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sábado, 2 de maio de 2015

Sobre vendeta neoliberal, sociólogos europeus e mordidas de vira-latas.

Nesta semana recebemos a visita do sociólogo italiano Domenico De Masi (autor do livro Ócio Criativo, link aqui). A Folha de São Paulo o entrevistou (link aqui) e deu a seguinte chamada para entrevista: “Intelectual brasileiro tem mentalidade de Terceiro Mundo, diz sociólogo.” Na última frase da entrevista o sociólogo italiano afirma: “Os brasileiros têm complexo de vira-lata.”. Me pergunto qual seria a reação da intelectualidade local se as mesmas declarações fossem dadas por um conservador americano, um liberal inglês ou algum pensador que nossa intelligentsia classifique como “de direita”.

A conclusão final aparentemente resulta de uma pesquisa com uma amostra impressionante de 11 intelectuais brasileiros que se mostraram pessimistas com o Brasil e depois se mostraram mais otimistas quando foram confrontados com dados reais tais como: “O PIB brasileiro é o sétimo do mundo, à frente da Itália e da Inglaterra. O Brasil está em quinto em produção industrial. Está em terceiro lugar em acesso à internet, atrás dos EUA e da Suécia.” Aparentemente o fato de nosso PIB per capita, ajustado por paridade do poder de compra estar na posição setenta e alguma coisa a depender do método de ajuste não impressionou De Masio nem os 11 intelectuais que viram a luz após confrontados com “a realidade”. Para manter a comparação com a Itália o leitor por de estar interessado em saber que o PIB per capita da Itália em 2013, de acordo com o Banco Mundial, foi de $35.281 e o do Brasil foi de $15.013, menos da metade do italiano. Também pode ser útil saber que a Itália está na 26º posição no ranking de IDH e nós estamos na 79º. Imagino que para o sociólogo italiano a possibilidade que brasileiros queriam ter uma renda maior que metade da dos italianos seja uma ousadia comparável a contrariar o conselho de Manuel Castell, outro sociólogo europeu, e manter nosso Congresso funcionando (link aqui).

Mas não foi para tratar disso que resolvi fazer o post, o que motivou a escrever foi a parte da entrevista em que De Mais classificou as críticas a Dilma como uma vendeta neoliberal, segue o trecho:

“Hoje, Dilma é vítima de uma vingança neoliberal. Aécio Neves (PSDB) perdeu as eleições, e o movimento neoliberal se voltou contra Dilma, que não é pior que outros presidentes. A corrupção sempre existiu no país.”

Já que o sociólogo gosta de dados e de mostrar a realidade creio que podemos ver alguns números para avaliar se as críticas e o desencanto da população com Dilma são mesmo resultado de uma vendeta.

Como sabemos Dilma tomou posse em 2011. No ano anterior a economia cresceu 7,6%, e a inflação foi de 5,9%. Em 2014 o crescimento foi de 0,1% e a inflação foi de 6,40%, para 2015 previsões aceitas pelo próprio governo mostram redução do PIB e inflação acima de 8%. Imagino que na Itália ou qualquer país da Europa um governo que conseguisse reduzir em mais de sete pontos a taxa de crescimento da economia e ainda aumentasse a inflação não fosse exatamente aplaudido pela população. Mesmo que consideremos que 2010 foi um ano de crescimento atípico e usemos a média dos anos anteriores o governo Dilma terá trazido uma redução do crescimento. Mas não para por aí, durante o governo Dilma ocorreu uma redução no ritmo de crescimento do salário mínimo (link aqui) e, a valer a regra atual e as previsões de crescimento para 2015, já está contratada uma redução real do salário mínimo. Em 2013, pela primeira vez em dez anos, a miséria aumentou no país (link aqui), outro feito do governo Dilma. O aumento da renda do trabalho também foi revertido no governo Dilma e hoje existem sinais de queda na renda do trabalho (link aqui).

A única variável relevante que não piorou no governo Dilma foi o desemprego, até agora, é bem verdade que se comparamos dezembro de 2010 com março de 2015 (último dado antes de Dilma tomar posse e último dado divulgado) o desemprego subiu de 5,3% para 6,2%, mas não seria uma comparação justa, a comparação mais adequada seria mês com mês ou ano com ano. Em março de 2010 o desemprego foi de 7,6% e em março de 2015 foi de 6,2%, da mesma forma em 2010 a taxa de desemprego foi de 6,7% e em 2014 foi de 4,8%. Porém se observamos a tendência temos motivos para acreditar que o quadro tende a piorar. Em 2011 o desemprego de março foi 6,5%, caiu para 6,2% em 2012, 5,7% em 2013 e 5,0% em 2014, por este ângulo o desemprego de 6,2% em março de 2015 é preocupante. As seguidas quedas na criação de empregos formais (link aqui) reforçam a preocupação.

Enfim, no governo Dilma o crescimento diminuiu, na realidade desapareceu, a inflação aumentou, a renda trabalho dá sinais de queda, o salário mínimo subiu menos e pode ter redução real, a miséria parou de cair e mesmo a redução do desemprego, única variável favorável ao governo, está ameaçada. Com tudo isso acontecendo um sociólogo italiano vem aqui e afirma que a reação ao governo Dilma é uma vendeta neoliberal. O que motiva o sociólogo? Ativismo político? Desconhecimento da realidade brasileira? Arrogância típica de certos círculos intelectuais europeus que acreditam que ficar descontente com governos é um privilégio que não está disponível para latino americanos? Seja o que for a declaração é absurda e não deveria ter ficado sem resposta.

Infelizmente não vi nenhuma resposta as declarações de De Masi, portais governistas divulgaram a entrevista (link aqui), mas portais e blogueiros de oposição preferiram ignorar. É uma pena, refutar afirmações como a de Domenico De Mais é fundamental para não perder o debate que definirá qual será a versão do que ocorreu no governo Dilma que passará para história: um governo que nos conduziu a um desastre econômico ou um governo vítima das elites. Conta a lenda que certa vez um recifense entrou em um bar em Fortaleza e falou alto para que todos ouvissem que ali não tinha nenhum macho. Então um cearense levantou e disse: então tu vai voltar para tua terra dizendo que apanhou de um baitola. Em tempos politicamente corretos imagino que a lenda não seja mais contada, mas a mensagem fica. Teria sido bom se o sociólogo italiano tivesse voltado para casa com algumas mordidas de vira-lata.