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quinta-feira, 18 de julho de 2019

Fortaleza abriu mais empresas que Juazeiro do Norte, Caucaia e Maracanaú somadas! Jura?!? E daí?


Hoje esbarrei em uma notícia compartilhada pelo Rodrigo Saraiva Marinho (link aqui) dando conta que o prefeito de Fortaleza estava comemorando que a foram abertas mais empresas na cidade do que em qualquer outra da Terra da Luz. Os que não conhecem as terras alencarinas podem não entender o tamanho do absurdo que é comparar em números absolutos a criação de empresas em Fortaleza e nas demais cidades do estado. Segundo dados do Empresômetro – Inteligência de Mercado (link aqui) 44% das empresas do Ceará estão em Fortaleza, é a oitava maior concentração de empresas na capital entre os estados brasileiros. A figura abaixo mostra o número de empresas nas quinze cidades cearenses com mais empresas.




Repare que Fortaleza tem quase doze vezes mais empresas que Juazeiro do Norte, segundo lugar na lista, nem Padre Cícero conseguiria fazer que abrisse menos empresas na terra dele do quem Fortaleza. Se no lugar do número absoluto olharmos a variação percentual no número de empresas em cada cidade Fortaleza sai de um primeiro lugar disparado para um modesto sétimo lugar. Ocorre que é difícil separar o que acontece nas outras cidades do estado do que acontece em Fortaleza, a concentração econômica na capital é tão grande que não absurdo supor que a dinâmica da economia de Fortaleza afeta as outras cidades do Ceará.




Talvez uma comparação mais interessante seja avaliar o desempenho de Fortaleza contra a de outras capitais. Novamente a comparação em termos absolutos não é adequada devido a desproporção entre o número de empresas nas várias capitais. A figura abaixo mostra a distribuição de empresas nas capitais brasileiras. Repare que o número de empresas em São Paulo é mais de sete vezes o número de empresas em Fortaleza, mais de dez vezes o número de empresas em Recife e mais de trezentas vezes o número de empresas em Vitória. Aliás vale registrar que Vitória é a única capital brasileira que não lidera o número de empresas do estado, a cidade com mais empresas no Espírito Santo é Vila Velha.




Para reduzir os efeitos da grande diferença do número de empresas em cada capital vou repetir o exercício que fiz para o Ceará e olhar para a variação percentual no número de empresas. A figura abaixo mostra esse exercício. Repare que entre as vinte seis capitais estaduais e Brasília apenas São Luís, Macapá, Teresina e Porto Alegre tiveram um crescimento menor que Fortaleza no número de empresas ativas, ou seja, a capital dos verdes mares bravios ficou na vigésima terceira posição entre as vinte e sete cidades listadas. Não creio que seja motivo para comemorar.




Alguém pode argumentar que por estar em sétimo lugar no ranking de números de empresas era de se esperar que Fortaleza tivesse uma posição intermediária no ranking de crescimento de empresas. Além da base maior o grande número de empresas pode sugerir que existem menos oportunidades para abrir novos negócios. Argumentos dessa natureza podem ajudar a explicar as primeiras colocadas na lista de crescimento do número de empresas, mas perdem força para explicar o desempenho de Fortaleza diante do fato que todas as capitais com mais empresas que Fortaleza mostraram um crescimento do número de empresas maior que o de Fortaleza.


sábado, 15 de abril de 2017

Comentários a respeito da nota da Firjan sobre a situação fiscal dos estados brasileiros

Em abril deste ano a Firjan publicou uma nota a respeito da situação fiscal dos estados brasileiros, como era de se esperar o quadro é, para dizer o mínimo, preocupante. Porém, os estados não estão igualmente encrencados, alguns estão em melhores condições que outros. A nota da Firjan mostra vários indicadores e apresenta um ranking de crise fiscal dos estados, no ranking o estado com maior problema fiscal é o Rio Grande do Sul, seguido do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, nesta ordem, e o que está em melhores condições é o Ceará, seguido por Maranhão, Pará e Amapá. Aos interessados em mais detalhes e no ranking completo recomendo que leiam o estudo completo (link aqui).

Neste post vou comentar os indicadores que compõem o índice que a Firjan usou para fazer o ranking, quais sejam: Gasto com Pessoal, Dívida, Disponibilidade de Caixa e Investimento, todos como proporção da receita corrente líquida do estado. A figura abaixo mostra o gasto com pessoal como proporção da receita corrente líquida. O estado em melhor condição é Roraima, que gasta 44,6% da receita corrente líquida com pessoal. Na outra ponta estão Minas Gerais (78%), Rio Grande do Sul (76,1%) e Rio de Janeiro (72,3%). Ao todo 13 estados estão com mais de 60% da receita corrente líquida comprometidas com pagamento de pessoal. Vale lembrar que a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) estabelece que o máximo de gasto com pessoal é 60% da receita corrente líquida.




A próxima figura mostra a dívida do estado como proporção da receita corrente líquida, o teto permitido pela LRF é de 200%. Repare que Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais estão acima do teto da LRF. Na outra ponta estão Rio Grande do Norte (3,1%), Pará (9,3%) e Amapá (14,4%).




Um dado interessante é que, como ilustrado na figura abaixo (o DF não está na figura), a correlação entre dívida como proporção da receita corrente líquida e PIB per capita é positiva, ou seja, os estados mais ricos são os mais endividados. Isso deve ser levado em conta quando das várias renegociações das dívidas dos estados com a União.




O próximo item é a disponibilidade de caixa como proporção da receita corrente líquida, a disponibilidade de caixa foi medida como a diferença entre recursos em caixa e restos a pagar processados. Rio Grande do Sul (-41,9%), Rio de Janeiro (-24%), Minas Gerais (-6,8%), Sergipe (-3,4%) e o Distrito Federal (-0,2%) terminaram 2016 com menos recursos em caixa do que restos a pagar processados, nas palavras dos autores do estudo da Firjan estes estados e o DF terminaram 2016 no “cheque-especial”. Fica clara a gravidade da situação fiscal do Rio Grande do Sul, do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, três estados que estão com dificuldades de caixa, muito endividados e com mais de 70% da Receita Corrente Líquida comprometida com pagamento de pessoal. A figura abaixo, pro falta de dados não mostra o Rio Grande do Norte, ilustra a disponibilidade de caixa em cada estado e no DF.




O último indicador é o investimento como proporção da receita corrente líquida. Ceará (11,1%), Bahia (11%) e Piauí (10,7%) são os estados que conseguiram investir mais de 10% de suas receitas correntes líquidas. Rio Grande do Sul (1,8%), Amapá (2,1%) e Goiás (2,7%) foram os estados que fizeram menos investimento como proporção da receita corrente líquida. Cabe ressaltar que o baixo investimento não é necessariamente algo ruim, em casos onde o baixo investimento decorrer de uma estratégia de transferir o investimento para o setor privado e/ou fazer caixa para ter mais facilidade de enfrentar perdas de receita por conta da crise a redução do investimento pode ser uma boa estratégia. Pode ser o caso do Amapá, onde o baixo investimento convive com uma disponibilidade de caixa de 51,2% ou mesmo de Maranhão e Tocantins onde as taxas de investimento foram de 6,6% e 6,5%, mas a disponibilidade de caixa foi, respectivamente, de 73.6% e 64,4%.




Como pode ser visto apesar da crise afetar a todos os estados nem todos estão em situação crítica. Tomando o caso do Ceará, meu estado e onde tenho muitos amigos, posso dizer que o desempenho fiscal, que deu à Terra dos Verdes mares Bravios a melhor posição no ranking, é resultado de décadas de esforço em busca de equilíbrio fiscal, uma caminhada que começou com Tasso Jereissati lá na década de 1980, continuou com os irmãos Gomes e, ao que tudo indica, continuou no governo petista de Camilo Santana. Não acredita em mim? Acha que estou querendo tirar os méritos dos irmãos Gomes de Camilo Santana? Então veja as palavras do meu amigo e professor Flávio Ataliba Barreto (link aqui), presidente do Instituo de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (IPECE, link aqui):

“Muitos estão me perguntando, qual a receita do sucesso do Ceara em termos de sua situação fiscal, conquistando segundo a Firjan o primeiro lugar no índice de maior solidez fiscal do pais? Apesar de suas grandes dificuldades sociais, climáticas e econômicas, acredito que o Ceará conseguiu manter vivo no seio de sua sociedade civil, do serviço público e no meio político, a cultura da responsabilidade fiscal que começou lá atrás, em 1987 com Tasso Jereissati, são 30 anos. Não é a conquista de um único governo, mas uma sequência de várias gestões maduras e responsáveis. Evidentemente, o atual governo do Ceará tem grande mérito também porque conseguiu manter o rigor fiscal numa situação mais crítica ainda, diante a crise que o país atravessa e com 5 anos de seca. Ademais, grande mérito também deve ser dado ao atual secretário da Fazenda Mauro Filho, que estando 11 anos no cargo, conseguiu implementar com sua equipe, diversas medidas importantes ao longo desse período, sempre contando a época com o apoio do governador Cid Gomes e do atual Camilo Santana. Acredito que isso tenha feito a diferença.”

Se mesmo com as dificuldades climáticas e econômicas o Ceará conseguiu não afundar na crise econômica, o mesmo valendo para estados como Maranhão e Pará (segundo e terceiro no ranking), não há nada justifique o caos fiscal em que se meteram Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Rio de Janeiro (os três piores no ranking), notem que falei justifique, explicações existem várias. Termino registrando que é preciso deixar que os estados com problemas fiscais enfrentem seus fantasmas e encontrem soluções para os problemas que criaram. Vai ser triste e sofrido, mas talvez assim estes estados desenvolvam a “cultura de responsabilidade fiscal” que cresceu no Ceará.