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terça-feira, 9 de agosto de 2022

O preço dos alimentos subiu em julho, mas a variação do IPCA foi negativa.

Este mês o IPCA teve variação negativa, a turma das redes sociais já saiu para festa ou ataque de acordo com as cores políticas de cada um. De um lado parecem esquecer que a queda no IPCA foi por conta de uma intervenção para lá de polêmica da União nos impostos cobrados pelos estados. O custo da intervenção pode cair no colo da União mais cedo do que se pensava agravando o problema fiscal. A última vez que vi quatro estados (Alagoas, Maranhão, São Paulo e Piauí) já tinham conseguido liminares do STF para suspender pagamentos da dívida com a União por conta das perdas com a redução do ICMS. Do outro lado, há quem fale dos perigos da deflação e coisas do tipo. Não apenas esses perigos, se é que existem mesmo, podem ser bem menores do que apregoam alguns caros colegas de profissão como o que aconteceu um julho está longe de ser um episódio típico de deflação.

Uma olhada nos grupos que forma o IPCA ajuda a entender o que está acontecendo. A figura abaixo mostra cada um dos nove grupos ordenados do de menor para maior variação, em azul escuro está o índice geral. No grupo “Alimentação e bebidas” o crescimento foi de 1,3%, acima do crescimento de 0,8% em junho, outro grupo com crescimento maior do que 1% no mês foi o de “Despesas pessoais” que cresceu 1,13% em julho contra 0,49% em junho. Os grupos “Vestuário”, 0,58%, e “Saúde e cuidados pessoais”, 0,49%, também mostraram crescimento alto e preocupante.

 


Na outra ponta é possível ver a forte queda nos grupos “Transportes” e “Habitação”, as duas quedas estão diretamente relacionadas à marretada nos preços via corte de impostos com direito a lei obrigando postos a mostrar a variação nos preços no melhor estilo fiscais do Sarney. Uma olhada nos componentes do grupo “Habitação” deixa isso claro, itens como “Aluguel e taxas”, 0,86%, e “Condomínio”, 0,61%, tiveram altas significativas em julho, mesmo assim o grupo teve variação de -1,05% por conta da forte queda em “Combustíveis e energia” que caiu 4,26% por conta da queda de 5,78% em “Energia elétrica residencial”. Da mesma forma, a queda de 4,51% em transportes foi puxada pela queda de 14,15% em “Combustíveis (veículos)”. A análise dos grupos e subgrupos do IPCA deixa claro que a redução de preços em julho está mais relacionada à intervenção pontual do governo do que a uma redução dos desequilíbrios macroeconômicos que fizeram a inflação disparar em primeiro lugar.

São conhecidos os perigos de vender ilusão em economia. Friedman dizia que a inflação é sempre e em qualquer lugar um fenômeno monetário, Sargent mostrou que a origem desse fenômeno costuma estar em desequilíbrios fiscais. Redução de impostos, ainda que bem-vindas, não resolvem nem o problema monetário nem o fiscal. Na pior das hipóteses o corte de impostos agrava o problema fiscal nos fazendo trocar um imposto muito ruim, ICMS sobre combustíveis, pelo pior de todos os impostos que é a inflação. Na melhor das hipóteses o BC consegue controlar a inflação, mas ao custo de taxas de juros ainda maiores do que as que prevaleceriam em uma situação de melhor equilíbrio fiscal.

De toda forma, se o governo está convencido que inflação é doença dos preços e não da moeda, sugiro uma medida para limitar impostos sobre a melancia. Vocês acreditam que o preço da danada subiu 31,26% em julho? Só podia ser vermelha por dentro...

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Inflação em 12 meses nos grupos que compõem o IPCA

Post rápido só para mostrar a inflação em cada um dos grupos que compõem o IPCA. Em quatro dos sete grupos a variação do IPCA acumulada em 12 meses está acima do teto da meta para 2021, em um está acima do centro da meta e abaixo do teto e em dois grupos está abaixo do centro da meta. É isso.





domingo, 1 de agosto de 2021

Em tempos normais a inflação aumentaria no segundo semestre, mas não estamos em tempos normais.

O padrão da inflação no Brasil é de queda até julho e subida a partir de agosto, esse padrão está associado a fatores não necessariamente relacionados à política econômica como safras e estações do ano, também pode ser afetado por reajustes salarias em algumas categorias e coisas do tipo. A figura abaixo mostra o padrão da inflação medida pelo IPCA no Brasil, são considerados três períodos: desde a estabilização (1996 a 2020), no século (2001 a 2020) e na década (2011 a 2020). A mudança significativa é que a subida em julho não está presente quando olhamos a década encerrada em 2020, não sei explicar por que o pico desapareceu, mas fica claro que a queda no primeiro semestre e subida no segundo semestre é um padrão presente em todos os períodos considerados.

 


A valer esse padrão a expectativa de aceleração da inflação a partir de agosto, mas talvez esse não seja o caso. Choques ou decisões de políticas econômicas podem fazer com a inflação de um determinado ano saia desse padrão. O fato de o desenho da curva não ser consequência da política econômica não quer dizer que a política econômica não possa mudar o desenho da curva. Confuso, eu sei, mas imagine que existe um padrão natural que pode ser alterado pela política econômica ou por choques que afetem a economia.

Um exemplo disso foi 2016, o ano do impeachment da Dilma. Segundo o padrão das médias, naquele ano a inflação deveria ter começado uma tendência de alta em agosto e chegado a dezembro mais alta do que em janeiro. Uma olhada na figura abaixo é suficiente para ver que isso não aconteceu, para facilitar o padrão das médias está na figura em azul escuro. Repare que não ocorreu a tradicional subida do segundo semestre. A razão provável é que a mudança no governo e política econômica levou a uma menor inflação esperada e isso jogou a curva para baixo. A subida que começou em setembro foi bem modesta.

 


Outro ano que saiu do padrão foi 2020, o choque da pandemia jogou a inflação para baixo já em abril e maio, nos dois meses a variação do IPCA foi negativa, a subida começa a partir de maio e é bem mais forte que a do padrão usual. Minha explicação para uma subida tão forte, mesmo com a pandemia e as restrições à abertura do comércio, foi a condução da política monetária que exagerou na redução dos juros e, mais importante, no tempo que segurou os juros muito baixos. Aqui vale uma nota: o BC se comporta como a maioria dos bancos centrais e usa juros como instrumento de política monetária, nesse sentido “aumentar os juros” é o equivalente do “reduzir a oferta de moeda” que aparece nos livros textos de macroeconomia. A figura abaixo mostra a inflação de 2020, mais uma vez o padrão médio da década aparece em azul escuro para facilitar a comparação.

 


O ano 2021 já começa como um ano fora de padrão. A segunda onda da pandemia mantém um alto nível de incerteza na economia e o BC começou uma reversão da política monetária com seguidos aumentos de 1% na meta para taxa Selic. A figura abaixo mostra a inflação em 2021 (até junho) e o padrão médio da década, a diferença é clara. Mesmo assim, tudo mais constante, acredito que o caminho natural seria uma elevação a partir de agosto ou, mais tardar, setembro, mas o “tudo mais” não está constante. A guinada na política monetária pode repetir 2016, sem a mudança de governo, e evitar, ou pelo menos suavizar muito, a elevação da inflação no segundo semestre. Para que isso aconteça é fundamental que sociedade acredite que o BC está disposto a dar um grande choque de juros se necessários for. 


Olhando de fora do BC e do mercado acredito que o atual ciclo de elevação não passa a mensagem que o BC está disposto a fazer o que for preciso para segurar a inflação, mas pode ser porque sou chato. Como bom botafoguense sigo dizendo que vai dar errado e, lá no fundo, torcendo (e até acreditando) que pode dar certo.

 

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Faz sentido as compras do mês estarem tão mais caras e a inflação tão baixa?

Basta ligar a TV no horário de algum jornal para termos notícia do aumento dos preços nos supermercados pelo Brasil, ainda assim a inflação acumulada no ano medida pelo IPCA está em menos de 1%, para ser preciso em 0,7%. Se “tudo” fica mais caro como pode a inflação estar tão baixa? Isso acontece porque a inflação é uma média de preços e, por incrível que pareça, nem tudo está ficando mais caro.

Essa é uma questão que aparece todo ano, mas neste ano ganhou mais força por conta da pandemia. Com as medidas de isolamento o padrão de consumo mudou de forma que estamos consumindo mais alimentos, grupo com grande aumento de preços, e menos transportes, grupo com queda de preços, o resultado é que a inflação do que realmente consumimos fica maior do que a inflação captada pelo IPCA. O fenômeno acontece em outros países, Alberto Cavallo, da Harvard Business School, avaliou as mudanças no consumo em vários países e constatou que, via de regra, a inflação do que consumimos na pandemia é maior do que a inflação medida com cestas de consumo tradicional (link aqui).

Se detalharmos o IPCA fica mais fácil entender o fenômeno. Para calcular a variação dos preços o IPCA considera nove grupos: Alimentação e bebidas (peso 20,05); Habitação (peso 15,64), Artigos de residência (peso 3,74); Vestuário (peso 4,45); Transportes (peso 19,64); Saúde e cuidados pessoais (peso 13,62); Despesas pessoais (peso 10,70); Educação (peso 6,39) e Comunicação (peso 5,8). O peso de cada grupo representa o quanto os bens e serviços do grupo pesam no orçamento de uma família média de acordo com o público alvo do índice que são famílias com renda de um a quarenta salários mínimos que vivem nas regiões metropolitanas selecionadas. A figura abaixo mostra a variação dos preços de cada grupo no acumulado do ano.


 Em 2020 os preços do grupo Alimentação e bebidas aumentou 4,91%, é muito, para comparação a meta de inflação para todo o ano de 2020 é de 4%. Por outro lado, o grupo de transportes teve queda de 3,46% no acumulado do ano, ou seja, está mais caro comer e está mais barato sair de casa. Ocorre que continuamos comendo e estamos saindo bem menos de casa, por isso o aumento de preços percebido, alguém pode dizer relevante, é maior que o medido pelos índices de preços aos consumidores como é o caso de IPCA.

Para ilustrar melhor o fenômeno a figura abaixo mostra o aumento de preços acumulado no ano para cada subgrupo do IPCA. O maior aumento ocorreu em Joias e bijuterias que é um subgrupo com peso baixo, apenas 0.21, no orçamento, a maior queda ocorre em Móveis e utensílios que tem peso 1,70 no orçamento. Se consideramos os subgrupos mais relevantes o que tem mais impacto é Transportes (peso de 19,64) que teve queda de preços de 3,46% em 2020, o que puxa o IPCA bem para baixo. Por outro lado, o subgrupo com segundo maior peso é Alimentação no domicílio (peso 14,07) com aumento de 6,10% no acumulado do ano. É esse aumento preços que sentimos nos supermercados.

 

Desagregar mais do que subgrupos talvez atrapalhe mais do que ajude no ponto desse post, os interessados podem checar os dados do IPCA do IBGE para os 51 itens e 377 subitens do IPCA. Aqui vou abrir os itens do grupo “Alimentação e bebidas” e os subitens do grupo “Transporte”. A escolha dos grupos foi por ocuparem os extremos, maior aumento e maior queda de preços. A razão de um ser avaliado por itens e outro por subitens é que o primeiro tem 17 itens e 168 subitens enquanto o segundo tem 3 itens e 28 subitens.

No grupo Alimentação e bebidas o maior aumento de preços no acumulado do foi de 20,77% ocorreu no item “Tubérculos, raízes e legumes”, seguido por 18,87% no item “Cereais, leguminosas e oleaginosas” e 13,86% no item “Frutas”. O único item do grupo com queda de preços no acumulado do ano foi “Carnes” com queda de 1,89%, desta forma se o leitor for vegetariano o aumento de preços está ainda pior do que para quem como carne. A figura abaixo ilustra esses dados. Só para atiçar a curiosidade do leitor informo que o subitem com maior aumento de preços no ano foi “Manga”, crescimento de 61,63%, a maior queda foi no subitem “Abacate”, 22,49%, seguido por “Filé-mignon” com queda de 18,44%, a turma do churrasco talvez queria saber que a “Alcatra” e “Contrafilé” tiveram queda de 12,31% e 8,31%, respectivamente, no acumulado do ano.

 

No caso do grupo “Transportes” dos itens tiveram queda de preço e um teve aumento no acumulado do ano. As quedas ocorreram em “Transporte público”, 12,57%, e “Combustíveis (veículos)”, 6,61%, enquanto o aumento ocorreu em “Veículo próprio” e foi de 0,96%. Como o grupo não tem muitos subitens deu para listar a variação de preços acumulada no ano para cada um dos subitens, o resultado está na figura abaixo. A grande queda de preços, 57,86%, ocorreu no subitem “Passagem aérea” seguida pela queda de 23,89% em “Transporte por aplicativo”. Também tiveram quedas de preços o etanol, os seguros voluntários de veículos, o óleo diesel, o aluguel de veículos, os ônibus interestaduais, a gasolina, o gás veicular e os automóveis usados. Os preços dos pneus aumentaram 5,5% no acumulado do ano, até aí sem grandes problemas, mas os aumentos de preços no metrô, 4,74%, transporte escolar, 4,13%, e ônibus intermunicipais, 3,14%, podem ter mais impacto nos bolsos de várias famílias.

 


Como o leitor pôde observar os preços dos diversos bens e serviços que compõem o IPCA tiveram comportamentos distintos neste ano, até aqui nada demais, o que parece ter causando confusão é a mudança de cesta de consumo por conta da pandemia que não está sendo devidamente considerada nos pesos do IPCA. Outra preocupação legítima é se o aumento de preços em alguns grupos vai acabar chegando nos outros grupos. É normal que os diferentes preços tenham comportamentos distintos, ainda mais diante de um choque tão forte quando a pandemia de Covid-19. Destes movimentos que aparecem as variações nos preços relativos que guiam o mercado. Se a política monetária for bem conduzida a história acaba aqui sem maiores consequências, do contrário pode ocorrer uma corrida de preços que alimenta um processo inflacionário. A disparada dos preços no atacado (ver aqui), que não entram em índices de preços aos consumidores como o IPCA, pode ser muito mais perigosa para acionar um processo inflacionário do que a forte subida nos preços dos alimentos, mas nada que uma boa política monetária não possa resolver. A bola está com Roberto Campos e a turma do Banco Central, alô rapaziada, prestem atenção que o jogo é sério e a tal capacidade ociosa sozinha não vai dar conta de garantir o resultado.

 

 

domingo, 9 de agosto de 2020

Uma nota sobre os preços no atacado e os preços ao consumidor

Um fenômeno que tem chamado atenção nos últimos meses é a diferença entre a inflação medida pelo Índice Geral de Preços (IGP) da FGV e o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) do IBGE. Tomando como referência o IGP-DI (o DI significa disponibilidade interna, uma medida que não considera os preços dos produtos exportados), a inflação acumulada este ano até julho foi de 6,97%, pelo IPCA a inflação acumulada no mesmo período foi de 0,46%. O fenômeno não é exatamente novo, em 2018 a inflação foi de 7,10% pelo IGP-DI e de 3,74% pelo IPCA enquanto em 2019 o IGP-Di teve uma variação de 7,67% contra 4,30% do IPCA. O contrário também acontece, em 2017 a inflação foi de -0,42% pelo IGP-DI e de 2,94% pelo IPCA. A figura abaixo mostra o acumulado dos dois índices desde janeiro de 2011.

 Repare que até 2014 os dois índices andam bem próximos, depois há uma queda do IGP-DI em relação ao IPCA. Em 2018 o IGP-DI começa a crescer mais que o IPCA, esse crescimento pode ser visto como uma “recuperação” das perdas nos anos anteriores. No começo de 2019 a diferença é compensada e, pela primeira vez na década, o IGP-DI começa a descolar para cima do IPCA.

Se algum apressado pensou em culpar o IBGE ou a FGV pela diferença, é melhor esquecer. A diferença é explicada pelo comportamento dos preços no atacado que correspondem a 60% do IGP-DI e que não entram no IPCA que, afinal, é um índice de preços aos consumidores. Para mostrar a diferença entre preços no atacado e aos consumidores vale dar uma olhada nos índices que compõem o IGP-DI. A maior parte do IGP-DI, precisamente 60%, vem do Índice de Preços no Atacado (IPA), depois, com 30%, aparece o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) e, finalmente, com 10%, aparece o Índice Nacional da Construção Civil (INCC), todos calculados pela FGV. Como era de se esperar o IPC anda bem mais próximo do IPCA do que o IGP, em julho, por exemplo, o IPCA deu 0,46%. A figura abaixo mostra o IPC-DI e o IPCA, fica clara a proximidade dos dois índices.

 

A próxima figura mostra o IPA-DI, o IPC-DI e o INCC-DI entre janeiro de 2011 e julho de 2020. Nela é fácil ver que o crescimento dos preços no atacado não pode mais ser visto como uma compensação das “perdas” acumuladas desde o começo da década. A forte desvalorização do real provavelmente explica boa parte do aumento dos preços do atacado, mas essa desvalorização não chegou aos consumidores finais. Parte desse fenômeno pode ser explicado pela crise, parte pode ser pela já citada “compensação” do crescimento maior dos preços aos consumidores no começo da década.

 

A figura abaixo, com os mesmos índices da figura anterior agora com base em janeiro de 2017, mostra como os preços no atacado se aproxima e ultrapassam os preços ao consumidor.

 

A questão é saber se (ou quando?) os preços aos consumidores vão começar a subir para “compensar” as perdas dos últimos meses. A relevância da questão tem dois motivos que merecem destaque. O primeiro é que aumentos nos preços aos consumidores têm um impacto mais direto no poder de compra das famílias do que aumentos dos preços no atacado. O segundo é que o Banco Central ajusta a política monetária de acordo com o IPCA, uma medida de preços aos consumidores, de forma que um aumento desses preços deve (ou deveria?) levar a uma reação do Banco Central que não ocorreu com o aumento dos preços no atacado.

Como o Banco Central vai reagir a um possível aumento nos preços aos consumidores se esse ocorrer ainda no rescaldo da perda de poder aquisitivo por conta da crise e da pandemia é coisa que eu não dizer. Sei que, dado a inexistência de perspectivas algo parecido com equilíbrio fiscal nos próximos anos, a resposta do BC pode decidir o cenário macroeconômico na próxima década.

 

P.S. A tese que a recessão é condição suficiente para evitar inflação não resiste a uma olhada na Argentina de nossos dias, no Brasil da década de 80, em vários países na década de 70 ou em tantos outros casos de inflação alta ou hiperinflação registrados na história. Na sequência de um choque de oferta gigante como o que estamos passando a tese fica ainda mais descabida.

 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Ainda sobre o IPCA de 2016... O ano em que voltou a ser permitido ser pessimista sem ser acusado de terrorista econômico.

Nos últimos anos ficou comum ver certos jornalistas, políticos e membros da equipe econômica do governo de plantão atacando economistas que faziam previsões que desagradavam o governo, a pancada era ainda mais forte nos jornalistas que divulgavam tais previsões. Quem desafiava o ridículo otimismo do governo ganhava títulos como terrorista econômico, inimigo dos pobres, inimigo do estado, serviçal da banca ou piadista. Em um dos pontos mais absurdos da perseguição chegaram a ensaiar a tese estapafúrdia que economistas forçavam a expectativa de inflação para cima como forma de forçar o aumento dos juros, em um dos pontos mais patéticos criaram a figura do pessimildo.

O curioso é que no governo Dilma, auge da perseguição a quem contrariava o governo, o mercado via de regra era otimista com a inflação, no sentido que a regra era o mercado prever uma inflação menor que a inflação que acontecia. Para ilustrar esse fato a figura abaixo mostra a expectativa de inflação mês a mês conforme o último relatório de cada mês e a inflação que de fato aconteceu no ano (reta verde).



Repare que durante praticamente todo o ano de 2011, todo o ano de 2012, todo o ano de 2013, a maior parte do ano de 2014 e praticamente todo o ano de 2015 a previsão de inflação do mercado estava abaixo da inflação que realmente ocorreu, ou seja, o mercado foi otimista. O único ano em que o mercado errou para cima durante todo o ano foi em 2016.

Não acuso o mercado, longe disso, afinal eu também estou entre os que acreditavam que a inflação seria maior do que a que ocorreu de fato. É fácil de entender que dada a mudança de política os modelos tenham errado para mais, o que significa que a dificilmente a inflação abaixo da esperada pode ser explicada apenas pela recessão ou pelo câmbio, variáveis que devem estar nos modelos de previsão da turma do mercado. O que não é fácil de entender e que eu não pretendo esquecer nem perdoar é a razão de tanta perseguição a profissionais que de uma forma ou outra por desagradavam o governo por fazer previsões que, ainda que otimistas, não agradavam os devaneios do antigo governo e seu partido. Enfim, é bom viver novamente em um país onde errar uma previsão ou mesmo ser pessimista não transforma alguém em alvo da corte.



IPCA de 2016 fica dentro da meta e deixa claro o efeito da mudança na equipe econômica.

A inflação medida pelo IPCA terminou o ano dentro do intervalo da meta (link aqui), mesmo sabendo que nossa meta é alta e que uma inflação de 6,29% ainda é muito alta temos motivos para comemorar, afinal, contrariando as expectativas do mercado e minhas, o Banco Central conseguiu que a inflação ficasse abaixo do teto da meta ainda em 2016. Ilan Goldfajn tomou posse como presidente do Banco Central em nove de junho indicado por um governo que só saiu da condição de interino em trinta e um de agosto. A figura abaixo mostra como a chegada de Goldfajn e equipe mudou a trajetória da inflação.




Na figura estão os valores do IPCA de cada mês nos anos de 2011 a 2016. Repare que em todos os anos de 2011 a 2015 o IPCA cai até a metade do ano e sobe a partir deste período, o padrão está relacionado a sazonalidade de alguns preços e não é um problema em si. Tivesse o IPCA de 2016 seguido este padrão a inflação teria terminado o ano acima do teto da meta, talvez não tão alta quanto os 10,6% de 2015, mas superior a 7% como estava previsto no Relatório Focus divulgado pelo Banco Central. Porém, com a mudança nas expectativas por conta do governo e da chegada de uma nova equipe no Banco Central, foi possível fazer com que a inflação mudasse de trajetória de forma que, ao contrário de todos os outros anos entre 2011 e 2015, o IPCA não começou uma trajetória de alta depois do meio do ano. A figura abaixo mostra o comportamento do IPCA em 2016 e a média das medidas mensais do IPCA entre 2011 e 2015.




A mudança de comportamento fica clara. De fato, a partir de setembro de 2016, com o novo governo já sem a condição de interino, o IPCA ficou bem abaixo da média dos anos anteriores em todos os meses. Cabe ressaltar que essa mudança de trajetória da inflação, junto com as medidas fiscais que a Fazenda está tomando, possibilitou a redução da taxa de juros sem ocorrer um desastre semelhante ao do passado recente. Na condição de pessimista inveterado, enquanto houver inflação vou continuar reclamando e cobrando do Banco central que a mantenha controlada. Porém, se tinha alguém perguntando se alguma coisa melhorou depois da saída de Dilma, está aí uma resposta.