quarta-feira, 14 de maio de 2014

A Indústria e a Comparação do Brasil com Países da América Latina

Sempre que vejo comparações entre o PIB do Brasil e de países desenvolvidos eu aponto que a comparação é indevida e apresento uma comparação com países da América Latina. Meu argumento é que somos parte da América Latina e que isto não é um acaso. Nossa renda per capita é semelhante a dos outros países do continente e compartilhamos muito da cultura e da história do continente. Os que me criticam invariavelmente levantam a questão da indústria. O argumento é que o Brasil tem uma indústria forte e diversificada e não pode ser comparado com as economias exportadoras de commodities dos outros países da América Latina. Este argumento é tanto mais forte quanto mais a comparação fizer referência ao Chile. A figura abaixo mostra a participação da indústria nas economias da América do Sul (usei os dados do Banco Mundial disponíveis no Quanl e exclui a Venezuela por falta dado relativo a 2012).



Como podem reparar a participação da indústria no Brasil só é maior que no Uruguai. É fato que o número da figura inclui a indústria extrativa, mas também é fato que no Brasil a indústria extrativa é muito relevante e que usar apenas indústria de transformação não deve mudar muito o resultado geral que a figura ilustra. Grosso modo o resultado a que me refiro é que os críticos das minhas comparações com a América Latina devem buscar outros argumentos. Nossa indústria, como proporção do PIB, não é maior que a dos outros países da América do Sul.


segunda-feira, 12 de maio de 2014

Uma Nota a Respeito da Poupança

Taxa de poupança é uma variável delicada, é possível fazer várias leituras do papel que esta variável desempenha no processo de crescimento econômico. No Modelo de Solow para uma economia fechada, a taxa de investimento, que é igual à taxa de poupança, é um dos determinantes do nível de renda no longo prazo, mas não tem efeito de longo prazo na taxa de crescimento. No longo prazo a taxa de crescimento da economia é dada pela taxa de crescimento da produtividade total dos fatores.

Ocorre que o Modelo de Solow não trata de duas questões que são relevantes quando se discute poupança ou investimento. A primeira, que por sinal é explorada no livro do Piketty, é que se a poupança de um país é menor que o investimento então o país está trazendo poupança do exterior, o que significa que em algum lugar no futuro o país deverá enviar renda para o exterior. Marco Antônio Martins, de quem já falei aqui no blog, costumava me dizer que não devemos olhar PIB, devemos olhar PNB. A diferença entre PIB e PNB é a renda enviada para o exterior menos a recebida. Um país que envia mais renda para o exterior do que recebe, caso do Brasil, terá o PIB maior que o PNB.  Grosso modo podemos dizer que PIB mede a produção e PNB mede a renda. Sendo assim uma taxa de poupança baixa implica em baixo investimento ou no compromisso de enviar renda para o exterior. A segunda diz respeito a relação entre crescimento da produtividade e investimento. No Modelo de Solow esta relação não é trabalhada. Porém é muito razoável supor que maior taxa de investimento leve a maior crescimento da produtividade. Isto ocorre porque parte dos ganhos de produtividade decorre de novas tecnologias que estão embutidas em máquinas e equipamentos. Sem investimento a firma não tem acesso a estas tecnologias.

Sendo assim é possível dizer que uma taxa de poupança baixa comprometa a renda do país tanto pelo menor crescimento da produtividade quanto pela necessidade de enviar renda para o exterior em algum ponto no futuro. O perigo desse raciocínio é que pode sugerir que o governo intervenha para aumentar a taxa de poupança criando poupança forçada, esta é, por exemplo, a lógica do FGTS. Como poupança é uma variável endógena, ou seja, é escolhida pelos agentes econômicos, este tipo de intervenção tende a ser problemática, novamente vide o caso do FGTS. Feita a ressalva é preciso dizer que o governo pode agir na taxa de poupança por meio da estrutura de incentivos na economia.

A figura abaixo mostra a taxa de poupança média das 20 maiores economias do mundo entre 1993 e 2013. Reparem que a China e a Coréia se destacam com taxas de poupança acima de 30%. Depois vem outro grupo que se destaca com taxas entre 25% e 30%, nesse grupo estão Arábia Saudita, Rússia, Japão, Indonésia e Índia. A partir daí nenhum grupo se destaca. O Brasil, com uma taxa de poupança de 16,9% é o penúltimo da lista, entre a África do Sul e a Grã-Bretanha. É muito provável que a taxa de poupança no Brasil seja muito baixa para um país que ainda tem um enorme esforço de crescimento pela frente. Como vimos acima uma taxa de poupança nos condena a crescer pouco e/ ou nos obriga a enviar renda para o exterior. Duas situações que podem ser indesejáveis para o aumento da renda.



Uma questão imediata é saber a razão da taxa de poupança ser tão baixa no Brasil. Argumentos relacionados à renda per capita não me parecem suficientes, afinal o campeão da poupança é a China que tem renda per capita menor que a do Brasil. Creio que investigar os incentivos para poupança é um caminho mais promissor. Talvez um dos principais motivos para poupar seja garantir uma vida digna quando não for mais possível trabalhar, outro motivo seria garantir uma reserva para eventuais problemas de saúde, por fim, adquirir casa própria e mandar os filhos para boas universidades costumam ser motivos para poupar em alguns países. No Brasil temos um dos sistemas de previdência mais generosos do mundo. Além dos servidores públicos mais antigos todo trabalhador que ganha abaixo do teto da previdência se aposenta com salário integral, para não falar das aposentadorias por tempo de serviço e das pensões para viúvos ou viúvas. A maior parte da população conta com o SUS para problemas de saúde e mesmo a classe média prefere fazer seguros a se precaver por meio de poupança. Para completar as melhores universidades do país são públicas e gratuitas. Sobra apenas a compra da casa própria, que vem sendo cada vez mais facilitada por financiamentos com juros subsidiados. Visto assim não parece surpresa que a taxa de poupança no Brasil seja tão baixa. Poupar para quê?

A relação entre proteção social e baixa taxa de poupança é intuitiva, quanto mais seguro alguém tem menos razões para poupar. Porém chama atenção que a taxa de poupança do Brasil seja menor que a de países com forte estado de bem-estar, como França e Alemanha, que estão na figura e também Suécia (24,3%) e Dinamarca (24%.). Será a baixa poupança o resultado da combinação de estado de bem-estar com renda per capita baixa? É uma hipótese. Independente de qual seja a explicação não creio que o Brasil vá conseguir entrar em uma trajetória de crescimento de longo prazo com baixa poupança e com baixas taxas de crescimento da produtividade. Depois não adianta falar em tempestade perfeita ou colocar a culpa no resto do mundo...



quinta-feira, 8 de maio de 2014

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Monsieur Piketty e o Brasil

O livro Capital in the Twenty-First Century é certamente o livro do momento entre economistas e demais interessados em temas como distribuição de renda, crescimento econômico e economia política no sentido tradicional do termo. Não vou repetir o que outros já fizeram com mais competência e comentar o livro. Para os interessados basta uma busca na internet para encontrar tantas resenhas quantas queiram. Da resenha favorável feita por Paul Krugman (link aqui) até os comentários mais críticos feitos por Gregory Mankiw (link aqui) e passando por ninguém menos que Robert Solow (link aqui) é possível encontrar comentários sobre o livro que atendam a todos os gostos, recomendo que leiam todos e, se puderem, leiam o livro. Para os que preferem ler em português a Folha de São Paulo publicou um texto do Paul Krugman sobre o livro (link aqui) e tem as resenhas e os comentários de autores nacionais como Rodrigo Constantino (link aqui) e Carlos Góes (link aqui).

Como podem perceber estou atrasado para fazer minha própria resenha. Porém farei uma pequena provocação ao livro sobre um ponto que imagino tenha chamado atenção de economistas que dedicam seu tempo para entender ou pelo menos acompanhar a economia brasileira. Como ainda não vi ninguém trazer este ponto, eu quero crer que desta vez não estou atrasado. Um dos resultados que mais chamam atenção no livro é que o autor encontra uma condição que caracteriza um processo de concentração de renda. A condição é que a taxa de juros seja maior que a taxa de crescimento da economia. A lógica parte da suposição que a taxa de juros representa de forma aproximada a taxa de crescimento do capital. Se o capital cresce mais rápido do que a renda como um todo então a renda dos capitalistas acaba ficando maior em relação à renda dos trabalhadores. O resultado do processo é um aumento da concentração de renda. Piketty argumenta que isto ocorreu no período anterior às Guerras Mundiais e que está acontecendo novamente. Esta explicação para o processo de concentração de renda foi criticada por Mankiw que, de forma bastante apropriada, lembrou que a condição da taxa de juros ser maior que a taxa de crescimento, seguindo Piketty passarei a chamar essa condição de r > g, nada mais é que a condição para eficiência dinâmica.

Mas não estou escrevendo para repetir a crítica do Mankiw. Estou escrevendo para lembrar que existe pelo menos um caso onde a condição r > g foi observada por um período longo e ocorreu redução da desigualdade. O caso somos nós, isto mesmo, o Brasil. A taxa de juros ficou acima da taxa de crescimento da economia em todos os anos desde 2003 (na realidade também era antes de 2003, escolhi o período posterior a 2003 por ser o período que a queda na desigualdade foi mais festejada e comentada), porém em todos os anos o índice de Gini, que mede a concentração de renda, caiu em relação ao ano anterior. A figura ilustra este fenômeno.



As barras azuis mostram a diferença entre a taxa de juros e a taxa de crescimento, r – g, e a linha vermelha mostra o índice de Gini. A menor diferença entre r e g aconteceu em 2010. Durante três anos a diferença ficou acima de 10% e na maior parte dos anos ficou acima de 8%. Mesmo assim a desigualdade caiu. Alguém podia dizer que a queda da desigualdade decorreu de políticas de transferência de renda patrocinadas pelo governo, seria como se o governo estivesse contrapondo a tendência de concentração imposta pela condição r > g. O problema é que o pessoal que estuda desigualdade e pobreza já nos mostrou que a maior parte da redução da desigualdade ocorrida neste período foi devida a salário, também é fato documentado que a participação da renda do trabalho aumentou no período.

Como fica a teoria de Piketty à luz dos dados brasileiros? A teoria não se aplica ao Brasil? Alguma especificidade de nossa economia impediu o resultado previsto de ocorrer? Existem outros países que seguem o mesmo padrão que o Brasil? A teoria de Pikkety está errada? Dúvidas...

ADENDO

André Bueno Castro me cobrou no FB o uso da Selic e não de uma taxa real, ele está certo. Calcular juros reais é tarefa delicada, dentre as opções acessíveis para um post em um blog a mais razoável seria pegar a Selic no início de cada ano e descontar a inflação esperada para o ano, peguei um caminho mais simples e mais sujeito a críticas. Usei a Selic do final do ano, são os valores que estão na figura original, e descontei a inflação. Feito o ajuste o único ano com r- g <0 é 2010. A figura abaixo repete a figura do blog ajustada pela inflação.



A escolha do período não foi descuido nem preguiça, optei por evitar polêmica e peguei só o período pós-2003. Estritamente falando a queda do Gini começou em 1997, no período 1997 a 2003 a taxa de juros ficou bem acima da taxa de crescimento, na realidade os valores de r - g para 1997 e 1998 são tão altos que distorcem o gráfico. De toda forma para os que ficaram curiosos segue o gráfico para o período 1998 a 2012.



*Como os dados do Ipeada não apresentam o Gini para 2000, o valor do Gini deste ano é uma média entre o de 1999 e 2001.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

O Dragão vai pegar a Águia?

Uma matéria da The Economist falando que o PIB da China vai ultrapassar o dos EUA ainda este ano e não em 2019 como anteriormente previsto tem aparecido com frequência na minha "timeline" do FB. Como já atingi o limite de artigos da The Economist (sei que é dia primeiro, mas talvez eles ainda não tenham atualizado) fui procurar outra referência para passar o link e acabei encontrando a matéria da BBC sobre o mesmo tema (link aqui). A matéria da BBC está interessante e toca em um ponto essencial, qual seja, a questão da conversão por paridade de poder de compra, PPP para os que acompanham economia. Como calcular a PPP não é um exercício trivial comparações de PIB dos diversos países é uma tarefa delicada e sujeita a erros e interpretações.

O problema tem várias nuanças e não cabe detalhar aqui, mas para simplificar e pegar o ponto central do problema um exemplo pode ajudar. De acordo com os dados do FMI conforme disponibilizados na Wikpedia o país com o maior PIB do mundo em 2013 foi os EUA, neste ano eles tiveram um PIB de 16,8 trilhões de dólares. No mesmo ano o PIB do Brasil foi de 2,2 trilhões de dólares. A questão é que o PIB do Brasil não é medido em dólares e sim em reais, logo para comparar o PIB do Brasil com o de outros países foi necessário transformar o PIB do Brasil de reais para dólares. Como transformar? Usando a taxa câmbio. O uso da taxa de câmbio faz com a medida em dólares do PIB de um país, com exceção dos EUA, dependa do quanto foi produzido e do câmbio. O que ocorre se o governo do Brasil resolver valorizar o real? O PIB do Brasil em dólares aumenta, acontece o contrário se o real for desvalorizado. Suponha que o câmbio em 2013 foi de dois reais por dólar, neste caso o PIB do Brasil em reais teria sido de R$ 4,4 trilhões. Os mesmos 4,4 trilhões de reais que valeriam os 2,2 trilhões de dólares com câmbio de R$ 2,00 passariam a valer 4,4 trilhões de dólares se o câmbio fosse R$ 1,00. Poderíamos inclusive ter um PIB em dólares maior que o dos EUA se o governo decretasse um câmbio de R$ 0,25. Claro que isto é impossível, a idéia é só mostrar como câmbio afeta o PIB em dólares. Como forma de driblar este problemas economistas usam várias técnicas de conversão de valores entre países, todas com algum tipo de problema e passíveis de manipulação. A depender da técnica a China está mais longe ou mais perto dos EUA.

Porém, independentemente da técnica de conversão, ninguém discorda que a China cresce mais do que os EUA. A manter o ritmo de crescimento cedo ou tarde o PIB da China deve ficar maior que o dos EUA, isto deve ocorrer mesmo que o crescimento da China diminua. O que isto significa? Pouco. A questão é que comparar PIB de países é um exercício de pouca utilidade, mesmo sem o problema da conversão dizer que um país tem o PIB maior que outro não ajuda muito a entender qual país é mais rico, tudo vai depender da população. A idéia aqui é simples. Suponha dois colegas de trabalho que ganham R$ 5 mil por mês. Um é solteiro, mora sozinho e não sustenta mais ninguém e o outro é casado tem quatro filhos e sustenta o irmão desempregado. Qual é mais rico? Claro que é o primeiro, afinal ele tem o dinheiro só para ele enquanto o outro tem que sustentar sete pessoas. A mesma lógica vale para os países, para comparar a riqueza dos países é preciso comparar o PIB dividido pela população, o que em economia chamamos de PIB per capita.

Olhando o PIB per capita ainda segundo os dados do FMI disponibilizados na Wikpedia para 2013 o dos EUA é de 53 mil dólares internacionais (uma espécie de dólar ajustado pelo poder de compra de cada país) enquanto o da China é de 9,8 mil dólares internacionais. Só para comparação o do Brasil é de 12,2 mil, isto mesmo, o Dragão ainda está atrás do Papagaio. O motivo é simples, mesmo que EUA e China tivessem exatamente o mesmo PIB o fato da população da China ser muito maior faria dos chineses mais pobres que os americanos. Desta forma, tomando emprestado os argumentos do Easterly no que eu considero ser o livro do século até o momento (ver minha resenha do livro aqui), a questão não é explicar porque o PIB da China cresce mais e eventualmente pode ultrapassar o dos EUA. A questão é explicar porque uma cultura milenar como a da China gera uma renda por habitante de menos de 20% da dos EUA. Visto por esta perspectiva é difícil entender os que comemoram a cultura autoritária e intervencionista do Dragão enquanto apontam os defeitos da cultura de liberdade que (ainda?) é cultivada pela Águia.


P.S. Será que a mania nacional de comparar PIB tem alguma relação com o fato que temos o sétimo maior PIB do mundo enquanto no ranking de PIB per capita somos os septuagésimos nonos?

terça-feira, 29 de abril de 2014

Comentários sobre Crescimento e Aumento da Produtividade na Minuta de Programa de Governo do PT

Hoje o Estadão divulgou a minuta das propostas do PT para um segundo mandato de Dilma (link aqui). São dois documentos, um tratando da estratégia eleitoral e outro das diretrizes para o programa de governo. Segundo a reportagem os documentos não são definitivos e ainda serão submetidos a discussões no partido. De toda forma, mesmo não sendo definitivo, o documento permite ter uma idéia do que pode vir a ser a base da política econômica nos próximos anos. A leitura do texto com a diretrizes para o programa de governo é fundamental para os que acompanham a economia brasileira. Abaixo comento a parte que trata de crescimento e produtividade, tema que estudo já tem mais de quinze anos. O texto do PT está em vermelho e meus comentários estão em preto.

CRESCIMENTO & AUMENTO DA PRODUTIVIDADE
59. A continuidade e sustentabilidade, no segundo mandato de Dilma Rousseff, da GRANDE TRANSFORMAÇÃO iniciada em 2003, com Lula, terá como meta o crescimento mais acelerado da economia brasileira nos próximos anos. Essa expansão está intimamente ligada, entre outros fatores, ao aumento da produtividade, especialmente no setor industrial, que poderá ser favorecido pelo início do novo ciclo de expansão global.
O crescimento da produtividade é o principal caminho para o crescimento de longo prazo, no Brasil eu diria que é o único caminho mesmo no médio prazo. Se por um lado o PT reconhece a importância da produtividade por outro lado é modesto em definir o papel central dessa variável. Outro problema é a fixação com a indústria. Estamos na era da informação, serviços de alta tecnologia formam o novo setor dinâmico da economia. Montar Ipad é indústria de transformação, desenhar softwares para o Ipad é serviço. Onde está o caminho para riqueza?

60. A ampliação e qualificação do mercado interno e a expansão das exportações põem no centro da política econômica a questão da produtividade. Seu incremento não se dará, como querem (e anunciam) os conservadores, pela redução dos salários, em especial do Salário Mínimo; pelo aumento do desemprego, que faça pressão sobre a renda dos trabalhadores; ou por uma “reforma trabalhista” que atente contra direitos laborais e produza a precarização do emprego.
Na realidade economistas desenvolvimentistas tem sido mais insistentes em apontar o crescimento do salário acima da produtividade do trabalho como um dos problemas centrais da economia brasileira, particularmente da indústria, reduzir salários reais é o principal argumento para defender a desvalorização do câmbio e/ou a tolerância com a inflação. A referência aos conservadores me pareceu proselitismo ideológico. A reforma das leis trabalhistas é sim uma bandeira reformista, mas também não está restrita a setores conservadores e/ou liberais. Hoje no mesmo Estadão um ministro de Dilma pedia por flexibilização das leis trabalhistas (link aqui). Da mesma forma um dos principais programa do governo, o Mais Médico, só foi possível porque o governo "driblou" a lei trabalhista.


61. O incremento da produtividade passa:
62. Pela inovação resultante da aplicação da ciência e da tecnologia aos processos de trabalho. O Governo tem feito sua parte e deverá aumentar seu empenho nessa direção. Mas cabe também à iniciativa privada, sobretudo àqueles setores beneficiados por isenções fiscais e creditícias do Estado, contribuir para esse processo de mudanças dos paradigmas de produção e adensamento das cadeias produtivas de grande escala e fortes efeitos de transbordamentos tecnológicos;
Aqui tem um amostra da visão do estado como líder do processo de inovação. Não cabe também a iniciativa privada contribuir com este processo, é o contrário. Cabe a inciativa privada liderar esse processo e ao governo ajudar, ou pelo menos não atrapalhar. Mesmo ignorando esta questão central fica a dúvida sobre como o governo tem feito a parte dele para a ciência e tecnologia. Mandar aluno de graduação estudar no exterior pode até ser uma boa maneira de qualificar a força de trabalho, mas dificilmente será o caminho para aprimorar o desenvolvimento científico do país. Marcelo Hermes Lima, um dos biólogos mais produtivos e citados do Brasil, tem um blog sobre ciência onde ele acompanha a produção científica nacional, a leitura do blog dele não é animadora (aqui o link para um post recente onde ele comenta a queda do impacto relativo da ciência brasileira).

63. Pela capacitação da força de trabalho por meio do aprimoramento que vem sendo feito no sistema educacional brasileiro. Têm papel importante, neste particular, os programas específicos na área do ensino técnico profissionalizante do PRONATEC, Escolas Técnicas federais, estaduais e Sistema S, ampliação das carreiras de engenharia e de ensino superior técnico. É fundamental a mobilização dos estados e municípios nessa direção para atender à valorização salarial e de capacitação dos professores do ensino básico e a ampliação da infraestrutura educacional. Essa mobilização garantirá a necessária regionalização da qualificação profissional e universalização da qualidade do ensino básico público, semelhante ao ocorrido com a universalização da cobertura;
Concordo tanto no diagnóstico que capacitação da força se trabalho é fundamemtal quanto no que o estado tem um papel importante neste processo. Porém eu recomendo menos ênfase na questão salarial dos professores e mais na estrutura de incentivos da carreira docente. Por ter influência e liderança nos sindicatos este é um trabalho que o PT poderia fazer com mais chances de sucesso que qualquer outro partido.

64. Pelo aprofundamento do modelo de retroalimentação consumo-investimento-produtividade baseado no processo redistributivo de renda, que garante simultaneamente inclusão social e ampliação de escala e do mercado doméstico;
Ele está falando do Brasil? O aumento significativo e persistente do consumo foi incapaz de fazer com que nossa taxa de investimento se sustentasse acima de 20%, o que já não seria grandes coisas. Ademais a taxa de investimento hoje está menor que no início do governo Dilma. Do lado da produtividade a questão é ainda mais grave. Da academia à imprensa especializada todos que estudam ou observam a produtividade no Brasil concluem que nossa produtividade é baixa e cresce pouco.

65. Pela inovação dos processos de gestão dos empreendimentos públicos e privados;
66. Pela consolidação do vasto processo de reconstrução da infraestrutura energética e logística;
67. Pela extensão e fortalecimento das tecnologias de informação (TI) e a generalização da banda larga na Internet;
68. Por uma consistente redução da burocracia, que entrava a atividade produtiva e o comércio.
Não creio que alguém seja contra nenhum destes ítens. Porém, em se tratando de um partido que governa o país já vai para doze anos, era de se esperar alguma sugestão de como conseguir cada um deste objetivos e porque não foram alcançados nos últimos anos. Do jeito que está fica mais parecido com discurso de assembléia do que com um programa de governo. O último ponto é um dos que considero mais importantes para o crescimento da produtividade, fiquei um tanto quanto desapontado com a maneira como o tema foi tratado. Quero crer que o documento final fará uma análise mais profunda destas questões.

69. Por novas medidas de política econômica nas áreas monetária, cambial e fiscal que desonerem – com claras contrapartidas em matéria de produtividade e emprego – a atividade empresarial;
Que tal baixar os juros, desvalorizar o câmbio e desonerar setores estratégicos? Heim? O governo já fez isto e não funcionou? Pois é... Dizem que Einstein falou que a definição de insanidade é fazer sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes, se foi ele quem falou confesso que não sei, mas a frase se aplica bem a este ponto. Por fim não deveria ser preciso dizer que aumentar a produtividade tem que ser interesse do empresário e não barganha em um processo de troca de favores. Se empresários pedem favores do governo para aumentar a produtividade é porque algo de muito errado está acontecendo. Até onde eu saiba a melhor forma para fazer com que empresários queriam aumentar a produtividsde sem pedir nada em troca é expor as empresas à concorrência.

70. Por uma política de comércio exterior que priorize processos equilibrados de integração produtiva regional, a proteção legal de nosso mercado e do sistema produtivo e estimule a abertura de novas fronteiras comerciais globais.
Proteção não combina com ganhos de produtividade, pelo contrário.

71. Todas essas medidas serão implementadas com a preservação do equilíbrio macroeconômico, combinadas, ao mesmo tempo, com a adoção de políticas monetária, cambial e tributária capazes de priorizar a atividade produtiva, nos marcos do Pacto pela Estabilidade Fiscal e de controle da inflação, enunciado em 2013.
Como isto vai ser feito? Este e os dois pontos anteriores sugerem uma tentativa de usar o câmbio para proteger a indústria. É isto? Se for, por que não dizer? Como conciliar a desvalorização do câmbio com a manutenção do salário real, ou melhor, para que desvalorizar o câmbio se o salário real não vai cair? Onde o documento é sincero? No ponto 60 ou nos pontos 69 a 71? Existe um debate sobre o câmbio, é um debate onde as posições estão bem definidas, tenho meu lado no debate, sou contra ajustar o câmbio para proteger a indústria ou qualquer setor, defendo câmbio flutuante. É claro que o PT pode tomar o lado que preferir no debate, é direito dele, só não pode é pegar um pedaço de cada lado e apresentar bônus sem ônus. Outra questão é que o governo já tentou implementar estas medidas e recuou, vai tentar novamente sem entender onde errou? Sei que estou me repetindo, mas o assunto merece a repetição e o documento também se repetiu.

72. O fortalecimento de uma política industrial, em sintonia com o que vem sendo feito nas maiores cadeias produtivas do país – automobilística, petroleira, complexo da saúde, por exemplo, – recolocará a indústria nacional em condições de competitividade. Ao mesmo tempo, a criação de cadeias integradas de valor com países vizinhos, garantirá importantes condições de competitividade, como tem ocorrido na Ásia, por exemplo.
Nos quase doze anos de governo petista a indústria reduziu sua participação no PIB. Se tirarmos os primeiros anos do primeiro mandato de Lula o discurso e a prática de políticas industriais foram constantes no período petista. O BNDES colocou centenas de bilhões de reais na criação de campeões nacionais. Por que mesmo assim a indústria está perdendo participação no PIB. Que fique claro que eu não vejo a queda da participação da indústria no PIB como um problema, portanto não penso soluções para esta questão. Mas se alguém ver como problema é melhor que tenha soluções que funcionem e, de preferência, que sejam baratas. A política industrial do petismo é cara e não funciona. Quanto a Ásia é curioso usar os campeões daquelas paradas como exemplo quando se fala de política industrial e esquecer de como funciona a poupança, o investimento e o capital humano por lá. Sou obrigado a aceitar que não temos exemplos de industrialização tardia bem sucedida no longo prazo sem política industrial, por outro lado não temos exemplos de industrialização tardia bem sucedida no longo prazo sem poupança e capital humano. Porém temos exemplo de industrialização tardia sem investimento em capital e humano e sem poupança, o Brasil é um exemplo, o PT nasceu da insatisfação da sociedade com o resultado deste modelo...

73. Da mesma forma, o apoio técnico, creditício e fiscal à micro, pequena e média empresa, ao lado de medidas de desburocratização, que vem sendo implementadas, deverá ganhar maior impulso nos próximos quatro anos. Devemos continuar estimulando o empreendedorismo dos brasileiros.
A melhor maneira de atrapalhar o empreendedorismo é tentar estimular o empreendedorismo. Se o governo quer estimular os empreendedores o melhor a fazer é reduzir os principais obstáculos que o próprio governo coloca aos empreendedores. Além do já conhecido excesso de burocracia é de se perguntar como alguém pode entrar em um mercado e desafiar as empresas estabelecidas se estas últimas tem proteção e crédito barato do governo?

Assim termino meus comentários, como era de se esperar, não gostei das linhas gerais das propostas governistas para o próximo mandato de Dilma. Se for por aí o governo vai continuar na indecisão que o paralisa hoje e a economia continuará estagnada e sob ameaça constante da volta da inflação. É muito pouco para um partido que está no terceiro mandato presidencial consecutivo. Vou aguardar o documento final, mas não creio que mude muito, o PT de Dilma é um partido com medo de tomar posições, faz um discurso de senso comum, manda aceno para todos os lados e propõe medidas e objetivos contraditórios. Uma pena que seja assim.

P.S. Como desconfiava a estratégia eleitoral passa por juntar os governo de Dilma e Lula para esconder o desastroso governo Dilma. Espero que a oposição fique atenta para não cair neste truque, é fundamental deixar claro que quem está disputando a eleição é Dilma e não Lula. Especificamente, Dilma está pedindo mais quatro para os eleitores, a resposta ao pedido dela depende do que ela fez nos quatro anos que teve e não do que Lula fez nos oito anos dele. Gostaria que os amigos que entendem de ciência política falassem sobre este ponto.

sábado, 26 de abril de 2014

Proteção, socorros e mais proteção... Até quando?

Duas notícias me incomodaram esta semana, nada de novo, muito pelo contrário, me incomodaram de velhas que são. A primeira foi a intenção do governo de criar um fundo garantidor para bancar a inadimplência no empréstimo de carros. A idéia e socorrer o setor que mais uma vez reclama das baixas vendas e estoques acumulando. Em troca o governo quer a redução das margens de lucro no setor. Seria cômico se não fosse trágico, creio que poucos países concederam tantos benefícios à indústria automobilística em troca de reduções de margem de lucro e manutenção de emprego. Ainda assim a margem de lucros dessa indústria no Brasil está entre as mais altas do mundo e a cada dificuldade o setor pede mais benefícios para manter o emprego. É chantagem explícita que o governo aceita, não só o atual diga-se de passagem.
O fato é que as vendas do setor automobilístico aumentaram nos últimos anos por conta de políticas de estímulo, notadamente isenção de impostos, e do crédito fácil e barato para os padrões nacionais. A isenção de impostos por tempo determinado tem o efeito de fazer que com os consumidores antecipem suas compras, pode até ser um artifício engenhoso para superar uma crise, mas tem limites e consequências. Uma das consequências é a redução da compra de carro no futuro. Imagine alguém que comprou um carro em 2010 pretendendo ficar três anos com o carro. Daí que em 2012 veio a redução de impostos e o sujeito resolveu trocar o carro, é muito provável que ele não queria trocar novamente em 2013. Se o plano é ficar três anos com o carro ele só vai trocar em 2015. O consumo que foi antecipado por conta da redução de impostos é o consumo que não foi efetivado no futuro. Da mesma forma o crédito barato é reflexo de uma determinada conjuntura econômica, forçar o crédito barato em outra conjuntura pode acabar por estimular um endividamento exagerado e ainda boicota os esforços do BC para combater a inflação, o que odie encarecer ainda mais o crédito.
Além disto tem um ponto crucial na construção do tal fundo. Quem vai pagar a conta? Entendo que o fundo possa funcionar como um seguro contra a inadimplência, até aí tudo bem. Mas se o Tesouro entrar com recursos para viabilizar o fundo, se estão negociando margens é provável que entre, é preciso deixar claro wue pessoas que não andam de carro estarão financiando os que vão comprar carros novos. É o tipo de transferência de renda cruel, que leva renda dos mais pobres para a classe média ou para os ricos. Curioso que os que estão muito preocupados com a desigualdade ignorem tais questões. Outra possibilidade é que o custo do seguro seja pago pelos consumidores, caso em que os bons pagadores vão acabar pagando pelos caloteiros. Uma última hipótese é que o custo fique com as montadoras, pouco provável, mas neste caso haveria um efeito no preço que acabaria fazendo que mais uma vez bons pagadores paguem por quem fica inadiplente. Como as duas últimas alternativas podem ser implementadas pelo mercado sem necessidade de negociar margens com o governo, creio que algum recurso público vá entrar na jogada. Neste caso, quando olhar para a diarista que vai de ônibus fazer diária em sua casa saiba que ela está ajudando a financiar seu carro novo.
A segunda notícia que me incomodou foi um projeto de lei do deputado Vicentinho (PT/SP) que pretende proibir órgãos públicos de comprar livros no exterior, trata-se do PL 7299 de 2014 (link aqui). Seria cômico se não fosse trágico que em plena era da informação um deputado queira dificultar o livre fluxo de conhecimento. Não estou falando de um deputado qualquer, daquele tipo folclórico que se destaca por projetos estapafúrdios, Vicentinho é uma das principais lideranças do partido que governa o país já vai para doze anos. Não aprendemos com a lei de informática? Atrapalhar o fluxo de informação é fatal para um país que precisa desesperadamente de aumentar a produtividade, um país que clama por desenvolvimento técnico-científico. Vale a pena sacrificar o país por conta de empresários e trabalhadores de um determinado setor? O deputado Vicentinho parece pensar que sim. Os que estão propondo mais socorro ao setor automobilístico também parecem pensar que sim. Até quando?