domingo, 27 de março de 2016

Uma breve nota sobre ALCA, NAFTA e a manufatura no Brasil e no México.

Em 2005 deveria ter começado a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), deveria, mas não aconteceu. Um grupo de países barrou a ALCA alegando que o acordo destruiria as indústrias locais, o Brasil teve destaque nesse grupo. Na ocasião a FIESP lançou um estudo mostrando as perdas que teríamos com a ALCA, também não faltaram especialistas apontando como o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA) havia destruído a indústria mexicana e que a ALCA faria o mesmo com a nossa. O gráfico abaixo mostra a produção manufatureira como proporção do PIB no Brasil e no México desde 2005, como podemos ver mais de dez anos depois é bem provável que nossa indústria estivesse feliz tendo o desempenho da indústria mexicana.




Da onde tiraram a ideia que o NAFTA destruiu a indústria do México? Para responder a pergunta basta olhar o mesmo gráfico começando em 1995, logo após a entrada em vigor do NAFTA a produção manufatureira do México subiu em relação ao PIB, a subida teve folego curto, de forma que entre 1998 e 2005 foi observada uma queda consistente na produção industrial mexicana. Tal queda poderia ter sido causada por vários motivos, mas os “combatentes do império” na época preferiram colocar a culpa no NAFTA. Mais dez anos se passaram e a manufatura mexicana se estabilizou em torno de 17% do PIB, a nossa está em 11% e caindo.




Cuidado ao leitor apressado, os gráficos acima não permitem concluir que a indústria mexicana se beneficiou do NAFTA nem que a queda na indústria brasileira teria sido evitada com a ALCA, longe disso, os gráficos acima apenas mostram que os que tentavam nos assustar com o exemplo do México poderiam ter sido mais cuidadosos. Não vou cometer o mesmo erro.

P.S. Os dados são do Banco Mundial e foram obtidos por meio do Quandl (link aqui).




sexta-feira, 25 de março de 2016

Crescimento no Brasil, Na América Latina e no Mundo nos Governos Lula, FHC e Dilma

Segundo os dados do FMI (link aqui) em 2002, um ano antes do PT chegar ao governo federal, o PIB brasileiro correspondia a 3,2% do PIB mundial, hoje, segundo estimativas do FMI, corresponde a 2,84%, menos do que em 2002 e menos do que os 3,17% de 2010, último ano de Lula. No período FHC a participação do Brasil no PIB mundial caiu de 3,47% em 1994, ano anterior a posse de FHC, para 3,2% em 2002. Tais números mostram que crescemos menos que o mundo nos anos FHC, ficamos mais ou menos estáveis nos anos de Lula e caímos muito com Dilma, de fato, nos cinco anos de governo Dilma perdemos mais proporção do PIB mundial do que nos dezesseis anos de FHC e Lula. A figura abaixo mostra a participação do Brasil no PIB mundial, a série observada são os dados do FMI e a série simulada consiste nos dados até 2002 nos anos seguintes foi aplicada a taxa de decrescimento médio do período 1995 a 2002.




É relevante que o abandono da agenda de reformas e a volta de políticas desenvolvimentistas onde o governo tentava induzir e coordenar o crescimento tenha levado a um aumento da participação do Brasil no PIB mundial. De fato, políticas desenvolvimentistas conseguem gerar uma onda de crescimento, porém, a onda gerada pelo desenvolvimentismo petista foi muito curta, quase uma “marolinha”, durou de 2006 a 2011 e depois nos jogou em queda livre. Hoje estamos caindo mais rápido do que antes e nem mesmo temos o consolo da melhora em indicadores de bem-estar ou da inflação controlada. De fato, praticamente todo o ganho do crescimento entre 2006 e 2011 já foi perdido e, a valer as projeções para os próximos anos, em breve a linha observada ficará abaixo da simulada.

Os números acima devem ser lidos com cuidado, vários fatores que não estão relacionados a nosso governo podem afetar nossa participação no PIB mundial. Um exemplo é a ascensão da China, nenhum governo conseguiria colocar o Brasil para crescer no mesmo ritmo da China. Sendo assim é conveniente comparar um país com países semelhantes por algum critério, como já expliquei em outros posts aqui no blog meu grupo favorito de comparação é a América Latina. Temos PIB per capita semelhantes, temos tradições culturais semelhantes e, ao contrário do que diz a lenda, o Brasil não é muito mais industrializado que os outros países do continente, pelo contrário (link aqui). Comparações com países ricos não são adequadas porque tais países possuem uma dinâmica de crescimento muito diferente da nossa, tanto no sentido do que é necessário para crescer quanto nas escolhas entre crescimento e outros objetivos. Por motivos semelhantes não gosto de comparar o Brasil com todos os países em desenvolvimento porque na lista existem países com dinâmicas muito diferentes da nossa, destaque para os milagres de crescimento da Ásia.

Comparando com a América Latina estamos mais pobres hoje do que estaríamos se tivéssemos seguido como nos anos FHC. Para fazer essa afirmação calculei nosso crescimento em proporção a América Latina e Caribe entre 1995 e 2002 e apliquei a proporção nas taxas de crescimento observadas na América Latina e Caribe entre 2003 e 2015 para criar uma nova série de crescimento para o Brasil. Para ser mais preciso: entre 1995 e 2002 nosso crescimento foi aproximadamente 10% maior que a média da América Latina e Caribe, calculei quanto teria sido crescimento entre 2003 e 2015 se tivéssemos continuado crescendo 10% mais do que a média da América Latina e Caribe. A metodologia subestima o que teria sido nosso crescimento sem a crise atual, isso ocorre porque o Brasil está puxando para baixo a média da América Latina e Caribe e eu não tive ânimo de construir uma série excluindo o Brasil. Mesmo assim achei os números interessantes e resolvi compartilhar com vocês.




De acordo com o FMI em 2015 nosso PIB per capita foi de $15.690,00 em dólares internacionais (corrigido por paridade do poder de compra), segundo minha estimativa no universo alternativo onde tivéssemos continuado crescendo em proporção a América Latina e Caribe da forma como crescemos durante o período FHC nosso PIB per capita seria de $17.126,87, ou seja, em média ganhamos 8% menos do que estaríamos ganhando mantida a tendência do período FHC ajustado pela América Latina e Caribe. A Figura abaixo mostra o PIB per capita observado e o simulado.

Observe que o PIB per capita simulado está sempre acima do observado o que significa que ajustando pelo que ocorreu na América Latina e Caribe a economia brasileira teve um pior desempenho nos governos Lula e Dilma do que no governo FHC (o mesmo resultado foi discutido aqui). Se o exercício apresentado fizer algum sentido, ou seja, se a América Latina e Caribe formarem um grupo de comparação adequado para o Brasil então podemos dizer que o Brasil não soube aproveitar as oportunidades que apareceram com o boom das commodities nem mesmo no período Lula.



sábado, 27 de fevereiro de 2016

É tempo de falar do PAC e da promessa não cumprida de acelerar o crescimento.

Em 2007 foi lançado o PAC (link aqui). Para muitos seria um programa capaz de estimular o investimento e fazer com que o Brasil passasse a crescer mais. Por meio do programa o governo faria grandes investimentos em áreas estratégicas e esse investimento do governo impulsionaria investimentos privados. O aumento do investimento seria motor do crescimento e isso justificava o pomposo nome do programa, um nome que não fazia referência ao investimento propriamente dito, mas ao crescimento que tal investimento traria, afinal era o Programa de Aceleração do Crescimento.

As condições eram favoráveis à empreitada. Depois de muito esforço a inflação parecia finalmente controlada, o golpe final parecia ter sido dado em 2003, no governo Lula, quando o Banco Central presidido por Henrique Meirelles não tremeu para elevar a taxa de juros mesmo com a dívida bruta acima de 70% do PIB (de acordo com os dados do FMI em 2003 a dívida pública era 73,7% do PIB). Na época a Selic subiu para 26,5% em fevereiro de 2003 e ficou nesse valor até junho de 2003, o resultado, como era de se esperar, foi que a inflação cedeu e a taxa de juros começou a cair. Em janeiro de 2007 a Selic estava em 13% e caindo, no final de 2007 estava em 11,25%. A economia estava crescendo, depois de uma freada em 2003, ano de ajuste fiscal e combate à inflação, a economia voltou a crescer, em 2006 cresceu 4%. Faltava apenas o investimento para completar o quadro propício para um processo de crescimento de longo prazo, na verdade faltava a produtividade, mas naquela época falar em produtividade era mal visto.

Em um quadro assim era querer demais que alguém não pensasse que se faltava alguma coisa cabia ao governo providenciar. Como bem apontou Bruno Garschagen no livro “Pare de acreditar no governo - Por que os brasileiros não confiam nos políticos e amam o Estado” (link aqui) temos uma fé inabalável na capacidade do governo resolver nossos problemas, é bem verdade que não somos os únicos a ter tal característica que a cada dia é mais comum pelo mundo, mas o fato de não ser uma característica exclusivamente nossa não anula o fato que é uma característica nossa. Reconheço que a situação em 2006-07 era um convite à nossa fé no governo.

A resistência ao PAC foi quase nula. Elogiaram o programa líderes empresariais como Paulo Skaf, então presidente da FIESP, Armando Monteiro, então presidente da CNI, Rogério Golfarb, então presidente da Anfavea (link aqui). Mesmo Armínio Fraga, um dos melhores economistas em atividade no Brasil e nome ligado à oposição, preferiu sair pela tangente do que apontar os problemas do PAC (link aqui). Eu nunca me iludi com o PAC, já na época me pareceu que o programa era consequência do bom cenário econômico e não a causa de um cenário melhor ainda, também na época alertei que sem cuidar da eficiência um programa de investimento público poderia ser inócuo (link aqui).

Pois bem, quase dez anos e uma das maiores crises de nossa história depois já é oportuno olhar para os efeitos do PAC. A figura abaixo mostra a taxa de investimento entre 1995 e 2015, é fácil ver que a partir de 2006 ocorreu uma inflexão na taxa de investimento. Se foi devida ao PAC ou a saúde da economia é outra questão, mas sou generoso e dou de barato que o PAC teve um papel relevante no aumento da taxa de investimento. Afinal se um governo grande como o nosso começa a investir é de se esperar que o investimento aumente, principalmente quando o investimento é em áreas onde o investimento privado é quase proibido. A segunda fase do PAC, iniciada em 2011, parece não ter tido tanto sucesso (ou seria sorte?) com a taxa de investimento. De 2011 para cá a taxa de investimento caiu e voltou ao patamar de 18%, não muito diferente do que era na época em que o Banco Central se importava com a inflação e mantinha a Selic em torno de 20% ao ano. Assim como não é possível creditar a aumento da taxa de investimento a partir de 2007 ao PAC também não é possível culpar a segunda fase do PAC pela queda na taxa de investimento após 2011. Se no primeiro caso a saúde da economia pode ter levado ao aumento do investimento no segundo caso os erros em série de política econômica cometidos por Dilma e seus economistas podem ter ajudado muito na queda da taxa de investimento.



Mas não falemos apenas de investimento, afinal estamos tratando do Programa de Aceleração do Crescimento e não de um programa de aceleração do investimento. A figura abaixo mostra a taxa de crescimento entre 1995 e 2015, a queda brusca em 2009 foi resultado da crise internacional e pode ser ignorada, o que é importante reparar é que o aumento do crescimento que se seguiu ao PAC não se manteve nem mesmo no médio prazo. Por que isso pé importante? Porque mostra que um aumento da taxa de investimento por si não leva ao crescimento de longo prazo. Todo mundo não sabe disso? Se soubesse não teriam chamado um programa de investimento de Programa de Aceleração do Crescimento. A verdade é que o governo apostou no investimento como motor do crescimento de longo prazo... e errou. Pior, errou como nosso dinheiro e errou em algo que pelo menos desde da década de 50 é conhecido e que já deu o Nobel para Robert Solow: o crescimento de longo prazo depende da produtividade. Claro que alguém pode falar que é tudo culpa da crise internacional e que sem o PAC estaríamos ainda piores do que estamos, é um direito, cada um fala o que quer, mas, se a esta altura o sujeito ainda acredita que nossos problemas são frutos de uma crise internacional então o melhor a fazer é concordar e mudar de assunto.



Se algum governo quiser fazer um Programa de Aceleração do Crescimento deveria colocar a produtividade no centro das atenções. Ocorre que governos não sabem como estimular produtividade, pior, quase tudo que um governo pode fazer para ajudar empresários amigos, financiadores de campanha e ganhar apoio de sindicatos e outros movimentos organizados é ruim para a produtividade, embora possa ser bom para o investimento. Não é então por acaso que governos pelo mundo, particularmente governo que estimulam o compadrio, colocam o investimento no lugar que deveria ser ocupado pela produtividade. Estimular investimento pode ser compatível com ganhar votos e financiamento, estimular produtividade costuma levar a perda de votos e financiamento, pelo menos no curto prazo. Para tomar medidas que permitam o aumento da produtividade é preciso um estadista, para estimular investimento basta um populista ávido por aplausos e verbas fáceis.


Isso quer dizer que o PAC é culpado por nosso não crescimento? Não. Isso apenas quer dizer que o PAC não entregou o que prometeu.


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Política Monetária, Inflação e a Macroeconomia do lado da Oferta

Pelo que tenho visto no debate econômico local foi formado um quase consenso a respeito da recessão e do combate à inflação. Grosso modo o consenso diz que como já estamos em recessão um aperto da política monetária teria pouco ou nenhum efeito na inflação. A lógica é que se a estagnação do PIB em 2014, a queda em 2015 e a possível queda em 2016 não foram suficientes para impedir o aumento de preços não vai ser um aumento da taxa de juros que fará o serviço. Embora lógica seja intuitiva ela não é tão simples de ser justificada e, mais importante, está longe de representar um consenso entre os macroeconomistas de mais destaque no mundo. Para entender os problemas com essa lógica é preciso falar da macroeconomia pela ótica da oferta.

Como assim ótica da oferta? Grosso modo a ótica da oferta considera que o PIB de uma economia é determinado pelas forças de oferta, qual sejam: capital, trabalho, terra e tecnologia, naturalmente existem refinamentos e é possível considerar outros fatores, mas aqui tentarei ser o mais simples possível. Por outro lado, a ótica da demanda enxerga que o PIB é determinado pelos componentes da demanda agregada: consumo, investimento, gasto do governo (não incluídas as transferências) e exportações líquidas (exportações menos importações), assim como no caso do lado da oferta existem refinamentos que serão ignorados em nome da simplicidade. Da contabilidade nacional sabemos que o PIB medido pelo lado da oferta é idêntico ao PIB medido pelo lado da demanda, sendo esta identidade a base para a equação mais fundamental da macroeconomia que é PIB = Consumo + Investimento + Gasto do Governo + Exportações – Importações, ou ainda, Y = C + I + G + X - M. Em resumo podemos de maneira bem simplificada dizer que a turma da oferta entende que dado Y define-se os componentes do lado direito da equação, já a turma da demanda entende que os componentes do lado direito determinam Y.

A diferença não é pequena. Um economista do lado da demanda pode entender que um aumento do gasto público leva a um aumento do PIB exatamente por acreditar que o lado direito determina o lado esquerdo, de fato qualquer um que tenha feito um curso de introdução à economia estudou o modelo do multiplicador keynesiano onde um aumento do gasto do governo leva a um aumento ainda maior na renda. Para um economista da turma da oferta um aumento em um dos componentes da demanda, digamos no gasto público, será compensado por uma redução em outro, por exemplo, no investimento. A diferença entre a turma da oferta e a turma da demanda é o ponto de partida para a maior parte das polêmicas em relação a quais políticas macroeconômicas devem ser seguidas em um determinado contexto, o combate à inflação não é uma exceção.

Estritamente falando o pessoal da demanda tem uma certa dificuldade em explicar inflação, a leitura básica do modelo padrão de demanda não considera inflação, nesta leitura a inflação apenas ocorreria em uma situação onde a economia está restrita pelo lado da oferta, o que, segundo o próprio Keynes, é uma situação possível, mas rara. Ilustração desse problema é a versão do modelo IS-LM na maioria dos manuais de macroeconomia. Nela o modelo básico de análise keynesiana ensinado na formação de um economista (peço desculpas aos amigos pós-keynesianos, mas é) é construído com a hipótese que o nível geral de preços é fixo e a advertência que o modelo só funciona quando a economia não está restrita pela oferta. Matematicamente não é tão difícil colocar em um modelo IS-LM um mecanismo de ajuste dos preços, conceitualmente a tarefa é mais árdua. Nada do que estou escrevendo é novo ou provocação aos keynesianos, a maioria dos macroeconomistas do lado da demanda sabe disso e não por acaso existe um significativo esforço para explicar inflação com modelos do lado da demanda.

Do lado da oferta a abordagem para inflação é completamente diferente. Como o produto é determinado pelo equilíbrio no mercado de fatores (capital, trabalho e terra) e pela tecnologia disponível a política monetária afeta apenas as variáveis nominais, ou seja, a política monetária não afeta o produto real, apenas o nível de preços. Antes de seguir em frente é válido registrar que é possível fazer modelos pelo lado da oferta onde a política monetária afeta o produto real, porém não pode ser usada de forma consistente para esse fim. Da mesma forma é possível encontrar economistas do lado da oferta argumentando que a política monetária pode causar crises, vide as explicações de Friedman e Lucas para a Grande Depressão, mas novamente não é algo que ocorra de forma regular.

Se a política monetária não reduz preços por meio de uma recessão como ela reduz preços? Por meio do próprio mercado monetário. Se o governo retira moeda da economia a moeda fica mais valiosa e, portanto, os preços caem. Lógica similar acontece quando o BC aumenta juros, o aumento dos juros faz com que mais pessoas troquem moeda por títulos e isso reduz a quantidade de moeda no mercado levando a uma redução nos preços. Ficou confuso? Eu explico. Se existe menos moeda em circulação pela lei da oferta e da demanda é de se esperar que o preço da moeda aumente, porém, o preço da moeda está estampado na nota e não pode variar, uma nota de cem reais não vai valer cento e cinco reais ou noventa e cinco reais a depender da política monetária. Como então o preço da moeda aumenta? Pela redução no preço das outras coisas. Se com cinco reais eu compro um sanduiche e um refrigerante então posso dizer que cinco reais valem um sanduiche e um refrigerante. Se no futuro com os mesmos cinco reais eu só conseguir comprar um refrigerante então a moeda passou a valer menos, ocorreu inflação, por outro lado, se no futuro eu consigo comprar um sanduiche e dois refrigerantes então a moeda passou a valer mais, ocorreu deflação. Naturalmente a comparação com um ou poucos produtos é arriscada, é possível que o refrigerante tenha ficado mais caro, talvez por alguma lei de desincentivo ao consumo de açúcar, e não a moeda tenha ficado mais barata. Por isso é comum medir o valor da moeda por uma cesta de bens e serviços, um aumento generalizado nos preços da cesta significa que o valor da moeda é que caiu.

O post não pretende ser uma defesa da macroeconomia do lado da oferta nem uma crítica ao pessoal do lado da demanda, longe disso. Não que eu fique neutro nesta história, eu tenho lado, embora desconfiado sou da turma da oferta, mas apenas porque não quero polemizar aqui a respeito de quem está certo. Não é difícil encontrar evidências empíricas que corroboram ou refutam implicações de cada lado, eu poderia facilmente citar as que me convém, na melhor das hipóteses conseguiria que alguém citasse as outras. Ademais a chamada nova síntese neoclássica-keynesiana meio que concilia as duas visões dizendo que o pessoal da demanda está certo no curto prazo e o da oferta está certo no longo prazo, o que diminui muito a graça de implicar com o outro lado, mesmo ninguém sabendo muito bem quanto tempo dura o curto prazo... O objetivo do post é registrar que a política monetária pode, pelo menos em tese, combater a inflação sem depender de criar ou aprofundar uma recessão. Sim, quase me esqueço, não apenas a turma da oferta existe como é bem representada no pensamento econômico, para listar apenas os que receberam o Nobel nas últimas vinte edições a turma conta com Lucas, Prescott, Kydland e Sargent, ou seja, praticamente todos os macroeconomistas que ganharam o Nobel nas duas últimas décadas são associados a modelos do lado da oferta.




segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Expectativas do mercado para 2016 e excesso de otimismo.

Saiu o primeiro Boletim Focus do ano (link aqui) e me pareceu interessante olhar o que o pessoal do Mercado esperava para 2015 em janeiro e como mudou até dezembro. A tabela abaixo mostra as expectativas do mercado no primeiro boletim de 2015, no último de 2015 e agora no primeiro de 2016.

Variável
Expectativa para 2015 em janeiro de 2015
Expectativa para 2015 em dezembro de 2015
Expectativa para 2016 em janeiro de 2016.
IPCA(%)
6,56
10,72
6,93
Taxa de câmbio – fim de período
2,80
3,90*
4,25
Taxa Selic – fim de período
12,50
14,25**
15,25
PIB (%) - crescimento
0,50
-3,71
-2,99
Produção industrial (%) - crescimento
1,04
-7,80
-3,45
Conta Corrente (US$ bilhões)
-77,00
-63,30
-38,00
*previsão do penúltimo boletim, ** previsão de novembro

Reparem que no começo de 2015 a expectativa de inflação para 2015 era menor do que a expectativa de inflação que hoje os analistas de mercado apresentam para 2016, ou seja, se o mercado errar em 2016 como errou em 2015 a inflação de 2016 será maior que a de 2015. Pegar no pé de quem erra previsão de taxa de câmbio é como chutar a canela em pelada, mesmo assim deixo o registro que no começo de 2015 o mercado esperava que o dólar fechasse o ano em R$2,80, no final de 2015 o valor esperado tinha subido para R$ 3,90 e na realidade o dólar fechou o ano a R$ 3,94. O mercado também foi otimista no que diz respeito à Selic, a previsão em janeiro de 2015 é que a taxa básica de juros terminaria o ano em 12,5, na realidade terminou em 14,25.

No quesito crescimento o erro do pessoal do mercado foi gigantesco e, ao contrário do câmbio, injustificável. Era óbvio que o PIB encolheria em 2015, mesmo assim a aposta em janeiro de 2015 era de crescimento de 0,5%, no final do ano o realismo se impôs e a previsão passou a ser de queda 3,71%. Em 2016 os analistas de mercado estão prevendo recessão com o PIB variando em -2,99%, se repetirem o erro de 2015 vamos ter a maior queda de nosso PIB na história das contas nacionais, espero que tenham ajeitado os modelos. A produção industrial foi outra variável em que o excesso de otimismo do mercado se fez presente, começaram o ano de 2015 prevendo crescimento de 1,04%, no final de 2015 a previsão era de -7,8%, o número de novembro divulgado pelo IBGE mostrou uma queda de 12,4% em comparação com novembro de 2014. Em 2016 a turma do mercado começa prevendo queda de 3,45%, se a previsão for tão contaminada por otimismo como o ano passado é capaz da indústria acabar em 2016, novamente espero que os modelos estejam curados do excesso de otimismo dos últimos anos. Das variáveis que escolhi a conta corrente foi única onde o passar de 2015 fez com que as expectativas do mercado “melhorassem”.

Enfim, olhando os números do primeiro Boletim Focus de 2016 fico com a impressão que o pessoal do mercado deixou o otimismo exagerado de lado, pelo menos nos itens ligados a crescimento, se deixou de vez o otimismo é coisa que o ano de 2016 vai nos revelar. Quem (sobre)viver verá.


quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Transações correntes, balança comercial e crises: não há motivo para festas.

Tenho visto algumas comemorações por conta do saldo da balança comercial que foi positivo e acima do previsto. Em termos gerais associar saldos positivos da balança comercial a progresso e crescimento econômico é um resquício da lógica mercantilista que ainda assombra o pensamento econômico. Nunca é demais lembrar que a obra geralmente aceita como fundadora da ciência econômica, Um Inquérito sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações de Adam Smith, tinha como objetivo central argumentar que a riqueza das nações não vinha de saldos comerciais positivos e sim de ganhos de produtividade. Porém, em algumas condições, um país acaba sendo obrigado a buscar saldos comerciais positivos, a obrigação não é imposta por economistas ou governantes e sim pela dinâmica do próprio mercado.

A necessidade de saldos comerciais positivos costuma aparecer quando um país pega dinheiro no exterior e usa tais recursos para atividades que não geram um retorno econômico compatível com o custo do dinheiro que foi trazido do exterior. Se uma empresa brasileira pega dinheiro no exterior para aplicar em um projeto de alto retorno a renda gerada pelo projeto será suficiente para equilibrar os pagamentos do empréstimo, juros e principal, sem grandes problemas e sem necessidade de mudanças no câmbio. Se o recurso é usado em projetos sem retorno será preciso conseguir dinheiro em outro lugar ou esperar por ajustes no câmbio para que o problema seja resolvido.
A variável econômica que mede o quanto de recursos um país pega ou manda para o exterior é o saldo em transações correntes, além da balança comercial as transações correntes incluem o dinheiro enviado a recebido à guisa de juros ou de outras remunerações de fatores. Quando o saldo em transações correntes é positivo o país está mandando renda para o exterior, pode ser como empréstimos ou como pagamento de empréstimos, quando o saldo é negativo o país está recebendo renda do exterior. O gráfico abaixo, retirado diretamente da página do Banco Central, mostra o saldo em transações correntes como proporção do PIB. Trata-se de uma das melhores maneiras de entender nossa história econômica recente.




A década de 1950 é lembrada como um período de prosperidade, Getúlio Vargas até hoje é chamado de pais dos pobres e Juscelino Kubitschek é lembrado pelos 50 anos em 5. Repare que na década de 50 o saldo em transações correntes era negativo, ou seja, estávamos sendo financiados pelo resto do mundo, a conta chegou no início da década de 1960, lembrada por crises e um golpe militar. O governo militar reabriu as possibilidades de financiamento externo que foram facilitadas pela crise do petróleo que colocou as grandes economias mundiais em recessão no começo da década de 1970. O gráfico mostra claramente como foi o financiamento do Milagre Brasileiro e porque até hoje os governos militares são lembrados como um período de prosperidade. A conta do regime militar chegou no começo da década de 1980, a fim da crise nos países ricos trouxe inflação por lá e como consequência ocorreu um aumento da taxa de juros no mundo, faz um Google por Paul Volcker para conhecer esta história, o dinheiro fácil sumiu e lá fomos nós ter de pagar nossa conta. Não por acaso a década de 1980 é lembrada como a década perdida.

No início da década de 1990 o ciclo começa a se repetir, desta vez no lugar de comprar infraestrutura como em JK e nos governos militares decidimos “comprar” estabilidade econômica. Mais uma vez o saldo em transações correntes ficou negativo, ou seja, estávamos novamente nos financiando com o resto do mundo. A conta da década de 1990 chegou no começo do século XXI na sequência da crise dos países emergentes. Foi por esta época que FHC apareceu com o lema “exportar ou morrer”, mais uma vez caminhávamos para uma crise econômica e política. Em 1999, logo após as eleições de 1998, o PT pediu o impeachment de FHC e a popularidade do governo entrou em queda livre (qualquer semelhança não é mera coincidência), em 2002 acabava o período tucano que em seu auge alguém falou que iria durar mil anos. Lula chega ao poder com o abacaxi de um ajuste nas mãos, seguido o rumo normal provavelmente teríamos mais uma década de crise, se bem trabalhada a estabilidade seria mantida, mas a recessão era inevitável. Daí o “milagre” aconteceu com o boom das commodities e os juros baixos nos EUA e por consequência no mundo. O boom das commodities garantiu o saldo da balança comercial sem sacrifícios, no lugar do dramático “exportar ou morrer” tivemos o maravilhoso “exportar, importar e viver bem”, a queda dos juros permitiu acesso a capital barato, ou seja, menos juros pagos para o exterior e taxas menores por aqui. O pagamento da conta foi adiado.

Já falei diversas vezes, mas nunca é demais lembrar, que aqui perdemos uma oportunidade de ouro de colocar o Brasil em uma rota de crescimento de longo prazo. Como a economia estava estabilizada não havia mais a necessidade de “comprar” estabilidade, o regime de câmbio flutuante nos liberou de elevar juros para defender o real aliviando a pressão dos juros na dívida pública. A situação fiscal relativamente controlada exigia alguma atenção, o que foi feito em 2003, mas não era uma barreira definitiva ao crescimento. Em 2005 Palocci, então Ministro da Fazenda, propôs um ajuste fiscal de dez anos que se tivesse sido feito teria legado uma situação muito mais favorável para enfrentar a época de ajuste. Infelizmente a Ministra Chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, conseguiu barrar o ajuste. O fato é que a partir de 2006 abandonamos a agenda de reformas e voltamos a usar a estratégia das décadas de 1950 e 1970, em 2011 abandonamos o compromisso com a estabilidade e demos o passo definitivo para a crise atual. Neste momento todo cuidado é pouco, o ciclo das transações correntes não é maldição divina, decorre de vários fatores inclusive e principalmente de decisões que tomamos, boas decisões podem prolongar a fase de financiamento externo ou deixar a economia preparada para um ajuste indolor, decisões ruins geram grandes crises.

Como a balança comercial entra na história? Lembra do “exportar ou morrer”? É isso. Pagamentos de juros e outros serviços de fatores são peças importantes do saldo em transações correntes, mas no curto e médio prazo estão dados, logo o caminho para começar a reverter o saldo em transações correntes passa pela balança comercial. A figura abaixo ilustra o que estou dizendo, a história contada pela balança comercial é diferente da história contada pelas transações correntes, a principal diferença são os juros, mas é possível ver que toda vez que foi preciso reverter as transações correntes a ajuste começou pela balança comercial.




Aqui é válido olhar com atenção para a década de 1980, como vimos foi nesta década que ocorreu o ajuste para pagar a conta da década de 1970, reparem que por quase toda a década tivemos saldo positivo na balança comercial e isso não impediu que a década fosse perdida. Que o aumento do saldo da balança comercial costume ocorrer em épocas de crise não é nenhuma surpresa, pelo contrário. Modelos macroeconômicos básicos, do tipo usados em cursos de graduação, colocam as exportações como função do câmbio real no sentido que quanto mais desvalorizada a moeda local (quanto mais caro for o dólar) maiores serão as exportações, por sua vez as importações são apresentadas como função do câmbio real e da renda do país, quanto mais desvalorizado o câmbio (quanto mais caro for o dólar) menores serão as importações e quanto menor a renda menores as importações. Sendo a balança comercial a diferença entre exportações e importações fica fácil perceber que o saldo da balança comercial aumenta quando o dólar fica caro e/ou quando a renda cai.

Com esta lógica vários economistas (inclusive, mas não exclusivamente, os desenvolvimentistas) enxergam a desvalorização como o melhor caminho para gerar saldos positivos na balança comercial. Sendo eu um economista ortodoxo/liberal/neoclássico/malvadão não me alinho com o pessoal que pede a desvalorização do câmbio real, meu motivo é simples: via de regra governos não conseguem determinar preços e quando conseguem é por pouco tempo e com alto custo. O câmbio real, assim como outros preços, acaba ficando onde tiver de ficar independente dos desejos dos elaboradores de política econômica. De fato, quando governos interveem para definir o câmbio acabam criando inflação no caso de tentativas de desvalorizar o câmbio na marra ou entram no famoso e desastroso populismo cambial quando forçam uma valorização artificial do câmbio. Deixemos o câmbio o flutuar e cuidemos da vida, senão chega a morte ou coisa parecida.

Se o câmbio não é capaz de fazer o serviço resta uma crise econômica que derrube a demanda por importações, foi o que aconteceu na década de 1980 onde a despeito da maxidesvalorização cambial do Delfim tivemos uma gigantesca crise, foi o que poderia ter acontecido em 2002 e é o que está acontecendo agora. Não é que o governo esteja forçando uma crise para ajustar o lado externo, é que a crise está se impondo ao governo, assim como na década de 1980 o governo vai tentar de tudo para evitar o aprofundamento e alongamento da crise, mas crise econômicas são parecidas com atoleiros, quanto mais o infeliz se debate mais afunda e mais dificulta a saída. O caminho para sair da crise passa por serenidade e pelo entendimento que a crise existe, decorre de decisões erradas que tomamos e que pode ser superada.


A superação da crise não é fácil, mas é possível. Em primeiro lugar é preciso que o governo mantenha o pé no chão e não faça nada que comprometa ainda mais a estabilidade, outra deterioração das expectativas no estilo 2015 pode ser fatal. Depois é preciso retomar a agenda de reformas que permitam o crescimento da produtividade, a redução de burocracia e entraves a competição é um elemento fundamental, também é necessário encontrar formas de permitir e ampliar investimento privado em cada vez mais setores de infraestrutura. Enquanto tais reformas são discutidas é necessário contornar a crise fiscal por meio de corte de gastos e aumento na eficiência de impostos, porém mantendo o princípio que a criação ou aumento de alíquota de um imposto deve sempre vir acompanhada do fim ou redução de alíquotas de outros impostos de forma que a carga tributária não aumente. No longo prazo será preciso desfazer o nó da educação e da pesquisa.


terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Porcos e espantalhos ou Ille qui male ludit ad palaestram lusoriam non est invitandus

Começo informando ao leitor que não estou em guerra com todo e qualquer economista que se autodenomine heterodoxo, pelo contrário, tenho vários amigos e colegas que se autodenominam heterodoxos, participei de eventos promovidos pela AKB, já fui convidado para participar do Seminário de Economia Mineira em Diamantina, convite que aceitei com muita satisfação e definitivamente não me arrependi de ter aceito, e, quando fui secretário adjunto da ANPEC foi por convite de uma economista pós-keynesiana que foi eleita secretária executiva. Em várias oportunidades trabalhei junto com economistas autodenominados heterodoxos em fóruns, reuniões e encontros. Nas situações onde eu representava a UnB e o assunto em debate envolvia interesses comuns a grandes departamentos em universidades públicas me entendi várias vezes com a turma da UFRJ, UNICAMP e UFMG. Nada disso me impede de ser um duro crítico do desenvolvimentismo, que é uma mistura de estruturalismo e pós-keynesianismo com pitadas de outras heterodoxias a depender do autor, e crítico da maior parte do pensamento heterodoxo. Eu separo pessoas de ideias e não estou nem um pouco preocupado se meu interlocutor faz ou não a mesma separação.

Dito isso, passo para o assunto do post que é a reação de um grupo de economistas a um texto do Alexandre Schwartsman publicado originalmente na Folha de São Paulo (link aqui). O motivo para reação foi que no texto alguns economistas heterodoxos bem conhecidos de todos são apresentados como animais de fazenda, a forma da reação foi uma nota de repúdio enviada a Folha de São Paulo (link aqui). Na sequência vieram um texto do Carlos Eduardo Gonçalves no Estadão (link aqui), uma resposta do Belluzo (link aqui), um texto do Mansueto Almeida (link aqui), uma petição pública em apoio a Alexandre Schwartsman que eu assinei tão logo soube da existência (link aqui), um outro texto do Mansueto (link aqui), um outro texto do Carlos Eduardo (link aqui) e um texto no Economista X (link aqui). Além destes textos tratando diretamente do tema encontrei mais dois textos que fazem referência ao texto original do Alexandre Schwartsman e/ou a resposta de Belluzo, ambos favoráveis a tese original do Schwartsman. O primeiro do Rodrigo Peñaloza (link aqui) argumenta que crises costumam ter responsáveis e que o riso é uma forma válida de contrapor um argumento, o segundo, do Marcos Lisboa e do Carlos Eduardo (link aqui), argumenta que os economistas heterodoxos que criaram e implementaram a Nova Matriz Econômica são os responsáveis pela crise. Se pulei algum texto peço desculpas, estes foram os que li e consegui lembrar, e, creio eu, permitem ao leitor interessado ter uma ideia do que está acontecendo.

Conhecida minha não beligerância com todo e qualquer heterodoxo que passe no meu caminho e a polêmica em que vou me envolver passo ao ponto especifico que quero fazer nesse post. Economistas heterodoxos me parecem ter dificuldades em apresentar as próprias teses sem fazer referência a economistas ortodoxos. Por exemplo, eu, o Victor Gomes e o Adolfo Sachsida temos um texto bastante citado onde aplicamos o modelo básico de ciclos reais de negócios para a economia brasileira (link aqui), nem o modelo e nem a análise são apresentados como contraponto a teoria keynesiana ou a qualquer outra teoria. Claro que fizemos a revisão de literatura, mas a revisão não tratou de temas sem relação direta com o nosso tema e tanto o modelo como a a análise possuem vida própria, é perfeitamente possível ler o artigo pulando trechos de forma a ler apenas o modelo e a análise. O mesmo não acontece com vários textos “heterodoxos” que leio, geralmente teses ou dissertações que sou convidado a participar da banca. De fato, em quase todas as bancas "heterodoxas" que participei sugeri ao autor que dedicasse menos tempo a falar de autores ditos ortodoxos que não são relevantes para o modelo da tese e mais tempo ao modelo e/ou na análise proposta na tese.

Qual o problema de usar tempo falando dos “ortodoxos” em uma tese “heterodoxa”, poderia perguntar o leitor, não é bom mostrar o contraponto, continuaria perguntando o leitor. O problema é que os tais ortodoxos descritos como contraponto via de regra não existem ou, se existe, não representam o pensamento ortodoxo, talvez pelo fato que não existe um pensamento ortodoxo que possa ser apresentado como contraponto. A verdade é que, ao contrário da heterodoxia que são várias e cada uma segue um determinado paradigma, a ortodoxia é ampla e admite conflitos até mesmo entre paradigmas. A escola austríaca é uma heterodoxia que tem determinados paradigmas que identificam os seguidores de tal escola, o mesmo vale para os pós-keynesianos ou neo-schumpterianos ou qualquer outra heterodoxia. No lado ortodoxo a coisa é mais complicada, um economista novo-keynesiano, por exemplo o Mankiw, tem uma abordagem para moeda e política monetária muito diferente da de um economista de Chicago, por exemplo o Lucas, e mais ainda da abordagem do pessoal de ciclos reais, por exemplo o Prescott. Sendo assim como dizer que “ortodoxos defendem que moeda é neutra”, frase comum em monografias de alunos com pretensões heterodoxas. Mankiw é um economista heterodoxo? Quando dizem que “ortodoxos acreditam que em mercados perfeitamente competitivos” estão mandando para heterodoxia toda a literatura de organização industrial? Por aí vai... ao criar a “visão ortodoxa” que servirá de contraponto para sua tese o que o jovem economista heterodoxo está criando é um espantalho. Aí começa o perigo.

Se fica entendido que o espantalho é apenas um recurso para apresentar onde o modelo rompe com o que o autor considera ortodoxia então temos apenas uma forma pouco elaborada de apresentar um argumento. Porém, se o espantalho começa a ganhar vida e se transforma em interlocutor, começamos a tomar um caminho perigoso, tão mais perigoso quanto mais intenso e mais próximo da política for o debate com o espantalho. No limite o economista que estudou em algumas das melhores escolas do Brasil e/ou do exterior, que fez provas e infinitas listas de exercício (os malditos homeworks até hoje me assombram) sobre informação imperfeita, informação incompleta, escolha envolvendo risco, incerteza, falhas de mercado, modelos de competição imperfeita e etc é reduzido a um sujeito que não consegue pensar o mundo que não dentro do paradigma de mercados perfeitamente competitivos com previsão perfeita. A hipótese que o sujeito possa usar o modelo ciente das limitações do mesmo é abandonada em prol da hipótese que o sujeito é algum tipo de idiota, um débil mental, uma pessoa sem senso de realidade ou mesmo alguém com más intenções.

É claro que nem todos os heterodoxos caem na tentação de entrar em debates cada vez mais aguerridos com espantalhos, se os que conheço formarem uma amostra representativa eu diria que maioria não cai nesta tentação, mas, infelizmente, a grande maioria dos heterodoxos costuma ter uma postura leniente com os que duelam até a morte do espantalho. Um duelo estranho onde toda vez o espantalho morre apenas para retornar maior e mais temível para o próximo embate. Para ficar no exemplo do segundo texto do Carlos Eduardo, não lembro da reação indignada dos que ficaram indignados com o Alexandre Schwartsman quando Maria da Conceição Tavares chamou Marcos Lisboa de débil mental, aqui pouco importa que Marcos Lisboa tenha minha admiração desde a época que era o melhor aluno em um tempo e um lugar onde eu estava entre os piores, se é para ficar melindrado com ataques pessoais é preciso que a indignação apareça com ataques a qualquer pessoa, se não for assim a indignação não é exatamente com o ataque pessoal e sim com o alvo do ataque pessoal. Que fique claro, eu não fico indignado com ataques pessoais em abstrato e, portanto, não me sinto obrigado a mostrar indignação com a ataques pessoais a quem quer que seja. Sou da turma que acredita que ninguém tem o direito de não ser ofendido.

A questão não vem de hoje, lembro que uma vez perguntaram ao Simonsen porque ele não debatia com certos economistas heterodoxos, naquela época Simonsen era chamado de ortodoxo pelos heterodoxos, e ele respondeu que tais debates costumavam chegar a um ponto onde a única resposta possível seria xingar de volta. Ocorre que de uns tempos para cá os que aceitavam calados encarnar espantalhos resolveram revidar de fato, não apenas na imaginação de seus criadores, e a reação não foi a esperada pelos criadores. Alguns economistas ditos ortodoxos começaram a mostrar que não correspondiam a descrição feitas pelos “heterodoxos”, apareceram blogs e colunas de jornais com economistas mostrando que dominam e podem aplicar um gigantesco conjunto de modelos teóricos e técnicas de análise empírica. Como enquadrar a turma que estuda pobreza e que todo ano inunda os encontros de economia com avaliações positivas do bolsa família no espantalho? Como enquadrar a turma de organização industrial, inclusive os que estão ou estiveram no CAD, no espantalho? Como enquadrar o pessoal de teoria da decisão no espantalho? Como enquadrar o pessoal da economia comportamental no espantalho? Como enquadrar no espantalho aquela turma que manda bem na econometria e alimenta debates importantes como a questão racial, a questão de gênero e a questão do porte de armas?

A medida que estes economistas foram aparecendo e ganhando espaço a figura do espantalho foi tomando uma forma clara de espantalho e os que brigavam com tais espantalhos foram caindo no ridículo. Alguns recuaram e largaram mão dos espantalhos outros se tornaram mais agressivos com seus espantalhos. Daí começou um outro tipo de resposta, os economistas que deveriam estar encarnados nos espantalhos não mais se contentaram a mostrar que não eram espantalhos como resolveram “xingar de volta”. Neste ponto Alexandre Schwartsman, que eu considero um economista keynesiano, tomou um papel de destaque, o estilo agressivo ofende alguns, principalmente os que estão acostumados a aplausos, mas não é nada que justifique a perseguição que já fizeram a continuam fazendo a Schwartsman. Muitos dos que acusam Alexandre Schwartsman usam o mesmo estilo agressivo para referir a seus “oponentes” ou são lenientes com que usa. Não consigo ver a tal nota de repúdio como diferente da reação daqueles acostumados a estar do lado dos que batem ao perceberem que o amigo que mais fala grosso tomou uma porrada em público e, pior, não conseguiu revidar, a resposta ao primeiro texto onde aparece o Dr. Belleza foi triste. Eu ia terminar o texto fazendo referência a turma do porco e dizendo “quem não sabe brincar, não desce para o play”, mas graças ao Rodrigo Penãloza vou poder usar a estratégia de terminar o texto em latim para que pensem que eu sou inteligente independente de qualquer bobagem que eu tenha dito, lá vai: ille qui male ludit ad palaestram lusoriam non est invitandus.