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quinta-feira, 7 de maio de 2020

O isolamento no Brasil foi exagerado em comparação com o de outros países?

É difícil saber se o isolamento em um determinado país foi modesto ou exagerado, isso é verdade porque não sabemos qual é o nível de isolamento ótimo em cada país. Na falta do isolamento ideal uma alternativa é comparar o isolamento de um determinado país com o de outros países. Não é um exercício sem riscos, conceitualmente a comparação é perigosa porque é perfeitamente possível que o nível ideal de isolamento seja diferente entre os vários países, desta forma um país pode estar mais isolado que outros sem que isso implique em exagero no isolamento. Em termos de medida os riscos estão na escolha de variáveis e nas diferenças de mensuração em cada país.

Mesmo ciente dos riscos, resolvi comparar o isolamento no Brasil com o isolamento em outros países. Como medida de isolamento escolhi a variação do movimento em terminais de transportes em cada dia comparado com o período de referência para cada país, essa medida está disponível no Covid-19 Community Mobility Reports (link aqui). O período de referência é definido como a mediana do mesmo dia da semana no período entre três de janeiro e seis de março de 2020. Por exemplo, o índice do Brasil no dia quinze de abril, uma quarta-feira, é de -53, isso significa que naquele dia o movimento em terminais de transportes foi 53% menor que a mediana das quartas-feiras entre três de janeiro e seis de fevereiro de 2020.

O primeiro exercício consistiu em calcular o menor valor do índice para cada país, o período analisado vai de quinze de março a dois de maio, ou seja, será considerado o menor desvio em relação ao período de referência para cada país. Por exemplo, Brasil a maior queda ocorreu no dia dez de abril quando o movimento em terminais de transportes ficou 69% abaixo do movimento no período de referência, na Argentina ocorreu nos dias vinte e três e vinte quatro de março e a queda foi de 85% e nos Estados Unidos a maior queda foi de 56% e ocorreu no dia doze de abril. A figura abaixo mostra o menor valor do índice para cada país e destaque alguns países que considero interessantes.




A média da medida de isolamento foi de -72,6 e a mediana foi de -75, no Brasil a medida de isolamento foi de -69, ou seja, no período analisado o isolamento por aqui foi menor que a média e a mediana dos cento e vinte nove países da amostra, de fato 64,3% em 64,3% dos países da amostra a medida mostrou mais isolamento do que no Brasil. De todos países, o menor isolamento ocorreu no Iémen (-27) e o maior isolamento ocorreu nas Bahamas (um inacreditável índice de -100, ou seja, ninguém usou terminais de ônibus no dia dize de abril). Em nenhum dos países sul-americanos destacados o isolamento foi menor que no Brasil, o maior isolamento da região aconteceu no Peru. É curioso registrar que nos Estados Unidos e na Coréia do Sul a medida de isolamento sugere menor isolamento do que na Suécia, um país que vez por outra é apontado por ter evitado medidas de isolamento.

A medida utilizada no primeiro exercício pode ser muito afetada por eventos específicos de um dia, por exemplo, feriados ou greves. Para resolver esse problema o próximo exercício mostra o desvio do movimento nos terminais de transportes em todos os dias do período analisado e para todos os países da amostra. Como esse método não é possível destacar todos os países da primeira figura, escolhi os seis que considerei mais interessantes. 



É fácil ver na Itália e na Argentina o isolamento foi maior que no Brasil em todo o período, porém na Argentina ocorre uma aproximação nos últimos dias. A queda do movimento em terminais de transportes por aqui ficou próxima da observada nos Estados Unidos, se isso pode ser explicada pelas características dos dois países (federações com grandes áreas) ou dos governantes dos dois países é coisa que não vou ousar explicar. No começo do período o isolamento na Suécia foi maior que no Brasil, porém depois a situação mudou quando ocorre a grande queda de movimento em meados de março. A Coréia do Sul é um caso interessante, o movimento tem uma queda brusca, chegando a ser maior que na Itália no começo da amostra e depois se mantém constante em um nível de isolamento menor que nos outros países selecionados.

O exercício desse post possui severas limitações e não deve ser usado para inferir sobre o desenvolvimento da Covid-19 nos vários países. Se tiver alguma utilidade, além de me ajudar a passar o tempo e me tirar uma curiosidade, aponta que o isolamento por aqui não foi tão rígido como vez por outra alguém sugere. Uma questão curiosa seria saber se existe correlação entre o isolamento e a mudança na previsão de crescimento do país, mas, por enquanto, ainda não estou tão ousado para fazer um post com esse tema.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Isolamento por atividades e unidades da federação até 11/04

Domingo fiz um post usando os dados do Google COVID-19 Community Mobility Reports (https://www.google.com/covid19/mobility/) para comparar o isolamento nos estados e no DF. Hoje vi que o Google liberou o arquivo com todos os dados e resolvi atualizar o post mostrando como está o isolamento dia após dia. Os indicadores são calculados tomando como referência as idas em tempos de permanência em cada tipo de área em proporção ao período de referência que é definido como a mediana para o mesmo dia da semana no período entre três de janeiro e seis de fevereiro de 2020. As áreas são as mesmas do post anterior:


  • Compras e recreação (Retail & recreation): restaurantes, cafés, shopping centers, parques temáticos, museus, bibliotecas e cinemas.
  • Mercados e farmácias (Grocery & pharmacy): mercearias, armazéns, quitandas, mercados, drogarias e farmácias.
  • Lazer (Parks): parques e jardins públicos, praias, marinas, praças e parques para cães.
  • Terminais de transportes (Transit stations): estações de metrô, trem e pontos de ônibus.
  • Locais de trabalho (Workplaces): locais de trabalho.
  • Áreas residenciais (Residential): áreas residenciais.


A figura abaixo mostra o comportamento de todos as unidades da federação e destaca na cor mais escura o isolamento no Brasil. É interessante notar que apesar dos estados não terem coordenado as medidas de isolamento o padrão é razoavelmente semelhante entre eles. Nas áreas residenciais ocorre um aumento do movimento de pessoas, quedas de movimento forte nas áreas de lazer, compras e recreação, locais de trabalho e terminais de transportes, quedas leves nas áreas de mercados e farmácias.




A próxima figura repete a anterior, porém como escalas diferentes para o eixo vertical (eixo y). A comparação entre as diferentes áreas fica comprometida, mas fica mais fácil observar as variações em cada área. Na figura é possível observar que no final de março começou um aumento da dispersão no movimento em áreas residenciais e um aumento do movimento nas áreas de compras em recreação. No Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul os desvios em relação ao período de referência nas áreas de compras e recreação ficam maiores que -30 no dia nove de abril.




A última figura reproduz a anterior considerando apenas Amazonas, São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. Os quatro primeiros são os candidatos a problemas mais sérios nos próximos dias, Amazonas e Ceará já anunciaram falta de vagas em UTIs, e o último é onde moro que aparentemente saiu da lista de mais propensos a problemas sérios. Os cinco seguem padrões semelhantes, o maior destaque parece ser a menor queda do movimento em terminais de transportes em São Paulo e a maior no Ceará.

No geral dois pontos me chamaram atenção. O primeiro é a semelhança entre o padrão de isolamento das unidades da federação, mesmo sem uma lei nacional ou uma coordenação entre os governadores todos os estados e o DF apresentaram quase o mesmo padrão de queda, estabilidade ou aumento em cada uma das áreas. O segundo, que pode ser preocupante, é o aumento do movimento em áreas de compras e recreação e nos terminais de transportes observado em vários estados.