sexta-feira, 15 de novembro de 2019

A República nos tirou do caminho para riqueza?


Hoje esbarrei em vários posts no FB garantindo que não fosse pela proclamação da República o Brasil seria um país rico ou algo do tipo. A tese parece ser que vínhamos nos aproximando dos países ricos e o “golpe da República” nos tirou dessa trajetória. Confirmar essa tese com dados não é tarefa fácil, as informações da época são poucas e de qualidade duvidosa. O Maddison Project Database (link aqui) é a melhor fonte de dados históricos a disposição de economistas, fui lá olhar os dados para avaliar a tese que a República nos tirou do caminho da riqueza.

Para o PIB per capita usei a série “cgdppc” que considera vários anos de “benchmark” e é mais adequada para comparações entre níveis de renda de países distintos. Para o século XIX existem dados disponíveis do Brasil para os anos de 1820 e todos os anos de 1850 em diante. Em termos de PIB per capita nossos primeiros passos não foram nada animadores, em 1820 nosso PIB per capita era de US$ 600, mesmo valor de 1850. Para comparação no mesmo período o PIB per capita dos Estados Unidos foi de US$ 2.080 para US$ 2.825 e o do Reino Unido foi de US$ 2.181 para US$ 2.858. A figura abaixo mostra o PIB per capita do Brasil como proporção do PIB per capita dos Estados Unidos e Reino Unido para o período entre 1850 e 2016.




Repare que não indício algum que estávamos em uma trajetória de aproximação com esses países no século XIX ou no reinado de D. Pedro II que foi de 1831 a 1889, muito pelo contrário, a tendência era de empobrecimento em relação ao Reino Unido e aos Estados Unidos.

Se comparamos nosso desempenho com as potencias ibérica o quadro fica um pouco menos desolador, mas nada que justifique a tese que D. Pedro II nos conduzia pelo caminho da riqueza. O PIB per capita da Espanha para 1820 não está disponível, em 1800 era de US$ 1.947 contra US$ 2.455 em 1850. Em Portugal a coisa foi bem pior, em 1800 o PIB per capita era de US$ 1.330, em 1820 de US$ 1.419 e em 1850 tinha caído para US$ 1.266. No Brasil o PIB per capita foi de US$ 600 nos três anos. Não tivemos o crescimento de nossa metrópole entre 1800 e 1820, por outra lado não tivemos a queda entre 1820 e 1850.

A figura abaixo mostra o PIB per capita do Brasil como proporção do PIB per capita de Portugal e Espanha entre 2850 e 2016. O padrão é de forte queda em relação a Portugal e queda leve em relação à Espanha. É possível dizer que a proclamação da República não reverteu essas quedas, pelo menos não de imediato, mas não parece razoável culpar a República por uma queda que vinha desde a época do Império.




Outros países da América Latina também tiveram melhor desempenho que o Brasil no período posterior a 1820. Ao contrário da estagnação observada por cá o PIB per capita da Argentina cresceu de US$ 1.710 em 1820 para US$ 2.144 em 1850; em 1889 era US$ 4.608 contra US$ 687 por aqui. No México o PIB per capita foi de US$ 760 em 1820 para US$795 em 1850, um crescimento pequeno, mas lembrem que por aqui ficou estagnado em US$ 600. Em 1890 o PIB per capita do México era US$ 1.184 (não há dado disponível para 1889). Em 1889, ano da proclamação da República, nosso PIB per capita era menos que o do Chile (US$ 2.026), Colômbia (US$ 1.000), Uruguai (US$3.675) e Venezuela (US$ 1.189).

É certo que olhar apenas para o PIB per capita não encerra o debate a respeito dos efeitos da República para o Brasil ou mesmo para economia brasileira, mas, até que apareçam outros dados mais consistentes que o de PIB  per capita do Maddisos Project Database sobre um conjunto de variáveis mais relevante que o PIB per capita não embarco na história que se não fosse pelo marechal Deodoro da Fonseca hoje o Brasil seria um país de primeiro mundo.


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