O ranking de competitividade da CNI foi divulgado (link
aqui), mais um ranking do tipo onde o Brasil aparece mal na foto. Dentre os
dezoito países analisados apenas a Argentina teve um desempenho pior que o
nosso, muito pouco para um país que pretende entrar em uma trajetória de
crescimento de longo prazo. No geral os países da América Latina que constam no
ranking foram mal, o que também não é exatamente uma novidade. Os quatro
últimos países são latino-americanos, o melhor classificado foi o Chile, também
sem novidades, e mesmo assim ficou na oitava posição. A figura abaixo mostra o
resultado de todos os países.

O quadro desolador ilustra os motivos da América Latina,
inclusive o Brasil, não conseguirem sair da tal armadilha da renda média. O
ranking é composto por nove categorias que, por sua vez, são divididas em
subcategorias. A análise dessas categorias permite uma visão mais clara dos
problemas de cada país e dos desafios que o Brasil vai ter que superar se
quiser entrar em uma trajetória de crescimento.
A primeira categoria trata de trabalho. Nessa categoria
ficamos na turma do meio, a nota de 5,16 nos deixou na nona posição entre os
dezoito países. Considerando os países da América Latina apenas a Argentina
ficou pior que o Brasil, de fato Peru e Colômbia são os países como melhor
desempenho nesse quesito.
Na decomposição do quesito percebemos que a disponibilidade
de mão de obra (subcategoria que leva em conta o tamanho da população
economicamente ativa como proporção da população com mais de quinze anos e o
crescimento da força de trabalho) puxa os países da América Latina para cima.
Na outra subcategoria, que leva em conta a remuneração do trabalho na fatura e
produtividade do trabalho na indústria, o Brasil ficou em décimo terceiro
lugar. Os países da América Latina com melhores classificações nesta
subcategoria foram o México e o Peru.

A segunda categoria trata do financiamento do investimento.
Nesta categoria o Brasil aparece em último lugar no ranking. Aqui tem um
problema que aparece em outras categorias e outros países, a nota do Brasil em
uma das subcategorias, custo do capital, foi zero, não fica sempre claro se o
zero representa um valor ausente, a informação não é conhecida, ou se é uma
nota zero. Na dúvida calculei a nota da categoria, quando consigo obter a mesma
nota do relatório usando como zero eu mantenho a nota como zero, quando obtenho
a nota usando o zero como valor ausente eu tiro o zero. Usei esse procedimento
em todos os casos onde aparece nota zero, a única exceção foi a categoria de
Educação para China onde a questão dos valores ausentes é explícita e discutida
no relatório. De toda forma se o zero em custo do capital for um valor ausente
a média dos dois outros itens nos faria ultrapassar a penas a Argentina no
ranking da categoria. Não há países da América Latina entre os cinco melhores
desta categoria, o melhor desempenho é do Chile que aparece em sétimo lugar.

Já comentei o zero do Brasil no custo do capital (calculado
a partir do spread da taxa de juros e dos juros reais de curto prazo). Na
subcategoria que mede o desempenho do sistema financeiro (considera os ativos
do setor bancário como porcentagem do PIB e a classificação de crédito do país)
o Brasil aparece em oitavo lugar perdendo apenas para o Chile na América
Latina, para surpresa de ninguém, creio eu, a Argentina aparece em último lugar
nesta subcategoria. Na última subcategoria do financiamento, disponibilidade de
capital (obtida a partir da oferta de crédito do setor privado, do tamanho do
mercado de ações local e da disponibilidade de venture capital) o Brasil
aparece na décima primeira posição, novamente o único país da América Latina
com desempenho superior ao nosso é o Chile. Também novamente a Argentina
aparece em último lugar, há quem não veja relação entre o desempenho do sistema
financeiro do país, em especial a classificação de risco de crédito do país, e
a disponibilidade de capital.

Na sequência vem a categoria de infraestrutura e logística.
Brasil, décima quinta posição, e América Latina em geral novamente aparecem mal
na foto. Peru e Colômbia ficam abaixo do Brasil, desta vez a Argentina ficou na
nossa frente, mas ainda na metade de baixo do ranking. O único país da América
Latina na metade de cima foi o Chile que aparece na sétima posição.

Na subcategoria infraestrutura de energia (considera o
custo, a disponibilidade e a qualidade da energia elétrica) o Brasil aparece em
último lugar, há quem seja contra privatizar a Eletrobras, o país da América
Latina melhor avaliado é a Argentina e, fugindo à regra, o Chile está na
rabeira ficando na antepenúltima posição geral. Na infraestrutura de
telecomunicações (uso e acesso de tecnologias de informação e comunicação)
temos nosso melhor desempenho na categoria ficando com a nona posição, logo
atrás da Argentina que aparece logo atrás de Chile que nessa subcategoria volta
a ter a melhor avaliação entre os países de nuestra América. Na
infraestrutura de transportes (qualidade e conectividade de rodovias,
eficiência do transporte ferroviário e densidade da malha ferroviária,
eficiência dos portos e integração ao transporte marítimo global, eficiência do
transporte aéreo e carga aérea) apenas o Peru teve uma avaliação pior que a do
Brasil. Em logística internacional (considera o logistic performance index
do Banco Mundial e o custo para importar e exportar) o Brasil fica na décima
quarta posição. Não vou dizer que o Chile é o melhor classificado entre os
países da América Latina para não ficar chato, mas é.

Na categoria tributação mais uma vez o Brasil só ficou
melhor do que a Argentina. A combinação de carga tributária para padrões de
países emergentes e a complexidade da legislação fazem do sistema tributário
brasileiro uma espécie de serial killer de empresas pequenas e
inovadoras. Um engenheiro ou programador que tente transformar uma ideia em um negócio
tem tudo para ficar perdido na burocracia tributária e dedicar menos tempo ao
aperfeiçoamento da ideia do que a descobrir quanto deve pagar de impostos. Como
exceção do Chile, segundo melhor na categoria, os países da América Latina
ficaram mal ranqueados ocupando as três últimas posições.

A categoria é composta por duas subcategorias. Em peso dos
tributos (carga tributária e tributos como proporção do lucro das empresas) Brasil
e Argentina estão nas últimas posições enquanto Pero e Chile receberam as
melhores avaliações entre os países da América Latina e ficaram entre os cinco
primeiros do ranking geral. Em qualidade do sistema tributário (número total de
pagamentos e o índice de pós-declaração do Banco Mundial) o Brasil ficou em
último lugar. Os cinco piores desta subcategoria são países da América Latina,
apenas o Chile aparece na parte de cima do ranking.
Nosso ambiente macroeconômico teve a terceira pior avaliação
entre os países avaliados, ficamos na frente apenas da Turquia e da Argentina.
O melhor ambiente macroeconômico da América Latina está no Peru que é seguido
pelo Chile. A Rússia lidera essa categoria.

Na subcategoria equilíbrio externo (considera o saldo em transações
correntes como proporção do PIB) o Brasil ficou em sétimo lugar, melhor da
América Latina. O pior desempenho foi o da Argentina, Chile e Colômbia completam
a lista de países latino-americanos entre os cinco piores classificados. Como o
regime de juros baixos e câmbio desvalorizado vai afetar essa variável é coisa
que o futuro vai dizer, daqui fico na torcida para essa mudança não comprometa
o melhor fundamento de nossa macroeconomia. Na subcategoria equilíbrio fiscal
(dívida bruta e despesas com juros como proporção do PIB) ficamos em último
lugar, o problema fiscal por aqui existe e é sério. O Chile tem o segundo
melhor desempenho entre todos os países e o Peru completa o time da América
Latina entre os cinco países com melhores avaliações. Na subcategoria equilíbrio
monetário (considera a inflação), ficamos na décima quarta classificação. Sei
que muita gente acredito que nossa inflação é baixa, mas não é, dos países
analisados pela CNI em apenas quatro a inflação foi maior que no Brasil, entre
eles a Argentina e o México. O país da América Latina com melhor desempenho foi
o Peru, único da região na parte de cima do ranking.

Na categoria estrutura produtiva o Brasil ficou em décimo
segundo lugar, no quadro geral do desastre não foi tão ruim, repare que ficamos
acima Austrália que é um país rico, em breve volto ao assunto. Dentre os países
da América Latina o melhor desempenho foi do México, países da região ocupam
quatro das cinco últimas posições. O Peru, pais do continente que mais cresceu
neste século (link aqui), foi o pior classificado. A melhor avaliação desta
categoria foi da China.

A primeira subcategoria dessa categoria considera a
concorrência (barreira tarifária e dominância de mercado), pior do que o Brasil
apenas Argentina e Tailândia. Isso é um problema sério, concorrência é um dos
mais importantes motores da produtividade. A segunda subcategoria é escala
(tamanho do mercado doméstico), o PIB tem um papel importante nesse item, dessa
forma estamos bem, quinta posição, porque somos grandes. As três últimas
posições ficam com Colômbia, Chile e Peru. Talvez um critério que também considerasse
PIB per capita e até mesmo distribuição de renda desse uma ideia melhor do
mercado interno, mas nesse caso nosso desempenho seria bem pior. A última subcategoria
é estrutura de mercado (medida pelo Economic Complexity Index, ECI) aqui
tem uma espécie de malandragem, como complexidade está muito associada com
indústria de transformação temos a turma da indústria dizendo que para ser competitivo
o país precisa ter indústria de transformação. Não duvido aparecer alguém
pedindo mais subsídios e proteção para setores da indústria como forma de
melhorar nossa competitividade... por conta de um conceito de estrutura de
mercado que coloca a Austrália como segunda pior e a China como segunda melhor.
No mais a resta a ironia do país com pior desempenho nesse critério, o país
menos complexo, ter sido o que mais cresceu na América Latina durante o século
XXI.

Na categoria ambiente de negócios o Brasil só ganha da
Argentina e do Peru, também é uma ironia que o país latino-americano que mais
cresceu no século XXI tenha o pior ambiente de negócios da amostra. Por outro
lado, não chega a ser surpresa que países ricos dominem essa categoria com o
Chile liderando entre os países da América Latina.

Na subcategoria burocracia (facilidade em abrir empresas e
regras trabalhistas de contratação e demissão) o Canadá lidera e o Brasil tem o
terceiro pior desempenho. Nenhum país da América Latina aparece entre os cinco
primeiros, o melhor colocado é México que aparece na décima posição e é seguido
pelo Chile. Não dá para não registrar que a burocracia da China, um país oficialmente
comunista, tenha obtido a segundo melhor nota. Na eficiência do estado (controle
da corrupção, regulação do setor privado e transparência dos dados do governo)
o Brasil fica na turma do meio, o melhor desempenho é da Austrália e o Chile,
terceiro lugar geral, lidera entre os países da América Latina. Na segurança
jurídica (execução das normas jurídicas conforme o Rule of Law Index, eficiência
das leis no questionamento de regras impostas pelo governo e execução de contratos)
o Brasil volta para a rabeira e fica na quarta pior posição. Chama atenção que
os cinco piores nesta subcategoria são países da América Latina, o Chile, no
quarto lugar geral, obteve a melhor avaliação da região.

Na categoria educação o Brasil também ficou na parte inferior
do ranking, ficamos na frente apenas da Colômbia, do México, da Índia e da
Indonésia. A melhor avaliação geral ficou com a Austrália e na América Latina
ficou com o Chile. É marcante o fraco desempenho da América Latina quando o
assunto é educação.

Na subcategoria disseminação da educação (população com
educação superior completa) o Brasil ficou no décimo terceiro lugar de
dezessete países, o melhor desempenho na América Latina foi na Argentina que
ficou na sétima posição geral. É importante ter em mente que essa é uma medida
de quantidade, não necessariamente de qualidade, a distinção que geralmente é
importante torna-se essencial quando o assunto é educação. Nos gastos com
educação (gasto público com educação como proporção do PIB e gasto público per
capita em educação) o Brasil ficou em quatro lugar geral e lidera na América Latina.
O pior desempenho foi o da Rússia. A subcategoria peca por considerar apenas
gastos públicos e por associar aumento de gastos com educação a aumento da
competitividade do país, isso talvez explique algumas posições estranhas no
ranking. Na qualidade da educação (avaliação dos estudantes em matemática,
leitura e ciências no PISA de 2018) o Brasil fica na frente apenas da Argentina
e da Indonésia. O contraste do ranking desta subcategoria com os dados subcategorias
que consideram quantidade ou gasto é marcante. A concentração de países latino-americanos
na parte inferior desse ranking deve ser motivos de preocupação.

A última categoria trata de tecnologia e inovação, o Brasil
ficou na oitava posição geral e foi o melhor da América Latina. O melhor
desempenho desta categoria ficou com a Coreia do Sul e o pior com o Peru.
Na subcategoria esforços de P&D o Brasil (despesa com
P&D como proporção do PIB e despesas de P&D das empresas como proporção
do total) repetiu a posição no ranking geral. Assim como na educação aqui aparece
a hipótese que gastar mais em algo faz com que esse algo seja melhor, há quem
discorde. Nos resultados de esforções em P&D (pedidos de patentes internacionais,
publicação de artigos científicos e técnicos e exportações de alta tecnologia)
o Brasil cai uma posição em relação ao ranking geral e fica em nono lugar. Aqui
é impossível não imaginar qual teria sido nossa posição se no lugar de uma
medida de quantidade como números de artigos publicados a CNI tivesse usado uma
medida de impacto das publicações.

A figura abaixo resume o quaro geral do Brasil, quando a
barra é maior do que um (destacado na linha pontilhada) o Brasil está acima da
média da subcategoria, ocorre o contrário quando a barra está abaixo de um
(abaixo da linha azul). As cores representam a posição do Brasil no ranking:
azul claro quando o Brasil está no terço inferior, azul escuro quando está no
terço do meio e verde quando está no terço superior.

O quadro não é nada bom. Na maior parte das subcategorias
estamos no terço inferior, ou seja, na turma da rabeira, em várias delas uma
melhora exige reformas profundas e complexas tanto do ponto de vista político
quando econômico. Em subcategorias com qualidade e disseminação da educação além
do desafio político e econômico é preciso ter muita paciência para usufruir dos
resultados que devem começar a aparecer muitos anos, talvez décadas, após as reformas.
A subcategoria onde estamos melhor, gasto em educação, não é exatamente uma
medida de sucesso, talvez seja até o contrário, estar no alto em gastos e na
parte baixa em resultados pode ser sinal de que estamos fazendo algo muito errado.
A outra subcategoria que estamos bem avaliados, escala, diz mais sobre tamanho
do que sobre eficiência ou algo do tipo.
Vez por outra reclamam que eu sou pessimista, mas vejo como
esperar muita coisa de um país com problemas sérios no mercado de trabalho, no
financiamento do investimento, na infraestrutura, no sistema tributário, no
ambiente macroeconômico, nas condições de produção, no ambiente de negócios, na
educação e na parte de P&D e que, não bastasse, tudo isso ainda tem de
resolver problemas sociais graves como violência urbana, pobreza, desigualdade,
saneamento, etc. Tudo isso precisa ser feito em uma época que não conseguimos
um mínimo de consenso nem para enfrentar uma pandemia.