Pelo que tenho visto no debate econômico local foi formado
um quase consenso a respeito da recessão e do combate à inflação. Grosso modo o
consenso diz que como já estamos em recessão um aperto da política monetária
teria pouco ou nenhum efeito na inflação. A lógica é que se a estagnação do PIB em
2014, a queda em 2015 e a possível queda em 2016 não foram suficientes para
impedir o aumento de preços não vai ser um aumento da taxa de juros que fará o
serviço. Embora lógica seja intuitiva ela não é tão simples de ser justificada e,
mais importante, está longe de representar um consenso entre os
macroeconomistas de mais destaque no mundo. Para entender os problemas com essa
lógica é preciso falar da macroeconomia pela ótica da oferta.
Como assim ótica da oferta? Grosso modo a ótica da oferta considera
que o PIB de uma economia é determinado pelas forças de oferta, qual sejam:
capital, trabalho, terra e tecnologia, naturalmente existem refinamentos e é
possível considerar outros fatores, mas aqui tentarei ser o mais simples
possível. Por outro lado, a ótica da demanda enxerga que o PIB é determinado pelos
componentes da demanda agregada: consumo, investimento, gasto do governo (não
incluídas as transferências) e exportações líquidas (exportações menos
importações), assim como no caso do lado da oferta existem refinamentos que
serão ignorados em nome da simplicidade. Da contabilidade nacional sabemos que
o PIB medido pelo lado da oferta é idêntico ao PIB medido pelo lado da demanda,
sendo esta identidade a base para a equação mais fundamental da macroeconomia
que é PIB = Consumo + Investimento + Gasto do Governo + Exportações –
Importações, ou ainda, Y = C + I + G + X - M. Em resumo podemos de maneira bem
simplificada dizer que a turma da oferta entende que dado Y define-se os
componentes do lado direito da equação, já a turma da demanda entende que os componentes
do lado direito determinam Y.
A diferença não é pequena. Um economista do lado da demanda
pode entender que um aumento do gasto público leva a um aumento do PIB exatamente
por acreditar que o lado direito determina o lado esquerdo, de fato qualquer um
que tenha feito um curso de introdução à economia estudou o modelo do
multiplicador keynesiano onde um aumento do gasto do governo leva a um aumento
ainda maior na renda. Para um economista da turma da oferta um aumento em um
dos componentes da demanda, digamos no gasto público, será compensado por uma
redução em outro, por exemplo, no investimento. A diferença entre a turma da
oferta e a turma da demanda é o ponto de partida para a maior parte das
polêmicas em relação a quais políticas macroeconômicas devem ser seguidas em um
determinado contexto, o combate à inflação não é uma exceção.
Estritamente falando o pessoal da demanda tem uma certa dificuldade
em explicar inflação, a leitura básica do modelo padrão de demanda não considera
inflação, nesta leitura a inflação apenas ocorreria em uma situação onde a
economia está restrita pelo lado da oferta, o que, segundo o próprio Keynes, é
uma situação possível, mas rara. Ilustração desse problema é a versão do modelo
IS-LM na maioria dos manuais de macroeconomia. Nela o modelo básico de análise
keynesiana ensinado na formação de um economista (peço desculpas aos amigos pós-keynesianos,
mas é) é construído com a hipótese que o nível geral de preços é fixo e a
advertência que o modelo só funciona quando a economia não está restrita pela
oferta. Matematicamente não é tão difícil colocar em um modelo IS-LM um
mecanismo de ajuste dos preços, conceitualmente a tarefa é mais árdua. Nada do
que estou escrevendo é novo ou provocação aos keynesianos, a maioria dos macroeconomistas
do lado da demanda sabe disso e não por acaso existe um significativo esforço
para explicar inflação com modelos do lado da demanda.
Do lado da oferta a abordagem para inflação é completamente
diferente. Como o produto é determinado pelo equilíbrio no mercado de fatores
(capital, trabalho e terra) e pela tecnologia disponível a política monetária
afeta apenas as variáveis nominais, ou seja, a política monetária não afeta o produto
real, apenas o nível de preços. Antes de seguir em frente é válido registrar
que é possível fazer modelos pelo lado da oferta onde a política monetária
afeta o produto real, porém não pode ser usada de forma consistente para esse
fim. Da mesma forma é possível encontrar economistas do lado da oferta
argumentando que a política monetária pode causar crises, vide as explicações
de Friedman e Lucas para a Grande Depressão, mas novamente não é algo que
ocorra de forma regular.
O post não pretende ser uma defesa da macroeconomia do lado
da oferta nem uma crítica ao pessoal do lado da demanda, longe disso. Não que
eu fique neutro nesta história, eu tenho lado, embora desconfiado sou da turma
da oferta, mas apenas porque não quero polemizar aqui a respeito de quem está
certo. Não é difícil encontrar evidências empíricas que corroboram ou refutam
implicações de cada lado, eu poderia facilmente citar as que me convém, na
melhor das hipóteses conseguiria que alguém citasse as outras. Ademais a chamada nova síntese neoclássica-keynesiana meio que concilia as duas visões dizendo que o pessoal da demanda está certo no curto prazo e o da oferta está certo no longo prazo, o que diminui muito a graça de implicar com o outro lado, mesmo ninguém sabendo muito bem quanto tempo dura o curto prazo... O objetivo do
post é registrar que a política monetária pode, pelo menos em tese, combater a
inflação sem depender de criar ou aprofundar uma recessão. Sim, quase me
esqueço, não apenas a turma da oferta existe como é bem representada no pensamento
econômico, para listar apenas os que receberam o Nobel nas últimas vinte
edições a turma conta com Lucas, Prescott, Kydland e Sargent, ou seja, praticamente
todos os macroeconomistas que ganharam o Nobel nas duas últimas décadas são
associados a modelos do lado da oferta.
