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quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Brasil e Chile: o que dizem os números?


Por conta das manifestações no Chile começou a correr por aqui uma tese de falência do modelo chileno, sobrou até para Paulo Guedes por ter dito que o Chile é uma boa referência para o Brasil. Basta uma rápida lida no noticiário para lermos sobre como o neoliberalismo destruiu o Chile e coisas do tipo. Quem acompanha o crescimento econômico dos países da América Latina estranhou as crônicas sobre o fracasso do Chile e do neoliberalismo na América Latina, afinal se há algo que todo mundo que conhece um pouco do assunto sabe é que o Chile teve um desempenho econômico muito superior ao Brasil nas últimas décadas. De fato, o Chile ultrapassou e abriu larga vantagem sobre o Brasil em termos de renda por pessoa. Como o Chile não seria um bom exemplo?

A figura abaixo mostra o desempenho do PIB per capita corrigido por poder de compra no Brasil e no Chile desde 1990 (primeiro ano da série disponível na base de anos do Banco Mundial). A superioridade do desempenho econômico do Chile é evidente. Se o leitor está preocupado com a data ou com a fonte informo que segundo o FMI em 1980 o PIB per capita do Brasil era de $11.372,210 e o do Chile era de $7.986,483, enquanto em 2018 o PIB per capita do Brasil foi de $14.359,539 e o do Chile foi de $23.092,070.




Se há algo pouco discutido em teoria do crescimento econômico é que indicadores sociais costumam estar positivamente correlacionados com PIB per capita, por isso essa última variável costuma ser citada em comentários rápidos ou mesmo em artigos científicos comparando o desempenho econômicos de dois ou mais países. Por algum motivo que desconheço essa sabedoria convencional foi abandonada no caso do Brasil e do Chile e começou a circular uma tese que apesar do PIB per capita maior que o nosso os chilenos tinham uma vida pior que a nossa. Para checar essa tese resolvi dar uma olhada em vários indicadores disponíveis na base de dados do Banco Mundial.

Seguindo a recomendação do Angus Deaton, prêmio Nobel de Economia em 2015, comecei olhando a expectativa de vida. A expectativa de vida dos chilenos é maior que a nossa, ou seja, além de mais ricos eles vivem mais. Justiça seja feita a expectativa de vida deles era maior que a nossa desde quando eles eram mais pobres do que nós, logo fica difícil relacionar esse fato com o desempenho econômico do país nas últimas décadas. Alguém podia tentar comparar a variação na expetativa de vida, mas dado que parece existir um limite superior para essa variável, comparar variações pode ser complicado.




Resolvi olhar então para políticas sociais, especificamente os gastos com saúde e educação em cada país. A figura abaixo mostra que os gastos com saúde como proporção do PIB são maiores no Brasil do que no Chile, porém os gastos do governo com saúde são maiores no Chile do que no Brasil. Esses dados não confirmam a tese que a social democracia brasileira construiu um governo mais preocupado com a saúde do povo do que o neoliberalismo chileno.




Em termos de percentual do PIB per capita o governo brasileiro gasta mais com educação do que o governo chileno, alguém poderia concluir que essa é uma das causas das revoltas. Ocorre que o Chile tem um PIB per capita mais alto que o Brasil, como o gasto com educação, principalmente nos níveis primários e secundários, não cresce na mesma proporção da renda esse resultado não chega a ser surpreendente.




Se tomado o gasto absoluto o gasto do governo chileno por estudante é maior que o do governo brasileiro na educação primária e secundária. Na educação terciária, onde estão as universidades, o gasto do governo brasileiro é maior que o do governo chileno. Como as pessoas que chegam ao nível terciário costumam ter mais renda que as pessoas que param nos níveis primário ou secundário o dado sugere que a social democracia brasileira se preocupa menos com os mais pobres que o neoliberalismo chileno.




Uma comparação do Chile com o Brasil mostra que o Chile é menos desigual que o Brasil. Ambos apresentam altos índices de desigualdade e em ambos a desigualdade, medida pelo índice de Gini, está caindo nas últimas décadas. Se alguém culpa o neoliberalismo chileno pela desigualdade no país, mais culpa ainda deve creditar a social democracia brasileira pela desigualdade do Brasil. Vale registrar que alta desigualdade é quase que uma característica da América Latina.




A participação dos 10% na renda é maior no Chile neoliberal do que no Brasil social democrata. Nos dois países essa participação apresenta tendência de alta, porém no Brasil houve uma queda em 2017. Os pontos destacados na figura são os anos usados para construir a figura por conta de dados disponíveis para os dois países.




A fração da renda apropriada pelos 10% mais ricos mostra tendência de queda nos dois países, porém é menor no Chile do que no Brasil. Assim como nos 10% mais pobres, ocorre uma reversão no último ano na queda da fração de renda dos 10% mais ricos no Brasil. É possível que as duas reversões estejam relacionadas à grande crise iniciada em 2014, mas isso é assunto para outro post.




O acesso a internet pode ser um indicador interessante para entender a qualidade de vida nos dois países. Em ambos o percentual da população com acesso a internet apresenta tendência crescente. Em meados da década a tendência do Chile parece ter ficado mais forte, porém no último ano há uma pequena reversão.




Até agora os dados mostram que os chilenos são mais ricos, vivem mais, recebem mais do governo em saúde como proporção do PIB, recebem mais do governo em educação primária e secundária, moram em um pais menos desigual onde os 10% mais pobres apropriam uma fração maior da renda e os 10% mais ricos apropriam uma fração da renda menor do que o observado no Brasil. Deixei por último as comparações relativas a estrutura setorial da economia.




O Chile tem uma dependência de recursos naturais bem maior que o Brasil. Sabedoria comum no Brasil de meados do século passado e que nem tão supreendentemente tem força até hoje diria que isso faria do Chile um país mais pobre, mais desigual e mais sujeito a choques externos que o Brasil. Os dois primeiros vimos que não é verdade, o terceiro deixo para outra ocasião. Trouxe o assunto por desconfiar que alguns que proclamam a falência do neoliberalismo no Chile estão tirando conclusões a partir da sabedoria convencional de meados do século passado e sem olhar os dados.




Deixei por último a manufatura. Há quem diga que o neoliberalismo destrói a indústria do país. É fato que a participação da manufatura no PIB do Chile vem caindo desde a década de 1980, um fenômeno que não é exclusivo do Chile nem da América Latina. Ocorre que a queda da participação da manufatura do PIB no Brasil entre 1980 e 2018 foi muito maior que no Chile. Em 1980 a manufatura correspondia a 30,3% do PIB no Brasil e a 21,4% do PIB no Chile, em 2018 esses números eram 9,7% no Brasil e 10,6% no Chile. Se considerarmos o começo do século a queda no Chile foi maior que aqui, mas isso parece estar mais relacionado ao aumento de preços das commodities, recursos naturais são mais relevantes lá do que aqui, do que a herança neoliberal de Pinochet.

Nesse post mostrei vários indicadores mostrando que o Chile é mais rico e menos desigual que o Brasil. Mostrei indicadores dando conta que o governo do Chile gasta mais em proporção ao PIB com saúde que o governo brasileiro e que o governo do Chile tem mais foco em educação primária e secundária que o brasileiro. Por fim mostrei que apesar de ter maior dependência de recursos naturais o Chile tem uma manufatura como proporção do PIB quase igual à do Brasil, um pouco maior em 2018. Deixo para o leitor decidir se Paulo Guedes está certo ou errado em buscar inspiração no Chile para reformar a economia brasileira.



domingo, 15 de setembro de 2013

A História de duas Cidades

Brasil e Chile são países com muitas diferenças e algumas semelhanças. Entre as semelhanças está o fato que os dois passaram por ditaduras militares durante as décadas de 1970 e 1980, no Brasil a ditadura começou em 1964 enquanto no Chile começou em 1973. Outra semelhança é que ambos estão localizados na América Latina, região do mundo onde mais se questiona o conhecimento econômico convencional e também, por pura coincidência, a única região do planeta onde a cultura ocidental não trouxe riqueza, mesmo com décadas de paz. Entre as diferenças está o fato que ao contrário da ditadura do Brasil e das outras ditaduras que assombraram o continente a ditadura chilena não apostou na economia mágica de inspiração cepalina. Neste ponto o Chile se diferencia de praticamente toda a América Latina.

No post anterior mostrei o que chamo de Desastre da América Latina no pós-Guerra. Desta vez vou falar um pouco sobre o Chile, o único país que não embarcou de cabeça na agenda cepalina e a grande exceção ao desastre econômico que se abalou sobre o Continente. Especificamente vou comparar o desempenho econômico entre Brasil e Chile, no futuro falarei mais sobre o Chile e a América Latina. Se alguém se interessar pelo assunto recomendo que leiam o livro Left Behind: Latin America and the False Promise of Populism, escrito pelo professor Sebastian Edward. A figura abaixo mostra o PIB per-capita do Brasil e do Chile entre 1951 e 2010.




Notem que no começo do período o Chile era mais rico do que o Brasil, esta situação continuou até 1972 (o golpe do Chile foi em 1973) quando o Brasil ultrapassou o Chile, porém em 1992 o Chile ultrapassou novamente o Brasil e abriu uma grande dianteira. O que aconteceu? Aconteceu que enquanto o Brasil apostou na estratégia desenvolvimentista de transferir dinheiro para empresários e esperar que estes empresários nos levem ao mundo prometido da riqueza o Chile apostou na sabedoria econômica convencional: mercado tão livre quanto possível, regras simples e estáveis e investimento em educação. Enquanto nossos militares fizeram os PNDs inspirados na CEPAL (que ironicamente é sediada no Chile) os generais chilenos buscaram conselhos com economistas de Chicago, escola símbolo do livre mercado.

Antes de seguir adiante devo esclarecer duas coisas. A primeira é que o fato de um ditador escolher boas políticas econômicas não justifica em nenhuma hipótese a ditadura, FHC em seus dois mandatos e Lula em seu primeiro mandato provaram que é possível fazer reforma em uma democracia. A segunda é que assim como o Brasil não seguiu ao pé da letra as políticas cepalinas o Chile não seguiu ao pé da letra as políticas de Chicago, de fato podemos pinçar exemplos de políticas liberais no Brasil da época dos PNDs e encontrar exemplos de políticas intervencionistas no Chile dos Chicago-boys. Isto é normal, apenas sociopatas imaginam que podem impor a um país um conjunto de políticas totalmente compatível com alguma doutrina. O exercício de pinçar políticas é interessante e pode ser instrutivo, mas neste post estou mais preocupado com as linhas gerais de políticas seguidas no Brasil e no Chile do que em detalhes de políticas específicas.

O ponto que merece destaque é que a ditadura chilena optou por romper com o desenvolvimentismo e adotar medidas pró-mercado, o que o Brasil só fez nos anos 1990, enquanto a ditadura brasileira aprofundou o modelo desenvolvimentista com os três PNDs. A figura abaixo ilustra os efeitos das políticas chilenas e brasileiras no curto e no longo prazo.




A figura mostra um índice de PIB per-capita nos anos seguintes aos golpes. A série do Brasil começa em 1964 e termina em 2001, a série do Chile começa em 1973 e termina em 2010. No total são descritos os 37 seguintes ao golpe, os dados são da PWT 7.1, os períodos são delimitados pelo fato que 2010 é o último ano disponível na base, o Brasil termina em 2001 porque queria manter o mesmo número de períodos para os dois países. Desta forma o eixo horizontal representa o número de anos após o golpe. Note que logo após o golpe brasileiro a economia cresce de forma quase ininterrupta por 17 anos, após este período a economia entra em crise e depois fica estagnada de maneira que em 2001 o índice ainda era menor do que em 1980. No Chile ocorre o contrário, após o golpe ocorre uma recessão e depois um crescimento medíocre. Porém, pouco mais de 10 anos após o golpe a economia do Chile entra em uma trajetória de crescimento que dura até hoje. A lição é velha e conhecida: para colher no futuro é preciso plantar no presente. Reformas exigem sacrifícios, mas, se bem executadas, trazem ganhos significativos no futuro.

Agora olhem novamente a primeira figura. Notem que o Brasil retoma o crescimento no começo da década de 1990 e que este crescimento começa a tomar força em 2003. A década de 1990 no Brasil corresponde ao período entre 1973 e 1983 no Chile. Neste tempo foram feitas reformas importantes que tiraram o Brasil de uma década de estagnação e nos colocaram no caminho do crescimento. Não um crescimento concentrador de renda como o da década de 1970, um crescimento acompanhado de distribuição de renda e de ganhos de produtividade, modestos, mas ainda assim ganhos. Ao abandonar a agenda de reformas e optar pela volta do desenvolvimentismo a presidente Dilma está tirando o Brasil da trajetória chilena e nos condenando a repetir o passado. É um erro grave.

P.S.1. Este post atende a uma demanda de um dos raros leitores que me encaminharam demandas específicas. Espero que tenha atendido, no futuro voltarei ao tema com mais tempo.

P.S.2. O excelente blog Não Pise em Mim também está com um post sobre economia do Chile, recomendo a leitura.