sexta-feira, 6 de março de 2015

6 de março de 2015

De setembro a outubro do ano passado vivemos uma campanha eleitoral intensa que provocou vários debates a respeito do Brasil. Como não podia deixar de ser um dos temas mais acalorados foi o estado da economia. De um lado economistas governistas afirmavam que tudo estava bem e que a economia não precisava de ajustes, a própria presidente, que é economista, afirmou que a inflação estava controlada e em queda e que os indicadores de antecedentes apontavam para recuperação da economia. De outro lado vários economistas sem vínculos políticos e economistas ligados à oposição diziam que estávamos à beira de um abismo e que a crise era inevitável. A turma do "está tudo bem" não apenas negava a crise como afirmava que o outro lado estava inventando uma crise para tomar medidas duras tais como aumento da taxa de juros e elevação dos preços dos combustíveis. Um momento marcante desta estratégia foi a propagando governista mostrando como o aumento dos juros tirava a comida da mesa dos pobres.

Pois bem, eu estava na turma do "existe uma crise". Na realidade estou alertando que caminhamos para uma crise desde 2006 quando o governo abandonou a agenda de reformas e aderiu ao desenvolvimentismo. Como parte da turma contra o governo de plantão passei a ser considerado adversário do estado e inimigo do povo (sim, o partido passou a encarnar o estado e o povo... e o fascista era eu). Me disseram que eu estava inventando uma crise por ser vendido ao grande capital (peço ao grande capital que entre em contato para que eu mande a conta), ou por ser idiota e não perceber que tudo que estudei de economia nos últimos 25 anos é uma invenção de homens maus para maltratar o povo ou ainda por ser eu mesmo um homem mau que gosta de ver o povo passar fome. Pois bem, Dilma foi reeleita e hoje, 6 de março de 2015, resolvi mostrar para os leitores do blog o que aconteceu com algumas variáveis que foram citadas nos debates de 2014.

Comecemos com a inflação. A presidente garantiu que a inflação estava em queda e que quem dizia o contrário estava plantando inflação para colher juros. Economistas que insistiram em mostrar que a queda era por conta do período do ano e que a inflação voltaria a subir forma taxados de ignorantes e de não entenderem de Brasil. Pelos dados parece que os ignorantes que não entendem de Brasil estavam certos.




E os juros? A figura abaixo mostra o que aconteceu. Nunca foi tão verdade que um governo plantou inflação e colheu aumento de juros. O governo que acusou os críticos de propor sacrificar crescimento para combater inflação conseguiu reduzir o crescimento, aumentar a inflação e ainda subir os juros.



Uma turma que falou que a vitória de Dilma seria seguida de uma rápida desvalorização do Real. Terroristas econômicos! Gritaram os governistas. Quem apostar no dólar vai quebrar a cara bradou o ministro. Não sabem de nada e são lacaios dos bancos gritou a massa governista furiosa. A figura abaixo mostra o que aconteceu com o dólar. Espero que as hordas governistas não tenham acreditado no que diziam, não os quero mal... apenas não os quero mais.





E teve o "tarifaço", Dilma acusou a oposição de estar preparando um aumento da energia e dos combustíveis. Não soube da oposição ter ganho, mas o aumento da energia e dos combustíveis está em todos os jornais. A figura abaixo mostra o preço da gasolina. Ou os dados são de uma dimensão paralela onde Aécio é presidente ou Dima usou a máxima leninista de "acuse-os do que você faz, xingue-os do que você é". Não duvido que algum leitor que ainda mantém simpatia ao governo prefira acreditar na tese da dimensão paralela....



Por fim o salário mínimo. Reza o credo oficial que Dilma será a única capaz de garantir as conquistas dos trabalhadores e manter o poder de compra do salário mínimo. Quem me acompanha sabe que não compro esta tese, é o justo contrário, reduzir o salário em moeda forte é considerado pelas teses desenvolvimentistas com condição necessária para retomada do crescimento. Dilma é adepta do desenvolvimentismo. Liguei os pontos na figura abaixo e coloquei o salário mínimo em dólares (usei o câmbio da figura acima).




Para resumir o que foi o começo do governo Dilma fiz o gráfico abaixo com índices das variáveis que comentei. Todas parte de 100 em agosto de 2014 e sobem ou descem de acordo com a variável original. Como o leitor pode reparar tudo subiu, menos o salário mínimo em moeda forte.




Após fazer os gráficos fiquei com a impressão que os dados e os fatos se juntaram aos inimigos do povo na cruzada contra o governo popular e democrático dos trabalhadores brasileiros. A impressão passou rápido, não é isso que os números dizem, o que a realidade nos mostra é a mistura de incompetência e cinismo que toma conta do governo Dilma, mistura que passou dos limites do suportável durante a campanha de 2014.





segunda-feira, 2 de março de 2015

Encarem o Fato: Nossa Produtividade é Baixa!

Hoje cedo Mansueto Almeida, economista do IPEA e dono de um dos melhores blogs de economia na praça, me questionou a respeito de uma reportagem de O Globo a respeito da baixa produtividade do trabalho no Brasil (link aqui). A chamada da matéria dizia “Trabalhador brasileiro produz menos que o da Venezuela”, a dúvida era se nossa produtividade é realmente tão baixa. Para responder o Mansueto fiz algumas figuras mostrando que nossa produtividade é de fato muito baixa (link para a conversa aqui). Depois, já no final da tarde, vi que o Rodrigo Constantino também ficou impressionado e comentou a reportagem d'O Globo sobre a produtividade no Brasil (link aqui). Dado o interesse que tema desperta resolvi escrever este post com as figuras que fiz e mais algumas outras que ajudam a entender que nossa produtividade é de fato muito baixa.

Como a reportagem falava da América Latina fiz a figura comparando a produtividade do trabalho no Brasil com a de outros países da América do Sul e o México. Para elaborar a figura usei os dados da Penn World Table versão 8.0 (PWT8.0), a base de dados mais usada para comparações internacionais, escolhi o ano de 2011 por ser o mais recente que consta na base de dados. Selecionei um grupo com os países da América do Sul (exceto as antigas Guianas) e o México. A figura abaixo mostra a produtividade dos países deste grupo. Repare que nossa produtividade só é maior do que a do Paraguai e a da Bolívia.





Nossa produtividade do trabalho é baixa mesmo quando consideramos nosso PIB per capita. A figura abaixo mostra a produtividade do trabalho e o PIB per capita dos países da figura acima. Não leve muito a sério a linha de regressão, ela foi colocada apenas para ajudar na visualização, apenas repare que nossa produtividade do trabalho é menor do que a de países com PIB per capita próximos ao nosso. Não está convencido? Faz bem, eu também não ficaria. 




Para ilustrar melhor o argumento voltei a PWT8.0 e selecionei todos os países com PIB per capita próximo ao do Brasil, especificamente peguei todos os países com PIB per capita 20% ou 20% maior que o do Brasil. A figura abaixo mostra a produtividade do trabalho nestes países, mais uma vez ficamos na rabeira. Apenas na Tailândia e na China a produtividade do trabalho é menor que a nossa.





Ainda assim não fiquei satisfeito, lembrei que há alguns meses alguns colegas de profissão disseram que o grupo de comparação do Brasil eram os países ricos. Então fui comparar com nossa produtividade com a dos países da OCDE, a figura abaixo mostra o resultado, melhor não dizer nada.





Não perdi a esperança, lembrei de uma palestra onde foi dito que grupos de comparação devem levar em conta o estoque de capital. Como capital é uma variável de medição complicada peguei os países com estoque de capital entre metade e uma vez e meia o estoque de capital brasileiro. A figura abaixo mostra a produtividade do trabalho neste grupo de países, graças a Indonésia escapamos de ficar novamente em último lugar.





Daí lembrei que não se compara países pelo estoque de capital, o adequado é comparar pela relação capital trabalho (falei sobre esta questão, sobre comparar o Brasil com países da América Latina e coisas do tipo aqui). A teoria diz que a produtividade do trabalho depende, entre outras coisas, da relação capital trabalho. Escolhi os países com relação capital trabalho entre metade e uma vez e meia a relação capital trabalho no Brasil. O resultado não foi tão desastroso quanto o das outras figuras, mas também não ficamos bem na foto. De um total de 38 países ficamos na 23º posição.





Acima fiz algumas comparações entre a produtividade do trabalho no Brasil e a produtividade do trabalho em outros países, usei diversos critérios para escolher o grupo de comparação (regional/cultural, PIB per capita, OCDE, estoque de capital e relação capital trabalho), em todos os critérios nos saímos mal. Podemos tentar definir outros grupos até que encontremos um grupo onde fiquemos bem na foto (em um grupo com países com relação capital trabalho menor que um quarto da brasileira ficamos em segunda lugar) ou podemos encarar a realidade e procurar soluções para o crescimento da produtividade.



domingo, 1 de março de 2015

Por que o aumento da taxa de investimento entre 2003 e 2011 não trouxe crescimento?

Uma das explicações para atual crise que vivemos é que o modelo econômico implantado pelo petismo focou apenas em consumo e esqueceu o investimento. A explicação tem fundamento no fato que nossa taxa de investimento é uma das mais baixas do mundo. Porém a análise dos dados brasileiros não permite concluir que o período de bonança da primeira década do século XXI não viu um aumento do investimento, pelo contrário, no primeiro trimestre de 2003, quando Lula tomou posse, a taxa de investimento era de 14,43% do PIB no quarto trimestre de 2010, último trimestre dos governos Lula, a taxa de investimento era de 18,55%. No terceiro trimestre de 2011, já no governo Dilma, a taxa de investimento alcançou 19,20%, o maior valor desde 1991. A figura abaixo mostra o comportamento da taxa de investimento (os dados foram obtidos no Ipeadata).




O aumento da taxa investimento foi um padrão da primeira década do século XXI, a única interrupção ocorreu quando da crise de 2008, mas a recuperação veio de forma rápida. Foi este aumento da taxa de investimento que fez com que diversos economistas apostassem que o governo Dilma seria marcado por altas taxas de crescimento (lembram do governo do PIBão?). A certeza era tão grande que muitos economistas se recusavam a ver que o crescimento não vinha e começaram a elaborar explicações cada vez mais complexas para a falta de crescimento. Como era possível o aumento na taxa de investimento não levasse a um crescimento do PIB?

A pergunta não é tão fácil de responder. Tanto os modelos de tradição neoclássica quanto os modelos de tradição keynesiana relacionam aumento da taxa de investimento com aumento da taxa de crescimento da economia, pelo menos no médio prazo. O que deu errado? Passei a atentar para esta questão depois de um debate no IPEA onde eu argumentava que estávamos caminhando para uma crise e o outro economista, um técnico do BNDES, defendia a tese contrária. O debate foi em 2010 e os dados estavam quase todos contra minha tese, só os dados de produtividade me davam razão, na época falar de produtividade soava esquisito, coisa de neoclássico. O aumento da taxa de investimento foi o dado escolhido para defender a tese que os próximos anos seriam de fartura. Na hora retruquei falando de produtividade e argumentei que o aumento do investimento na década de 1970 não impediu a grande crise da década de 1980.

Findo o debate tentei refletir como encaixar o aumento da taxa de investimento na minha história que estávamos caminhando para uma crise. A pista estava em um texto que escrevi juntamente com a Mirta Bugarin e o Victor gomes e que foi publicado na Brazilian Review of Econometrics em 2005 (link aqui). Lá tratamos do investimento desperdiçado, ou seja, do esforço de investimento que não vira capital. Existem muitos fatores que causam desperdício de investimento, na época tínhamos em mente corrupção e obras inacabadas. Porém o raciocínio pode se aplicar a projetos de baixíssimos retornos como alguns estádios da Copa e as aventuras do Grupo X, aliás boa parte dos investimentos da Petrobras no pré-sal podem acabar na conta de desperdício de investimento.

O fato do esforço de investimento ocorrido entre 2003 e 2011 não ter sustentado o crescimento nos anos seguintes aponta fortemente na direção da tese que houve desperdício de investimento no Brasil. Qual a razão do desperdício? Não é fácil responder, mas as condições de investimento no Brasil são muito propícias para a ocorrência do fenômeno. Temos um grande banco financiador de investimento, o BNDES, que é sujeito a interferência política e costuma agir como se o investimento fosse um fim em si mesmo. É juntar a fome com a vontade de comer. O empresário amigo quer financiamento barato, os inquilinos do planalto querem ajudar os empresários amigos, afinal campanhas e voos de primeira classe são caros, e a tecnocracia acredita que aumentar a taxa de investimento é o caminho para o crescimento. Preocupação com eficiência e retorno? Bobagem, coisa de economista neoclássico que não conhece a realidade.


Naturalmente podem existir outras explicações para que o aumento da taxa de investimento não tenha gerado crescimento, da mesma forma podem existir outras explicações para o desperdício do investimento no Brasil. Porém uma coisa é fato, não é possível dizer que o modelo petista estimulou consumo às custas de investimento, houve aumento da taxa de investimento o que não veio foi o crescimento. A lição me parece clara: não basta investir, é preciso investir bem.



sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Sobre Fadas e Anões: Confiança e os problemas reais da economia brasileria

Vez por outra leio textos de economistas dentro e fora a do governo apontando a confiança como o motor da economia. Sem confiança estamos destinados a estagnação, com confiança o céu é o limite. Como em um passe de mágica a confiança faz com que empresários decidam investir mais aumentando a produção e criando novos empregos, a mesma confiança faz com que os consumidores gastem mais garantindo a demanda necessária para o aumento de produção, mas fica melhor, com o aumento da produção, do emprego e dos gastos o governo arrecada mais e presta melhores serviços à população. É claro que em uma sociedade onde a produção aumenta, a demanda acompanha o aumento da produção, empregos são criados e os serviços públicos não param de melhorar a confiança cresce ainda mais e ciclo virtuoso se estabelece. Confiança gera prosperidade que gera ainda mais confiança.

Sendo assim a saída para tirar uma economia de uma crise é reestabelecer a confiança. Paul Krugman, prêmio Nobel em economia e ativista keynesiano por aumento de gastos públicos, cunhou a expressão “fada da confiança” (no original “confidence fairy”, link aqui e aqui) para ironizar os economistas que defendem austeridade como forma de estimular a economia. Krugman argumenta que nas condições dos EUA (e também da Europa) não existem bases teóricas para sustentar a tese que o corte nos gastos do governo levaria a um aumento de confiança nos investidores que colocaria em funcionamento a mágica da confiança. O debate por lá pegou fogo e muita gente boa entrou na discussão de um lado ou de outro. Não vou discutir economia americana ou europeia aqui, como de costume vou tratar da economia brasileira.

A fada da confiança que Krugman usou para ironizar os defensores da austeridade por lá tem uma irmã que vive por aqui, para facilitar vou chamar a versão original de fada azul e a irmã que vive por aqui de fada vermelha. A mágica da fada azul consiste em fazer que ao testemunhar cortes nos gastos públicos empresários passem a investir mais e consumidores passem a gastar mais pois antecipam redução na taxa de juros e nos impostos. Assim como a água que por aqui gira em direção contrária a que gira no hemisfério norte, a fada vermelha faz uma mágica que funciona de forma contrária a da fada azul. A mágica da fada vermelha faz que o aumento dos gastos do governo aumente a confiança dos empresários e dos consumidores. Empresários sob feitiço da fada vermelha investem mais por acreditarem que aumento do gasto representa garantia de demanda futura, consumidores encantados pela fada vermelha gastam mais por acreditarem que a aumento do gasto público garantirá empregos no futuro. Apesar da fada azul e da fada vermelha usarem truques diferentes para invocar a magia da confiança ambas garantem o mesmo resultado: a confiança aumentará investimentos, consumo e nos abençoará com um ciclo virtuoso.

Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda, era um devoto fiel da fada vermelha. Apostou suas fichas que aumento dos gastos e discursos para lá de otimistas fariam funcionar a mágica da fada vermelha. Joaquim Levy, atual ministro da Fazenda, parece ser discípulo da fada azul, porém até agora acendeu mais velas para o aumento de impostos do que para o corte de gastos. Talvez o novo ministro seja discípulo de uma fada verde que ainda não foi bem descrita. Seja lá a fada que siga Joaquim Levy, assim como Guido Mantega, parece acreditar que negar a existência de problemas é uma boa forma de ajudar as fadas da confiança (falei a respeito aqui).

O tempo ainda não permite saber a efetividade da magia da fada de Levy. Porém podemos tentar ver se a fada vermelha teve sucesso em trazer confiança a nossos empresários. A figura abaixo mostra o nível de confiança de nossos industriais durante o governo Dilma.




 A tendência de queda é inegável, quando a presidente tomou posso o índice de confiança do empresário industrial (ICEI) era de 61,7; hoje o ICEI está em 40,2. A tendência de queda do ICEI durante o primeiro governo Dilma sugere que a fada vermelha pode ser daquelas fadas atrapalhadas que fazem o encanto ter resultados opostos aos desejados. Será que a fada azul (ou seria verde?) de Joaquim Levy terá resultados melhores? Espero que sim, em geral aumento de confiança é um bom sinal.

Aqui entram em cena os anões. Nos mundos de fantasia anões são descritos como gananciosos, trabalhadores e não raro possuem aversão a mágica. Enquanto as fadas são descritas como seres delicados que costumam voar entre as flores os anões possuem trações grosseiros e geralmente aparecem enfiados em alguma montanha em busca de ouro ou pedras preciosas. Acredito que em nossa condição atual precisamos mais de anões do que de fadas. Não me entendam mal, o ajuste fiscal é necessário e será feito de um modo ou de outro, apenas não acredito que resolvido o problema fiscal a mágica da confiança nos fará retomar o crescimento. No mundo dos anões só consegue as coisas com trabalho.

O que impede nossos anões de trabalhar? De saída digo que nossa insistência em ver a ganância como algo a ser combatido é um banho de água fria em nossos anões. Qual a razão de enfrentar os riscos das montanhas se ficar com o ouro e as pedras preciosas é feio? Nossa cruzada contra a ganância faz com que criemos cada vez mais dificuldades para os anões. Exigimos licenças redundantes, criamos regras que retroagem contra os anões, taxamos em demasia o ouro dos anões... é difícil escavar por aqui. As dificuldades não param, existem alguns anões que são gananciosos mas preferem viver da amizade do Rei do que dos riscos de enfrentar as montanhas, destinamos recursos valiosos para estes anões. Tais anões aplicam estes recursos para que possam ficar ainda mais amigos do Rei e para que dificultar o trabalho dos outros anões de forma a não sofrer concorrência. Ao contrário dos anões normais os anões amigos do Rei escondem sua ganância e falam que trabalham em nome da sociedade e dos pobres do reino.

Não bastasse as dificuldades e a concorrência com os amigos do Rei nossos anões ainda sofrem para encontrar anões bem treinados que possam ajudar nas escavações. Os sábios da terra dizem que não é preciso treinar os novos anões pois não existem escavações para empregar anões treinados, estes mesmos sábios sentem dificuldade em entender a razão de anões sem treinamento não conseguirem criar novas tecnologias ou mesmo dominar tecnologias existentes. Tais sábios gostam de invocar feiticeiros que tornariam os anões amigos do Rei em grandes campeões que levariam a glória do reino para outras terras, os sábios garantem que os feiticeiros existem e já fizeram proezas em outras terras, por aqui ainda não se viu a mágica dos feiticeiros funcionar, mas este é assunto para outras conversas. Sem incentivos e sem anões treinados nossos valentes escavadores se deparam com ameaça de falta de energia e água para escavações e, quando conseguem retirar algo, faltam os trilhos para levar o ouro ao mercado. Diz-se que alguns anões tentaram construir tais trilhos, mas o Rei os ameaçou com o inferno eterno da burocracia infinita.

A verdade é que a situação desesperadora de nossos anões faz com que muitos prefiram apostar nas fadas. É pena. Melhor seria se enquanto Levy faz o ritual de invocação da fada azul o resto do governo buscasse uma forma de atrapalhar menos a vida dos anões.




terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

O Sustentáculo do Poder dos Ditadores

Como um ditador se mantém no poder? Evidentemente, não é apenas devido ao uso da força bruta. Em qualquer ditadura do mundo, os ditadores são auxiliados por pessoas normais, daquelas que tomam cafezinho contigo e contam piadas. Contudo, muitos desses indivíduos, inofensivos em ambientes normais, assumem posturas agressivas e perigosas numa ditadura. O exemplo mais óbvio é representado por uma parcela dos burocratas a serviço do governo.

Foram os burocratas nazistas um importante sustentáculo de Hitler no passado. Atualmente, funcionários públicos ávidos por poder, ou se corrompendo em troca de uma simples gratificação salarial, ajudam Nicolas Maduro a incrementar ainda mais o regime bolivariano na Venezuela. Tudo isso sob o silêncio covarde e muitos observadores externos.

No Brasil, diversos burocratas justificam a ditadura bolivariana na Venezuela. Ou são cegos ou apenas querem o óbvio: sua gratificação. Protestar contra tal ditadura é perigoso mesmo no Brasil. Funcionários públicos que se posicionam publicamente contra essa afronta são marcados no serviço público. Outros burocratas chegam a escrever para jornais elogiando a “democracia” venezuelana.

Tal como apontou brilhantemente Edmund Burke “A única condição para o triunfo do mal é que os homens de bem não façam nada”. Neste texto nós cobramos dos burocratas brasileiros uma condenação firme e veemente da ditadura venezuelana. Como pesquisadores, como intelectuais, como cidadãos de bem exigimos que a ditadura bolivariana instalada na Venezuela seja denunciada.

O recente episódio da prisão arbitrária e imoral do prefeito da região metropolitana de Caracas é apenas mais um episódio desta triste história. Sabe como Hitler controlava os alemães? Ele os controlava por meio de conselhos (conselho de ética, conselho de cidadãos, etc.). Era assim que a máquina nazista enquadrava e perseguia os inimigos do regime. No Brasil estamos caminhando para situação idêntica.

Os cidadãos venezuelanos já são obrigados a combater uma tirania, não é necessário que sejam também obrigados a sofrerem com o apoio de burocratas brasileiros que apoiam esse regime. Você apoia Nicolas Maduro? Então saiba que apoias um ditador, um criminoso, um inimigo dos direitos humanos e da liberdade individual. E a história tem um nome para você: crápula.

Adolfo Sachsida
Roberto Ellery Jr.
Rodrigo Saraiva Marinho

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Se quer ganhar confiança aprenda a fazer discursos... e evite mentiras óbvias

Gosto de política e de história, creio que por isso gosto de ler sobre grandes discursos feitos por estadistas de primeira linha e mesmo por políticos menores. Dos grandes estadistas tenho preferência por dois:  Abraham Lincoln e  Winston Churchill. O primeiro liderou o Norte na Guerra Civil Americana no século XIX, um conflito que mudou a história da humanidade e "criou" os EUA como o país que veio a se tornar a grande potencia do século XX. O segundo liderou as forças da liberdade contra a tirania nazista que aliada à tirania comunista ameaçava dominar a Europa. Longe de mim cobrar de algum de nossos políticos a grandeza de Lincoln ou de Churchill, até porque não vivemos nada parecido com as situações dramáticas que eles enfrentaram. Porém, os grandes discursos que fizeram podem (devem) servir de referência para que outros políticos criem seus próprios discursos e para que nós possamos avaliar os discursos de nossos políticos.

Tratei do assunto quando Dilma fez o discurso na seqüência das manifestações de 2013. Dilma foi a televisão pedir união e fez um discurso apagado que não surtiu efeito algum e que duvido muito que alguém lembre de algum trecho sem recorrer à internet ou outros arquivos. Na época falei que longe de mim cobrar de Dilma a grandeza de Lincoln e que as manifestação eram nada comparadas à Guerra Civil Americana, mas que qualquer político que fosse fazer um discurso a uma nação dividida deveria antes buscar inspiração no discurso da Casa Dividida de Lincoln, segue trecho do discurso:

"A house divided against itself cannot stand. I believe this government cannot endure, permanently, half slave and half free. I do not expect the Union to be dissolved — I do not expect the house to fall — but I do expect it will cease to be divided. It will become all one thing or all the other. Either the opponents of slavery will arrest the further spread of it, and place it where the public mind shall rest in the belief that it is in the course of ultimate extinction; or its advocates will push it forward, till it shall become lawful in all the States, old as well as new — North as well as South."

Abaixo a tradução que achei na Wikipédia:

"Uma casa dividida contra si mesma não pode permanecer. Eu acredito que este governo não pode suportar, permanentemente, ser metade escravo e metade livre. Eu não espero a divisão da União - Eu não espero ver a casa cair - mas espero que ela deixe de ser dividida. Ela terá que se tornar toda uma coisa ou outra.
Ou os adversários da escravidão irão deter a propagação da mesma, e a opinião pública deve repousar na crença de que deva ser extinta definitivamente, ou seus defensores irão estendê-la adiante, até que ela se torne legal em todos os Estados, velhos ou novos - Norte como no Sul."

Percebam que Lincoln não esconde os problemas vividos pelo governo dos Estados Unidos, porém não é um discurso pessimista, pelo contrário, é um discurso que mostra confiança em uma tarefa difícil mas necessária para o país.

Considerem agora o discurso que Churchill fez em 1940 a respeito da II Guerra Mundial. Era um momento critico. O exército alemão parecia invencível, a URSS de Stalin era aliada de Hitler, os Estados Unidos mantinham a política de não intervir militarmente, de fato a Inglaterra estava sozinha contra a ameaça nazista. Vejam o trecho mais conhecido do discurso:

"Even though large tracts of Europe and many old and famous States have fallen or may fall into the grip of the Gestapo and all the odious apparatus of Nazi rule, we shall not flag or fail. We shall go on to the end. We shall fight in France, we shall fight on the seas and oceans, we shall fight with growing confidence and growing strength in the air, we shall defend our island, whatever the cost may be. We shall fight on the beaches, we shall fight on the landing grounds, we shall fight in the fields and in the streets, we shall fight in the hills; we shall never surrender, and if, which I do not for a moment believe, this island or a large part of it were subjugated and starving, then our Empire beyond the seas, armed and guarded by the British Fleet, would carry on the struggle, until, in God's good time, the New World, with all its power and might, steps forth to the rescue and the liberation of the old."

Novamente a tradução da Wikipédia:

"Muito embora grandes extensões da Europa e antigos e famosos Estados tenham caído ou possam cair nos punhos da Gestapo e de todo o odioso aparato do domínio nazista, nós não devemos enfraquecer ou fracassar. Iremos até ao fim. Lutaremos na França. Lutaremos nos mares e oceanos, lutaremos com confiança crescente e força crescente no ar, defenderemos nossa ilha, qualquer que seja o custo. Lutaremos nas praias, lutaremos nos terrenos de desembarque, lutaremos nos campos e nas ruas, lutaremos nas colinas; nunca nos renderemos, e se, o que eu não acredito nem por um momento, esta ilha, ou uma grande porção dela fosse subjugada e passasse fome, então nosso Império del além-mar, armado e guardado pela Frota Britânica, prosseguiria com a luta, até que, na boa hora de Deus, o Novo Mundo, com toda a sua força e poder, daria um passo em frente para o resgate e libertação do Velho."

Churchill não esconde os perigos, não tenta vender uma confiança sem fundamentos, pelo contrário, fala de lutar até o fim, reconhece a possibilidade que a Inglaterra seja subjugada mesmo se negando a acreditar que a possibilidade venha a se tornar um fato. Com este discurso (na realidade foram três grandes discursos, além desse teve o do "sangue, suor, trabalho e lágrimas"  e o do "melhor momento") Churchill ajudou a recuperar a confiança dos ingleses e tornou possível a mudança de rumo que levou à derrota final do nazismo.

Toda esta conversa a respeito de discursos marcantes veio para que eu tentasse passar ao leitor como estou contrariado com o discurso de Joaquim Levy feito hoje para uma platéia de empresário. Segue o trecho que me incomodou a ponto de fazer este post:

"Não há nada de problemático na economia brasileira. Ainda há inúmeras vantagens no país, como nosso capital humano. Temos certeza de que temos condições de fazer essa reengenharia da nossa economia sem grande dificuldade. No ano passado, o governo fez alguns ajustes em programas de transferência, e atacou situações em que havia distorções para garantir sua efetividade conhecida pela população."

Ao contrário de Churchill e Lincoln o discurso de Joaquim Levy começa negando sequer a existência dos problemas. Se não temos problemas então por que nos impor sacrifícios? É uma pergunta legítima. Por que eu vou pagar mais impostos? Por que o jovem empregado vai ter de ficar mais tempo no emprego para receber seguro desemprego? Por que um terço dos recursos das universidades federais estão bloqueados (link aqui)? Por que os caminhoneiros estão bloqueando as estradas (link aqui)? Por que as viúvas vão ter suas pensões reduzidas? Por que os moradores da maior cidade do país estão sendo obrigados a poupar água? Por que tudo isto se "não há nada de problemático na economia brasileira"? Faria sentido Chruchill negar que a Inglaterra estava ameaçada e depois pedir o sacrifício dos ingleses? Faria sentido Lincoln negar que a União estava ameaçada e depois pedir o sacrifício dos americanos?

Não satisfeito em afirmar que não temos problemas o ministro segue dizendo que podemos fazer a "reengenharia da nossa economia sem grandes dificuldades". Hoje a noite o ministro que afirmou que não temos problemas e que não temos grandes dificuldades para fazer a reengenharia de nossa economia vai jantar com políticos do PMDB para pedir apoio as medidas do governo. Se eu estivesse na reunião levaria este trecho do discurso e perguntaria qual a razão dos sacrifícios pedidos.

Negar a existência dos problemas não foi o pior que o ministro fez. Sendo um economista brilhante é possível veja soluções fáceis para nossa economia e esteja nos impondo os sacrifícios por alguma razão que desconheço. Talvez por culpa de FHC, vai saber. Entre as duas frases que comentei o ministro coloca o capital humano como uma vantagem do país. De que país ele está falando? Do Brasil? O ministro ignora que nosso ensino é constantemente mal avaliado nas avaliações internacionais? O ministro ignora que não temos uma universidade entre as melhores do mundo? É assustador, mas ou o ministro está mentindo descaradamente ou não tem a menor ideia sobre o que está falando. É assim que o ministro quer ganhar a confiança do mercado? É assim que o ministro acredita que vai ganhar nossa confiança?

Não sei se vocês lembram de um porta voz do Iraque que durante a invasão americana dava declarações garantindo que o Iraque estava vencendo a guerra e destruindo as tropas invasoras. Era patético. É triste constatar que em uma escala com os discursos de Churchill como valor máximo e as declarações do tal porta voz iraquiano como valor mínimo a fala de nosso ministro está muito mais próxima do mínimo do que do meio da escala.





domingo, 22 de fevereiro de 2015

Com a palavra, Dilma

A era da internet é espetacular por vários motivos, um deles é que nossa capacidade de guardar e recuperar informações aumentou de modo espantoso. Enquanto no passado éramos obrigados a arquivar o que nos pareceria interessante e recorrer a nossa memória ou horas de pesquisa para recuperar um informação hoje podemos contar com informações armazenadas na rede e com a memória coletiva ou com o esforço de pesquisa coletivo para recuperar estas informações. Exemplo disto são os vários vídeos que circulam na internet com trechos de entrevistas dadas por autoridades onde o sábio inquilino do poder ensina a plebe ignara sobre a verdade das coisas, pobres sábios, suas certezas foram destruídas pelo desvendar dos fatos permitindo que a plebe se divirta um pouco. Como parte da plebe resolvi juntar e comentar alguns vídeos onde a suprema mandatária da nação, Dilma Roussef da Casa da Estrela Vermelha, divide a sapiência dela conosco e nos mostra como os poderosos podem falar tantas ou mais bobagem que uma criança, antes que alguém me critique por sugerir que a presidente fala bobagens lembro que esta é a melhor das hipóteses para justificar falas que se mostraram tão incompatíveis com os fatos.

1. Petrobras: No vídeo abaixo a presidente, então ministra chefe da Casa Civil, começa falando contra a necessidade de uma CPI da Petrobras, até aí tudo bem, o fato da Petrobras ser palco de diversos casos de corrupção não necessariamente implica que uma CPI teria sido útil. Na seqüência a presidente resolver falar sobre a contabilidade da Petrobras. Quem acreditou no discurso da presidente aprendeu que a Petrobras era uma empresa com excelentes práticas de governança corporativa e que se assim não fosse não atrairia investidores do mundo todo. Dilma não era alguém distante da empresa, quando ela deu as declarações já tinha experiência como ministra das Minas e Energia, presidente do Conselho da Petrobras e estava na Casa Civil.



Daí e veio o tempo cruel e mostrou que as práticas de governança da Petrobras eram muito ruins, a própria empresa reconheceu o problema e criou uma nova diretoria para cuidar da governança. O que fez a presidente? Reconheceu que errou ao afirmar que a empresa tinha excelentes práticas de governança? Longe disto, acusou o antecessor de não ter combatido os problemas na empresa. Agora eu pergunto ao amigo, se você recebesse uma empresa de alguém que não confia (ou mesmo de quem confia) não seria o caso de fazer uma auditoria completa para levantar todos os problemas antes de sair dizendo que empresa estava muito bem? Por quase dez anos Dilma teve todas as oportunidades de ver se tinha algum problema na Petrobras, depois de todo este tempo concluiu e disse para quem quis ouvir que a empresa não tinha problemas. Como eu fico? Acredito na Dilma que disse que a empresa não tinha problema ou na Dilma de hoje? Particularmente não acredito em nenhuma das duas...


2. Energia: Dilma se considera uma especialista em energia, deve ser, do contrário Lula nunca a teria posto como ministra das Minas e Energia (viram com eu sou um sujeito crédulo?). No vídeo abaixo Dilma garante que sua política para o setor nos garantiria uma energia mais barata, que éramos uma potência energética e que não havia "nenhum risco de racionamento ou de qualquer tipo de estrangulamento no curto, no médio ou no longo prazo". Ouvindo as palavras da presidente especialista em energia homens ainda mais crédulos do que eu só tinham uma coisa a fazer: gastar mais energia! Era o momento de investir em produção intensiva em energia, de comprar eletrodomésticos sem ligar para consumo de energia e etc. Foi nos dada a garantia de energia elétrica abundante e barata.



Novamente o tempo foi cruel e aprontou a presidente. O risco de racionamento é reconhecido pelas próprias autoridades do setor, as seguidas elevações no preço da energia destruíram a promessa da energia barata, mais uma vez a realidade foi o contrário do que a presidente afirmou. Pensa que ela reconheceu o erro e pediu desculpas? Que entendeu que a intervenção que o governo dela fez no setor elétrico foi das políticas mais desastrosas que temos registros? Se pensas assim estás muito enganado, a presidente simplesmente não fala mais no assunto, os apoiadores do governo que defenderam a intervenção também não gostam de falar no assunto e, se forçados a se pronunciar, se limitam a acusar quem mostra os fatos ou um governo que saiu do poder já faz mais de uma década.


3. Crescimento e Inflação: Durante a campanha Dilma foi entrevistada pelo Jornal Nacional, na entrevista William Bonner a questionou sobre o estado da economia. A resposta pode ser vista no vídeo abaixo lá pelo décimo segundo minuto (não encontrei uma versão do vídeo só com a parte da economia). Dilma nega a crise e fala que os indicadores de antecedentes apontam para a retomada do crescimento no segundo semestre de 2014, notem que ela parece se orgulhar do governo dela não ter aumentado impostos. A economista Dilma também rebate o comentário que a inflação estava no teto da meta argumentando que olhada mês a mês a inflação estava caindo (comentei aqui sobre a queda da inflação a que a presidente se referiu).



Sem dó nem piedade da presidente economista o tempo mais uma vez desvendou uma realidade contrária a que ela previu. A recuperação da economia não veio, pelo contrário, hoje já se fala de crescimento negativo em 2014 e 2015, crescimento negativo por dois anos seguido é algo que há muito não se vê por nossas bandas. A inflação ficou mesmo no teto da meta e queda prevista pela presidente não aconteceu, para 2015 mesmo o ministro da Fazenda já fala em inflação acima do teto da mera. E quanto a não aumentado impostos? Pois é, agora teve de aumentar... e cortar os direitos trabalhistas que em outro lugar ela garantiu não cortar "nem que a vaca tussa". Assim como nos outros casos Dilma nunca se desculpou e nunca reconheceu o erro. Sabe como é, os nobres não erram os fato é que conspiram contra os sábios líderes da Casa da Estrela Vermelha.