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domingo, 17 de julho de 2022

Turma do "meião": queda e recuperação do PIB no Brasil em comparação com outros países.

Talvez por conta das revisões para cima nas previsões de crescimento para o Brasil em 2022, tenho reparado uma certa euforia com a recuperação da economia. Curioso com tanta animação resolvi dar uma olhada nos dados de crescimento de outros países entre o primeiro trimestre de 2019, um ano antes da pandemia, e o primeiro trimestre de 2022, o último com dados disponíveis.

Obtive as informações que precisava na base de dados da OCDE. O primeiro exercício foi pegar as taxas de crescimento para todos os países com dados disponíveis para todos os trimestres do período de interesse, fiquei com 47 países. A figura abaixo mostra o resultado, repare que o Brasil (em azul) está bem próximo da mediana (em laranja) na maioria dos períodos. Ficar próximo da mediana significa que cerca de metade dos países teve taxa de crescimento maior do que a nossa, logo na maioria dos períodos ficamos no “meião”. Não é um desastre, mas também não é motivo de festa, salvo se o Brasil quer ser personagem daquele meme do pódio.

 


Comparações com vários países são interessantes, mas não estão livres de riscos. Existem vários fatores que podem comprometer a comparação. Por exemplo, países ricos podem ter uma tendência de crescer mais do que países pobres, nesse caso um país emergente crescer a taxas semelhantes à dos países ricos pode ser um mal sinal para o país emergente. Para reduzir esses riscos, refiz o exercício comparando o Brasil com os países do BRICS e da América Latina que estavam na amostra. O resultado está na figura abaixo. Na maioria dos períodos ficamos na turma do “meião”, destaque para o segundo trimestre de 2020, o pior de todos, quando é visível que nossa queda foi bem menor do que a queda mediana, ou seja, ficamos bem na foto.

 


As taxas período a período podem não passar uma boa ideia do que aconteceu no acumulado de todo período, não é fácil perceber em um gráfico quando as taxas maiores compensaram, ou não, as taxas menores. O segundo exercício do post apresenta a taxa média de crescimento durante o período, isso resolve o problema porque essa taxa leva em conta o crescimento acumulado no período. A mediana foi um crescimento de 0,36% por trimestre, na Brasil tivemos 0,23%, ou seja, no acumulado ficamos na metade com pior desempenho. A média foi 0,47%, mas não é um bom indicador especialmente por conta do crescimento muito alto da Irlanda.

 


Para terminar o exercício acima foi refeito apenas para os países do BRICS e América Latina disponíveis na amostra. Apenas México e África do Sul tiveram um desempenho pior do que o nosso no acumulado entre o primeiro trimestre de 2019 e o primeiro trimestre de 2022. A mediana do grupo ficou em 0,58% e a média em 0,49%.

 


Os dois exercícios apontam na mesma direção: o Brasil não apresenta um crescimento maior do que o da maioria dos países, o quadro fica pior quando comparado aos países do BRICS e América Latina. O principal motivo para as revisões para cima nas previsões de crescimento, creio eu, é que a turma superestimou o efeito da elevação dos juros na atividade econômica. Se foi isso mesmo, o erro é da mesma natureza que levou a turma a não ver a inflação chegando, qual seja, usar modelos de demanda para explicar/prever uma crise associada principalmente à oferta.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Recuperações do PIB pelo mundo

Curioso com a recuperação da crise causada pela pandemia resolvi dar uma olhada nos dados da OCDE a respeito do PIB trimestral dos diversos países. Como a pandemia começou ainda em 2019 na China e em outros países da Ásia tomei como ponto de partida o terceiro trimestre de 2019. Em apenas 15 dos 48 países da amostra o PIB no primeiro trimestre de 2021 foi maior do que no terceiro trimestre de 2019, entre eles o Brasil.

A figura abaixo mostra a queda e recuperação do PIB em todos os países da amostra com destaque para o Brasil. Os países com melhores desempenho, a curva azul claro termina bem acima de 100, são Irlanda, Turquia e China. Em nenhum trimestre o PIB da Irlanda ficou abaixo do nível do terceiro trimestre de 2019, isso não quer dizer que não houve queda do PIB por lá, mas as quedas ocorridas no segundo e no quarto trimestre de 2020 não foram suficientes para compensar o crescimento dos períodos anteriores. Na China, onde pandemia começou, a queda forte ocorreu no primeiro trimestre de 2020, na grande maioria dos países a queda grande aconteceu no segundo trimestre de 2020, nos trimestres seguintes o PIB chinês cresceu. A Turquia teve uma queda forte no segundo trimestre de 2020, mas o forte crescimento no terceiro trimestre mais do que compensou a queda.



O Brasil segue o padrão geral de queda forte no segundo trimestre de 2020 com recuperação posterior. No terceiro trimestre de 2021 o PIB estava 0,38% acima do terceiro trimestre de 2019, pode parecer pouco, mas foi o suficiente para vingar a previsão de recuperação em “V” feita pelo ministro Paulo Guedes e colocar o Brasil no grupo dos países com crescimento no período. O campeão de crescimento foi a Irlanda, 14%, seguida pela Turquia, 9%, e a China, 8%. A média da taxa de crescimento de todos os países foi de -1,4%, considerando apenas os países que cresceram a média foi de 3,4%. A figura abaixo mostra a variação do PIB no grupo de países que cresceram no período. Os únicos países latino-americanos do grupo são Brasil e Colômbia.

 


Entre os países com queda de PIB, 33 países da amostra, a média foi de -3,6%. A menor queda ocorreu nos Estados Unidos, 0,3%, e maior na Espanha 8,9%. No Chile a queda foi de 0,9%, na Argentina foi de 3,7% e no México foi de 5%. A diferença entre a recuperação do PIB no Brasil e outros países da América Latina sugere que ou o Brasil (e a Colômbia) aproveitaram melhor a subida de preços das commodities ou a dinâmica interna dos países foi relevante para explicar a recuperação.



Em resumo me parece justo afirmar que o Brasil ficou bem na foto da recuperação do PIB após a grande queda do segundo trimestre do ano passado. Não é o melhor, 11 países tiveram maior crescimento do PIB, mas está longe de ser o pior, 36 tiveram desempenho pior. Como sempre registro o crescimento de curto prazo pode sinalizar problemas de longo prazo. Isso acontece se os incentivos usados ara obter crescimento de curto prazo causarem fortes distorções na alocação de fatores a ponto de comprometer o crescimento da produtividade, o tempo dirá se esse foi o caso no Brasil.

Outros possíveis efeitos colaterais de estímulos para recuperação no curto prazo são inflação e crescimento insustentável da dívida pública. A inflação já é um problema, projeções do mercado apontam que, apesar das seguidas elevações na meta para Selic, o IPCA o ano vai fechar o ano bem acima do teto da meta de inflação. A análise do lado fiscal é mais delicada, a reforma da previdência, aprovada em 2019, pode ser decisiva no controle das contas do governo. A crise fiscal nos estados parece ter batido no fundo do poço antes da pandemia, talvez esse poço não tenha um alçapão. Por outro lado, a generosidade do governo ao conceder aumentos para carreiras militares bem como com gastos de defesa, incluindo capitalização de estatais, é um problema que, junto com o uso de emendas nos moldes do Tratoraço/Bolsolão, pode ser fatal para o ajuste fiscal. Nunca é demais lembrar que parte significativa da melhora nos indicadores fiscais decorre da inflação, uma estratégia com desagradável hábito de ser desastrosa no longo/médio prazo.

sábado, 17 de abril de 2021

Como a pandemia afetou a relação dívida/PIB dos diversos países?

Em post anterior explorei a base de dados do FMI para avaliar o impacto da pandemia no crescimento das economias em 2020 (link aqui). Nesse post farei exercício semelhante, porém o foco será na relação dívida/PIB. É importante ter em mente que a relação dívida/PIB á afetada pela variação do PIB e da dívida, desta forma o crescimento desta relação pode ocorrer por conta do crescimento da dívida ou da queda do PIB. Como na maioria dos países ocorreu queda do PIB e aumento dos gastos para combater e amenizar os efeitos da pandemia, o crescimento da relação dívida/PIB observado nos dados era esperado. Mesmo assim o exercício pode ser interessante por mostrar o que aconteceu nos diversos países e o tamanho do aumento da relação dívida/PIB.

Para fazer o exercício selecionei os países com mais de 10 milhões de habitantes em 2020, mais uma vez a Venezuela foi excluída da amostra, o que me deixou a amostra com 87 países. Em 2019 a média da relação dívida/PIB nos países da amostra foi de 59,6%, em 2020 subiu para 69,1%. Na comparação de 2020 com 2019 a relação dívida/PIB caiu em apenas 7 dos 87 países da amostra, desses cinco estão na África Subsaariana (Zimbabwe, Etiópia, Chade, República Democrática do Congo e Tanzânia), um na América Latina e Caribe (Haiti) e um no Oriente Médio (Irã). A figura abaixo mostra o deslocamento da distribuição da relação dívida/PIB entre 2020 e 2019 com destaque para as médias de cada ano.

 


Os três países com maior crescimento da relação dívida/PIB ficam no Oriente Médio: Iraque (70%), Emirados Árabes Unidos (43%) e Arábia Saudita (32%). No Brasil o crescimento desta relação foi de 13%, o que nos coloca na parte inferior da turma, ou seja, entre os países onde a relação dívida/PIB cresceu menos. Para ser preciso em 33% dos países a relação dívida/PIB cresceu menos do que a do Brasil. A figura abaixo mostra o crescimento da relação dívida/PIB nos países da amostra com destaque para alguns países, quanto mais para esquerda (ou para baixo) menor o crescimento da relação dívida/PIB. Repare que esta relação cresceu menos no Brasil do que nos Estados Unidos e na China, países onde o PIB teve melhor desempenho do que no Brasil em 2020.

 


Na comparação com os países da amostra que pertencem ao grupo América Latina e Caribe o Brasil teve o menor crescimento da relação dívida/PIB dentre os países onde essa relação cresceu. Isso é bom porque mostra que a deterioração do quadro fiscal no Brasil foi menor do que em países que normalmente são usados como referência em comparações internacionais. Entre os países do BRICS, outro grupo de comparação, o Brasil teve o menor crescimento na relação dívida/PIB como pode ser visto na figura acima.

 


O resultado relativamente bom no crescimento da razão dívida/PIB significa que temos melhores condições fiscais que outros países semelhantes? Não creio que seja o caso. Apesar de ter crescimento menos do que na maioria dos países da amostra, a relação dívida/PIB no Brasil é alta quando compara à dos mesmos países. Em cerca de 80% dos países da amostra a relação dívida/PIB é menor do que no Brasil, quase todos são países avançados ou estão na África Subsaariana. Temos a maior relação dívida/PIB entre os países do BRICS.

 


Considerando apenas os países da América Latina e caribe que estão na amostra, apenas a Argentina tem uma relação dívida/PIB maior do que a nossa. Mesmo tendo crescido mais em 2020 a relação dívida/PIB no Chile ainda é cerca de um terço da nossa. A figura abaixo mostra a relação dívida/PIB nos países da América Latina e Caribe.

 


Os números relativos à dívida como proporção do PIB mostram que essa relação cresceu menos por aqui do na maioria dos países, porém continuamos com uma relação muito alta em comparação com América Latina e com países emergentes em geral. A elevada relação dívida/PIB acaba funcionando como um limite para o aumento da dívida e, por consequência, dificulta medidas para amenizar o sofrimento da população com a pandemia. Como mostra o aumento da inflação: existe mais limites para a política fiscal do que parecem pensar os críticos do teto de gastos.

 

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Inflação no Brasil e em países selecionados

Sempre que falo de inflação aparece alguém dizendo que a inflação daqui está baixa ou que a inflação subiu no mundo todo por conta da pandemia. Por conta disso resolvi checar a inflação em outros países. Encontrei no site inflation.eu (link aqui), a inflação dos preços aos consumidores referente a 2020 para 38 países. A maior inflação ocorreu na Turquia, 14,6%, que ficou fora da amostra para não distorcer a figura. Depois da Turquia veio a Rússia com 4,91% e o Brasil com 4,52% fecha o grupo dos países da amostra com inflação acima de 4% em 2020. A figura abaixo mostra a inflação em cada país.


 Para os curiosos a média das taxas de inflação dos países da amostra, excluída a Turquia, foi 0,99% e a mediana foi 0,56. Doze países tiveram redução nos preços aos consumidores em 2020. Olhando para os países da América Latina presentes na amostra o México ficou com 3,155 de inflação e o Chile com 2,97%. A China, que muita gente gosta de apontar como exemplo de política econômica, teve 0,27% de inflação em 2020.

Enfim, a comparação da inflação no Brasil com a dos outros países da amostra não permite afirmar que a inflação de 2020 foi baixa. Se considerarmos as taxas de inflação medidas pelo IPCA nos últimos a de 2020 foi a maior desde 2016 (2,95%, 3,75%, 4,31% e 4,53% para 2017, 2018, 2019 e 2020, respectivamente), ano que a inflação sofreu influência do desastre do governo Dilma. É isso.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Crescimento no Brasil e no Mundo em 2020 de acordo com os números do FMI

Com a divulgação dos dados do FMI referentes a 2020 é possível avaliar o tamanho do estrago que a pandemia causou no crescimento econômico pelo mundo. Considerando os países com mais de dez milhões de habitantes em 2020 e excluindo a Venezuela por motivos óbvios a média das taxas de crescimento em 2019 foi de 2,98%, em 2020 essa mesma média foi de -3,29%. Em 2019 a maior taxa de crescimento entre os países da amostra foi de 9,4% na Ruanda, o pior desempenho foi do Zimbabwe com queda de 7,4%. Em 2020 o melhor desempenho foi na Etiópia, que cresceu 6,1%, e o pior foi no Peru onde o PIB teve queda de 11,1%. A mediana das taxas de crescimento caiu de 2,3% em 2019 para -3,6% em 2020. A figura abaixo mostra a distribuição do crescimento em 2019 e 2020, o deslocamento para esquerda da parte em vermelho mostra queda geral do crescimento em 2020.


Dos oitenta e oito países da amostra em apenas dezenove foi observado crescimento do PIB em 2020. Dos países que cresceram dez estão na África subsaariana, quatro são países emergentes da Ásia, dois do Oriente Médio, um pertence ao grupo dos países avançados, um é parte da Comunidade de Países Independentes e um é emergente da Europa. Nenhum país da América Latina e Caribe cresceu em 2020. Mesmo considerando apenas os países que cresceram a média das taxas de crescimento, 2,4%, foi menor que a média de crescimento de todos os países da amostra em 2019. A figura abaixo mostra a variação do PIB em cada um dos países onde houve crescimento.

 

No Brasil o PIB teve queda de 4,1% em 2020, o resultado foi melhor do que o previsto pelo FMI em meados do ano passado. Em termos relativos o Brasil melhorou de posição no ranking dos países da amostra. No ano de 2019 cerca de 78% dos países tiveram melhor desempenho do que o Brasil, essa proporção caiu para cerca de 57% em 2020. A figura abaixo mostra a variação do PIB em todos os países da amostra com alguns destaques. O eixo horizontal mostra a variação do PIB e no eixo vertical é possível ver a proporção dos países com variação do PIB menor do que a do país em destaque. Desta forma a figura mostra que cerca de 91% dos países cresceram menos do que a China e cerca de 48% e cerca de 52% cresceram menos do que os Estados Unidos.

 

Considerando apenas os países da América Latina e caribe o Brasil teve o terceiro melhor desempenho. A menor queda ocorreu na Guatemala seguida pelo Haiti, Brasil, Chile e República Dominicana. O pior resultado foi no Peru com queda de 11,1% no PIB. Se o leitor está desconfortável com a retirada da Venezuela da amostra este é um bom momento para informar que o PIB venezuelano caiu 35% em 2019 e 30% em 2020. A figura abaixo mostra a variação do PIB nos países da América Latina e Caribe que estão na amostra.

 

Dos grupos de países considerados pelo FMI a América Latina foi o que teve o pior desempenho em termos de média das taxas de crescimento do PIB. Em 2019 o pior desempenho ocorreu no Oriente Médio. A pandemia pegou em cheio nuestra America em um momento em que as coisas já não estavam bem.

 

Entre os países do BRICS apenas na China o PIB cresceu em 2020. O Brasil ficou no meio com desempenho pior do que China e Rússia e melhor do que Índia e África do Sul.

 

Os números mostram que a pandemia teve um forte impacto no crescimento dos diversos países. O resultado contrasta com os números observados durante a Gripe Espanhola onde a média das taxas de crescimento foi positiva nos três anos da pandemia (ver aqui). O Brasil ficou na parte de baixo da amostra em termos de variação do PIB, mas estamos perto do meio. Em termos relativos foi uma melhora, em 2019 estávamos na parte baixo mais para o fim do que para o meio. Uma melhora relativa no meio de uma queda tão forte não deve servir de alento para um país que está em mais uma década perdida, mas sugere que podia ter sido pior.

 

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Tarifa média aplicada a manufaturados: será mesmo que nossa referência deve ser a Venezuela?

Uma crítica comum ao processo de abertura á que isso é coisa de neoliberal entreguista e que todos os países do mundo protegem suas empresas de forma que não há razão para não fazermos o mesmo. Com isso em mente resolvi dar uma olhada nos dados de tarifas aplicadas à importação de manufaturados que estão disponíveis no Banco Mundial. Comecei olhando para América Latina e Caribe, como de costume trabalhei com valores médios de cinco anos (2014 a 2018) e países com mais de cinco milhões de habitantes.

 


É isso mesmo, temos a maior tarifa média do grupo. Argentina, Venezuela. Bolívia e mesmo Cuba praticam tarifas menores do que as nossas. Será que alguém dizer que os irmãos Castro e o bolivarianismo são regimes ultraliberais e entreguistas ou que nossas empresas enfrentam agruras maiores que as enfrentadas por empresas argentinas ou bolivianas? Se considerarmos a média ponderada no lugar da média simples, como na figura abaixo, apenas a Venezuela tem tarifa média maior que a nossa. Em outro post (link aqui) mostrei que o Peru foi o país da América Latina com maior crescimento no século XXI, talvez não seja por acaso que o Peru seja o país da região com menor tarifa média aplicada a produtos manufaturados.

 


Fiquei inconformado com a ideia de que, com exceção da Venezuela a depender da medida utilizada, somos o país com maior tarifa média da América Latina e Caribe. Os países da américa-latina são todos neoliberais entreguistas? Até Cuba? Até Morales? Resolvi então olhar outro grupo em que o Brasil se encontra: os países de renda média-alta segundo o Banco Mundial. Esses países certamente sabem proteger as indústrias que lá produzem. A figura abaixo mostra o resultado para média simples.

 


De novo ficamos com a maior tarifa média! Não pode, isso só prova que a média simples não é uma boa medida. A figura abaixo mostra a tarifa calculada com médias ponderadas, novamente só a Venezuela na nossa frente. Seria Maduro o único governante que sabe a importância de proteger a indústria local?

Não me dei por vencido. O leste da Ásia é a região que cresce e atrai novas indústrias, logo aqueles países devem ser uma boa referência. A figura abaixo mostra a tarifa média no Brasil e nos países do Leste da Ásia e do Pacífico.

 


Mais uma vez ficamos em primeiro! Sem países exemplares como Argentina, Venezuela e Bolívia ficamos sozinhos na lista de países com tarifas médias acima de 10%. Outra vez desconfiei do uso de médias simples e joguei minhas esperanças nas médias ponderadas. Como pode ser visto na figura abaixo, no critério de médias ponderadas também estamos na frente dos países do Leste da Ásia e do Pacífico. Seria também essa região um antro de governo neoliberais e entreguistas?

 


Quase sem ânimo algum e pronto para reconhecer resolvi olhar para todos os países com dados disponíveis e mais de cinco milhões de habitantes. Com o critério de média simples encontrei apenas três países com tarifa maior que a do Brasil: Camarões, Etiópia e Chade. Pensei em fazer alguma referência àqueles memes com “chad” da internet, achei melhor deixar quieto e dar uma conferida no critério de média ponderada. Finalmente! Foi a primeira lista que o Brasil não estava em primeiro ou segundo lugar, como é complicado fazer figuras com cerca de cem países ou regiões vou listar os doze países onde a tarifa média ponderada aplicada a produtos manufaturados é maior do que a nossa: Chade, Camarões, Etiópia, Nepal, Bangladesh, Paquistão, Benim, Venezuela, Togo, Senegal, Quênia e a República Democrática do Congo.

 


O leitor pode estar pensando que abusei da ironia nesse post, talvez eu tenha mesmo, mas foi uma forma de tentar chamar atenção para a necessidade urgente de discutirmos a abertura da economia e o quão fora da realidade é o discurso que as empresas instaladas no Brasil não resistirão a tarifas mais baixas. Temos nossos problemas, é fato, mas outros países também têm os seus e punem menos seus residentes com tarifas para dificultar a compra de produtos mais baratos e/ou de melhor qualidade produzidos no exterior.

Em tempos de reformas e combates a privilégios, pelo menos nos discursos oficiais, é mais do que necessário discutir o fim do privilégio de não enfrentar a concorrência de produtos vindos de outros países. Não faz sentido manter mais de duzentas milhões de pessoas reféns de empresas que alegam não conseguir sobreviver com alíquotas semelhantes as aplicadas na Colômbia, no México ou mesmo em Cuba.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Crescimento econômico nas duas primeiras décadas do Século XXI


Quais os países que mais cresceram no século XXI? Quais os que menos cresceram? Nesse post uso dados do Banco Mundial no período de 2001 a 2019 para responder essas perguntas. Como o objetivo é crescimento, e não comparação entre renda, calculei a taxa de crescimento do PIB per capita em valores constantes da moeda de cada país, desta forma elimino problemas com câmbio e com medidas de paridade de poder de compra. Na média dos países em 2019 o PIB per capita era 65,5% maior do que em 2001, mas essa média esconde variações importantes entre os países. Na China, país com maior crescimento, o PIB per capita em 2019 foi 334% maior que o PIB per capita em 2001, no Zimbabwe, país com pior desempenho, o PIB per capita em 2019 era quase 20% menor do que em 2001. Milagres e desastres continuam existindo no século XXI.

Considerei apenas países com mais de cinco milhões de habitantes e com dados disponíveis para 2001 e 2019, a amostra ficou com 101 países. Para facilitar a apresentação dos resultados dividi os países em quatro grupos de acordo com o crescimento do período. O primeiro grupo reúne os 25 países com maior crescimento, na média o crescimento do PIB per capita desses países entre 2001 e 2019 foi de 148,8%. Nesse grupo estão um país avançado, cinco países da Comunidade de Países Independentes, dez países emergentes da Ásia, quatro países emergentes da Europa, dois países da América Latina e Caribe e três países da África subsaariana. A figura abaixo mostra esses países.




Como pode ser visto na figura, dos campeões de crescimento no século XXI nada menos que 20 países apresentaram crescimento de mais de 100% do PIB per capita entre 2001 e 2019, ou seja, os habitantes desses países, em média, dobraram suas rendas no século XXI. Desses países três cresceram mais de 200% e dois cresceram mais de 300%.

O grupo seguinte é formado por 25 países com crescimento entre 53% e 92% entre 2001 e 2019. Nesse grupo de países com crescimento médio-alto a média de crescimento foi de 68,4%. O maior crescimento ocorreu na Sérvia, 91,5%, e o menor no Paraguai, 52,9%, oito países desse grupo cresceram mais que 75% no período. No grupo estão três países avançados, dois da Comunidade de Países Independentes, quatro países emergentes da Ásia, dois países emergentes da Europa, quatro países da América Latina e Caribe, dois países do Oriente Médio e oito países da África subsaariana. A figura abaixo mostra esses países.




Na sequência aparece o grupo formado por 25 países onde o PIB per capita cresceu entre 26,3% e 50% no período 2001 a 2019, os países com crescimento médio-baixo. O país com melhor desempenho do grupo foi o Egito, crescimento de 49,5%, e o país com pior desempenho foi o Brasil, 26,3%. É isso, menos um pouquinho e estaríamos “comemorando” o melhor desempenho entre os países de pior desempenho em termos de crescimento. A média de crescimento do grupo foi de 35,3%. No grupo estão quatro países avançados, seis países da América Latina e Caribe, cinco do Oriente Médio e dez da África subsaariana. A figura abaixo mostra esses países.




O último grupo é o de países que cresceram menos de 26,3% entre 2001 e 2019, o gripo dos países de crescimento baixo. O melhor desempenho do grupo foi um crescimento de 26,2% na República do Níger, o pior desempenho foi uma queda 19,2% no Zimbabwe. O crescimento médio dos países desse grupo foi de 11,8%. O grupo é composto por quinze países avançados, três países da América Latina e Caribe, três países do Oriente Médio e cinco países da África subsaariana. A figura abaixo mostra esses países.




A concentração de países avançados no grupo de baixo crescimento não causa espanto, vários modelos de crescimento apontam a relação inversa entre PIB per capita e crescimento, ou seja, ao contrário da crença popular, países ricos crescem menos do que países pobres. A validação empírica dessa proposição está (muito) além do objetivo desse post, o tema é objeto de pesquisa, vários autores encontram que a relação inversa vale para grupos de países homogêneos. A figura abaixo apresenta a distribuição dos grupos de países de acordo com o FMI, esse que estamos usando no post, segundo o grupo de crescimento.




É fácil observar a concentração de países avançados no grupo de crescimento baixo, isso não chega a ser um problema, afinal esses países já são ricos, mais preocupante é o baixo número de países da África subsaariana e da América Latina e Caribe no grupo de países de alto crescimento. Outro fato notável é a ausência de países emergentes da Ásia, da Europa e da Comunidade de Países Independentes no grupo de países com crescimento baixo e médio-baixo. Com todos os problemas na Europa Oriental países como a Rússia, 75,3%, e a Ucrânia, 60,7%, cresceram mais do que a média dos países da América Latina e Caribe, 44,5%, e bem mais que os 26,3% do Brasil.

Dos países da América Latina e Caribe apenas o Peru, com crescimento de 101,3%, conseguiu dobrar o PIB per capita entre 2001 e 2019, a República Dominicana, com 95,7% de crescimento, completa a participação dos países de nuestra América no grupo de alto crescimento. Com crescimento médio-alto aparecem Bolívia, 61,5%, Colômbia, 61,1%, Chile, 56,8%, e Paraguai, 53%. A maior concentração de países da América Latina e Caribe ocorre no grupo de crescimento médio-baixo: Honduras, 39,4%, Equador, 36,2%, Nicarágua, 34,3%, El Salvador, 33,7%, Guatemala, 33,03%, e Brasil, 26,3%. No grupo de crescimento baixo estão Argentina, 25,1%, México, 13,1% e Haiti, -2,8%.

A figura abaixo mostra a relação entre crescimento e PIB per capita para todos os países da amostra, a classificação de cada país de acordo com o FMI está destacada pelas cores. Na figura estão destacados os cinco países de maior crescimento, os cinco com menor crescimento, os países da América Latina e caribe como crescimento acima do esperado considerando apenas o PIB per capita (os países acima da linha), o Brasil, o México, os Estados Unidos e a Suíça. Reparem a forte presença de países avançados no canto inferior direito da figura, alta renda e baixo crescimento, e de países emergentes da Ásia na parte de cima do gráfico, de fato o único país desse grupo abaixo da linha é Papua-Nova Guiné.




A figura acima traz duas preocupações que merecem destaque. Uma é a dificuldade dos países da América Latina e Caribe de saírem da faixa de renda-média, países mais ricos da região, como o México e a Argentina (que está no “z” do Brazil), crescem muito pouco, mesmo o Chile, tradicional “campeão” da região, não consegue um desempenho nível Ásia. A outra dificuldade é a presença marcante dos países da África subsaariana na parte de baixo da linha. Se em termos locais o grande desafio do século XXI é triar a América Latina e Caribe da renda-média em termos globais o grande desafio é tirar os países da África subsaariana da renda baixa.


quinta-feira, 23 de julho de 2020

Gastos militares no Brasil e no Mundo


No meio de tanta notícia envolvendo Fundeb, mini-reforma tributária e outros temas ligados à economia recebeu pouca atenção uma proposta do Ministério da Defesa de elevar o gasto em defesa do país para 2% do PIB (link aqui e aqui). Se a proposta se tornar realidade significará um aumento de pouco mais de 0,5% do PIB para área. Como o PIB do Brasil em 2019 foi de R$ 7,3 trilhões, estamos falando de aumento de cerca de R$ 36,5 bilhões de reais por ano, para efeitos de comparação o leitor talvez queira saber que o Bolsa Família custou cerca de R$ 33 bilhões em 2019. O custo de implementar a proposta do Ministério da Defesa permitiria dobrar o Bolsa Família, como de costume, cada um com suas prioridades.

Para avaliar a proposta do Brasil ter um gasto em defesa de 2% do PIB resolvi dar uma olhada nos gastos em defesa dos outros países. Peguei os dados do Banco Mundial de despesas em dólares e como proporção do PIB, selecionei o ano de 2018 e os países com mais de dez milhões de habitantes o que me deixou com uma amostra de 79 países. Segundo os dados do Banco Mundial o gasto com despesas militares no Brasil foi de 1,47% do PIB em 2018, isso nos deixa abaixo da média mundial, que foi de 1,79%, mas acima da mediana que foi de 1,44%. Na amostra o maior gasto militar como proporção do PIB foi na Arábia Saudita, 8,77%, e o menor foi no Haiti, 0,0008% do PIB. A figura abaixo mostra a distribuição do gasto militar como proporção do PIB em todos os países com alguns em destaque.




Na figura constatamos que o Brasil de fato está na metade dos países com maior gasto militar como proporção do PIB, repare que estamos logo acima do 0.50 no eixo vertical, para ser preciso 51,9% dos países possuem gastos militares menores que o do Brasil como proporção do PIB. Caso nosso gasto fosse 2% do PIB, como propõe o Ministério da Defesa, 67% dos países teriam um gasto militar como proporção do PIB menor que o nosso.

Nos onze países da América Latina e Caribe que ficaram na amostra o gasto militar como proporção do PIB ficou em média 1,28% e a mediana foi 1,19%. O Brasil está acima da média e mediana desse grupo de países. Caso nosso gasto fosse de 2% do PIB estaríamos atrás apenas da Colômbia e do Equador. A figura abaixo mostra o gasto militar como proporção do PIB nos países da América Latina e Caribe e destaca os 2% do PIB.




Mesmo entre os países da OTAN não são muitos que gastam 2% ou mais do PIB em defesa. Dos países da OTAN que ficaram na amostra em apenas quatro os gastos militares ficaram acima de 2% do PIB. A média do grupo foi 1,75% e a mediana foi de 1,78%. A figura abaixo mostra o gasto militar como proporção do PIB nos países da OTAN.




Se olhando o gasto militar como proporção do PIB o Brasil está na mediana quando consideramos o gasto militar em termos absolutos o quadro muda consideravelmente. Segundo os dados do Banco Mundial os gastos militares no Brasil em 2019 foram de US$ 27,8 bilhões, o número está acima da média, US$ 21,1 bilhões, e bem acima da mediana de US$ 3,1 bilhões. Considerando todos os países da amostra 86,1% possuem gastos militares menores que os do Brasil. A figura abaixo ilustra essa distribuição.




A liderança dos Estados Unidos em termos de gastos militares impressiona. As despesas militares dos americanos em 2019 foram de US$ 648,8 bilhões, na China, país com segundo maior gasto, as despesas militares foram de US$ 250 bilhões. Caso o leitor esteja curioso, em 2019 o gasto militar na China foi equivalente a 1,87% do PIB, um pouco menos que à proporção que Ministério da Defesa propõe para o Brasil.

Quando a análise fica restrita aos gastos militares dos países da América Latina e Caribe que estão na amostra a liderança do Brasil fica clara. Nossos gastos militares são mais que o dobro dos gastos militares do segundo lugar que é a Colômbia, caso a proposta do Ministério da Defesa estivesse em vigor nossos gastos militares seriam mais que o triplo dos da Colômbia. A figura abaixo mostra os gastos militares na América Latina e Caribe.




Na comparação com os países da OCDE os gastos militares do Brasil também não estão mal na foto. Dos quinze países da amostra apenas cinco gastaram mais que o Brasil com os militares. A figura abaixo mostra os gastos militares nos países da OTAN e no Brasil, os Estados Unidos foram excluídos para não distorcer as comparações da figura.




Considerando os dez países com maiores territórios da amostra os gastos militares no Brasil são menores que nos Estados Unidos, China, Índia e Rússia, todos potências nucleares e envolvidos em conflitos. A figura abaixo mostra os dados para esse grupo de países, mais uma vez os Estados Unidos ficaram de fora para não distorcer as comparações da figura.




Um último exercício consiste em deixar de lado as comparações com outros países e avaliar os gastos militares do Brasil no passado. No período entre 1960 e 2018 o maior valor do gasto militar como proporção do PIB no Brasil ocorreu em 1965, no ano seguinte ao Golpe que derrubou João Goulart os gastos militares chegaram a 3,35% do PIB, em 1966 caiu para 3,02%, estes foram os únicos dois anos em que os gastos militares superaram 3% do PIB.

Até meados da década de 70 os gastos militares ficavam em torno dos 2% do PIB que o Ministério da Defesa deseja colocar como referência. Depois de 1976 os gastos militares começam a cair como proporção do PIB, o menor valor ocorreu em 1980 e foi de 1,14%. No final da década de 80 os gastos militares voltam a ficar acima de 2% do PIB por alguns poucos anos, a última vez que os gastos militares ficaram acima de 2% do PIB foi em 1994. No período pós-estabilização o maior valor dos gastos militares como proporção do PIB foi de 1,33% e ocorreu em 2013, o maior valor foi 1,95% em 2001. A figura abaixo mostra esses dados e destaca o valor de 2% do PIB.




Em termos gerais o gasto militar em torno de 1,5% do PIB deixa o Brasil na mediana dos países da amostra, um aumento para 2% do PIB colocaria o Brasil no terço superior dos países com maior comprometimento do PIB com defesa. Em 2019 nem a China dedicou mais de 2% as despesas militares. Em termos absolutos os gastos militares do Brasil estão entre os 15% maiores do mundo e são, com folga, os maiores da América Latina e Caribe. Aumentar os gastos para 2% do PIB não mudaria muito nossa posição global, mas aumentaria de forma significativa nossa distância para os outros países do continente. Considerando os países com grandes territórios os gastos militares brasileiros ficam atrás dos Estados Unidos, China, Índia e Rússia, gastamos com militares do que, por exemplo, Austrália e Canadá. Em termos históricos o percentual de 2% dos gastos com defesa nos levaria de volta para o período pré-estabilização, quando a média era de 2,06% do PIB contra 1,54% no período pós-estabilização. Durante a ditadura militar a média foi de 2,07%, bem próxima do desejado pelo Ministério da Defesa.

A divisão do orçamento público envolve conflito entre grupos de interesses e revela as prioridades dos governantes e do Congresso. O Brasil gastar 1,5% do PIB com defesa não parece algo fora de propósito, é legítimo que alguém diga que 2% seriam compatíveis com nosso passado e fariam mais justiça a nossa estatura, para usar a expressão do ministro da Defesa. Resta saber qual é nossa estatura visto que já fomos chamados de anões diplomáticos, mas essa é outra história. Enfim, se a prioridade do governo é deslocar 0,5% do PIB para gastos com defesa é direito deles, da minha parte espero que o Congresso não concorde com a proposta.

Da minha parte tentaria aliviar os pagadores de impostos de bancar esse aumento de 0,5% do PIB, mas, se não fosse possível, preferia que os recursos fossem usados para dobrar o Bolsa Família. Enfim, como disse no primeiro parágrafo, cada um com suas prioridades.


quinta-feira, 9 de julho de 2020

Alíquotas de impostos sobre a renda das empresas no Brasil e no Mundo


Hoje o titular da Secretaria Especial de Desestatização, Desinvestimento e Mercados, Salim Mattar, fez um tuíte comentando os números da OCDE mostrando que o Brasil taxa muito as empresas. Resolvi dar uma olhada nos dados e compartilhar alguns comentários com os leitores do blog, já vou avisando que o secretário está correto.

Os dados estão no Corporate Tax Statistics Database da OCDE (link aqui) e consideram impostos sobre a renda das empresas do governo central e dos governos regionais. São disponibilizados dados para 108 países, 36 pertencentes à OCDE e 72 não pertencentes. As taxas mais altas estão na Índia, 48,3%, seguida pela República Democrática do Congo e por Malta, 35%, e pelo Brasil com 34%. É isso mesmo, as empresas brasileiras pagam a quarta maior alíquota de impostos sobre renda entre os 108 países avaliados pela OCDE, mais ainda, em nenhum país da OCDE a alíquota é maior que no Brasil. Chega perto, como é o caso da França, mas não é maior.

Considerando todos os países da amostra a alíquota média é de 20,7%. Retirando os 11 países onde alíquota dos impostos sobre a renda das empresas é zero, nenhum deles pertence à OCDE, a alíquota média sobe para 23%. Para os países que não pertencem à OCDE e cobram alíquotas maiores do que zero a alíquota média é de 22,8% e a mediana é de 25%. A figura abaixo mostras as alíquotas desses 61 países com o Brasil em destaque.




Na amostra apenas com países da OCDE a alíquota média é de 23,3% e a mediana é de 23,5%. A figura abaixo mostra essa amostra de países adicionada do Brasil. Fica claro que as alíquotas de impostos sobre a renda enfrentadas pelas empresas brasileiras são bem maiores que as de outros países, inclusive de países ricos.




A figura abaixo mostra as alíquotas em todos os países da amostra com destaque para um grupo selecionado de países, quanto mais para direita maior a alíquota do país. O eixo vertical mostra quantos países possuem alíquotas menores que a do país, 97,2% dos países possuem alíquotas menores que a do Brasil e 12% possuem alíquotas menores que a Hungria.




A discussão a respeito das alíquotas de impostos sobre a renda das empresas ganha ainda mais relevância em um momento onde o governo fala de taxar dividendos, uma tributação que incide sobre o dinheiro que a empresa paga aos acionistas. Do ponto de vista teórico existem críticas relevantes a esse tipo de imposto, da minha parte fico incomodado com o potencial efeito do imposto de prender recursos em uma firma que pode não ser a mais interessante para investir. Se o imposto sobre dividendos for muito alto o acionista pode preferir manter o dinheiro na firma do que receber os dividendos e investir em outra empresa mais produtiva. Por outro lado, o argumento que a grande maioria dos países usa esse tipo de imposto não deve ser ignorado. Teorias dizem muitas coisas e dependem de hipóteses por vezes de difícil averiguação. Estudos empíricos podem jogar uma luz sobre o real impacto de um imposto sobre dividendos, mais as conclusões desses estudos são limitadas por dificuldades de identificação e de estabelecer causalidade.

De todo modo, se o governo brasileiro optar por seguir a maioria e adotar um imposto sobre dividendos, é fundamental reduzir o Imposto sobre a Renda das Pessoas Jurídicas (IRPJ) e/ou a Contribuição Social sobre Lucro Líquido (CSLL). A não ser que o Brasil queira disputar com a Índia o topo do ranking dos países que mais tributam o lucro das empresas, o que não me parece ser uma boa ideia.


domingo, 17 de maio de 2020

A ponta do iceberg: números do PIB referentes ao primeiro trimestre de 2020 em alguns países.


Os números referentes ao primeiro trimestre divulgados por vários países revelam o tamanho da crise que está por vir. A figura abaixo mostra a variação do PIB em relação ao período anterior para os países com dados disponíveis na base de dados da OCDE, o Brasil não aparece porque ainda não foram divulgados os números do primeiro trimestre de 2020. A maior queda aconteceu na China, uma das razões é que a China foi afetada antes dos outros países, na Europa a maior queda ocorreu na França. A queda média foi de 2,6% e a mediana foi de 1,9%. Os números assustam, para referência no primeiro trimestre de 2019 não houve queda do PIB em relação ao período anterior em nenhum dos países da figura, mas representam apenas a ponta do iceberg pois em vários países os meses de janeiro e fevereiro foram pouco afetados pela pandemia. Na Itália a quarentena foi imposta em nove de março.




Na comparação com o mesmo período do ano anterior, que é o primeiro trimestre de 2019, o quadro parece menos desolador, mas só parece. Um número significativo nesta comparação não significa “apenas” que o PIB encolheu durante a crise, significa que o encolhimento do PIB mais do que compensou o crescimento de 2019. Assim como na comparação com o trimestre anterior o destaque da China é influenciado pelo fato que a pandemia começou por lá.




As figuras acima nos mostram o começo da crise, no segundo trimestre o estrago certamente foi bem maior. É possível que as quedas nos produtos de vários países no segundo trimestre sejam maiores que a da China no primeiro trimestre, infelizmente Brasil não será exceção. A situação aqui fica agravada porque já estávamos em crise antes da pandemia começar e, ao contrário do que dizem algumas autoridades, não havia sinais de melhoras nos primeiros meses de 2020.


quinta-feira, 7 de maio de 2020

O isolamento no Brasil foi exagerado em comparação com o de outros países?

É difícil saber se o isolamento em um determinado país foi modesto ou exagerado, isso é verdade porque não sabemos qual é o nível de isolamento ótimo em cada país. Na falta do isolamento ideal uma alternativa é comparar o isolamento de um determinado país com o de outros países. Não é um exercício sem riscos, conceitualmente a comparação é perigosa porque é perfeitamente possível que o nível ideal de isolamento seja diferente entre os vários países, desta forma um país pode estar mais isolado que outros sem que isso implique em exagero no isolamento. Em termos de medida os riscos estão na escolha de variáveis e nas diferenças de mensuração em cada país.

Mesmo ciente dos riscos, resolvi comparar o isolamento no Brasil com o isolamento em outros países. Como medida de isolamento escolhi a variação do movimento em terminais de transportes em cada dia comparado com o período de referência para cada país, essa medida está disponível no Covid-19 Community Mobility Reports (link aqui). O período de referência é definido como a mediana do mesmo dia da semana no período entre três de janeiro e seis de março de 2020. Por exemplo, o índice do Brasil no dia quinze de abril, uma quarta-feira, é de -53, isso significa que naquele dia o movimento em terminais de transportes foi 53% menor que a mediana das quartas-feiras entre três de janeiro e seis de fevereiro de 2020.

O primeiro exercício consistiu em calcular o menor valor do índice para cada país, o período analisado vai de quinze de março a dois de maio, ou seja, será considerado o menor desvio em relação ao período de referência para cada país. Por exemplo, Brasil a maior queda ocorreu no dia dez de abril quando o movimento em terminais de transportes ficou 69% abaixo do movimento no período de referência, na Argentina ocorreu nos dias vinte e três e vinte quatro de março e a queda foi de 85% e nos Estados Unidos a maior queda foi de 56% e ocorreu no dia doze de abril. A figura abaixo mostra o menor valor do índice para cada país e destaque alguns países que considero interessantes.




A média da medida de isolamento foi de -72,6 e a mediana foi de -75, no Brasil a medida de isolamento foi de -69, ou seja, no período analisado o isolamento por aqui foi menor que a média e a mediana dos cento e vinte nove países da amostra, de fato 64,3% em 64,3% dos países da amostra a medida mostrou mais isolamento do que no Brasil. De todos países, o menor isolamento ocorreu no Iémen (-27) e o maior isolamento ocorreu nas Bahamas (um inacreditável índice de -100, ou seja, ninguém usou terminais de ônibus no dia dize de abril). Em nenhum dos países sul-americanos destacados o isolamento foi menor que no Brasil, o maior isolamento da região aconteceu no Peru. É curioso registrar que nos Estados Unidos e na Coréia do Sul a medida de isolamento sugere menor isolamento do que na Suécia, um país que vez por outra é apontado por ter evitado medidas de isolamento.

A medida utilizada no primeiro exercício pode ser muito afetada por eventos específicos de um dia, por exemplo, feriados ou greves. Para resolver esse problema o próximo exercício mostra o desvio do movimento nos terminais de transportes em todos os dias do período analisado e para todos os países da amostra. Como esse método não é possível destacar todos os países da primeira figura, escolhi os seis que considerei mais interessantes. 



É fácil ver na Itália e na Argentina o isolamento foi maior que no Brasil em todo o período, porém na Argentina ocorre uma aproximação nos últimos dias. A queda do movimento em terminais de transportes por aqui ficou próxima da observada nos Estados Unidos, se isso pode ser explicada pelas características dos dois países (federações com grandes áreas) ou dos governantes dos dois países é coisa que não vou ousar explicar. No começo do período o isolamento na Suécia foi maior que no Brasil, porém depois a situação mudou quando ocorre a grande queda de movimento em meados de março. A Coréia do Sul é um caso interessante, o movimento tem uma queda brusca, chegando a ser maior que na Itália no começo da amostra e depois se mantém constante em um nível de isolamento menor que nos outros países selecionados.

O exercício desse post possui severas limitações e não deve ser usado para inferir sobre o desenvolvimento da Covid-19 nos vários países. Se tiver alguma utilidade, além de me ajudar a passar o tempo e me tirar uma curiosidade, aponta que o isolamento por aqui não foi tão rígido como vez por outra alguém sugere. Uma questão curiosa seria saber se existe correlação entre o isolamento e a mudança na previsão de crescimento do país, mas, por enquanto, ainda não estou tão ousado para fazer um post com esse tema.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Avaliação do impacto da Covid-19 no crescimento esperado a partir das estimativas do FMI em outubro de 2019 e abril de 2020


Com a divulgação dos dados do Outlook do FMI (ver aqui) é possível ter uma visão mais ampla das estimativas de impacto da Covid-19 no crescimento dos diversos países. Para fazer esse post considerei todos os países com mais de dez milhões de habitantes e com previsão para crescimento em 2020 na base de dados de outubro de 2019 e na base de dados de abril de 2020, foram 87 países.  A diferença entre a previsão de crescimento em outubro de 2019 e abril de 2020 é o que vou chamar de impacto da Covid-19 na estimativa de crescimento.

A figura abaixo mostra e compara o impacto da pandemia no Brasil e em outros países selecionados com o impacto em todos os países da amostra. No eixo horizontal está o impacto em cada país, o eixo vertical mostra quantos países sofrerão um impacto maior que o do país. Por exemplo, em outubro de 2019 a estimativa de crescimento para Argentina era de -1,281%, em abril de 2020 essa estimativa caiu para -5,719, o impacto da Covid-19 na estimativa de crescimento da Argentina é de -5,719 - (-1,281) = -4,438 e 75,9% dos países sofrerão um impacto maior do que a Argentina.



Como mostra a figura o impacto no Brasil será menor que no Chile, México, EUA e Alemanha, porém maior que na Bolívia, Equador e Colômbia. De forma mais precisa, o impacto no Brasil será de -7,342 e 32% dos países da amostra sofrerão um impacto maior que o Brasil, ou seja, se as estimativas do FMI estiverem corretas vamos sofrer um impacto significativo.




A previsão para o Brasil é de queda de 5,3% do PIB, é uma queda forte mesmo considerando nossa renda per capita em 2019. A figura abaixo mostra a relação entre PIB per capita e crescimento previsto para 2020 destacando os mesmos países da figura anterior e os grupos de países conforme classificação do FMI. Repare que a queda no PIB será mais acentuada nos países avançados. O grupo com melhor desempenho é a África subsaariana, 17 dos 27 países com previsão de crescimento em 2020 pertencem a esse grupo.




A próxima figura mostra o crescimento previsto em abril de 2020 em comparação ao crescimento previsto em outubro de 2019. Em todos os países o crescimento previsto em 2020 e menor que o previsto em 2019, isso deixa claro o impacto global da Covid-19. A reta de regressão está na figura apenas para ajudar na visualização, uma reta de 45º, mais adequada para esse tipo figura, só causaria distorções pois passaria muito acima de todos os pontos.

A avaliação do impacto por grupos de países confirma que os países avançados serão os mais atingidos. Tomando a média dos países de cada grupo, nos países avançados o crescimento de 2020 previsto em abril deste ano ficou 8,3% menor que o previsto em outubro do ano passado. Na África subsaariana a queda estimada foi de 4,6%, na América Latina e Caribe, a nuestra America, a queda foi de 6,5%. A figura abaixo mostra o impacto da Covid-19 em todos os grupos de países.




Considerando apenas os países que ficaram na amostra, as estimativas do FMI apontam que o impacto do coronavírus no Brasil vai ser menor do que no Peru, no México e no Chile. O menor impacto corre na Argentina, talvez por ser o único país do grupo onde havia previsão de queda do PIB já em 2019.




Em termos de previsão de crescimento para 2020 a maior queda deve ser no México, seguido de Equador e Argentina, logo após vem o Brasil. A menor queda está prevista para acontecer na República Dominicana. Dos países da América do Sul que estão na amostra a menor queda deve ser na Colômbia.




O balanço geral da comparação das estimativas de crescimento é desolador. A média de crescimento dos 87 países da amostra que era de 3,6% em outubro de 2019 virou uma queda de 2,6% em abril de 2020, a mediana foi de 3,1% para -3%. Nas previsões de 2019 apenas o Sudão (-1,5%) e a Argentina (1-,3%) teriam queda no PIB em 2020, agora a previsão é que 60 países terão queda no PIB. As maiores quedas estão previstas para Grécia, 10%, Itália, 9,1%, Portugal e Espanha, ambos com 8%.

Se serve de consolo registro que a incerteza é tão grande que mesmo previsões de instituições renomadas como o FMI devem ser olhadas com muita cautela, há uma enorme margem para erros. O problema é que não temos a menor ideia se os erros são para mais ou para menos;