Uma das verdades estabelecidas na maioria dos debates sobre
liberdade econômica é que quanto maior esta liberdade maior será a desigualdade
entre os indivíduos. Sendo assim a perda de liberdade econômica seria o preço a
se pagar para morar em uma sociedade sem muita desigualdade. Vários liberais sinceros
respondem a esta critica com o argumento que importante é reduzir a pobreza,
não à desigualdade. A liberdade econômica faria com que existisse mais riqueza
e, mesmo mal distribuída, a existência de mais riqueza faria com que a pobreza diminuísse.
Para reforçar esta tese são apresentadas várias evidências que países com maior
liberdade econômica têm maior IDH.
A conversa então passa a ser uma discussão de valores. Uns
dizem que desde que não existam grandes contingentes de miseráveis, desigualdade
não é o problema. Afinal que mal tem se algum bilionário pode queimar milhões de
dólares em frivolidades se na ponta de baixo as pessoas tem uma vida digna?
Outros afirmam que igualdade é um valor em si e que é melhor viver em um mundo
mais pobre, porém sem grandes diferenças de renda. Segundo estes, o fato de
alguns terem de trabalhar de sol a sol para garantir uma vida digna a suas
famílias e outros usufruírem do bom e do melhor sem nem mesmo ter de trabalhar
é um insulto à dignidade humana. Ambos os argumentos aceitam que livre mercado
leva a desigualdade.
Eu sempre tive dificuldade com a tese que livre mercado leva
a desigualdade. Talvez por ter uma crença que as pessoas são todas muito
parecidas umas com as outras eu acredite que deixadas livres as pessoas não vão
ficar em situação muito desigual. Por outro lado não confio na existência de um
estado desinteressado que tire dinheiro dos ricos e passe para os pobres. Uma
vez montado aparato de tirar dinheiros de uns e passar para outros creio ser
muito mais fácil que os ricos controlem este aparato em benefício próprio.
Desta forma o estado acabaria concentrando renda. É o que acontece quando o
BNDES empresta a juros baixos alguns bilhões dos trabalhadores para um grande
empresário ou quando o governo desvaloriza o câmbio para proteger a indústria.
É claro que sempre vão dizer a concentração de renda é um fenômeno de curto
prazo e que no longo prazo tudo será maravilhoso. Acredita quem quer.
Por acaso além de ter estas opiniões sou economista e
trabalho com economia aplicada. Desta forma estou acostumado a tirar dúvidas
como esta olhando para os dados. Resolvi então pegar os dados e checar se é
verdade que liberdade econômica gera desigualdade. Não fiz uma análise com o rigor
de um artigo científico, afinal isto é um blog, mas creio que consegui
resultados interessantes. Para chegar ao resultado usei uma base de dados com 134 países, peguei os dados de
desigualdade do The World Fact Book (sei que os suspeitos de sempre vão dizer
que é da CIA, mas não achei outra fonte com Gini para tantos países). O índice
de Gini mede a desigualdade de renda, quanto maior o valor deste índice maior a
desigualdade. Infelizmente os dados são para anos distintos, não é o ideal, mas
foi o que eu achei. Para medir liberdade econômica usei o índice de liberdade econômicada Heritage Foundation, quanto maior o índice maior a liberdade econômica do
país. Se a crença que liberdade leva a desigualdade corresponde à verdade é de
se esperar uma relação positiva entre liberdade econômica e índice de Gini. Se
minha crença estiver certa não haverá nenhuma relação clara, o mercado seria
neutro em relação a igualdade. A figura mostra a relação.
Note que pela figura não existe uma relação forte entre
liberdade e desigualdade. Mais ainda, a relação que existe é no sentido que
maior liberdade econômica ocorre em países com menos desigualdade. Notem que a
reta vermelha tem uma leve inclinação negativa. Também fiz uma regressão entre o índice de Gini e o grau de liberdade econômica, fazer
esta regressão significa calcular a inclinação da reta da figura. Obtive um
coeficiente estimado de -0,19, especificamente encontrei que a reta da figura é
dada pela expressão: índice de Gini = 51,63 – 0,19 * Liberdade Econômica. Isto
significa que a cada aumento de um ponto na liberdade econômica a desigualdade
cai em 0,19 pontos. O coeficiente é significativo a 1% mas fica claro que a
liberdade econômica explica muito pouco da desigualdade, o R2 foi de 0,04.
Não foi meu objetivo apresentar um modelo para explicar
desigualdade. Tudo que tentei foi estabelecer uma relação entre desigualdade e
liberdade econômica. Encontrei uma relação negativa e significativa. Quer dizer
que aumentar liberdade econômica é uma receita certa para reduzir a
desigualdade? Não, os números não disseram isto, também não perguntei isto aos
números. O que quer dizer estão? Quer dizer que, de acordo com estes números,
não é possível afirmar que liberdade econômica gera desigualdade. Sei que um
refinamento da metodologia, permitindo controle por outras variáveis, pode
levar a conclusões diferentes. Até que alguém me mostre estes resultados me
reservo ao direito de não acatar argumentos que partam da ideia que mais mercados
levem a mais desigualdade. A bola está com os planificadores.







