quarta-feira, 6 de janeiro de 2021
sexta-feira, 4 de dezembro de 2020
Eu ainda não falaria em "V", deve ser porque sou chato.
Alguns economistas gostam de usar letras para descrever fenômenos relacionados à dinâmica da economia, o crescimento é um dos alvos favoritos dessa turma. No governo Dilma, lá por 2012, teve a turma do “J”. A teoria era que as políticas de Dilma, a hoje infame Nova Matriz Econômica, levaria a uma queda inicial e depois a um forte aumento na taxa de crescimento da economia. Não foi o que aconteceu, se a taxa caiu e lá ficou com um “L” ou se caiu e depois caiu mais seguindo alguma letra que agora não me vem a memória é coisa que deixo para o leitor especular.
Agora temos a recuperação em “V”. A tese é que a forte queda
do PIB por conta da pandemia terá uma rápida recuperação. Da minha parte
prefiro esperar para ver, mas ao me deparar com um gráfico de recuperação em “V” supostamente elabora pela
Secom resolvi fazer a minha versão da recuperação da economia brasileira. Para
isso usei o índice do PIB na tabela de séries encadeadas de índices de volume
com correção sazonal, uma série que corrige pela variação nos preços e por
fatores sazonais.
A figura abaixo mostra a recuperação do PIB. Usei a escala
sugerida pelo ggplot/R, que também é minha preferida por permitir o foco no
movimento de interesse. Repare que mesmo com o forte crescimento no terceiro
trimestre ainda não voltamos ao nível do primeiro trimestre de deste ano, lembre
que a série passou por ajuste sazonal.
Os dados adequados para avaliar a recuperação do nível de
produção não descartam que o “V”
possa acontecer, tudo vai depender do quarto trimestre, mas também não dá para
dizer que o “V” já
aconteceu. Como disse no post anterior a hora é de ter calma e seguir com as
reformas até porque, mesmo com a recuperação da crise causada pela pandemia,
ainda temos que nos recuperar da grande crise que fez desta uma década perdida
mesmo antes deste novo Coronavírus aparecer.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2020
Contas Nacionais no terceiro trimestre de 2020: calma!
O IBGE divulgou as contas nacionais referentes ao terceiro trimestre de 2020 (link aqui). A recuperação dos efeitos da Covid-19 na economia (pelo menos da primeira onda) aparecem nos números do PIB. Em relação ao trimestre anterior o PIB cresceu 7,7%, o maior número da série que começa em 1996, o valor exagerado do crescimento faz parte do mesmo movimento que levou à queda recorde de 9,6% no trimestre anterior e, de fato, não chega a compensar aquela queda.
Assim como a queda no trimestre anterior, o crescimento do terceiro
trimestre deste ano dificilmente pode ser analisado na perspectiva da dinâmica
de crise e recuperação que costumo usar nos posts sobre contas nacionais. O
máximo que pode ser feito é entender como será a recuperação da crise causada
pela pandemia e tentar especular sobre como esta recuperação pode afetar a
dinâmica da economia brasileira na ótica das contas nacionais.
A figura abaixo mostra o crescimento da economia desde 1996, as
barras mostram o crescimento em relação ao trimestre anterior (com ajuste
sazonal) e a linha mostra o crescimento acumulado em quatro trimestres. No
acumulado houve uma queda 3,4%, o que mostra que, apesar do crescimento de 7,7%
no trimestre, a crise do Covid-19 ainda está longe de ser vista pelo retrovisor.
É fácil observar nas barras como tanto a queda de 9,7% como o crescimento de
7,7% destoam do resto da série.
Como é tradição no blog a análise será feita pelo lado da
produção, a análise da despesa, preferida por vários colegas de profissão, é
interessante para entender como foi a distribuição do PIB. A figura
abaixo mostra o crescimento dos grandes setores da economia. No acumulado de
quatro trimestres a agropecuária, que no terceiro trimestre de 2020 respondeu
por 6,5% do valor agregado e 5,6% do PIB, cresceu 1,8%; o setor de serviços, 71,8% do valor agregado e 61,7% do
PIB, teve uma queda de 3,5%; finalmente, a indústria, que responde por 21,8% do
valor agregado e 18,7% do PIB, teve uma queda de 3,5%. Na comparação com o
trimestre anterior a agropecuária teve queda de 0,5%, a indústria teve crescimento
de 14,8% e nos serviços o crescimento foi 6,3%. Vale notar que a indústria teve
a maior queda no segundo trimestre, 13%, e o maior crescimento no terceiro
trimestre 14,8%.
No acumulado de quatro trimestres a construção teve
queda de 5,8%. Na indústria de transformação a queda foi de 5,4%. Ao contrário
de outros períodos onde a queda na indústria de transformação podia ser vista
como parte da arrumação de casa após a sequência de investimentos
questionáveis, para dizer o mínimo, da primeira metade da década., esta queda
reflete o impacto brutal da pandemia no setor A indústria extrativa teve
crescimento de 4,3%. Na comparação com o trimestre anterior a construção cresceu
5,6%, a indústria extrativa cresceu 2,5% e a indústria de transformação cresceu
23,7%. Vale registrar que no terceiro trimestre de 2020 a indústria extrativa
correspondeu a 13% da indústria total, a construção por 15,4% e a de
transformação por 58%. O crescimento extraordinário da indústria de transformação
só pode ser compreendido se levarmos em conta a queda de 19,1% no período
anterior, grosso modo esse setor da indústria parou boa parte da produção no
segundo trimestre, por conta das medidas para contenção da pandemia, e retomou
a atividade no terceiro trimestre. Considerando o índice encadeado também divulgado
pelo IBGE, a produção da indústria de transformação foi menor do que no
terceiro trimestre de 2019.
Nos serviços o maior crescimento ficou por conta do setor de atividades
financeiras, de seguros e serviços relacionados que cresceu 4% no acumulado de
quatro trimestres. Também foi registrado crescimento de 0,5% no setor de informação
e comunicação e de 2% nas atividades imobiliárias. Administração, defesa, saúde
e educação públicas e seguridade social teve queda de 3,7%., a maior queda foi
de 8% no setor de transportes A figura abaixo mostra o crescimento no setor de
serviços. Na comparação com o trimestre anterior todos os subsetores dos serviços
cresceram, o maior crescimento foi no comércio, 16%, seguido por transportes,
12,5%. Mais uma vez o crescimento faz parte do mesmo movimento que causou a
queda no trimestre anterior.
Por fim, passemos a análise pelo
lado da demanda, ou seja, como foi distribuída a produção do país. O
investimento, a parte do produto destinada a criar mais produto no futuro, teve
queda de 4% no acumulado em quatro trimestres. Em tempos normais isso seria
preocupante, pois sugeriria redução da capacidade de produção nos próximos
períodos e pouca confiança no futuro da economia, em tempos de pandemia o
resultado pode ser visto como um adiamento do investimento para o pós-pandemia.
Na comparação com o trimestre anterior o investimento cresceu 11%, isso reforça
a ideia que a pandemia levou a um adiamento do investimento.
O consumo das famílias caiu 4,1% e
o consumo do governo caiu 3,7%, ou seja, no acumulado de quatro trimestres a
fatia do bolo que vai para as famílias caiu pouco mais do que a fatia que vai
para o governo. As exportações caíram 1,9% e as importações caíram 9%. Na
comparação com o trimestre anterior o investimento cresceu 11%, após queda de
16,5% no segundo trimestre, o consumo das famílias cresceu 7,6%, após queda de 11,3%,
o consumo do governo cresceu 3,5%, após queda de 7,7%, as exportações caíram 2,1%
e as importações tiveram queda de 9,6%.
Os números das contas nacionais mostram que a pandemia do
coronavírus interrompeu o processo de lenta recuperação que vínhamos seguindo
desde 2017, mas sugerem uma rápida recuperação em relação a queda causada pela
própria pandemia. Para ter crescimento de longo prazo o governo precisaria
investir nas reformas, algo que é cada vez mais claro que não vai acontecer. Continua
valendo que se o governo partir para políticas de estímulos turbinadas por
planos como o Pró-Brasil, Casa Verde e Amarela e uso de estatais podemos até
ter bons números para o PIB em 2021, mas começaremos outra caminha em direção
ao abismo. O descaso com o lado fiscal, ilustrado pelo não andamento do
orçamento de 2021, pode cobrar um preço alto ainda no governo Bolsonaro. A disparada
dos preços no atacado, levando junto o IGP-M, mostra que, além da recuperação
do PIB, o governo deve se preocupar em evitar que a inflação chegue nos preços aos
consumidores.
segunda-feira, 16 de novembro de 2020
Distribuição dos votos dos eleitores das capitais pelos diversos partidos
No post apresento e comento os dados referentes aos resultados das eleições para prefeitos das capitais dos estados brasileiros. Das vinte e cinco capitais que foram às urnas, Macapá ficou de fora por conta dos problemas com energia elétrica, sete já definiram seus prefeitos. Alexandre Kalil (PSD) foi eleito em Belo Horizonte com 63,36% dos votos válidos, Marquinhos Trad (PSD) foi eleito com 52,58% dos votos válidos de Campo Grande, Rafael Greca (DEM) teve 59,74% dos votos em Curitiba, Gean Loureiro (DEM) teve 53,46% dos votos em Florianópolis, Álvaro Dias (PSDB) ganhou com 56,58% dos votos em Natal, Bruno Reis (DEM) teve 64,20% dos votos de Salvador, em Palmas, que não tem segundo turno por ter menos de duzentos mil habitantes, Cinthia Ribeiro (PSDB) ganhou com 36,24% dos votos válidos. Nas demais capitais só conheceremos os prefeitos após o segundo turno. Considerando os prefeitos já eleitos nas capitais o DEM está na dianteira com três prefeitos, seguindo pelo PSD e PSDM com dois prefeitos cada.
Goiânia e Curitiba tiveram dezesseis candidatos cada e foram
as capitais com maior número de candidatos à prefeitura. A capital com menos
candidatos a prefeito foi Rio Branco com sete candidatos. Das cinco capitais
mais populosas a que teve mais candidatos foi Belo Horizonte, 15, seguida pelo
Rio de Janeiro, 14, São Paulo, 13, Fortaleza, 11, e Salvador, 9. A figura
abaixo mostra o número de candidatos a prefeito em cada capital.
O PSOL foi o partido com mais candidatos a prefeitos nas
capitais, 22, depois aparece o PT com 20 e o PSTU com 16 candidatos. O MDB
aparece em quarto com 14 candidatos e o PCO em quinto com 13 candidatos. A curiosa
presença do PCO e do PSTU na lista dos cinco partidos com mais candidatos talvez
mereça alguma atenção. Minha primeira impressão é que a listo mostra uma
estratégia da extrema esquerda de usas estruturas partidárias para divulgar ideias,
em uma leitura positiva, ou abocanhar mais verbas do governo, em uma leitura que
não é positiva, mas talvez seja mais realista.
O quadro muda completamente quando consideramos os votos dos
partidos nas capitais. O partido que mais recebeu votos, foram considerados
todos os candidatos listados pelo TSE, foi o DEM, com pouco menos de 2,69
milhões de votos. Na sequência aparecem PSDB, cerca de 2,45 milhões de votos,
PT, 1,73 milhões de votos, PSOL, 1,70 milhões, e REPUBLICANOS, 1,48 milhões. O PCO,
apesar de ser o quinto partido em número de candidatos, teve pouco mais de três
mil votos nas capitais ficando à frente apenas do PMN, que teve dois
candidatos, e do PDB, que teve apenas um candidato. O PSTU ficou um pouco
melhor que o PCO, os dezesseis candidatos do partido tiveram somados 16,4 mil
votos, pouco mais da metade dos votos dos dois candidatos do PTB.
A capital onde o DEM teve mais votos foi o Rio de Janeiro
onde Eduardo Paes teve cerca de 975 mil votos, um número de votos maior que os
de Bruno Reis que levou Salvador com 64,2% dos votos (cerca de 780 mil votos).
O maior número de votos do PSDB foi em São Paulo com Bruno Covas (1,75
milhões), a capital paulista também deu o maior número de votos para o PSOL, Guilherme
Boulos com cerca de 1,08 milhões, e para o PT, Jilmar Tatto com 462 mil votos.
O REPUBLICANOS, assim com o DEM, teve sua maior votação no Rio de Janeiro com
Marcelo Crivella (577mil).
Os votos nas capitais reforçam a ideia de que o PSOL está em
condições de desafiar a hegemonia do PT na extrema esquerda (se não gostou do
termo pode substituir por esquerda bolivariana, esquerda democrática e popular
ou qualquer nome que diferencie o PT e suas antigas linhas auxiliares de uma esquerda
no estilo dos tucanos ou do PSB). A dificuldade do PT com os eleitores das
capitais também aparece nos apenas dois candidatos do partido que disputam
segundo turno, Marilia Arraes em Recife e João Coser em Vitória, com chances
reais do PT ficar fora das prefeituras em todas as capitais do país.
Não sei o quanto esses resultados podem influenciar nas
eleições de 2022. Os protagonistas da corrida presidencial em 2018 ficaram
apagados nas capitais, se os problemas de Bolsonaro não aparecem nas figuras do
post é porque o Presidente sequer tem um partido. Por outro lado, creio que é razoável
concluir que o resultado das eleições mostram que os eleitores das capitais perderam
o encanto com o projeto de poder do PT, que quase fez de Lula um Perón
brasileiro, e de Bolsonaro, que nunca me pareceu capaz de ir muito além do que
chegou em 2018. Isso é bom!
domingo, 8 de novembro de 2020
Alguns números da economia dos Estados Unidos no governo Trump
As eleições nos Estados Unidos chamaram atenção para várias questões relacionadas ao país. Basta uma olhada nos jornais ou nas redes sociais para esbarrarmos em notícias sobre geopolítica, economia, política, racismo e outras questões relacionadas aos direitos civis no país que ainda se apresenta como Terra da Liberdade, embora já tenha sido bem mais livre, ou bem menos, a depender do ângulo que se olha e do conceito de liberdade usado pelo observador.
Para ajudar nas discussões, apresento nesse post alguns
números relacionados à economia americana. Os dados são todos do FMI e estão
disponíveis na versão de outubro de 2020 da base de dados do World Economic
Outlook (link aqui), não inclui 2020 por conta da pandemia e porque trabalho
com dados anuais e o ano ainda não acabou. Em cada uma das figuras a linha
mostra os dados desde 2001, para dar uma ideia de tendência, e as barras
mostram os dados no governo Trump.
Comecemos a história pelo lado fiscal. Durante o governo
Obama os Republicanos fizeram muitas críticas por conta da política fiscal, as
acusações giravam em torno da ideia que Obama, e Democratas em geral, gastava
demais. De fato, no começo do governo Obama o déficit primário como proporção
do PIB nos Estados Unidos deu um grande salto, uma tendência que vinha do
governo Bush e está muito relacionada à Crise de 2008. Porém, depois do pico de
11,3% do PIB em 2009, o déficit primário como proporção do PIB apresentou uma
trajetória de queda. No último ano do governo Obama o déficit primário foi de
2,4% do PIB, número que cresceu até chegar a 4,1% em 2019. Para 2020 a previsão
do FMI é que o déficit primário dos Estados Unidos será de 16,7% do PIB, mas aí
há de se considerar o efeito da pandemia.
O comportamento do déficit acaba refletido na dívida
pública. Após o salto significativo na sequência da Crise de 2008, de 64,7% do
PIB em 2007 para 103,3% do PIB em 2012, a dívida pública se estabiliza como proporção
do PIB no segundo mandato do Presidente Obama com um aumento em 2016. Durante o
governo Trump a dívida cresce mais que o PIB em todos os anos e chegou a 2019 na
faixo de 109% do PIB. Em 2020 a previsão é de que a dívida chegará a 131% do
PIB, mais uma vez a pandemia tem um efeito central no aumento. Em termos gerais
parece justo dizer que a situação fiscal dos Estados Unidos piorou no governo
Trump mesmo antes da pandemia.
Um dos grandes trunfos frequentemente citados pelos que
simpatizam com o Presidente Trump é o aumento do crescimento e a queda do
desemprego. A figura abaixo mostra o crescimento dos Estados Unidos. É fato que
nos dois primeiros anos do governo a taxa de crescimento do PIB americano
aumentou, mas houve perda de folego em 2019. A maior taxa de crescimento no
governo Trump foi 3% em 2018, número próximo aos 3,1% de 2015 ainda no governo
Obama. Para 2020 a expectativa é de queda de 4,3% no PIB americano.
O desemprego no governo Trump segue a tendência de queda iniciada
a partir de 2010 chegando a um mínimo de 3,7% em 2019. Olhando os dados fiscais
e desemprego fica a impressão de que havia um estímulo fiscal em uma economia com
baixo desemprego, uma estratégia que, como bem sabemos por aqui, pode ser
desastrosa no médio/longo prazo. Para 2020, por conta da pandemia, a previsão é
que desemprego fique em 8,9%.
A última variável que vou falar é a inflação. Em 2008, ano
da crise financeira, a inflação nos EUA caiu para 0,7%, nos primeiros anos do
governo Obama a inflação sobe até chegar a 3,1% em 2011. A partir daí,
concomitante a estabilização da dívida como proporção do PIB e na sequência da
queda no déficit primário, a inflação volta a cair chegando a 0,5% em 2014. Em
2016, último ano do governo Obama, a inflação foi de 2,2%, número que se
repetiu no primeiro ano do governo Trump. Em 2018 a inflação caiu para 1,9% e
no ano seguinte subiu para 2,1%, onde, segundo as previsões do FMI, deve ficar
em 2020.
O balanço do governo Trump, desconsiderando 2020, mostra uma
piora no quadro fiscal sem um aparente impacto significativo no crescimento que,
em média, foi de 2,5% nos três primeiros anos do Presidente Trump contra 2,4%
nos três anos anteriores e 2,5% nos três primeiros anos do segundo mandato do
Presidente Obama. O desemprego seguiu a tendência de queda. Onde a combinação
de estímulos fiscais e desempregos baixo levaria não temos como saber, a pandemia
mudou as trajetórias dessas variáveis, mas a experiência sugere que não seria a
um lugar bom. A inflação ficou controlada no governo Trump.
O que vai acontecer nos próximos anos? Só o tempo dirá.
Republicanos quando estão na oposição costumam impor resistência a políticas
que aumentem o déficit do governo, isso pode ajudar a reverter o aumento do
déficit e a estabilizar a dívida como proporção do PIB. Por outro lado, a
pandemia impôs gastos e poderá continuar impondo a depender do que vai
acontecer nos próximos meses ou anos. Arrisco dizer que só com uma vacina as coisas
começarão a voltar ao normal, mas não arrisco dizer quando a vacina vai
aparecer nem muito menos quando (e como) as pessoas serão vacinadas. A pandemia
também deve ditar o ritmo de crescimento, é razoável esperar que as economias
do mundo cresçam e criem empregos nos períodos seguintes à superação da
pandemia.
A inflação vai depender da parte fiscal. Os Estados Unidos testaram
o limite de endividamento na crise de 2008, deu certo, mas isso não quer que dizer
que não existe limite. Meu médico diz que eu tenho de emagrecer. Ele não sabe
dizer o peso máximo que posso ter sem algum problema sério, também não sabe
dizer o que vai acontecer se eu chegar nos 160kg e muito menos quanto tempo
posso ficar acima dos 150kg impunemente. Ele apenas me diz que em algum momento
meu peso vai cobrar um preço da minha saúde, eu, que apesar de já sentir alguns
sinais dessa cobrança não faço os ajustes necessários para perder peso,
acredito nele.
segunda-feira, 2 de novembro de 2020
Álbum de retratos da economia de alguns países da América Latina
O post apresenta uma espécie de coleção de fotografias de alguns países da América Latina olhando por vários ângulos, a ideia é dar um painel do estado geral de países da região. Colocar todos os países tornaria difícil reconhecer cada um na foto, dessa forma escolhi um grupo de onze países que costumam aparecer em várias comparações do tipo que aparecem na internet ou em artigos de jornais e revistas, são eles: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, México, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela.
Como é o caso em qualquer fotografia de família existem
diferenças importantes entre os que aparecem nas imagens que não são captadas
nas fotos, por exemplo, os menos de 3,5 milhões de habitantes espalhados em um
território 176,2 mil quilômetros quadrados fazem do Uruguai um país bem
diferente do Brasil com nossos mais de 200 milhões de habitantes em um
território de cerca de 8,5 milhões de quilômetros quadrados. Ainda assim ambos aparecem
nas figuras abaixo, afinal ambos fazem parte de nuestra América.
As dimensões consideradas são: PIB per capita, expectativa
de vida, gastos com saúde, gastos com educação, distribuição de renda, acesso à
internet, dependência de recursos naturais e participação da manufatura do PIB.
Para cada variável foi usada a média de 2015 a 2019, em caso de faltar algum
dado para um ou mais anos foi usada a média sem considerar o ano em questão,
quando não estavam disponíveis dados para nenhum dos anos o país ficou de fora
da figura (ou da foto). Os dados são do Banco Mundial.
Como de costume o ponto de partida é o PIB per capita. Por
mais críticas que possam ser feitas a essa medida é fato que países com alto
PIB per capita tendem a ter um melhor desempenho nas variáveis que o crítico
aponta como ausentes no cálculo do PIB. Riqueza não compra felicidade nem
saúda, mas ajuda um bocado. Para facilitar as comparações foi usado o PIB
ajustado por paridade de poder de compra. O país mais rico da turma é o Chile
seguido de perto pela Argentina, Brasil e Colômbia estão quase empatados no
meio e a Bolívia está isolada na lanterninha. Alguns podem se assustar com a posição
da Argentina, mas é isso mesmo, como eu já disse em outros lugares o drama da
América do Sul no pós-guerra não é o Brasil virar Argentina, o drama é a
Argentina estar virando Brasil.
A próxima variável é a expectativa de vida, ter dinheiro é
bom, mas fica ainda melhor quando é possível aproveitar a vida por mais tempo.
Nesse critério o Chile é novamente o líder, porém agora seguido por Uruguai e
Colômbia. A Bolívia mais uma vez teve o pior desempenho, a Venezuela, que não
pareceu na figura anterior, está colada na Bolívia. O Brasil está na parte de
baixo da amostra. Usando o critério de PIB per capita e expectativa de vida
para avaliar bem-estar o Chile é o líder da turma. Vale o registro que na
Argentina, mesmo com o PIB per capita muito próximo do Chile, a expectativa de
vida é a quinta maior entre os países selecionados.
Expectativa de vida nos leva a pensar em saúde. O país da
amostra com o maior gasto em saúde como proporção do PIB é o Brasil que é
seguido de perto pelo Uruguai. O Chile, com a maior expectativa de vida,
aparece me terceiro lugar. O pior desempenho é observado na Venezuela.
O gasto com saúde pode dar uma ideia distorcida do acesso
dos mais pobres ao sistema de saúde, isso é verdade porque a medida da figura
anterior considera todos os tipos de gastos com saúde. A próxima figura mostra
o gasto do governo com saúde, Uruguai e Argentina lideram nesse quesito. O Chile
fica bem no meio da turma e o Brasil, que liderava na figura anterior, abre a turma
onde o governo gasta menos de 4% do PIB com saúde. Aqui um ponto interessante,
no gasto total Brasil e Uruguai estão praticamente empatados, porém, no gasto
do governo com saúde, o Uruguai lidera e o Brasil foi para parte de baixo da
figura. Difícil falar qual é o melhor modelo apenas com esses dados, mas os números
sugerem que o financiamento do sistema de saúde do Uruguai é mais fincado no
setor público enquanto no Brasil prevalece o setor privado.
Para avaliar os gastos dos governos com educação serão considerados
os gastos por estudantes nos níveis de educação primário, secundário e
terciário. Na educação primário o maior gasto por estudante ocorre no Chile que
é seguido à distância pela Argentina e pelo Brasil. O país da amostra com menor
gasto foi o Equador, note que Bolívia e Venezuela ficaram de fora por falta de
dados.
No ensino secundário a liderança passa a ser da Argentina
com o Chile ocupando o posto de segundo maior gasto por estudante. O Brasil
caiu para a quarta posição e o Equador é novamente o país com menor gasto por
aluno.
No ensino terciário, onde estão as universidades, o maior
gasto do governo por aluno é no México. O Equador, que tinha o menor gasto nos
níveis primário e secundário, tem o segundo maior gasto no nível terciário. O Brasil
ficou com o quarto maior gasto, mesma posição que no secundário e uma posição
abaixo do primário. O Chile, que liderou no primário e ficou em segundo lugar
no secundário, aparece em quinto lugar no terciário, esses números sugerem que
o sistema público de educação do Chile prioriza os níveis mais básicos de educação.
O Peru é o país com menor gasto do governo por aluno no ensino terciário.
A desigualdade será medida pelo índice de Gini, a proporção
da renda que vai para os 10% mais ricos e a proporção da renda que pertence aos
10% mais pobres. O maior índice de Gini é observado no Brasil que é seguido pela
Colômbia. O Uruguai é o país da amostra onde a distribuição de renda é menos
concentrada.
No Brasil os 10% mais ricos respondem por 41,9% da renda do
país, é a maior proporção dentre os países da amostra. No Uruguai os 10% mais
ricos ficam com 29,7% da renda e na Argentina ficam com 30%.
Aqui aparece um fato curioso, apesar de ficar pelo meio no
índice de Gini e na renda destinada aos 10% mais ricos o Chile é o país da amostra
onde os 10% mais pobres ficam com a maior fatia da renda. Brasil é o país onde
os 10% mais pobres ficam com a menor parte da renda. Por qualquer dos critérios
utilizados o Brasil é o país com a maior concentração de renda.
Em tempos de redes sociais e vidas virtuais achei válido
olhar para o acesso à internet. O maior acesso ocorre no Chile, 80% da população,
e o menor na Bolívia. O Brasil fecha a parte de cima da distribuição com acesso
por menor que a Venezuela e maior que no México.
Por fim considerei duas varáveis relacionadas à estrutura de
produção dos países: proporção da renda do país originada em recursos naturais
e participação da manufatura no PIB. O Chile é o país da amostra com maior
dependência de recursos naturais, talvez esse fato deva ser considerado por
quem tenta explicar o desastre econômico em alguns países do continente com
base na queda dos preços das commodities. A menor dependência ocorre na
Argentina. No Brasil apenas 3,2% da renda tem origem em recursos naturais.
O Paraguai é o país da amostra onde a manufatura responde
pela maior parte do PIB, se essa variável for usada como medida de industrialização
então é justo dizer que o Paraguai é o país mais industrializado da turma. Em
segundo lugar aparece o México, aquele que fez um acordo de livre comércio com
os EUA. O Brasil, apesar (ou por causa?) dos subsídios, dos planos estratégicos
para indústria, do protecionismo, etc, é o país onde a manufatura reponde pela
menor proporção do PIB.
Como prometido o post apresentou retratos da países da América
Latina tirados por diversos ângulos. É certo que outros autores, ou esse autor
em outros dias, poderiam ter colocado outros países e escolhido outras
variáveis, mas creio que os retratos desse post dão uma ideia relevante de como
estão alguns dos principais países da região. Apesar dos inevitáveis
comentários no decorrer do texto, deixo para o leitor decidir quais países apresentam
o melhor desempenho geral.
sábado, 17 de outubro de 2020
Qual a relação entre a aprovação de Bolsonaro nas capitais e a votação que recebeu em 2018?
O G1 divulgou resultados de pesquisas a respeito da aprovação do presidente Bolsonaro em todas as capitais de estados com exceção de São Luís do Maranhão (link aqui). Fiquei curioso em saber qual a relação dessa aprovação com o desempenho de Bolsonaro nas eleições de 2018. A ideia é saber se a aprovação é maior ou menor do que a votação que Bolsonaro recebeu, ou seja, quero saber se o percentual da população que aprova o governo é maior ou menor que o percentual da população que votou no Presidente da República.
Para fazer o exercício considerei a votação no primeiro turno
por considerar que é uma medida mais adequada da proporção de eleitores que queriam
Bolsonaro no Planalto. A natureza do segundo turno faz que o candidato receba
votos de quem não aprova, mas acredita que é uma opção melhor do que a única alternativa.
Considerei duas medidas de aprovação: na primeira considerei apenas quem
avaliou o governo como ótimo ou bom, na segunda acrescentei quem avaliou o
governo como regular. Os dados foram obtidos no G1 (link aqui e aqui) relativos
a pesquisas do Ibope e a apuração das eleições de 2018.
A figura abaixo mostra a aprovação (ótimo/bom) e a votação
no primeiro turno de 2018, também estão na figura uma reta de 45º em azul
escuro (pontos nessa reta significam que a provação é igual à votação em 2018,
abaixo da reta significa aprovação menor do que votação e acima da reta significa
aprovação maior do que votação) e uma reta de regressão em azul claro (pontos
na reta significam que a aprovação é igual a prevista considerando apenas a
votação em 2018, acima significa aprovação maior do que a prevista e abaixo significa
aprovação menor do que a prevista). Repare que Aracaju é a única capital onde a
aprovação de Bolsonaro não é menor que foi a votação. Também é relevante notar
que em todas as capitas do Sudeste a aprovação é menor do que a sugerida pela
votação em 2018.
A figura abaixo mostra a diferença entre a aprovação de
Bolsonaro, medida pelas avaliações com ótimo ou bom, e a votação em 2018. Como
era de se esperar a diferença é negativa em todas as capitais com exceção de
Aracaju, a maior queda ocorre no Rio de Janeiro (24,3%) seguida pelas quedas em
Curitiba (22,1%) e Rio Branco (21,4%).
Como não podia deixar de ser, a situação melhora para o
governo quando é considerada medida de aprovação que inclui os que avaliam
Bolsonaro como regular. A figura abaixo reproduz a primeira figura do post usando
essa nova medida de aprovação, a interpretação das retas é a mesma. Note que apenas
em Florianópolis a aprovação é menor do que a votação, em todas as capitais do
Sudeste a aprovação ficou acima da votação em 2018, porém abaixo da aprovação
esperada considerando apenas a votação em 2018.
As maiores diferenças entre aprovação e votos em 2018 foram
observadas em Teresina (25,4%), Macapá (21,5%) e Aracaju 19,1%). Entre as cinco
capitais com maiores diferenças entre aprovação e votação quatro são de estados
do Nordeste, as dez maiores diferenças estão todas em capitais do Norte ou do
Nordeste.
As figuras acima me parecem interessantes, por isso resolvi
compartilhar com os leitores do blog, mas não oferecem uma conclusão clara a
respeito do desempenho de Bolsonaro em 2018 e atual. A depender da medida a
aprovação do presidente pode ter caído ao aumentando em relação a votação no
primeiro turno de 2018. Um resultado que parece comum nas duas medidas é que a boa
vontade com Bolsonaro cresceu mais, ou caiu menos, no Norte e no Nordeste.
Não recomendo o uso dos exercícios desse post para especular
sobre o que vai acontecer em 2022. Estamos em um momento de muita tensão e
incerteza, uma combinação que deixa o futuro ainda mais imprevisível do que
costuma ser. Como vai ficar o novo Bolsa Família? Como vai ficar a economia, especialmente
desemprego e inflação? Quais os efeitos da incorporação do Centrão ao governo
na percepção de corrupção envolvendo Bolsonaro? Vamos te ruma segunda onda da pandemia
como está acontecendo em partes da Europa? As respostas a essas perguntas estão
no futuro e, creio eu, são mais decisivas para 2022 do que a aprovação atual de
Bolsonaro.































