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domingo, 17 de julho de 2022

Turma do "meião": queda e recuperação do PIB no Brasil em comparação com outros países.

Talvez por conta das revisões para cima nas previsões de crescimento para o Brasil em 2022, tenho reparado uma certa euforia com a recuperação da economia. Curioso com tanta animação resolvi dar uma olhada nos dados de crescimento de outros países entre o primeiro trimestre de 2019, um ano antes da pandemia, e o primeiro trimestre de 2022, o último com dados disponíveis.

Obtive as informações que precisava na base de dados da OCDE. O primeiro exercício foi pegar as taxas de crescimento para todos os países com dados disponíveis para todos os trimestres do período de interesse, fiquei com 47 países. A figura abaixo mostra o resultado, repare que o Brasil (em azul) está bem próximo da mediana (em laranja) na maioria dos períodos. Ficar próximo da mediana significa que cerca de metade dos países teve taxa de crescimento maior do que a nossa, logo na maioria dos períodos ficamos no “meião”. Não é um desastre, mas também não é motivo de festa, salvo se o Brasil quer ser personagem daquele meme do pódio.

 


Comparações com vários países são interessantes, mas não estão livres de riscos. Existem vários fatores que podem comprometer a comparação. Por exemplo, países ricos podem ter uma tendência de crescer mais do que países pobres, nesse caso um país emergente crescer a taxas semelhantes à dos países ricos pode ser um mal sinal para o país emergente. Para reduzir esses riscos, refiz o exercício comparando o Brasil com os países do BRICS e da América Latina que estavam na amostra. O resultado está na figura abaixo. Na maioria dos períodos ficamos na turma do “meião”, destaque para o segundo trimestre de 2020, o pior de todos, quando é visível que nossa queda foi bem menor do que a queda mediana, ou seja, ficamos bem na foto.

 


As taxas período a período podem não passar uma boa ideia do que aconteceu no acumulado de todo período, não é fácil perceber em um gráfico quando as taxas maiores compensaram, ou não, as taxas menores. O segundo exercício do post apresenta a taxa média de crescimento durante o período, isso resolve o problema porque essa taxa leva em conta o crescimento acumulado no período. A mediana foi um crescimento de 0,36% por trimestre, na Brasil tivemos 0,23%, ou seja, no acumulado ficamos na metade com pior desempenho. A média foi 0,47%, mas não é um bom indicador especialmente por conta do crescimento muito alto da Irlanda.

 


Para terminar o exercício acima foi refeito apenas para os países do BRICS e América Latina disponíveis na amostra. Apenas México e África do Sul tiveram um desempenho pior do que o nosso no acumulado entre o primeiro trimestre de 2019 e o primeiro trimestre de 2022. A mediana do grupo ficou em 0,58% e a média em 0,49%.

 


Os dois exercícios apontam na mesma direção: o Brasil não apresenta um crescimento maior do que o da maioria dos países, o quadro fica pior quando comparado aos países do BRICS e América Latina. O principal motivo para as revisões para cima nas previsões de crescimento, creio eu, é que a turma superestimou o efeito da elevação dos juros na atividade econômica. Se foi isso mesmo, o erro é da mesma natureza que levou a turma a não ver a inflação chegando, qual seja, usar modelos de demanda para explicar/prever uma crise associada principalmente à oferta.

terça-feira, 15 de junho de 2021

Não comemos PIB, mas...

Vez por outra a frase “não comemos PIB” aparece nas redes e nos jornais, lembro que apareceu quando o PIB começou a cair no governo Dilma e agora no governo Bolsonaro quando o PIB subiu acima do esperado. Curiosamente a frase não lembro da frase ter ganho destaque quando o PIB crescia bem no governo Lula, deve ser porque sou esquecido. De toda forma a frase é interessante e merece atenção. Realmente não comemos PIB, também não vestimos PIB, não moramos no PIB e não sairmos para dançar no PIB. PIB é uma construção teoria usada por economistas para tentar mensurar o quanto é produzido em uma região. 

No PIB estão computadores, relógios, trigo, cortes de cabelos, massas e maças. Quem é tanta coisa acaba por não ser nada, pode dizer algum observador, mas, creio eu, esse observador estaria sendo injusto. Como outras medidas do tipo o PIB simultaneamente carece e abunda de significados. A frase “não comemos PIB” é correta e bastante útil para apontar que existem coisa que o PIB não capta bem, porém a frase se torna enganosa quando usada para tirar relevância de uma queda ou de um aumento do PIB.

Logo no primeiro capítulo do livro Introduction to Modern Economic Growth (link aqui), Daron Acemoglu, economista merecidamente festejado pelo livro Por que as nações fracassam? (link aqui), trata de relação entre PIB per capita, que nada mais é do que o PIB dividido pela população, e os níveis de bem-estar de um país. Para ilustrar o ponto ele apresenta dois gráficos que vou reproduzir aqui, o primeiro mostra a correlação (que não é causalidade!) entre o logaritmo do PIB per capita e o logaritmo do consumo per capita. Fica clara a relação positiva entre as duas variáveis, ou seja, não comemos PIB, mas onde o PIB por pessoa é maior o consumo por pessoa também é maior.


 O segundo gráfico mostra a correlação entre PIB per capita e expectativa de vida ao nascer. PIB não comida nem remédio, mas onde o POB per capita é maior as pessoas tendem a viver mais. Isso óbvio, alguém pode dizer, correto, responderia eu, mas também deveria ser óbvio que crescimento do PIB é uma boa notícia e queda do PIB é uma notícia ruim.

 

Como sou chato, não sou tão cuidadoso quanto o Acemoglu e isso é um blog onde tento conversar com leitores e não um livro tomei a liberdade de mostrar outras correlações entre o PIB per capita e variáveis que alguém pode considerar relevantes. A figura abaixo mostra a correlação entre PIB per capita e o percentual da população com acesso a saneamento básico. Além de consumir mais e viver mais, quem vive em locais com PIB per capita maior tem menos problemas de acesso a água tratada. Por causa do PIB? Não dá para dizer isso, lembre que correlação não é causalidade, mas se é difícil, talvez impossível, estabelecer empiricamente uma relação de causalidade, não é tão difícil teorizar sobre tal relação, mas deixo isso para outra ocasião.

 

Consumir mais é bom, viver mais é bom, ter acesso a esgoto e água tratada é bom... mas o que vale tudo isso sem tomar uma? Pensando nisso fui olhar a correlação entre PIB per capita e consumo de álcool. Deu positiva, sim meu caro, se nada que falei até aqui te convenceu da importância do PIB talvez saber que onde o PIB per capita é maior se bebe mais mude sua opinião.

 

Belchior, meu conterrâneo, cantou que nada é maravilhoso, temo que ele esteja certo, mas definitivamente não é em conceitos econômicos que vamos encontrar algo para contradizer o poeta cearense. O PIB também está correlacionado com coisa indesejáveis, como, por exemplo, a poluição. Países com maior PIB per capita emitem mais CO2. Muita gente acredita que isso é motivo para não comemorar aumento de PIB, nem tanta gente parece disposta a migrar para países que emitem pouco CO2. Não sou especialista no assunto, mas creio que sacrificar PIB para preservar meio ambiente é uma estratégia complicada e limitada, resta apostar que a chegada de novas tecnologias, em parte estimuladas pelo aumento de custos do uso de tecnologias poluentes que é induzido por políticas ambientais, resolvam o problema e permitam a redução da correlação entre PIB e emissão per capita de CO2.

 

A última figura retorna à frase que motivou o post (já dizia meu saudoso pai que a maior prova que o mundo é redondo é que andamos muito e retornamos ao mesmo lugar). Não comemos PIB, fato, mas onde o PIB per capita é maior o percentual da população subnutrida é menor.

 

Paro aqui, as provocações do post não têm como objetivo contestar a frase que não comemos PIB, que é obviamente verdadeira, mas contextualizar a importância do crescimento do PIB e como uma maior PIB per capita está correlacionado com algumas características desejáveis de uma sociedade. Nunca é demais lembrar que, como também está registrado no livro de crescimento do Acemoglu, o processo de aumento do PIB per capita, embora geralmente bom para o bem-estar, cria perdedores e ganhadores, daí, talvez as resistências.

 

P.S. Se você é aluno de graduação da UnB o post também é uma propaganda do curso de crescimento que vou oferecer no próximo semestre (começa em julho, mas é o 2021/1). Os gráficos estarão lá e, nas aulas, “práticas” você vai aprender a fazer gráficos do tipo.

 

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Crescimento no Brasil e no Mundo em 2020 de acordo com os números do FMI

Com a divulgação dos dados do FMI referentes a 2020 é possível avaliar o tamanho do estrago que a pandemia causou no crescimento econômico pelo mundo. Considerando os países com mais de dez milhões de habitantes em 2020 e excluindo a Venezuela por motivos óbvios a média das taxas de crescimento em 2019 foi de 2,98%, em 2020 essa mesma média foi de -3,29%. Em 2019 a maior taxa de crescimento entre os países da amostra foi de 9,4% na Ruanda, o pior desempenho foi do Zimbabwe com queda de 7,4%. Em 2020 o melhor desempenho foi na Etiópia, que cresceu 6,1%, e o pior foi no Peru onde o PIB teve queda de 11,1%. A mediana das taxas de crescimento caiu de 2,3% em 2019 para -3,6% em 2020. A figura abaixo mostra a distribuição do crescimento em 2019 e 2020, o deslocamento para esquerda da parte em vermelho mostra queda geral do crescimento em 2020.


Dos oitenta e oito países da amostra em apenas dezenove foi observado crescimento do PIB em 2020. Dos países que cresceram dez estão na África subsaariana, quatro são países emergentes da Ásia, dois do Oriente Médio, um pertence ao grupo dos países avançados, um é parte da Comunidade de Países Independentes e um é emergente da Europa. Nenhum país da América Latina e Caribe cresceu em 2020. Mesmo considerando apenas os países que cresceram a média das taxas de crescimento, 2,4%, foi menor que a média de crescimento de todos os países da amostra em 2019. A figura abaixo mostra a variação do PIB em cada um dos países onde houve crescimento.

 

No Brasil o PIB teve queda de 4,1% em 2020, o resultado foi melhor do que o previsto pelo FMI em meados do ano passado. Em termos relativos o Brasil melhorou de posição no ranking dos países da amostra. No ano de 2019 cerca de 78% dos países tiveram melhor desempenho do que o Brasil, essa proporção caiu para cerca de 57% em 2020. A figura abaixo mostra a variação do PIB em todos os países da amostra com alguns destaques. O eixo horizontal mostra a variação do PIB e no eixo vertical é possível ver a proporção dos países com variação do PIB menor do que a do país em destaque. Desta forma a figura mostra que cerca de 91% dos países cresceram menos do que a China e cerca de 48% e cerca de 52% cresceram menos do que os Estados Unidos.

 

Considerando apenas os países da América Latina e caribe o Brasil teve o terceiro melhor desempenho. A menor queda ocorreu na Guatemala seguida pelo Haiti, Brasil, Chile e República Dominicana. O pior resultado foi no Peru com queda de 11,1% no PIB. Se o leitor está desconfortável com a retirada da Venezuela da amostra este é um bom momento para informar que o PIB venezuelano caiu 35% em 2019 e 30% em 2020. A figura abaixo mostra a variação do PIB nos países da América Latina e Caribe que estão na amostra.

 

Dos grupos de países considerados pelo FMI a América Latina foi o que teve o pior desempenho em termos de média das taxas de crescimento do PIB. Em 2019 o pior desempenho ocorreu no Oriente Médio. A pandemia pegou em cheio nuestra America em um momento em que as coisas já não estavam bem.

 

Entre os países do BRICS apenas na China o PIB cresceu em 2020. O Brasil ficou no meio com desempenho pior do que China e Rússia e melhor do que Índia e África do Sul.

 

Os números mostram que a pandemia teve um forte impacto no crescimento dos diversos países. O resultado contrasta com os números observados durante a Gripe Espanhola onde a média das taxas de crescimento foi positiva nos três anos da pandemia (ver aqui). O Brasil ficou na parte de baixo da amostra em termos de variação do PIB, mas estamos perto do meio. Em termos relativos foi uma melhora, em 2019 estávamos na parte baixo mais para o fim do que para o meio. Uma melhora relativa no meio de uma queda tão forte não deve servir de alento para um país que está em mais uma década perdida, mas sugere que podia ter sido pior.

 

domingo, 16 de agosto de 2020

Crescimento no Brasil e na América Latina e Caribe entre 2011 e 2019

O crescimento do Brasil nos últimos anos tem decepcionado muita gente o que anima a turma que pede estímulos para turbinar o desempenho do PIB. Não sei se o pessoal já esqueceu o que aconteceu da última vez que resolvemos turbinar a economia com aplausos entusiasmados de muitos que hoje pedem por ações do governo para acelerar o crescimento, mas a pressão está de volta. Mesmo dentro do governo ganha força a tese que um novo PAC, naturalmente com outro nome, é o remédio para o Brasil pós-pandemia. Chato que sou acredito que antes de tentar um novo PAC poderiam pelo menos tentar explicar o que deu errado com os anteriores, felizmente parece que não sou o único a pensar assim como o leitor pode confirmar na série de artigos que Marcos Mendes escreveu para Folha a respeito do investimento público.

Nesse post comparo o crescimento do Brasil com o da América Latina e Caribe. Os dados são do Banco Mundial. Na figura abaixo é possível observar que o Brasil cresceu um pouco menos que a América Latina e Caribe em 2011, 3,97% contra 4,37%, a diferença aumenta em 2012, 1,92% contra 2,78%, em 2013 o Brasil cresceu mais do que a América Latina, 3% contra 2,78%. A partir de 2014 começa uma queda que é mais intensa no Brasil que cresceu 0,5% contra 0,99% da América Latina e Caribe, a diferença em termos absolutos não é tão grande, mas em termos proporcionais o crescimento do Brasil foi quase metade do crescimento da América Latina e Caribe. Em 2015 e 2016 continua a queda e o Brasil mostra uma queda bem maior do que a América Latina e Caribe, no primeiro ano o Brasil encolheu 3,55% e a América Latina cresceu 0,9% enquanto em 2016 o Brasil encolheu 3,28% e a América Latina e Caribe encolheu 0,34%. A partir de 2017 o crescimento volta, mais na América Latina e Caribe do que no Brasil, em 2017 o Brasil cresceu 1,32% contra 1,77% da América Latina e Caribe e em 2018 foi 1,32% contra 1,57%. Em 2019, pela primeira vez desde 2013 o Brasil cresceu mais que a América Latina e Caribe.

 

A figura cima tem um problema sério. Como o Brasil faz parte da América Latina e Caribe e possui o maior PIB da região quedas (e crescimento) no PIB brasileiro afetam de forma significativa a variação no PIB da região como todo. Resolver esse problema tem seus truques, a primeira ideia é somar o PIB de todos os países da região, excluir o do Brasil e calcular a taxa de crescimento. A ideia é boa, mas tem suas dificuldades. Para somar o PIB dos países é preciso converter para uma unidade comum, o Banco Mundial usa dólares de 2010 e eu fiz o mesmo. O outro problema, mais complicado, é que nem todos os países possuem dados para todos os anos. Desta forma a soma dos PIBs pode variar por conta de dados ausentes para um determinado país, o problema é particularmente relevante por conta da saída da Venezuela a partir de 2015. Considerei apenas os países com dados em toda a amostra, com o Brasil na amostra o resultado ficou bem parecido, mas não idêntico, ao dado do Banco Mundial.

A figura abaixo mostra os dados do Banco Mundial e o obtido com a soma dos PIBs. A maior diferença ocorre em 2014, de 2017 a 2019 os números ficam praticamente iguais. A comparação reforçou minha impressão de que a diferença é por conta de um tratamento mais elaborado que o Banco Mundial deve dar aos países com dados ausentes.

 

A próxima figura repete a primeira figura só que o crescimento da América Latina foi calculado com a soma dos PIBs excluindo o Brasil. Na figura fica claro o descolamento do Brasil do resto da região entre 2014 e 2016, isso sugere que a crise foi causada principalmente por fatores internos à economia brasileira. Minha esse é que foi uma combinação de crise fiscal e piora da produtividade por conta da má alocação de capital causada por investimentos ruins que só foram realizados por contas das políticas de estímulos. Em 2017 e 2018 o Brasil vota a se aproximar do resto região em um padrão semelhante ao de 2011 e 2012. Em 2019 o Brasil cresceu mais do que o restante da América Latina e Caribe. Esse é um fato que deve ser levado em conta antes de rentar uma nova aventura de estímulos.

 

O último exercício compara o crescimento do Brasil com o do PIB somados dos países da América Latina e Caribe com mais de dez milhões de habitantes em 2011 excluído o Brasil. O padrão é o mesmo da figura anterior. No triênio 2014, 2015 e 2016 o Brasil vai bem pior que o resto da turma, a partir de 2017 o Brasil volta a se aproximar e em 2019 crescemos mais que a soma dos outros países da amostra.

 

Os dados mostram que o crescimento do Brasil voltou a acompanhar o do restante do continente, esse resultado sugere que o “baixo” crescimento pode não ser consequência de fatores internos, como, por exemplo, o teto de gastos. Alguém pode argumentar que uma política de estímulos bem construída pode descolar o Brasil do resto da América Latina e Caribe, em tese pode ser o caso, mas a experiência nos mostra que essas política não entregam o que prometem e ainda podem nos jogar em grandes crises. Talvez um grande admirador de Bolsonaro possa pensar que o capitão fará com que desta vez seja diferente, não é meu caso, pessoas importam, mas para que isso aconteça é preciso que pessoas consigam identificar e corrigir os problemas que levaram aos fracassos anteriores. Só na base da boa vontade, se é que essa existe, não vai dar.

 

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Crescimento econômico nas duas primeiras décadas do Século XXI


Quais os países que mais cresceram no século XXI? Quais os que menos cresceram? Nesse post uso dados do Banco Mundial no período de 2001 a 2019 para responder essas perguntas. Como o objetivo é crescimento, e não comparação entre renda, calculei a taxa de crescimento do PIB per capita em valores constantes da moeda de cada país, desta forma elimino problemas com câmbio e com medidas de paridade de poder de compra. Na média dos países em 2019 o PIB per capita era 65,5% maior do que em 2001, mas essa média esconde variações importantes entre os países. Na China, país com maior crescimento, o PIB per capita em 2019 foi 334% maior que o PIB per capita em 2001, no Zimbabwe, país com pior desempenho, o PIB per capita em 2019 era quase 20% menor do que em 2001. Milagres e desastres continuam existindo no século XXI.

Considerei apenas países com mais de cinco milhões de habitantes e com dados disponíveis para 2001 e 2019, a amostra ficou com 101 países. Para facilitar a apresentação dos resultados dividi os países em quatro grupos de acordo com o crescimento do período. O primeiro grupo reúne os 25 países com maior crescimento, na média o crescimento do PIB per capita desses países entre 2001 e 2019 foi de 148,8%. Nesse grupo estão um país avançado, cinco países da Comunidade de Países Independentes, dez países emergentes da Ásia, quatro países emergentes da Europa, dois países da América Latina e Caribe e três países da África subsaariana. A figura abaixo mostra esses países.




Como pode ser visto na figura, dos campeões de crescimento no século XXI nada menos que 20 países apresentaram crescimento de mais de 100% do PIB per capita entre 2001 e 2019, ou seja, os habitantes desses países, em média, dobraram suas rendas no século XXI. Desses países três cresceram mais de 200% e dois cresceram mais de 300%.

O grupo seguinte é formado por 25 países com crescimento entre 53% e 92% entre 2001 e 2019. Nesse grupo de países com crescimento médio-alto a média de crescimento foi de 68,4%. O maior crescimento ocorreu na Sérvia, 91,5%, e o menor no Paraguai, 52,9%, oito países desse grupo cresceram mais que 75% no período. No grupo estão três países avançados, dois da Comunidade de Países Independentes, quatro países emergentes da Ásia, dois países emergentes da Europa, quatro países da América Latina e Caribe, dois países do Oriente Médio e oito países da África subsaariana. A figura abaixo mostra esses países.




Na sequência aparece o grupo formado por 25 países onde o PIB per capita cresceu entre 26,3% e 50% no período 2001 a 2019, os países com crescimento médio-baixo. O país com melhor desempenho do grupo foi o Egito, crescimento de 49,5%, e o país com pior desempenho foi o Brasil, 26,3%. É isso, menos um pouquinho e estaríamos “comemorando” o melhor desempenho entre os países de pior desempenho em termos de crescimento. A média de crescimento do grupo foi de 35,3%. No grupo estão quatro países avançados, seis países da América Latina e Caribe, cinco do Oriente Médio e dez da África subsaariana. A figura abaixo mostra esses países.




O último grupo é o de países que cresceram menos de 26,3% entre 2001 e 2019, o gripo dos países de crescimento baixo. O melhor desempenho do grupo foi um crescimento de 26,2% na República do Níger, o pior desempenho foi uma queda 19,2% no Zimbabwe. O crescimento médio dos países desse grupo foi de 11,8%. O grupo é composto por quinze países avançados, três países da América Latina e Caribe, três países do Oriente Médio e cinco países da África subsaariana. A figura abaixo mostra esses países.




A concentração de países avançados no grupo de baixo crescimento não causa espanto, vários modelos de crescimento apontam a relação inversa entre PIB per capita e crescimento, ou seja, ao contrário da crença popular, países ricos crescem menos do que países pobres. A validação empírica dessa proposição está (muito) além do objetivo desse post, o tema é objeto de pesquisa, vários autores encontram que a relação inversa vale para grupos de países homogêneos. A figura abaixo apresenta a distribuição dos grupos de países de acordo com o FMI, esse que estamos usando no post, segundo o grupo de crescimento.




É fácil observar a concentração de países avançados no grupo de crescimento baixo, isso não chega a ser um problema, afinal esses países já são ricos, mais preocupante é o baixo número de países da África subsaariana e da América Latina e Caribe no grupo de países de alto crescimento. Outro fato notável é a ausência de países emergentes da Ásia, da Europa e da Comunidade de Países Independentes no grupo de países com crescimento baixo e médio-baixo. Com todos os problemas na Europa Oriental países como a Rússia, 75,3%, e a Ucrânia, 60,7%, cresceram mais do que a média dos países da América Latina e Caribe, 44,5%, e bem mais que os 26,3% do Brasil.

Dos países da América Latina e Caribe apenas o Peru, com crescimento de 101,3%, conseguiu dobrar o PIB per capita entre 2001 e 2019, a República Dominicana, com 95,7% de crescimento, completa a participação dos países de nuestra América no grupo de alto crescimento. Com crescimento médio-alto aparecem Bolívia, 61,5%, Colômbia, 61,1%, Chile, 56,8%, e Paraguai, 53%. A maior concentração de países da América Latina e Caribe ocorre no grupo de crescimento médio-baixo: Honduras, 39,4%, Equador, 36,2%, Nicarágua, 34,3%, El Salvador, 33,7%, Guatemala, 33,03%, e Brasil, 26,3%. No grupo de crescimento baixo estão Argentina, 25,1%, México, 13,1% e Haiti, -2,8%.

A figura abaixo mostra a relação entre crescimento e PIB per capita para todos os países da amostra, a classificação de cada país de acordo com o FMI está destacada pelas cores. Na figura estão destacados os cinco países de maior crescimento, os cinco com menor crescimento, os países da América Latina e caribe como crescimento acima do esperado considerando apenas o PIB per capita (os países acima da linha), o Brasil, o México, os Estados Unidos e a Suíça. Reparem a forte presença de países avançados no canto inferior direito da figura, alta renda e baixo crescimento, e de países emergentes da Ásia na parte de cima do gráfico, de fato o único país desse grupo abaixo da linha é Papua-Nova Guiné.




A figura acima traz duas preocupações que merecem destaque. Uma é a dificuldade dos países da América Latina e Caribe de saírem da faixa de renda-média, países mais ricos da região, como o México e a Argentina (que está no “z” do Brazil), crescem muito pouco, mesmo o Chile, tradicional “campeão” da região, não consegue um desempenho nível Ásia. A outra dificuldade é a presença marcante dos países da África subsaariana na parte de baixo da linha. Se em termos locais o grande desafio do século XXI é triar a América Latina e Caribe da renda-média em termos globais o grande desafio é tirar os países da África subsaariana da renda baixa.


sexta-feira, 29 de maio de 2020

Contas Nacionais referentes ao primeiro trimestre de 2020: Assusta, mas foi é só o começo.


O IBGE divulgou as contas nacionais referentes ao primeiro trimestre de 2020 (link aqui), com isso podemos começar a vislumbrar o impacto da Covid-19 na economia brasileira. As medidas de isolamento começaram em meados de março, mas antes disso a economia já sentia os efeitos da pandemia por conta do mercado financeiro e de dificuldades em exportar e em importar. Apesar de relevantes, os problemas do primeiro trimestre são pequenos perto do que aconteceu em abril e maio e deve acontecer em junho. Mesmo com pouco efeito das políticas de isolamento o quadro ficou bem preocupante.

O primeiro de trimestre de 2020 inicia uma série de trimestres onde será impossível falar de PIB e de outros indicadores sem fazer referência a pandemia de Convid-19. A estratégia de recuperação lenta e consistente buscando reformas e tentando não perder o controle do lado fiscal foi comprometida. A necessidade de gastos do governo para equipar hospitais e manter a economia o mais fria possível comprometeu os esforços de ajuste fiscal dos últimos anos. A agenda de reformas, por mais importante e necessária que seja, vai inevitavelmente perder espaço para o desafio (talvez impossível) de proteger a renda das famílias e a viabilidade das empresas em um cenário de estímulos à redução da produção. Esse é um ponto que não pode nunca ser esquecido, ao contrário de outras crises onde as políticas para aquecer a economia ajudam a elevar a renda e viabilizar empresas no curto prazo (pelo menos em tese) nessa crise as políticas para manter pessoas em casa e empresas fechadas levam a perda de renda e inviabilizam empresas no curto prazo. Daí o caráter único do desafio econômico e a razão de políticas de demanda como redução de juros e aumento de gastos não parecerem capazes de entregar crescimento nem no curto prazo.

A figura abaixo mostra o crescimento da economia desde 1996, as barras mostram o crescimento em relação ao trimestre anterior (com ajuste sazonal) e a linha mostra o crescimento acumulado em quatro trimestres. No acumulado a economia cresceu 0,9%, mas a última barra dá uma noção relativa do tamanho da queda de 1,5% neste primeiro trimestre. A maior queda continua sendo a do quarto trimestre de 2008 com a crise financeira iniciada nos EUA, 3,9%, seguida da queda no segundo trimestre de 2015 na série de quedas que se seguiram ao colapso da Nova Matriz Econômica, 2,1%, primeiro trimestre de 1998 com o colapso do regime de bandas de câmbio, 2,1%, primeiro trimestre de 2009 também com a crise financeira de 2008, 1,6%, e finalmente o primeiro trimestre de 2020 com queda de 1,5%.. Infelizmente é possível que neste trimestre estejamos vivendo uma queda maior que a do quarto trimestre de 2008.




Ao contrário de outros analistas que tentam entender como o bolo foi feito estudando a divisão do bolo, eu vou continuar insistido em começar a análise das contas nacionais pela produção, ou seja, pelo lado da oferta. A figura abaixo mostra o crescimento dos grandes setores da economia. No acumulado de quatro trimestres a agropecuária, que no primeiro trimestre de 2020 respondeu por 7,8% do valor agregado e 6,6% do PIB, cresceu 1,6% no período; o setor de  serviços, 72,4% do valor agregado e 61,7% do PIB, cresceu 0,9%; finalmente, a indústria, que responde por 19,9% do valor agregado e 16,9% do PIB, cresceu 0.7%. Mais uma vez os três grandes setores da economia mostraram crescimento, ainda que modesto. Na comparação com o trimestre anterior a agropecuária cresceu 0,6%, a indústria teve uma queda de 1,4% e nos serviços a queda foi 1,6%.




No acumulado de quatro trimestres a construção cresceu 1,7% e teve o melhor desempenho entre os setores da indústria, como esse é um setor que mesmo antes da pandemia recebeu estímulos do governo há um risco de crescimento artificial o que pode ser um problema mais na frente. A indústria de transformação cresceu 0.3%, o baixo crescimento ou mesmo queda da indústria de transformação é parte fundamental da arrumação da casa. Muito investimentos ruins foram realizados neste setor no período de 2006 a 2014, são empresas sem perspectivas, algumas criadas apenas para viabilizar corrupção, que devem quebrar de forma a liberar capital e trabalho para empresas produtivas que ainda serão criadas. A indústria extrativa teve crescimento de 0,7%. Na comparação com o trimestre anterior a construção de queda de 2,4%, a indústria extrativa teve queda de 3,2% e na indústria de transformação a queda foi de 1,4%. Os números mostram que no primeiro trimestre de 2020 a turma que mais faz barulho foi a que teve a menor queda dentre os grandes setores da indústria.




Nos serviços o maior crescimento novamente ficou por conta do setor de informação e comunicação que cresceu 3,4% no acumulado de quatro trimestres. As atividades imobiliárias também tiveram um bom desempeno com crescimento de 1,9%, vale aqui o alerta feito para construção. Administração, defesa, saúde e educação públicas e seguridade social mostrou queda de 0,13%. A figura abaixo mostra o crescimento no setor de serviços.




Por fim, passemos a análise pelo lado da demanda, ou seja, como foi distribuída a produção do país. O maior crescimento foi no investimento, a parte do produto destinada a criar mais produto no futuro, que cresceu 3% no acumulado em quatro trimestres reforçando a tendência iniciada no segundo trimestre de 2018. O crescimento do investimento acima do produto sem uma política agressiva de estímulos ou de investimentos públicos é um dos sinais do processo de recuperação sólido ainda que lento.
 O consumo das famílias cresceu 1,3% e o consumo do governo caiu 0,4%, ou seja, a fatia do bolo que vai para o governo caiu. As exportações caíram 2,7% e as importações subiram 2,9%. Na comparação com o trimestre anterior o investimento aumentou 3,1%, o consumo das famílias caiu 2%, o consumo do governo aumentou 0,2%, as exportações caíram 0,9% e as importações subiram 2,8%.




Os números das contas nacionais referentes ao acumulado de quatro trimestres reforçam que estávamos seguindo uma recuperação lenta, mas sólida. Os números comparando este trimestre com o anterior mostram que a recuperação foi interrompida (deve ficar pior no segundo trimestre). Na análise das contas do último trimestre de 2019 alertei que o coronavírus comprometeria o primeiro trimestre de 2020. Quando escrevi aquele post (link aqui) as políticas de isolamento ainda não estavam em vigor, de fato ainda havia a esperança do calor ou algum outro fator minimizar o impacto da doença por aqui. Agora que vimos que não fomos poupados, pelo contrário, o desafio para equipe econômica fica ainda mais complicado. Ao mesmo tempo que são necessárias medidas para minimizar os danos de uma economia com atividade reduzida, é necessário manter algum controle da política fiscal e não perder o horizonte da agenda de reformas.

Como se já não fosse difícil conciliar controle fiscal com a necessidade de gastar mais e a impossibilidade de aumentar receitas, como se já não fosse quase impossível manter o discurso das reformas diante de medidas mais urgentes que se impõem a cada semana a equipe econômica ainda vai ter de lidar com o aumento da pressão por políticas de estímulos decorrente da recessão e da incrível incapacidade de articulação política de Bolsonaro. O infame Plano Pró-Brasil é só uma amostra do que ainda pode aparecer nos próximos meses. Da minha parte continuo insistindo que qualquer plano no estilo do PAC que não seja precedido por profundas reformas nas regras de compras e contratações do setor público está fadado a repetir a triste história de euforia e crise que tantas vezes vivemos. Se não acredita em mim dá uma olhada nos escândalos nas compras de respiradores que se espalham pelo país, se aconteceu isso com equipamentos médicos no meio da crise de saúde imaginem o que vai acontecer com pontes e viadutos no pós-crise.



quinta-feira, 16 de abril de 2020

Avaliação do impacto da Covid-19 no crescimento esperado a partir das estimativas do FMI em outubro de 2019 e abril de 2020


Com a divulgação dos dados do Outlook do FMI (ver aqui) é possível ter uma visão mais ampla das estimativas de impacto da Covid-19 no crescimento dos diversos países. Para fazer esse post considerei todos os países com mais de dez milhões de habitantes e com previsão para crescimento em 2020 na base de dados de outubro de 2019 e na base de dados de abril de 2020, foram 87 países.  A diferença entre a previsão de crescimento em outubro de 2019 e abril de 2020 é o que vou chamar de impacto da Covid-19 na estimativa de crescimento.

A figura abaixo mostra e compara o impacto da pandemia no Brasil e em outros países selecionados com o impacto em todos os países da amostra. No eixo horizontal está o impacto em cada país, o eixo vertical mostra quantos países sofrerão um impacto maior que o do país. Por exemplo, em outubro de 2019 a estimativa de crescimento para Argentina era de -1,281%, em abril de 2020 essa estimativa caiu para -5,719, o impacto da Covid-19 na estimativa de crescimento da Argentina é de -5,719 - (-1,281) = -4,438 e 75,9% dos países sofrerão um impacto maior do que a Argentina.



Como mostra a figura o impacto no Brasil será menor que no Chile, México, EUA e Alemanha, porém maior que na Bolívia, Equador e Colômbia. De forma mais precisa, o impacto no Brasil será de -7,342 e 32% dos países da amostra sofrerão um impacto maior que o Brasil, ou seja, se as estimativas do FMI estiverem corretas vamos sofrer um impacto significativo.




A previsão para o Brasil é de queda de 5,3% do PIB, é uma queda forte mesmo considerando nossa renda per capita em 2019. A figura abaixo mostra a relação entre PIB per capita e crescimento previsto para 2020 destacando os mesmos países da figura anterior e os grupos de países conforme classificação do FMI. Repare que a queda no PIB será mais acentuada nos países avançados. O grupo com melhor desempenho é a África subsaariana, 17 dos 27 países com previsão de crescimento em 2020 pertencem a esse grupo.




A próxima figura mostra o crescimento previsto em abril de 2020 em comparação ao crescimento previsto em outubro de 2019. Em todos os países o crescimento previsto em 2020 e menor que o previsto em 2019, isso deixa claro o impacto global da Covid-19. A reta de regressão está na figura apenas para ajudar na visualização, uma reta de 45º, mais adequada para esse tipo figura, só causaria distorções pois passaria muito acima de todos os pontos.

A avaliação do impacto por grupos de países confirma que os países avançados serão os mais atingidos. Tomando a média dos países de cada grupo, nos países avançados o crescimento de 2020 previsto em abril deste ano ficou 8,3% menor que o previsto em outubro do ano passado. Na África subsaariana a queda estimada foi de 4,6%, na América Latina e Caribe, a nuestra America, a queda foi de 6,5%. A figura abaixo mostra o impacto da Covid-19 em todos os grupos de países.




Considerando apenas os países que ficaram na amostra, as estimativas do FMI apontam que o impacto do coronavírus no Brasil vai ser menor do que no Peru, no México e no Chile. O menor impacto corre na Argentina, talvez por ser o único país do grupo onde havia previsão de queda do PIB já em 2019.




Em termos de previsão de crescimento para 2020 a maior queda deve ser no México, seguido de Equador e Argentina, logo após vem o Brasil. A menor queda está prevista para acontecer na República Dominicana. Dos países da América do Sul que estão na amostra a menor queda deve ser na Colômbia.




O balanço geral da comparação das estimativas de crescimento é desolador. A média de crescimento dos 87 países da amostra que era de 3,6% em outubro de 2019 virou uma queda de 2,6% em abril de 2020, a mediana foi de 3,1% para -3%. Nas previsões de 2019 apenas o Sudão (-1,5%) e a Argentina (1-,3%) teriam queda no PIB em 2020, agora a previsão é que 60 países terão queda no PIB. As maiores quedas estão previstas para Grécia, 10%, Itália, 9,1%, Portugal e Espanha, ambos com 8%.

Se serve de consolo registro que a incerteza é tão grande que mesmo previsões de instituições renomadas como o FMI devem ser olhadas com muita cautela, há uma enorme margem para erros. O problema é que não temos a menor ideia se os erros são para mais ou para menos;


sexta-feira, 10 de abril de 2020

Crescimento do PIB em tempos de Gripe Espanhola


Em tempos de pandemia foi impossível resistir à tentação de olhar para o passado e observar o que aconteceu em outros casos do tipo. É um exercício arriscado, os tempos são outros e tanto a medicina quanto a economia são muitos diferentes do que eram naquela época para permitir comparações impunemente.

Tome como exemplo a Gripe Espanhola, uma das grandes pandemias da história que atingiu o mundo nos anos de 1918, 1919 e 1920. Naquela época o mundo saia da Grande Guerra e observava a Revolução Russa de 1917, como separar os efeitos da Guerra, da Revolução e da Gripe Espanhola? A integração do mundo também era diferente, por mais que existisse comércio entre empresas e famílias de diferentes nações não é possível comparar com o mundo atual de aviões gigantes cruzando os céus e tecnologia da informação conectando as pessoas. A medicina então nem se fala, vivemos em outro planeta em relação a nossos antepassados que enfrentaram aquela pandemia.

Mesmo com todas essas diferenças, não resisti e fui olhar o crescimento do PIB nos diversos países entre 1918 e 1920. Não pretendo com isso estimar o que vai acontecer com o PIB nos próximos anos, deixo a tarefa para colegas mais chegados às artes das previsões, faço principalmente por curiosidade. Como se trata anterior à II Guerra usei os dados do Maddison Project (MPD 2018), uma das melhores e mais usadas fontes de dados históricos em economia. Selecionei os países com mais de um milhão de habitantes e dados completos para o período 1915 e 1925, para calcular o PIB multipliquei a variável rgdpnapc (medida de PIB per capita mais adequada para comparação de taxas de crescimento) e multipliquei pela população. A amostra ficou com trinta e oito países.

A média de crescimento dos países da amostra foi de 0,3% em 1918, 4,64% em 1919 e 3,12% em 1920, em nenhum dos anos a média foi negativa. A maior queda de PIB em 1918 foi de 21,1% e aconteceu na França, em 1919 a maior queda foi de 19,5% na Alemanha. É muito provável que o desastre na França em 1918 esteja mais associado à I Guerra do que à Gripe Espanhola, a segunda maior queda de 1918 foi na Bélgica, e o da Alemanha esteja mais associado as reparações de guerra, o Tratado de Versalhes foi assinado em junho de 1919 e a segunda maior queda foi na Áustria. Reforça a tese de que a queda está associada à I Guerra o fato que em 1919 a Bélgica cresceu 18% e a França cresceu 17,8%. A maior queda de 1920 foi de 20,4% e ocorreu no Uruguai.

A figura abaixo mostra a menor variação do PIB em cada ano para cada um dos países da amostra. Em 21 dos 39 dos países a menor variação ocorreu em 1918, linhas em verde, o que pode ser um indício de um forte efeito da I Guerra nesses números. Em dez países a maior queda foi em 1919 e em sete países a maior queda foi em 1920. Dos cinco países com maiores queda no período, quatro (Áustria, Bélgica, Alemanha e França) estiveram diretamente envolvidos na I Guerra. O quinto da lista, o Uruguai, teve uma nova Constituição promulgada em 1918 que entrou em vigor em 1919 e trouxe reformas importantes para o país.



Sete países da amostra não tiveram queda de PIB em nenhum dos anos entre 1918 e 1920, na Colômbia o menor crescimento foi de 6,2% em 1918, no ano seguinte o crescimento foi de 8,9%. Nos Estados Unidos ocorreu queda do PIB apenas em 1920 (-0,95%), em 1918 o PIB cresceu 9%. O Reino Unido, que também teve grande envolvimento na i Guerra, teve queda do PIB nos três anos, a maior foi de 12% em 1919. A figura abaixo mostra o crescimento do PIB no Brasil entre 1916 e 1925, a queda de 2% em 1918 foi bem mais do que compensada pelos crescimentos de 13,2% em 1919 e 9,9% em 1920.




Como disse no começo é difícil tirar lições para nossos tempos da pandemia de 1918-1920, o exercício deve ser visto mais como uma curiosidade do que como uma busca por insights. De toda forma é interessante registrar que as maiores quedas de PIB em 1918 e 1919 parecem mais associadas à guerra e as reparações de guerra do que à Gripe Espanhola e que, pelo menos no Brasil, a queda de 1918 foi mais do que compensada nos anos seguintes.


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Precisamos falar sobre má alocação de recursos.

Ontem a Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda publicou uma Nota Informativa intitulada: “Redução da má alocação de recursos (misallocation) para a retomada do crescimento da produtividade na economia brasileira” (link aqui). Tão logo terminei de ler corri para o Twitter e para o FB para divulgar a nota e pedir que os amigos fizessem o mesmo. Tanta pressão não foi por acaso, a má alocação de capital é um problema central da economia brasileira e é muito bom que o pessoal do governo tenha colocado o assunto em pauta.

Grosso modo má alocação de recursos, geralmente capital ou trabalho, significa que esses recursos estão sendo usados de forma ineficiente, mal comparando é como dirigir uma Ferrari em Monza a 60 km/h. É difícil explicar a existência de má alocação de recursos. Por que um empresário colocaria dinheiro em um projeto pouco eficiente? Por que alguém escolhe trabalhar em algo que não dá retorno nem pessoal nem profissional? Por que alguém pagaria para dirigir uma Ferrari em Monza a 60 km/h? Tais comportamentos não são compatíveis com as hipóteses de racionalidade que costumam guiar os economistas, a não ser que... alguém que não está preocupado com eficiência ofereça os incentivos para que as pessoas façam o que não fariam em outras circunstâncias. Talvez o sujeito dirigindo a Ferrari a 60 km/h em Monza tenha ganho um prêmio em um sorteio e não podia vender.

A má alocação de recursos costuma ser associada a políticas públicas, muitas vezes governos oferecem inventivos com foco em resultados de curto prazo, talvez as eleições sejam no final do ano, e não levam em conta os efeitos desses incentivos sobre a eficiência da economia. Já no começo do século XX economistas a Escola Austríaca apontavam a misallocation como fonte de problemas da economia. Vejam esse trecho d no texto “Economic depressions: their cause and cure” que está no livro The Austrian Theory of the Trade Cycle and Other Essays publicado em 1996 pelo Ludwig von Mises Institute onde Rothbard comenta os efeitos de uma queda artificial da taxa de juros por conta de um intervenção do Banco Central.

“For businessmen, seeing the rate of interest fall, react as always would and must to such a change of market signals: They invest more in capital and producers’ goods. Investments, particularly in lengthy and time-consuming projects, which previously look unprofitable now seem profitable, because of the fall of the interest charge. In short, businessmen react as they would react if savings had genuinely increased: They expand their investment in durable equipment, in capital goods, in industrial raw material, in construction as compared to their direct production of consumers good”

Sei que alguns colegas ficam irritados só de ouvir falar em Rothbard, mas um economista bem mais convencional como Hayek subscreveria essa passagem. A ideia de que juros artificialmente baixos induzem investimentos errados está na base da Teoria Austríaca do Ciclo Econômico (TACE) que Hayek, Mises e outros economistas austríacos elaboraram e divulgaram. Estritamente falando a TACE é uma teoria de má alocação de capital. As razões dessa teoria não ter prosperado na academia como uma das teorias de referência para explicar ciclos e depressões é assunto para outro post, aqui apenas quis registrar que misallocation é um conceito mais antigos do que alguns imaginam. Também para cutucar a redução de juros patrocinada pelo Banco central, não vou negar porque é feio mentir.

Em tempos modernos a questão da má alocação de capital ganhou destaque com um artigo escrito pelo Hsieh e pelo Klenow que foi publicado no Quarterly Journal of Economics em 2009 e intitulado “Missalocation and Manufacturing TFP in India and China” (link aqui). No artigo os autores afirmam que má alocação de capital, ou seja, capital destinado a projetos pouco eficientes reduzem de forma significativa a produtividade na China e na Índia. Especificamente os autores concluem que se o investimento nesses países fosse tão eficiente quanto nos EUA a produtividade da manufatura na China teria ganhos entre 30% e 50%, na Índia esses ganhos seriam entre 40% e 60%.

Ao contrário dos austríacos que centravam o foco em juros artificialmente baixos por conta do Banco Central tentando estimular a economia (não precisava ter escrito isso de novo, eu sei, mas eu sou chato), Hsieh e Klenow apontam várias razões para a existência de má alocação de recursos. Por exemplo, eles citam um estudo da McKinsey que afirma que a razão para baixa produtividade do varejo no Brasil pode estar na legislação trabalhista que aumenta o custo do trabalho para grandes supermercados em relação a pequenos comércios informais, causando um deslocamento de capital e trabalho para esses pequenos comércios que muitas vezes apresentam baixa produtividade. Outro fator que eles apontam, e que é particularmente relevante para o Brasil, é a presença de crédito subsidiado que pode desviar capital para setores ou empresas menos produtivas.

Não é preciso conhecer a literatura especializada para pensar em exemplos de má alocação de capital no Brasil, basta ler jornais. Projetos como o Comperj, vários estádios construídos para a Copa de 2014, Rio Maravilha, refinaria Abreu e Lima, refinarias Premium I e II (felizmente abandonadas antes de causar mais estragos), ferrovias que nunca ficam prontas, Belo Monte, são exemplos de capital e trabalha mal alocados. É difícil até mesmo imaginar alguém botando dinheiro do próprio bolso ou pagando juros de mercado para investir em um desses projetos, se não acredita em mim e quer um exemplo de entende das coisas clique aqui.

Se o leitor não se contenta com exemplo anedóticos e quer literatura deixo duas referências, tem mais, mas isso é um post de blog e não um capítulo de dissertação. A primeira é uma dissertação escrita por Addisu Lashitew e intitulada “Resource misallocation and aggregate productivity” (link aqui), lá são estimadas as perdas de eficiência em vários países por conta de má alocação de capital. A estimativa para o Brasil, realizada com dados de 2003, mostra que nossa produtividade é 62% da que seria se tivéssemos uma alocação eficiente de capital. Com foco apenas no Brasil, Rafael Vasconcelos, da Universidade Federal de Pernambuco, escreveu o artigo “Misallocation in the Brazilian manufacturing sector“, que foi publicado em 2017 na Brazilian Review of Econometrics (link aqui). Dois resultados desse texto merecem destaque: a má alocação de recursos no Brasil vinha em trajetória de queda até 2005, quando começou a subir, e a manufatura brasileira trabalha com um nível de produtividade que ´50% do que poderia ser caso nosso investimento fosse eficiente.

É com essa discussão em mente que a nota da SPE deve ser lida. A literatura especializada aponta que o Brasil pode ter ganhos significativos de produtividade (e produto) se conseguir reverter incentivos que induzem à má alocação de capital e trabalho. A SPE não apenas reconhece essa possibilidade como tenta relacionar o assunto com doze políticas do governo que podem reduzir a má alocação de capital.

Claro que políticas diferentes possuem impactos diferentes e que vale discordar da relevância de algumas políticas listadas, é do jogo, mas o fundamental é colocar a questão da má alocação em destaque e tentar avaliar os impactos da política econômica sobre alocação de recursos e produtividade. Só esse cuidado nos afasta da “maldição de Córdoba e Kehoe” (link aqui) que diz que se não consideramos os efeitos da política econômica na produtividade no longo prazo estaremos todos em uma grande depressão. Se entre 2009 e 2014 os economistas do governo tivessem tomado esse cuidado não estaríamos em outra década perdida.

O post já está longo e, também por isso, não vou comentar uma a uma as políticas listadas pela SPE, mas algumas merecem destaque. A redução do direcionamento do crédito é fundamental, desde os austríacos o papel do custo do capital tem destaque na literatura de misallocation, o crédito direcionado causa um efeito semelhante ao descrito por Rothbard, porém, além de bens errados, os empresários colocam o dinheiro em stores errados. A reforma tributária também pode ser uma peça importante na redução da má alocação de recursos, o próprio relatório da McKinsey citado em Hisieh e Klenow dá a pista de como a estrutura tributária brasileira pode levar a misallocation.

As privatizações são fundamentais, já ficou mais do que claro que as instituições brasileiras são incompatíveis com estatais eficientes, invariavelmente o inquilino do Planalto usa essas empresas para agradar empresários-amigos em projetos voltados para muita coisa, menos eficiência, vide Comperj. Outra política fundamental lembrada pela SPE é a abertura da economia, mais abertura leva a mais competição e menos espaço para investimentos ruins, espero que a turma da SPE convença Paulo Guedes a retomar o antigo discurso de salvar a indústria dos industriais e esquecer essa conversa de que só pode abrir a economia depois de resolver todos os nossos problemas e do Botafogo ganhar a Libertadores e Mundial. O aprimoramento da lei de recuperação judicial e a revisão das normas regulamentadoras do trabalho também merecem destaque.

Enfim, a agenda de redução de má alocação de recursos é fundamental e está recebendo atenção da equipe do Ministério da Economia. O que posso fazer para ajudar é tentar divulgar o assunto e pedir, pelo menos para os que ficaram sensibilizados com a relevância do tema, que façam o mesmo. Reduzir a má alocação de recursos é um dos grandes desafios para que o Brasil entre em uma trajetória de crescimento de longo, um desafio que passa pelas políticas aqui citadas.




quinta-feira, 1 de agosto de 2019

O principais desafios para a competitividade brasileira segundo o relatório anual sobre competitividade global


Um dos desafios para a retomada do crescimento é tornar a economia brasileira mais competitiva. O Brasil ficou na septuagésima segunda posição no ranking da última edição do “The Global Competitiveness Report” (link aqui), o ranking (link aqui) é elaborado pelo Fórum Econômico Mundial (link aqui) e que considera várias dimensões relativas à competitividade de cento e quarenta países. Não chega a ser um desastre, mas é preocupante. Para o leitor ter uma ideia o México ficou na quadragésima sexta posição e a Colômbia ficou na sexagésima posição, logo acima do Brasil está Montenegro e logo abaixo a Jordânia. Temos trabalho a fazer.

Para entender o problema da competitividade no Brasil vou fazer alguns posts analisando os indicadores usados para avaliar os diversos países. A nota de cada país é composta por doze pilares que por sua vez são divididos em vários indicadores. Neste post vou comentar o desempenho do Brasil nos doze pilares, os posts seguintes serão dedicados a cada um dos pilares separadamente. Os pilares são agrupados em grandes grupos: ambiente geral (instituições, infraestrutura, adoção de tecnologia de informação e comunicação e estabilidade macroeconômica), capital humano (saúde e habilidades/qualificação), mercados (mercado de bens e serviços, mercado de trabalho, sistema financeiro e tamanho do mercado) e ecossistema (dinâmica de negócios e capacidade de inovação).

O primeiro exercício consiste em comparar a nota do Brasil em cada um dos pilares com a nota média do grupo de países classificados como de renda média-alta pelo banco mundial excluindo o Brasil. A figura abaixo ilustra a comparação. Em oito dos doze pilares o Brasil está abaixo da média do grupo: habilidades, mercado de produtos, estabilidade macroeconômica, mercado de trabalho, instituições, infraestrutura, dinâmica de negócios e saúde. Nos pilares instituições, infraestrutura e saúde a distância entre a nota do Brasil e a média do grupo ficou bem pequena. Nosso maior problema está na estabilidade macroeconômica, na sequência aparecem o mercado de trabalho, a dinâmica de negócios, habilidades e finalmente mercado de produtos.




A estabilidade macroeconômica possui dois indicadores: inflação (posição 110º) e dívida pública posição 131º), estamos mal classificados nos dois quesitos. A boa notícia é que estamos melhorando nesses indicadores. O teto de gastos e a reforma da previdência junto com o esforço fiscal do governo devem melhorar a dinâmica da dívida. A inflação tem caído, mas o Banco Central deve ter em mente que nem só de IPCA vive o mundo. Acredito que deveríamos aproveitar a oportunidade para reduzir a meta de inflação para pelo menos 3% já no próximo ano.

O mercado de trabalho deve melhorar com a reforma trabalhista e a reforma tributária. Nosso pior desempenho está na mobilidade interna do trabalho (138º) e na facilidade de contratar e demitir 138º), em seguida aparece a tributação sobre o trabalho (137º), Paulo Guedes tem falado muito sobre esse último ponto e a reforma tributária deve ter algumas medidas para melhorar esse indicador. Nosso melhor desempenho é na participação das mulheres na força de trabalho (49º), essa definitivamente é uma boa notícia.

Na dinâmica de negócios os vilões são velhos conhecidos: tempo para abrir empresas (137º) e recuperação de falências (126º). A MP da Liberdade Econômica deve ajudar com a abertura de empresas. O problema de habilidades está relacionado em grande parte a formação de capital humano, outro velho conhecido, chama atenção que o pior desempenho está na facilidade de encontrar mão-de-obra qualificada (127º). Programas de escolas profissionalizantes podem ser uma boa maneira de atacar essa questão. No mercado de produtos os maiores problemas estão nas distorções causadas por tributos e subsídios (132º) e no protecionismo, especificamente nas barreiras não tarifárias (136º) e nas tarifas (125º).

O segundo exercício compara a nota do Brasil em cada pilar com a nota que seria esperada considerando apenas o PIB per capita. Estritamente falando estou comparando o valor previsto por uma regressão da nota em cada pilar contra o PIB per capita considerando todos os países no ranking e a nota que o Brasil tirou em cada pilar. Por certo trata-se de um modelo rudimentar que não se presta a análises mais cuidadosas, mas dá para animar o post. A figura abaixo mostra a comparação.




Em termos gerais os resultados ficam parecidos com os do exercício anterior. Nos pilares saúde e infraestrutura deixamos de ficar abaixo do esperado e passamos a ficar acima do esperado, vale lembrar que nesses dois quesitos a diferença entre a nota do Brasil e a média do grupo ficou pequena. Estabilidade macroeconômica continua sendo nosso maior problema, seguida por mercado de trabalho, mercado de produtos e dinâmica de negócios. Dos itens que destaquei quando comparei com a média dos grupos apenas habilidade parece ter perdido relevância.

A análise do ranking sugere que o desafio mais urgente é garantir a estabilidade macroeconômica. Junto com isso é preciso melhorar o ambiente de negócios que de certa forma engloba o mercado de trabalho, o mercado de produtos e a dinâmica de negócios. Outro ponto que deve ser trabalhado é a educação, particularmente a educação profissionalizante. Quem acompanha o noticiário econômico sabe que Paulo Guedes tem essas prioridades em mente, resta saber se ele vai conseguir convencer Bolsonaro e o Congresso a adotar soluções que desenhou para esses problema, se essas soluções serão implementadas de forma adequada e, não menos importante, se de fato são soluções corretas. Daqui de onde observo acredito que as soluções serão corretas, mas tenho dúvidas sobre o sucesso no convencimento e muito medo de como serão implementadas.


segunda-feira, 15 de julho de 2019

Sobre a queda nas expectativas de crescimento e o excesso de otimismo de (quase) todo janeiro


Em abril de 2014 fiz um post (link aqui) mostrando que o pessoal do mercado pecava por excesso de otimismo, na época o objetivo era desmistificar a tese que o mercado era pessimista e fazia terrorismo econômico. A verdade é que os números do Boletim Focus (link aqui), que resume as expectativas de mercado, mostravam o exato contrário: nos anos anteriores a 2014 o mercado estimava crescimento maior e inflação menor do que o crescimento e a inflação que de fato ocorreram.

Hoje volto ao otimismo de mercado, mas com outra perspectiva. Se em 2014 o otimismo do mercado era estranhamente percebido como pessimismo em 2019 a correção do otimismo do mercado durante o ano é vista como sinal de aprofundamento da crise. Por certo a recuperação é lenta e está ameaçada, não há questionamentos aqui, meu ponto é que a redução das expectativas de crescimento do Focus não é um bom termômetro para isso. A verdade é que normalmente as expectativas de crescimento para baixo são corrigidas para baixo durante o ano. A figura abaixo mostra a expectativa de crescimento na última semana de janeiro e na última semana de junho entre 2001 e 2019.




Com exceção do período 2006-08 e de 2010 em todos os anos a expectativa de crescimento em junho era menor do que em janeiro. É verdade que a queda deste ano ficou acima da média, mas isso se deve mais ao excesso de otimismo em janeiro do que a dinâmica da economia propriamente dita. Desde que a crise saiu do armário em 2014 até 2018 a economia brasileira encolheu em média 0,96% ao ano, neste mesmo período o maior crescimento foi de 1,1% em 2018. De onde o pessoal do mercado tirou a ideia que o crescimento em 2019 seria de 2,5%?

Terá sido empolgação com a vitória de Bolsonaro? Pode ser, mas, como eu já disse antes, esse padrão de superestimar o crescimento em janeiro não é atípico. Em onze dos dezoitos anos decorridos entre 2001 e 2018 o crescimento previsto em janeiro foi maior que o crescimento ocorrido de fato. A figura abaixo mostra a expectativa de crescimento em janeiro e o crescimento ocorrido no período posterior à crise.




Repare que apenas em 2017 o pessoal do mercado previu um crescimento menos que o ocorrido, mas foi por pouca coisa. Em 2018 mesmo após anos de crise o mercado em janeiro falava que a economia cresceria 2,66%! Os números dos anos anteriores não sugerem que o erro de 2019 foi excesso de empolgação com Bolsonaro, na verdade a comparação da série histórica de previsões em janeiro e da série de crescimento do PIB aponta que costuma ocorrer um excesso de otimismo em janeiro. Será que o pessoal do mercado acredita em Papai Noel?