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terça-feira, 15 de junho de 2021

Não comemos PIB, mas...

Vez por outra a frase “não comemos PIB” aparece nas redes e nos jornais, lembro que apareceu quando o PIB começou a cair no governo Dilma e agora no governo Bolsonaro quando o PIB subiu acima do esperado. Curiosamente a frase não lembro da frase ter ganho destaque quando o PIB crescia bem no governo Lula, deve ser porque sou esquecido. De toda forma a frase é interessante e merece atenção. Realmente não comemos PIB, também não vestimos PIB, não moramos no PIB e não sairmos para dançar no PIB. PIB é uma construção teoria usada por economistas para tentar mensurar o quanto é produzido em uma região. 

No PIB estão computadores, relógios, trigo, cortes de cabelos, massas e maças. Quem é tanta coisa acaba por não ser nada, pode dizer algum observador, mas, creio eu, esse observador estaria sendo injusto. Como outras medidas do tipo o PIB simultaneamente carece e abunda de significados. A frase “não comemos PIB” é correta e bastante útil para apontar que existem coisa que o PIB não capta bem, porém a frase se torna enganosa quando usada para tirar relevância de uma queda ou de um aumento do PIB.

Logo no primeiro capítulo do livro Introduction to Modern Economic Growth (link aqui), Daron Acemoglu, economista merecidamente festejado pelo livro Por que as nações fracassam? (link aqui), trata de relação entre PIB per capita, que nada mais é do que o PIB dividido pela população, e os níveis de bem-estar de um país. Para ilustrar o ponto ele apresenta dois gráficos que vou reproduzir aqui, o primeiro mostra a correlação (que não é causalidade!) entre o logaritmo do PIB per capita e o logaritmo do consumo per capita. Fica clara a relação positiva entre as duas variáveis, ou seja, não comemos PIB, mas onde o PIB por pessoa é maior o consumo por pessoa também é maior.


 O segundo gráfico mostra a correlação entre PIB per capita e expectativa de vida ao nascer. PIB não comida nem remédio, mas onde o POB per capita é maior as pessoas tendem a viver mais. Isso óbvio, alguém pode dizer, correto, responderia eu, mas também deveria ser óbvio que crescimento do PIB é uma boa notícia e queda do PIB é uma notícia ruim.

 

Como sou chato, não sou tão cuidadoso quanto o Acemoglu e isso é um blog onde tento conversar com leitores e não um livro tomei a liberdade de mostrar outras correlações entre o PIB per capita e variáveis que alguém pode considerar relevantes. A figura abaixo mostra a correlação entre PIB per capita e o percentual da população com acesso a saneamento básico. Além de consumir mais e viver mais, quem vive em locais com PIB per capita maior tem menos problemas de acesso a água tratada. Por causa do PIB? Não dá para dizer isso, lembre que correlação não é causalidade, mas se é difícil, talvez impossível, estabelecer empiricamente uma relação de causalidade, não é tão difícil teorizar sobre tal relação, mas deixo isso para outra ocasião.

 

Consumir mais é bom, viver mais é bom, ter acesso a esgoto e água tratada é bom... mas o que vale tudo isso sem tomar uma? Pensando nisso fui olhar a correlação entre PIB per capita e consumo de álcool. Deu positiva, sim meu caro, se nada que falei até aqui te convenceu da importância do PIB talvez saber que onde o PIB per capita é maior se bebe mais mude sua opinião.

 

Belchior, meu conterrâneo, cantou que nada é maravilhoso, temo que ele esteja certo, mas definitivamente não é em conceitos econômicos que vamos encontrar algo para contradizer o poeta cearense. O PIB também está correlacionado com coisa indesejáveis, como, por exemplo, a poluição. Países com maior PIB per capita emitem mais CO2. Muita gente acredita que isso é motivo para não comemorar aumento de PIB, nem tanta gente parece disposta a migrar para países que emitem pouco CO2. Não sou especialista no assunto, mas creio que sacrificar PIB para preservar meio ambiente é uma estratégia complicada e limitada, resta apostar que a chegada de novas tecnologias, em parte estimuladas pelo aumento de custos do uso de tecnologias poluentes que é induzido por políticas ambientais, resolvam o problema e permitam a redução da correlação entre PIB e emissão per capita de CO2.

 

A última figura retorna à frase que motivou o post (já dizia meu saudoso pai que a maior prova que o mundo é redondo é que andamos muito e retornamos ao mesmo lugar). Não comemos PIB, fato, mas onde o PIB per capita é maior o percentual da população subnutrida é menor.

 

Paro aqui, as provocações do post não têm como objetivo contestar a frase que não comemos PIB, que é obviamente verdadeira, mas contextualizar a importância do crescimento do PIB e como uma maior PIB per capita está correlacionado com algumas características desejáveis de uma sociedade. Nunca é demais lembrar que, como também está registrado no livro de crescimento do Acemoglu, o processo de aumento do PIB per capita, embora geralmente bom para o bem-estar, cria perdedores e ganhadores, daí, talvez as resistências.

 

P.S. Se você é aluno de graduação da UnB o post também é uma propaganda do curso de crescimento que vou oferecer no próximo semestre (começa em julho, mas é o 2021/1). Os gráficos estarão lá e, nas aulas, “práticas” você vai aprender a fazer gráficos do tipo.

 

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Crescimento econômico nas duas primeiras décadas do Século XXI


Quais os países que mais cresceram no século XXI? Quais os que menos cresceram? Nesse post uso dados do Banco Mundial no período de 2001 a 2019 para responder essas perguntas. Como o objetivo é crescimento, e não comparação entre renda, calculei a taxa de crescimento do PIB per capita em valores constantes da moeda de cada país, desta forma elimino problemas com câmbio e com medidas de paridade de poder de compra. Na média dos países em 2019 o PIB per capita era 65,5% maior do que em 2001, mas essa média esconde variações importantes entre os países. Na China, país com maior crescimento, o PIB per capita em 2019 foi 334% maior que o PIB per capita em 2001, no Zimbabwe, país com pior desempenho, o PIB per capita em 2019 era quase 20% menor do que em 2001. Milagres e desastres continuam existindo no século XXI.

Considerei apenas países com mais de cinco milhões de habitantes e com dados disponíveis para 2001 e 2019, a amostra ficou com 101 países. Para facilitar a apresentação dos resultados dividi os países em quatro grupos de acordo com o crescimento do período. O primeiro grupo reúne os 25 países com maior crescimento, na média o crescimento do PIB per capita desses países entre 2001 e 2019 foi de 148,8%. Nesse grupo estão um país avançado, cinco países da Comunidade de Países Independentes, dez países emergentes da Ásia, quatro países emergentes da Europa, dois países da América Latina e Caribe e três países da África subsaariana. A figura abaixo mostra esses países.




Como pode ser visto na figura, dos campeões de crescimento no século XXI nada menos que 20 países apresentaram crescimento de mais de 100% do PIB per capita entre 2001 e 2019, ou seja, os habitantes desses países, em média, dobraram suas rendas no século XXI. Desses países três cresceram mais de 200% e dois cresceram mais de 300%.

O grupo seguinte é formado por 25 países com crescimento entre 53% e 92% entre 2001 e 2019. Nesse grupo de países com crescimento médio-alto a média de crescimento foi de 68,4%. O maior crescimento ocorreu na Sérvia, 91,5%, e o menor no Paraguai, 52,9%, oito países desse grupo cresceram mais que 75% no período. No grupo estão três países avançados, dois da Comunidade de Países Independentes, quatro países emergentes da Ásia, dois países emergentes da Europa, quatro países da América Latina e Caribe, dois países do Oriente Médio e oito países da África subsaariana. A figura abaixo mostra esses países.




Na sequência aparece o grupo formado por 25 países onde o PIB per capita cresceu entre 26,3% e 50% no período 2001 a 2019, os países com crescimento médio-baixo. O país com melhor desempenho do grupo foi o Egito, crescimento de 49,5%, e o país com pior desempenho foi o Brasil, 26,3%. É isso, menos um pouquinho e estaríamos “comemorando” o melhor desempenho entre os países de pior desempenho em termos de crescimento. A média de crescimento do grupo foi de 35,3%. No grupo estão quatro países avançados, seis países da América Latina e Caribe, cinco do Oriente Médio e dez da África subsaariana. A figura abaixo mostra esses países.




O último grupo é o de países que cresceram menos de 26,3% entre 2001 e 2019, o gripo dos países de crescimento baixo. O melhor desempenho do grupo foi um crescimento de 26,2% na República do Níger, o pior desempenho foi uma queda 19,2% no Zimbabwe. O crescimento médio dos países desse grupo foi de 11,8%. O grupo é composto por quinze países avançados, três países da América Latina e Caribe, três países do Oriente Médio e cinco países da África subsaariana. A figura abaixo mostra esses países.




A concentração de países avançados no grupo de baixo crescimento não causa espanto, vários modelos de crescimento apontam a relação inversa entre PIB per capita e crescimento, ou seja, ao contrário da crença popular, países ricos crescem menos do que países pobres. A validação empírica dessa proposição está (muito) além do objetivo desse post, o tema é objeto de pesquisa, vários autores encontram que a relação inversa vale para grupos de países homogêneos. A figura abaixo apresenta a distribuição dos grupos de países de acordo com o FMI, esse que estamos usando no post, segundo o grupo de crescimento.




É fácil observar a concentração de países avançados no grupo de crescimento baixo, isso não chega a ser um problema, afinal esses países já são ricos, mais preocupante é o baixo número de países da África subsaariana e da América Latina e Caribe no grupo de países de alto crescimento. Outro fato notável é a ausência de países emergentes da Ásia, da Europa e da Comunidade de Países Independentes no grupo de países com crescimento baixo e médio-baixo. Com todos os problemas na Europa Oriental países como a Rússia, 75,3%, e a Ucrânia, 60,7%, cresceram mais do que a média dos países da América Latina e Caribe, 44,5%, e bem mais que os 26,3% do Brasil.

Dos países da América Latina e Caribe apenas o Peru, com crescimento de 101,3%, conseguiu dobrar o PIB per capita entre 2001 e 2019, a República Dominicana, com 95,7% de crescimento, completa a participação dos países de nuestra América no grupo de alto crescimento. Com crescimento médio-alto aparecem Bolívia, 61,5%, Colômbia, 61,1%, Chile, 56,8%, e Paraguai, 53%. A maior concentração de países da América Latina e Caribe ocorre no grupo de crescimento médio-baixo: Honduras, 39,4%, Equador, 36,2%, Nicarágua, 34,3%, El Salvador, 33,7%, Guatemala, 33,03%, e Brasil, 26,3%. No grupo de crescimento baixo estão Argentina, 25,1%, México, 13,1% e Haiti, -2,8%.

A figura abaixo mostra a relação entre crescimento e PIB per capita para todos os países da amostra, a classificação de cada país de acordo com o FMI está destacada pelas cores. Na figura estão destacados os cinco países de maior crescimento, os cinco com menor crescimento, os países da América Latina e caribe como crescimento acima do esperado considerando apenas o PIB per capita (os países acima da linha), o Brasil, o México, os Estados Unidos e a Suíça. Reparem a forte presença de países avançados no canto inferior direito da figura, alta renda e baixo crescimento, e de países emergentes da Ásia na parte de cima do gráfico, de fato o único país desse grupo abaixo da linha é Papua-Nova Guiné.




A figura acima traz duas preocupações que merecem destaque. Uma é a dificuldade dos países da América Latina e Caribe de saírem da faixa de renda-média, países mais ricos da região, como o México e a Argentina (que está no “z” do Brazil), crescem muito pouco, mesmo o Chile, tradicional “campeão” da região, não consegue um desempenho nível Ásia. A outra dificuldade é a presença marcante dos países da África subsaariana na parte de baixo da linha. Se em termos locais o grande desafio do século XXI é triar a América Latina e Caribe da renda-média em termos globais o grande desafio é tirar os países da África subsaariana da renda baixa.


sexta-feira, 15 de novembro de 2019

A República nos tirou do caminho para riqueza?


Hoje esbarrei em vários posts no FB garantindo que não fosse pela proclamação da República o Brasil seria um país rico ou algo do tipo. A tese parece ser que vínhamos nos aproximando dos países ricos e o “golpe da República” nos tirou dessa trajetória. Confirmar essa tese com dados não é tarefa fácil, as informações da época são poucas e de qualidade duvidosa. O Maddison Project Database (link aqui) é a melhor fonte de dados históricos a disposição de economistas, fui lá olhar os dados para avaliar a tese que a República nos tirou do caminho da riqueza.

Para o PIB per capita usei a série “cgdppc” que considera vários anos de “benchmark” e é mais adequada para comparações entre níveis de renda de países distintos. Para o século XIX existem dados disponíveis do Brasil para os anos de 1820 e todos os anos de 1850 em diante. Em termos de PIB per capita nossos primeiros passos não foram nada animadores, em 1820 nosso PIB per capita era de US$ 600, mesmo valor de 1850. Para comparação no mesmo período o PIB per capita dos Estados Unidos foi de US$ 2.080 para US$ 2.825 e o do Reino Unido foi de US$ 2.181 para US$ 2.858. A figura abaixo mostra o PIB per capita do Brasil como proporção do PIB per capita dos Estados Unidos e Reino Unido para o período entre 1850 e 2016.




Repare que não indício algum que estávamos em uma trajetória de aproximação com esses países no século XIX ou no reinado de D. Pedro II que foi de 1831 a 1889, muito pelo contrário, a tendência era de empobrecimento em relação ao Reino Unido e aos Estados Unidos.

Se comparamos nosso desempenho com as potencias ibérica o quadro fica um pouco menos desolador, mas nada que justifique a tese que D. Pedro II nos conduzia pelo caminho da riqueza. O PIB per capita da Espanha para 1820 não está disponível, em 1800 era de US$ 1.947 contra US$ 2.455 em 1850. Em Portugal a coisa foi bem pior, em 1800 o PIB per capita era de US$ 1.330, em 1820 de US$ 1.419 e em 1850 tinha caído para US$ 1.266. No Brasil o PIB per capita foi de US$ 600 nos três anos. Não tivemos o crescimento de nossa metrópole entre 1800 e 1820, por outra lado não tivemos a queda entre 1820 e 1850.

A figura abaixo mostra o PIB per capita do Brasil como proporção do PIB per capita de Portugal e Espanha entre 2850 e 2016. O padrão é de forte queda em relação a Portugal e queda leve em relação à Espanha. É possível dizer que a proclamação da República não reverteu essas quedas, pelo menos não de imediato, mas não parece razoável culpar a República por uma queda que vinha desde a época do Império.




Outros países da América Latina também tiveram melhor desempenho que o Brasil no período posterior a 1820. Ao contrário da estagnação observada por cá o PIB per capita da Argentina cresceu de US$ 1.710 em 1820 para US$ 2.144 em 1850; em 1889 era US$ 4.608 contra US$ 687 por aqui. No México o PIB per capita foi de US$ 760 em 1820 para US$795 em 1850, um crescimento pequeno, mas lembrem que por aqui ficou estagnado em US$ 600. Em 1890 o PIB per capita do México era US$ 1.184 (não há dado disponível para 1889). Em 1889, ano da proclamação da República, nosso PIB per capita era menos que o do Chile (US$ 2.026), Colômbia (US$ 1.000), Uruguai (US$3.675) e Venezuela (US$ 1.189).

É certo que olhar apenas para o PIB per capita não encerra o debate a respeito dos efeitos da República para o Brasil ou mesmo para economia brasileira, mas, até que apareçam outros dados mais consistentes que o de PIB  per capita do Maddisos Project Database sobre um conjunto de variáveis mais relevante que o PIB per capita não embarco na história que se não fosse pelo marechal Deodoro da Fonseca hoje o Brasil seria um país de primeiro mundo.


quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Brasil e Chile: o que dizem os números?


Por conta das manifestações no Chile começou a correr por aqui uma tese de falência do modelo chileno, sobrou até para Paulo Guedes por ter dito que o Chile é uma boa referência para o Brasil. Basta uma rápida lida no noticiário para lermos sobre como o neoliberalismo destruiu o Chile e coisas do tipo. Quem acompanha o crescimento econômico dos países da América Latina estranhou as crônicas sobre o fracasso do Chile e do neoliberalismo na América Latina, afinal se há algo que todo mundo que conhece um pouco do assunto sabe é que o Chile teve um desempenho econômico muito superior ao Brasil nas últimas décadas. De fato, o Chile ultrapassou e abriu larga vantagem sobre o Brasil em termos de renda por pessoa. Como o Chile não seria um bom exemplo?

A figura abaixo mostra o desempenho do PIB per capita corrigido por poder de compra no Brasil e no Chile desde 1990 (primeiro ano da série disponível na base de anos do Banco Mundial). A superioridade do desempenho econômico do Chile é evidente. Se o leitor está preocupado com a data ou com a fonte informo que segundo o FMI em 1980 o PIB per capita do Brasil era de $11.372,210 e o do Chile era de $7.986,483, enquanto em 2018 o PIB per capita do Brasil foi de $14.359,539 e o do Chile foi de $23.092,070.




Se há algo pouco discutido em teoria do crescimento econômico é que indicadores sociais costumam estar positivamente correlacionados com PIB per capita, por isso essa última variável costuma ser citada em comentários rápidos ou mesmo em artigos científicos comparando o desempenho econômicos de dois ou mais países. Por algum motivo que desconheço essa sabedoria convencional foi abandonada no caso do Brasil e do Chile e começou a circular uma tese que apesar do PIB per capita maior que o nosso os chilenos tinham uma vida pior que a nossa. Para checar essa tese resolvi dar uma olhada em vários indicadores disponíveis na base de dados do Banco Mundial.

Seguindo a recomendação do Angus Deaton, prêmio Nobel de Economia em 2015, comecei olhando a expectativa de vida. A expectativa de vida dos chilenos é maior que a nossa, ou seja, além de mais ricos eles vivem mais. Justiça seja feita a expectativa de vida deles era maior que a nossa desde quando eles eram mais pobres do que nós, logo fica difícil relacionar esse fato com o desempenho econômico do país nas últimas décadas. Alguém podia tentar comparar a variação na expetativa de vida, mas dado que parece existir um limite superior para essa variável, comparar variações pode ser complicado.




Resolvi olhar então para políticas sociais, especificamente os gastos com saúde e educação em cada país. A figura abaixo mostra que os gastos com saúde como proporção do PIB são maiores no Brasil do que no Chile, porém os gastos do governo com saúde são maiores no Chile do que no Brasil. Esses dados não confirmam a tese que a social democracia brasileira construiu um governo mais preocupado com a saúde do povo do que o neoliberalismo chileno.




Em termos de percentual do PIB per capita o governo brasileiro gasta mais com educação do que o governo chileno, alguém poderia concluir que essa é uma das causas das revoltas. Ocorre que o Chile tem um PIB per capita mais alto que o Brasil, como o gasto com educação, principalmente nos níveis primários e secundários, não cresce na mesma proporção da renda esse resultado não chega a ser surpreendente.




Se tomado o gasto absoluto o gasto do governo chileno por estudante é maior que o do governo brasileiro na educação primária e secundária. Na educação terciária, onde estão as universidades, o gasto do governo brasileiro é maior que o do governo chileno. Como as pessoas que chegam ao nível terciário costumam ter mais renda que as pessoas que param nos níveis primário ou secundário o dado sugere que a social democracia brasileira se preocupa menos com os mais pobres que o neoliberalismo chileno.




Uma comparação do Chile com o Brasil mostra que o Chile é menos desigual que o Brasil. Ambos apresentam altos índices de desigualdade e em ambos a desigualdade, medida pelo índice de Gini, está caindo nas últimas décadas. Se alguém culpa o neoliberalismo chileno pela desigualdade no país, mais culpa ainda deve creditar a social democracia brasileira pela desigualdade do Brasil. Vale registrar que alta desigualdade é quase que uma característica da América Latina.




A participação dos 10% na renda é maior no Chile neoliberal do que no Brasil social democrata. Nos dois países essa participação apresenta tendência de alta, porém no Brasil houve uma queda em 2017. Os pontos destacados na figura são os anos usados para construir a figura por conta de dados disponíveis para os dois países.




A fração da renda apropriada pelos 10% mais ricos mostra tendência de queda nos dois países, porém é menor no Chile do que no Brasil. Assim como nos 10% mais pobres, ocorre uma reversão no último ano na queda da fração de renda dos 10% mais ricos no Brasil. É possível que as duas reversões estejam relacionadas à grande crise iniciada em 2014, mas isso é assunto para outro post.




O acesso a internet pode ser um indicador interessante para entender a qualidade de vida nos dois países. Em ambos o percentual da população com acesso a internet apresenta tendência crescente. Em meados da década a tendência do Chile parece ter ficado mais forte, porém no último ano há uma pequena reversão.




Até agora os dados mostram que os chilenos são mais ricos, vivem mais, recebem mais do governo em saúde como proporção do PIB, recebem mais do governo em educação primária e secundária, moram em um pais menos desigual onde os 10% mais pobres apropriam uma fração maior da renda e os 10% mais ricos apropriam uma fração da renda menor do que o observado no Brasil. Deixei por último as comparações relativas a estrutura setorial da economia.




O Chile tem uma dependência de recursos naturais bem maior que o Brasil. Sabedoria comum no Brasil de meados do século passado e que nem tão supreendentemente tem força até hoje diria que isso faria do Chile um país mais pobre, mais desigual e mais sujeito a choques externos que o Brasil. Os dois primeiros vimos que não é verdade, o terceiro deixo para outra ocasião. Trouxe o assunto por desconfiar que alguns que proclamam a falência do neoliberalismo no Chile estão tirando conclusões a partir da sabedoria convencional de meados do século passado e sem olhar os dados.




Deixei por último a manufatura. Há quem diga que o neoliberalismo destrói a indústria do país. É fato que a participação da manufatura no PIB do Chile vem caindo desde a década de 1980, um fenômeno que não é exclusivo do Chile nem da América Latina. Ocorre que a queda da participação da manufatura do PIB no Brasil entre 1980 e 2018 foi muito maior que no Chile. Em 1980 a manufatura correspondia a 30,3% do PIB no Brasil e a 21,4% do PIB no Chile, em 2018 esses números eram 9,7% no Brasil e 10,6% no Chile. Se considerarmos o começo do século a queda no Chile foi maior que aqui, mas isso parece estar mais relacionado ao aumento de preços das commodities, recursos naturais são mais relevantes lá do que aqui, do que a herança neoliberal de Pinochet.

Nesse post mostrei vários indicadores mostrando que o Chile é mais rico e menos desigual que o Brasil. Mostrei indicadores dando conta que o governo do Chile gasta mais em proporção ao PIB com saúde que o governo brasileiro e que o governo do Chile tem mais foco em educação primária e secundária que o brasileiro. Por fim mostrei que apesar de ter maior dependência de recursos naturais o Chile tem uma manufatura como proporção do PIB quase igual à do Brasil, um pouco maior em 2018. Deixo para o leitor decidir se Paulo Guedes está certo ou errado em buscar inspiração no Chile para reformar a economia brasileira.



segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Impacto da pesquisa e PIB per capita: estamos mal quando consideramos nosso PIB per capita?


Já comentei aqui no blog a respeito do trabalho do professor Marcelo Hermes do Instituto de Biologia da UnB no qual ele desafia a ideia que houve uma melhora significativa no desempenho da produção acadêmica nacional e mostra que o impacto da pesquisa realizada no Brasil é baixo. Grosso modo o professor Marcelo Hermes usa indicadores de qualidade para contrapor indicadores de quantidade normalmente usados para avaliar o desempenho da academia no Brasil. Quem tiver interesse pode ler alguns artigos para jornal disponíveis aqui, aqui e aqui.

Os números apresentados pelo Marcelo Hermes são fortes e costumam impressionar, mas, chato que sou, resolvi checar se o impacto de nossa produção científica é mesmo tão ruim quando levamos em conta o PIB per capita do Brasil. Uma maneira bem preliminar para avaliar esse ponto é fazer uma regressão entre o impacto da pesquisa e o PIB per capita, grosso modo essa regressão vai dizer qual seria o impacto da pesquisa se considerarmos apenas o PIB per capita. É claro que é uma forma bem superficial de abordar a questão, deixa de lado questões relevantes como o quanto cada país gasta com pesquisa ou a qualidade do ensino em cada país e ainda nem falei dos problemas estatísticos relacionados a regressão. Mesmo assim creio que o exercício é válido para o blog, afinal oferece mais informações que apenas listar os países por impacto e destacar um ou outro país.

Para o PIB per capita peguei os dados do Banco Mundial corrigidos por paridade de poder de compra. A medida de impacto foi mais complicada, usei o CWTS Leiden Ranking para 2019 (link aqui) e considerei uma medida que calcula a proporção de artigos publicados por professores da universidade que estão entre os dez mais citados da área no ano e o total de artigos publicados. Não tenho um motivo forte para a escolha, mas vale dizer que o professor Marcelo Hermes usa esse critério em alguns textos e é o indicador que aparece na página do ranking. Na sequência agrupei os dados por país e calculei a média, desta forma meu indicador pega a média do impacto das universidades do país que constam no ranking.

A primeira figura mostra o resultado para todas as áreas de conhecimento. O impacto da pesquisa brasileira fica abaixo da reta, ou seja, é menor que o esperado se considerarmos apenas o PIB per capita e fica abaixo da área azulada que representa o intervalo de confiança de 95% em torno do valor estimado. Embora não seja um desastre, repare que ficamos melhores que Argentina, México e Japão, o resultado corrobora a tese que o impacto da pesquisa realizada no Brasil é baixo.



Como os dados permitem reproduzir o exercício acima por área de conhecimento resolvi checar os desempenhos de cada área. A primeira foi de biomédica e ciências da saúde (Biomedical and health sciences). O desempenho do Brasil nessa área é um pouco pior que o geral, ainda assim ficamos acima do México, embora colados na Argentina e abaixo do Japão.




A segunda área avaliada foi ciências da vida e da terra (Life and earth sciences). Nessa área o desempenho da pesquisa realizada nas universidades brasileiras, embora fique abaixo do esperado, fica dentro do intervalo compatível com nosso PIB per capita.




Na área de matemática e ciência da computação (Mathematics and computer science) o desempenho do Brasil é praticamente igual ao desempenho esperado para o nosso PIB per capita. Continuamos acima de Argentina. México e Japão e encostamos no Chile e na África do Sul.




A área de física e engenharias (Physical sciences and engineering) repete o padrão encontrado nas ciências da vida e da terra com um impacto abaixo do previsto pelo PIB per capita, porém dentro do intervalo de confiança.




A última área com dados disponíveis é a de ciências sociais e humanidades (Social sciences and humanities). Mais uma vez estamos dentro do intervalo de confiança, mas ficamos abaixo do valor previsto. O impacto da pesquisa brasileira nessa área ficou acima de Argentina, México e Japão e muito próximo do Chile.




A análise por áreas mostra que em apenas uma área, biomédica e ciências da saúde, a pesquisa realizada nas universidades brasileiras ficou fora do intervalo previsto considerando apenas o PIB per capita do país. Não é um resultado para comemorar, mas está longe de um desastre. Um refinamento da análise que considere o gasto por pesquisador, a inserção das universidades locais em redes internacionais de pesquisa ou a qualidade do ensino básico no país deve ser capaz de jogar luz em pontos importantes que passaram batido nesse post. Até lá creio que devemos pensar em reformas que levem a um aumento do impacto da pesquisa realizada em nossas universidades, porem com cuidado para não jogar o bebê fora junto com a água do banho.


domingo, 7 de agosto de 2016

Taxa de Investimento e PIB per capita nos países Emergentes da Ásia e na América Latina e Caribe

Algumas vezes caio na tentação de comparar o desempenho econômico dos países da América Latina com o dos países da Ásia, esse post é uma destas vezes. Naturalmente existem muitas diferenças entre os dois grupos de países que estão além das características econômicas, isso deve ser levado em conta quando da leitura desse post, porém tais diferenças não tornam as comparações irrelevantes, longe disso. Acima de quaisquer diferenças os habitantes de todos os países são muito parecidos uns com os outros, somos todos humanos, de forma que as diferenças são explicadas muito mais por incentivos e restrições, inclusive naturais, do que por uma diferença intrínseca entre cidadãos nascidos nos diversos países. Se você não gostou desse princípio, que todos somos muito parecidos, tente pensar negando esse princípio e veja onde você pode chegar.

Hoje vou comparar taxas de investimento, nas próximas semanas farei outras comparações. A taxa de investimento é uma variável fundamental para explicar o crescimento de uma economia. Investimento significa mais máquinas e mais capacidade de produção, investimento significa novas máquinas com novas tecnologias incorporadas (na verdade, novas máquinas não são a única forma de incorporar tecnologias no processo de produção, mas são uma forma importante de fazer isso), e, para a turma da demanda, investimento significa demanda efetiva. Não importa por onde você olhe, investimento é importante para explicar crescimento e PIB per capita.

A figura abaixo mostra a relação entre taxa de investimento e PIB per capita nos países Emergentes da Ásia e da América Latina e Caribe, a classificação do FMI e usei todos os países listados pelo FMI (link aqui) que estavam na Penn World Table (PWT), excluí o Brunei, que por ter um PIB per capita muito alto estava distorcendo os gráficos, também limitei a análise ao período entre 1995 e 2014.




Repare que os países do grupo de emergentes da Ásia, pontos laranjas, são mais pobres e possuem taxas de investimento maiores que os países da América Latina, pontos verdes. Se você não viu isso repare que os pontos laranjas estão mais à esquerda (mais pobres) e mais altos (taxas de investimento maiores) do que os pontos verdes. Em particular, repare a concentração de pontos verdes abaixo da linha e a concentração de pontos laranjas abaixo da linha. A figura abaixo traça uma reta para os países emergentes da Ásia e outra para os países da América Latina, repare que a reta laranja (emergentes da Ásia) fica sempre acima da reta verde (América Latina e Caribe), o que pode ser interpretado como para o mesmo PIB per capita os países emergentes da Ásia investem mais que os países da América Latina e Caribe.




O recado é claro: PIB per capita baixo não é desculpa para a baixa taxa de investimento da América Latina, se não investimos mais é porque não queremos e não porque não podemos. A figura abaixo mostra como a relação mudou entre 1995 e 2014, note quem em 1995 apenas três países, todos da Ásia, investiam mais de 40% do PIB. O Butão investia 43% do PIB com um PIB per capita de $3.073, a Malásia investia 50% do PIB com um PIB per capita de $11.359 e a Tailândia investia 46% do PIB com um PIB per capita de $8.116, naquele mesmo 1995 o PIB per capita do Brasil era $8.462 e investíamos apenas 17% do PIB.




Por fim é útil olhar para a relação entre PIB per capita e taxa de investimento por grupos de renda, a figura acima sugere que a medida que os países emergentes da Ásia ficaram mais ricos a relação entre PIB per capita e taxa de investimento nestes países ficou mais próxima da relação observada na América Latina. A figura abaixo mostra a relação entre PIB per capita e taxa de investimento por grupo de PIB, no canto superior esquerdo estão as combinações de anos e países com PIB per capita entre $1,1 mil e $4,28 mil, no canto superior direito está o grupo entre $4,28 mil e $7,52 mil, no canto inferior esquerdo está o grupo entre $7,52 mil e $12,3 mil e no canto inferior direito está o grupo entre $12,3 mil e 35,4 mil. Repare que apenas no grupo dos países mais ricos (canto inferior esquerdo) as linhas se cruzam, em todos os outros grupos a linha laranja (emergentes da Ásia) está acima da linha verde (América Latina e Caribe). Repare também que nos países com maiores PIB per capita as linhas apresentam inclinação negativa, isso dá muito pano para manga, mas não vou tratar do assunto aqui, de fato, nem mesmo estou checando se a inclinação é significativa.




A taxa de investimento sozinha não explica o desempenho da economia de um país, além de vários outros fatores como capital humano, instituições ou produtividade é preciso levar em conta que a taxa de investimento mede o quanto está sendo investido, mas não mede no que está sendo investido. Se um determinado país sair investindo na construção de monumentos que não afetam ou afetam muito pouco a produção (alguém falou estádio da Copa?), ou em obras que não terminam nunca a taxa de investimento vai aumentar, mas não há porque esperar um aumento do PIB per capita. Porém, mesmo não explicando, a taxa de investimento maior na Ásia é um dos fatores que devem ser considerados para entender porque a média dos PIB per capita dos países emergentes da Ásia cresceu 132% entre 1995 e 2014 e mesma média para América Latina cresceu apenas 73%.


segunda-feira, 27 de junho de 2016

Porque no tiene, porque le falta... Uma comparação entre Brasil e México no período posterior a Crise de 2008

Comparações entre países são perigosas, mas como quase todas as coisas perigosas são também divertidas, se não trazem conclusões definitivas são boas para provocações e derrubar mitos. Um de nossos mitos favoritos é que a resposta do governo Lula à crise de 2008 foi brilhante e conseguiu isolar o Brasil do desastre que se abateu sobre a economia mundial. Geralmente os que defendem essa tese nos comparam com países da Europa, raramente nos comparam com os mais próximos países da América Latina. Para corrigir tamanha injustiça resolvi comparar o Brasil com o México, os dois maiores PIB da América Latina. Como de costume serão usados os dados do FMI (link aqui).




Comecemos pelo PIB per capita descrito na figura acima. Nenhum dos dois países apresentam redução de PIB per capita nos anos imediatamente seguintes à crise, porém, no final da série, a economia brasileira começa a mostrar queda enquanto a mexicana segue em frente. A figura abaixo mostra quanto seria o PIB per capita de cada país se o PIB per capita de ambos fosse igual a cem em 2009 e considerando o crescimento observado em cada um dos países. Na figura fica claro que logo após a crise o Brasil cresce mais, porém a médio prazo o crescimento do Brasil se mostra insustentável e colapsa enquanto o do México segue com taxas positivas de crescimento. Se for para tirar conclusões das figuras eu diria que o Brasil seguiu uma trajetória bem menos sustentável que a do México. Trajetórias como a seguida pelo Brasil são consistentes com políticas econômicas populistas como as que foram implementadas por aqui.




Outra variável interessante é a taxa de desemprego. Alguns autores afirmam que a política econômica aplicada no Brasil pode ter sido ruim para o crescimento, mas foi boa para garantir empregos, em geral os que pensam assim nos comparam com países como Espanha e Itália, esquecendo que nesses países as políticas de bem-estar, como seguro desemprego, tornam altas taxas de desemprego bem mais suportáveis do que por estas bandas. Quando olhamos para o México o desempenho de nossa economia no quesito desemprego fica bem mais modesto. A figura abaixo mostra que em todos os anos entre 2009 e 2015 a taxa de desemprego no Brasil foi maior que no México, pior, a significativa elevação do desemprego no Brasil em 2015 não tem contrapartida no México. Novamente seu eu tivesse de apostar diria que o México usou políticas mais consistentes que as nossas.




A comparação das taxas de inflação também não nos favorece. Como mostra a figura abaixo a inflação no México foi menor que no Brasil em todos os anos com exceção de 2009. Em 2015 a diferença é humilhante, enquanto o México teve inflação de 2,72% nós tivemos de quase 10%. Curiosamente alguns economistas daqui insistem que a inflação alta é o preço que pagamos por não termos sofrido tanto com a crise, esses mesmos economistas porque o México sofreu ainda menos e não teve de pagar com uma inflação de 10%.




Por último a dívida pública. A figura abaixo mostra que nos dois países a relação dívida/PIB aumenta, porém no México é sempre mais baixa e chega a 54% em 2015 enquanto por aqui chegou a 74%. O quadro da evolução da dívida é particularmente útil para alguns colegas que insistem em negar um problema fiscal por aqui por conta de nossa relação dívida/PIB ser baixa em comparação a observada em vários países ricos. Como já mostrei em outros posts nossa dívida é alta se comparada a de países em desenvolvimento (link aqui).




A comparação com o México mostra que se nossa política econômica foi genial por amenizar os efeitos da crise vamos ter de criar um outro adjetivo para descrever a política econômica do México. Em todas as dimensões avaliadas no post (PIB per capita, desemprego, inflação e dívida/PIB) o México teve um desemprenho melhor que o Brasil nos anos posteriores à crise. Sim, quase esqueço, segundo vários economistas que consideram nossa resposta à crise genial o México estava condenado a sofrer mais que a maioria dos países por ter atrelado sua economia à dos EUA... melhor nem falar mais nada.



sexta-feira, 25 de março de 2016

Crescimento no Brasil, Na América Latina e no Mundo nos Governos Lula, FHC e Dilma

Segundo os dados do FMI (link aqui) em 2002, um ano antes do PT chegar ao governo federal, o PIB brasileiro correspondia a 3,2% do PIB mundial, hoje, segundo estimativas do FMI, corresponde a 2,84%, menos do que em 2002 e menos do que os 3,17% de 2010, último ano de Lula. No período FHC a participação do Brasil no PIB mundial caiu de 3,47% em 1994, ano anterior a posse de FHC, para 3,2% em 2002. Tais números mostram que crescemos menos que o mundo nos anos FHC, ficamos mais ou menos estáveis nos anos de Lula e caímos muito com Dilma, de fato, nos cinco anos de governo Dilma perdemos mais proporção do PIB mundial do que nos dezesseis anos de FHC e Lula. A figura abaixo mostra a participação do Brasil no PIB mundial, a série observada são os dados do FMI e a série simulada consiste nos dados até 2002 nos anos seguintes foi aplicada a taxa de decrescimento médio do período 1995 a 2002.




É relevante que o abandono da agenda de reformas e a volta de políticas desenvolvimentistas onde o governo tentava induzir e coordenar o crescimento tenha levado a um aumento da participação do Brasil no PIB mundial. De fato, políticas desenvolvimentistas conseguem gerar uma onda de crescimento, porém, a onda gerada pelo desenvolvimentismo petista foi muito curta, quase uma “marolinha”, durou de 2006 a 2011 e depois nos jogou em queda livre. Hoje estamos caindo mais rápido do que antes e nem mesmo temos o consolo da melhora em indicadores de bem-estar ou da inflação controlada. De fato, praticamente todo o ganho do crescimento entre 2006 e 2011 já foi perdido e, a valer as projeções para os próximos anos, em breve a linha observada ficará abaixo da simulada.

Os números acima devem ser lidos com cuidado, vários fatores que não estão relacionados a nosso governo podem afetar nossa participação no PIB mundial. Um exemplo é a ascensão da China, nenhum governo conseguiria colocar o Brasil para crescer no mesmo ritmo da China. Sendo assim é conveniente comparar um país com países semelhantes por algum critério, como já expliquei em outros posts aqui no blog meu grupo favorito de comparação é a América Latina. Temos PIB per capita semelhantes, temos tradições culturais semelhantes e, ao contrário do que diz a lenda, o Brasil não é muito mais industrializado que os outros países do continente, pelo contrário (link aqui). Comparações com países ricos não são adequadas porque tais países possuem uma dinâmica de crescimento muito diferente da nossa, tanto no sentido do que é necessário para crescer quanto nas escolhas entre crescimento e outros objetivos. Por motivos semelhantes não gosto de comparar o Brasil com todos os países em desenvolvimento porque na lista existem países com dinâmicas muito diferentes da nossa, destaque para os milagres de crescimento da Ásia.

Comparando com a América Latina estamos mais pobres hoje do que estaríamos se tivéssemos seguido como nos anos FHC. Para fazer essa afirmação calculei nosso crescimento em proporção a América Latina e Caribe entre 1995 e 2002 e apliquei a proporção nas taxas de crescimento observadas na América Latina e Caribe entre 2003 e 2015 para criar uma nova série de crescimento para o Brasil. Para ser mais preciso: entre 1995 e 2002 nosso crescimento foi aproximadamente 10% maior que a média da América Latina e Caribe, calculei quanto teria sido crescimento entre 2003 e 2015 se tivéssemos continuado crescendo 10% mais do que a média da América Latina e Caribe. A metodologia subestima o que teria sido nosso crescimento sem a crise atual, isso ocorre porque o Brasil está puxando para baixo a média da América Latina e Caribe e eu não tive ânimo de construir uma série excluindo o Brasil. Mesmo assim achei os números interessantes e resolvi compartilhar com vocês.




De acordo com o FMI em 2015 nosso PIB per capita foi de $15.690,00 em dólares internacionais (corrigido por paridade do poder de compra), segundo minha estimativa no universo alternativo onde tivéssemos continuado crescendo em proporção a América Latina e Caribe da forma como crescemos durante o período FHC nosso PIB per capita seria de $17.126,87, ou seja, em média ganhamos 8% menos do que estaríamos ganhando mantida a tendência do período FHC ajustado pela América Latina e Caribe. A Figura abaixo mostra o PIB per capita observado e o simulado.

Observe que o PIB per capita simulado está sempre acima do observado o que significa que ajustando pelo que ocorreu na América Latina e Caribe a economia brasileira teve um pior desempenho nos governos Lula e Dilma do que no governo FHC (o mesmo resultado foi discutido aqui). Se o exercício apresentado fizer algum sentido, ou seja, se a América Latina e Caribe formarem um grupo de comparação adequado para o Brasil então podemos dizer que o Brasil não soube aproveitar as oportunidades que apareceram com o boom das commodities nem mesmo no período Lula.