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segunda-feira, 19 de abril de 2021

Boletim Focus aumenta expectativa de inflação para este ano. Voltamos ao padrão da época do governo Dilma?

O Boletim Focus divulgado hoje mostra que o “pessoal do mercado” mais uma vez atualizou para cima a expectativa de inflação para 2021. Começar com um valor baixo para inflação esperada e atualizar para cima durante o ano foi o padrão no governo Dilma. Em 2016, ano do impeachment, e nos dois anos do governo Temer o padrão ficou invertido: a expectativa de inflação começava alta e caia durante o ano. No governo Bolsonaro voltou o padrão de expectativas baixas (eu chamo de excesso de otimismo) no começo do ano e ajuste durante o ano. A figura abaixo ilustra esses padrões, note que por usar escalas diferentes no eixo vertical a figura não deve ser usada para comparar as expectativas de inflação de cada ano e sim a dinâmica destas expectativas em cada um dos anos.

 


Por que o Banco Central de Roberto Campos não consegue entregar a inflação igual ou menor do que a esperada pelo “pessoal do mercado” no começo de cada ano? Difícil responder. É fácil encontrar declarações de figurões do BC colocando a culpa no lado fiscal. De fato, a política fiscal é um problema, mas o BC não sabe disso? O quão razoável foi apostar a estabilidade do real em um ajuste fiscal no meio de uma pandemia e liderado por um governo com notória dificuldade em liderar? O quão razoável foi imaginar que uma moeda emitida por um dos países emergentes mais endividados do mundo e sem grau de investimento nas agências de risco atrairia investidores por ser uma espécie de porto seguro?

A verdade é que já faz algum tempo a política fiscal do Brasil é problemática, tentativas de ajuste fiscal são barradas pelos mais diversos lobbys. Com a chegada de Bolsonaro ao Planalto, a despeito dos desejos da equipe econômica, a situação piorou. Incapaz de gerenciar conflitos naturais em uma democracia o governo ficou refém de interesses pontuais e agora sequer consegue ter um orçamento. O problema é que a questão fiscal já deve estar embutida nas expectativas de inflação do começo do ano, é preciso entender qual foi a surpresa que levou o mercado a “errar para baixo” no começo de 2019, 2020 e, aparentemente, 2021. Alguém pode dizer que em 2020 teve a pandemia, não compro a tese, o efeito da pandemia foi de baixar a inflação como mostram os números do IPCA em abril e maio do ano passado, porém, mesmo que tenha sido a pandemia a surpresa ocorreu em março e até outubro as expectativas estevam bem abaixo da inflação que ocorreu em 2020.

Uma comparação de 2020 e 2018 pode ser didática. Em 2018 a greve dos caminhoneiros pegou o mercado de surpresa, a resposta foi um aumento da expectativa de inflação para aquele ano. O susto do mercado foi justificado, mas a política econômica soube controlar as expectativas e entregou uma inflação de 3,75%. Repare quem 2020 o movimento foi diferente, logo após o choque não houve um crescimento forte das expectativas de inflação. A reação inicial do mercado foi projetar que a pandemia levaria a uma queda na variação do IPCA. O que aconteceu?

Como disse acima é difícil explicar o que está acontecendo. O problema pode estar nas projeções do “pessoal do mercado” que parece insistir em ignorar a mudança de regime que ocorreu no governo Bolsonaro segundo o próprio Paulo Guedes. Para piorar a incerteza aumentou muito por conta da pandemia. Outra possibilidade é que política econômica, fiscal e monetária, tiveram uma melhor condução no governo Temer no sentido de surpreender o mercado com menos e não com mais inflação. Enfim deixo mais perguntas do que respostas, mas vale registrar que talvez seja o momento para o BC colocar a barba de molho. A barba da vizinha política fiscal já está pegando fogo faz tempo.

 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Expectativas do mercado para 2016 e excesso de otimismo.

Saiu o primeiro Boletim Focus do ano (link aqui) e me pareceu interessante olhar o que o pessoal do Mercado esperava para 2015 em janeiro e como mudou até dezembro. A tabela abaixo mostra as expectativas do mercado no primeiro boletim de 2015, no último de 2015 e agora no primeiro de 2016.

Variável
Expectativa para 2015 em janeiro de 2015
Expectativa para 2015 em dezembro de 2015
Expectativa para 2016 em janeiro de 2016.
IPCA(%)
6,56
10,72
6,93
Taxa de câmbio – fim de período
2,80
3,90*
4,25
Taxa Selic – fim de período
12,50
14,25**
15,25
PIB (%) - crescimento
0,50
-3,71
-2,99
Produção industrial (%) - crescimento
1,04
-7,80
-3,45
Conta Corrente (US$ bilhões)
-77,00
-63,30
-38,00
*previsão do penúltimo boletim, ** previsão de novembro

Reparem que no começo de 2015 a expectativa de inflação para 2015 era menor do que a expectativa de inflação que hoje os analistas de mercado apresentam para 2016, ou seja, se o mercado errar em 2016 como errou em 2015 a inflação de 2016 será maior que a de 2015. Pegar no pé de quem erra previsão de taxa de câmbio é como chutar a canela em pelada, mesmo assim deixo o registro que no começo de 2015 o mercado esperava que o dólar fechasse o ano em R$2,80, no final de 2015 o valor esperado tinha subido para R$ 3,90 e na realidade o dólar fechou o ano a R$ 3,94. O mercado também foi otimista no que diz respeito à Selic, a previsão em janeiro de 2015 é que a taxa básica de juros terminaria o ano em 12,5, na realidade terminou em 14,25.

No quesito crescimento o erro do pessoal do mercado foi gigantesco e, ao contrário do câmbio, injustificável. Era óbvio que o PIB encolheria em 2015, mesmo assim a aposta em janeiro de 2015 era de crescimento de 0,5%, no final do ano o realismo se impôs e a previsão passou a ser de queda 3,71%. Em 2016 os analistas de mercado estão prevendo recessão com o PIB variando em -2,99%, se repetirem o erro de 2015 vamos ter a maior queda de nosso PIB na história das contas nacionais, espero que tenham ajeitado os modelos. A produção industrial foi outra variável em que o excesso de otimismo do mercado se fez presente, começaram o ano de 2015 prevendo crescimento de 1,04%, no final de 2015 a previsão era de -7,8%, o número de novembro divulgado pelo IBGE mostrou uma queda de 12,4% em comparação com novembro de 2014. Em 2016 a turma do mercado começa prevendo queda de 3,45%, se a previsão for tão contaminada por otimismo como o ano passado é capaz da indústria acabar em 2016, novamente espero que os modelos estejam curados do excesso de otimismo dos últimos anos. Das variáveis que escolhi a conta corrente foi única onde o passar de 2015 fez com que as expectativas do mercado “melhorassem”.

Enfim, olhando os números do primeiro Boletim Focus de 2016 fico com a impressão que o pessoal do mercado deixou o otimismo exagerado de lado, pelo menos nos itens ligados a crescimento, se deixou de vez o otimismo é coisa que o ano de 2016 vai nos revelar. Quem (sobre)viver verá.