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quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Ainda sobre o IPCA de 2016... O ano em que voltou a ser permitido ser pessimista sem ser acusado de terrorista econômico.

Nos últimos anos ficou comum ver certos jornalistas, políticos e membros da equipe econômica do governo de plantão atacando economistas que faziam previsões que desagradavam o governo, a pancada era ainda mais forte nos jornalistas que divulgavam tais previsões. Quem desafiava o ridículo otimismo do governo ganhava títulos como terrorista econômico, inimigo dos pobres, inimigo do estado, serviçal da banca ou piadista. Em um dos pontos mais absurdos da perseguição chegaram a ensaiar a tese estapafúrdia que economistas forçavam a expectativa de inflação para cima como forma de forçar o aumento dos juros, em um dos pontos mais patéticos criaram a figura do pessimildo.

O curioso é que no governo Dilma, auge da perseguição a quem contrariava o governo, o mercado via de regra era otimista com a inflação, no sentido que a regra era o mercado prever uma inflação menor que a inflação que acontecia. Para ilustrar esse fato a figura abaixo mostra a expectativa de inflação mês a mês conforme o último relatório de cada mês e a inflação que de fato aconteceu no ano (reta verde).



Repare que durante praticamente todo o ano de 2011, todo o ano de 2012, todo o ano de 2013, a maior parte do ano de 2014 e praticamente todo o ano de 2015 a previsão de inflação do mercado estava abaixo da inflação que realmente ocorreu, ou seja, o mercado foi otimista. O único ano em que o mercado errou para cima durante todo o ano foi em 2016.

Não acuso o mercado, longe disso, afinal eu também estou entre os que acreditavam que a inflação seria maior do que a que ocorreu de fato. É fácil de entender que dada a mudança de política os modelos tenham errado para mais, o que significa que a dificilmente a inflação abaixo da esperada pode ser explicada apenas pela recessão ou pelo câmbio, variáveis que devem estar nos modelos de previsão da turma do mercado. O que não é fácil de entender e que eu não pretendo esquecer nem perdoar é a razão de tanta perseguição a profissionais que de uma forma ou outra por desagradavam o governo por fazer previsões que, ainda que otimistas, não agradavam os devaneios do antigo governo e seu partido. Enfim, é bom viver novamente em um país onde errar uma previsão ou mesmo ser pessimista não transforma alguém em alvo da corte.



segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Até muito perto do final do ano mercado subestimou a inflação de 2014, mas se você ler alguns jornais ou blogs vai pensar que foi o contrário.

Um tema recorrente aqui no blog é a tentativa de se atribuir ao mercado um pessimismo militante a respeito da economia brasileira. Os motivos mudam de acordo com que acusa ou com o momento. Em um momento o pessimismo visa atingir a presidente, em outros momentos apenas o Ministro da Fazenda, em outro momento é uma conspiração para aumentar juros, um reflexo do preconceito da “elite branca paulista” contra Lula ou uma forma de ajudar o mesmo Lula em suposto conflito interno do PT. Não importa a razão, todas as acusações de pessimismo sofrem do mesmo mal de origem, simplesmente não batem com os dados.

Em abril do ano passado fiz um post aqui no blog mostrando que o mercado tende a errar prevendo inflação menos que a observada e crescimento maior que o observado (link aqui). Tratei do tema com mais cuidado em post que saiu no Economista X e mais uma vez mostrei que se o mercado pode ser acusado de algo seria de otimista (link aqui). Sei que estou repetitivo com esta conversa, mas vou votar mais uma vez ao assunto. Não será a última.

Com o fim do ano e a inflação ficando acima do centro da meta embora abaixo do teto superior da meta já esperava que voltasse a ladainha do mercado pessimista. Vi o assunto em alguns blogs governistas mas não achei que valia o esforço de mais um post explicando o engano, até porque desconfio que no caso de alguns blogs não é engano. Ocorre que no final de semana vi a história do mercado pessimista no artigo de Janio de Freitas, é bem verdade que de uma forma bem mais sofisticada do que nos blogs governistas, mas a tese é a mesma. Para que o leitor julgue se estou vendo fantasmas ou se realmente Janio de Freitas esqueceu de olhar os números antes de escrever transcrevo o trecho que me chamou atenção (o texto completo está aqui):

“No último dia útil da semana, o divulgado índice da inflação em 2014, de 6,41%, demonstrou: quem estava certo era Guido Mantega. Até muito perto do fim do ano, sua insistência em que a inflação ficaria abaixo do "teto" de 6,5%, fixado para o ano foi contestada ou posta em dúvida crítica.”

Me pergunto com quem Guido Mantega tanto insistiu e quem duvidou “até muito perto do fim do ano” que a inflação ficaria abaixo de 6,5%? A pergunta vem do fato que os números de expectativa de inflação divulgados pelo Banco Central e usado por 9 entre 10 analistas econômicos não dão suporte a história contada por Janio de Freitas.

Uma vez por semana o Banco Central divulga o Relatório Focus (link aqui), durante o ano de 2014 foram publicadas 52 versões do relatório. Apenas em uma das versões, a de 17/04, o relatório mostrou uma expectativa de inflação maior que 6,5% (foi de 6,51%), em todos os outros 51 relatórios a inflação prevista era igual ou inferior a 6,5%. Mais ainda, dos 52 relatórios apenas 20, menos da metade, mostraram inflação esperada superior a 6,41% que foi o valor observado. Todos os relatórios do mês de dezembro (“muito perto do final do ano”) mostraram uma inflação esperada de 6,38%, ou seja, até muito perto do final do ano o mercado apostava em uma inflação menor do que foi observada, se isso não for otimismo...

O gráfico abaixo tenta resumir o que está escrito acima. Em azul está a inflação esperada pelo mercado, de acordo com o Banco Central, em cada um dos 52 relatórios de 2014. Em laranja está o valor observado da inflação e em cinza está o teto da meta. Quando a linha azul está acima da cinza significa que o mercado esperava uma inflação superior ao teto da meta, note que só ocorreu uma vez, quando a linha azul está acima da linha laranja o mercado esperava uma inflação superior à que de fato foi observada. Note que “mito perto do final do ano” a linha azul está abaixo da laranja.




Por que tantos jornalistas insistem em uma tese que é facilmente desmentida por números disponibilizados na página do Banco Central? Tenho meus palpites, mas não arriscarei apresenta-los aqui, prefiro deixar uma provocação no ar. Será que alguns jornalistas e blogueiros querem boicotar o combate à inflação por odiarem os pobres? Saudades do tempo do Sarney onde pobres não andavam de avião e não compravam automóveis? Vai saber...



domingo, 24 de agosto de 2014

Isto não é Pessimismo

Ontem, na noite seca de Brasília, já cansado eu lia com má vontade alguns textos sobre a economia brasileira. Economistas muito respeitados escreviam que o pessimismo do mercado decorrente do diálogo ruim do governo com os empresários é o maior problema da economia brasileira. Enquanto tentava acompanhar os argumentos dos textos que lia meus pensamentos se fixavam em reflexões passadas a respeito da economia brasileira. Reflexões de uma época em que muitos dos que escreveram os textos que me atormentavam diziam que tudo estava bem e que uma era de crescimento e prosperidade estava se abrindo para economia brasileira. Assim, meio dormindo e meio acordado, continuei lendo e refletindo e uma voz irritante ao final de cada reflexão dizia “isto não é pessimismo”...

  • Se amanhã os empresários todos acordarem otimistas e resolverem aumentar a produção vai faltar energia no país e água em São Paulo. Isto não é pessimismo.
  • As contas públicas estão em tal estado de penúria que o governo já está suspendendo repasses para os bancos que operam os programas sociais e precatórios voltam a se acumular. Isto não é pessimismo.
  • A produtividade da economia brasileira é baixa e está praticamente estagnada há quase quarenta anos. Isto não é pessimismo.
  • A educação brasileira é constantemente avaliada entre as piores do mundo. Isto não é pessimismo.
  • Apesar de todas as conversas a respeito de termos nos tornado um país de classe média aproximadamente 90% dos brasileiros estariam abaixo da linha de pobreza se morassem nos Estados Unidos. Isto não é pessimismo.
  • No relatório Doing Business do Banco Mundial o Brasil fica abaixo da centésima posição em 9 dos 11 itens disponíveis. Insto não é pessimismo.
  • A dívida externa está subindo rapidamente e, ao contrário da década de 1970, desta vez sequer temos um estoque considerável de infraestrutura a nossa disposição. Isto não é pessimismo.
  • A inflação está acima do centro da meta, nem mesmo o Banco Central aposta em inflação no centro da meta no próximo ano. Isto não é pessimismo.
  • O Brasil é uma das economias mais fechadas do mundo e ainda assim os empresários pedem mais protecionismo e o governo acena que dará. Isto não é pessimismo.
  • Apesar de todo o progresso dos últimos anos ainda são assassinadas mais de 50 mil pessoas por ano no Brasil. Isto não é pessimismo.
  • Em nenhuma cidade brasileira é possível sair do avião, pegar o metrô e descer em uma estação em frente ao hotel. Isto não é pessimismo.


A lista é enorme e deprimente, tenho medo de cansar o leitor ainda mais se escrevê-la por completo, não escreverei. Apenas direi que após finalmente adormecer um corvo medonho me falou: “se vocês continuarem chamando a descrição da realidade de pessimismo, a realidade não mudará nunca mais”. Acordei.




P.S. Peço desculpas aos leitores pela ousadia do texto, se meu talento literário fosse próximo da minha vontade de homenagear Allan Poe o post teria ficado muito melhor, talvez até tivesse ficado bom. Tentei.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Quem são os pessimistas?

Toda vez que sai alguma projeção de mercado somos bombardeados com a tese que existe uma conspiração pessimista a respeito da economia brasileira. A tese do excesso de pessimismo é o último refúgio dos que se recusam a entender que a política de desvalorizar câmbio, reduzir juros na marra e controlar preços deu errado pelo simples fato que não poderia dar certo. Controle de preços dispensa comentários, sempre que foi usado deu errado. A combinação de juros baixos e câmbio desvalorizado tem uma defesa mais forte, nem mesmo diria que é uma combinação ruim, apenas que só será obtida por meio de uma redução drástica no gasto público que permita ao governo não ter de se financiar no mercado. Se o governo gasta mais do que arrecada então é obrigado a pedir dinheiro emprestado às taxas ofertadas pelo mercado. Quanto mais dinheiro ele precisa pegar mais difícil conseguir taxas baixas, com taxas de juros altas entra dólar no país e o câmbio se valoriza. Tentar conseguir a combinação juros baixos e câmbio desvalorizado com política monetária é receita para o desastre, como bem demonstrou a tentativa do governo Dilma.

Mas voltemos ao assunto do pessimismo. Toda vez que vejo o governo ou quem quer seja colocar esta tese na mesa me pergunto quem são os pessimistas que estão impedindo o sucesso da economia brasileira. Serei eu e uma meia dúzia de economistas que criticam o governo em blogs e no FB? Não creio, duvido que algum responsável por decisões de investimento decida lendo o que dizemos. Serão outros economistas que criticam a política do governo em grandes jornais? Também não creio, para cada um destes existem, ou pelo menos existiam, outros tantos economistas garantido que nossa economia está sólida e segura. Serão os jornalistas econômicos? O tal Partido da Imprensa Golpista? Difícil, esses jornalistas não produzem números nem calculam previsões, quando muito repercutem as previsões do mercado. Desta forma creio que só ficou um suspeito, ele mesmo, o grande o vilão dos governantes democráticos e populares: o mercado. Apenas este ser, que os críticos frequentemente apontam como uma espécie de divindade moderna, teria tanto poder para espalhar o pessimismo que impede o Brasil de ter um crescimento chinês.

Felizmente nosso Banco Central monitora de perto o que este tal de mercado pensa sobre a economia brasileira, melhor: monitora, organiza e divulga o que o mercado anda dizendo para gerar tanto pessimismo. Estes números estão disponíveis na página do Banco Central em uma publicação chamada Focus (link aqui). Para ver o grau de pessimismo do mercado peguei as previsões feitas no início de cada ano do governo Dilma e comparei com o que de fato ocorreu. São feitas previsões de muitas variáveis, me limitei a crescimento e inflação porque são as mais comentadas na imprensa. Os resultados estão na tabela abaixo.

Ano
Crescimento
Inflação

Previsto
Ocorrido
Previsto
Ocorrido
2011
4,50%
2,73%
5,34%
6,50%
2012
3,30%
1,03%
5,31%
5,84%
2013
3,26%
2,28%
5,49%
5,91%
Para valores previstos foram usados os dados da coluna hoje para o ano de referência no primeiro relatório Focus de cada ano, para valores ocorridos foram usados dados do IPEADATA.


Perceberam que em todos os anos do governo Dilma o mercado começou o ano esperando mais crescimento e menos inflação do que ocorreu? À luz dos números os pessimistas são otimistas. Onde estão os pessimistas afinal de contas? Na realidade estão espalhados e falando para poucos. O que existe em relação à economia brasileira é um enorme e aparentemente infindável otimismo. Os que acusam o pessimismo de responsável pelo baixo investimento e a baixa de crescimento no Brasil devem procurar outros vilões para a fábula que estão escrevendo, a lista de vilões é grande: Bush Jr, FHC, aquecimento global, Sábios do Sião, extraterrestres malvados, homem do saco, mulher loura dos banheiros, Dr. Silvana e muitos outros.