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sábado, 26 de novembro de 2016

PIB per capita na ilha do tirano ou 1959, o ano que não começou

Avaliar números de países controlados por tiranos não é tarefa simples. Os dados oficias costumam ser inúteis pois são manipulados pelos lacaios dos tiranos, os dados de organismos internacionais também são suspeitos pois a convivência diplomática faz com que tais organismos sejam coniventes com as verdades oficiais. Porém, para registrar a morte do maior tirano da América Latina, resolvi correr o risco e comentar o desempenho do PIB per capita de Cuba desde a tomada de poder por Fidel e seus guerrilheiros.

Como é bem conhecido na virada do ano de 1958 para 1959 o Movimento 26 de Julho, liderado por Fidel Castro, tirou do poder o ditador Fulgencio Batista que, como tantos outros ditadores destas bandas, primeiro foi eleito e depois resolveu tomar o poder à força. A resistência durou pouco, nas primeiras horas de 1959 Batista fugiu para República Dominicana, no dia oito de janeiro os guerrilheiros já controlavam Havana. Como era Cuba antes daquele réveillon? O que aconteceu depois.

Vou tentar responder o que aconteceu com o PIB per capita disponível na base de dados do Projeto Maddison (link aqui), uma base que costuma ser usada por quem estuda história econômica. Selecionei todos os países da América Latina com exceção de Porto Rico e Trinidade e Tobago, o primeiro por ser praticamente um território dos EUA e o segundo por ser muito pequeno e distorcer a amostra. A figura abaixo mostra a taxa de crescimento do PIB per capita de todos os países selecionados usando como base de comparação e média 1954-58 e 2004-08.




Como pode ser visto o crescimento de Cuba foi medíocre quando comparado ao dos outros países da amostra, de fato, apenas Venezuela, Nicarágua e Haiti cresceram menos que Cuba. A lista dos países que cresceram menos que Cuba dispensa explicações. Repare que a figura revela uma ironia do destino: a República Dominicana, país para onde fugiu o ditador cubano, foi o que mais cresceu dentre os países da amostra. Na época da revolução cubana a República Dominicana era mais pobre do que Cuba e também era governada por um ditador, no caso Rafael Trujillo que governou o país de 1930 a 1961.

A figura abaixo mostra o PIB per capita médio entre 1954 e 1958 dos países selecionados. Repare que no período anterior a revolução cubana, mesmo com a ditadura de Fulgencio Batista, Cuba tinha a nona maior renda per capita dentre os vinte países da amostra, inclusive era mais rica que o Brasil e muito mais rica que a República Dominicana.




Passados cinquenta anos, se olharmos o PIB per capita médio do período 2004 a 2008 (último ano com dados para Cuba na base de dados utilizada), Cuba tinha caído para a décima quarta posição. Como pode ser visto na figura abaixo Cuba ficou para trás de países como Brasil, Guatemala, Panamá, e, quem diria, da República Dominicana. Será que se Fulgencio Batista tivesse derrotado Fidel os cubanos teriam seguido o caminho da República Dominicana seguiu com Trujillo e hoje estariam em um dos países mais ricos da América Latina? Difícil dizer...




Naturalmente o desastre econômico de Cuba é pelo menos parcialmente explicado pela reação da comunidade internacional e especialmente dos EUA à revolução, mas esta reação é mais uma consequência da própria revolução e do caminho seguido pelos governantes da ilha. Uma das reações que, creio eu, foi importante para selar o destino da economia cubana foi o embargo impostos pelos EUA. Dito isso registro que apontar o embargo como uma das causas do fracasso da economia cubana implica em negar uma das teses mais caras aos revolucionários (e muitos não revolucionários) da América Latina, qual seja: que o comércio internacional é prejudicial para as economias do continente. Mais uma vez cabe lembrar da República Dominicana, longe de ser uma potência industrial, a valer as teses contra o comércio, o país deveria ser um grande perdedor com as “trocas injustas impostas pelos países ricos aos países pobres”, os dados deixam parecer que os “explorados” da República Dominicana se saíram muito melhor que os não explorados de Cuba. O mesmo vale para vários outros países de nuestra América.

Comparações em intervalos de cinquenta anos, como as que fiz acima, são úteis para observar efeitos de longo prazo, mas não contam o que aconteceu no meio do período. Para tratar desta questão comparei o desempenho do PIB per capita de Cuba com a de alguns países selecionados. Começo com os dois imediatamente abaixo de Cuba no ranking de PIB per capita dos anos 1954-58: Panamá e Guatemala. Ambos tiveram melhor sorte que Cuba. O PIB per capita do Panamá, mesmo na crise da década 1980, período terrível para América Latina, ficou consideravelmente acima de Cuba. Na Guatemala a crise da década de 1980 ameaçou tornar o país tão pobre quanto Cuba, mas o país se recuperou e Cuba sofreu com o fim da URSS. Aliás é curioso como a revolução que tornaria Cuba independente dos “imperialistas americanos do norte” tornou Cuba dependente do império soviético. Por falar nisso repare aquele crescimento impressionante no começo do século XXI em Cuba, se eu fosse chato diria que decorreu do Chavismo e, quem diria, do boom das commodities que, mesmo com o embargo, beneficiou Cuba.







As próximas comparações são com os países que estavam imediatamente acima de Cuba no ranking de PIB per capita do período 1954-58: Colômbia e Costa Rica. Tanto a Colômbia quanto a Costa Rica tiveram desempenho visivelmente superior ao de Cuba. No caso da Costa Rica os cinquenta anos fizeram com que os costa-riquenhos tivessem uma renda média que é mais que o dobro da dos cubanos. Já a Colômbia, mesmo tendo de enfrentar os carteis do tráfico, guerrilhas e grupos paramilitares, conseguiu uma renda média cerca de 80% maior que a dos cubanos. Ao que parece uma guerrilha no poder é bem mais danosa para a economia do que uma guerrilha tentando tomar o poder.







Para não dizer que esqueci o Brasil a figura abaixo compara o PIB per capita brasileiro com o de Cuba. Em 1958, último ano antes da revolução cubano, tínhamos uma renda média menor que a de Cuba, hoje nossa renda média é o dobro da dos cubanos. Sim, isso mesmo, mesmo com tipos estranhos como Jânio, um golpe seguido de uma ditadura, Sarney, Collor, FHC e Lula crescemos muito mais que os cubanos com o regime de Fidel. Como a amostra termina em 2008 não tem o efeito de Dilma, ela bem que tentou diminuir nossa diferença para Cuba, sem sucesso.




Agora a cereja do bolo. Lembra da República Dominicana? O país para onde fugiu Fulgencio Batista? O país que foi vítima de Trujjilo? Que como outros da América Latina passou por severas instabilidades na segunda metade do século XX? Que era mais pobre do que Cuba? Do país explorado pelo comércio internacional? A figura abaixo compara o desempenho do PIB per capita na República Dominicana e em Cuba. Melhor não falara nada.




É difícil não classificar a tirania de Castro como um desastre econômico. Se não fosse trágica seria uma coleção de ironias. Da revolução que prometia tornar Cuba independente e acabou tornando a ilha completamente dependente da União Soviética até o embargo que pode explicar parte do fracasso econômico dos guerrilheiros ao custo de sacrificar a base da “teoria econômica” que anima revolucionários que se inspiram em Fidel e sua turma.



segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Brasil e Colômbia: Câmbio, Crescimento, Inflação, Investimento e Tamanho do Governo

Semana passada meu amigo, co-autor e colega de departamento Victor Gomes me mandou olhar a taxa de câmbio da Colômbia e comparar com a do Brasil, na realidade ele fez mais e foi gentil o suficiente para mandar uma figura com as duas taxas de câmbio. Fiquei tão impressionado com o gráfico que compartilhei com os amigos do FB (link aqui), mas como estava fora de Brasília não tive como comparar Brasil e Colômbia a partir de outras variáveis. Hoje, já em casa, resolvi dar uma olhada nos dados do FMI para Brasil e Colômbia e ver quais as semelhanças e diferenças entre os dois países. Desde já registro que os dados do FMI não são os mais atualizados que existem, porém oferecem séries com as mesmas definições e com os dados originais recebendo o mesmo tratamento.

Comecemos com a taxa de câmbio, a figura abaixo foi feita com o Google Finance e mostra a variação da taxa de câmbio entre real e dólar em azul e a taxa de câmbio entre peso colombiano e dólar em laranja. É fato que existe uma pequena diferença no final das séries, mas na maior parte do tempo as séries estão coladas, ou seja, se o real está “derretendo” então o peso colombiano também está. Quem me acompanha no blog ou no FB deve ter reparado que costumo terminar quase todos os meus comentários a respeito do câmbio com a máxima “deixa o câmbio flutuar”. A ideia é deixar claro que mesmo estando irritado com a desvalorização do real, na condição de assalariado que recebe em reais a perda de valor do real é ruim para mim, eu tenho em mente que câmbio é um preço e variações em quaisquer preços não são boas ou ruins. Variações em preços prejudicam uns e beneficiam outros, assim como o aumento do preço da laranja prejudica os consumidores de laranja e beneficia os vendedores de laranja o aumento do preço do dólar beneficia os que possuem renda em dólares e prejudica os que têm gastos em dólares ou atrelados ao dólar. Em resumo, a desvalorização da moeda de um país não necessariamente significa que a economia do país está naufragando, na verdade existem economistas que acreditam que a desvalorização é boa por beneficiar exportadores que de alguma forma repartirão esse benefício com toda a população, o leitor atento deve ter percebido que eu não pertenço a esse grupo de economistas.




O caso da Colômbia pode ser didático a esse respeito, apesar do peso colombiano estar enfrentando um processo de desvalorização semelhante ao do real o FMI prevê que a Colômbia irá crescer 3,39% e terá uma inflação de 3,35% em 2015. Um sonho se comparado a previsão de crescimento de -1,02% e inflação de 7,8% que o FMI faz para o Brasil em 2015. Não é de hoje que a Colômbia cresce mais e tem menos inflação que o Brasil, o primeiro gráfico abaixo mostra que desde 2011 a Colômbia cresce mais do que nós e o segundo gráfico mostra que desde 2009 a inflação na Colômbia é mais baixa do que no Brasil. No “trade-off” entre inflação e crescimento tão citado entre os economistas governistas a Colômbia ficou com mais crescimento e menos inflação que o Brasil. Como isso aconteceu? É difícil responder sem uma análise mais profunda da economia colombiana, o que não é objetivo desse post, porém alguns dados podem ajudar e desenhar uma futura explicação.




Um bom ponto de partida é comparar o investimento. Se considerarmos as projeções do FMI esse ano haverá queda na taxa de investimento tanto no Brasil quanto na Colômbia, se consideramos os dados, até 2014 para o Brasil e até 2013 para a Colômbia, os colombianos não apenas investem uma proporção do PIB maior do a investida pleos brasileiros, o que também acontece nas projeções do FMI, como estão investindo cada vez mais em relação ao Brasil, nas projeções do FMI a queda da taxa de investimento da Colômbia será maior do que no Brasil em 2015. O fato da taxa de investimento no Brasil ter sido mais baixa do que na Colômbia em todo o período que vai de 2005 a 2015 e ter crescido menos do que a da Colômbia nos últimos anos deveria ser motivo de preocupação para o pessoal do BNDES visto que o banco usou algumas centenas de bilhões de reais para estimular o investimento no Brasil. Antes que alguém saia dizendo que a diferença entre o investimento na Colômbia e no Brasil é cultural ou um “efeito do nosso contrato social” registro que no ano 2000 a taxa de investimento no Brasil foi de 19,1% e na Colômbia foi de 14,9%.



Outro ponto que distingue Brasil e Colômbia é o tamanho do gasto e da arrecadação do governo, foquemos no gasto, enquanto nosso governo gasta aproximadamente 40% do PIB o da Colômbia gasta aproximadamente 30%. O governo brasileiro gastar mais do que o governo colombiano em relação ao PIB não é um fenômeno novo, o gráfico abaixo mostra que em todos os anos entre 2005 e 2015 o governo colombiano gastou menos que o brasileiro, se recuássemos até o início do século o resultado não seria diferente. O governo brasileiro também arrecada uma proporção maior do PIB do que o colombiano, não seria sem fundamento afirmar que o governo brasileiro é maior que o governo colombiano. 


Pelo conceito primário o resultado do governo brasileiro foi superior ao colombiano até 2013, em 2014 a Colômbia teve resultado primário positivo e o Brasil teve negativo e para 2015 o FMI ainda mantém a previsão de superávit primário de 1,2% do PIB para o Brasil, o governo brasileiro já abandonou essa promessa e um déficit primário de 0,45% para Colômbia. Espero que os economistas brasileiros que tem fixação com resultado primário não fiquem muito desapontados com o fato que a Colômbia tem conseguido resultados econômicos muitos superiores ao Brasil mesmo com um resultado primário menos entre 2005 e 2013, de 2009 a 2011, a Colômbia, suprema heresia, teve déficit primário. Talvez o exemplo da Colômbia ensine nossos economistas que fixar a análise em só indicador é uma estratégia, para dizer o mínimo, limitada.


 Em resumo podemos dizer que embora as moedas do Brasil e da Colômbia estejam passando por um processo de desvalorização as duas economias estão em situações bem distintas. Enquanto o Brasil só escapou de uma redução do PIB em 2014 por conta de uma mudança na metodologia de cálculo do PIB e terá crescimento negativo em 2015 e talvez em 2016 a Colômbia cresceu 4,6% em 2014 e tem previsão de crescimento de 3,4% em 2015. Ao contrário do pensam alguns de nossos economistas governistas o maior crescimento não veio com maior inflação, pelo contrário, em 2014 a inflação na Colômbia foi de 2,9% contra 6,3% no Brasil e as precisões do FMI indicam que em 2015 os colombianos terão inflação de 3,4% contra 7,8% no Brasil, cabe lembrar que de acordo com o Boletim Focus do Banco Central a inflação do Brasil em 2015 será 9,3%. Além de crescer mais com menos inflação a Colômbia tem investido consistentemente uma parcela do PIB maior que o Brasil tem investido, da mesma forma o governo Colômbia toma para si uma fração do PIB menor do que a tomada pelo governo brasileiro e gasta uma fração do PIB menor do que a gasta pelo governo brasileiro. Com inflação controlada, taxa de investimento em alta e um governo menor não me parece tão estranho que os colombianos consigam conviver com um resultado primário menor do que o brasileiro, ou seja, tivéssemos feito nosso dever de casa não precisaríamos de um primário "tão elevado".