sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Números do PIB: Fracasso da Nova Matriz e desmoralização do discurso que a culpa é do resto do mundo

É difícil encontrar em economia um caso tão claro de uma política econômica que deu errado como a Nova Matriz Econômica do primeiro governo Dilma, sei que alguns vão pensar que a essa altura criticar a Nova Matriz é chutar cachorro morto, mas não concordo que seja. No final da década de 1990 eu e muitos outros economistas da minha geração e mesmo da geração anterior cometemos o erro de pensar que estávamos livres do intervencionismo no estilo da Nova Matriz, como sabemos hoje foi um erro grave, com a guarda baixa os alquimistas da economia encontraram espaço para voltar com fórmulas que foram vendidas como capazes de fazer o Brasil crescer ou recuperar a força da indústria com apenas alguns decretos e mudanças nas políticas monetária e fiscal. Mesmo hoje não estamos livres de tais saídas fáceis, se uma pessoa desatenta ler nos jornais as recentes medidas da área econômica é muito provável que pense que Mantega ainda está no comando.

Os números do PIB divulgados hoje mostram de forma inequívoca que a Nova Matriz não foi capaz de entregar o que prometeu, outros números da economia mostram que além de não ser capaz de entregar o que prometeu a Nova Matriz tirou do eixo o que estava funcionando. Como é de conhecimento comum a Nova Matriz foi apresentada como uma política econômica que seria capaz de estimular o crescimento, Dilma chegou a falar que seria a presidente do PIBão, aumentar a taxa de investimento e estimular a indústria. Os dados mostram que a economia está encolhendo, o investimento caindo e a participação da indústria no PIB continua em queda livre. O quadro fica mais grave quando levamos em conta que a inflação não para de subir, a processo de redução da pobreza parou e aparenta ter sido revertido e mesmo o desemprego, que parecia ser a única variável imune ao desastre da Nova Matriz, começou a dar sinais claros que saiu de controle.

Comecemos com o PIB (os dados usados estão aqui e aqui), na comparação com o trimestre anterior houve uma queda de 1,9% que em termos anualizados corresponde a uma queda de 7,8% do PIB, o número anualizado é relevante para comparações com outros países, em particular com os EUA, que divulgam números anualizados, e ajuda a perceber o tamanho do problema que estamos. Ao contrário de outros períodos dessa vez nem a agropecuária escapou e teve uma queda de 2,7%. A indústria caiu 4,3% e o setor de serviços, um setor importante do ponto de vista do emprego, encolheu 0,7%. Do ponto de vista da demanda houve queda de 2,1% no consumo das famílias, queda de 8,1% no investimento e aumento de 0,7% no consumo do governo. Aparentemente os donos e as donas de cada pelo Brasil estão tendo mais sucesso em reduzir gastos do que a equipe liderada por Joaquim Levy.

Passemos a comparação com o mesmo período do ano anterior, uma análise que me parece mais relevante. Em relação ao segundo trimestre de 2014 o PIB encolheu 2,6%. Pelo lado da oferta a agropecuária foi o único setor que não diminuiu em relação ao segundo trimestre de 2014, houve um crescimento de 1,8%, a indústria encolheu 5,2% e o setor de serviços encolheu 1,4%. Pelo lado da despesa houve queda no consumo das famílias (2,7%), no consumo do governo (1,1%) e no investimento (11, 9%). Apesar da insistência do governo em culpar o resto do mundo por nossa crise as exportações foram o único grupo da demanda que apresentou crescimento, cresceu 7,5% em relação ao segundo trimestre de 2014, as importações caíram 11,7%.

Dos principais setores da indústria a maior queda registrada foi na indústria de transformação que encolheu 8,3% seguida de perto pela construção civil que diminuiu 8,2%, a produção e distribuição de eletricidade, água e gás diminuiu 4,7% e, reforçando a tese que o resto do mundo mais ajuda do que atrapalha, a indústria extrativa que depende muito da economia internacional cresceu 8,1% e evitou um desastre ainda maior na indústria. A queda da participação da indústria de transformação no PIB é um dos atestados de fracasso da política econômica de Dilma. Quando Dilma tomou posse a indústria de transformação representava 15% do valor agregado e 12,7% do PIB, no segundo trimestre de 2015 a indústria de transformação representou 10,7% do valor agregado e 9,1% do PIB. É triste lembrar que fortalecer a indústria de transformação foi um dos motivos alegados pelo governo para abandonar o Tripé Macroeconômico que pelo menos vinha conseguindo manter a inflação controlada.

A queda da taxa de investimento tanto medida como formação bruta de capital fixo (aquisição de máquinas, equipamentos e estruturas) quando medida pelo investimento propriamente dito (formação bruta de capital fixo mais variação dos estoques) é outro atestado do fracasso da Nova Matriz. Uma política econômica que tentou reduzir juros na marra para estimular o investimento acabou por levar o investimento de aproximadamente 20% do PIB para 17,5% do PIB. A queda do investimento sinaliza que recuperação ainda não está no horizonte, pela primeira vez desde 2009 houve uma queda nos estoques no segundo trimestre.

Os números do segundo trimestre de 2015 são devastadores, um governo normal estaria preocupado em tomar as medidas necessárias para que a economia saia o quanto antes da crise. Infelizmente nosso governo se encastelou em mundo de fantasias de onde tudo que a presidente consegue dizer é que o próximo ano não vai ser maravilhoso. Estamos mal.



segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Clube dos Céticos

Hoje fui surpreendido por um trecho de um debate entre Alexandre Schwartsman e Luís Carlos Mendonça de Barros (link aqui), no trecho Schwartsman fala de uma visão um tanto ingênua (o trecho começa após a descrição da tal visão, mas no restante do vídeo é possível imaginar qual seja) e Mendonça de Barros toma as dores de quem possui tal visão e coloca Schwartsman em um Clube dos Céticos. Segundo Mendonça de Barros o clube seria formado por pessoas que acham que o Brasil está fadado a dar errado, o termo fadado me pareceu demasiado forte, talvez possa ser explicado pelo calor do momento, mas se no lugar de fadado Mendonça de Barros tivesse dito pessoas que acreditam que o Brasil está condenado a dar errado em um horizonte de tempo onde é possível fazer previsões eu, mesmo sem ter sido convidado, me colocaria como parte do clube. Como fica claro no trecho Mendonça de Barros não apenas não pertence ao Clube dos Céticos como é um crítico do Clube, sendo assim vou tomar a liberdade de dizer que Mendonça de Barros faz parte do Clube dos Esperançosos.

Antes de seguir adiante creio que devo fazer um registro. Quem me acompanha aqui no blog ou no FB já me viu fazer críticas duras a colegas de profissão que passaram por governos desastrosos e aparecem e vez em quando para dar conselho esquecendo as bobagens que fizeram, exemplos são economistas que participaram de equipes econômicas que congelaram preços dando lições de como combater a inflação. Não coloco Luís Carlos Mendonça de Barros nesta lista, é verdade que discordo de várias ideias de Mendonça de Barros e tenho várias críticas ao governo FHC, inclusive a forma como foram feitas as privatizações, mas vejo o saldo dos governos FHC como extremamente positivo. Só o fim da inflação descontrolada seria motivo para listar o governo FHC como um dos melhores que já tivemos e (quase) me fazer ficar arrependido de ter anulado voto em 1994 e 1998, mas além da estabilização os governos FHC nos legaram as privatizações, reformas e uma política econômica que perdurou até 2010 marcando um período de crescimento, estabilidade de preços e redução de pobreza como poucas vezes registrados na história. Mendonça de Barros não é um daqueles economistas que meu amigo Adolfo Sachsida bem chamou de economistas do fracasso (link aqui), mas ele é parte do Clube dos Esperançosos e eu sou (ou pelo menos quero ser) do Clube dos Céticos, como todos sabemos jogo é jogo e quando a bola está rolando não há espaço para elogios nem cuidados além dos que já tomei nesse parágrafo de preliminares.

O Clube dos Céticos costuma ser duramente cobrado e acusado nos tempos de bonança, principalmente por empresários, políticos que ocupam o poder e, pior de todos, pelos apoiadores dos políticos que ocupam o poder. Já os esperançosos costumam ser cobrados em momentos de crise como o que estamos vivendo. Sendo eu membro ou pelo menos aspirante ao Clube dos Céticos não vou perder a oportunidade de pegar no pé de Mendonça de Barros, o homem do Clube dos Esperançosos.

Comecemos por um texto publicado no Valor Econômico em janeiro de 2012 (link aqui). No texto Luís Carlos Mendonça de Barros aponta o ativismo econômico do governo Dilma como uma possível fonte de problemas e faz referências ao arcabouço teórico de economia de Dilma que seria mais claro e sofisticado que o de Lula. Ironias à parte o trecho que quero destacar do artigo é o seguinte:

“Nas minhas palestras e encontros com investidores e empresas - no país e no exterior - tenho citado este fato para mostrar que considero o Brasil o mais estável e seguro dos Brics. E digo ao leitor do Valor que esse ponto marca muito a opinião de meus ouvintes.”

Leiam o texto com cuidado e vejam como é difícil encaixar o trecho acima na análise que o autor realiza, fosse Mendonça de Barros um membro do Clube dos Céticos a análise que fez no texto o levaria a não recomendar o Brasil ou pelo menos recomendar com muita cautela, como ele é do Clube dos Esperançosos chegou a conclusão contrário e listou o Brasil como o “mais estável e seguro dos Brics”. Basta olhar a trajetória do câmbio para ver que os investidores que seguiram o conselho de Mendonça de Barros devem estar bastante contrariados...

Ainda em janeiro de 2012 Mendonça de Barros escreveu para o UOL um texto chamado “Minha Bola de Cristal para 2012” (link aqui) onde dizia que:

“No caso do Brasil, mantenho a visão de que vamos continuar crescendo entre 3% e 3,3%, com uma taxa menor nos dois primeiros trimestres do ano e uma aceleração na sua segunda metade.”

Em 2012 a economia brasileira cresceu 1%! No mesmo texto ele justifica o prognóstico dizendo que:

“A fonte principal do crescimento continuará a vir do consumo interno, sustentado pelo aumento dos salários, do emprego e do crédito ao consumo. Nesse cenário, o Brasil vai continuar a receber volumes expressivos de investimentos internacionais e, com isso, conseguir complementar nossa escassa poupança interna e permitir manter um nível decente de investimentos.”

Olhando de 2015 me parece justo dizer que se não tivesse tomado pelo espírito do Clube da Esperança o autor não teria feito nem a previsão que fez nem muito menos teria dado a explicação que deu para previsão, um pouquinho de ceticismo teria permitido a Mendonça de Barros concluir que as distorções na microeconomia que ele bem apontou no texto do Valor, publicado no mesmo mês do texto do UOL, impediriam tanto o crescimento previsto quando inviabilizariam o funcionamento da lógica descrita no trecho acima.

Sigamos para 2014. Em janeiro daquele ano Mendonça de Barros em entrevista ao Valor Econômico reproduzida em várias páginas na internet (link aqui) afirmou que:

“A expectativa errada foi criada por analistas que achavam que estávamos à beira do precipício. Eu nunca comprei essa teoria, portanto esse número não me causa surpresa. Mas se a economia cresceu 2,3% no ano, ao se pegar o quarto trimestre de 2013 contra o quarto de 2012, o crescimento já é menor, de 1,9%. O que quer dizer que, na ponta, a economia já está desacelerando, por isso a previsão para 2014 é de alta de 1,7% ou 1,8%. Ao se olhar a curva das vendas do varejo, que é uma proxy do consumo, ela vinha crescendo 10% em termos reais entre 2010 e 2011, e hoje cresce 4%. A terapia é correta. Mas isso leva a um crescimento mais baixo.”

Em 2014 a economia só não teve crescimento negativo por conta de uma mudança na metodologia de cálculo do PIB feita pelo IBGE, mesmo com a mudança o crescimento foi de 0,1%. Um cético teria aprendido com o erro de 2012 e não teria dado a seguinte declaração a respeito dos que acertadamente previam que 2014 seria um ano muito ruim:

“Pessimismo é exagerado porque boa parte dos agentes substituiu o cérebro pelo fígado e essa é a pior coisa que pode acontecer para um analista econômico.”

Quem diria... ou o fígado pensa melhor do que o cérebro ou não eram bem os pessimistas que estavam pensando com o fígado. Novamente acredito que um pouco mais de ceticismo ou pessimismo e um pouco menos de esperança Mendonça de Barros teria visto claramente que os erros no setor energético e no superávit primário eram maiores, mais desastrosos e tinham mais companhias do que olhos dominados pela esperança poderiam enxergar.

Deixei o trecho mais marcante para o final. O texto não era exatamente sobre o Brasil e sim um conjunto mais amplo de países compostos pelos Brics mais Argentina, Chile, Indonésia e Turquia. O trecho é de um texto publicado no Valor Econômico (link aqui) e reproduzido em vários blogs, leiam com atenção:

“Tenho manifestado minha opinião de que não acredito no cenário de catástrofe que os mercados vêm precificando. Repito aqui a mesma confiança nos ajustes não traumáticos - induzidos pela ação dos governos - pelos quais passam de tempos em tempos as economias de mercado. Construí esta forma de encarar estes tremores a partir do pensamento e reflexões de Lord Keynes. E não me arrependi dela ao longo de toda a minha carreira no mercado financeiro, como personagem e analista.”

Particularmente acredito que em relação ao Brasil e outros países da lista os mercados pecaram por excesso de otimismo, mas essa é uma discussão longa, ao contrário dos outros trechos que citei nesse post o trecho acima não é facilmente desfeito com uma olhada rápida nos dados. É um trecho onde é feita uma declaração de confiança na capacidade dos governos de evitarem crises, inclusive em países como Brasil e Argentina. Na leitura de um cético me parece um caso clássico onde a esperança vence a experiência, uma declaração comparável à do sujeito que indo para o oitavo casamento afirma confiar na capacidade dos laços matrimoniais resolverem crises conjugais.



quinta-feira, 30 de julho de 2015

Inflação, economia real e o aumento da taxa de juros.

Não é possível contar a história recente da economia brasileira sem mencionar o esforço para trazer a inflação para níveis civilizados. Durante muitos anos o debate econômico no Brasil girou em torno de temas relacionados à inflação, alguns debatiam como conviver com a inflação, outros debatiam como reduzir a inflação e outros se dedicavam a entender as origens e as causas da inflação. Não vou questionar a validade de tais debates, grosso modo acredito que foram em vão, entrar nessa questão desviaria o foco do post, apenas registro que quando finalmente conseguimos controlar a inflação fizemos o que todo mundo faz: usamos política monetária. Sem o uso da política monetária o Plano Real quase certamente teria sido mais um exemplo de fracasso, o controle inicial da inflação teria evaporado em menos de um ano.

Os críticos do uso da política monetária para controlar a inflação costumam apontar efeitos coletarias reais ou imaginários da elevação da taxa de juros. Uma leitura nos jornais é suficiente para encontrar dezenas de autores falando como a elevação da taxa de juros pode causar desemprego, acabar com o crescimento da economia, reduzir investimento, valorizar o câmbio, comprometer as exportações e ainda destruir as contas públicas. Particularmente creio que a maior parte dos efeitos listados são fantasiosos ou são falácias, a relação entre a política monetária e as variáveis reais da economia (e.g.: emprego, crescimento e taxa de investimento) é, para dizer o mínimo, mal compreendida pelos economistas. Porém não nego que alguns efeitos existem, no final do dia a taxa de juros é um preço e mudanças em qualquer preço beneficiam uns e prejudicam outros, via de regra beneficia vendedores, no caso os donos dos recursos emprestados, e prejudica os compradores, no caso os que pegam dinheiro emprestado. Nada de catastrófico e nada de impressionante, apenas o dia a dia da economia.

São tantos argumentos e tantos autores criticando o aumento da taxa de juros que o leitor pode estar se perguntando se eu estou louco ou eu sou um economista do mercado financeiro. A primeira dúvida eu não posso tirar, acredito que não sou louco, mas dizer que não é louco é uma característica dos loucos. A segunda dúvida eu posso esclarecer, não sou ligado a nenhum banco ou corretora ou nada que tenha relação com o sistema financeiro, sou professor na Universidade de Brasília e trabalho com produtividade, não faço nada que interesse diretamente aos investidores no mercado financeiro. Ocorre que sou um macroeconomista aplicado e tenho por hábito olhar os dados. A figura abaixo foi elaborada com dados do Ipeadata e mostra a taxa Over/Selic e a diferença entre a taxa Over/Selic e o IGP-DI, uma proxy para juros reais, desde agosto de 1994, ou seja, desde o mês seguinte ao Plano Real. Repare que nem a taxa nominal (linha azul) nem a diferença entre a taxa nominal e a inflação (linha laranja) estão em valores particularmente altos, pelo contrário, a média da taxa nominal mensal entre agosto de 1994 e junho de 2015 foi de 1,4% e em junho de 2015 o valor foi de 1,06%, a média da diferença entre a taxa nominal e a inflação no mesmo período foi de 0,72%, em junho de 2015 o valor foi 0,39%, pouco mais que metade da média.




Visto que a taxa de juros atual, nem a nominal nem a proxy que usei para taxa real, estão abaixo da média observada desde a estabilização seria o caso de perguntar se a economia está melhor do que quando as taxas de juros estavam mais altas. Talvez seja útil saber que apenas nos últimos meses do primeiro mandato de Lula a taxa nominal foi menor que de junho de 2015, ainda assim Lula foi reeleito e se tornou o presidente mais popular da história recente. Da mesma forma a taxa de juros média dos dois mandatos de Lula foi de 1,14% ao mês, maior que a de junho de 2015, no mandato de Dilma a média foi de 0,8%, bem menor que a de Lula. Alguém está disposto a argumentar que a economia teve melhor desempenho no governo Dilma do que no governo Lula?

A verdade é que como acontece com vários preços não sabemos muito a respeito de como mudanças na taxa de juros afetam o lado real da economia, porém sabemos que a taxa de juros é um bom instrumento para combater a inflação e que a inflação não apenas transfere recursos da sociedade para o governo (e para os bancos) como penaliza as famílias que tem dificuldade para reajustar suas rendas, sendo assim a inflação prejudica sobremaneira a pensionistas, assalariados e beneficiários de programas sociais. Não entendo porque tantos criticam o uso de um instrumento que já mostrou ter feito para combater a inflação por conta de efeitos colaterais mal definidos e que parecem contrários aos fatos.... talvez eu entenda...




domingo, 26 de julho de 2015

Reformas e Indústria Automobilística: uma leitura do Anuário Estatístico da Indústria Automobilística

O leitor que acompanha o blog sabe que um dos principais motivos para existência desse espaço é denunciar a agenda de contrarreformas que começou por volta de 2006 e tomou força a partir de 2011 com a chegada de Dilma ao poder. O fracasso da Nova Matriz Econômica proposta pela equipe econômica do primeiro governo Dilma hoje é evidente. Um programa que prometia aumentar o crescimento e a taxa de investimento, recuperar a participação da indústria no PIB e ainda manter a inflação sobre controle e aprofundar o processo de redução da pobreza extrema e desconcentração de renda teve como resultado o exato oposto do que propunha. O país parou de crescer, a taxa de investimento reverteu a tendência de crescimento, a participação da indústria no PIB continuou caindo, a inflação subiu, a miséria aumentou e o processo de desconcentração de renda perdeu força. Diante de tamanho fracasso continuar batendo na agenda de contrarreformas poderia ser visto quase como uma forma de sadismo, mas não é. As ideias que inspiraram tanto as contrarreformas quanto a infame Nova Matriz Econômica continuam vivas e fortes apenas esperando uma nova oportunidade de voltarem a pautar a política econômica.

Sou de uma geração de economistas que ousou sonhar que o desenvolvimentismo à brasileira tinha saído de cena de uma vez por todas. Por algum tempo pensei que estávamos livres do cotidiano de fortunas construídas do dia para noite por empresários especializados em tomar financiamento subsidiado do governo para construir obras ou produzir mercadorias superfaturadas para o próprio governo. Não que a corrupção fosse acabar ou que aqui ou ali não aparecesse um caso de sucesso empresarial tão inexplicável quanto próximo ao governo, infelizmente essas coisas existem em qualquer lugar do mundo, mas confesso que pensei que casos assim deixariam de ser regra e passariam a ser exceção. Ledo engano, mal nos recuperamos da crise da década de oitenta e trouxemos de volta o BNDES bem como os grandes programas de infraestrutura definidos em Brasília e financiados pelo contribuinte. É bem verdade que governo grande nunca saiu de cena, mas o governo que transfere renda para os muito ricos à guisa de financiar o desenvolvimento tinha saído de cena e estava de volta à ribalta.

No meio de crise fiscal, ameaça de volta da inflação, demissões em massa e ainda por cima de uma crise política que toma contornos de crise institucional é fácil ver que tudo deu errado, mas pode ser difícil enxergar os detalhes do processo que fez com que tudo desse errado. Com o objetivo de ilustrar a origem do mal que nos assola resolvi dar uma olhada no anuário estatístico da indústria automobilística (link aqui) e tentar ver como seria possível contar a história das reformas e das contrarreformas a partir dos dados de um setor da indústria que sempre esteve no centro das atenções de nossas políticas industriais. Para isso devo dizer que um dos elementos da lógica das contrarreformas é o que se chama de macroeconomia do emprego e da renda, a ideia é que a política econômica deve ser focada em garantir o emprego e a renda dos trabalhadores. Uma vez garantidos o emprego e a renda, na prática mais o emprego do que a renda, a demanda também estaria garantida e o espírito animal dos empresários faria o resto, ou seja, garantiria os investimentos necessários para aumentar a capacidade produtiva da economia. Caso algo desse errado bastaria o governo aumentar gastos de forma a garantir a demanda e manter vivo o espírito animal.

Um dos pontos desta lógica que mais me incomoda é que ela pressupõe poder guiar o espírito animal, qualquer um que tenha contato com animais sabe o quão difícil é guiar um animal e quão fácil é terminar levando uma dentada. Quando muito a lógica se aplicaria a animais adestrados, o que exigiria supor que burocratas têm capacidade de adestrar o espírito animal do empresário e ignorar que um dos efeitos colaterais do adestramento é exatamente destruir o espírito animal. Mas deixemos de coisas e cuidemos da vida, a figura abaixo mostra o número de pessoas empregadas na indústria automobilística, no gráfico estão o emprego apenas na produção de veículos e o emprego total, a diferença é o emprego na produção de máquinas agrícolas e rodoviárias. Chama atenção o aumento do total de pessoas empregadas no setor, o pico de 2013 só é menor que o pico de 1986, a subida que começa em 2003 é comparável a que começa em 1967, ao que parece será um pouco mais curta, mas da mesma ordem de inclinação. Tudo fica ainda mais impressionante se consideramos os possíveis efeitos do processo de terceirização sobre o número de empregados nas empresas do setor.




Se o emprego é variável de interesse para os elaboradores de política econômica o lucro é a variável de interesse para as empresas do setor. Não encontrei o lucro, mas encontrei o faturamento líquido, ou seja, o faturamento livre de impostos. Usar faturamento como proxy para lucros é uma estratégia arriscada, mas um blog é o tipo de lugar adequado para tomar certos riscos, sendo assim a figura abaixo mostra o faturamento do setor como proporção do PIB. Repare que desde a década de 70 não ocorria uma sequência de anos onde o faturamento da indústria automobilística ficasse acima de 4% do PIB, mais precisamente, em termos de faturamento da indústria automobilística o período atual só é comparável ao período entre 1971 e 1976. Juntando os números de emprego e faturamento fica difícil não ficar com a impressão que para a indústria automobilística os últimos anos foram tão bons quanto a década de 70.




O leitor assíduo do blog sabe que sempre que faço referência à década de 70 é porque estou preparando terreno para falar da década de 80, esse post não será exceção. O aumento do emprego no setor automobilístico na década de 70 despencou de tal forma na década de 80 que apenas por volta de 2012 o número de empregados no setor voltou a ser igual ao de 1980. Com os números que tenho não posso ajustar para os efeitos da terceirização, mas mesmo que o intervalo de 32 anos caia pela metade ainda terá sido um longo período de recuperação. Será que a queda que começa em 2014 será igual à queda que começou em 1981? Espero que não, mas temo que possa ser mais parecido que gostaríamos.

Para entender meus motivos peço que reparem no gráfico abaixo mostrando o emprego (eixo da esquerda) e a produtividade do trabalho (eixo da direita) na produção de veículos. Note que o grande período de crescimento do emprego ocorrido na década de 70 não foi acompanhado de crescimento semelhante na produtividade. No lugar de fazer mais com menos, que é o caminho para a riqueza, estávamos fazendo mais com mais, que é um processo limitado pela oferta de capital e trabalho e/ou pelos rendimentos decrescentes na produção. Repare agora que no período das reformas, a partir da abertura em 1990, a indústria automobilística começa um processo de crescimento da produtividade. Mais emprego, mais produtividade e mais faturamento! Como pode dar errado?





Olhe com mais atenção. Para ajudar vou colocar alguns números. Entre 1973, quando começa a estagnação da produtividade, até 1990, começo da abertura, a produtividade do trabalho cresceu a uma taxa média de 0,3% ao ano, uma taxa muito baixa. Entre 1991 e 2005, período das reformas, a produtividade do trabalho cresceu a uma taxa média de 8,8% ao ano, um crescimento quase trinta vezes maior. Entre 2006 e 2014, período de contrarreformas, a produtividade teve um crescimento negativo de 0,5% ao ano, se considerarmos apenas o período da Nova Matriz o crescimento negativo foi de 4,8% ao ano! Fica difícil não concluir que a crise atual da indústria automobilística é uma crise que passa pela falta de crescimento da produtividade, ao focar no emprego e ignorar a produtividade a política econômica mais uma vez gerou um crescimento não sustentado, pior, destruiu um crescimento que parecia sustentável para colocar no lugar uma repetição piorada do modelo da década de 70. Se serve de consolo o processo democrático parece ter atrapalhado a ponto de quase impedir a estratégia desenvolvimentista do século XXI, o povo foi para as ruas deixar claro que não estava disposto a financiar devaneios de burocratas que acreditam não apenas domar animais como descoberto a maneira de domesticar sem eliminar o instinto selvagem. No lugar de pirotecnias como maxidesvalorização do câmbio por decreto e fórmulas mágicas de correção salarial temos um governo acuado, empresários amigos na cadeia e promessas vazias de ajuste fiscal. Melhor assim.




P.S. Sempre que mostro números contrastando o período de reformas do período de contrarreformas aparece alguém cobrando os números por mandatos presidências. Acredito que separar por política econômica faz mais sentido do que por quem é o inquilino do Palácio do Planalto, mas para poupar o trabalho de alguns amigos informo que o crescimento da produtividade do trabalho foi de 5,6% no período de FHC, 4,5% ao ano no período de Lula e -4,8% ao ano no período Dilma.


segunda-feira, 20 de julho de 2015

Uma nova década perdida?

Em 2010 o PIB brasileiro cresceu 7,5%, era o coroamento de uma década de crescimento que há muito não se via no Brasil. Depois do desastre da década de 1980, conhecida como década perdida, dedicamos a década seguinte a arrumar a casa e estabilizar a economia. Com a economia estabilizada a primeira década do século XXI foi caracterizada por crescimento acompanhado de redução da pobreza e da desigualdade. De acordo com os dados do FMI (link aqui) nas décadas de 80 e 90 o PIB per capita cresceu a uma média anual de 0,1% e 0,92%, respectivamente. Sendo assim não foi sem razão que comemoramos com entusiasmo o crescimento médio anual de 2,43% na década que foi de 2001 a 2010. Não bastasse a volta do crescimento também houve um aumento da taxa de investimento, em 2001 o Brasil investiu 18,9% do PIB e em 2010 investiu 21,8%.

Com uma década de crescimento inclusivo e com o aumento do investimento não faltou quem decretasse que a década de 10 seria ainda mais impressionante que a anterior. Como poderia não ser? A dita nova classe média seria a base do mercado interno que serviria de impulso à demanda agregada, o tão esperado mercado interno parecia ter finalmente aparecido. Do lado da oferta o aumento da taxa de investimento ia garantir o aumento da capacidade de produção. Como tudo que é bom pode melhorar ocorreu um aumento significativo do acesso à educação, inclusive ao ensino superior. Não bastasse tudo isso a dívida líquida chegou a 37,9% em 2010 contra 51,5% em 2001. Nem mesmo a volta do déficit em conta corrente assustava, afinal tivemos superávit entre 2003 e 2007 e era preciso muita má vontade para não ver que o déficit retornou em 2008 por conta da Crise Financeira que abalou o mundo. Pela primeira vez em muito tempo não teríamos restrições internas nem externas ao crescimento.

Com tanta coisa boa acontecendo qualquer um que em 2010 sugerisse que estávamos iniciando uma crise que poderia transformar a década seguinte em uma nova década perdida seria visto como um maluco ou um crítico raivoso e irracional do governo. Sei bem disso porque foi exatamente a condição que eu estava em 2010. Trabalho com crescimento econômico e dedico a maior parte do meu tempo de pesquisa ao cálculo da produtividade no Brasil. Cálculo de produtividade consiste em dividir uma medida de produto por uma medida de insumos, a arte está em definir as medidas adequadas. Economistas acadêmicos são acostumados a trabalhar com coisas como cálculo estocástico, programação dinâmica e modelos de dados em painel, impressioná-los com uma simples divisão não é uma tarefa exatamente fácil. A saída que encontrei foi usar as medidas de produtividade em algum modelo que tivesse cálculo estocástico e/ou programação dinâmica, o modelo escolhido foi o modelo neoclássico de crescimento. A estratégia durou pouco tempo, rapidamente meus colegas descobriram que eu estava usando o mesmo modelo com medidas diferentes de produtividade e pararam de se impressionar com meus artigos. Ocorre que no modelo neoclássico de crescimento a produtividade é o único motor do crescimento de longo prazo, como as medidas de produtividade mostravam que o crescimento da produtividade no Brasil era baixo então minhas simulações mostravam baixo crescimento no futuro.

Foi uma experiência frustrante. Enquanto meus colegas usavam um monte de variáveis e modelos para mostrar o futuro maravilhoso que estava pela frente eu ia contra a corrente bancado por uma única variável, a produtividade, e um modelo cujo a estrutura central era da década de 1950. Pior, a versão mais moderna do modelo que eu uso torna explícita a hipótese de racionalidade dos agentes e ainda ousa trabalhar com equilíbrio competitivo, duas heresias para a maioria dos economistas que estudam economia brasileira. Enfim, lá estava eu nadando contra a corrente munido de um modelo que quase ninguém aprovava e de uma variável que era vista como excentricidade de economistas neoclássicos. Pois bem, o tempo vingou minha variável e já nos primeiros anos da década de 10, quando ficou claro que o crescimento não vinha como esperavam, vários economistas dentro e fora do governo passaram a levar a sério a produtividade. Não tenho esperanças que o tempo vá vingar o modelo neoclássico, para ser sincero não creio que nenhum modelo mereça ou mesmo possa ser vingado, mas já vejo sinais que o tempo vai vingar minha previsão.

A figura abaixo mostra a evolução do PIB per capita brasileiro no período entre 1981 e 1990, a década perdida, e no período entre 2011 e 2020, a década que seria nossa redenção, ou, para usar a expressão da presidente Dilma, seria a década do PIBão. Os dados e as projeções são do FMI, repare que para 2016 a previsão é de crescimento do PIB per capita, muita gente por aqui pensa o contrário. Se a previsão do FMI para 2015 se realizar (queda de 1,8% no PIB per capita, novamente mais otimista do que as previsões feitas por aqui) os primeiros cinco anos da década atual terão sido piores que os primeiros cinco anos da década de 80. Pior, ainda considerando as previsões do FMI, a década atual só não será pior que a década perdida por conta da queda brutal do PIB per capita em 1990. Para os que não lembram 1990 foi o ano em que Collor resolveu “sequestrar” os ativos financeiros, um evento raro e de difícil previsão.




Pode ficar pior. Se no lugar das projeções do FMI fizermos a hipótese que o crescimento do PIB per capita entre 2016 e 2020 for a mesma do período 2011 a 2015, ou seja 0,02%, a década de 10 terá tido menos crescimento do que a década perdida. É razoável supor que o crescimento de 2016-20 será igual ao de 2011-15? Creio que não, mas não faz muito tempo não era razoável supor que a década atual seria uma nova década perdida.




segunda-feira, 13 de julho de 2015

Comparando Gigantes: Brasil, Rússia, China, Índia e Estados Unidos

Vez por outra comparo a desempenho econômico do Brasil com outros países, sempre aparece alguém apresentando bons motivos para justificar que o grupo escolhido não é adequado. Quando comparo com a América Latina dizem que a comparação é descabia porque somos mais industrializados que os outros países do continente, já questionei no blog a validade desse argumento (link aqui), ou porque somos muito maiores do que nossos vizinhos, o que é verdade embora não seja um impeditivo para comparação. Mesmo acreditando que a América Latina é uma boa referência para comparações com o Brasil (tratei do tema aqui) não raro aceito as críticas e procuro outros grupos de comparação, fiz isso no post a respeito da produtividade (link aqui). Outras vezes aparecem comparações com países em cima de uma única variável, nesses casos gosto de pegar o pais que serviu de comparação e avaliar outras dimensões (fiz um exercício do tipo aqui).

Por alguma razão alguém me enviou a figura abaixo sugerindo que o grupo de comparação para o Brasil seria composto por China, EUA, Índia e Rússia. A justificativa é que os cinco países são os únicos que simultaneamente possuem territórios com mais de dois milhões de quilômetros quadrados, mais de cem milhões de habitantes e PIB superior a seiscentos bilhões de dólares. Não me foi apresentada nenhuma razão para justificar porque os limites para comparação foram estabelecidos em dois milhões de quilômetros quadrados, cem milhões de habitantes ou PIB maior que seiscentos bilhões de dólares, mas não vou implicar com isso. Para definir um grupo de comparação é necessário estabelecer algum critério que de alguma forma acaba sendo arbitrário. O que realmente me incomoda é a ideia que tamanhos absolutos são adequados para definir grupos de comparação, eu prefiro medidas relativas. No lugar de PIB eu usaria PIB per capita e no lugar de área e população eu ficaria mais confortável com densidade demográfica. Não fico confortável em comparar um país onde a renda média é de aproximadamente U$ 55 mil, como os EUA, com um país onde a renda média é de aproximadamente U$ 6 mil como é o caso da Índia, no primeiro caso não crescer significa permanecer rico, no segundo não crescer significa permanecer pobre, a diferença qualitativa é gigantesca para ser ignorada.



Mesmo sem gostar dos critérios usados vou entrar no jogo e comparar os cinco países gigantes sugeridos pela figura, costumo dizer que o Brasil está mal comparado a (quase) qualquer grupo de países e não posso negar que os cinco países em questão formam um grupo. Farei a comparação em dois momentos, no primeiro será usado o período 2011 a 2014, correspondendo ao primeiro mandato da presidente Dilma, o segundo considerará 2015 e 2016 como forma de capturar o futuro próximo, todos os dados usados são do FMI e estão disponíveis na internet. A tabela abaixo mostra o crescimento do PIB de cada país nos dois períodos de interesse.

País
Crescimento 2011-2014
Crescimento 2015-2016
Brasil
2,14%
-0,02%
China
8,04%
6,53%
Índia
6,45%
7,46%
Rússia
2,40%
-,246%
EUA
2,13%
3,10%

No período 2011 a 2014 ficamos em penúltimo lugar, apenas os EUA, um país que já é rico e que foi o epicentro da crise de 2008 cresceu menos que o Brasil, repare que a diferença foi de 0,01%. O quadro fica ainda pior se considerarmos que só ficamos na frente dos EUA por conta de 2011, primeiro ano de governo Dilma onde é razoável supor que os efeitos da desastrosa Nova Matriz Econômica ainda não tinham sido sentidos, se excluirmos 2011 nosso crescimento médio teria sido de 1,55% contra 2,30% dos EUA e 1,77% da Rússia. Lamentavelmente o quadro não muda quando olhamos para frente, as projeções para 2015 e 2016 sugerem que continuaremos na penúltima posição no ranking de crescimento do PIB. A novidade é que a Rússia troca com os EUA e passa a ocupar a última posição. Me parece justo dizer que no critério crescimento não ficamos bem na comparação com o grupo dos gigantes.

A próxima variável a ser comparada é a taxa de inflação, os dados estão na tabela abaixo. Considerando a inflação do período entre 2011 e 2014 ficamos em terceiro lugar, se consideramos o que se espera para o futuro próximo voltamos ao penúltimo lugar. Aqui é interessante registrar que os dois países onde se espera crescimento negativo, Brasil e Rússia, são os mesmos dois países onde se espera aumento da inflação, nos dois países onde espera-se um aumento na taxa de crescimento a inflação deve cair. Não significa muito, mas é bom ter registros como este em mente para a próxima vez que disserem que o combate à inflação é inimigo do crescimento.

País
Inflação média 2011-2014
Inflação média 2015-2016
Brasil
6,14%
6,87%
China
3,16%
1,35%
Índia
8,92%
5,92%
Rússia
7,02%
13,87%
EUA
2,07%
0,80%

Passemos agora para variável trunfo do governo: a taxa de desemprego, o leitor sabe que toda vez que alguém faz críticas à política econômica é condenado a ouvir uma aula sobre como nosso desemprego é bem menor que o de outros países e como é importante manter o desemprego baixo. A tabela abaixo mostra os dados de desemprego, infelizmente não existiam informações para a Índia de forma que vamos ter de nos contentar com apenas quatro países. Considerado o período 2011 a 2014 nossa taxa de desemprego só foi maior do que a da China, ficou muito próxima da taxa da Rússia e bem menor que a dos EUA. Infelizmente o quadro deteriora no futuro próximo e voltamos a ficar em penúltimo lugar no esperado para 2015 e 2016, infelizmente mais próximos do último, que novamente é a Rússia, do que do segundo, que passa ser os EUA.

País
Desemprego 2011-2014
Desemprego média 2015-2016
Brasil
5,42%
6,10%
China
4,09%
4,09%
Índia
-
-
Rússia
5,65%
6,5%
EUA
7,63%
5,30%

Até agora não estamos nos saindo bem, ficamos mal em crescimento e inflação e as perspectivas para o emprego também não são favoráveis, não fosse a Rússia estaríamos colecionando últimos lugares, mas como só existe uma Rússia estamos colecionando penúltimos lugares. Ocorre que ao contrário do que fazia até as eleições do ano passado o governo não mais nega a existência de uma crise, o discurso oficial agora é que estamos em uma crise conjuntural e que o futuro será glorioso. Vimos que o futuro próximo não parece muito glorioso, mas ainda seria possível argumentar que estamos investindo para que no longo prazo possamos crescer, de fato é o que alguns autores governistas têm feito. Olhemos então para a taxa de investimento, os dados estão na tabela abaixo.

País
Taxa de Investimento 2011-2014
Taxa de Investimento 2015-2016
Brasil
20,80%
19,10%
China
47,68%
45,04%
Índia
34,80%
32,27%
Rússia
22,38%
17,78%
EUA
19,20%
20,67%

Mais uma vez ficamos em penúltimo lugar. No período 2011 a 2014 ficamos na frente apenas dos EUA, novamente cabe registrar que os EUA foram o epicentro da crise de 2008 e que é natural que países ricos invistam menos do que países em desenvolvimento. No futuro próximo novamente somos ultrapassados pelos EUA e ultrapassamos a Rússia. Espero que o leitor esteja percebendo que existem três padrões no grupo, o primeiro com China e Índia é de países em desenvolvimento com perspectiva de seguir uma trajetória de crescimento, o segundo engloba Brasil e Rússia e mostra países em desenvolvimento que estão em crise e com perspectivas ruins, o terceiro padrão é o dos EUA, um país rico saindo de uma crise grave. Dos cinco gingantes dois estão subindo; um já estava no alto, escorregou e está se levantando; e dois não apenas se mostram incapazes de continuar a subida como dão sinais que vão cair alguns degraus. Infelizmente somos um dos dois que estão com sérios problemas.

Um último indicador para comparação é o saldo em transações correntes. Grosso modo um saldo em transações correntes positivo significa que o país está poupando em relação ao resto do mundo, ou seja, o país ganha mais do que gasta, vale o contrário, um resultado negativo significa que o país gasta mais do que ganha e precisa se financiar com o resto do mundo ou vender ativos. A tabela abaixo mostra os dados do saldo em conta corrente como proporção do PIB. Tenha em mente que um déficit elevado em transações correntes não é necessariamente algo ruim, significa apenas que o país está se financiando no resto do mundo, se o dinheiro que o país pega com o resto do mundo for usado em algo que dê um bom retorno o país pagará suas dívidas e seguirá sua trajetória de crescimento. O problema aparece quando o recurso captado no resto do mundo não é bem aplicado de forma que o pagamento da dívida contraída trará sacríficos significativos para o país no futuro.

País
Transações correntes 2011-2014
Transações correntes 2015-2016
Brasil
-2,88%
-3,55%
China
2,10%
3,18%
Índia
-3,05%
-1,43%
Rússia
2,13%
3,10%
EUA
-2,64%
-2,33%

No caso das transações correntes ficamos em penúltimo no passado recente e último no futuro próximo. Lembrem que saldo em transações correntes negativo não é necessariamente um problema, tudo depende do que está sendo feito com o dinheiro. Entre 2011 e 2014 a Índia teve um grande déficit, mas estava investindo quase 35% do PIB, nós tivemos um déficit um pouco menor que o que o da Índia, mas estávamos investindo 20% do PIB. Quem deverá ter mais chances de pagar os credores sem grandes sacrifícios? O que pegou emprestado para investir ou o que pegou emprestado para consumir? Sei que eu tinha dito que o saldo em transações correntes seria o último indicador do post, mas para responder as perguntas vale à pena dar uma olhada nas taxas de poupanças de cada país. Prefiro voltar atrás no que disse do que deixar as perguntas em aberto, paciência... está terminando.

A tabela abaixo mostra a taxa de poupança nos cinco países do grupo de comparação. No passado recente nossa taxa de poupança só foi maior do que a dos EUA, para 2015 e 2016 a projeção é que nossa taxa de poupança será a menor do grupo. O quadro que se configura é que China e Rússia são países que poupam mais do que investem e, portanto, estão financiando o resto do mundo. Brasil, Índia e EUA são países que investem mais do que poupam e por isso são financiados pelo resto do mundo (não é coincidência que a avaliação da diferença entre investimento e poupança seja a mesma da avaliação da conta corrente, os dois conceitos medem a mesma coisa). Ocorre que a Índia está fazendo um considerável esforço de poupança e investimento e o Brasil não, nós estamos muito próximos à cigarra da fábula e o inverno já começou.

País
Taxa de poupança 2011-2014
Taxa de poupança 2015-2016
Brasil
17,92%
15,56%
China
49,78%
48,22%
Índia
31,76%
30,84%
Rússia
25,73%
23,60%
EUA
17,29%
18,34%

No primeiro bloco de comparação o Brasil apareceu junto à Rússia no grupo dos gigantes que pararam de crescer e dão sinais que podem encolher. No segundo bloco de comparação o Brasil aparece junto com os EUA no grupo dos gigantes que estão pegando dinheiro emprestado para financiar consumo, ambos poupam pouco e investem pouco, mas só um dos dois é rico. No quadro geral o Brasil aparece como um país que cresce pouco, tem inflação alta, poupa pouco, investe pouco e está se endividando. Não estávamos ruins no quesito desemprego, mas a perspectiva é que fiquemos. No final do dia mesmo considerando um grupo de comparação estranho como o dos cinco gigantes ficamos mal na foto. Para poupar trabalho dos que vivem a busca de um grupo onde não fiquemos mal na foto sugiro um com Rússia e Grécia, mas corram, em breve a Grécia pode estar melhor do que o Brasil.





P.S. Depois de escrever o post encontrei a figura que define o grupo dos gigantes em um post no blog Tijolaço. O texto que acompanha a imagem não fala de comparar os países, o ponto é que o Brasil tem vocação para ter um destino próprio e não para ser um satélite (link aqui). O link para o grupo do Facebook de onde o autor do post no Tijolaço estava quebrado, procurei o grupo no Facebook e lá encontrei a imagem sem um contexto específico (link aqui) e descobri que os dados da figura são de 2010. Porém me pediram uma comparação e uma comparação eu fiz.