos cantos de sereia de aventureiros e da turma da contrarreforma nas eleições de 2018, na próxima década estaremos no caminho que abandonamos lá por 2006 e podemos ter um crescimento sustentado de longo prazo. Quase certamente Temer não estará no Planalto quando os frutos das reformas começarem a aparecer. Se tudo ser certo será um daqueles governantes que ajudaram a construir suas nações, mas foram repudiados quando no poder. Pode não ser uma boa perspectiva para um político profissional, mas é o suficiente para que eu diga que 2016, no que tange à economia, foi um ano melhor que 2015.