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domingo, 17 de julho de 2022

Turma do "meião": queda e recuperação do PIB no Brasil em comparação com outros países.

Talvez por conta das revisões para cima nas previsões de crescimento para o Brasil em 2022, tenho reparado uma certa euforia com a recuperação da economia. Curioso com tanta animação resolvi dar uma olhada nos dados de crescimento de outros países entre o primeiro trimestre de 2019, um ano antes da pandemia, e o primeiro trimestre de 2022, o último com dados disponíveis.

Obtive as informações que precisava na base de dados da OCDE. O primeiro exercício foi pegar as taxas de crescimento para todos os países com dados disponíveis para todos os trimestres do período de interesse, fiquei com 47 países. A figura abaixo mostra o resultado, repare que o Brasil (em azul) está bem próximo da mediana (em laranja) na maioria dos períodos. Ficar próximo da mediana significa que cerca de metade dos países teve taxa de crescimento maior do que a nossa, logo na maioria dos períodos ficamos no “meião”. Não é um desastre, mas também não é motivo de festa, salvo se o Brasil quer ser personagem daquele meme do pódio.

 


Comparações com vários países são interessantes, mas não estão livres de riscos. Existem vários fatores que podem comprometer a comparação. Por exemplo, países ricos podem ter uma tendência de crescer mais do que países pobres, nesse caso um país emergente crescer a taxas semelhantes à dos países ricos pode ser um mal sinal para o país emergente. Para reduzir esses riscos, refiz o exercício comparando o Brasil com os países do BRICS e da América Latina que estavam na amostra. O resultado está na figura abaixo. Na maioria dos períodos ficamos na turma do “meião”, destaque para o segundo trimestre de 2020, o pior de todos, quando é visível que nossa queda foi bem menor do que a queda mediana, ou seja, ficamos bem na foto.

 


As taxas período a período podem não passar uma boa ideia do que aconteceu no acumulado de todo período, não é fácil perceber em um gráfico quando as taxas maiores compensaram, ou não, as taxas menores. O segundo exercício do post apresenta a taxa média de crescimento durante o período, isso resolve o problema porque essa taxa leva em conta o crescimento acumulado no período. A mediana foi um crescimento de 0,36% por trimestre, na Brasil tivemos 0,23%, ou seja, no acumulado ficamos na metade com pior desempenho. A média foi 0,47%, mas não é um bom indicador especialmente por conta do crescimento muito alto da Irlanda.

 


Para terminar o exercício acima foi refeito apenas para os países do BRICS e América Latina disponíveis na amostra. Apenas México e África do Sul tiveram um desempenho pior do que o nosso no acumulado entre o primeiro trimestre de 2019 e o primeiro trimestre de 2022. A mediana do grupo ficou em 0,58% e a média em 0,49%.

 


Os dois exercícios apontam na mesma direção: o Brasil não apresenta um crescimento maior do que o da maioria dos países, o quadro fica pior quando comparado aos países do BRICS e América Latina. O principal motivo para as revisões para cima nas previsões de crescimento, creio eu, é que a turma superestimou o efeito da elevação dos juros na atividade econômica. Se foi isso mesmo, o erro é da mesma natureza que levou a turma a não ver a inflação chegando, qual seja, usar modelos de demanda para explicar/prever uma crise associada principalmente à oferta.

domingo, 10 de julho de 2022

PIB do Brasil e da América do Sul segundo os dados do FMI e do Banco Mundial

Esta semana teimou em aparecer na minha linha do tempo um mapa da América do Sul destacando que o Brasil respondia por mais de 50% do PIB do continente. Fiquei curioso e resolvi checar quanto foi essa proporção em outros anos.

O problema começou na escolha dos países da América do Sul, segundo a Wikipédia, além dos suspeitos de sempre, constam Bouvet Island, uma ilha de 49 km2 que pertence à Noruega que me pareceu mais perto da Antártida do que da América do Sul, as Ilhas Falkland, que os Argentinos chamam de Malvinas e já deu guerra com a Inglaterra e Ilhas Geórgia do Sul e Sandwich do Sul que também são da Inglaterra. Na Britânica estão os suspeitos de sempre: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Guiana, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela. Como as pequenas ilhas que estão na Wikipédia pouco contribuem para o PIB do continente e não encontrei os dados de PIB delas no FMI nem no Banco Mundial fiquei com a lista da Britânica.

Outra razão para excluir as ilhas é que não são países, mas sim territórios de países europeus. A mesma razão leva a retirar a Guiana Francesa, que também não tem dados disponíveis nas bases que consultei. Até aqui tudo bem, tenho um critério consistente e que me ajudou na obtenção dos dados. Até que reparei que o Banco Mundial não tem dados de PIB para Venezuela nos últimos anos, aqui complicou porque a Venezuela (ainda) é um país e tem dados disponíveis nos primeiros anos. Para driblar o problema resolvi apresentar dados do FMI (com a Venezuela) e do Banco Mundial (sem a Venezuela).

Definidos os países da amostra, faltava definir o indicador. Para evitar brigas useis o PIB em dólares e o PIB com correção por paridade de poder de compra. A figura abaixo mostra a participação do Brasil no PIB da América do Sul, com correção por PPC, entre 1990 e 2021. Tanto nos dados do FMI quanto nos dados do Banco Mundial o valor mais alto ocorre em 1990, no século XXI o pico ocorre em 2002, também nos dados do FMI e do Banco Mundial. Nas duas séries é possível observar o efeito da crise iniciada em 2014 ainda no governo Dilma, na série do FMI o menor valor ocorre em 2017 e na série do Banco Mundial ocorre em 2021. Em nenhuma das séries é possível observar uma tendência de aumento da participação do PIB do Brasil no PIB da América do Sul, pelo contrário.



 

Como era de se esperar, a série em dólares tem mais sobe e desce, alguns dizem que é mais volátil, do que a série com correção por poder de compra. Depois da estabilização ocorre uma queda que vai até 2001, a partir daquele ano começa uma trajetória de alta. É curioso notar como a trajetória de alta da série em dólares contrasta com a trajetória em queda da série com correção por poder de compra, é provável que parte do fenômeno decorra da valorização do real no período. Depois de 2010 começa uma trajetória de queda que ganha força em 2014, a reversão começa em 2015, talvez por conta da valorização do real. Em 2019 ocorre nova queda que também é parcialmente explicada por movimento no câmbio.

 


As duas figuras mostram que não há razão para o maior país do continente ficar espantado em ter o maior PIB do continente, não há nada novo aqui. De fato, as duas séries mostram 2021 pior que 2020 e, bem mais preocupante, as séries com correção por paridade de compra mostram um declínio de longo prazo enquanto as séries em dólares mostram declínio em relação ao começo da estabilização e ao inicio da década passada.

Naturalmente toda essa discussão é meio maluca, não há como comparar o PIB do Brasil, com mais de 210 milhões de habitantes com o PIB do Uruguai, com menos de 3,5 milhões de habitantes, ou mesmo com a Argentina com cerca de 45 milhões de habitantes. A medida adequada de comparação seria o PIB per capita, mas aí é melhor deixar para outro post... este já bateu a cota de jogar água no chopp.

 

terça-feira, 15 de junho de 2021

Não comemos PIB, mas...

Vez por outra a frase “não comemos PIB” aparece nas redes e nos jornais, lembro que apareceu quando o PIB começou a cair no governo Dilma e agora no governo Bolsonaro quando o PIB subiu acima do esperado. Curiosamente a frase não lembro da frase ter ganho destaque quando o PIB crescia bem no governo Lula, deve ser porque sou esquecido. De toda forma a frase é interessante e merece atenção. Realmente não comemos PIB, também não vestimos PIB, não moramos no PIB e não sairmos para dançar no PIB. PIB é uma construção teoria usada por economistas para tentar mensurar o quanto é produzido em uma região. 

No PIB estão computadores, relógios, trigo, cortes de cabelos, massas e maças. Quem é tanta coisa acaba por não ser nada, pode dizer algum observador, mas, creio eu, esse observador estaria sendo injusto. Como outras medidas do tipo o PIB simultaneamente carece e abunda de significados. A frase “não comemos PIB” é correta e bastante útil para apontar que existem coisa que o PIB não capta bem, porém a frase se torna enganosa quando usada para tirar relevância de uma queda ou de um aumento do PIB.

Logo no primeiro capítulo do livro Introduction to Modern Economic Growth (link aqui), Daron Acemoglu, economista merecidamente festejado pelo livro Por que as nações fracassam? (link aqui), trata de relação entre PIB per capita, que nada mais é do que o PIB dividido pela população, e os níveis de bem-estar de um país. Para ilustrar o ponto ele apresenta dois gráficos que vou reproduzir aqui, o primeiro mostra a correlação (que não é causalidade!) entre o logaritmo do PIB per capita e o logaritmo do consumo per capita. Fica clara a relação positiva entre as duas variáveis, ou seja, não comemos PIB, mas onde o PIB por pessoa é maior o consumo por pessoa também é maior.


 O segundo gráfico mostra a correlação entre PIB per capita e expectativa de vida ao nascer. PIB não comida nem remédio, mas onde o POB per capita é maior as pessoas tendem a viver mais. Isso óbvio, alguém pode dizer, correto, responderia eu, mas também deveria ser óbvio que crescimento do PIB é uma boa notícia e queda do PIB é uma notícia ruim.

 

Como sou chato, não sou tão cuidadoso quanto o Acemoglu e isso é um blog onde tento conversar com leitores e não um livro tomei a liberdade de mostrar outras correlações entre o PIB per capita e variáveis que alguém pode considerar relevantes. A figura abaixo mostra a correlação entre PIB per capita e o percentual da população com acesso a saneamento básico. Além de consumir mais e viver mais, quem vive em locais com PIB per capita maior tem menos problemas de acesso a água tratada. Por causa do PIB? Não dá para dizer isso, lembre que correlação não é causalidade, mas se é difícil, talvez impossível, estabelecer empiricamente uma relação de causalidade, não é tão difícil teorizar sobre tal relação, mas deixo isso para outra ocasião.

 

Consumir mais é bom, viver mais é bom, ter acesso a esgoto e água tratada é bom... mas o que vale tudo isso sem tomar uma? Pensando nisso fui olhar a correlação entre PIB per capita e consumo de álcool. Deu positiva, sim meu caro, se nada que falei até aqui te convenceu da importância do PIB talvez saber que onde o PIB per capita é maior se bebe mais mude sua opinião.

 

Belchior, meu conterrâneo, cantou que nada é maravilhoso, temo que ele esteja certo, mas definitivamente não é em conceitos econômicos que vamos encontrar algo para contradizer o poeta cearense. O PIB também está correlacionado com coisa indesejáveis, como, por exemplo, a poluição. Países com maior PIB per capita emitem mais CO2. Muita gente acredita que isso é motivo para não comemorar aumento de PIB, nem tanta gente parece disposta a migrar para países que emitem pouco CO2. Não sou especialista no assunto, mas creio que sacrificar PIB para preservar meio ambiente é uma estratégia complicada e limitada, resta apostar que a chegada de novas tecnologias, em parte estimuladas pelo aumento de custos do uso de tecnologias poluentes que é induzido por políticas ambientais, resolvam o problema e permitam a redução da correlação entre PIB e emissão per capita de CO2.

 

A última figura retorna à frase que motivou o post (já dizia meu saudoso pai que a maior prova que o mundo é redondo é que andamos muito e retornamos ao mesmo lugar). Não comemos PIB, fato, mas onde o PIB per capita é maior o percentual da população subnutrida é menor.

 

Paro aqui, as provocações do post não têm como objetivo contestar a frase que não comemos PIB, que é obviamente verdadeira, mas contextualizar a importância do crescimento do PIB e como uma maior PIB per capita está correlacionado com algumas características desejáveis de uma sociedade. Nunca é demais lembrar que, como também está registrado no livro de crescimento do Acemoglu, o processo de aumento do PIB per capita, embora geralmente bom para o bem-estar, cria perdedores e ganhadores, daí, talvez as resistências.

 

P.S. Se você é aluno de graduação da UnB o post também é uma propaganda do curso de crescimento que vou oferecer no próximo semestre (começa em julho, mas é o 2021/1). Os gráficos estarão lá e, nas aulas, “práticas” você vai aprender a fazer gráficos do tipo.

 

terça-feira, 1 de junho de 2021

Deu "V"!

Em dezembro do ano passado fiz um post dizendo que ainda era cedo para falar de recuperação em “V” (link aqui), pois bem, agora já dá para falar. A figura abaixo mostra o índice do PIB com ajuste sazonal do primeiro trimestre de 2019 ao primeiro trimestre de 2021. O valor da série no primeiro trimestre deste ano, 171,6, ficou igual ao do quarto trimestre de 2020. É claro que não é um “V” perfeito, mas o formato da recuperação vinga a tese defendida por Paulo Guedes de que a recuperação seria em “V”.

 


Sou chato, mas tento não ser de todo injusto.

 

Contas Nacionais no Primeiro Trimestre de 2021: Agropecuária, Indústria Extrativa e o Resto.

O IBGE divulgou as contas nacionais referentes ao primeiro trimestre de 2021 (link aqui). A recuperação da queda causada pela Coviv-19 no primeiro semestre de 2019 aparece nos números do PIB. Em relação ao trimestre anterior o PIB cresceu 1,2%, o crescimento faz parte do mesmo movimento que levou à queda recorde de 9,6% no segundo trimestre de 2020 e ao crescimento, também recorde, de 7,7% no terceiro trimestre daquele ano.

Assim como nos trimestres anteriores, o crescimento do primeiro trimestre de 2021 dificilmente pode ser analisado na perspectiva da dinâmica de crise e recuperação que costumo usar nos posts sobre contas nacionais. O máximo que pode ser feito é entender como será a recuperação da crise causada pela pandemia e tentar especular sobre como esta recuperação pode afetar a dinâmica da economia brasileira na ótica das contas nacionais.

A figura abaixo mostra o crescimento da economia desde 1996, as barras mostram o crescimento em relação ao trimestre anterior (com ajuste sazonal) e a linha mostra o crescimento acumulado em quatro trimestres. No acumulado houve uma queda 3,8%, o que mostra que, apesar do crescimento nos últimos trimestres, a crise do Covid-19 ainda não está no retrovisor. 


 

Como é tradição no blog a análise será feita pelo lado da produção. A análise da despesa, preferida por vários colegas de profissão, é interessante para entender como foi a distribuição do PIB. A figura abaixo mostra o crescimento dos grandes setores da economia. No acumulado de quatro trimestres a agropecuária, que no primeiro trimestre de 2021 respondeu por 11,9% do valor agregado e 10,2% do PIB, cresceu 2,3%; o setor de serviços, 68,2%% do valor agregado e 58,4% do PIB, teve uma queda de 4,5%; finalmente, a indústria, que responde por 19,9% do valor agregado e 17% do PIB, teve uma queda de 2,7%. Na comparação com o trimestre anterior a agropecuária teve crescimento de 5,7%, a indústria teve crescimento de 0,7% e nos serviços o crescimento foi 0,4%. O forte crescimento da agropecuária, que atingiu recorde em participação no PIB, explica boa parte do crescimento no primeiro trimestre de 2021.

 


No acumulado de quatro trimestres a construção teve queda de 6,9%. Na indústria de transformação a queda foi de 2,7%. Ao contrário de outros períodos quando a queda na indústria de transformação podia ser vista como parte da arrumação de casa após a sequência de investimentos questionáveis, para dizer o mínimo, da primeira metade da década., esta queda ainda reflete o impacto da pandemia no setor A indústria extrativa teve queda de 0,3%. Na comparação com o trimestre anterior a construção cresceu 2,1%, a indústria extrativa cresceu 3,2% e a indústria de transformação teve queda de 0,5%. No primeiro trimestre de 2021 a indústria extrativa correspondeu a 21,5% da indústria total, a construção por 13,1% e a de transformação por 51,9%. Os números mostram que a indústria extrativa foi fundamental para o resultado positivo do trimestre.

 


Nos serviços o maior crescimento ficou por conta do setor de atividades financeiras, de seguros e serviços relacionados que cresceu 5% no acumulado de quatro trimestres, também houve crescimento de 3% nas atividades imobiliárias. Administração, defesa, saúde e educação públicas e seguridade social teve queda de 5,5%., as maiores quedas foram de 8,6% no setor de transportes e 13% em outras atividades de serviços A figura abaixo mostra o crescimento no setor de serviços. Na comparação com o trimestre anterior apenas o setor “Administração, defesa, saúde e educação públicas e seguridade social” registrou queda Mais uma vez o crescimento faz parte do mesmo movimento que causou a queda no trimestre anterior.

 


Por fim, passemos a análise pelo lado da demanda, ou seja, como foi distribuída a produção do país. O investimento, a parte do produto destinada a criar mais produto no futuro, cresceu 2% no acumulado em quatro trimestres. Na comparação com o trimestre anterior o investimento cresceu 4,6. O crescimento do investimento costuma ser um importante sinalizador para recuperação da economia, mas nunca é demais lembrar que é preciso analisar a qualidade do investimento.

O consumo das famílias e do governo caíram 5,7% no acumulado de quatro trimestres. As exportações caíram 1% e as importações caíram 9,2%. Na comparação com o trimestre anterior o consumo das famílias caiu 0,1%, o consumo do governo caiu 0,8%, as exportações cresceram 3,7% e as importações tiveram aumento de 11,6%.

 


Os números das contas nacionais mostram que a pandemia do coronavírus interrompeu o processo de lenta recuperação que vínhamos seguindo desde 2017, mas sugerem uma boa recuperação em relação a queda causada pela própria pandemia. Essa recuperação pode ser comprometida pelo recrudescimento da pandemia. De fato, o comportamento da economia depende essencialmente dos rumos da pandemia. Sem uma campanha de vacinação em massa só um milagre pode nos tirar da crise.

O crescimento do trimestre veio acima do esperado, a agropecuária e a indústria extrativa tiveram um forte papel neste resultado. Isso sugere que o bom resultado pode estar mais associado à dinâmica do resto do mundo, visto que os dois setores são exportadores de commodities, do que à dinâmica da economia interna. Não que tal dependência seja ruim ou mesmo um problema, mas é uma característica que merece registro.

Para ter crescimento de longo prazo o governo precisaria liderar uma sólida agenda de reformas, nesse sentido ao trocar a agenda de abertura pela necessidade de proteger o patrimônio da indústria é um péssimo sinal. Continua valendo que se o governo partir para políticas de estímulos turbinadas por planos como o Pró-Brasil, Casa Verde e Amarela e uso de estatais podemos até ter bons números no curto prazo, ainda assim condicionados à dinâmica da pandemia, mas começaremos outra caminhada em direção ao abismo. A disparada dos preços no atacado, levando junto o IGP-M, mostra que, além da recuperação do PIB, o governo deve se preocupar em evitar que a inflação que já atinge os preços aos consumidores.

 

P.S. Os gráficos setoriais não são os ideais, continuo procurando uma forma melhor de passar os desempenhos dos setores sem abrir mão de grande parte da série.

 

sábado, 17 de abril de 2021

Como a pandemia afetou a relação dívida/PIB dos diversos países?

Em post anterior explorei a base de dados do FMI para avaliar o impacto da pandemia no crescimento das economias em 2020 (link aqui). Nesse post farei exercício semelhante, porém o foco será na relação dívida/PIB. É importante ter em mente que a relação dívida/PIB á afetada pela variação do PIB e da dívida, desta forma o crescimento desta relação pode ocorrer por conta do crescimento da dívida ou da queda do PIB. Como na maioria dos países ocorreu queda do PIB e aumento dos gastos para combater e amenizar os efeitos da pandemia, o crescimento da relação dívida/PIB observado nos dados era esperado. Mesmo assim o exercício pode ser interessante por mostrar o que aconteceu nos diversos países e o tamanho do aumento da relação dívida/PIB.

Para fazer o exercício selecionei os países com mais de 10 milhões de habitantes em 2020, mais uma vez a Venezuela foi excluída da amostra, o que me deixou a amostra com 87 países. Em 2019 a média da relação dívida/PIB nos países da amostra foi de 59,6%, em 2020 subiu para 69,1%. Na comparação de 2020 com 2019 a relação dívida/PIB caiu em apenas 7 dos 87 países da amostra, desses cinco estão na África Subsaariana (Zimbabwe, Etiópia, Chade, República Democrática do Congo e Tanzânia), um na América Latina e Caribe (Haiti) e um no Oriente Médio (Irã). A figura abaixo mostra o deslocamento da distribuição da relação dívida/PIB entre 2020 e 2019 com destaque para as médias de cada ano.

 


Os três países com maior crescimento da relação dívida/PIB ficam no Oriente Médio: Iraque (70%), Emirados Árabes Unidos (43%) e Arábia Saudita (32%). No Brasil o crescimento desta relação foi de 13%, o que nos coloca na parte inferior da turma, ou seja, entre os países onde a relação dívida/PIB cresceu menos. Para ser preciso em 33% dos países a relação dívida/PIB cresceu menos do que a do Brasil. A figura abaixo mostra o crescimento da relação dívida/PIB nos países da amostra com destaque para alguns países, quanto mais para esquerda (ou para baixo) menor o crescimento da relação dívida/PIB. Repare que esta relação cresceu menos no Brasil do que nos Estados Unidos e na China, países onde o PIB teve melhor desempenho do que no Brasil em 2020.

 


Na comparação com os países da amostra que pertencem ao grupo América Latina e Caribe o Brasil teve o menor crescimento da relação dívida/PIB dentre os países onde essa relação cresceu. Isso é bom porque mostra que a deterioração do quadro fiscal no Brasil foi menor do que em países que normalmente são usados como referência em comparações internacionais. Entre os países do BRICS, outro grupo de comparação, o Brasil teve o menor crescimento na relação dívida/PIB como pode ser visto na figura acima.

 


O resultado relativamente bom no crescimento da razão dívida/PIB significa que temos melhores condições fiscais que outros países semelhantes? Não creio que seja o caso. Apesar de ter crescimento menos do que na maioria dos países da amostra, a relação dívida/PIB no Brasil é alta quando compara à dos mesmos países. Em cerca de 80% dos países da amostra a relação dívida/PIB é menor do que no Brasil, quase todos são países avançados ou estão na África Subsaariana. Temos a maior relação dívida/PIB entre os países do BRICS.

 


Considerando apenas os países da América Latina e caribe que estão na amostra, apenas a Argentina tem uma relação dívida/PIB maior do que a nossa. Mesmo tendo crescido mais em 2020 a relação dívida/PIB no Chile ainda é cerca de um terço da nossa. A figura abaixo mostra a relação dívida/PIB nos países da América Latina e Caribe.

 


Os números relativos à dívida como proporção do PIB mostram que essa relação cresceu menos por aqui do na maioria dos países, porém continuamos com uma relação muito alta em comparação com América Latina e com países emergentes em geral. A elevada relação dívida/PIB acaba funcionando como um limite para o aumento da dívida e, por consequência, dificulta medidas para amenizar o sofrimento da população com a pandemia. Como mostra o aumento da inflação: existe mais limites para a política fiscal do que parecem pensar os críticos do teto de gastos.

 

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Contas Nacionais referentes ao primeiro trimestre de 2020: Assusta, mas foi é só o começo.


O IBGE divulgou as contas nacionais referentes ao primeiro trimestre de 2020 (link aqui), com isso podemos começar a vislumbrar o impacto da Covid-19 na economia brasileira. As medidas de isolamento começaram em meados de março, mas antes disso a economia já sentia os efeitos da pandemia por conta do mercado financeiro e de dificuldades em exportar e em importar. Apesar de relevantes, os problemas do primeiro trimestre são pequenos perto do que aconteceu em abril e maio e deve acontecer em junho. Mesmo com pouco efeito das políticas de isolamento o quadro ficou bem preocupante.

O primeiro de trimestre de 2020 inicia uma série de trimestres onde será impossível falar de PIB e de outros indicadores sem fazer referência a pandemia de Convid-19. A estratégia de recuperação lenta e consistente buscando reformas e tentando não perder o controle do lado fiscal foi comprometida. A necessidade de gastos do governo para equipar hospitais e manter a economia o mais fria possível comprometeu os esforços de ajuste fiscal dos últimos anos. A agenda de reformas, por mais importante e necessária que seja, vai inevitavelmente perder espaço para o desafio (talvez impossível) de proteger a renda das famílias e a viabilidade das empresas em um cenário de estímulos à redução da produção. Esse é um ponto que não pode nunca ser esquecido, ao contrário de outras crises onde as políticas para aquecer a economia ajudam a elevar a renda e viabilizar empresas no curto prazo (pelo menos em tese) nessa crise as políticas para manter pessoas em casa e empresas fechadas levam a perda de renda e inviabilizam empresas no curto prazo. Daí o caráter único do desafio econômico e a razão de políticas de demanda como redução de juros e aumento de gastos não parecerem capazes de entregar crescimento nem no curto prazo.

A figura abaixo mostra o crescimento da economia desde 1996, as barras mostram o crescimento em relação ao trimestre anterior (com ajuste sazonal) e a linha mostra o crescimento acumulado em quatro trimestres. No acumulado a economia cresceu 0,9%, mas a última barra dá uma noção relativa do tamanho da queda de 1,5% neste primeiro trimestre. A maior queda continua sendo a do quarto trimestre de 2008 com a crise financeira iniciada nos EUA, 3,9%, seguida da queda no segundo trimestre de 2015 na série de quedas que se seguiram ao colapso da Nova Matriz Econômica, 2,1%, primeiro trimestre de 1998 com o colapso do regime de bandas de câmbio, 2,1%, primeiro trimestre de 2009 também com a crise financeira de 2008, 1,6%, e finalmente o primeiro trimestre de 2020 com queda de 1,5%.. Infelizmente é possível que neste trimestre estejamos vivendo uma queda maior que a do quarto trimestre de 2008.




Ao contrário de outros analistas que tentam entender como o bolo foi feito estudando a divisão do bolo, eu vou continuar insistido em começar a análise das contas nacionais pela produção, ou seja, pelo lado da oferta. A figura abaixo mostra o crescimento dos grandes setores da economia. No acumulado de quatro trimestres a agropecuária, que no primeiro trimestre de 2020 respondeu por 7,8% do valor agregado e 6,6% do PIB, cresceu 1,6% no período; o setor de  serviços, 72,4% do valor agregado e 61,7% do PIB, cresceu 0,9%; finalmente, a indústria, que responde por 19,9% do valor agregado e 16,9% do PIB, cresceu 0.7%. Mais uma vez os três grandes setores da economia mostraram crescimento, ainda que modesto. Na comparação com o trimestre anterior a agropecuária cresceu 0,6%, a indústria teve uma queda de 1,4% e nos serviços a queda foi 1,6%.




No acumulado de quatro trimestres a construção cresceu 1,7% e teve o melhor desempenho entre os setores da indústria, como esse é um setor que mesmo antes da pandemia recebeu estímulos do governo há um risco de crescimento artificial o que pode ser um problema mais na frente. A indústria de transformação cresceu 0.3%, o baixo crescimento ou mesmo queda da indústria de transformação é parte fundamental da arrumação da casa. Muito investimentos ruins foram realizados neste setor no período de 2006 a 2014, são empresas sem perspectivas, algumas criadas apenas para viabilizar corrupção, que devem quebrar de forma a liberar capital e trabalho para empresas produtivas que ainda serão criadas. A indústria extrativa teve crescimento de 0,7%. Na comparação com o trimestre anterior a construção de queda de 2,4%, a indústria extrativa teve queda de 3,2% e na indústria de transformação a queda foi de 1,4%. Os números mostram que no primeiro trimestre de 2020 a turma que mais faz barulho foi a que teve a menor queda dentre os grandes setores da indústria.




Nos serviços o maior crescimento novamente ficou por conta do setor de informação e comunicação que cresceu 3,4% no acumulado de quatro trimestres. As atividades imobiliárias também tiveram um bom desempeno com crescimento de 1,9%, vale aqui o alerta feito para construção. Administração, defesa, saúde e educação públicas e seguridade social mostrou queda de 0,13%. A figura abaixo mostra o crescimento no setor de serviços.




Por fim, passemos a análise pelo lado da demanda, ou seja, como foi distribuída a produção do país. O maior crescimento foi no investimento, a parte do produto destinada a criar mais produto no futuro, que cresceu 3% no acumulado em quatro trimestres reforçando a tendência iniciada no segundo trimestre de 2018. O crescimento do investimento acima do produto sem uma política agressiva de estímulos ou de investimentos públicos é um dos sinais do processo de recuperação sólido ainda que lento.
 O consumo das famílias cresceu 1,3% e o consumo do governo caiu 0,4%, ou seja, a fatia do bolo que vai para o governo caiu. As exportações caíram 2,7% e as importações subiram 2,9%. Na comparação com o trimestre anterior o investimento aumentou 3,1%, o consumo das famílias caiu 2%, o consumo do governo aumentou 0,2%, as exportações caíram 0,9% e as importações subiram 2,8%.




Os números das contas nacionais referentes ao acumulado de quatro trimestres reforçam que estávamos seguindo uma recuperação lenta, mas sólida. Os números comparando este trimestre com o anterior mostram que a recuperação foi interrompida (deve ficar pior no segundo trimestre). Na análise das contas do último trimestre de 2019 alertei que o coronavírus comprometeria o primeiro trimestre de 2020. Quando escrevi aquele post (link aqui) as políticas de isolamento ainda não estavam em vigor, de fato ainda havia a esperança do calor ou algum outro fator minimizar o impacto da doença por aqui. Agora que vimos que não fomos poupados, pelo contrário, o desafio para equipe econômica fica ainda mais complicado. Ao mesmo tempo que são necessárias medidas para minimizar os danos de uma economia com atividade reduzida, é necessário manter algum controle da política fiscal e não perder o horizonte da agenda de reformas.

Como se já não fosse difícil conciliar controle fiscal com a necessidade de gastar mais e a impossibilidade de aumentar receitas, como se já não fosse quase impossível manter o discurso das reformas diante de medidas mais urgentes que se impõem a cada semana a equipe econômica ainda vai ter de lidar com o aumento da pressão por políticas de estímulos decorrente da recessão e da incrível incapacidade de articulação política de Bolsonaro. O infame Plano Pró-Brasil é só uma amostra do que ainda pode aparecer nos próximos meses. Da minha parte continuo insistindo que qualquer plano no estilo do PAC que não seja precedido por profundas reformas nas regras de compras e contratações do setor público está fadado a repetir a triste história de euforia e crise que tantas vezes vivemos. Se não acredita em mim dá uma olhada nos escândalos nas compras de respiradores que se espalham pelo país, se aconteceu isso com equipamentos médicos no meio da crise de saúde imaginem o que vai acontecer com pontes e viadutos no pós-crise.



domingo, 17 de maio de 2020

A ponta do iceberg: números do PIB referentes ao primeiro trimestre de 2020 em alguns países.


Os números referentes ao primeiro trimestre divulgados por vários países revelam o tamanho da crise que está por vir. A figura abaixo mostra a variação do PIB em relação ao período anterior para os países com dados disponíveis na base de dados da OCDE, o Brasil não aparece porque ainda não foram divulgados os números do primeiro trimestre de 2020. A maior queda aconteceu na China, uma das razões é que a China foi afetada antes dos outros países, na Europa a maior queda ocorreu na França. A queda média foi de 2,6% e a mediana foi de 1,9%. Os números assustam, para referência no primeiro trimestre de 2019 não houve queda do PIB em relação ao período anterior em nenhum dos países da figura, mas representam apenas a ponta do iceberg pois em vários países os meses de janeiro e fevereiro foram pouco afetados pela pandemia. Na Itália a quarentena foi imposta em nove de março.




Na comparação com o mesmo período do ano anterior, que é o primeiro trimestre de 2019, o quadro parece menos desolador, mas só parece. Um número significativo nesta comparação não significa “apenas” que o PIB encolheu durante a crise, significa que o encolhimento do PIB mais do que compensou o crescimento de 2019. Assim como na comparação com o trimestre anterior o destaque da China é influenciado pelo fato que a pandemia começou por lá.




As figuras acima nos mostram o começo da crise, no segundo trimestre o estrago certamente foi bem maior. É possível que as quedas nos produtos de vários países no segundo trimestre sejam maiores que a da China no primeiro trimestre, infelizmente Brasil não será exceção. A situação aqui fica agravada porque já estávamos em crise antes da pandemia começar e, ao contrário do que dizem algumas autoridades, não havia sinais de melhoras nos primeiros meses de 2020.


sexta-feira, 10 de abril de 2020

Crescimento do PIB em tempos de Gripe Espanhola


Em tempos de pandemia foi impossível resistir à tentação de olhar para o passado e observar o que aconteceu em outros casos do tipo. É um exercício arriscado, os tempos são outros e tanto a medicina quanto a economia são muitos diferentes do que eram naquela época para permitir comparações impunemente.

Tome como exemplo a Gripe Espanhola, uma das grandes pandemias da história que atingiu o mundo nos anos de 1918, 1919 e 1920. Naquela época o mundo saia da Grande Guerra e observava a Revolução Russa de 1917, como separar os efeitos da Guerra, da Revolução e da Gripe Espanhola? A integração do mundo também era diferente, por mais que existisse comércio entre empresas e famílias de diferentes nações não é possível comparar com o mundo atual de aviões gigantes cruzando os céus e tecnologia da informação conectando as pessoas. A medicina então nem se fala, vivemos em outro planeta em relação a nossos antepassados que enfrentaram aquela pandemia.

Mesmo com todas essas diferenças, não resisti e fui olhar o crescimento do PIB nos diversos países entre 1918 e 1920. Não pretendo com isso estimar o que vai acontecer com o PIB nos próximos anos, deixo a tarefa para colegas mais chegados às artes das previsões, faço principalmente por curiosidade. Como se trata anterior à II Guerra usei os dados do Maddison Project (MPD 2018), uma das melhores e mais usadas fontes de dados históricos em economia. Selecionei os países com mais de um milhão de habitantes e dados completos para o período 1915 e 1925, para calcular o PIB multipliquei a variável rgdpnapc (medida de PIB per capita mais adequada para comparação de taxas de crescimento) e multipliquei pela população. A amostra ficou com trinta e oito países.

A média de crescimento dos países da amostra foi de 0,3% em 1918, 4,64% em 1919 e 3,12% em 1920, em nenhum dos anos a média foi negativa. A maior queda de PIB em 1918 foi de 21,1% e aconteceu na França, em 1919 a maior queda foi de 19,5% na Alemanha. É muito provável que o desastre na França em 1918 esteja mais associado à I Guerra do que à Gripe Espanhola, a segunda maior queda de 1918 foi na Bélgica, e o da Alemanha esteja mais associado as reparações de guerra, o Tratado de Versalhes foi assinado em junho de 1919 e a segunda maior queda foi na Áustria. Reforça a tese de que a queda está associada à I Guerra o fato que em 1919 a Bélgica cresceu 18% e a França cresceu 17,8%. A maior queda de 1920 foi de 20,4% e ocorreu no Uruguai.

A figura abaixo mostra a menor variação do PIB em cada ano para cada um dos países da amostra. Em 21 dos 39 dos países a menor variação ocorreu em 1918, linhas em verde, o que pode ser um indício de um forte efeito da I Guerra nesses números. Em dez países a maior queda foi em 1919 e em sete países a maior queda foi em 1920. Dos cinco países com maiores queda no período, quatro (Áustria, Bélgica, Alemanha e França) estiveram diretamente envolvidos na I Guerra. O quinto da lista, o Uruguai, teve uma nova Constituição promulgada em 1918 que entrou em vigor em 1919 e trouxe reformas importantes para o país.



Sete países da amostra não tiveram queda de PIB em nenhum dos anos entre 1918 e 1920, na Colômbia o menor crescimento foi de 6,2% em 1918, no ano seguinte o crescimento foi de 8,9%. Nos Estados Unidos ocorreu queda do PIB apenas em 1920 (-0,95%), em 1918 o PIB cresceu 9%. O Reino Unido, que também teve grande envolvimento na i Guerra, teve queda do PIB nos três anos, a maior foi de 12% em 1919. A figura abaixo mostra o crescimento do PIB no Brasil entre 1916 e 1925, a queda de 2% em 1918 foi bem mais do que compensada pelos crescimentos de 13,2% em 1919 e 9,9% em 1920.




Como disse no começo é difícil tirar lições para nossos tempos da pandemia de 1918-1920, o exercício deve ser visto mais como uma curiosidade do que como uma busca por insights. De toda forma é interessante registrar que as maiores quedas de PIB em 1918 e 1919 parecem mais associadas à guerra e as reparações de guerra do que à Gripe Espanhola e que, pelo menos no Brasil, a queda de 1918 foi mais do que compensada nos anos seguintes.


quarta-feira, 4 de março de 2020

Contas nacionais do quarto trimestre de 2019: é devagar que se vai ao longe


O IBGE divulgou hoje as contas nacionais referentes ao quarto trimestre de 2019 (link aqui), com isso temos o quadro completo do PIB no ano passado. Houve um crescimento de 0,5% em relação ao trimestre anterior, já corrigido por sazonalidade, no acumulado de quatro trimestres, ou seja, durante todo o ano de 2019, o PIB cresceu 1,1%. No total o PIB de 2019 foi de R$ 7,257 trilhões, sendo que R$ 322 bilhões vieram da agropecuária, R$ 1,301 trilhão veio da indústria e R$ 4,590 trilhões vieram dos serviços. Na divisão do bolo o consumo das famílias ficou com R$ 4,712 trilhões, o investimento com R$ 1,114 trilhão e o consumo do governo com 1,472 trilhão.

Quando da divulgação dos números do terceiro trimestre alertei sobre os necessários cuidados com a empolgação, desta vez alerto para os riscos das frustrações. A escolha pela agenda de reformas implica na recuperação lenta, não estamos tentando mais um surto de crescimento que termina em grandes crises e décadas perdidas. O plano é arrumar a casa para depois crescer de forma consistente, embora não necessariamente rápida, como a casa estava (e ainda está) muito bagunçada ainda temos um longo caminho de crescimento baixo. Repito o que venho dizendo há mais de dez anos: para economia brasileira um crescimento muito alto é mais perigoso que um crescimento muito baixo. Se você está dirigindo um fusca velho não tente correr mais que uma Ferrari, caso consiga o motor do seu carro vai fundir e você vai ficar a pé.

A figura abaixo mostra o crescimento da economia desde 1996, as barras mostram o crescimento em relação ao trimestre anterior (com ajuste sazonal) e a linha mostra o crescimento acumulado em quatro trimestres. Repare que o crescimento está estabilizado em torno de 1% ao ano, a agenda de reformas tenta elevar esse valor por meio do aumento da produtividade, por isso os efeitos desta agenda são demorados. O risco de adotar estímulos é repetir o padrão de alto crescimento seguido de grande crise como aconteceu entre 2010 e 2015. De toda forma é sempre bom registrar que as reformas iniciadas em 2016 no governo Temer reverteram a trajetória de queda do PIB e aumento da inflação que foi o legado da hoje infame Nova Matriz Econômica.




Ao contrário de outros analistas que tentam entender como o bolo foi feito estudando a divisão do bolo aqui tenho insistido em começar a análise das contas nacionais pela produção, ou seja, pelo lado da oferta. A figura abaixo mostra o crescimento dos grandes setores da economia. A agropecuária, que respondeu por 5,2% do valor agregado e 4,4% do PIB, cresceu 1,3% no período; o setor de  serviços, 73,9% do valor agregado e 63,3% do PIB, também cresceu 1,3%; finalmente, a indústria, que responde por 20,1% do valor agregado e 17,9% do PIB, cresceu 0.46%. Repare que, por modesto que tenha sido, o crescimento ocorreu em todos os setores da economia.




No acumulado de quatro trimestres a construção cresceu 1,6% e teve o melhor desempenho entre os setores da indústria, como esse é um setor que está recebendo estímulos do governo há um risco de crescimento artificial o que pode ser um problema mais na frente. A indústria de transformação cresceu 0.1%, o baixo crescimento ou mesmo queda da indústria de transformação é parte fundamental da arrumação da casa. Muito investimentos ruins foram realizados neste setor no período de 2006 a 2014, são empresas sem perspectivas, algumas criadas apenas para viabilizar corrupção, que devem quebrar de forma a liberar capital e trabalho para empresas produtivas que ainda serão criadas. A indústria extrativa teve queda 1,1%, em parte por conta de Brumadinho. As quedas de 3% e 9,3$ no primeiro e segundo trimestres de 2019 não foram recuperadas pelo crescimento de 4% e 3,4% nos trimestres seguintes.




Nos serviços o maior crescimento novamente ficou por conta do setor de informação e comunicação que cresceu 4,1% no acumulado de quatro trimestres. As atividades imobiliárias também tiveram um bom desempeno com crescimento de 2,3%, vale aqui o alerta feito para construção. A figura abaixo mostra o crescimento no setor de serviços.




Por fim, passemos a análise pelo lado da demanda, ou seja, como foi distribuída a produção do país. O maior crescimento foi no investimento, a parte do produto destinada a criar mais produto no futuro, que cresceu 2,2% no acumulado em quatro trimestres reforçando a tendência iniciada no segundo trimestre de 2018. O consumo das famílias cresceu 1,8% e o consumo do governo caiu 0,4%, ou seja, a fatia do bolo que vai para o governo caiu. Isso não significa que o governo está contribuindo menos para o PIB, para fazer essa afirmação seria necessário avaliar a contribuição do governo pela ótica da oferta, a contribuição direta, medida pelo setor administração, defesa, saúde e educação públicas e seguridade social ficou estável com crescimento de 0,04%. As exportações caíram 2,5% e as importações subiram 1,1%.




Os números das contas nacionais reforçam que estamos em recuperação lenta, mas sólida. O choque do coronavírus deve comprometer o começo de 2020 aumentando a pressão na equipe econômica por parte dos que, dentro e fora do governo, pedem uma política que leve a um crescimento mais rápido. Da capacidade do time de Paulo Guedes resistir a essa pressão depende o futuro da economia brasileira. Lembro aos apressados que a experiencia recente nos mostra que crescimento rápido pode terminar muito mal e que os maiores beneficiados com os estímulos são os que correm para dizer que não vão pagar a conta.


sábado, 7 de dezembro de 2019

Crescimento do consumo das famílias, do consumo do governo e do investimento entre 1996 e 2018


Com a divulgação dos números do PIB ganhou espaço uma tese que diz que o crescimento está sendo puxado pelo setor privado. Para defender a tese tanto o pessoal do governo como analistas de mercado mostram que o crescimento do consumo das famílias e do investimento foi maior que o crescimento do consumo do governo que encolheu este ano. Quanto a tese tenho pouco a dizer, o que me incomoda é o argumento usado para defender a tese.

De saída o argumento implica que é a demanda que puxa o PIB, uma tese mais próxima da abordagem keynesiana do que da abordagem de Chicago onde é a oferta que puxa a demanda. Aqui é preciso tomar cuidado, os termos oferta e demanda se referem a conceitos macroeconômicos, os conceitos de oferta e demanda, mesmo quando seguidos de agregado, usados em microeconomia são diferentes dos usados em macroeconomia. Logo é perfeitamente possível acreditar que a demanda precede a oferta, em termos microeconômicos, e que a oferta puxa a demanda em termos macroeconômicos.

Um segundo problema é confusão entre consumo do governo e tamanho do governo, nem todo gasto do governo é consumo do governo. Por exemplo, o PIB é calculado como a soma do valor agregado e os impostos (entram apenas os impostos não incluídos no valor da produção e são excluídos os subsídios), este ano o valor agregado, que corresponde a cerca de 86% do PIB, aumentou 0,9% e os impostos aumentaram 1,3%. Dito de outra forma, os impostos cresceram mais do que o valor agregado mesmo com o consumo do governo caindo. A coisa fica ainda mais complicada quando consideramos as estatais, que não entram nas contas nacionais como governo, e o uso de crédito dos bancos públicos para direcionar a produção do setor privado.

Uma terceira questão é que não é novidade alguma que o crescimento do consumo do governo seja menor que o crescimento do consumo das famílias e que o crescimento do investimento. De fato, desde 1996, esse fenômeno ocorreu em 1996, 1997, 2000, 2006, 2007, 2008, 2010, 2011, 2013 e 2018. O crescimento do consumo das famílias foi maior que o crescimento do consumo do governo nesses anos e também em 2005, 2009, 2012, 2014 e 2017, ou seja, em 10 dos 23 anos da amostra o consumo do governo cresceu menos que o investimento e o consumo das famílias e em 15 dos 23 anos o consumo do governo cresceu menos que o consumo das famílias. Em 2004 o crescimento do investimento foi maior que o crescimento do consumo do governo que foi pouco maior que o crescimento do consumo das famílias. Em apenas sete anos (1998, 1999, 2001, 2002, 2003, 2015 e 2016) o crescimento do consumo do governo foi maior que o crescimento do consumo das famílias e do que o crescimento do investimento. Quatro destes anos foram no governo FHC, apenas dois em governos do PT e o último foi 2016 que começou com a Dilma e terminou com o Temer. A figura abaixo mostra a taxa de crescimento do consumo das famílias, consumo do governo e do investimento entre 1996 e 2018.




O atual governo tem feito um esforço considerável para implementar uma agenda de reformas que aumente o papel do setor privado na produção e no investimento, uma agenda que infelizmente foi abandonada lá por 2006 e foi retomada em meados de 2016 no governo Temer. Os frutos desse esforço ainda vão demorar um bocado para aparecer, entendo que exista uma tentação para mostrar resultados, mas é preciso tomar cuidado. Dizer que o setor privado puxa o crescimento deve estar relacionado a contribuição do setor privado para fazer o bolo e a capacidade do setor privado escolher o sabor, o tamanho, a forma e o recheio do bolo, o que os números das contas nacionais mostram, quando muito, é que o governo está consumindo uma fatia menor do bolo.


sábado, 2 de junho de 2018

Contas Nacionais do primeiro trimestre de 2018: A recuperação continua lenta e consistente.


Na semana passada o IBGE divulgou as contas nacionais referentes ao primeiro semestre de 2018 (link aqui). O crescimento de 0,4% do PIB no primeiro trimestre de 2018 não impressionou muita gente, não é de impressionar mesmo, mas, uma olhada mais cuidadosa reforça a tese de uma recuperação lenta, porém bem fundamentada. Como já disse outras vezes aqui no blog a pior coisa que pode acontecer é uma recuperação rápida e estabanada, não precisamos de um espirro de crescimento que termina em uma pneumonia.

A figura abaixo mostra a taxa de crescimento do PIB desde 1996. A linha mostra a taxa acumulada em quatro períodos, as colunas mostram o crescimento do trimestre em relação ao trimestre anterior com o ajuste sazonal. Na figura fica claro o mergulho que começamos a da a partir do segundo semestre de 2014 e que chegou ao fundo no segundo trimestre de 2016. A partir daí começou a lenta recuperação. No primeiro trimestre de 2017 tivemos o primeiro crescimento em relação ao trimestre anterior depois de oito trimestres seguidos de queda. No acumulado de quatro trimestres apenas no último trimestre de 2017 voltamos a ter taxas positivas.




Em relação ao trimestre anterior o crescimento mais forte veio da agropecuária que cresceu 1,4%, a indústria e os serviços cresceram 0,1%. Na taxa acumulada em quatro trimestres a agropecuária também foi o destaque crescendo 6,1%, a indústria cresceu 0,6% e os serviços cresceram 1%. Assim visto os números sugerem um crescimento puxado pela agropecuária, mas a impressão muda quando abrimos os números da indústria. A figura abaixo mostra a taxa de crescimento do PIB e de setores da indústria, perceba que o crescimento da indústria foi “puxado para baixo” pela construção civil e “puxado para cima” pela indústria de transformação que cresceu mais que o dobro do PIB. Na comparação do primeiro trimestre de 2018 com o primeiro trimestre de 2017 a indústria de transformação cresceu 4,0% contra 1,6% do PIB.




De fato, como mostra a figura abaixo, a indústria de transformação caiu mais rápido que o PIB quando da crise, mas vem se recuperando mais rapidamente. Da minha parte destaco a indústria de transformação por acreditar que seja o ramo da indústria mais sensível à política econômica. Economistas desenvolvimentistas que costumam ver a indústria de transformação como o setor dinâmico da economia e o único capaz de gerar inovação, ganhos de produtividade e crescimento de longo prazo talvez estejam vendo uma recuperação ainda mais consistente do que a que eu estou vendo. O outro setor da indústria que pode responder apolítica econômica é a construção civil, esse setor cresceu muito no período anterior à crise, muita gente chegou a falar de bolha imobiliária, e faz um ajuste necessário. O governo poderia até induzir maiores taxas de crescimento do PIB com estímulos mais fortes a esse setor, mas seria um erro grave que levaria a uma nova crise em um futuro não tão distante.




Se a indústria de transformação vem mostrando um desempenho superior ao do PIB o mesmo não pode ser dito a respeito do setor de serviços. No acumulado de quatro trimestres os serviços cresceram 1% contra 1,3% do PIB, a lenta recuperação dos serviços ajuda a entender a lenta recuperação do emprego e da economia como um todo, os serviços correspondem a cerca de 60% do PIB. Os dois destaques do setor de serviços foram o comércio, cresceu 3,4%, e os transportes, cresceu 2,1%. A maior queda, 1,8%, foi em comunicações e informações.




Pelo lado da despesa o consumo das famílias cresceu 0,5% em relação ao trimestre anterior e o investimento, medido pela formação bruta de capital fixos (FBCF), cresceu 0,6%, o consumo do governo caiu 0,4%. Considerando o acumulado em quatro trimestres o consumo das famílias cresceu 2,1%, o consumo do governo caiu 0,6% e a FBCF caiu 0,1%. A figura abaixo ilustra o comportamento dessas variáveis.




A queda da formação da formação bruta de capital fixo no acumulado de quatro trimestres é um indicador ruim, mas se levarmos em conta que no primeiro semestre de 2016 a queda no acumulado de quatro trimestres foi de 15,8% percebemos que a trajetória é de recuperação. Um fato relevante é que a taxa de poupança bruta, 16,3%, ficou maior que a taxa de investimento, 16%. A turma que não gosta de poupança externa deve estar satisfeita.

Em resumo temos uma recuperação lenta, mas consistente. O crescimento da indústria de transformação acima do PIB sugere que não estamos sendo apenas puxados pelo resto do mundo e que a economia está respondendo às políticas locais. A recuperação do investimento, ainda que lenta, reforça a tese de recuperação lenta e consistente. O leitor atento notou algumas provocações no decorrer do texto, é mais forte do que eu, por mais que os números sejam relativos a um pequeno período de tempo e possam mudar rapidamente não deixa de ser irônico que a recuperação em um contexto de políticas “neoliberais” apresente um crescimento da indústria de transformação acima do crescimento do PIB e uma taxa de poupança bruta maior que a taxa de investimento, dois elementos característicos das receitas desenvolvimentistas.


quinta-feira, 1 de março de 2018

Dados do PIB para 2017: É caminhando que se vai ao longe?


Hoje saiu o resultado do PIB de 2017, segundo o IBGE (link aqui) o PIB cresceu 1% depois de dois anos consecutivos de queda. A pergunta é se o resultado foi bom, minha resposta é que foi, mas não é uma resposta segura. Não digo isso apenas porque depois de cair por dois anos seguidos qualquer crescimento é bom, o que poderia ser um argumento, digo porque os números parecem mostrar uma recuperação consistente, o que é muito diferente de uma recuperação rápida. Desde que o Brasil decidiu reviver a década de 70, lá por meados da década passada, tento alertar dos riscos da experiência. O Brasil não é e não quer ser China de forma que não deve esperar um crescimento chinês. Nesse sentido estaria mais preocupado com um crescimento de 5% do que estou com o crescimento de 1%.

Os números apontam para a recuperação. Se o leitor for ver os dados do IBGE vai encontrar uma série de medidas de variação do PIB, nas figuras desse post vou usar apenas as taxas de crescimento acumuladas em quatro trimestres, faço isso para não ter de discutir efeitos de sazonalidade ou coisas do tipo. A figura abaixo mostra a taxa de variação do PIB desde de 1996. A queda que começa no segundo trimestre de 2014 é o retrato da crise. Se olhássemos para a variação no trimestre, não é o que está na figura, veríamos que no primeiro trimestre de 2014 houve um crescimento de 3,5%, na sequência tivemos quedas em todos os trimestres até o primeiro de 2017 quando a taxa foi zero, ficando positiva nos trimestres seguintes.





Em outros posts argumentei que a recuperações rápidas de crises, como aconteceu em 2009, podem ser sinais que novas crises virão no futuro próximo, o que parece ser uma recuperação impressionante costuma ser apenas um adiamento da crise (link aqui). A comparação entre a recuperação da queda de 2009 e da queda atual pode ser feita apenas olhando a figura. Ao que tudo indica não estamos diante de uma nova tentativa de adiar uma crise, pelo contrário.

A impressão que estamos nos recuperando de forma correta fica reforçada quando olhamos os números que formam o PIB. Comecemos pelo lado da oferta, a figura abaixo mostra o desempenho da agropecuária, da indústria e dos serviços entre 1996 e 2017. Aparentemente nossa recuperação é um golpe de sorte em decorrência do crescimento excepcional da agropecuária, é possível, se for o caso minha tese da recuperação consistente vai por água abaixo. O resultado da agropecuária depende muito de eventos climáticos e de fatores externos, de forma que é difícil relacionar esse crescimento com uma recuperação da economia como um todo. A indústria, que costuma responder mais a fatores internos, ficou estacionada em 2017 e os serviços, maior responsável pelo emprego, cresceu 0,3% o que na prática pode ser visto como estagnação. A não recuperação dos serviços pode ser a causa da não recuperação do emprego na velocidade desejada. Em resumo, a conclusão da figura abaixo é que o crescimento foi eventual e não mostra uma recuperação.




Olhando os setores a conclusão é que não temos motivos para comemorar além do fato que o governo está mais preocupado em arrumar a casa por meio de reformas do que em forçar o crescimento da economia. Se abrimos mais os dados a conclusão pode ficar um pouco menos dura. É verdade que o melhor desempenho na indústria é da extrativa, que também está relacionada a fatores externos, isso reforça a tese do acaso. Por outro lado, a decomposição do crescimento entre os setores da indústria permite observar a recuperação da indústria de transformação. Aqui não posso deixar de registrar que na virada de 2014 para 2015, quando o impeachment ainda não estava na mesa e a economia estava em trajetória de queda, tanto a indústria extrativa quanto a agropecuária mostravam forte crescimento o que é uma forte evidência contra a tese que culpa as commodities por nossa crise. 

Se olharmos as taxas trimestrais, que não estão na figura, a indústria de transformação cresceu 6% no quarto trimestre de 2017, contra queda de 3,4% no quarto trimestre de 2016, queda de 11,5% no quarto trimestre de 2015 e queda de 6% no quarto trimestre de 2014. Mesmo em 2010, nosso ano de maior crescimento nas últimas décadas, a indústria de transformação não cresceu tanto no quarto trimestre, naquele ano a indústria, que chegou a crescer 15,9% no primeiro trimestre, cresceu 3,4% entre outubro e dezembro.



Quem está segurando a recuperação da indústria como um todo é a construção. Repare que ao contrário da indústria de transformação a indústria da construção não mostra um padrão de recuperação. O lado ruim disso é que o encolhimento da construção dificulta o crescimento do emprego com impacto em mão de obra não qualificada, pessoal que sofre nas crises. O lado positivo é que esse setor cresceu muito no período anterior a crise, na época se falou de bolha da construção civil, e precisava mesmo passar por um ajuste. Outro ponto positivo é que o governo está se controlando em estimular a indústria da construção, ou seja, o governo não está adiando o ajuste do setor. Se o governo vai se manter na linha em ano eleitoral é coisa que não sei dizer, programas de incentivo a construção fazem a alegria da classe média que sonha com casa própria, dos pobres que conseguem empregos nas obras e dos ricos que são donos das construtoras, entretanto, crescimento artificial nesse setor cria bolhas que podem ser desastrosas como o mundo viu em 2008 na crise que começou no setor de construção dos EUA. O ajuste da construção é um remédio amargo que deve ser tomado para evitar problemas maiores no futuro próximo.

A construção não apenas esconde a recuperação da indústria, esconde também a recuperação do investimento. A figura abaixo mostra as taxas de variação do consumo das famílias, do consumo do governo e do investimento. Como é possível ver o menor ajuste foi no consumo do governo, depois o consumo das famílias e o grande ajuste foi no investimento que continua com taxa de variação negativa, a queda foi de 1,8%. Entretanto, se abrimos os números, é possível ver que o item “máquinas e equipamentos” cresceu 3% contra uma queda de 5,6% no item “construção”. Como construção responde pela maior parte do investimento, em 2017 foi 52,25 contra 32,95 de máquinas e equipamentos, o resultado final foi de queda, mas a recuperação do investimento em máquinas e equipamentos é relevante, principalmente quando observamos que esse tipo de investimento teve queda de 7% em 2014, 22,3% em 2015 e 15,6% em 2016. Outro aspecto relevante é que o aumento do investimento em máquinas e equipamentos ocorreu em um período de queda dos desembolsos do BNDES, o que sugere tratar-se de uma recuperação de fato e não de um movimento artificial.



Um último aspecto a ser analisado é o setor externo, a figura abaixo mostra a taxa de variação das exportações e importações. Depois da queda nas importações e aumento das exportações, fenômeno razoável em época de crise onde famílias compram menos e empresas buscam mercados externos para compensar a queda nas vendas locais, observamos nos últimos trimestres um aumento simultâneo das exportações e importações. A figura não mostra, mas o saldo comercial foi positivo em 2017, o que também não quer dizer muita coisa.




A análise imediata dos números do PIB sugere uma recuperação, afinal paramos de encolher e voltamos a crescer, mesmo que pouco. Uma análise com um pouco mais de cuidado acende uma luz amarela, agropecuária e indústria extrativa, os setores com melhor desempenho, dependem mais fatores como mercado externo e clima do que de reformas e fundamentos sólidos na economia, reforça o sinal de alerta a queda no investimento. Aprofundando um pouquinho mais podemos ver sinais de uma recuperação consistente, a indústria de transformação voltou a crescer e o investimento em máquinas e equipamentos também cresceu. Tanto a estagnação da indústria quanto a queda do investimento são explicadas pela crise na construção civil.