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terça-feira, 29 de maio de 2018

A resposta do governo à greve dos caminhoneiros não foi ruim, foi muito pior.

Em junho do ano passado o blog Estado da Arte no Estadão publicou um texto meu cujo o título era: “Temer no Planalto é retrocesso na agenda de reformas” (link aqui), no texto escrevi:

“A permanência de Temer no governo pode até ajudar com algumas reformas, particularmente a trabalhista, mas definitivamente vai na contramão da melhora do ambiente institucional que tanto precisamos.”

O que na época foi escrito por conta das revelações do áudio de uma conversa de Joesley Batista com Temer que deveria ter sido suficiente para tirar Temer do Planalto, nesta semana se mostrou mais real do que eu poderia imaginar. Para ficar no poder Temer fez uma série de concessões que colocaram o Brasil na contramão das reformas. É verdade que em outros fronts a equipe técnica do governo buscava avançar nas reformas, melhor exemplo disso foi a substituição da TJLP pela TLP em 2017. O governo Temer que parecia abraçar de todo a agenda reformista passou a se dividir entre um núcleo político disposto a todo tipo de populismo e concessões para permanecer no poder e um núcleo técnico concentrado na Fazenda tentando seguir com as reformas. Nesta semana, ao que tudo indica, o núcleo político impôs uma derrota definitiva ao núcleo técnico. A resposta do governo à greve dos caminhoneiros foi um nocaute dado pela agenda de populismo e compadrio na agenda reformista.

A MP 832 de 27 de maio de 2018 (link aqui) institui a política dos preços mínimos no transporte rodoviário de cargas, com a medida o governo se propõe a substituir o mercado na tarefa de “proporcionar a adequada retribuição ao serviço prestado” pelos caminhoneiros. Para deixar claro o espírito da medida basta dar uma olhada nos artigos quarto e quinto: a MP coloca o governo, mais precisamente a ANTT, como responsável pelos preços mínimos no setor. Seguem os dois artigos:

Art. 4º:  O transporte rodoviário de cargas, em âmbito nacional, obedecerá aos preços fixados com base nesta Medida Provisória.

Art. 5º:  Para a execução da Política de Preços Mínimos do Transporte Rodoviário de Cargas, a Agência Nacional de Transportes Terrestres - ANTT publicará tabela com os preços mínimos referentes ao quilômetro rodado na realização de fretes, por eixo carregado, consideradas as especificidades das cargas definidas no art. 3º.

A outra MP já publicada, MP 833 de maio de 2018 (link aqui), é também um monumento ao retrocesso. O governo resolveu intervir em contratos estabelecidos com concessionárias de rodovias por todo o país e determinar que “veículos de transporte de cargas que circularem vazios ficarão isentos da cobrança de pedágio sobre os eixos que mantiverem suspensos.”. Como essa isenção será viabilizada? Quem vai ficar com o prejuízo? Aparentemente nem o governo sabe, de acordo com o parágrafo segundo do artigo primeiro da MP nos resta esperar:

Art. 1º § 2º:  Os órgãos e as entidades competentes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios disporão sobre as medidas técnicas e operacionais para viabilizar a isenção de que trata o caput.

As medidas que já viraram objeto de MP apontam claramente para a volta de um estado que tenta substituir o mercado na formação de preços dos fretes e dos pedágios. As outras medidas ainda não estão claras, mas aparentemente tornam o cenário ainda pior. Comecemos pela mais assustadora de todas: o governo pretende pagar R$ 0,30 por litro de óleo diesel vendido pelas refinarias. Dito de outra forma o governo está retomando à política de subsídios a combustíveis. Na forma como está o custo estimado pelo governo será de R$ 9,5 bilhões, mas uma vez aberta a porteira é difícil, quase impossível, saber o tamanho do rebanho que vai passar. Quem garante que o subsídio não será renovado? Quem garante que não será elevado em caso de elevações no preço do barril do petróleo ou desvalorizações no real. A experiência sugere que o caminho dos subsídios é um caminho de difícil volta, é uma pena que o governo que liderou uma das maiores vitórias contra os subsídios, a aprovação da TLP, chegue ao fim ressuscitando a infame conta petróleo da década de 70

Outra medida polêmica é a redução de impostos sobre o diesel, pela medida a CIDE sobre o diesel será extinta e a alíquota do PIS/Cofins será reduzida de forma que o preço do óleo diesel caia em R$ 0,16 por litro. Qual o problema de uma medida que reduz impostos? A resposta está no inciso II do artigo 14 da Lei de Responsabilidade Fiscal (link aqui), vejamos:

Art. 14.: A concessão ou ampliação de incentivo ou benefício de natureza tributária da qual decorra renúncia de receita deverá estar acompanhada de estimativa do impacto orçamentário-financeiro no exercício em que deva iniciar sua vigência e nos dois seguintes, atender ao disposto na lei de diretrizes orçamentárias e a pelo menos uma das seguintes condições:

I - demonstração pelo proponente de que a renúncia foi considerada na estimativa de receita da lei orçamentária, na forma do art. 12, e de que não afetará as metas de resultados fiscais previstas no anexo próprio da lei de diretrizes orçamentárias;

II - estar acompanhada de medidas de compensação, no período mencionado no caput, por meio do aumento de receita, proveniente da elevação de alíquotas, ampliação da base de cálculo, majoração ou criação de tributo ou contribuição.

Para aplicar o inciso I seria necessário mostra que renúncia foi considerada na estimativa de receita da lei orçamentária, esse não é o caso pois a medida não estava prevista até a semana retrasada. Isso faz com que a medida se enquadre no inciso II que determina explicitamente que haja uma compensação por meio de aumento de receitas. Repor os cerca de R$ 4 bilhões de perda de arrecadação de CIDE e PIS/Cofins por meio de impostos não é uma escolha da Fazenda, é uma determinação legal. A reoneração da folha de pagamentos deve dar no máximo R$ 2 bilhões, o resto vira de novos impostos e/ou elevações de alíquotas.

Por certo podemos questionar a lei, mas isso exige um rito, alguém também pode alegar que a lei é “injusta” e como tal não deve ser obedecida. A esses peço que lembrem dos riscos de permitir que um governo não obedeças às leis. Não estamos falando de um cidadão se rebelando contra uma lei injusta, estamos falando de defender que um governo se coloque acima das leis para cumprir um acordo com uma categoria em greve. Por mais que meu instinto liberal me coloque sempre ao lado de reduções de impostos esse mesmo instinto se manifesta de forma ainda mais incisiva em repúdio a possibilidade de colocar um governo acima das leis. O princípio do Império da Lei e governo limitado me parece mais importante do que uma redução temporária de tributos.

Juntos o subsídio e a redução de tributos levam a uma queda de R$ 0,46 do preço do óleo diesel nas refinarias. Como garantir que essa redução vai chegar nos postos? Aqui os representantes do governo protagonizaram cenas dignas da década de 80: apelos ao patriotismo dos donos de postos e dos distribuidores de combustíveis, ameaça de transformar o Procom e uma reencarnação da Sunab, convocação da população para fiscalizar postos em um triste arremedo dos “fiscais do Sarney” fizeram parte do show de horrores encenado pelos ministros Carlos Marun, Eliseu Padilha e Sérgio Etchegoyen nas várias entrevistas coletivas da última semana.

A intervenção nos preços, o populismo nos pedágios, os subsídios e a volta da conta petróleo, o envio para o resto da sociedade de impostos sobre o óleo diesel e o festival e bobagens nas ameaças aos postos de combustível não encerram a sucessão de desastres da semana. O governo também prometeu que caminhoneiros autônomos vão ter uma cota de 30% dos fretes da Conab. Se não tinham antes é por algum motivo, provavelmente porque contratar transportadores é mais eficiente para Conab. Quem vai ficar com a conta? Advinha...

Um último ponto que merece ser comentado é o imposto sobre importação do diesel (link aqui). O governo vai cobrar um imposto equivalente a diferença entre o preço do óleo diesel importado e o preço cobrado pela Petrobras. A justificativa é não prejudicar a estatal em caso de queda no preço do petróleo que faça com o diesel importado fique mais barato que o nacional. Gostou? Tem mais...para não distorcer o mercado o governo vai pagar o subsídio de R$ 0,30 por litro para o óleo importado. Não se subsidiar importações é uma jabuticaba, mas parece. De toda forma o imposto e o subsídio ilustram a lógica torta das intervenções: uma intervenção gera distorções no mercado que devem ser corrigidas por novas intervenções em um ciclo que costuma ir muito além do que foi originalmente imaginado. A conta fica para o pagador de impostos que é também consumidor.

Para não terminar o post em um clima tão pesado recomendo ao leitor um documento do CADE com sugestões para estimular a concorrência no setor de combustíveis (link aqui), lá são feitas nove propostas:

Bloco 1: Contribuições em relação à Regulação
(i) Permitir que produtores de álcool vendam diretamente aos postos.
(ii) Repensar a proibição de verticalização do setor de varejo de
combustíveis.
(iii) Extinguir a vedação à importação de combustíveis pelas
distribuidoras.
(iv) Fornecer informações aos consumidores do nome do revendedor de
combustível, de quantos postos o revendedor possui e a quais outras
marcas está associado.
(v) Aprimorar a disponibilidade de informação sobre a comercialização
de combustíveis para o aperfeiçoamento da inteligência na repressão à
conduta colusiva.

Bloco 2: Contribuições em relação à Tributação
(vi) Repensar a substituição tributária do ICMS.
(vii) Repensar o imposto ad rem.

Bloco 3: Contribuições de caráter geral
(viii) Permitir postos autosserviços.
(ix) Repensar as normas sobre o uso concorrencial do espaço urbano.

No texto cada proposta é detalhada e justificada. Naturalmente ninguém é obrigado a concordar com todas as propostas, mas é triste saber que no lugar de estarmos discutindo uma agenda interessante como a proposta pelo CADE estamos discutindo a volta de políticas ruins que já se mostraram desastrosas no passado.


sábado, 12 de maio de 2018

Valorização da Petrobras: preço do petróleo e mudanças na gestão.


Esta semana foi registrado que a Petrobras ultrapassou a AMBEV e voltou a ser a empresa mais valiosa na Bolsa de Valores de São Paulo. Reportagem do UOL (link aqui) mostra que o valor da Petrobras chegou a R$ 358,9 bilhões, deixando para trás a AMBEV (R$ 342,6 bilhões) e se afastando ainda mais do Itaú Unibanco (R$ 295,6 bilhões), Vale (R$ 267,6 bilhões) e Bradesco (R$ 217 bilhões). Muita gente creditou a valorização da Petrobras a gestão de Pedro Parente, alguns foram além e viram a notícia como sinal que a Petrobras está recuperada.

A análise que segue reforça a tese que a gestão de Pedro Parente foi fundamental para o processo de recuperação da Petrobras, por justiça creio que devo registrar que, a despeito de outras questões, as mudanças começaram ainda na gestão de Ademir Bendine, porém, ao contrário de Parente, Bendine sofreu com restrições impostas pela agenda política/ideológica do governo Dilma. Basta uma olhada nos jornais da época para ver os esforços de Bendine para fazer o ajuste na Petrobras com a inevitável venda de ativos (link aqui). Ocorre que além da mudança na gestão iniciada com Bendine e aprofundada por Parente outros fatores afetam o desempenho da Petrobras e podem explicar a alta no preço das ações e o consequente aumento de valor da empresa. O objetivo desse post é jogar luz na separação entre os efeitos causados por fenômenos comum ao setor e efeitos específicos da Petrobras.

Comecemos do começo. A figura abaixo mostra a evolução das da Petrobras (PETR4.SA) e da AMBEV (ABEV3.SA) na Bolsa de São Paulo. É fácil ver a recuperação que ocorre a partir de 2015, ano que Bendine assumiu a presidência e parou a política insana das gestões anteriores, da mesma forma é visível a sequência de altas que levou o valor da Petrobras a ultrapassar o da AMBEV (lembre que o valor é o preço multiplicado pelo número de ações). Repare que a partir de 2016 tanto a AMBEV quanto a Petrobras apresentam uma série de alta nos preços, isso é verdade para várias empresas, porém a Petrobras subiu mais que a AMBEV, o que sugere que além do efeito da subida generalizada no valor das empresas brasileiras a partir de 2016 existe algo específico que a afeta a Petrobras ou a AMBEV que justifique a diferença na performance das duas. Alguém pode alegar que foi a gestão, mas meu primeiro candidato é o preço do petróleo.



O barril de petróleo que começou 2016 valendo menos que US$ 30 já está próximo a US$ 80 (link aqui), me parece claro que tal valorização tenha efeitos no preço das ações da Petrobras. Como separar o que foi gestão do que foi aumento do preço do petróleo? Para fazer tal comparação precisaríamos de ter os preços das ações de outras petroleiras na Bolsa de São Paulo, não é o caso. Dessa forma fui buscar o preço das ações da Petrobras na Bolsa de Nova Iorque (PBR) e comparei com o de outras petroleiras, especificamente: BP (BP), Royal Dutch Shell (RDS-A), Exxon Mobil (XOM), PetroChina (PTR) e Chevron (CVX). A figura abaixo mostra as ações dessas empresas.




Até 2010 a Petrobras andava bem perto da Shell e da BP, a partir daí a Petrobras e a BP, essa última por conta do grande vazamento que ocorreu no Golfo do México em 2010, ficaram para trás. Em 2011 a Petrobras descola da BP e começa uma trajetória de queda que dificilmente pode ser explicada por fatores que atingiram o mercado de petróleo como um todo, alguém mais cínico do que eu diria que a combinação de gestão ruim e corrupção que atingiu a Petrobras fez mais estrago que o desastre da Deepwater Horizon (link aqui). Para ver melhor esses fenômenos a figura abaixo repete a figura anterior considerando apenas a Petrobras, a BP e a Shell.




Se é fácil perceber visualmente o descolamento da Petrobras das demais petroleiras o mesmo não pode ser dito da recuperação. Como ser visto os preços das ações de várias empresas subiram desde 2015, isso sugere que parte do aumento do preço da Petrobras foi por conta de fatores que afetam o setor como um todo, o principal candidato é o preço do petróleo. Para ir além disso é preciso fazer contas, a diferença entre os preços torna quase impossível determinar visualmente qual preço teve uma variação maior que os outros.

Pedro Parente foi indicado para presidente da Petrobras em 19 de maio de 2016, no dia 20 de maio daquele ano a ação da Petrobras na Bolsa de Nova Iorque custava US$ 6,45. Naquele mesmo dia a ação da BP custava US$ 28,05, da Shell custava US$ 43,18, da Exxon Mobil custava US$ 83,26, da PetroChina custava R$ 64,81 e da Chevron custava US$ 93,11. No dia 11 de maio de 2018, última dia de dados disponíveis, os preços eram US$ 16,90 para Petrobras, US$ 45,83 para BP, US$ 71,99 para Shell, US$ 81,28 para Exxon Mobil, US$ 76,95 para PetroChina e US$ 129,84 para Chevron. Se calcularmos a variação de cada preços vamos ver que a Petrobras valorizou 151%, a BP valorizou 63,4%, a Shell valorizou 66,7%, a Exxon Mobil desvalorizou 2,4%, a PetroChina valorizou 18,7% e a Chevron valorizou 39,5%.

A valorização da Petrobras ter sido muito superior a valorização de outras empresas sugere que fatores específicos à Petrobras tiveram um papel relevante no desempenho da empresa. É difícil não imaginar que tais fatores estão relacionados a mudança de governo no Brasil e a mudança na gestão da Petrobras. Por outro lado, mesmo com toda a valorização, as ações da Petrobras ainda estão longe do nível da BP e da Shell, empresas que estavam bem próximas da Petrobras até 2010. Isso sugere que a recuperação da Petrobras ainda tem um longo caminho pela frente. Se pensarmos a Shell como uma Petrobras que não sofreu desastres o impacto da má gestão na Petrobras combinada com intervenções do governo e corrupção custou US$ 55,8 (a diferença entre o preço da ação da Shell e da Petrobras) por ação negociada na Bolsa de Nova Iorque. Se formos além e considerarmos a Shell como empresa que não sofreu desastre, a BP como a empresa que sofreu desastre ambiental e a Petrobras como a empresa que sofreu o desastre combinado de má-gestão, intervenções do governo e corrupção vamos ver que o custo do desastre ambiental foi menor que o custo do desastre sofrido pela Petrobras, mais precisamente: o desastre da Petrobras custou US$ 29.6 por ação a mais que o desastre da BP.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Mais uma vez a Petrobras e o Pré-Sal.

A Petrobras não é apenas a maior empresa brasileira, é uma empresa que controla uma área estratégica para o país. O petróleo é o principal insumo do mundo moderno, não apenas é fonte de energia como é insumo básico para a produção de vários produtos químicos e outros materiais, por exemplo, o petróleo é matéria prima para a produção de plástico. Problemas com a Petrobras significam problemas para economia brasileira. Por esta razão o derretimento do valor da Petrobras tem sido objeto de debates e recebe muita atenção da imprensa e também deste blog. Nos últimos cinco anos o preço da ação da Petrobras negociada na Bolsa de Valores de Nova York caiu quase 79%, quem comprou por US$ 50,18 em 13 de novembro de 2013 se vender hoje, 11/11/2014 conseguirá US$ 10,65. A figura abaixo mostra o comportamento do preço das ações da Petrobras na Bolsa de Valores de Nova York nos últimos 10 anos (todos os dados de preços de ações são do Google Finance).




Repare que houve um crescimento até junho de 2007, neste mês ocorreu uma queda rapidamente seguida por uma recuperação que levou o preço a um recorde de US$ 72,38 em maio de 2008. Em dezembro de 2008 o valor estava próximo a US$ 18, a queda ocorre no período da Crise Financeira de 2008. Depois do auge da crise o preço volta a subir, no final de novembro de 2009 passa de US$ 51. A partir daí começa o processo de queda até que chegue aos atuais US$ 10,65. Como explicar esta história? Antes de tentar será útil olhar para os preços de outras empresas. Escolhi a ExxonMobil, de acordo com o ranking da Forbes (link aqui) é a única das cinco maiores petroleiras do mundo que não está sob controle estatal. A primeira do ranking é a Saudi Aramco (Arábia Saudita), a segunda é a Gazprom (Rússia), a terceira é a National Iranian OIl Co. (Iran), a quarta é a ExxonMobil e a quinta é a PetroChina (subsidiária da China National Petroleum Corporation, uma semiestatal chinesa). No ranking a Petrobras fica na 14º posição. Por ser privada vou assumir que a ExxonMobil representa de alguma forma a tendência do mercado e não o desejo de governos.

A figura abaixo ilustra o comportamento do preço das ações da ExxonMobil na Bolsa de Valores de Nova York. Repare que assim como a Petrobras as ações sobem de forma consistente até o período anterior à crise e caem de forma brusca durante o período da crise. Porém a partir de 2010 o preço começa uma tendência de alta que segue até os dias atuais. A PetroChina, semiestatatal, também apresenta um aumento forte até o período anterior à crise, cai durante crise e depois torna a crescer, porém pouco, e fica estabilizada. Chevron, Total e Shell apresentam comportamento semelhante ao da ExxonMobil, porém com queda nos últimos meses, padrão que é seguido pela BP, porém com uma queda forte em 2010 seguida de rápida recuperação. Enfim, enquanto a valorização no período anterior à crise e a queda durante a crise seguiu uma espécie de padrão a tendência de queda que a Petrobras seguiu nos últimos cinco anos não parece ser algo do mercado, está mais parecido com algo com a empresa. Para que não fiquem dúvidas a respeito da tendência a figura ao lado mostra o preço das ações da Petrobras nos últimos cinco anos.



O que poderia ter causado a queda? Se fosse um fenômeno recente, como nos casos da Chevron, Total, Shell e BP poderíamos dizer que foi a queda no preço do petróleo. A figura abaixo mostra o preço do petróleo (West Texas Intermediate, WTI), na esquerda estão os últimos seis meses, a tendência de queda é clara, na direita estão os últimos dez anos. Note que o aumento significativo do preço no período anterior à crise coincide com o aumento nos preços das ações das petroleiras, note também que não existe uma tendência de queda que venha desde 2010. Se não foi o preço do petróleo, o que foi? Uma resposta rápida seria culpar o governo Dilma e o uso político que foi feito na empresa. É uma causa possível, mas não fico satisfeito de pensar que um setor que opera em países como Iraque, Irã, Arábia Saudita, Rússia, Nigéria e Venezuela fique intimidade com as instituições brasileiras. Não ficaria surpreso se na maioria destes países ocorrer tanto ou mais intervenção do governo do que no Brasil, mesmo o em tempos petistas. Seria um problema com o Brasil? Também não considero provável, petróleo é commoditie, aliás, não ficaria surpreso se uma redução da demanda no Brasil melhorasse a situação financeira da Petrobrás. De toda forma fui olhar as ações da AMBEV, embora tenha tido queda de quase 15% nos últimos cinco anos está longe dos 79% da Petrobrás. A Embraer aumentou 86,5% nos últimos cinco anos, por outro lado a Vale teve queda de 67,5%, bem grande, mas ainda menor que a Petrobras.



A verdade é que não estou convencido que o problema da Petrobrás seja apenas a ingerência política (escrevo antes de saber a extensão da investigação que a Petrobrás está sendo alvo nos EUA, a depender do que a justiça americana concluir o custo do uso político da Petrobrás pode ficar gigantesco) nem seja o desempenho da economia brasileira. Cada vez mais desconfio que o problema da Petrobrás é o pré-sal. Já comentei aqui no Blog a respeito dos custos do pré-sal (link aqui), a Petrobrás afirma que o pré-sal é viável com o preço do barril entre US$40 e US$45, especialistas pelo mundo duvidam dos números da Petrobrás. Alguns desconfiam do verdadeiro volume de petróleo na área, talvez lembrem do grupo X, outros questionam os custos de transporte e outros custos não diretamente ligados à extração.

Não sou engenheiro nem geólogo, também não tenho acesso a relatórios técnicos sobre o pré-sal, mas olho o mercado e vejo algo que não fecha. Leio que com o barril abaixo de US$ 80,00 a extração de petróleo em partes do Golfo do México ficaria inviável, o mesmo aconteceria com o “oil sands” do Canadá e o “shale gas” dos EUA, mesmo a Rússia teria problemas com o barril abaixo de US$ 65,00. Já li até teorias de conspiração dizendo que a Arábia Saudita está forçando o preço para baixo para quebrar a turma do “shale gas”, cavar areia parece ser fácil, o petróleo da Arábia Saudita seria viável mesmo com o barril a US$ 15,00. Como entender que a Petrobras encontre um “oceano de petróleo submerso” a custo de extração relativamente baixo e ainda assim esteja perdendo valor de mercado? Na minha avaliação o mercado já deixou claro que não compra as estimativas da Petrobrás de custo médio de extração do pré-sal.

Se minha avaliação estiver certa, há um bocado de especulação nela, podemos estar com sérios problemas. O comportamento do preço do petróleo nos últimos dez anos sugere que a atual tendência de queda pode ser uma volta aos preços pré-2005 e não um movimento passageiro, muitos analistas no exterior trabalham com a hipótese que a queda do preço veio para ficar, as próprias tecnologias poupadoras de energia reforçam tal visão. O Brasil é um país que investe pouco, nossa taxa de investimento está entre as mais baixas do mundo, se nossa grande aposta de investimento se mostrar inviável estaremos em maus lençóis. Se além disto a aposta afundar nossa maior empresa e comprometer a energia no Brasil podemos ter sérios problemas no futuro próximo.





sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Comentários a Respeito do Preço do Petróleo e do Pré-Sal

A queda no preço do petróleo coloca algumas questões importantes para economia brasileira, afinal nossa maior empresa é uma petroleira. Por absurdo que pareça alguns viram a queda do preço do petróleo como algo positivo para Petrobras, o absurdo tem uma justificativa. Por conta da política econômica heterodoxa do governo a Petrobras perde dinheiro quando vende gasolina no Brasil, o combate à inflação via controle de preços forçou a empresa a vender com prejuízo. A queda no preço do petróleo e da gasolina no mercado internacional resolveu esta distorção, hoje a Petrobras não está mais tendo prejuízo quando vende.

Há motivo para comemorar? Eu não comemoraria tão rápido. Se a queda do preço for temporária de forma a permitir que a Petrobras reequilibre suas finanças sem correr o risco que a política econômica volte a obrigar que a empresa tenha prejuízos então a notícia pode ser boa. Pequenos ajustes nos preços de gasolina poderão tirar à Petrobras do sufoco sem assustar o governo de plantão. Por outro lado, se a queda for persistente, a Petrobras pode ter enormes prejuízos, só não digo que pode falir porque o governo não vai deixar, em breve eu explico a razão, falemos agora a respeito das perspectivas para o preço petróleo.

A figura abaixo mostra o preço do barril de petróleo desde 1970 (acima) e nos últimos doze meses (abaixo). Os preços estão em dólares e foram ajustados pela inflação americana (link para os dados aqui). Repare que apesar da queda significativa dos últimos meses o preço ainda está acima do que estava em 2006 e bem acima do que estava em 2001 no começo do boom das commodities. Na imprensa internacional fala-se que a queda nos preços pode ser persistente e que o barril de petróleo pode chegar a US$ 60,00 ou mesmo US$ 40,00 (ver aqui e aqui).




A demanda está comprometida pelo fim do ciclo de expansão pós-crise na Europa (alô atenção, fim do ciclo quer dizer que estava crescendo e vai parar de crescer logo não tem relação com o baixo crescimento brasileiro), pela volta do uso de energia nuclear no Japão, pela redução do consumo em vários países por conta de tecnologia e outros fatores (quanto mais quente menos aquecimento e menos consumo de petróleo) e pela oferta de bens substitutos como o gás xisto (shale gas) dos EUA. A crise do Oriente Médio não levou à redução na oferta como em outras oportunidades, pelo contrário, sofrendo ameaças internas e de organizações como o Estado Islâmico os governantes do Oriente Médio não estão dispostos a cotar a produção. Grandes produtores fora do Oriente Médio como a Venezuela também estão desesperados por recursos e não estão dispostos a cortar produção. Acrescente novas fontes de petróleo como o pré-sal brasileiro e o cenário para uma queda mais longa e mais persistente do preço de petróleo está armado. Eu falei pré-sal? Falei, aí está o problema.

O petróleo do pré-sal é um petróleo caro, muito caro. Buscar petróleo no fundo do mar envolve estruturas, pessoal especializado, tecnologia e riscos que não incidem na produção em terra. Estima-se que com o barril abaixo de US$ 85 buscar petróleo em águas profundas no Golfo de México deixa de ser lucrativo (link aqui). Há mas eu li em algum lugar que com o preço do barril acima de R$ 60 o pré-sal é viável, alguém pode dizer. A refinaria de Abreu Lima foi projetada para custar US$ 2,5 bilhões, quando a obra começou em 2009 a Petrobras já esperava investir US$ 13,4 bilhões, até o momento já investiu mais de U$ 18 bilhões (link aqui) e a refinaria ainda não está completa. Se erram tanto em algo relativamente simples como uma refinaria o que esperar de algo complexo e arriscado como o pré-sal? Pelo que já li e conversei por aí com o barril abaixo de US$ 100 o pré-sal não é viável, o número parece ser consistente com os US$ 85 para viabilizar o Golfo do México que é mais simples que nosso pré-sal. Se adicionarmos a margem de erro tradicional das empreitadas públicas brasileiras (vide Copa) é capaz do valor limite ficar acima de US$ 150. Chutei para cima, reconheço, mas não estamos nem perto disso, o barril está abaixo de US$ 85 e sem perspectivas de chegar a US$ 100 em um futuro próximo.

Perceberam? Nos últimos anos a Petrobras investiu pesado em tecnologia, qualificação de pessoal e equipamentos para investir em uma área que pode ficar economicamente inviável pelos próximos anos, a depender do progresso tecnológico e de outras fontes de energia podem ser muitos anos. Para uma empresa com dificuldades de financiar investimento como a Petrobras é hoje um investimento alto e sem retorno a médio prazo pode ser fatal. Pior, não apenas a Petrobras apostou alto no pré-sal, o Brasil também apostou. Marina tentou colocar a questão para debate, mas a máquina do governo não permitiu e a acusou de ser contra o pré-sal. Como sabem os que me acompanham eu não votei em Marina, mas acredito que ela estava certa ao questionar o pré-sal. Como brasileiro torço para que ocorra uma reversão no preço do petróleo e o pré-sal e não fique como um gigantesco elefante branco submarino, como economista que trabalha com macroeconomia e crescimento mas vez por outra gosta de olhar para questões setoriais, particularmente na questão energética, temo que tenhamos posto muito dinheiro em uma aposta por demais arriscada.





domingo, 5 de janeiro de 2014

Variação do Valor da Petrobras nos Últimos Anos

Comentário a respeito de notícia comparando o valor da Petrobras hoje e em 2003.


Não é a primeira vez que aviso: a estratégia governista para as próximas eleições vai ser misturar os governos de Lula e de Dilma. Em termos econômicos o primeiro mandato de Lula foi excelente, para surpresa de muitos após a posse Lula aderiu a uma agenda de reformas e manteve o compromisso estrito com a estabilidade econômica. No segundo mandato, Lula cedeu as tentações do desenvolvimentismo e a história começou a mudar. Duas ressalvas importantes quanto ao segundo mandato de Lula: (i) apesar do BNDES e do PAC o compromisso da estabilidade foi mantido na medida do possível; (ii) até agora não sei como avaliar o papel da crise econômica na mudança de política, após a crise de 2008 praticamente qualquer governante teria usado de instrumentos fiscais, considero impossível avaliar como teria sido o segundo governo Lula sem a crise.
O desastre foi o governo Dilma. A presidente abandonou totalmente a política macroeconômica de FHC/Lula, reforçou o BNDES, tentou baixar juros a força e desvalorizou o câmbio para ajudar a "indústria nacional". As últimas duas políticas só foram parcialmente abandonadas com a pressão do povo na rua.
Dilma foi a única presidente pós-estabilização que não reduziu a inflação, apesar disto as taxas de crescimento durante o governo Dilma foram muito baixas mesmo quando comparadas com as de outros países da América Latina. É contra este governo que oposição se apresenta, creio que isto tem que ficar claro.
P.S. O viés da notícia está claro no momento em que se percebe que o valor de 2003 foi exposto em dólares e o atual foi exposto em reais. A notícia também ignorou a capitalização que ocorreu durante o governo Lula, como foi bem colocado na conversa no FB.