sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Liberdade e Desigualdade, o que dizem os dados?

Uma das verdades estabelecidas na maioria dos debates sobre liberdade econômica é que quanto maior esta liberdade maior será a desigualdade entre os indivíduos. Sendo assim a perda de liberdade econômica seria o preço a se pagar para morar em uma sociedade sem muita desigualdade. Vários liberais sinceros respondem a esta critica com o argumento que importante é reduzir a pobreza, não à desigualdade. A liberdade econômica faria com que existisse mais riqueza e, mesmo mal distribuída, a existência de mais riqueza faria com que a pobreza diminuísse. Para reforçar esta tese são apresentadas várias evidências que países com maior liberdade econômica têm maior IDH.

A conversa então passa a ser uma discussão de valores. Uns dizem que desde que não existam grandes contingentes de miseráveis, desigualdade não é o problema. Afinal que mal tem se algum bilionário pode queimar milhões de dólares em frivolidades se na ponta de baixo as pessoas tem uma vida digna? Outros afirmam que igualdade é um valor em si e que é melhor viver em um mundo mais pobre, porém sem grandes diferenças de renda. Segundo estes, o fato de alguns terem de trabalhar de sol a sol para garantir uma vida digna a suas famílias e outros usufruírem do bom e do melhor sem nem mesmo ter de trabalhar é um insulto à dignidade humana. Ambos os argumentos aceitam que livre mercado leva a desigualdade.

Eu sempre tive dificuldade com a tese que livre mercado leva a desigualdade. Talvez por ter uma crença que as pessoas são todas muito parecidas umas com as outras eu acredite que deixadas livres as pessoas não vão ficar em situação muito desigual. Por outro lado não confio na existência de um estado desinteressado que tire dinheiro dos ricos e passe para os pobres. Uma vez montado aparato de tirar dinheiros de uns e passar para outros creio ser muito mais fácil que os ricos controlem este aparato em benefício próprio. Desta forma o estado acabaria concentrando renda. É o que acontece quando o BNDES empresta a juros baixos alguns bilhões dos trabalhadores para um grande empresário ou quando o governo desvaloriza o câmbio para proteger a indústria. É claro que sempre vão dizer a concentração de renda é um fenômeno de curto prazo e que no longo prazo tudo será maravilhoso. Acredita quem quer.

Por acaso além de ter estas opiniões sou economista e trabalho com economia aplicada. Desta forma estou acostumado a tirar dúvidas como esta olhando para os dados. Resolvi então pegar os dados e checar se é verdade que liberdade econômica gera desigualdade. Não fiz uma análise com o rigor de um artigo científico, afinal isto é um blog, mas creio que consegui resultados interessantes. Para chegar ao resultado usei uma base de dados com 134 países, peguei os dados de desigualdade do The World Fact Book (sei que os suspeitos de sempre vão dizer que é da CIA, mas não achei outra fonte com Gini para tantos países). O índice de Gini mede a desigualdade de renda, quanto maior o valor deste índice maior a desigualdade. Infelizmente os dados são para anos distintos, não é o ideal, mas foi o que eu achei. Para medir liberdade econômica usei o índice de liberdade econômicada Heritage Foundation, quanto maior o índice maior a liberdade econômica do país. Se a crença que liberdade leva a desigualdade corresponde à verdade é de se esperar uma relação positiva entre liberdade econômica e índice de Gini. Se minha crença estiver certa não haverá nenhuma relação clara, o mercado seria neutro em relação a igualdade. A figura mostra a relação.




Note que pela figura não existe uma relação forte entre liberdade e desigualdade. Mais ainda, a relação que existe é no sentido que maior liberdade econômica ocorre em países com menos desigualdade. Notem que a reta vermelha tem uma leve inclinação negativa. Também fiz uma regressão entre o índice de Gini e o grau de liberdade econômica, fazer esta regressão significa calcular a inclinação da reta da figura. Obtive um coeficiente estimado de -0,19, especificamente encontrei que a reta da figura é dada pela expressão: índice de Gini = 51,63 – 0,19 * Liberdade Econômica. Isto significa que a cada aumento de um ponto na liberdade econômica a desigualdade cai em 0,19 pontos. O coeficiente é significativo a 1% mas fica claro que a liberdade econômica explica muito pouco da desigualdade, o R2 foi de 0,04.


Não foi meu objetivo apresentar um modelo para explicar desigualdade. Tudo que tentei foi estabelecer uma relação entre desigualdade e liberdade econômica. Encontrei uma relação negativa e significativa. Quer dizer que aumentar liberdade econômica é uma receita certa para reduzir a desigualdade? Não, os números não disseram isto, também não perguntei isto aos números. O que quer dizer estão? Quer dizer que, de acordo com estes números, não é possível afirmar que liberdade econômica gera desigualdade. Sei que um refinamento da metodologia, permitindo controle por outras variáveis, pode levar a conclusões diferentes. Até que alguém me mostre estes resultados me reservo ao direito de não acatar argumentos que partam da ideia que mais mercados levem a mais desigualdade. A bola está com os planificadores.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Oferta, Demanda e o Erro de Diagnóstico de 2011.

Parte dos economistas do governo insiste que o Brasil tem um problema de demanda, segundo estes economistas é preciso que o governo use de política monetária e fiscal para estimular a demanda como forma de gerar mais crescimento. À bem da verdade é preciso dizer que a parcela de economistas que insistem no diagnóstico de demanda caiu nos últimos tempos e já é bem reduzida. Há alguns anos os que insistíamos que o problema estava na oferta éramos bem poucos, não mais que um punhado de acadêmicos e economistas de mercado dispostos a enfrentar a opinião do governo (aqui cabe uma deferência a Alexandre Schwartsman do blog A Mão Visível, é fácil “bater de frente” com o governo quando se está protegido pela academia, o que não era e não é o caso dele e ao meu amigo Adolfo Sachsida que não se intimidou mesmo estando no IPEA). Com o tempo analistas de mercado se juntaram ao coro da oferta, o front acadêmico aumentou e vários economistas de renome falaram publicamente que o problema era a oferta. Os reforços fizeram efeito e mesmo dentro do governo começou a se falar de oferta. Medidas como a Lei dos Portos e as privatizações concessões entraram na agenda do governo. O Banco Central perdeu o medo de segurar a demanda e começou a elevar a taxa de juros. Enfim, começamos, ainda que timidamente, a buscar o caminho certo.

Entretanto vozes influentes no governo ainda pressionam por políticas de demanda. O coro fica mais alto cada vez que o COPOM aumenta os juros ou saem resultados de baixo crescimento. Já expliquei várias vezes que uma economia próxima ao pleno emprego vai crescer tanto quanto cresce a produtividade, o motivo é simples, sem ninguém para contratar a única forma de aumentar a produção é aumentando o quanto cada trabalhador produz. Como a produtividade no Brasil cresce a uma taxa baixa, a economia brasileira cresce a uma taxa baixa. Mas não é disso que vou falar neste post. O ponto do post é ilustrar, mais uma vez, que o que impede a economia brasileira de crescer é a oferta, não a demanda, e explorar um pouco as consequências do crescimento da demanda acima da oferta. A figura abaixo ilustra o primeiro ponto.




Na figura as barras azuis escuras mostram o crescimento do gasto no Brasil (C+I+G, para os que estudaram contabilidade nacional) entre 2001 e 2012, as barras em azul claro mostram o crescimento do PIB. Notem que a partir de 2005 a economia brasileira apresentou crescimento dos gastos maiores que crescimento do PIB em todos os anos exceto 2011. Na prática isto significa que desde 2005, com exceção de 2011, estamos aumentando nossos gastos mais do que aumentamos nossa produção. É como se uma família aumentasse sua despesa mais do que aumenta sua renda. No primeiro momento a família vai ter um ganho de bem estar por estar gastando mais. Em algum momento no futuro a despesa terá de ser paga e a família vai passar por momentos difíceis, não necessariamente, eu sei, volto a este ponto no final. A segunda figura ilustra este fenômeno.



Até 2005 o Brasil produzia mais do que gastava, isto permitiu que acumulássemos recursos para o futuro. A partir de 2005 o padrão começou a mudar, a despesa começou a subir mais do que a produção e nossa “poupança” começou a cair. Até então estávamos guardando menos para o futuro. Em 2009 começamos a gastar o que tínhamos “poupado”, naquele momento foi uma escolha justificável. O mundo estava em crise e praticamente nenhum governo pensa no futuro quando o desastre bate à porta. Claro que do conforto da sala de aula, sem ter que tomar decisões, eu pude criticar as medidas de 2008/09, mas não sou cínico o suficiente para dizer que não concordaria com medidas semelhantes se eu estivesse no governo. Daí vem 2010, anos de eleições, a prudência econômica dizia que era o momento de começar o ajuste, mas a estratégia política dizia o contrário. Como não raro acontece o bom senso eleitoral foi mais convincente que o bom senso econômico e o governo optou por adiar o ajuste.

Em 2011 não havia mais desculpas para adiar o ajuste. Primeiro ano de mandato presidencial, maioria folgada no Congresso e popularidade em alta. Era momento perfeito para apertar o cinto e levar o Brasil a voltar a gastar menos do que produzimos. O governo até tentou, em 2011 o gasto cresceu menos que o PIB, mas ao primeiro sinal de problemas o governo recuou e, com aplausos de vários economistas, investiu ainda mais nos estímulos à demanda. Foi um erro grave que teve origem na confusão entre determinantes do crescimento de uma economia com desemprego alto e os determinantes do crescimento de uma economia com desemprego baixo. Uma das consequências do erro é que hoje precisamos de um ajuste muito maior do que o necessário em 2011, mas pode piorar. Ainda não gastamos tudo que guardamos para o futuro, note que a área positiva é maior que a negativa, mas estamos caminhando para isto. Pior, guardamos quando as taxas de juros mundiais estavam baixas e corremos o risco de ter de “pegar emprestado” quando as taxas de juros estiverem altas. É a receita para o desastre.


Um último ponto, falei acima que não necessariamente gastar mais do que se tem leva a dias difíceis no futuro. Isto acontece guando o gasto é feito em atividades que aumentarão a renda futura mais do que os juros aumentarão as dividas. É o caso de um empreendedor que se endivida para fazer seu negócio ou de um jovem que se endivida para fazer um curso superior que aumentará muito seu salário. Infelizmente, uma rápida olhada na economia brasileira mostra que não foi isto que aconteceu: não investimos em infraestrutura, não melhoramos a educação e nem mesmo fizemos as reformas necessárias para aumentar a produtividade. Nós fomos do tipo irresponsável.

domingo, 4 de agosto de 2013

Ah se nossos keynesianos fossem assim...

Janet Yellen é uma economista de tradição keynesiana que está cotada para a presidência do FED. Reparem nesta declaração dela:

"— Com o emprego muito longe de seu nível máximo e com a inflação abaixo da meta de 2%, acredito ser apropriado que o progresso do mercado de trabalho assuma o lugar central na condução da política monetária."

Repararam que ela condiciona uma política monetária visando emprego a uma combinação de desemprego alto e inflação baixa? Não me tornei keynesiano nem acredito que se resolva problemas do mercado de trabalho com política monetária. Mas venho tentando dizer faz tempo que o debate sobre o uso de política monetária para "aquecer" a economia só faz sentido em condições específicas e, no Brasil, com inflação alta e acima da meta e com desemprego abaixo da média (o contrário do que Janet Yellen descreveu para os EUA) usar política monetária não faz o menor sentido. Ah se nossos keynesianos fossem assim...

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Crescimento e Inflação nos governos FHC, Lula e Dilma: Tem algo de errado no governo da presidenta!

De uns tempos para cá um esporte muito praticado no Brasil é comparar os governos do PSDB e do PT. Vou entrar no jogo, mas vou usar uma abordagem ligeiramente diferente, meu ponto é que Lula e FHC fizeram governos com muitas semelhanças e Dilma destoou dos dois. Na realidade a inflexão começou no segundo mandato de Lula, despontou com o PAC e ganhou força com o combate a crise, mas só se revelou claramente como uma agenda de contra reformas no governo Dilma.

Para fins de análise vou usar taxa de crescimento e inflação, duas variáveis que sempre estão entre as mais citadas nas páginas de economia dos diversos jornais e nos discursos de críticos e defensores (ainda existe algum?) da política econômica de Dilma. Nos dois mandatos de FHC a economia cresceu a uma taxa média de 2,31% ao ano, nos dois mandatos de Lula cresceu a uma taxa de 4,05% ao ano e no mandato de Dilma, considerando 2011 e 2012, cresceu a uma taxa de 1,8% ao ano. A inflação média dos oitos anos de FHC foi de 9,25% ao ano, nos oitos anos de Lula foi de 5,79% ao ano e nos dois anos de Dilma foi de 6,17%. Os números de Lula e FHC são conhecidos e foram temas de debates na campanha de 2010. A campanha de Lula, como era de se esperar, explorou o fato que Lula governou com maior crescimento e menor inflação que FHC. A campanha de Serra também explorou este fato, mas por razões que desconheço e espero que algum dia alguém me explique.

Agora que estamos longe da próxima campanha podemos contextualizar um pouco mais estas comparações. Vou inserir dois fatores na análise: (i) Lula governou em um período onde todos os países emergentes cresceram mais do que no período FHC e (ii) Dilma só governou por dois anos da amostra (1995 a 2012) e não se pode comparar dois anos com oito anos, mas é possível comparar estes dois anos com os primeiros dois anos de FHC e Lula. A figura abaixo ilustra o primeiro fator.




Note que durante os anos de FHC as economias emergentes como um todo cresceram menos do que os anos de Lula e Dilma. Para colocar em números os países emergentes cresceram a uma taxa média de 4,2% no primeiro mandato de FHC, 4,5% no segundo mandato de FHC, 7,4% no primeiro mandato de Lula, 6,3% no segundo mandato de Lula e 5,2% nos dois anos de Dilma. Ocorre que as economias emergentes incluem um grande número de países que são bastante heterogêneos entre sim, os países emergentes da Ásia, China à frente, crescem a taxas absurdamente altas e que países como o Brasil dificilmente vão conseguir acompanhar pelo simples fato que não são tão pobres como a China e não estão dispostos a aceitar um governo autoritário que priorize o crescimento. Falei sobre isto em momento de loucura nacional onde alguns acreditaram que estávamos começando um período de crescimento Chinês.

Um conjunto de países mais comparáveis são os países da América Latina. Em termos de PIB per-capita o Brasil não se destaca nem como muito rico nem como muito pobre e em termos políticos o Brasil segue o padrão do Continente de estar tentando construir uma democracia após passar por uma ditadura focada no crescimento econômico. Claro que existem diferenças importantes entre os países da América Latina, mas, na falta de um conjunto perfeito de comparação, é o conjunto que vou usar. A figura acima mostrou a comparação governo a governo, para evitar o tédio vou consolidar os governos Lula e FHC. No governo FHC o Brasil cresceu a uma taxa de 2,31% e a América Latina cresceu a uma taxa de 2,23%, no governo Lula o Brasil cresceu a uma taxa de 4,05% e a América Latina cresceu a uma taxa de 4,12%. Pode-se então afirmar que tanto sob Lula quando sob FHC a economia brasileira cresceu a mesma taxa que a América Latina. Nos dois anos de Dilma o Brasil cresceu a uma taxa de 1,8% ao ano e a América Latina a uma taxa de 3,79% ao ano, mais que o dobro do Brasil!

Mas é bom evitar conclusões apressadas. Note que nos primeiros mandatos de FHC e de Lula o Brasil cresceu menos que a América Latina, mais ainda, olhando ano a ano nos inícios dos primeiros mandatos de FHC e Lula o Brasil cresceu bem menos que a América latina. Seria então um padrão crescer menos que a América Latina nos dois primeiros anos de governo e recuperar depois? Por quê? A teoria dos ciclos políticos pode apresentar uma resposta sofisticada a esta pergunta, não segurei este caminho. Tomarei uma rota mais simples e vou tentar mostrar porque FHC e Lula “forçaram” uma recessão nos primeiros anos de seu governo. Para isto vou colocar inflação na história.

FHC iniciou seu primeiro mandato em 1995, no ano anterior o Brasil tinha começado uma tentativa séria de acabara com a hiperinflação que desgraçava o país desde a década de 1980. Em 1994 a inflação no Brasil foi de 916,4%! FHC tomou posse com um grande objetivo: acabar de vez com a inflação. Em 1995 a inflação foi de 22,4% ao ano caiu para 1,65% em 1998 e voltou a subir até o pico de 12,5% em 2002 (último ano de seu mandato). De ponta a ponta FHC reduziu muito a taxa de inflação do Brasil e isto teve um custo. Lula recebeu o país com uma inflação de 12,5% ao ano. Um número baixo para os padrões da década de 1980, mas muito alto para os padrões civilizados que o Brasil buscava no início do século XXI. Assim como FHC, Lula foi obrigado a priorizar o combate à inflação no início de seu governo. De fato a inflação sob Lula começou a cair, chegou a um mínimo de 3,1% em 2006 e terminou em 5,9% em 2010. A figura abaixo ilustra esta história.




Note que entre 1995 e 2010 se observou um padrão de queda do produto (descontado o crescimento médio da América Latina) junto com queda da inflação. O padrão não é observado apenas no governo Dilma. Nos dois anos de Dilma observou-se uma redução significativa do crescimento em relação à América Latina sem que ocorresse uma queda da inflação. O que mudou de Dilma para FHC e Lula? Muita coisa, ao tomar posse Dilma deixou claro que seu compromisso era com o crescimento da indústria, até aí ainda vai, e que as políticas monetária (câmbio e inflação) e fiscal seriam usadas para incentivar a indústria. O foco saiu da estabilidade monetária e equilíbrio fiscal e passou para o desenvolvimentismo, o resultado da mudança foi clara: recessão sem redução de inflação. Espero que a presidente retorne ao caminho de FHC e Lula antes que seja muito tarde, mas temo que já seja muito tarde.

terça-feira, 30 de julho de 2013

IDHM e as Reformas ou Nunca antes na história deste país...

Com a divulgação do índice de desenvolvimento humano municipal brasileiro (IDHM) ganhamos mais um indicador do desempenho da economia brasileira pós-reformas. Depois de pelo menos quarenta anos de políticas desenvolvimentistas o Brasil resolveu dar uma oportunidade as reformas pró-mercado. Longe de ter sido uma escolha espontânea a opção pelas reformas foi tomada por falta de qualquer outra opção disponível após o colapso da estratégia desenvolvimentista na década de 1980. É importante ressaltar este ponto, pois ajuda a explicar a razão de não termos investido a fundo nas reformas, fizemos o mínimo de reformas necessárias para tirar a economia brasileira do atoleiro em que estava. Mas fizemos, e vinte anos depois é possível ver como este modesto ímpeto reformista mudou a economia brasileira.

A figura (tirada do Atlas de Desenvolvimento Humano Municipal Brasileiro) mostra o IDHM em 1991, 2000 e 2010. Temos um retrato dos municípios brasileiros no início das reformas, no meio e no final do período de revisão (mas não reversão) das reformas. Em 1991 o IDHM do Brasil como um todo era 0,492, o Brasil era então um país de muito baixo desenvolvimento humano, em 2000 o IDHM era 0,612, dez anos de reforma o Brasil já era um país de médio desenvolvimento humano, por fim, em 2010, o IDHM era de 0,727. Em vinte anos de reformas o Brasil deixou de ser um país de desenvolvimento humano muito baixo (a pior classificação) e passou a ser um país de médio desenvolvimento humano (a segunda melhor classificação). Entre 1991 e 2000 o IDHM aumentou 24,4%, entre 2001 e 2010 aumentou 18,8%, considerando o período como um todo o IDHM aumentou 47,8%.



Ao contrário do crescimento concentrador de renda pessoal e regional que ocorreu no período desenvolvimentista o crescimento do IDHM beneficiou todas as regiões brasileiras e abarcou todos os indicadores considerados no IDHM. A expectativa de vida ao nascer subiu de 64,7 para 73,9 anos. A população com idade de 5 a 6 anos que frequenta escola subiu de 37,3% do total em 1991 para 71,5% em 2000 e chegou a 91,1% em 2010. Em 1991 85,8% dos municípios brasileiros tinham desenvolvimento humano muito baixo, esta percentagem caiu para 41,8% em 2000 e incríveis 0,6% em 2010. Na outra ponta não tínhamos municípios com desenvolvimento humano alto ou muito alto em 1991, em 2010 estes municípios somaram 34,7% do total de municípios (33,9% de alto desenvolvimento e 0,8% com desenvolvimento muito alto).


Os números são acachapantes. Por qualquer critério usado no índice de desenvolvimento chega-se a conclusão que vinte anos após as reformas o Brasil está muito mais desenvolvido do que quando as reformas começaram. Lembrem destes números toda vez que alguém falar que as reformas só beneficiaram os mais ricos e quebraram o Brasil, foi o contrário. A partir de 2006 o governo brasileiro começou a abandonar a agenda de reformas e a partir de 2011, com Dilma, começou uma agenda de contra reformas. Proteger a indústria voltou a ser mais importante que proteger os cidadãos. A quem interessa o abandono das reformas? Quem ganha com isto? Pensem nisto.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Conversa com Marco Martins e uma Provocação sobre o Déficit da Previdência

Após publicar o post sobre o Impasse tive a satisfação de receber um retorno do Marco Martins (autor do texto original do Impasse a que me referi no post). Para minha sorte o mecanismo de comentários do blog estava com problemas e o Marco resolveu me mandar o comentário por e-mail, o que acabou por me propiciar a oportunidade de marcar uma conversa com ele para falarmos de economia brasileira. O comentário que ele mandou segue abaixo:

"Olá, Roberto, aqui é o Marco Antonio. Acabo de saborear seu post sobre o meu "Impasse",  fiquei muito agradecido e estimulado pelas suas palavras. Minha sensação é a de que ele traz muito mais perguntas do que respostas, perguntas que, se respondidas, poderiam ajudar a compreensão dos porquês das duas décadas perdidas e da falta de dinamismo da economia brasileira, sempre carente de um poderoso mercado interno, sempre refém dos preços das commodities. Quando escrevi o texto pensava que tudo se tratava de um grande erro de política econômica, mas quando descobri que todo aquele prejuizo astronômico foi imposto só para beneficiar algumas poucas empresas da petroquímica, levei um susto. Nunca pensei que negócios e governos pudessem ser tão irresponsáveis com a economia e com o povo. "Impasse" mostra apenas a ponta do iceberg, há muito mais ainda para ser pesquisado e entendido. O "Impasse - II" pode ser encontrado em http://www.aeconomiadobrasil.com.br/artigo.php?artigo=44. Não é apenas um resumo, pois traz informações muito importantes a respeito da literal destruição, pelo governo Geisel, das regras de formação dos preços dos derivados do petróleo. Novamente, obrigado pelas suas palavras e quem sabe, seu post vai estimular outros pesquisadores a mergulharem no assunto."


O resultado da conversa aparecerá nos próximos posts. Falamos sobre subsídio ao petróleo e como isto afeta alocações de recursos e a balança comercial, sobre os subsídios do BNDES, sobre câmbio e sobre privatizações concessões. Como não podia deixar de ser falamos sobre previdência e sobre este tema recebi uma provocação que quero compartilhar aqui.

Em determinado momento ele me perguntou quanto paguei para nascer. Respondi que eu não tinha pago nada, mas que meu pai tinha. A provocação continuou, não se tratava do custo do hospital. O ponto é que quando nasci já existiam ruas, hospitais, penicilina,viadutos, delegacias de polícia, telefone e várias outras coisas comuns à vida civilizada do início da década de 1970. A pergunta é: quanto vale nascer em mundo que tenha tudo isto? Quanto paguei por isto?

Quando falamos de déficit da previdência está implícita a ideia que os mais jovens financiam os aposentados. Entretanto não se contabiliza a dívida que os jovens tem com os velhos por nascer em um mundo com muitas coisas já feitas e muito conhecimento acumulado. Se for feita esta contabilidade quem acaba financiando quem? O que pagamos de contribuição previdenciária é suficiente para pagar a dívida com as gerações passadas?

Visto desta forma a questão previdenciária passa a ser uma questão de quem tem direito sobre o que. Se ao nascer cada pessoa recebesse o valor de uma dívida a ser paga durante os anos de trabalho o problema demográfico deixaria de ser um problema de jovens financiando velhos e passaria a ser um problema de jovens financiando a própria dívida. Em termos atuariais pode até ser o mesmo problema (não estou certo, é preciso fazer algumas contas), em termos econômicos são problemas diferentes. Antes que alguém grite "sunk costs" lembro que previdência é um problema de política pública e, nestes problemas, o discurso importa.

Agradeço muito a resposta do Marco Martins e agradeço mais ainda nossa conversa de hoje a tarde, ganhei assuntos para pensar por mais dez anos.

sábado, 27 de julho de 2013

Indústria de Transformação e Renda do Trabalho no Governo Lula: O "X" da Questão.

Análises de crescimento econômico devem ser feitas olhando o longo prazo e tomando cuidado para não confundir relações de longo prazo com relações de curto prazo entre variáveis. Infelizmente para fins de avaliar políticas é difícil escapar de análises de curto/médio prazo. Tome por exemplo alguém que queira avaliar a economia brasileira durante o governo Lula. Qualquer conclusão pode ser questionada a partir do fato que Lula governou durante um período de aumento dos preços das commodities. Infelizmente não podemos repetir as mesmas políticas de Lula em uma realidade alternativa onde o preço das commodities não subiu tanto. Esta impossibilidade de experimentos controlados é que torna as ciências sociais tão predispostas a debates inconclusivos. Claro que sei que existem várias técnicas para se realizar exercícios contrafactuais, ocorre que, para dizer o mínimo, são técnicas limitadas, principalmente quando o assunto é macroeconomia. Não temos milhares de países no mundo e só temos uma história que afeta todos os países.

Por outro lado a existência de determinadas relações, mesmo que apenas por seis ou sete anos, cria desafios para os que estudam o crescimento da economia. Não posso dizer que a existência de uma determinada relação entre duas variáveis por um determinado tempo estabeleça uma verdade universal. Mas posso dizer que se alguém quer explicar aquele período é preciso explicar porque aquela relação aconteceu. Considere um exemplo ao qual dedico muito de meu tempo: a existência de políticas desenvolvimentistas por quase toda América Latina do final da II Guerra ao início da década de 1990 e o baixo crescimento dos países latino-americanos neste período. Isto não pode ser usado como prova que qualquer política desenvolvimentista em qualquer tempo e lugar levará ao baixo crescimento da economia em um período de 40 anos. Mas qualquer teoria que queira explicar o que aconteceu na América Latina naquele período tem que ser capaz de explicar este fenômeno. Em resumo, a experiência da América Latina não prova a tese que políticas desenvolvimentistas não geram crescimento de longo prazo, mas refuta a tese de que estas políticas sozinhas criam este desenvolvimento.

Argumento semelhante pode ser usado no meu post anterior, que chamei de “Mito da Indústria de Transformação”. Os dados não dizem que indústria de transformação não é importante para o crescimento. Os dados dizem que o aumento da participação da indústria de transformação no PIB não levou a um processo de crescimento da economia brasileira sustentado no longo prazo, nem mesmo da produtividade, acrescento.

Neste espírito gostaria de comentar a relação entre participação da indústria de transformação no PIB e o valor da renda destinada aos salários durante o governo Lula (exclui 2010 porque nos dados que eu tinha no computador faltava à participação do trabalho para este ano, não creio que a exclusão mude a figura). Durante o governo Lula (2003 a 2009) a participação dos salários na renda dos fatores (sei a diferença entre PIB e renda dos fatores, estou intercambiando os termos para facilitar a leitura, isto é um post em um blog não é um artigo científico) subiu de 40% para 45%. No mesmo período a participação da indústria de transformação no PIB caiu de 18% para 16%. A Figura ilustra os dados.



Isto significa que a redução da participação da indústria de transformação no PIB levou ao aumento dos salários? Não. É possível, a partir destes dados, afirmar que o fenômeno é sustentável ou seria possível em outra conjuntura econômica? Não. Então para que servem estes dados? Para estabelecer que qualquer teoria que queira explicara relação entre participação da indústria de transformação no PIB e a participação dos salários na renda tem que ser capaz de explicar porque esta relação tem a forma de X em um período de quase oito anos (de 2004 a 2009, é um X perfeito). Se a teoria não for capaz de explicar isto um mínimo de honestidade intelectual exige que o pesquisador reconheça e fragilidade de sua teoria e, de preferência, se abstenha de propor políticas (que custam caro e alteram as vidas das pessoas) tomando por base estas teorias. Apelar para possíveis efeitos de curto e longo prazo sem explicitar de forma clara o que distingue um do outro pode até agradar a claque, mas não acrescenta nada a discussão. Tampouco ajuda definir longo prazo como o período em que tudo o que eu digo vai acontecer.