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quinta-feira, 1 de agosto de 2019

O principais desafios para a competitividade brasileira segundo o relatório anual sobre competitividade global


Um dos desafios para a retomada do crescimento é tornar a economia brasileira mais competitiva. O Brasil ficou na septuagésima segunda posição no ranking da última edição do “The Global Competitiveness Report” (link aqui), o ranking (link aqui) é elaborado pelo Fórum Econômico Mundial (link aqui) e que considera várias dimensões relativas à competitividade de cento e quarenta países. Não chega a ser um desastre, mas é preocupante. Para o leitor ter uma ideia o México ficou na quadragésima sexta posição e a Colômbia ficou na sexagésima posição, logo acima do Brasil está Montenegro e logo abaixo a Jordânia. Temos trabalho a fazer.

Para entender o problema da competitividade no Brasil vou fazer alguns posts analisando os indicadores usados para avaliar os diversos países. A nota de cada país é composta por doze pilares que por sua vez são divididos em vários indicadores. Neste post vou comentar o desempenho do Brasil nos doze pilares, os posts seguintes serão dedicados a cada um dos pilares separadamente. Os pilares são agrupados em grandes grupos: ambiente geral (instituições, infraestrutura, adoção de tecnologia de informação e comunicação e estabilidade macroeconômica), capital humano (saúde e habilidades/qualificação), mercados (mercado de bens e serviços, mercado de trabalho, sistema financeiro e tamanho do mercado) e ecossistema (dinâmica de negócios e capacidade de inovação).

O primeiro exercício consiste em comparar a nota do Brasil em cada um dos pilares com a nota média do grupo de países classificados como de renda média-alta pelo banco mundial excluindo o Brasil. A figura abaixo ilustra a comparação. Em oito dos doze pilares o Brasil está abaixo da média do grupo: habilidades, mercado de produtos, estabilidade macroeconômica, mercado de trabalho, instituições, infraestrutura, dinâmica de negócios e saúde. Nos pilares instituições, infraestrutura e saúde a distância entre a nota do Brasil e a média do grupo ficou bem pequena. Nosso maior problema está na estabilidade macroeconômica, na sequência aparecem o mercado de trabalho, a dinâmica de negócios, habilidades e finalmente mercado de produtos.




A estabilidade macroeconômica possui dois indicadores: inflação (posição 110º) e dívida pública posição 131º), estamos mal classificados nos dois quesitos. A boa notícia é que estamos melhorando nesses indicadores. O teto de gastos e a reforma da previdência junto com o esforço fiscal do governo devem melhorar a dinâmica da dívida. A inflação tem caído, mas o Banco Central deve ter em mente que nem só de IPCA vive o mundo. Acredito que deveríamos aproveitar a oportunidade para reduzir a meta de inflação para pelo menos 3% já no próximo ano.

O mercado de trabalho deve melhorar com a reforma trabalhista e a reforma tributária. Nosso pior desempenho está na mobilidade interna do trabalho (138º) e na facilidade de contratar e demitir 138º), em seguida aparece a tributação sobre o trabalho (137º), Paulo Guedes tem falado muito sobre esse último ponto e a reforma tributária deve ter algumas medidas para melhorar esse indicador. Nosso melhor desempenho é na participação das mulheres na força de trabalho (49º), essa definitivamente é uma boa notícia.

Na dinâmica de negócios os vilões são velhos conhecidos: tempo para abrir empresas (137º) e recuperação de falências (126º). A MP da Liberdade Econômica deve ajudar com a abertura de empresas. O problema de habilidades está relacionado em grande parte a formação de capital humano, outro velho conhecido, chama atenção que o pior desempenho está na facilidade de encontrar mão-de-obra qualificada (127º). Programas de escolas profissionalizantes podem ser uma boa maneira de atacar essa questão. No mercado de produtos os maiores problemas estão nas distorções causadas por tributos e subsídios (132º) e no protecionismo, especificamente nas barreiras não tarifárias (136º) e nas tarifas (125º).

O segundo exercício compara a nota do Brasil em cada pilar com a nota que seria esperada considerando apenas o PIB per capita. Estritamente falando estou comparando o valor previsto por uma regressão da nota em cada pilar contra o PIB per capita considerando todos os países no ranking e a nota que o Brasil tirou em cada pilar. Por certo trata-se de um modelo rudimentar que não se presta a análises mais cuidadosas, mas dá para animar o post. A figura abaixo mostra a comparação.




Em termos gerais os resultados ficam parecidos com os do exercício anterior. Nos pilares saúde e infraestrutura deixamos de ficar abaixo do esperado e passamos a ficar acima do esperado, vale lembrar que nesses dois quesitos a diferença entre a nota do Brasil e a média do grupo ficou pequena. Estabilidade macroeconômica continua sendo nosso maior problema, seguida por mercado de trabalho, mercado de produtos e dinâmica de negócios. Dos itens que destaquei quando comparei com a média dos grupos apenas habilidade parece ter perdido relevância.

A análise do ranking sugere que o desafio mais urgente é garantir a estabilidade macroeconômica. Junto com isso é preciso melhorar o ambiente de negócios que de certa forma engloba o mercado de trabalho, o mercado de produtos e a dinâmica de negócios. Outro ponto que deve ser trabalhado é a educação, particularmente a educação profissionalizante. Quem acompanha o noticiário econômico sabe que Paulo Guedes tem essas prioridades em mente, resta saber se ele vai conseguir convencer Bolsonaro e o Congresso a adotar soluções que desenhou para esses problema, se essas soluções serão implementadas de forma adequada e, não menos importante, se de fato são soluções corretas. Daqui de onde observo acredito que as soluções serão corretas, mas tenho dúvidas sobre o sucesso no convencimento e muito medo de como serão implementadas.


terça-feira, 31 de maio de 2016

Ranking de Competitividade do Centro Mundial de Competitividade do IMD: Cada ranking é um vexame novo.

Foi divulgado o ranking de competitividade elaborado pelo Centro Mundial de Competitividade (link aqui). O centro é ligado ao IMD (link aqui) e o ranking é divulgado a quase vinte anos. A primeira vez que o Brasil foi apareceu no ranking foi em 1997 ocupando a 34º posição em um total de 46 países. Em 2010 estávamos em 38º de 59 países, perdemos quatro posições, porém apareceram 13 países novos na lista. Na versão de 2016 ficamos em 57º, de 2010 a 2016 caímos 19 posições e só entraram 3 países no período. De fato, a partir de 2010 o Brasil começou uma tendência de queda no ranking, ficamos em 44º em 2011, 46º em 2012, 51º em 2013 e 56º em 2015. Essa queda é mais uma evidência do erro que cometemos lá por 2006 quando abandonamos a agenda de reformas e voltamos a adotar práticas desenvolvimentistas.

Olhando o quadro geral é possível observar que somos competitivos que países com renda per capita semelhantes à nossa. A figura abaixo ilustra esse ponto, para evitar distorções no gráfico retirei Qatar e Luxemburgo da lista, ambos possuem PIB per capita superior a $100.000. O Brasil é representado pelo ponto vermelho, repare que vários países com PIB per capita próximos ao nosso apresentam uma pontuação superior à nossa. A pontuação média dos países com PIB per capita menor que o do Brasil é 57.246, a pontuação do Brasil foi 51.676, ou seja, baixa renda não é desculpa para nossa falta de competitividade.




A figura abaixo mostra os dez piores classificados no ranking. Abaixo e quase empatada conosco aparece a Croácia, depois vem Ucrânia, Mongólia e Venezuela. A Argentina, que ano passado estava pior que o Brasil, já começa a abrir vantagem. Nunca é demais lembrar que a Ucrânia quase teve uma guerra civil e um conflito militar com a Rússia, a Venezuela foi destruída por uma ditadura, a Croácia ficou independente após uma guerra violenta que terminou em 1995 e hoje está envolvida com a crise humanitária dos refugiados do Oriente Médio e a Mongólia é um país que foi governado pelo mesmo partido, Partido Revolucionário Popular Mongol, de 1921 a 2010 em um regime que até 1990 era de partido único. É difícil explicar o que o Brasil está fazendo no meio desta turma.




É verdade que temos sérios problemas de curto prazo para resolver, mas também temos de dar a devida atenção a nossa competitividade. A boa notícia é que resolver os problemas de curto prazo não exclui políticas que aumentam a produtividade no longo prazo, pelo contrário, medidas como melhoria da gestão no setor público, privatizações e redução da burocracia podem simultaneamente ajudar no ajuste fiscal e no crescimento da produtividade. Por outro lado, aumentos de impostos, principalmente com os impostos ruins que temos no Brasil, podem até ajudar a resolver o problema fiscal, mas complicam o crescimento da produtividade a médio e longo prazo. Estamos em um momento crítico, podemos retomar o caminho das reformas desta vez prestando mais atenção ao lado fiscal ou podemos tentar aumentar arrecadação para manter privilégios de grupos de interesse. A escolha que fizermos vai definir como estaremos nos próximos dez anos.