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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Precisamos falar sobre má alocação de recursos.

Ontem a Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda publicou uma Nota Informativa intitulada: “Redução da má alocação de recursos (misallocation) para a retomada do crescimento da produtividade na economia brasileira” (link aqui). Tão logo terminei de ler corri para o Twitter e para o FB para divulgar a nota e pedir que os amigos fizessem o mesmo. Tanta pressão não foi por acaso, a má alocação de capital é um problema central da economia brasileira e é muito bom que o pessoal do governo tenha colocado o assunto em pauta.

Grosso modo má alocação de recursos, geralmente capital ou trabalho, significa que esses recursos estão sendo usados de forma ineficiente, mal comparando é como dirigir uma Ferrari em Monza a 60 km/h. É difícil explicar a existência de má alocação de recursos. Por que um empresário colocaria dinheiro em um projeto pouco eficiente? Por que alguém escolhe trabalhar em algo que não dá retorno nem pessoal nem profissional? Por que alguém pagaria para dirigir uma Ferrari em Monza a 60 km/h? Tais comportamentos não são compatíveis com as hipóteses de racionalidade que costumam guiar os economistas, a não ser que... alguém que não está preocupado com eficiência ofereça os incentivos para que as pessoas façam o que não fariam em outras circunstâncias. Talvez o sujeito dirigindo a Ferrari a 60 km/h em Monza tenha ganho um prêmio em um sorteio e não podia vender.

A má alocação de recursos costuma ser associada a políticas públicas, muitas vezes governos oferecem inventivos com foco em resultados de curto prazo, talvez as eleições sejam no final do ano, e não levam em conta os efeitos desses incentivos sobre a eficiência da economia. Já no começo do século XX economistas a Escola Austríaca apontavam a misallocation como fonte de problemas da economia. Vejam esse trecho d no texto “Economic depressions: their cause and cure” que está no livro The Austrian Theory of the Trade Cycle and Other Essays publicado em 1996 pelo Ludwig von Mises Institute onde Rothbard comenta os efeitos de uma queda artificial da taxa de juros por conta de um intervenção do Banco Central.

“For businessmen, seeing the rate of interest fall, react as always would and must to such a change of market signals: They invest more in capital and producers’ goods. Investments, particularly in lengthy and time-consuming projects, which previously look unprofitable now seem profitable, because of the fall of the interest charge. In short, businessmen react as they would react if savings had genuinely increased: They expand their investment in durable equipment, in capital goods, in industrial raw material, in construction as compared to their direct production of consumers good”

Sei que alguns colegas ficam irritados só de ouvir falar em Rothbard, mas um economista bem mais convencional como Hayek subscreveria essa passagem. A ideia de que juros artificialmente baixos induzem investimentos errados está na base da Teoria Austríaca do Ciclo Econômico (TACE) que Hayek, Mises e outros economistas austríacos elaboraram e divulgaram. Estritamente falando a TACE é uma teoria de má alocação de capital. As razões dessa teoria não ter prosperado na academia como uma das teorias de referência para explicar ciclos e depressões é assunto para outro post, aqui apenas quis registrar que misallocation é um conceito mais antigos do que alguns imaginam. Também para cutucar a redução de juros patrocinada pelo Banco central, não vou negar porque é feio mentir.

Em tempos modernos a questão da má alocação de capital ganhou destaque com um artigo escrito pelo Hsieh e pelo Klenow que foi publicado no Quarterly Journal of Economics em 2009 e intitulado “Missalocation and Manufacturing TFP in India and China” (link aqui). No artigo os autores afirmam que má alocação de capital, ou seja, capital destinado a projetos pouco eficientes reduzem de forma significativa a produtividade na China e na Índia. Especificamente os autores concluem que se o investimento nesses países fosse tão eficiente quanto nos EUA a produtividade da manufatura na China teria ganhos entre 30% e 50%, na Índia esses ganhos seriam entre 40% e 60%.

Ao contrário dos austríacos que centravam o foco em juros artificialmente baixos por conta do Banco Central tentando estimular a economia (não precisava ter escrito isso de novo, eu sei, mas eu sou chato), Hsieh e Klenow apontam várias razões para a existência de má alocação de recursos. Por exemplo, eles citam um estudo da McKinsey que afirma que a razão para baixa produtividade do varejo no Brasil pode estar na legislação trabalhista que aumenta o custo do trabalho para grandes supermercados em relação a pequenos comércios informais, causando um deslocamento de capital e trabalho para esses pequenos comércios que muitas vezes apresentam baixa produtividade. Outro fator que eles apontam, e que é particularmente relevante para o Brasil, é a presença de crédito subsidiado que pode desviar capital para setores ou empresas menos produtivas.

Não é preciso conhecer a literatura especializada para pensar em exemplos de má alocação de capital no Brasil, basta ler jornais. Projetos como o Comperj, vários estádios construídos para a Copa de 2014, Rio Maravilha, refinaria Abreu e Lima, refinarias Premium I e II (felizmente abandonadas antes de causar mais estragos), ferrovias que nunca ficam prontas, Belo Monte, são exemplos de capital e trabalha mal alocados. É difícil até mesmo imaginar alguém botando dinheiro do próprio bolso ou pagando juros de mercado para investir em um desses projetos, se não acredita em mim e quer um exemplo de entende das coisas clique aqui.

Se o leitor não se contenta com exemplo anedóticos e quer literatura deixo duas referências, tem mais, mas isso é um post de blog e não um capítulo de dissertação. A primeira é uma dissertação escrita por Addisu Lashitew e intitulada “Resource misallocation and aggregate productivity” (link aqui), lá são estimadas as perdas de eficiência em vários países por conta de má alocação de capital. A estimativa para o Brasil, realizada com dados de 2003, mostra que nossa produtividade é 62% da que seria se tivéssemos uma alocação eficiente de capital. Com foco apenas no Brasil, Rafael Vasconcelos, da Universidade Federal de Pernambuco, escreveu o artigo “Misallocation in the Brazilian manufacturing sector“, que foi publicado em 2017 na Brazilian Review of Econometrics (link aqui). Dois resultados desse texto merecem destaque: a má alocação de recursos no Brasil vinha em trajetória de queda até 2005, quando começou a subir, e a manufatura brasileira trabalha com um nível de produtividade que ´50% do que poderia ser caso nosso investimento fosse eficiente.

É com essa discussão em mente que a nota da SPE deve ser lida. A literatura especializada aponta que o Brasil pode ter ganhos significativos de produtividade (e produto) se conseguir reverter incentivos que induzem à má alocação de capital e trabalho. A SPE não apenas reconhece essa possibilidade como tenta relacionar o assunto com doze políticas do governo que podem reduzir a má alocação de capital.

Claro que políticas diferentes possuem impactos diferentes e que vale discordar da relevância de algumas políticas listadas, é do jogo, mas o fundamental é colocar a questão da má alocação em destaque e tentar avaliar os impactos da política econômica sobre alocação de recursos e produtividade. Só esse cuidado nos afasta da “maldição de Córdoba e Kehoe” (link aqui) que diz que se não consideramos os efeitos da política econômica na produtividade no longo prazo estaremos todos em uma grande depressão. Se entre 2009 e 2014 os economistas do governo tivessem tomado esse cuidado não estaríamos em outra década perdida.

O post já está longo e, também por isso, não vou comentar uma a uma as políticas listadas pela SPE, mas algumas merecem destaque. A redução do direcionamento do crédito é fundamental, desde os austríacos o papel do custo do capital tem destaque na literatura de misallocation, o crédito direcionado causa um efeito semelhante ao descrito por Rothbard, porém, além de bens errados, os empresários colocam o dinheiro em stores errados. A reforma tributária também pode ser uma peça importante na redução da má alocação de recursos, o próprio relatório da McKinsey citado em Hisieh e Klenow dá a pista de como a estrutura tributária brasileira pode levar a misallocation.

As privatizações são fundamentais, já ficou mais do que claro que as instituições brasileiras são incompatíveis com estatais eficientes, invariavelmente o inquilino do Planalto usa essas empresas para agradar empresários-amigos em projetos voltados para muita coisa, menos eficiência, vide Comperj. Outra política fundamental lembrada pela SPE é a abertura da economia, mais abertura leva a mais competição e menos espaço para investimentos ruins, espero que a turma da SPE convença Paulo Guedes a retomar o antigo discurso de salvar a indústria dos industriais e esquecer essa conversa de que só pode abrir a economia depois de resolver todos os nossos problemas e do Botafogo ganhar a Libertadores e Mundial. O aprimoramento da lei de recuperação judicial e a revisão das normas regulamentadoras do trabalho também merecem destaque.

Enfim, a agenda de redução de má alocação de recursos é fundamental e está recebendo atenção da equipe do Ministério da Economia. O que posso fazer para ajudar é tentar divulgar o assunto e pedir, pelo menos para os que ficaram sensibilizados com a relevância do tema, que façam o mesmo. Reduzir a má alocação de recursos é um dos grandes desafios para que o Brasil entre em uma trajetória de crescimento de longo, um desafio que passa pelas políticas aqui citadas.




quinta-feira, 1 de agosto de 2019

O principais desafios para a competitividade brasileira segundo o relatório anual sobre competitividade global


Um dos desafios para a retomada do crescimento é tornar a economia brasileira mais competitiva. O Brasil ficou na septuagésima segunda posição no ranking da última edição do “The Global Competitiveness Report” (link aqui), o ranking (link aqui) é elaborado pelo Fórum Econômico Mundial (link aqui) e que considera várias dimensões relativas à competitividade de cento e quarenta países. Não chega a ser um desastre, mas é preocupante. Para o leitor ter uma ideia o México ficou na quadragésima sexta posição e a Colômbia ficou na sexagésima posição, logo acima do Brasil está Montenegro e logo abaixo a Jordânia. Temos trabalho a fazer.

Para entender o problema da competitividade no Brasil vou fazer alguns posts analisando os indicadores usados para avaliar os diversos países. A nota de cada país é composta por doze pilares que por sua vez são divididos em vários indicadores. Neste post vou comentar o desempenho do Brasil nos doze pilares, os posts seguintes serão dedicados a cada um dos pilares separadamente. Os pilares são agrupados em grandes grupos: ambiente geral (instituições, infraestrutura, adoção de tecnologia de informação e comunicação e estabilidade macroeconômica), capital humano (saúde e habilidades/qualificação), mercados (mercado de bens e serviços, mercado de trabalho, sistema financeiro e tamanho do mercado) e ecossistema (dinâmica de negócios e capacidade de inovação).

O primeiro exercício consiste em comparar a nota do Brasil em cada um dos pilares com a nota média do grupo de países classificados como de renda média-alta pelo banco mundial excluindo o Brasil. A figura abaixo ilustra a comparação. Em oito dos doze pilares o Brasil está abaixo da média do grupo: habilidades, mercado de produtos, estabilidade macroeconômica, mercado de trabalho, instituições, infraestrutura, dinâmica de negócios e saúde. Nos pilares instituições, infraestrutura e saúde a distância entre a nota do Brasil e a média do grupo ficou bem pequena. Nosso maior problema está na estabilidade macroeconômica, na sequência aparecem o mercado de trabalho, a dinâmica de negócios, habilidades e finalmente mercado de produtos.




A estabilidade macroeconômica possui dois indicadores: inflação (posição 110º) e dívida pública posição 131º), estamos mal classificados nos dois quesitos. A boa notícia é que estamos melhorando nesses indicadores. O teto de gastos e a reforma da previdência junto com o esforço fiscal do governo devem melhorar a dinâmica da dívida. A inflação tem caído, mas o Banco Central deve ter em mente que nem só de IPCA vive o mundo. Acredito que deveríamos aproveitar a oportunidade para reduzir a meta de inflação para pelo menos 3% já no próximo ano.

O mercado de trabalho deve melhorar com a reforma trabalhista e a reforma tributária. Nosso pior desempenho está na mobilidade interna do trabalho (138º) e na facilidade de contratar e demitir 138º), em seguida aparece a tributação sobre o trabalho (137º), Paulo Guedes tem falado muito sobre esse último ponto e a reforma tributária deve ter algumas medidas para melhorar esse indicador. Nosso melhor desempenho é na participação das mulheres na força de trabalho (49º), essa definitivamente é uma boa notícia.

Na dinâmica de negócios os vilões são velhos conhecidos: tempo para abrir empresas (137º) e recuperação de falências (126º). A MP da Liberdade Econômica deve ajudar com a abertura de empresas. O problema de habilidades está relacionado em grande parte a formação de capital humano, outro velho conhecido, chama atenção que o pior desempenho está na facilidade de encontrar mão-de-obra qualificada (127º). Programas de escolas profissionalizantes podem ser uma boa maneira de atacar essa questão. No mercado de produtos os maiores problemas estão nas distorções causadas por tributos e subsídios (132º) e no protecionismo, especificamente nas barreiras não tarifárias (136º) e nas tarifas (125º).

O segundo exercício compara a nota do Brasil em cada pilar com a nota que seria esperada considerando apenas o PIB per capita. Estritamente falando estou comparando o valor previsto por uma regressão da nota em cada pilar contra o PIB per capita considerando todos os países no ranking e a nota que o Brasil tirou em cada pilar. Por certo trata-se de um modelo rudimentar que não se presta a análises mais cuidadosas, mas dá para animar o post. A figura abaixo mostra a comparação.




Em termos gerais os resultados ficam parecidos com os do exercício anterior. Nos pilares saúde e infraestrutura deixamos de ficar abaixo do esperado e passamos a ficar acima do esperado, vale lembrar que nesses dois quesitos a diferença entre a nota do Brasil e a média do grupo ficou pequena. Estabilidade macroeconômica continua sendo nosso maior problema, seguida por mercado de trabalho, mercado de produtos e dinâmica de negócios. Dos itens que destaquei quando comparei com a média dos grupos apenas habilidade parece ter perdido relevância.

A análise do ranking sugere que o desafio mais urgente é garantir a estabilidade macroeconômica. Junto com isso é preciso melhorar o ambiente de negócios que de certa forma engloba o mercado de trabalho, o mercado de produtos e a dinâmica de negócios. Outro ponto que deve ser trabalhado é a educação, particularmente a educação profissionalizante. Quem acompanha o noticiário econômico sabe que Paulo Guedes tem essas prioridades em mente, resta saber se ele vai conseguir convencer Bolsonaro e o Congresso a adotar soluções que desenhou para esses problema, se essas soluções serão implementadas de forma adequada e, não menos importante, se de fato são soluções corretas. Daqui de onde observo acredito que as soluções serão corretas, mas tenho dúvidas sobre o sucesso no convencimento e muito medo de como serão implementadas.


domingo, 21 de julho de 2019

Nova PWT e velhos problemas... a produtividade por aqui continua indo de mal a pior


Com a chegada da nova versão da PWT (link aqui) vale dar uma olhada no desempenho da produtividade total dos fatores no Brasil em comparação com a de outros países. Com esta finalidade selecionei todos os países disponíveis na PWT com mais de cinco milhões de habitantes em 2017 (último ano disponível) e classificados como países de renda média alta pelo Banco Mundial. Como medida de produtividade escolhi a “ctfp” que corresponde a produtividade do país como proporção da produtividade dos Estados Unidos corrigida por poder de compra. A figura abaixo mostra o resultado.




O Brasil apresenta o segundo pior desempenho. Entre 2013 e 2017 nossa produtividade caiu 13,6% em relação a dos EUA. O desempenho de países como Rússia e Cazaquistão sugere um efeito do petróleo na medida de produtividade utilizada, mas esse efeito, se for relevante, não é tão direto e nem nos salva do vexame. Considerando apenas o petróleo países como Rússia, Iraque, Cazaquistão e México deveriam ter um desempenho pior que o do Brasil posto que todos eles exportam mais petróleo que o Brasil (links aqui, aqui e/ou aqui) e possuem um PIB menor que o nosso de forma que as exportações de petróleo tem mais peso no PIB desses países do que no PIB brasileiro.

Caso o leitor não esteja satisfeito com essa aproximação pode checar as rendas do petróleo de cada país no banco de dados do Banco Mundial (link aqui). No Brasil essas rendas equivalem a 1,3% do PIB, no Iraque é de 37,8% do PIB, no Irã é de 15,3% do PIB, na Venezuela é de 11,3% do PIB, no Cazaquistão é de 10,2% do PIB, na Rússia é de 6,4% do PIB, no Equador é de 5,0% do PIB, na Colômbia é de 2,7% do PIB, no México é de 1,7% do PIB e no Brasil de 1,3% do PIB. Mais uma vez os números sugerem que é difícil culpar o petróleo por tamanha queda de produtividade no Brasil, principalmente quando lembramos que o fraco desempenho da produtividade por aqui já é observado há algumas décadas.

O problema da produtividade no Brasil decorre de um fenômeno microeconômico onde os incentivos para o investimento em capital físico (e humano!) respondem menos a incentivos de mercado do que a grupos de interesse, principalmente conluios entre políticos e grandes empresários, e a planos estratégicos do governo de plantão. Desde o final da década passada essas distorções voltaram a crescer por aqui. O poder destrutivo de incentivos errados não deve ser subestimado, se as distorções são grandes e se acumulam o suficiente podem destruir uma economia. Não acredita em mim? Então explica a queda de mais de 50% na produtividade relativa da Venezuela... ou o leitor acredita que lá foi o petróleo?



sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Produtividade: As empresas brasileiras precisam de mais competição.


Um tema que considero central para a economia brasileira e que eu sempre coloco em destaque nas palestras que apresento pelo Brasil é a questão da produtividade. Aqui no blog já tratei do tema em outros posts (aqui, aqui e aqui para alguns exemplos). Nas apresentações começo o tema comparando o desempenho da produtividade no Brasil, na Coreia do Sul e nos EUA, deixo claro que comparar com a Coreia é apelação, mas que é válido por ilustrar a diferença entre o crescimento da produtividade em um país que deu certo no processo de convergência para um país rico e em um país que não conseguiu completar esse processo. A comparação está na figura abaixo.




As linhas foram feitas de forma que todos os países começam de cem em 1970, dessa forma a figura não diz nada sobre o nível da produtividade e só serve para comparar crescimento da produtividade nos três países. O que se espera de um país emergente que entre em trajetória de crescimento é um crescimento da produtividade maior que o observado nos EUA, uma das explicações para isso é que nos EUA a produtividade cresce apenas com a criação de novas tecnologias enquanto em um país emergente o crescimento da produtividade pode ocorrer por conta de novas tecnologias e/ou adoção de tecnologias já existentes. A Coreia é um bom exemplo de país que conseguiu um ritmo de crescimento da produtividade superior ao dos EUA. Países com um crescimento de produtividade entre a linha azul, que representa o crescimento da produtividade nos EUA, e a linha marrom, que representa o crescimento da produtividade na Coreia, também podem ser chamados de caso de sucesso. Países com a linha de crescimento da produtividade abaixo da linha azul estão com problemas, é o caso do Brasil onde o crescimento da produtividade é representado pela linha verde. Note que nossa produtividade em 2014, último ano da série, é menor que em 1970. Outras fontes de dados dão resultados menos drásticos, mas o padrão de quase estagnação é o mesmo (para quem se interessar pelo tema ver o link aqui).

Comparações com mais países reforçam a tese que a produtividade no Brasil é baixa. Na figura abaixo comparo o Brasil com os países de renda média alta com mais de cinco milhões de habitantes que constam nas bases de dados do Banco Mundial e da Penn World Table. Dos dezenove países da amostra apenas Paraguai, Tailândia e China possuem produtividade menor que a do Brasil, fica pior, nos três países menos produtivos que o Brasil a produtividade cresce mais do que por aqui. No caso da China, tal como a Coreia do passado, a produtividade cresce mais do que a dos EUA.




A verdade é que hoje existem poucos economistas que discordem que a produtividade no Brasil é baixa e cresce pouco e que esse é um dos maiores, se não o maior, desafio para que tenhamos uma trajetória de crescimento de longo prazo que nos aproxime de países ricos. Se hoje existe pouca polêmica quanto ao diagnóstico o mesmo não pode ser dito em relação ao tratamento. Uma lida em blogs e colunas de jornais assinadas por economistas interessados no tema apresenta uma série de soluções para questão, algumas dessas soluções são complementares outras podem até ser excludentes. Não é difícil encontrar textos colocando capital humano, infraestrutura, estímulo a indústria de transformação e uma série de outras medidas que isoladamente ou combinadas podem resolver o problema da nossa baixa produtividade. Cada uma dessas variáveis pode contar parte da história (tenho dificuldades de comprar a tese da indústria de transformação, mas isso é assunto para outro post), mas creio que sem um ingrediente chave nenhuma medida vai resolver o problema. O ingrediente a que me refiro é competição.

Edward Prescott, prêmio Nobel de Economia em 2004, afirma que a principal causa para explicar o desempenho da produtividade é a grau de resistência a adoção de novas tecnologias e ao uso eficiente das tecnologias existentes, esse grau de resistência está associado a arranjos institucionais de uma determinada sociedade (link aqui). O grau de competição entre as firmas é uma das peças fundamentais desse arranjo, em uma sociedade com pouca competição entre firmas os incentivos para adotar tecnologias e usar de forma eficiente as tecnologias existentes podem de ser tal monta que a firma prefira ser ineficiente. Tanto adotar tecnologias novas quanto usar tecnologias de forma eficiente tem custos e sem a pressão de um concorrente pode não ser interessante incorrer em tais custos para ganhar eficiência.

Se aceitarmos a tese de que competição é a chave para o crescimento da produtividade, deixo essa decisão para cada leitor, o principal desafio para resolver nosso problema de baixa produtividade é aumentar a competição entre as firmas brasileiras. O aumento da competição pode ocorrer por meio de forças internas e/ou externas. Por forças internas falo de facilitar a entrada de novas firmas no mercado brasileiro, por forças externas falo de abrir a economia para que nossas empresas tenham de competir com empresas em outros países. Estamos mal nos dois critérios.

O ambiente de negócios do Brasil está longe do ideal, de fato pode ser considerado hostil (link aqui). Em relação a facilidade de fazer negócios ocupamos a 109º posição em uma lista de 190 países, estamos entre Papua-Nova Guiné e o Nepal. Para que o leitor tenha uma melhor ideia de nossa posição registro que o México aparece no 54º lugar, o Chile no 56º, a Colômbia está na 65º posição e o Peru na 68º. A China está na 46º posição. No quesito “começar um negócio” estamos na 140º posição, para conseguir permissão para construção nossa posição é a 175º e para pagar impostos estamos na 184º posição. A figura abaixo compara o Brasil com os países de renda média alta nos vários quesitos analisados, na maioria deles estamos abaixo da média do grupo. Para aumentarmos a competição interna é urgente fazer reformas que melhorem o ambiente de negócios e reduzam as barreiras a entrada de novas firmas no mercado.



A outra opção para aumentar a competição é abrir a economia. Tratei do tema em outros postos do blog (aqui e aqui). A figura abaixo mostra a tarifas média no Brasil comparada com a de outros países de renda média alta, os links que coloquei mostram outros critérios de abertura da economia, é fácil constatar que estamos bem acima da média no quesito protecionismo. Dos países listados na figura abaixo apenas Irã e Venezuela possuem tarifas médias maiores do que a nossa.




Sempre que falo em abrir a economia aparece alguém dizendo que isso seria o tiro de misericórdia na indústria nacional. Essa é uma discussão gigantesca que foge ao propósito desse post, mas vale registrar que o padrão de queda da participação da indústria de transformação no PIB, seja lá o que isso estiver medindo, está presente na América Latina, mas no México, desde 2005 o padrão não aparece. A figura abaixo ilustra esse fenômeno. Para quem não lembra em 2005 nossos defensores da indústria comemoram a implosão do tratado que criaria o livre comércio em toda a América deixando o acordo restrito aos países da América do Norte. É curioso que em 2018 López Obrador o presidente esquerdista do México queira manter o tratado enquanto Donald Trump, eleito pelo Partido Republicano, queira rever o tratado alegando que o México está tomando empregos industriais dos EUA. Talvez abertura não faça tão mal a indústria como pensam alguns aqui pelo Brasil.



Um último ponto interessante diz respeito ao timing das reformas. Os economistas Jose Asturias, Sewon Hur, Timothy Kehoe e Kim Ruhl argumentam que a ordem das reformas importa (link aqui). Segundo eles o ideal seria primeiro abrir a economia e depois facilitar a entrada de novas no mercado. A abertura coloca um filtro mais restritivo nas empresas que vão sobreviver no mercado, empresas pouco produtivas podem ser expulsas pela competição das empresas estrangeiras. Se isso for verdade uma agenda de reformas que primeiro facilite a criação de empresas e depois faça a abertura da economia pode gerar frustrações a medida que algumas das empresas criadas serão expulsas do mercado após a abertura*. Não sei com certeza o quanto desse argumento pode ser aplicado ao Brasil, mas estou convicto que devemos fazer as reformas necessárias para aumentar o grau de competição no Brasil. Sem isso temo que outras medidas adotadas para estimular a produtividade não tenham o sucesso desejado e até acabem atrapalhando.


*No artigo o argumento vai na direção que se a abertura vier primeiro empresas menos produtivas não vão nem chegar a entrar no mercado, isso ocorre porque os autores não modelam a decisão da firma sair do mercado. De toda forma vale que abrir primeiro e depois facilitar a entrada tem um impacto maior que a ordem contrária por conta do filtro a empresas pouco produtivas que é imposto pela abertura.


sábado, 27 de outubro de 2018

A volta do Pessimildo: desafios para 2019


Domingo à noite vamos saber quem será o novo presidente, cerca de dois meses depois, no dia primeiro de janeiro de 2019, o eleito tomará posse. Estou escrevendo no final da tarde de sábado, as pesquisas sugerem fortemente que Bolsonaro será eleito, mas nada é impossível quando se trata de eleições e pode ser que ocorra uma surpresa. O fato é que independente do que aconteça no domingo o próximo governo terá grandes desafios pela frente, pior, esses desafios não foram discutidos na campanha. Enquanto um lado promete fazer o povo feliz de novo congelando o preço do gás e forçando aumento de salário mínimo o outro diz que vai entregar saúde e educação de primeiro mundo combatendo a corrupção. Lamento informar, mas nada disso cai acontecer, não nos próximos anos e muito menos por esses caminhos.

O texto abaixo é inspirado em uma apresentação que preparei para a equipe do senador Álvaro Dias e serviu de base para algumas palestras que fiz nos últimos meses, na apresentação aponto três grandes desafios para a economia brasileira e faço algumas propostas para enfrentar esses desafios. No presente texto vou me limitar aos desafios, deixo as propostas para um próximo post. São três os desafios que vou discutir: o da produtividade, o do investimento e o ajuste fiscal. Em ordem de importância creio que os desafios seguem a lista, mas em ordem de urgência a lista está de trás para frente.

O primeiro desafio, que eu chamo de desafio de longo prazo, é a questão da produtividade. Como já disse Paul Krugman produtividade não é tudo, mas no longo prazo é quase tudo. No longo prazo a produtividade é o motor do crescimento e, verdade seja dita, esse nosso motor anda mal das pernas há cerca de quarenta anos. A figura abaixo mostra o crescimento da produtividade na Coreia do Sul, nos Estados Unidos e no Brasil, sei que Coreia do Sul é meio apelação, mas a figura ilustra o que é um caso de sucesso, o mínimo a se esperar de um país que pretende ficar rico e o desastre brasileiro. O crescimento da produtividade acima do ocorrido nos EUA permitiu a Coreia do Sul se aproximar das economias desenvolvidas. Um crescimento semelhante ao dos EUA não garante uma aproximação, mas pelo menos impede o distanciamento, no mais é razoável supor que uma economia emergente saudável tenha ganhos de produtividade acima dos EUA visto que, grosso modo, os americanos precisam inovar para ficarem mais eficiente e os países emergentes podem inovar ou adaptar tecnologias existentes. Como mostra a figura abaixo o Brasil não atende o teste básico e tem um crescimento da produtividade menor que os EUA, pior, após a subida na década de 1970, a produtividade no Brasil caiu e ficou praticamente estagnada nos níveis de 1970.




A figura abaixo faz uma comparação da produtividade no Brasil com a de países de renda média alta, grupo de países a que pertencemos de acordo com a classificação do Banco mundial. Repare que apenas Tailândia e China são menos produtivas que o Brasil. Com uma produtividade tão baixa não há como oferecer condições de trabalho, saúde, educação e uma rede de proteção social semelhante a de países de primeiro mundo. Não tem combate a corrupção nem congelamento de preços que mude isso.




Fica pior, a figura abaixo mostra o crescimento da produtividade no mesmo grupo de países da figura anterior. Lembra da China que estava em último lugar? Lá a produtividade é baixa, mas está crescendo bem, aqui nem isso. Temos a terceira produtividade mais baixa e só ficamos na frente da África do Sul em crescimento, no caso encolhimento, da produtividade. O assunto é relevante, em 2013, a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, na época sob o comando do Marcelo Neri, fez uma pesquisa chamada “Determinantes da produtividade do trabalho para a estratégia sobre sustentabilidade e promoção da classe média” (link aqui). A equipe foi coordenada pelo Ricardo Paes Barros e eu tive a boa sorte de participar, a avaliação era que sem uma mudança na trajetória da produtividade a nova classe média estava em risco. Em 2014 foi a vez do IPEA colocar a questão da produtividade no centro das atenções em dois volumes intitulados “Produtividade no Brasil: desempenho e determinantes” (link aqui), também participei desse trabalho, novamente aparecia a necessidade de mudar a trajetória da produtividade no Brasil. Em 2018 foi a vez do Banco Mundial lançar o documento “Emprego e crescimento: a agenda da produtividade” (link aqui), novamente a necessidade de ganhos de produtividade entra em cena. Sem resolver a questão da produtividade não vamos ter renda suficiente para entregar o que foi prometido nesta e em outras campanhas.






Se hoje é relativamente fácil concordar que nosso maior problema é a produtividade, não há nada parecido com um consenso quando o assunto é como aumentar a produtividade. Edward Prescott, Nobel de economia em 2004, diz que boa parte do baixo desempenho da produtividade pode ser explicada pela resistência a adoção de novas tecnologias e uso eficiente das tecnologias existentes e que essa resistência está relacionada às políticas empregadas por uma sociedade. Se Prescott está certo, eu acredito que está, nossa baixa produtividade está relacionada à nossas políticas. O lado bom é que pode ser o caso de uma mudança de políticas levar a uma rápida mudança no quadro de estagnação, o lado ruim é que essa mudança de políticas não é fácil. De fato, acredito que tais mudanças não estão no horizonte, pelo não com a intensidade necessária.

O próximo desafio, o desafio do médio prazo, é o do investimento. A figura abaixo mostra a taxa de investimento nos países da renda média alta, repare que apenas a Argentina tem uma taxa de investimento menor que a nossa. Esse é um problema sério, o investimento aumenta a capacidade de produção da economia, viabiliza a entrada de novas tecnologias embutidas em máquinas mais modernas e, para os que gostam de olhar para demanda, o investimento é parte da demanda agregada. Em tese é possível crescer apenas com ganhos de produtividade, na prática, sem um aumento da taxa de investimento isso dificilmente vai acontecer.




A baixa taxa de investimento traz um dos maiores perigos para o nosso futuro, a tentação de usar de estímulos para aumentar o investimento sempre ronda os palácios de governo. O que pode dar errado? O estímulo ao investimento em tempos de crise gera emprego, produção e impostos que acabam pagando parte do custo do estímulo. O que parece perfeito á primeira vista muitas vezes resulta em crises ainda maiores no futuro. Tratando desse assunto os economistas Timothy Kehoe e Gonzalo Córdoba alertara que usar estímulos para elevar investimento e emprego durante uma crise, se causar distorções suficientes, pode levar um país a uma depressão. Eu concordo com eles, vou além, acredito que boa parte da grande crise que começou em 2014 foi consequência das distorções causadas pelos estímulos ao investimento entre 2009 e 2014

Investimos mal. Construímos estádios que não têm uso, fizemos refinarias que não ficam prontas, grandes obras que não acabam, hidroelétricas de alto impacto ambiental e questionável eficiência econômica e energética, financiamos investimentos no Grupo X e na Oi, fizemos estaleiros, e, para fechar a lista com cave de ouro, investimos no Comperj. Alguém colocaria o próprio dinheiro nesses projetos? Duvido muito, mas com ajuda do governo o negócio ruim passa a ser bom (para poucos) e tudo passa a valer. Todo esse investimento poderia ter sido destinado a projetos mais relevantes tanto do ponto de vista social como econômico. Entre 2003 e 2016 apenas os subsídios implícitos nos empréstimos do Tesouro ao BNDES custaram cerca de R$ 150 bilhões (em valores de 2016). Qual teria sido o impacto de todo esse dinheiro se tivesse ido para saneamento básico? Quantos pequenos empreendedores apostaram suas economias em empresas na área do Comperj apostando em uma demanda que nunca veio? Quantos se mudaram em busca dos empregos que não chegaram? Qual o custo social e econômico de tudo isso? Esses investimentos ruins pioraram muito a alocação de capital no Brasil e dificultaram o crescimento da produtividade. Para investir mal às vezes é melhor não investir.

Mais uma vez a solução para o problema não é fácil. Os empregos destruídos na crise de fato nunca existiram, eram uma miragem sustentada com centenas de bilhões de reais dos pagadores de impostos. O tempo para que as mudanças necessárias para criar novos empregos em setores saudáveis, não ilusórios, é longo, é preciso que empresas que só existem por conta dos estímulos fechem e outras com vida própria cresçam, O processo além de longo é dolorido, mas é necessário para a construção de uma economia saudável. Para que os bons projetos virem empresas é necessário um aparato legal que minimize incertezas, o governo não precisa adicionar incertezas regulatórias as incertezas existentes no mercado. Não falo aqui de eliminar todas as regulações, sou mais modesto, peço apenas regras estáveis e tão claras quanto possíveis. A construção a aprovação desse novo marco regulatório leva tempo, assim como levará tempo para que faça efeito. Mais uma vez não vejo soluções de curto prazo.

O último e mais urgente desafio é o fiscal, o desafio do curto prazo. A figura abaixo mostra a projeção da dívida bruta do governo como proporção do PIB feita pelo FMI. Se seguirmos esse caminho vamos chegar a 2022 com uma dívida bruta acima de 95% do PIB, isso é inconcebível para um país emergente.




Sei que alguns citam países como Espanha e Japão para dizer que dívidas de cem por cento ou mais do PIB não são um grande problema, considero essa abordagem um erro grave. Países ricos conseguem se financiar a taxas de juros baixas, bem próxima de zero ou zero, não é o caso do Brasil. A figura abaixo mostra a dívida bruta como proporção do PIB para os países emergentes conforme a classificação do FMI. Apenas a Ucrânia tem uma dívida bruta acima de 80% do PIB, apenas Ucrânia e Sri Lanka têm dívidas brutas como proporção do PIB maiores que a do Brasil. Mantida a trajetória prevista pelo FMI podemos nos tornar o país emergente com a maior bruta como proporção do PIB. Sei que nos achamos especiais, que Deus é brasileiros e coisas do tipo, mas temos que os financiadores de nossa dívida não pensem o mesmo e comecem a procurar outros lugares para colocar o dinheiro, não faltam opções.



A solução para o problema fiscal passa por redução de gastos, aumento de impostos ou, mais provável, alguma combinação das duas coisas. Eu sou contra aumento de impostos, para minha sorte eu não estou (nem pretendo estar) no governo, um ajuste apenas por meio de gastos seria longo e exigiria uma reforma da previdência o mais rápido possível, não me parece crível que tamanho ajuste tenha um caminho fácil no Congresso. É verdade que o teto de gastos em tese nos deu vinte anos para fazer o ajuste, mas para que isso funcione é necessário mandar os sinais corretos, sem a reforma da previdência aprovada no próximo ano creio que poucos terão a coragem de nos dar vinte anos de crédito. Um ajuste por impostos poderia ser feito em um prazo menor, as propostas teriam de ser enviadas ao Congresso no começo do próximo ano, tão logo quanto possível, de forma que até o fim do ano alguns impostos já tivessem em vigor. Uma versão da CPMF podia aliviar o problema fiscal, mas se isso acontecer o lado que perder as eleições de domingo vai ter todo direito de acusar estelionato eleitoral do lado vencedor. Depois não adianta acusar de golpista quem for as ruas reclamar que foi enganado, se o plano é elevação geral de impostos e trazer de volta a CPMF os candidatos tinham obrigação de ter anunciado na campanha. É melhor perder uma eleição que ganhar enganando o eleitor, quem acompanhou os eventos políticos de 2015 e 2016 deve saber disso.

Desta forma, considerando que um ajuste fortemente ancorado em novos impostos pode minar o apoio do eleitor ao governo e que um ajuste com base nos gastos e lento e requer reformas difíceis não vejo solução de curto prazo nem mesmo para o mais urgente dos problemas. Posso estar enganado? Deus queira que eu esteja, mas se eu estiver certo vamos ter um período pesado pela frente. A campanha precisava de alguém com a grandeza de prometer trabalho e lágrimas até a superação final da crise, no lugar disso tivemos semeadores de ilusões.


segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Não é exatamente por malandragem, é por baixa produtividade.

É comum encontrar explicações para nosso baixo PIB per capita que partem da ideia que brasileiro trabalha pouco, ou seja, não somos ricos por sermos malandros. Parte dessa ideia deve vir da simpatia que temos com os malandros, embora pareça que tal simpatia está diminuindo nos últimos anos. Veja o Rio de Janeiro, a cidade que serviu de cenário para a Ópera do Malandro e para os filmes do Hugo Carvana, hoje tem como prefeito um pastor evangélico fazendo parecer que a ética protestante chegou do lado de baixo do equador. Apesar disso a imagem do brasileiro malandro persiste. Nem mesmo trabalhando, morando lá longe e chacoalhando num trem da Central, dizem as más línguas, conseguimos perder a fama de malandros, talvez por culpa dos malandros com aparato de malandro oficial.

Para checar se nossa suposta malandragem pode ser a causa de não sermos um país rico resolvi dar uma olhada nos dados da PWT 9.0 (link aqui). Nesta versão da PWT constam dados de horas médias trabalhadas para alguns países. Selecionei o período entre 2010 e 2014, últimos cinco anos disponíveis, e o PIB, a população, as horas trabalhadas médias e a população ocupada, eliminando os países sem esses dados disponíveis fiquei com 68 países. O primeiro exercício foi comparar as horas médias trabalhadas no Brasil com as de outros países. Ficamos abaixo da média, mas não ficamos entre os que menos trabalham. Segundo a PWT 9.0 no Brasil cada pessoa empregada trabalha em média 1.723 horas por ano, a média do mundo 1.875, a mediana é 1.846 e o primeiro quartil é 1.686, ou seja, se dividirmos os países em quatro grupos onde o primeiro é o dos países que menos trabalham e o quarto é o dos países que mais trabalham estaremos no segundo grupo. A figura abaixo compara as horas trabalhadas médias no Brasil e nos grupos de países conforme a classificação do FMI.




Observando a figura vemos que nossas horas trabalhadas médias são menores que as do grupo América Latina e Caribe, na verdade são menores do que a de qualquer grupo de países que escolhamos. O grupo com a média mais próxima da nossa é o de países avançados, alguém pode dizer que somos pobres querendo trabalhar como ricos, mas não vou nesse caminho. Meu questionamento vai na direção oposta, quero analisar como é possível que países ricos trabalhem menos que os países do Sub-Saara ou que os países emergentes da Ásia. Se somos pobres porque não trabalhamos, qual a razão de alemães, holandeses, noruegueses e dinamarqueses trabalharem em média menos que nós e mesmo assim possuírem uma renda muito maior que a nossa? Será que trabalhar mais não implica em ser mais rico?

A figura abaixo mostra a relação entre horas trabalhadas médias e PIB per capita, como podem ver a relação é negativa, ou seja, em média, nos países mais ricos os trabalhadores dedicam menos horas por ano a seus empregos. O resultado pode parecer estranho, se trabalham menos deveriam produzir menos e, logo, ter menos renda. Porém existe um outro efeito importante. Lazer definitivamente não é um bem inferior, ou seja, quanto maior a renda de uma pessoa, mais lazer a pessoa quer desfrutar. Sendo assim faz sentido pensar que em países ricos os trabalhadores demandam mais lazer e, por isso, trabalham menos. É como dizer que eles trabalham pouco porque podem.



Podemos ser mais cuidadosos em nossa análise. Considere uma família de quatro pessoas que tem uma única pessoa trabalhando 60 horas por semana e uma outra família de quatro pessoas onde tem duas pessoas trabalhando 40 horas por semana. Se olharmos as horas trabalhadas médias por pessoa empregada em cada família vamos dizer que a primeira família tem 60h horas trabalhadas médias e a segunda família tem 40h trabalhadas médias. Se olharmos totais trabalhadas a primeira família trabalha 60h e a segunda família trabalha 80h, sendo assim seria razoável que mesmo com menos horas trabalhadas médias a segunda família tenha maior renda, afinal a segunda família trabalha mais. O raciocínio pode ser repetido em termos per capita, ou seja, por membros da família. Na primeira família cada membro trabalha, em média, 15h e na segunda família cada membro trabalha, em média, 20h, logo as horas trabalhadas per capita na segunda família também são maiores que a horas trabalhadas per capita na segunda família.

Para abordar esta questão vamos calcular as horas trabalhadas per capita dos países da amostra e comparar com a renda per capita. A figura abaixo faz isso, repare que a linha é quase horizontal, ou seja, quase não existe relação entre horas trabalhadas per capita e PIB per capita (para os curiosos o p-value da regressão entre PIB per capita e horas trabalhadas per capita é 0,77). Repare que as horas trabalhadas per capita no Brasil são maiores que as de países como Chile, Estados Unidos, Suécia e Alemanha. De fato, no Brasil trabalhamos 88r per capita, a média da amostra é 851h e a mediana é 804h. Isso em parte se deve ao chamado bônus demográfico, ou seja, a “família” brasileira tem muita gente trabalhando porque a soma de velhos de crianças não é tão alta quanto em outros países. Outra parte é devido a não sermos ricos, em países ricos as famílias podem esperar mais antes de mandar os filhos para o mercado de trabalho.




Vimos que os trabalhadores nos países ricos não trabalham em média mais horas que o dos países pobres, também vimos que as horas trabalhadas por pessoa não tem muita influência no PIB per capita. Então por que os países ricos são ricos? Por que são produtivos! A verdade é que existe uma diferença significativa entre trabalhar muito e trabalhar bem, dito de outra forma, esforço não é eficiência. As horas trabalhadas a menos nos países ricos são mais que compensadas pela maior produtividade do trabalho nesses países. A figura abaixo mostra a produtividade do trabalho e as horas trabalhadas per capita.




A relação levemente negativa pode ser explicada por conta de trabalhadores de países menos produtivos terem de trabalhar mais para conseguir melhorar a renda. Chama atenção no gráfico a dominância dos países avançados na parte de cima da linha, isso ajuda muito a explica por que países ricos são ricos mesmo trabalhando menos. A guisa de exemplo considere Brasil e Alemanha. O trabalhador alemão trabalha em média 1.378h por ano enquanto o trabalhador brasileiro trabalha e média 1.723 h por ano, ou seja, um trabalhador brasileiro passa 25% mais tempo trabalhando que um alemão. Se considerarmos a horas trabalhadas per capita veremos que na Alemanha são 710h por pessoa por ano, no Brasil 886h por pessoa por ano, ou seja, aqui é 24,8% maior que lá. Por outro lado, na Alemanha um trabalhador produz $61,5 por hora de trabalho, no Brasil um trabalhador produz $16,4 por hora de trabalho, ou seja, a produtividade lá é 3,75 vezes a produtividade de cá. Com tanta produtividade é possível trabalhar menos e ter um PIB per capita de $43,7 mil contra nossos $14,6 mil.

Uma figura com PIB per capita e produtividade do trabalho pode ser questionável por vários motivos, mas aqui no blog será útil para ilustrar o argumento do post e para permitir uma provocação final. A figura abaixo mostra a produtividade do trabalho e o PIB per capita, reparem bem nela:




Nossa baixa produtividade faz com que mereçamos ser um país com renda per capita abaixo da média!


sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Cometários a respeito das medidas de "Crescimento, Produtividade e Desburocratização"

Ontem o governo anunciou um conjunto de medidas para estimular a economia. Li muita gente reclamando que o pacote era modesto e não trazia nada de impacto para retomar o crescimento de curto prazo. Na minha avaliação a modéstia e falta de medidas de impacto de curto prazo são os pontos forte do conjunto de medidas. O foco em reformas e produtividade, por mais que tenham um tanto de retórica, mostram de forma clara a mudança na estratégia de construção na política econômica, porém, como ninguém é de ferro, alguns pontos ficaram parecidos com políticas que deram errado no passado recente, pior, a festa dos compadres se infiltrou nas medidas. A seguir comento os dez eixos do programa Crescimento, Produtividade e Desburocratização conforme a apresentação na página do Ministério da Fazenda (link aqui).

1. Regularização Tributária
O Programa de Regularização Tributária (PRT) é mais um REFIS. Programas assim sempre podem ser criticados pela possibilidade de risco moral, ou seja, de algumas empresas ou indivíduos deixarem de pagar impostos esperando uma próxima anistia do tipo. Por outro lado, o PRT pode ser uma maneira de aliviar o problema fiscal de curto prazo, todas as formas de adesão exigem entrada à vista ou parcelada em até 36 meses, e organizar empresas e famílias que estão com dificuldades financeiras, vale lembrar que carga tributária brasileira é muito alta em comparação com outros países emergentes.

2. Incentivo ao Crédito Imobiliário
O título desse eixo dá nervoso ao remeter para experiências ruins do passado recente, mas a medida não trata de mais crédito a juros subsidiados. Na verdade, a ideia é regulamentar a Letra Imobiliária Garantida (LIG), um título com garantias dadas pelos ativos do banco emissor e que direcionaria poupança para o crédito imobiliário. No lugar de estimular demanda via manipulação de preços o governo está tentando estimular a oferta criando novos ativos. Não sei avaliar o impacto da medida, mas, conceitualmente, é muito superior às políticas que foram aplicadas para o setor em passado recente.

3. Redução do Spread
Não se trata de uma intervenção tentando tabelar o spread, o que seria repetir o erro que Mantega cometeu lá por 2012. O objetivo é criar um ambiente centralizado para registro de duplicatas de forma a facilitar que o credor tenha mais informações sobre a qualidade do ativo e, por consequência, tenha mais segurança sobre o retorno do empréstimo. Também serão feitas mudanças no cadastro positivo como forma de aumentar a adesão ao sistema e reduzir riscos dos credores. Se bem sucedidas as medidas podem reduzir o spread. Se acompanhadas de medidas de aumento da competição no setor bancário, reduzindo o ganho de poder de mercado dos bancos, podem ter um impacto forte nos juros cobrados a empresários e famílias.
Termino fazendo um registro sobre o risco de sistemas de informações centralizados, de fato é possível que governos e empresas usem o sistema contra outras empresas e os cidadãos. Exemplos recentes mostram que esse risco existe e não é paranoia de liberais. Pelo que sei a adesão será voluntária, o que é muito bom, também seria bom que o governo deixasse claro que autoridades, especialmente as fiscais, não poderão usar as informações do cadastro contra empresas ou famílias que se inscreverem.

4. Cartões de Crédito
A esta altura já está claro o tom das medidas, de forma que o título não me assustou. A primeira medida permite que lojas cobrem preços diferentes de clientes que usam diferentes meios de pagamento. Na prática a medida revoga decisões absurdas que impedem um lojista de dar descontos para quem paga em dinheiro, repare que a medida permite, não obriga, a diferenciação, sendo assim se o lojista quiser continuar cobrando o mesmo de quem paga com dinheiro ou cartão não será punido nem nada do tipo. Leis que permitem algo costumam ser boas leis, esta não é exceção.
Reduzir o prazo para reembolsar os lojistas ou reduzir os juros cobrados é uma medida técnica, a princípio parece ir na direção correta, impressão reforçada pela informação que em outros países os prazos são mais curtos. Por outro lado é perigoso quando o governo começa a regular questões tão específicas como o prazo de reembolso e é assustador quando o governo tenta regular preços. Aqui o ideal seria permitir que bancos, lojistas e consumidores se entendessem enquanto o governo tomaria medidas para aumentar a competição no setor. Entendo, porém, que o ideal nem sempre é possível e que algumas vezes não fazer o possível por não ser o ideal leva a resultados ruins.
A universalização das formas de pagamento, ou seja, obrigar que as máquinas aceitem todas as bandeiras de cartão, me parece uma intervenção indevida. Entendo que o governo tenta estimular a concorrência, mas não se deve obrigar uma firma a trabalhar com outra por força de lei. A medida pode criar custos desnecessários, habilitar máquinas para trabalhar com cartões não utilizados na região e pode dar um excessivo poder de barganha aos donos das bandeiras de cartões.

5. Desburocratização
Medidas para reduzir burocracia são sempre bem-vindas, tenho dúvidas se a plataforma do eSocial de fato simplificas as coisas, pelo que me lembro empresários reclamam da plataforma e quando famílias foram obrigadas a usar foi um caos, também me incomoda o uso que pode ser feito das informações em sistemas do tipo. Creio que tais problemas poderiam ser reduzidos tornando a adesão voluntária e fazendo leis claras a respeito de quem e como pode usar as informações no eSocial. As preocupações anteriores também se aplicam à Nota Fiscal de Serviços Eletrônica (NFS-e), cujo a implementação nacional é uma das propostas desse eixo.
O Sistema Público de Escrituração Contábil (SPED) pode de fato reduzir o tempo gasto com burocracia no Brasil com efeitos positivos no longo e, tentando ser otimista, no médio prazo. Quem me acompanha sabe que reduzir o tempo gasto com burocracia é uma das medidas que considero essenciais para o crescimento. Agilizar a compensação e restituição de tributos é outra boa medida que pode ajudar muito as famílias e as empresas. A última medida do eixo é implantação da Rede Nacional para Simplificação do Registro e da Legalização de Empresas e Negócios (Redesim). Assim como outras medidas deste eixo a Redesim está na direção correta, facilitar o processo de abrir e fechar empresas facilita a chegada de novas ideias no mercado, nunca esqueçam que a transformação de ideias em produtos e serviços é o principal motor do crescimento econômico de longo prazo.

6. Melhoria de Gestão
Pelo menos pela apresentação da página da Fazenda esse eixo ficou frustrante. Há tanta coisa para fazer na melhoria da gestão que implementação do Sistema Nacional de Gestão de Informações Territoriais (Sinter), por mais que possa ser uma boa ideia, fica minúscula diante do problema. O Sinter propriamente dito segue a linha de outras medidas que visam simplificar e facilitar o acesso a informação reduzindo burocracia ao custo de dar mais informações ao governo. É um dilema de nossa época, quanto mais tecnologia mais simplicidade e agilidade às custas de menos privacidade, todo usuário de redes sociais sabe bem disso. Uma alternativa que também pode ser o caminho em algumas das medidas anteriores é que a informação fique com o setor privado e o governo possa consultá-las por meio de convênios. Antes de me acusar de pregar uma utopia anarquista considere o funcionamento do FB ou do WhatsApp, se ainda assim quiser me acusar, tudo bem, mas leve em conta que se o governo vai fazer um convênio é porque existe um governo.

7. Competitividade e Comércio Exterior
A expansão do Portal Único do Comércio Exterior é mais uma medida que usa da tecnologia para reduzir os custos da burocracia. A promessa de reduzir em 40% o tempo para procedimentos relacionados a importação e exportação é animadora, acredito que medidas como esta tem mais impacto nas exportações que as aventuras cambiais que fazemos de tempos em tempos com a vantagem que não criam crises nem aumentam a inflação quando dão errado. A expansão do Operador Econômico Autorizado, outra medida do eixo, promete reduzir o tempo de desembaraço das mercadorias, quem já comprou no exterior sabe dos problemas causados por longos períodos para que uma mercadoria saia da alfândega.

8. BNDES – Acesso ao Crédito e Renegociação de Dívidas
Lembra de um personagem da Escolinha do Professor Raimundo, salvo engano interpretado pelo Brandão Filho, que sempre errava no final e se lamentava dizendo que “vinha tudo tão bem”? É o meu sentimento com este eixo.
A primeira medida do eixo é facilitar o a cesso ao crédito para MICRO, PEQUENAS e MÉDIAS EMPRESAS (assim em caixa alta). O destaque para micro, pequenas e médias empresas perdem parte do apelo quando recebemos a informação que nesta categoria estarão empresas que faturam até R$ 300 milhões por ano, atualmente são R$ 90 milhões. Não é uma piada. No mais um monte de facilidades para dar crédito subsidiado aos amigos pequenos empresários que faturam R$ 300 milhões por ano. O mesmo vale o refinanciamento de dívidas. Podemos resumir este eixo dizendo que empresários amigos que pegaram dinheiro a juros subsidiados poderão para mais dinheiro e terão condições favoráveis para renegociar as benesses que receberam. Esse eixo é um escândalo!

9. FGTS
A redução da multa adicional de 10% é uma medida que já deveria ter sido tomada há muitos anos. Indenizar o empregado demitido sem uma causa que o legislador de plantão considere justa já é para lá de questionável, indenizar o governo por isso é expropriação. Salvo engano a tal multa foi criada no governo FHC para ajudar a cobrir o rombo do FGST e foi ficando assim como quem não quer nada. A distribuição de 50% dos resultados do FGTS para os trabalhadores que dinheiro no fundo reduz um pouco o confisco do FGTS pois aumenta a rentabilidade do dinheiro tomado dos trabalhadores para alimentar o fundo. Fique claro que a medida não garante uma rentabilidade decente e nem muito menos muda o caráter confiscatório do FGTS. Imagine seu dinheiro aplicado em um fundo que rende menos que a inflação e o gestor do fundo te oferece metade do resultado do fundo. Mande o governo para o mesmo lugar que você mandaria o gestor.
Não está na apresentação, mas foi divulgado na imprensa que o governo vai permitir o uso do FGTS para saldar dívidas. A este respeito repito o que disse no FB: “Permitir o uso do FGTS para pagar dívidas antes de uma questão econômica é uma questão moral. Tomar parte do salário de um cidadão para colocar em fundo que rende TR mais 3% enquanto o sujeito paga mais de 400% de juros nas dívidas que tem no cartão de crédito é imoral.”

10. Microcrédito Produtivo
Microcrédito é uma coisa boa, mas não é para governo. A burocracia do governo é muito pesada para agilidade exigida pelo microcrédito, mantenho a afirmação mesmo se tirarmos o excesso de burocracia que existe no Brasil. É da natureza do setor público o controle rígido das operações feitas por servidores públicos, por exemplo, corretamente o governo é obrigado a cobrar judicialmente de seus devedores, imaginem o perigo de um burocrata decidindo quem vai e quem não vais ser cobrado na justiça, porém não judicialização é quase uma característica de programas de microcrédito. A incompatibilidade da ação do governo com a natureza do microcrédito aparece de forma clara no limite de R$ 200 mil de faturamento por ano para ter direito ao microcrédito o no limite de endividamento de R$ 87 mil.



domingo, 10 de julho de 2016

O que (não) explica a baixa produtividade do Brasil?

Assim como Churchill só confiava nas estatísticas que ele tinha manipulado eu só confio nos cálculos de produtividade total dos fatores (PTF) que eu manipulei, digo, calculei. O motivo é que calcular PTF não apenas exige especificar como fatores se transformam em produto como exige obter medidas de cada um dos fatores usados. A primeira exigência é simples de entender no trabalho de outros autores, a segunda não. Por mais que quem fez a estimativa explique sempre sobra uma dúvida ou outra de como determinada medida foi construída. Se não acredita em mim tente reproduzir as medidas de PTF de outros autores. Porém, hoje resolvi olhar para as medidas de PTF da Penn World Table 8.1 (link aqui), mais ainda, resolvi checar a correlação entre tal medida e algumas variáveis normalmente usadas para explicar produtividade. Para isto fiz uma série de gráficos mostrando a relação entre PTF e um conjunto de variáveis selecionadas, em todos os casos foram usadas médias entre 2007 e 2011, últimos anos da amostra. Nunca é demais repetir que correlação não é causalidade e que o exercício que será feito não tem o rigor necessário para chamar o resultado de uma conclusão científica, longe disso, os resultados servem apenas para atiçar a curiosidade e plantar duvidas em quem queira pesquisar sobre o tema.

A primeira correlação que olhei foi entre PTF e relação capital trabalho. Alguns autores argumentam que economias mais intensivas em capital tendem a ter uma produtividade maior porque tecnologias intensivas em capital incorporam mais tecnologia. A figura abaixo mostra que de fato há uma correlação positiva entre PTF e relação capital trabalho, ou seja, quanto mais capital usado na produção em relação ao trabalho usado na produção maior a PTF. Porém repare que no Brasil, ponto verde, a PTF é menor do que seria de se esperar considerando apenas a relação capital trabalho, em outras palavras, somos poucos produtivos para o nosso nível de capital.




Depois olhei para capital humano. Existe um quase consenso que capital humano é chave para produtividade, quanto mais treinada a força de trabalho mais eficiente será a mão de obra e melhor utilizado será o capital. A figura abaixo corrobora a relação positiva entre capital humano e PTF, porém, mais uma vez, o Brasil está abaixo da linha, ou seja, países com capital humano próximos ao nosso são mais produtivos que nós.




A próxima variável considerada foi tamanho do governo, na falta de uma medida melhor à mão usei a proporção do gasto no PIB. A figura mostra uma relação levemente negativa entre tamanho do governo e PTF [o leitor curioso pode querer saber que a relação não é significativa], a figura também mostra que novamente ficamos na parte de baixo, ou seja, levando em conta o tamanho do nosso governo nossa produtividade é baixa.




Na sequência fiz o gráfico com produtividade e grau de abertura. A relação é positiva como era de se esperar, países mais abertos tem acesso a mais tecnologias e mais insumos, além disso as empresas desses países estão expostas a mais competição. A figura mostra a correlação positiva entre grau de abertura e PTF, assim como nos outros casos, a figura também mostra que nossa produtividade é menor do que o esperado considerando apenas o grau de abertura.




Por último considerei o preço do investimento. Em tese quanto mais caro investir mais as firmas demoram com máquinas antigas, isso diminui o ritmo de incorporação de novas tecnologias no processo de produção e, portanto, reduz a produtividade. Aqui a figura mostra uma relação diferente da prevista, pela figura quanto maior o preço do investimento maior a PTF. É difícil entender a relação encontrada na figura, felizmente esse não é o objetivo do post, no momento o que interessa é que mais uma vez nossa produtividade é baixa se comparada à que seria esperada considerando apenas a variável relevante.




Os resultados combinados são frustrantes, para cada uma das variáveis nossa produtividade é menor do que o esperado. É possível que nossa baixa produtividade seja resultado de uma combinação ruim das variáveis consideradas no exercício no post, também é possível que a explicação esteja em outras variáveis que não considerei aqui. Creio que a segunda possibilidade é mais provável, nossa baixa produtividade parece ser consequência de um conjunto de regras que não estimulam a inovação nem a adoção de técnicas produtivas mais eficientes, vou além, nossas regras ruins podem ser responsáveis até mesmo por resultados ruins nas variáveis que escolhi para explicar a produtividade. Por exemplo, dificuldades de investir e/ou barreiras à entrada podem explicar a baixa relação capital trabalho no Brasil ou o compadrio entre políticos e burocratas pode explicar porque nossa economia é pouco aberta. Se eu estiver certo fica reforçada a necessidade urgente de retomar uma agenda de reformas voltada para o crescimento da produtividade.


terça-feira, 31 de maio de 2016

Ranking de Competitividade do Centro Mundial de Competitividade do IMD: Cada ranking é um vexame novo.

Foi divulgado o ranking de competitividade elaborado pelo Centro Mundial de Competitividade (link aqui). O centro é ligado ao IMD (link aqui) e o ranking é divulgado a quase vinte anos. A primeira vez que o Brasil foi apareceu no ranking foi em 1997 ocupando a 34º posição em um total de 46 países. Em 2010 estávamos em 38º de 59 países, perdemos quatro posições, porém apareceram 13 países novos na lista. Na versão de 2016 ficamos em 57º, de 2010 a 2016 caímos 19 posições e só entraram 3 países no período. De fato, a partir de 2010 o Brasil começou uma tendência de queda no ranking, ficamos em 44º em 2011, 46º em 2012, 51º em 2013 e 56º em 2015. Essa queda é mais uma evidência do erro que cometemos lá por 2006 quando abandonamos a agenda de reformas e voltamos a adotar práticas desenvolvimentistas.

Olhando o quadro geral é possível observar que somos competitivos que países com renda per capita semelhantes à nossa. A figura abaixo ilustra esse ponto, para evitar distorções no gráfico retirei Qatar e Luxemburgo da lista, ambos possuem PIB per capita superior a $100.000. O Brasil é representado pelo ponto vermelho, repare que vários países com PIB per capita próximos ao nosso apresentam uma pontuação superior à nossa. A pontuação média dos países com PIB per capita menor que o do Brasil é 57.246, a pontuação do Brasil foi 51.676, ou seja, baixa renda não é desculpa para nossa falta de competitividade.




A figura abaixo mostra os dez piores classificados no ranking. Abaixo e quase empatada conosco aparece a Croácia, depois vem Ucrânia, Mongólia e Venezuela. A Argentina, que ano passado estava pior que o Brasil, já começa a abrir vantagem. Nunca é demais lembrar que a Ucrânia quase teve uma guerra civil e um conflito militar com a Rússia, a Venezuela foi destruída por uma ditadura, a Croácia ficou independente após uma guerra violenta que terminou em 1995 e hoje está envolvida com a crise humanitária dos refugiados do Oriente Médio e a Mongólia é um país que foi governado pelo mesmo partido, Partido Revolucionário Popular Mongol, de 1921 a 2010 em um regime que até 1990 era de partido único. É difícil explicar o que o Brasil está fazendo no meio desta turma.




É verdade que temos sérios problemas de curto prazo para resolver, mas também temos de dar a devida atenção a nossa competitividade. A boa notícia é que resolver os problemas de curto prazo não exclui políticas que aumentam a produtividade no longo prazo, pelo contrário, medidas como melhoria da gestão no setor público, privatizações e redução da burocracia podem simultaneamente ajudar no ajuste fiscal e no crescimento da produtividade. Por outro lado, aumentos de impostos, principalmente com os impostos ruins que temos no Brasil, podem até ajudar a resolver o problema fiscal, mas complicam o crescimento da produtividade a médio e longo prazo. Estamos em um momento crítico, podemos retomar o caminho das reformas desta vez prestando mais atenção ao lado fiscal ou podemos tentar aumentar arrecadação para manter privilégios de grupos de interesse. A escolha que fizermos vai definir como estaremos nos próximos dez anos.



segunda-feira, 2 de março de 2015

Encarem o Fato: Nossa Produtividade é Baixa!

Hoje cedo Mansueto Almeida, economista do IPEA e dono de um dos melhores blogs de economia na praça, me questionou a respeito de uma reportagem de O Globo a respeito da baixa produtividade do trabalho no Brasil (link aqui). A chamada da matéria dizia “Trabalhador brasileiro produz menos que o da Venezuela”, a dúvida era se nossa produtividade é realmente tão baixa. Para responder o Mansueto fiz algumas figuras mostrando que nossa produtividade é de fato muito baixa (link para a conversa aqui). Depois, já no final da tarde, vi que o Rodrigo Constantino também ficou impressionado e comentou a reportagem d'O Globo sobre a produtividade no Brasil (link aqui). Dado o interesse que tema desperta resolvi escrever este post com as figuras que fiz e mais algumas outras que ajudam a entender que nossa produtividade é de fato muito baixa.

Como a reportagem falava da América Latina fiz a figura comparando a produtividade do trabalho no Brasil com a de outros países da América do Sul e o México. Para elaborar a figura usei os dados da Penn World Table versão 8.0 (PWT8.0), a base de dados mais usada para comparações internacionais, escolhi o ano de 2011 por ser o mais recente que consta na base de dados. Selecionei um grupo com os países da América do Sul (exceto as antigas Guianas) e o México. A figura abaixo mostra a produtividade dos países deste grupo. Repare que nossa produtividade só é maior do que a do Paraguai e a da Bolívia.





Nossa produtividade do trabalho é baixa mesmo quando consideramos nosso PIB per capita. A figura abaixo mostra a produtividade do trabalho e o PIB per capita dos países da figura acima. Não leve muito a sério a linha de regressão, ela foi colocada apenas para ajudar na visualização, apenas repare que nossa produtividade do trabalho é menor do que a de países com PIB per capita próximos ao nosso. Não está convencido? Faz bem, eu também não ficaria. 




Para ilustrar melhor o argumento voltei a PWT8.0 e selecionei todos os países com PIB per capita próximo ao do Brasil, especificamente peguei todos os países com PIB per capita 20% ou 20% maior que o do Brasil. A figura abaixo mostra a produtividade do trabalho nestes países, mais uma vez ficamos na rabeira. Apenas na Tailândia e na China a produtividade do trabalho é menor que a nossa.





Ainda assim não fiquei satisfeito, lembrei que há alguns meses alguns colegas de profissão disseram que o grupo de comparação do Brasil eram os países ricos. Então fui comparar com nossa produtividade com a dos países da OCDE, a figura abaixo mostra o resultado, melhor não dizer nada.





Não perdi a esperança, lembrei de uma palestra onde foi dito que grupos de comparação devem levar em conta o estoque de capital. Como capital é uma variável de medição complicada peguei os países com estoque de capital entre metade e uma vez e meia o estoque de capital brasileiro. A figura abaixo mostra a produtividade do trabalho neste grupo de países, graças a Indonésia escapamos de ficar novamente em último lugar.





Daí lembrei que não se compara países pelo estoque de capital, o adequado é comparar pela relação capital trabalho (falei sobre esta questão, sobre comparar o Brasil com países da América Latina e coisas do tipo aqui). A teoria diz que a produtividade do trabalho depende, entre outras coisas, da relação capital trabalho. Escolhi os países com relação capital trabalho entre metade e uma vez e meia a relação capital trabalho no Brasil. O resultado não foi tão desastroso quanto o das outras figuras, mas também não ficamos bem na foto. De um total de 38 países ficamos na 23º posição.





Acima fiz algumas comparações entre a produtividade do trabalho no Brasil e a produtividade do trabalho em outros países, usei diversos critérios para escolher o grupo de comparação (regional/cultural, PIB per capita, OCDE, estoque de capital e relação capital trabalho), em todos os critérios nos saímos mal. Podemos tentar definir outros grupos até que encontremos um grupo onde fiquemos bem na foto (em um grupo com países com relação capital trabalho menor que um quarto da brasileira ficamos em segunda lugar) ou podemos encarar a realidade e procurar soluções para o crescimento da produtividade.