sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Mais dados, desta vez sobre pobreza.

No post anterior falei sobre a distribuição da renda média dos países do mundo. Mostrei que pelos dados da Penn World Table não é possível falar que os países pobres foram os perdedores da globalização. A análise simples dos dados sugere o contrário, países pobres cresceram mais que países ricos. Neste post vou falar sobre pobreza. O fato de países pobres terem crescido mais que países ricos não implica em redução na pobreza mundial, é possível que a renda dos países pobres esteja se concentrando nas mãos dos mais ricos destes países. Neste caso o aumento da renda média não implica em aumento da renda dos mais pobres. Olhemos para os dados relativos a pobreza.

Como a Penn World Table não trata de pobreza desta vez os dados utilizados serão do Banco Mundial, especificamente da Poverty &Equity Data. Se é para falar de pobreza é melhor começar por onde o problema é mais grave: a África subsaariana. É comum ver na Internet ou em revistas e jornais estatísticas assustadoras a respeito da miséria nesta região, qualquer pessoa normal sente algum mal estar quando se depara com imagens de crianças passando fome e/ou com estatísticas mostrando que o número de miseráveis (pessoas que vivem com menos de $1,25 por dia, corrigidos por PPP) nesta região mais que dobrou entre 1981 e 2010. Eram pouco mais de 200 milhões de pessoas nesta situação em 1981 e em 2010 já passavam de 400 milhões. Números como este são desconcertantes para civilização, é inaceitável que em pleno século XXI com todas as técnicas de produção agrícolas que dominamos pessoas passem fome.

O impacto dos números é tão forte que dificulta nosso raciocínio, e disto se aproveitam os críticos do livre mercado. O aumento do número de miseráveis foi maior ou menor que o aumento da população? Sem considerar este efeito qualquer análise está comprometida, pior, é possível que os mecanismos que criam miséria passem a ser defendidos por pessoas que sinceramente querem o fim da miséria. É como um obeso fazendo dieta que ao perceber que ainda é o mais gordo da turma afirma que a dieta não funciona e ignora que antes da dieta ele pesava duas vezes a média da turma e agora pesa uma vez e meia a média. Mas deixemos de coisa e cuidemos da vida, vamos aos números. A percentagem de miseráveis na África subsaariana era 56,5% em 1981 e caiu para 48,5% em 2010. O pico foi de 59,4% em 1993, curiosamente na década de 1990, o auge de neoliberalismo, começou o processo de queda na proporção de miseráveis, foram mais de dez pontos percentuais de queda entre 1993 e 2010! Entre 1993 e 2010 também caíram as proporções do que vivem com menos de $2,50 por dia e dos que vivem com menos de $5,00 por dia. A figura abaixo ilustra a proporção dos que ganham menos de $1,25 por dia, as outras podem ser obtidas aqui.




Mas a África é distante, entre nossos intelectuais não faltam os que acreditem que a miséria está aqui em nuestra América. Continente devastado pela exploração do império, pelas políticas neoliberais, pelo FHC, pelo aquecimento global, pelo ET de Varginha e pelo homem do saco. A figura abaixo ilustra a proporção dos que vivem com menos de $1,25 por dia na América Latina. Eram 11,9% da população em 1981, subiu para 13,6% em 1984 e chegou a 5,5% em 2010. No Brasil ocorreu fenômeno semelhante, em 1990 o percentual dos que viviam com menos de $1,25 ao dia era 17,2% da população, este percentual subiu a 17,9% em 1992 e, a partir deste ano começou a cair. Em 1995 já era 11,3% (há quem diga que o Plano Real foi ruim para os pobes!), em 2002 estava em 10,6%. Caiu continuamente até 2008 quando chegou a 6%, em 2010 subiu para 6,1%.




A verdade é que pela maioria dos conceitos utilizados para medir pobreza existem muito mais pobres e miseráveis do que deveriam existir, mas existem cada vez menos pobres em proporção a população total. Dizer o contrário é ir contra os dados, pode servir a propaganda, mas não serve para ajudar aos miseráveis. Se quisermos mesmo ajudar os miseráveis temos que estudar com cuidado o que aconteceu a partir de meados da década de 1980 e tentar fazer mais disto. Na minha avaliação não é coincidência que a redução da pobreza tenha ocorrido na mesma época das reformas pró-mercado. Posso estar errado, mas quero ver números.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Países pobres cada vez ficam mais pobres e países ricos cada vez ficam mais ricos... Será?

Se você é do tipo que acompanha conversas sobre economia e/ou política pela internet certamente você já leu algo do tipo: nos últimos cinquenta anos a globalização forçou que os países pobres abrissem suas economias e levou a um enriquecimento dos países ricos e ao empobrecimento dos países pobres. A depender do autor a afirmação pode vir com termos como neoliberalismo, mundialização ou financeirização no lugar de globalização ou podem aparecer temos como nova ordem mundial. Raramente os autores apresentam números que comprovem a afirmação, quando aparecem números são números incompletos e deslocados do contexto. Por exemplo: dizem que existem mais crianças passando fome hoje do que existiam tantas décadas atrás, mas não dizem a proporção de crianças passando fome. É um artifício rasteiro para induzir o leitor a aceitar uma tese. É lógico que com o aumento da população mundial existirão mais crianças com problemas, assim como existirão mais crianças saudáveis e bem alimentadas.

Resolvi juntar neste post alguns dados sobre como evoluiu a renda de vários países nos cinquenta anos passados entre 1960 e 2010, repetirei aqui parte do que fiz na introdução do curso de crescimento que ofereci para alunos de graduação da UnB. Usei os dados da Penn World Table, todos os dados estão disponíveis de graça na internet de forma que se alguém quiser confirmar meus números basta pegar os dados e refazer as contas que fiz. Vamos aos números.

A primeira informação relevante é sobre a renda média dos países. Em 1960 esta renda, medida em valores constantes de 2005 corrigidos por paridade de poder de compra, era de 4.095, em 2010 era de 13.309, ou seja, em média o mundo ficou mais de três vezes mais rico nestes cinquenta anos. Como sabemos média é um conceito perigoso, é possível que a média aumente enquanto os ricos ficam mais ricos e os pobres ficam mais pobres. Precisamos de mais números. Vou separar a amostra em pedaços. A amostra total tem 110 países, passarei a trabalhar com quatro grupos. O primeiro grupo é composto pelos 28 países mais pobres em 1960, o segundo grupo é composto pelos 27 países seguintes em ordem de pobreza, o terceiro grupo é composto pelos próximos 27 países e o quarto grupo é composto pelos 28 países mais ricos em 1960. Para facilitar vou chamar o primeiro grupo de países pobres, o segundo de países com renda média-baixa, o terceiro de países com renda média-alta e o quarto de países ricos. Depois farei a mesma divisão para o ano de 2010.

A renda média dos países pobres em 1960 cresceu 230% entre 1960 e 2010, a renda média dos países ricos em 1960 cresceu apenas 116% no mesmo período. Dito de outra forma: entre 1960 e 2010 os 28 países mais pobres da amostra cresceram, em média, uma vez e meio mais do que os países mais ricos. A verdade é que os países pobres, entre 1960 e 2010, cresceram mais do que os países ricos. Mas tem mais: no mesmo período a renda dos países do grupo de renda média-baixa aumentou em 165% e a do grupo de renda média-alta aumentou 143%, o fato é que, ao contrário do que dizem por aí, os países ricos foram os que menos cresceram no período entre 1960 e 2010.

Ainda não acabou: ao contrário do que dizem não é verdade que a maioria dos países ficou mais pobre neste período, na realidade apenas sete países da amostra ficaram mais pobres neste período: África Central, Congo, Guiné, Haiti, Madagascar, Nicarágua e Níger. Alguém interessado pode checar caso a caso, mas o desastre econômico destes países provavelmente está relacionado a guerras e desastres naturais que não guardam relação com a dita globalização. Também ocorreram milagres econômicos no período, ou seja, alguns países cresceram muito mais que os demais. Estes milagres não ficaram restritos aos países ricos, muito pelo contrário, dos nove milagres identificados (Botsuana, China, Guiné-Equatorial, Hong-Kong, Coréia do Sul, Malásia, Singapura, Taiwan e Tailândia) nenhum ocorreu em país que estava no grupo dos ricos em 1960. Por outro lado, Botsuana, China e Guiné-Equatorial estavam entre os mais pobres de 1960. A Coréia do Sul é um caso particularmente interessante: em 1960 era um país de renda média-baixa e em 2010 era um país rico.


Da próxima vez que te falarem sobre como a globalização beneficiou os países e tornou os países pobres ainda mais pobres lembre destes números e pergunte: Será?

domingo, 22 de setembro de 2013

De onde (não) vem o Crescimento Brasileiro?

De uma maneira bem simplificada é possível dizer que a produção é realizada pela combinação de capital e trabalho. Entretanto com um pouco mais de reflexão é possível perceber que além da quantidade de trabalho e de capital utilizada na produção a forma como estes dois fatores são combinados também determina o total produzido. Para clarificar vou dar um exemplo que qualquer um que já entrou em uma cozinha deve conhecer. Suponha que eu que sou péssimo cozinheiro e um amigo meu que saiba cozinhar decidamos fazer uma feijoada. Ambos temos os mesmos equipamentos (fogão, panelas e outros instrumentos de cozinha), temos o mesmo tempo para cozinhar, digamos uma manhã de sábado, e também temos os mesmos ingredientes. Será que por usarmos a mesma quantidade de capital e as mesmas horas de trabalho teremos o mesmo produto no final da manhã. Provavelmente não. Meu amigo que sabe cozinhar deverá terminar a manhã com uma feijoada completa e ainda deve ter arranjado tempo para lavar o carro durante a manhã. Eu terei algo disforme que lembra de longe feijão com coisas não identificadas dentro, uma cozinha destruída e nem sequer terei tido tempo de dar bom dia à minha esposa, se tiver tido temo o humor não deixou.

O que explica a diferença de resultados? É fácil entender que a diferença está nas nossas habilidades de cozinhar, mas é difícil listar exatamente o que fez a diferença. Pode ter sido conhecimento da receita, paciência nos tempos, intuição sobre a ordem de cozinhar os ingredientes, experiência, melhor uso dos recursos do fogão (particularmente tenho dificuldades de acender o fogão), boa vontade e/ou dedicação e mais um bocado de outras coisas. Em teoria do crescimento econômico ocorre um fenômeno parecido. Sabemos que para um país crescer precisa de capital e de trabalho, mas também tem este algo mais que é difícil de descrever, porém fácil de entender. Na falta de um nome melhor este algo mais é chamado de produtividade total dos fatores (PTF) ou simplesmente produtividade. Alguns economistas também chamam de medida de nossa ignorância, dada a dificuldade de explicar o que é e de onde vem a PTF.

Desde meados do século XX, inspirados por Robert Solow queganhou um Nobel por trabalhos sobre crescimento econômico, vários economistas tem tentado contabilizar o quanto capital, trabalho e PTF podem explicar o crescimento. Os resultados típicos mostram que em países ricos a PTF é de longe a maior responsável pelo crescimento da economia. O motivo é intuitivo. A quantidade de horas de trabalho está limitada pela população e pela duração do dia, ninguém pode trabalhar mais que 24h por dia. A capacidade do capital de gerar produto também é limitada pelo que chamamos em economia de lei dos rendimentos decrescentes: quanto mais se usa capital menos produto o uso de capital vai gerar. Para entender o conceito de rendimento decrescente voltemos ao exemplo da feijoada.

Suponha que ao ver minha manhã perdida e minha feijoada não ter ficado nem mesmo digerível eu resolva ir almoçar na casa de meu amigo. Como ele não estava me esperando ele não fez feijoada suficiente para mim. Lembrem que ele é um grande cozinheiro, de forma que ele vai dar um jeito de colocar água no feijão e a feijoada acabará suficiente para todos e ninguém notará alteração do sabor. À medida que mais visitas inesperadas vão chegando vai ficando mais difícil aumentar a quantidade de feijoada só colocando água. Se muita gente chegar e ele continuar colocando só água para aumentar a quantidade de feijoada é capaz da feijoada dele ficar quase tão ruim quando a minha. Um economista diria que a água está sujeita a rendimentos decrescentes, ou seja, não é possível aumentar para sempre a produção de feijoada colocando apenas mais água.

Estando o capital sujeito a rendimentos decrescentes a teoria diz que não é possível que uma economia cresça para sempre apenas aumentando a quantidade de capital utilizada na produção. Porém o fato é que economias crescem e aparentemente este processo não é limitado, pelo menos não pelo capital. De onde então vem o crescimento? Como Robert Solow nos ensinou em meados do século XX o crescimento vem do aumento da produtividade, na realidade Adam Smith e outros economistas clássicos já sabiam disto, mas esta é outra conversa.

Tragamos esta conversa para o Brasil. De onde vem o crescimento brasileiro? Do capital, do trabalho ou da produtividade? A figura abaixo ilustra a resposta. A rigor eu deveria ter usado produto per-capita ou por trabalhador e capital por trabalhador, o resultado ficaria quase o mesmo, as conclusões as mesmas e eu teria que voltar novamente ao exemplo da feijoada para explicar a razão de usar estes conceitos. Desta forma usei produto, capital, trabalho e produtividade sem ajustar nada. Entre 1970 e 2011 o produto brasileiro aumentou 401%, o trabalho aumentou 204%, o capital aumentou 720% e a produtividade aumentou apenas 11%. De acordo com medidas usadas e conceitos de trabalho usados estes números mudam, mas a figura é sempre a mesma. O crescimento do Brasil vem do capital e não da produtividade.




Não é por acaso que não conseguimos crescer de forma sustentada. No início do processo de crescimento o capital era realmente importante e necessário para produção, não tínhamos fogão nem panelas. Quando isto ocorre a própria aquisição de capital leva ao aumento da produtividade mensurada. Máquinas novas significam tecnologias novas e novas possibilidades de produção. A medida que o tempo passou precisávamos ter feito a mudança para um crescimento via produtividade, não fizemos. O resultado foi a estagnação. Aumentamos o estoque de capital sem que este novo capital gerasse ganhos de produtividade. O Brasil investiu em estradas que não ficaram prontas, ferrovias que não passam trens e coisas do tipo. Equivale a jogar água na feijoada já aguada. Por outro lado não educamos nem qualificamos nossa força de trabalho e não facilitamos a vida de nossos empreendedores. Muito tempo e dinheiro já foram desperdiçados na estratégia de colocar água no feijão, sempre é tempo de tomar o caminho da produtividade, mas quanto antes melhor.

domingo, 15 de setembro de 2013

A História de duas Cidades

Brasil e Chile são países com muitas diferenças e algumas semelhanças. Entre as semelhanças está o fato que os dois passaram por ditaduras militares durante as décadas de 1970 e 1980, no Brasil a ditadura começou em 1964 enquanto no Chile começou em 1973. Outra semelhança é que ambos estão localizados na América Latina, região do mundo onde mais se questiona o conhecimento econômico convencional e também, por pura coincidência, a única região do planeta onde a cultura ocidental não trouxe riqueza, mesmo com décadas de paz. Entre as diferenças está o fato que ao contrário da ditadura do Brasil e das outras ditaduras que assombraram o continente a ditadura chilena não apostou na economia mágica de inspiração cepalina. Neste ponto o Chile se diferencia de praticamente toda a América Latina.

No post anterior mostrei o que chamo de Desastre da América Latina no pós-Guerra. Desta vez vou falar um pouco sobre o Chile, o único país que não embarcou de cabeça na agenda cepalina e a grande exceção ao desastre econômico que se abalou sobre o Continente. Especificamente vou comparar o desempenho econômico entre Brasil e Chile, no futuro falarei mais sobre o Chile e a América Latina. Se alguém se interessar pelo assunto recomendo que leiam o livro Left Behind: Latin America and the False Promise of Populism, escrito pelo professor Sebastian Edward. A figura abaixo mostra o PIB per-capita do Brasil e do Chile entre 1951 e 2010.




Notem que no começo do período o Chile era mais rico do que o Brasil, esta situação continuou até 1972 (o golpe do Chile foi em 1973) quando o Brasil ultrapassou o Chile, porém em 1992 o Chile ultrapassou novamente o Brasil e abriu uma grande dianteira. O que aconteceu? Aconteceu que enquanto o Brasil apostou na estratégia desenvolvimentista de transferir dinheiro para empresários e esperar que estes empresários nos levem ao mundo prometido da riqueza o Chile apostou na sabedoria econômica convencional: mercado tão livre quanto possível, regras simples e estáveis e investimento em educação. Enquanto nossos militares fizeram os PNDs inspirados na CEPAL (que ironicamente é sediada no Chile) os generais chilenos buscaram conselhos com economistas de Chicago, escola símbolo do livre mercado.

Antes de seguir adiante devo esclarecer duas coisas. A primeira é que o fato de um ditador escolher boas políticas econômicas não justifica em nenhuma hipótese a ditadura, FHC em seus dois mandatos e Lula em seu primeiro mandato provaram que é possível fazer reforma em uma democracia. A segunda é que assim como o Brasil não seguiu ao pé da letra as políticas cepalinas o Chile não seguiu ao pé da letra as políticas de Chicago, de fato podemos pinçar exemplos de políticas liberais no Brasil da época dos PNDs e encontrar exemplos de políticas intervencionistas no Chile dos Chicago-boys. Isto é normal, apenas sociopatas imaginam que podem impor a um país um conjunto de políticas totalmente compatível com alguma doutrina. O exercício de pinçar políticas é interessante e pode ser instrutivo, mas neste post estou mais preocupado com as linhas gerais de políticas seguidas no Brasil e no Chile do que em detalhes de políticas específicas.

O ponto que merece destaque é que a ditadura chilena optou por romper com o desenvolvimentismo e adotar medidas pró-mercado, o que o Brasil só fez nos anos 1990, enquanto a ditadura brasileira aprofundou o modelo desenvolvimentista com os três PNDs. A figura abaixo ilustra os efeitos das políticas chilenas e brasileiras no curto e no longo prazo.




A figura mostra um índice de PIB per-capita nos anos seguintes aos golpes. A série do Brasil começa em 1964 e termina em 2001, a série do Chile começa em 1973 e termina em 2010. No total são descritos os 37 seguintes ao golpe, os dados são da PWT 7.1, os períodos são delimitados pelo fato que 2010 é o último ano disponível na base, o Brasil termina em 2001 porque queria manter o mesmo número de períodos para os dois países. Desta forma o eixo horizontal representa o número de anos após o golpe. Note que logo após o golpe brasileiro a economia cresce de forma quase ininterrupta por 17 anos, após este período a economia entra em crise e depois fica estagnada de maneira que em 2001 o índice ainda era menor do que em 1980. No Chile ocorre o contrário, após o golpe ocorre uma recessão e depois um crescimento medíocre. Porém, pouco mais de 10 anos após o golpe a economia do Chile entra em uma trajetória de crescimento que dura até hoje. A lição é velha e conhecida: para colher no futuro é preciso plantar no presente. Reformas exigem sacrifícios, mas, se bem executadas, trazem ganhos significativos no futuro.

Agora olhem novamente a primeira figura. Notem que o Brasil retoma o crescimento no começo da década de 1990 e que este crescimento começa a tomar força em 2003. A década de 1990 no Brasil corresponde ao período entre 1973 e 1983 no Chile. Neste tempo foram feitas reformas importantes que tiraram o Brasil de uma década de estagnação e nos colocaram no caminho do crescimento. Não um crescimento concentrador de renda como o da década de 1970, um crescimento acompanhado de distribuição de renda e de ganhos de produtividade, modestos, mas ainda assim ganhos. Ao abandonar a agenda de reformas e optar pela volta do desenvolvimentismo a presidente Dilma está tirando o Brasil da trajetória chilena e nos condenando a repetir o passado. É um erro grave.

P.S.1. Este post atende a uma demanda de um dos raros leitores que me encaminharam demandas específicas. Espero que tenha atendido, no futuro voltarei ao tema com mais tempo.

P.S.2. O excelente blog Não Pise em Mim também está com um post sobre economia do Chile, recomendo a leitura.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

O Desastre da América Latina no Pós-Guerra.

A avaliação de políticas de crescimento econômico é sempre um exercício complicado. Além de exigir horizontes de tempo longos exige uma série de outros cuidados que torna o trabalho do avaliador quase impossível. Suponha que no início da década de 1950 um determinado país tenha implementado uma determinada política de crescimento e que após 60 anos este país continue pobre. É possível afirmar que a política falhou? Não.

Primeiro o avaliador teria de saber se a política foi interrompida. Depois é preciso saber se outras políticas foram utilizadas no país ou se algumas características do país fizeram com que a política não funcionasse. Existem várias técnicas econométricas para tratar destas questões, nenhuma é a prova de erros. Resta então a quem queira avaliar políticas de crescimento buscar o maior número possível de países na esperança de que se vários países adotaram políticas semelhantes com resultados semelhantes então o resultado é devido à política. Claro que este tipo abordagem não oferece respostas definitivas, é sempre possível que todos os países tenham sofrido efeitos não relacionados com a política e que estes efeitos sejam responsáveis pelo resultado observado. Entretanto se um número grande de países adotou determinadas política e todos tiveram resultados semelhantes no mínimo é de se esperar que os defensores da política expliquem o que acontece antes de sair pedindo a reedição desta política.

A América Latina oferece um exemplo interessante. Na segunda metade do século XX praticamente todos os países da América Latina adotaram políticas de estimular a produção industrial local como forma de estimular o crescimento. A tese de que este estímulo era a chave do crescimento estava fundada em estudos da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (CEPAL). Grosso modo a ideia da CEPAL era que os preços das matérias primas (agrícolas e minerais) tendiam a cair em relação ao preço dos bens industrializados. Desta forma um produtor de soja teria de dar cada vez mais sacas de soja para obter um automóvel ou uma televisão. A conclusão imediata era que um país que só produza matérias primas tenderia a ficar cada vez mais pobre em relação a um país que produza bens industrializados.

Para conseguir estimular a produção industrial os países da América Latina seguiram uma estratégia conhecida como substituição de importações. A ideia era simples: o país proibia a importação de um determinado bem industrializado e usava recursos públicos para subsidiar a produção deste bem no território do país. A indústria automobilística brasileira é um exemplo de como isto aconteceu, até o início da década de 1990 importar um automóvel no Brasil era praticamente impossível. Esta estratégia foi seguida por vários países do final da II Guerra Mundial ao final da década de 1980. Foram quase 40 anos de aplicação de uma política por vários países distintos. A figura abaixo mostra o resultado.



A figura mostra a renda média de países selecionados da América Latina como proporção da renda média dos EUA, quando a linha da figura está subindo o país está crescendo mais do que os EUA, quando está caindo o país está crescendo menos que os EUA. Entre 1951 e 2010 apenas Brasil, Chile, Colômbia e México cresceram mais dos que os EUA. Entre 1951 e 1990, que vou chamar de período desenvolvimentista, apenas Brasil, México e Paraguai cresceram mais do que os EUA, sendo que nos dois últimos ficaram praticamente estáveis. Entre 1990 e 2010, que vou chamar período das reformas, todos, com exceção do Paraguai e do México cresceram mais do que os EUA. Como de 2000 a 2010, apesar da previsão Cepalina de queda de preços das matérias primas, ocorreu um aumento gigantesco nos preços das matérias primas muitas das quais produzidas nos países da América Latina fica difícil analisar o período das reformas. Mas o fracasso do desenvolvimentismo é evidente: quarenta anos de políticas de incentivos à indústria foram incapazes de fazer com que a América Latina se aproximasse dos EUA, pelo contrário, ficamos mais distantes. A guisa de comparação a renda média da Coréia do Sul em 1954 era 10% da dos EUA, em 1990 era 40% e em 2010 era de 61%.

Defensores do desenvolvimentismo são rápidos em dizer que a Coréia do Sul também incentivou a indústria, o que é um fato. Infelizmente não são tão rápidos em explicar por qual razão lá a política de incentivos estimulou (ou não atrapalhou, dependendo do analista) o crescimento lá e aqui não. Retomar o desenvolvimentismo, como tem sido feito por vários governos da América Latina, sem entender o que aconteceu no passado é uma aventura cara e perigosa. Usar dinheiro dos impostos pagos pelas populações muitas vezes miseráveis de nuestra América para financiar empresários sob a promessa que estes empresários vão nos levar ao sonhado desenvolvimento econômico é ter mais ingenuidade do que me parece aceitável. Nossa experiência mostrou que os beneficiários destas políticas não pensam duas vezes antes de apoiar ditadores de ocasião à primeira ameaça de uma mudança nas regras do jogo que diminua as benesses dos incentivos e do protecionismo. Vamos arriscar de novo? Por que desta vez será diferente?

Reconheço que praticamente todos os países hoje desenvolvidos em algum momento incentivaram a indústria, mas esta não é a única característica comum a todos os países desenvolvidos. Existem outras, por exemplo, educação. Todos os países desenvolvidos têm bons sistemas educacionais. Por que desta vez não tentamos o caminho da educação? Por que não destinar os bilhões que o BNDES empresta a juros de pai para filho para criar um sistema educacional padrão FIFA? Não se trata de direita e esquerda, Brizola e Anísio Teixeira fizeram propostas deste tipo. Este investimento em educação garante nossa entrada no primeiro mundo em 20 ou 30 anos? Não, mas o incentivo à indústria também não nos levou ao primeiro mundo. Se escolhermos ela educação pelo menos não estaremos alimentando uma casta de empresários e políticos dispostos a sacrificar a democracia, pelo contrário, estaremos criando um povo educado e quem sabe até capaz de defender nossas liberdades.

sábado, 31 de agosto de 2013

Mais uma Tese para queda da Participação da Indústria no PIB

Esta semana foi muito corrida e não pude dar atenção ao blog, acontece. Porém entre viagens e esperas de reuniões consegui ler o Panoramada Indústria de Transformação Brasileira, recém lançado pela FIESP e um textodo José Oreiro e do Nelson Marconi sobre o que eles chamam de teses ortodoxas arespeito da desindustrizalização brasileira. O texto da FIESP é motivado pelo fenômeno ilustrado do Gráfico 1 do texto e que está reproduzido abaixo.




Fica bem claro que a participação da indústria de transformação no PIB está voltando aos níveis pré-JK. Também é possível observar que este fenômeno começou antes da abertura da economia, antes da estabilização macroeconômica com juros altos e câmbio valorizado e antes da Constituição de 1988. Sendo anterior a estes fenômenos, a prudência recomenda que explicações para queda da participação da indústria no PIB não dependam de nenhum destes fenômenos. Qual seria então a explicação para esta queda? Oreiro e Marconi citam dez teses que eles consideram englobar o pensamento ortodoxo sobre o tema e que eles consideram equivocadas. As teses são:

1. A desindustrialização é um fenômeno mundial.
2. A economia brasileira não está se desindustrializando.
3. A desindustrialização brasileira é decorrência natural do seu estágio de desenvolvimento
4. A indústria é um setor como outro qualquer.
5. O caso da Austrália mostra que a industrialização não é fundamental para um país se tornar membro do primeiro mundo.
6. A desindustrialização brasileira não se deve a apreciação da taxa de câmbio.
7. A apreciação cambial no Brasil é similar a dos demais países emergentes.
8. A perda de competitividade da indústria brasileira deve-se ao baixo dinamismo da produtividade e ao crescimento dos salários.
9. A apreciação cambial é decorrente da implementação do “Estado do Bem-Estar Social”.
10. O câmbio apreciado veio pra ficar.

Como eles mesmos reconhecem as teses não são necessariamente consistentes entre si, posto que defendidas por autores diferentes, mas também não são mutuamente exclusivas entre si, embora possam ser aos pares. Estritamente falando apenas as teses 3 e 8 tentam explicar a desindustrialização. A tese 1 se limita a contextualizar sem explicar o fenômeno. A tese 2 nega o fenômeno. As teses 4 e 5 dizem que o fenômeno não é relevante mas não tratam da existência ou natureza do fenômeno. A tese 6 fala sobre o que não é causa, mas não tenta explicar qual a causa. As teses 7, 8 e 10 tratam do câmbio e não da indústria. Naturalmente conhecendo a opinião dos autores sobre industrialização é possível inferir que estes veem o câmbio como variável fundamental para explicar a participação da indústria no PIB e, portanto, ao tentar explicar o câmbio as teses 7, 8 e 10 também explicariam a queda desta participação. Mas isto só é verdade se aceitarmos que a taxa de câmbio explica a participação da indústria no PIB, o que não é consenso entre economistas e particularmente não é consenso entre economistas ortodoxos que, afinal, seriam os autores das teses.
Desta forma teses propriamente ditas são duas:

3. A desindustrialização brasileira é decorrência natural do seu estágio de desenvolvimento
8. A perda de competitividade da indústria brasileira deve-se ao baixo dinamismo da produtividade e ao crescimento dos salários.

A terceira tese é interessante, mas da forma que está escrita não me comove muito. Sou meio cético a respeito de teorias que envolvem estágios de crescimento para tratar da indústria. No texto eles apresentam o problema de forma mais interessante, particularmente concordo que o aumento da renda per-capita explica parte da queda da participação da indústria no PIB. A oitava tese tem uma casca de banana. A parte do baixo dinamismo da produtividade está perfeita a parte dos baixos salários é controversa, alguém poderia reescrever a tese como: “Crescimento dos salários acima do crescimento da produtividade do trabalho” e não estaria mentindo se dissesse que é uma tese defendida por economistas heterodoxos à la Kaldor. Que fique claro que eu concordo que o baixo crescimento da produtividade é parte do problema.

Fiz esta introdução para apresentar outra tese a respeito da queda da participação da indústria de transformação no PIB, não vou dizer que é minha tese porque imagino que mais gente por aí já tenha dito o mesmo. Eis a tese:

Os fundamentos da economia brasileira (preferências, tecnologia, dotações e instituições) são tais que em equilíbrio a participação da indústria no PIB é baixa. O atual fenômeno nada mais é que um retorno ao equilíbrio após anos fora do equilíbrio devido a políticas pró-indústria.

Não é uma tese sem implicações. Vou falar sobre duas, no futuro escreverei em defesa da tese. A primeira implicação é que se o Brasil pretende reverter este fenômeno deve mudar os fundamentos da economia. Como querer indústria em um país com um dos piores sistemas de educação do mundo e onde é mais fácil ficar rico nos bastidores de Brasília do que empreendendo? Sem capital humano não tem produtividade e sem produtividade não tem indústria sustentável. A ideia do trabalhador-cliente que sustenta o processo de industrialização só faz sentido se este trabalhador for produtivo o suficiente para ter uma renda que o permita ser consumidor. De certa forma estou falando da tese 8, porém com ênfase na produtividade e não no salário. A outra implicação é que, sem mudanças nos fundamentos da economia brasileira, a queda da participação da indústria representa um retorno ao equilíbrio e, portanto, a princípio é desejável. Sendo desejável não deve ser combatida pelo governo.


Em resumo acredito que a participação da indústria de transformação na economia é uma variável endógena. Desta forma não deve ser objeto direto de políticas econômicas. Se é para ter uma indústria mais forte então que se mudem os fundamentos da economia da economia brasileira, do contrário estaremos condenados a ciclos de aumento e queda da indústria.

sábado, 24 de agosto de 2013

O que está acontecendo com o câmbio?

O gráfico abaixo mostra a taxa de câmbio entre real e dólar no Brasil de janeiro de 2008 até hoje, peguei a série na página de cotações do UOL. Pelo gráfico podemos ver dois momentos em que a taxa de câmbio passou de R$ 2,40 por dólar. O primeiro foi no final de 2008, durante a crise financeira, e o segundo foi semana passada. Qual a diferença entre os dois momentos? Olhando o gráfico com cuidado é possível ver que em 2008 a subida se deu de forma repentina, em menos de um mês o dólar passou de menos de R% 1,60 para mais de R$ 2,40. Este tipo de movimento brusco costuma ser causado por movimentos especulativos.




Por alguma razão o mercado começa a comprar dólar, em 2008 a razão foi a crise, e o preço do dólar começa a subir. Esta subida faz com que todo mundo corra para comprar dólares antes que fique ainda mais caro levando a um aumento repentino da demanda por dólares e uma redução da oferta de dólares, afinal quem tem dólar não quer vender se acredita que o preço vai subir. Em situações como esta o Banco Central deve entrar no mercado vendendo dólares. Esta política tem dois efeitos: aumenta a oferta de dólares e sinaliza para o mercado que a alta do dólar pode ser revertida. Como ninguém quer vender barato, principalmente se comprou caro, o mercado começa a vender dólares. Manobras como esta, se bem executadas, podem trazer o câmbio de volta para o valor de antes de tudo começar. Foi o que aconteceu em 2008/09. Note que a intervenção do Banco Central foi para evitar um movimento especulativo que poderia ser danoso à economia como um todo, tal tipo de política não é exatamente um rompimento com o regime de câmbio flutuante. Embora deva reconhecer que é preciso alguma arte para saber quando começar intervir e quando parar de intervir nestas situações. Talvez o fato que em 2008 o Banco Central era presidido por um economista vindo do mercado tenha ajudado no timing.

Desta vez a subida se deu de forma diferente. O dólar saiu do patamar de R$ 1,60 no final de 2011, chegou a R$ 2,00 em meados de 2012 onde ficou por um bom tempo e recentemente teve uma subida íngreme (porém não tanto quanto em 2008) até passar de R$ 2,40. Perceberam a diferença entre uma desvalorização puramente especulativa como a de 2008 e uma desvalorização induzida pelo governo como a atual? Ocorre que câmbio é uma variável difícil de prever e controlar, tudo indica que a recente desvalorização foi mais rápida (não necessariamente maior) que a desejada pelo governo. Existem várias explicações para isto ter acontecido e quase todas guardam um pedaço da verdade. O fato é que o Banco Central resolveu agir como quem combate um movimento especulativo. Vais dar certo? Difícil prever.

Como falei acima câmbio é uma variável complicada. Neste caso além das dificuldades usuais tem um fator que pode complicar a estratégia do Banco Central. Nós não somos os únicos a olhar o gráfico deste post, todo o mercado o conhece. Isto significa que o mercado sabe que o governo deseja um real desvalorizado, até porque vários ministros já disseram isto em momentos diferentes. Sendo assim como acreditar que o governo de fato vai se emprenhar para trazer o dólar de volta a digamos R$ 2,00? Na semana passada o governo deu sinais fortes que não vai deixar o real se desvalorizar, tão fortes que deram resultados e o dólar recuou para menos de R$ 2,40. Mas e se o governo mudar de ideia? Não será a primeira vez que o governo muda de ideia em assuntos importantes, sequer será a primeira vez este ano. O próprio governo não mudou de ideia ao decidir intervir no mercado para não deixar o dólar chegar a R$ 2,50? Valor menor que o Ministro Mantega considerou ideal em 2009.

Esta incerteza tem custo. Se o governo de fato quiser “segurar” o dólar vai acabar gastando mais do que gastaria se tivesse a confiança do mercado. Se o governo mudar de ideia e resolver “aceitar” um câmbio a R$ 2,60 ou mais terá literalmente jogado dinheiro fora. Particularmente sou de opinião que o governo deva deixar o câmbio flutuar, isto evita a tarefa impossível de determinar a taxa de câmbio correta. Mas se o governo pretende fixar um valor ou um intervalo de flutuação para o câmbio é bom que faça isto de maneira clara. Do jeito que está é o pior dos mundos.


P.S. Dada a dificuldade de prever o que vai acontecer com o câmbio se você está com viagem de fim de ano marcado para o exterior e ainda precisa comprar dólares, comece a comprar agora e vá comprando aos poucos até o final do ano. Assim se o dólar subir você já comprou uma parte e não terá de comprar tudo tão caro e se o dólar cair você poderá comprar uma parte a preços mais baixos.