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quarta-feira, 28 de julho de 2021

Recuperações do PIB pelo mundo

Curioso com a recuperação da crise causada pela pandemia resolvi dar uma olhada nos dados da OCDE a respeito do PIB trimestral dos diversos países. Como a pandemia começou ainda em 2019 na China e em outros países da Ásia tomei como ponto de partida o terceiro trimestre de 2019. Em apenas 15 dos 48 países da amostra o PIB no primeiro trimestre de 2021 foi maior do que no terceiro trimestre de 2019, entre eles o Brasil.

A figura abaixo mostra a queda e recuperação do PIB em todos os países da amostra com destaque para o Brasil. Os países com melhores desempenho, a curva azul claro termina bem acima de 100, são Irlanda, Turquia e China. Em nenhum trimestre o PIB da Irlanda ficou abaixo do nível do terceiro trimestre de 2019, isso não quer dizer que não houve queda do PIB por lá, mas as quedas ocorridas no segundo e no quarto trimestre de 2020 não foram suficientes para compensar o crescimento dos períodos anteriores. Na China, onde pandemia começou, a queda forte ocorreu no primeiro trimestre de 2020, na grande maioria dos países a queda grande aconteceu no segundo trimestre de 2020, nos trimestres seguintes o PIB chinês cresceu. A Turquia teve uma queda forte no segundo trimestre de 2020, mas o forte crescimento no terceiro trimestre mais do que compensou a queda.



O Brasil segue o padrão geral de queda forte no segundo trimestre de 2020 com recuperação posterior. No terceiro trimestre de 2021 o PIB estava 0,38% acima do terceiro trimestre de 2019, pode parecer pouco, mas foi o suficiente para vingar a previsão de recuperação em “V” feita pelo ministro Paulo Guedes e colocar o Brasil no grupo dos países com crescimento no período. O campeão de crescimento foi a Irlanda, 14%, seguida pela Turquia, 9%, e a China, 8%. A média da taxa de crescimento de todos os países foi de -1,4%, considerando apenas os países que cresceram a média foi de 3,4%. A figura abaixo mostra a variação do PIB no grupo de países que cresceram no período. Os únicos países latino-americanos do grupo são Brasil e Colômbia.

 


Entre os países com queda de PIB, 33 países da amostra, a média foi de -3,6%. A menor queda ocorreu nos Estados Unidos, 0,3%, e maior na Espanha 8,9%. No Chile a queda foi de 0,9%, na Argentina foi de 3,7% e no México foi de 5%. A diferença entre a recuperação do PIB no Brasil e outros países da América Latina sugere que ou o Brasil (e a Colômbia) aproveitaram melhor a subida de preços das commodities ou a dinâmica interna dos países foi relevante para explicar a recuperação.



Em resumo me parece justo afirmar que o Brasil ficou bem na foto da recuperação do PIB após a grande queda do segundo trimestre do ano passado. Não é o melhor, 11 países tiveram maior crescimento do PIB, mas está longe de ser o pior, 36 tiveram desempenho pior. Como sempre registro o crescimento de curto prazo pode sinalizar problemas de longo prazo. Isso acontece se os incentivos usados ara obter crescimento de curto prazo causarem fortes distorções na alocação de fatores a ponto de comprometer o crescimento da produtividade, o tempo dirá se esse foi o caso no Brasil.

Outros possíveis efeitos colaterais de estímulos para recuperação no curto prazo são inflação e crescimento insustentável da dívida pública. A inflação já é um problema, projeções do mercado apontam que, apesar das seguidas elevações na meta para Selic, o IPCA o ano vai fechar o ano bem acima do teto da meta de inflação. A análise do lado fiscal é mais delicada, a reforma da previdência, aprovada em 2019, pode ser decisiva no controle das contas do governo. A crise fiscal nos estados parece ter batido no fundo do poço antes da pandemia, talvez esse poço não tenha um alçapão. Por outro lado, a generosidade do governo ao conceder aumentos para carreiras militares bem como com gastos de defesa, incluindo capitalização de estatais, é um problema que, junto com o uso de emendas nos moldes do Tratoraço/Bolsolão, pode ser fatal para o ajuste fiscal. Nunca é demais lembrar que parte significativa da melhora nos indicadores fiscais decorre da inflação, uma estratégia com desagradável hábito de ser desastrosa no longo/médio prazo.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Crescimento no Brasil e no Mundo em 2020 de acordo com os números do FMI

Com a divulgação dos dados do FMI referentes a 2020 é possível avaliar o tamanho do estrago que a pandemia causou no crescimento econômico pelo mundo. Considerando os países com mais de dez milhões de habitantes em 2020 e excluindo a Venezuela por motivos óbvios a média das taxas de crescimento em 2019 foi de 2,98%, em 2020 essa mesma média foi de -3,29%. Em 2019 a maior taxa de crescimento entre os países da amostra foi de 9,4% na Ruanda, o pior desempenho foi do Zimbabwe com queda de 7,4%. Em 2020 o melhor desempenho foi na Etiópia, que cresceu 6,1%, e o pior foi no Peru onde o PIB teve queda de 11,1%. A mediana das taxas de crescimento caiu de 2,3% em 2019 para -3,6% em 2020. A figura abaixo mostra a distribuição do crescimento em 2019 e 2020, o deslocamento para esquerda da parte em vermelho mostra queda geral do crescimento em 2020.


Dos oitenta e oito países da amostra em apenas dezenove foi observado crescimento do PIB em 2020. Dos países que cresceram dez estão na África subsaariana, quatro são países emergentes da Ásia, dois do Oriente Médio, um pertence ao grupo dos países avançados, um é parte da Comunidade de Países Independentes e um é emergente da Europa. Nenhum país da América Latina e Caribe cresceu em 2020. Mesmo considerando apenas os países que cresceram a média das taxas de crescimento, 2,4%, foi menor que a média de crescimento de todos os países da amostra em 2019. A figura abaixo mostra a variação do PIB em cada um dos países onde houve crescimento.

 

No Brasil o PIB teve queda de 4,1% em 2020, o resultado foi melhor do que o previsto pelo FMI em meados do ano passado. Em termos relativos o Brasil melhorou de posição no ranking dos países da amostra. No ano de 2019 cerca de 78% dos países tiveram melhor desempenho do que o Brasil, essa proporção caiu para cerca de 57% em 2020. A figura abaixo mostra a variação do PIB em todos os países da amostra com alguns destaques. O eixo horizontal mostra a variação do PIB e no eixo vertical é possível ver a proporção dos países com variação do PIB menor do que a do país em destaque. Desta forma a figura mostra que cerca de 91% dos países cresceram menos do que a China e cerca de 48% e cerca de 52% cresceram menos do que os Estados Unidos.

 

Considerando apenas os países da América Latina e caribe o Brasil teve o terceiro melhor desempenho. A menor queda ocorreu na Guatemala seguida pelo Haiti, Brasil, Chile e República Dominicana. O pior resultado foi no Peru com queda de 11,1% no PIB. Se o leitor está desconfortável com a retirada da Venezuela da amostra este é um bom momento para informar que o PIB venezuelano caiu 35% em 2019 e 30% em 2020. A figura abaixo mostra a variação do PIB nos países da América Latina e Caribe que estão na amostra.

 

Dos grupos de países considerados pelo FMI a América Latina foi o que teve o pior desempenho em termos de média das taxas de crescimento do PIB. Em 2019 o pior desempenho ocorreu no Oriente Médio. A pandemia pegou em cheio nuestra America em um momento em que as coisas já não estavam bem.

 

Entre os países do BRICS apenas na China o PIB cresceu em 2020. O Brasil ficou no meio com desempenho pior do que China e Rússia e melhor do que Índia e África do Sul.

 

Os números mostram que a pandemia teve um forte impacto no crescimento dos diversos países. O resultado contrasta com os números observados durante a Gripe Espanhola onde a média das taxas de crescimento foi positiva nos três anos da pandemia (ver aqui). O Brasil ficou na parte de baixo da amostra em termos de variação do PIB, mas estamos perto do meio. Em termos relativos foi uma melhora, em 2019 estávamos na parte baixo mais para o fim do que para o meio. Uma melhora relativa no meio de uma queda tão forte não deve servir de alento para um país que está em mais uma década perdida, mas sugere que podia ter sido pior.

 

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Crescimento do PIB em tempos de Gripe Espanhola


Em tempos de pandemia foi impossível resistir à tentação de olhar para o passado e observar o que aconteceu em outros casos do tipo. É um exercício arriscado, os tempos são outros e tanto a medicina quanto a economia são muitos diferentes do que eram naquela época para permitir comparações impunemente.

Tome como exemplo a Gripe Espanhola, uma das grandes pandemias da história que atingiu o mundo nos anos de 1918, 1919 e 1920. Naquela época o mundo saia da Grande Guerra e observava a Revolução Russa de 1917, como separar os efeitos da Guerra, da Revolução e da Gripe Espanhola? A integração do mundo também era diferente, por mais que existisse comércio entre empresas e famílias de diferentes nações não é possível comparar com o mundo atual de aviões gigantes cruzando os céus e tecnologia da informação conectando as pessoas. A medicina então nem se fala, vivemos em outro planeta em relação a nossos antepassados que enfrentaram aquela pandemia.

Mesmo com todas essas diferenças, não resisti e fui olhar o crescimento do PIB nos diversos países entre 1918 e 1920. Não pretendo com isso estimar o que vai acontecer com o PIB nos próximos anos, deixo a tarefa para colegas mais chegados às artes das previsões, faço principalmente por curiosidade. Como se trata anterior à II Guerra usei os dados do Maddison Project (MPD 2018), uma das melhores e mais usadas fontes de dados históricos em economia. Selecionei os países com mais de um milhão de habitantes e dados completos para o período 1915 e 1925, para calcular o PIB multipliquei a variável rgdpnapc (medida de PIB per capita mais adequada para comparação de taxas de crescimento) e multipliquei pela população. A amostra ficou com trinta e oito países.

A média de crescimento dos países da amostra foi de 0,3% em 1918, 4,64% em 1919 e 3,12% em 1920, em nenhum dos anos a média foi negativa. A maior queda de PIB em 1918 foi de 21,1% e aconteceu na França, em 1919 a maior queda foi de 19,5% na Alemanha. É muito provável que o desastre na França em 1918 esteja mais associado à I Guerra do que à Gripe Espanhola, a segunda maior queda de 1918 foi na Bélgica, e o da Alemanha esteja mais associado as reparações de guerra, o Tratado de Versalhes foi assinado em junho de 1919 e a segunda maior queda foi na Áustria. Reforça a tese de que a queda está associada à I Guerra o fato que em 1919 a Bélgica cresceu 18% e a França cresceu 17,8%. A maior queda de 1920 foi de 20,4% e ocorreu no Uruguai.

A figura abaixo mostra a menor variação do PIB em cada ano para cada um dos países da amostra. Em 21 dos 39 dos países a menor variação ocorreu em 1918, linhas em verde, o que pode ser um indício de um forte efeito da I Guerra nesses números. Em dez países a maior queda foi em 1919 e em sete países a maior queda foi em 1920. Dos cinco países com maiores queda no período, quatro (Áustria, Bélgica, Alemanha e França) estiveram diretamente envolvidos na I Guerra. O quinto da lista, o Uruguai, teve uma nova Constituição promulgada em 1918 que entrou em vigor em 1919 e trouxe reformas importantes para o país.



Sete países da amostra não tiveram queda de PIB em nenhum dos anos entre 1918 e 1920, na Colômbia o menor crescimento foi de 6,2% em 1918, no ano seguinte o crescimento foi de 8,9%. Nos Estados Unidos ocorreu queda do PIB apenas em 1920 (-0,95%), em 1918 o PIB cresceu 9%. O Reino Unido, que também teve grande envolvimento na i Guerra, teve queda do PIB nos três anos, a maior foi de 12% em 1919. A figura abaixo mostra o crescimento do PIB no Brasil entre 1916 e 1925, a queda de 2% em 1918 foi bem mais do que compensada pelos crescimentos de 13,2% em 1919 e 9,9% em 1920.




Como disse no começo é difícil tirar lições para nossos tempos da pandemia de 1918-1920, o exercício deve ser visto mais como uma curiosidade do que como uma busca por insights. De toda forma é interessante registrar que as maiores quedas de PIB em 1918 e 1919 parecem mais associadas à guerra e as reparações de guerra do que à Gripe Espanhola e que, pelo menos no Brasil, a queda de 1918 foi mais do que compensada nos anos seguintes.