Nesta semana recebemos a visita do sociólogo italiano
Domenico De Masi (autor do livro Ócio Criativo, link aqui). A Folha de São
Paulo o entrevistou (link aqui) e deu a seguinte chamada para entrevista: “Intelectual
brasileiro tem mentalidade de Terceiro Mundo, diz sociólogo.” Na última frase
da entrevista o sociólogo italiano afirma: “Os brasileiros têm complexo de
vira-lata.”. Me pergunto qual seria a reação da intelectualidade local se as
mesmas declarações fossem dadas por um conservador americano, um liberal inglês
ou algum pensador que nossa intelligentsia classifique como “de direita”.
A conclusão final aparentemente resulta de uma pesquisa com uma
amostra impressionante de 11 intelectuais brasileiros que se mostraram pessimistas
com o Brasil e depois se mostraram mais otimistas quando foram confrontados com
dados reais tais como: “O PIB brasileiro é o sétimo do mundo, à frente da
Itália e da Inglaterra. O Brasil está em quinto em produção industrial. Está em
terceiro lugar em acesso à internet, atrás dos EUA e da Suécia.” Aparentemente
o fato de nosso PIB per capita, ajustado por paridade do poder de compra estar
na posição setenta e alguma coisa a depender do método de ajuste não
impressionou De Masio nem os 11 intelectuais que viram a luz após confrontados
com “a realidade”. Para manter a comparação com a Itália o leitor por de estar
interessado em saber que o PIB per capita da Itália em 2013, de acordo com o Banco
Mundial, foi de $35.281 e o do Brasil foi de $15.013, menos da metade do
italiano. Também pode ser útil saber que a Itália está na 26º posição no
ranking de IDH e nós estamos na 79º. Imagino que para o sociólogo italiano a
possibilidade que brasileiros queriam ter uma renda maior que metade da dos
italianos seja uma ousadia comparável a contrariar o conselho de Manuel Castell,
outro sociólogo europeu, e manter nosso Congresso funcionando (link aqui).
Mas não foi para tratar disso que resolvi fazer o post, o
que motivou a escrever foi a parte da entrevista em que De Mais classificou as
críticas a Dilma como uma vendeta neoliberal, segue o trecho:
“Hoje, Dilma é vítima de uma vingança neoliberal. Aécio Neves (PSDB) perdeu as eleições, e o movimento neoliberal se voltou contra Dilma, que não é pior que outros presidentes. A corrupção sempre existiu no país.”
Já que o sociólogo gosta de dados e de mostrar a realidade creio
que podemos ver alguns números para avaliar se as críticas e o desencanto da
população com Dilma são mesmo resultado de uma vendeta.
Como sabemos Dilma tomou posse em 2011. No ano anterior a
economia cresceu 7,6%, e a inflação foi de 5,9%. Em 2014 o crescimento foi de
0,1% e a inflação foi de 6,40%, para 2015 previsões aceitas pelo próprio
governo mostram redução do PIB e inflação acima de 8%. Imagino que na Itália ou
qualquer país da Europa um governo que conseguisse reduzir em mais de sete
pontos a taxa de crescimento da economia e ainda aumentasse a inflação não
fosse exatamente aplaudido pela população. Mesmo que consideremos que 2010 foi
um ano de crescimento atípico e usemos a média dos anos anteriores o governo
Dilma terá trazido uma redução do crescimento. Mas não para por aí, durante o
governo Dilma ocorreu uma redução no ritmo de crescimento do salário mínimo
(link aqui) e, a valer a regra atual e as previsões de crescimento para 2015,
já está contratada uma redução real do salário mínimo. Em 2013, pela primeira
vez em dez anos, a miséria aumentou no país (link aqui), outro feito do governo
Dilma. O aumento da renda do trabalho também foi revertido no governo Dilma e
hoje existem sinais de queda na renda do trabalho (link aqui).
A única variável relevante que não piorou no governo Dilma
foi o desemprego, até agora, é bem verdade que se comparamos dezembro de 2010
com março de 2015 (último dado antes de Dilma tomar posse e último dado
divulgado) o desemprego subiu de 5,3% para 6,2%, mas não seria uma comparação
justa, a comparação mais adequada seria mês com mês ou ano com ano. Em março de
2010 o desemprego foi de 7,6% e em março de 2015 foi de 6,2%, da mesma forma em
2010 a taxa de desemprego foi de 6,7% e em 2014 foi de 4,8%. Porém se
observamos a tendência temos motivos para acreditar que o quadro tende a
piorar. Em 2011 o desemprego de março foi 6,5%, caiu para 6,2% em 2012, 5,7% em
2013 e 5,0% em 2014, por este ângulo o desemprego de 6,2% em março de 2015 é
preocupante. As seguidas quedas na criação de empregos formais (link aqui) reforçam
a preocupação.
Enfim, no governo Dilma o crescimento diminuiu, na realidade
desapareceu, a inflação aumentou, a renda trabalho dá sinais de queda, o
salário mínimo subiu menos e pode ter redução real, a miséria parou de cair e
mesmo a redução do desemprego, única variável favorável ao governo, está
ameaçada. Com tudo isso acontecendo um sociólogo italiano vem aqui e afirma que
a reação ao governo Dilma é uma vendeta neoliberal. O que motiva o sociólogo?
Ativismo político? Desconhecimento da realidade brasileira? Arrogância típica
de certos círculos intelectuais europeus que acreditam que ficar descontente
com governos é um privilégio que não está disponível para latino americanos?
Seja o que for a declaração é absurda e não deveria ter ficado sem resposta.
Infelizmente não vi nenhuma resposta as declarações de De
Masi, portais governistas divulgaram a entrevista (link aqui), mas portais e
blogueiros de oposição preferiram ignorar. É uma pena, refutar afirmações como
a de Domenico De Mais é fundamental para não perder o debate que definirá qual
será a versão do que ocorreu no governo Dilma que passará para história: um
governo que nos conduziu a um desastre econômico ou um governo vítima das
elites. Conta a lenda que certa vez um recifense entrou em um bar em Fortaleza
e falou alto para que todos ouvissem que ali não tinha nenhum macho. Então um
cearense levantou e disse: então tu vai voltar para tua terra dizendo que
apanhou de um baitola. Em tempos politicamente corretos imagino que a lenda não
seja mais contada, mas a mensagem fica. Teria sido bom se o sociólogo italiano tivesse
voltado para casa com algumas mordidas de vira-lata.

