quinta-feira, 7 de agosto de 2014

20 Anos do Plano Real na Universidade Estadual de Maringá

Segunda-feira tive a oportunidade de conversar com a comunidade do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Maringá a respeito dos 20 anos do Plano Real (link aqui). Na palestra fiz uma avaliação do plano e tratei das perspectivas para economia brasileira. Argumentei que o Plano Real organizou a economia brasileira após o caos deixado por trinta anos de desenvolvimentismo e uma série de choques heterodoxos visando combater a inflação. Porém para atender o aumento de gastos decorrente, entre outros motivos da Constituição de 1988, e manter o câmbio dentro das bandas o Plano Real caiu em uma armadilha, qual seja: a elevação da dívida pública de forma simultânea a elevação da taxa de juros. A armadilha consiste no fato que quanto maior a taxa de juros mais a dívida cresce, porém quanto mais a dívida cresce maior o prêmio de risco e maior a taxa de juros.

No limite a armadilha se mostrou fatal e o Plano Real original foi substituído pelo Tripé Macroeconômico. Ao adotar câmbio flexível e fixar objetivos de superávites primários o Tripé Macroeconômico escapou da armadilha do Plano Real, os juros não mais precisavam subir para defender uma dada taxa de câmbio e a dívida, apesar de continuar crescendo, foi parcialmente controlada pelo superávite primário. O controle da inflação era feito por meio do Regime de Metas que completava o tripé. A partir de 2008 a perna fiscal foi quase que retirada do tripé, no lugar de buscar garantir superávites primários a política fiscal passou a  buscar o estímulo da economia. A partir de 2011, já no governo Dilma, o câmbio flutuante foi trocado pela busca câmbio de equilíbrio da indústria (seja lá o que for isto) e os juros não mais visavam colocar a inflação no centro da meta, o objetivo da política monetária passou a ser estimular a economia e reduzir juros para induzir o investimento. Estava criada a Nova Matriz Macroeconômica.

A busca pelo câmbio de equilíbrio deu errado e o governo acabou por recuar. Não faltou quem bem quisesse ao Brasil e dissesse para desistir que a busca era inútil, mas o governo preferiu apostar para ver. Perdeu. A tentativa de reduzir juros na marra também deu errado, deixou um gráfico com um sorriso jocoso que já foi razão para um post no blog (link aqui). Até agora a Nova Matriz Econômica, criada para aumentar o investimento, recuperar a indústria e estimular o crescimento, gerou uma queda no investimento, uma queda da participação da indústria no PIB e um governo com taxas de crescimento entre as mais baixas registradas nos últimos anos. De quebra a nova matriz ainda aumentou a inflação. Desta forma as perspectivas são de desastre no caso de manutenção da Nova Matriz Econômica e a necessidade de um forte ajuste no caso de retomada o Tripé Macroeconômico. Triste sina para um governo que se anunciou como o governo do PIBão.

Agradeço aos que participaram do evento, o auditório estava lotado até o final do evento, e ao Departamento de Economia da UEM. Em especial agradeço ao Prof. Gilberto Fraga por ter me convidado e pelo excelente jantar após o evento.




sábado, 2 de agosto de 2014

Economia sem Restrições ou A Perigosa Megalomania do BNDES

A definição mais comum e na minha opinião mais apropriada de economia é a que define economia como a ciência que procura a melhor forma de distribuir e usar (no jargão da área diz-se alocar) recursos escassos para atender desejos ilimitados. Em um mundo de abundância onde todos os desejos pudessem ser atendidos não haveria razão para existir economia nem muito menos economistas, eu e meus colegas estaríamos desempregados, mas não seria um problema pois nesse mundo de abundância ninguém precisaria trabalhar. O fato de que não é possível atender ao desejo de todos faz com que para atender um desejo de alguém seja preciso não atender outro desejo da mesma pessoa ou de outra pessoa, a implicação disso é que economia pode ser vista com uma ciência que estuda escolhas.

No decorrer dos anos economistas se dividiram a respeito da melhor forma de escolher. Correndo o risco de simplificar demais o problema podemos dizer que existem duas visões extremas. Uma diz que o melhor a fazer é deixar que cada pessoa faça suas escolhas a partir de suas possibilidades, é a solução de mercado. Eu acredito que saiba dar aulas de economia, então eu procuro alguém que queira ter aulas de economias e esteja disposto a dar algum em troca. Este algo que recebo em troca multiplicado pela quantidade de aulas que dou define minha renda e minha possibilidade de compra. De posse dessa renda eu escolho o que comprar, minha escolha pode incluir cerveja, livros, educação para meus filhos, poupança ou qualquer coisa que eu decida usar minha renda para obter. Naturalmente, como minha renda não é infinita vou ter de abrir mão de alguma coisa para conseguir outras, fazemos isto todos os dias. No final o que gasto é limitado apenas pela minha renda ou, dito de outra forma, pelo meu orçamento. Desta forma dizemos que a escolha deve obedecer a restrição orçamentária.Os defensores do livre mercado acreditam que esta é a melhor forma de organizar a atividade econômica, ou seja, de alocar recursos para atender desejos. 

No outro extremo estão o que acreditam no planejamento social. Estes argumentos que o mercado é caótico e pode levar a crises e injustiças. A solução seria então a sociedade decidir quem faz o quê e o que cada um vai consumir. No lugar de eu escolher que quero ser professor a partir da minha crença que sei dar aulas de economia a comunidade faria uma avaliação de minhas capacidades e das necessidades sociais e então decidiria o que eu deveria fazer. Da mesma forma a partir de uma análise científica de minhas necessidades a sociedade escolheria o que eu deveria consumir. No lugar de várias pessoas tomando decisões individuais teríamos pessoas altamente capacitadas tomando decisões coletivas. No mundo totalmente planejado não existiria mercado nem preços nem muito menos restrições orçamentárias. Porém ainda assim existiriam escolhas. Por mais planejada que seja uma economia é impossível que todos os cariocas morem na Vieira Souto, há de ter alguma regra para decidir quem vai morar na Vieira Souto e quem vai morar no Irajá. Em uma economia de mercado seria o preço, em uma economia planificada um critério técnico. Mas seja lá qual for o critério técnico usado para determinar quem vai morar na Vieira Souto será preciso respeitar a capacidade física da rua. Por isto em uma economia planificada dizemos que existem restrições físicas ou de forma mais apropriada restrições de recursos.

Entre os dois extremos, mercado livre e planificação total, existe um grande número de alternativas que mesclam elementos de um ou de outro. Cada uma destas alternativas considera a restrição orçamentária, a restrição de recursos (na realidade a restrição orçamentária obedece a restrição de recursos, mas mostrar isto requer algum conhecimento técnico e está fora do objetivo do post), ou alguma combinação das duas restrições. O que não existe é economia sem restrições, ou melhor, se você tem fé então a economia sem restrições é uma exclusividade divina. O Reino dos Céus é o reino da abundância.

Toda esta introdução foi para comentar a afirmação uma nota do BNDES divulgada no portal Congresso em Foco (link aqui). Segundo o portal o BNDES afirma que não precisa fazer escolhas. Segue o parágrafo a que me refiro:

"Em nota ao site, a assessoria do BNDES diz que “não cabe falar em ‘melhor distribuição de recursos’” dos empréstimos porque a instituição atua de acordo com a demanda das empresas. “Companhias com grau mais elevado de internacionalização tendem a demandar mais financiamentos do BNDES”, informou o banco em nota. “Ao mesmo tempo, apoiar essas companhias não retira recursos de outras empresas.”"
Fosse uma pessoa ou uma empresa dizendo isto poderia passar com uma frase mal pensada ou no máximo uma marketing mal feito. Mas um banco público? O BNDES não sabe que o dinheiro que o Tesouro Federal aporta para que ele faça seus empréstimos sem se preocupar se a distribuição de recursos é a melhor possível é retirado compulsoriamente de pessoas que teriam vários usos para este dinheiro? Mesmo que não lembre das pessoas o BNDES não sabe que o o Tesouro poderia dar outro uso a esses recursos? O dinheiro poderia ir para segurança (lembram dos quase sessenta mil mortos por ano?), para saúde (lembram das filas do SUS?), para educação (lembram do último lugar em matemática no PISA?) ou para várias outras ações do governo.

Você está exagerando por conta de um comunicado infeliz, alguém pode dizer. Não estou, até poderia ser o caso se o comunicado fosse um fato isolado, não é. O comunicado é consistente com as ações do BNDES, um banco que acredita que o Brasil não tem recursos para financiar o investimento e ao mesmo tempo acredita que tem recursos sobrando para isto, esquecendo no meio do caminho que também é parte do Brasil. Talvez seja isto, talvez o BNDES não se ache parte do Brasil ou mesmo do mundo, talvez acredite ser alguma divindade capaz de abençoar seus entes queridos com um reino de abundância na terra. Pobre de um povo cujo os governantes acreditam que são divinos.



quinta-feira, 31 de julho de 2014

Documento da CNI: Adeus ao Desenvolvimentismo, Salve a Agenda Reformista!

Ainda não consegui ler os 42 volumes apresentados pela CNI (link aqui) com as propostas da indústria para as eleições de 2014, mas pelo sumário executivo e pela descrição das propostas já é possível fazer alguns comentários a respeito das linhas gerais das propostas da indústria. Devo confessar que fui surpreendido de forma positiva pelo documento. É claro que não poderia faltar alguma referência ao câmbio e ao custo do trabalho, mas no contexto do documento a referência ficou marginal, quase que apenas para constar. Para que o leitor tenha uma ideia a palavra câmbio aparece apenas cinco vezes nas 266 páginas do sumário executivo. No lugar de propor uma desvalorização da taxa de câmbio a indústria brasileira propõe uma mudança na política fiscal que leve a uma taxa de câmbio mais competitiva. Ao descrever o que a indústria espera poder afirmar em 2018 o documento diz:

“A política fiscal evoluiu de forma a aumentar a taxa de investimento no PIB, trazer a taxa de juros a níveis mais próximos do internacional e concorrer para uma taxa de câmbio mais estável e competitiva.” (pg. 15).

Não é exatamente o que eu e outros economistas com o tal viés liberal temos dito? Preço não se determina, quando muito o governo pode mudar incentivos que levem a algum efeito no preço. Mesmo essa última opção apresenta riscos de não acontecer o que o governo pretende, por exemplo, um ajuste fiscal permite reduzir juros e pode levar a uma desvalorização do Real. O ajuste fiscal também pode reduzir a demanda por importações via redução da renda. Mas também é possível que depois do ajuste a economia brasileira fique mais atrativa e passe a receber mais capital mesmo a uma taxa de juros menor. O que vai acontecer só o tempo dirá, mas o inegável é que ao não insistir na intervenção direta no câmbio como panaceia para resolver os problemas da indústria o documento da CNI mostra um gigantesco amadurecimento do setor industrial brasileiro. Espero que esse amadurecimento chegue ao governo.

Outra ausência que deve ser registrada é o apelo ao protecionismo. Não se vê no sumário executivo um discurso de que é preciso proteger a indústria nacional do malvado competidor externo. Pelo contrário, a documento fala em multilateralismo e em proteção da competição. Assim como no caso do câmbio ao não colocar a proteção como salvação da indústria o documento mostra que a CNI avançou mais no sentido de entender os mecanismos de incentivo que operam na economia do que boa parte dos desenvolvimentistas dentro e fora do governo.

Na realidade é possível afirmar que o texto da CNI oficializa o abandono do desenvolvimentismo por parte da CNI. O documento é claramente reformista, as preocupações com incentivos são marcantes no texto. Os grandes tópicos do documento deixam isto bem claro, são eles: tributação, relações do trabalho, ambiente macroeconômico (aqui vale a pena destacar que o tópico se divide em política fiscal e previdência, não tem um para política monetária e/ou cambial), educação, infraestrutura, segurança jurídica e burocracia, eficiência do estado, desenvolvimento de mercados, inovação e produtividade e, por fim, financiamento. Diga o leitor se esta lista parece mais com o discurso desenvolvimentista de controle de preços, especialmente câmbio e juros, ou com o mantra reformista que tantas vezes eu coloquei aqui no blog: ambiente de negócios, educação e infraestrutura. O único item que destoa da agenda que eu defendo é o de financiamento, como sabem os que acompanham o blog e/ou meus comentários no FB eu não considero que falta de capital para financiar o investimento seja um problema no Brasil, mas ao olhar como se divide o tópico de financiamento é possível perceber que menos que um apelo ao desenvolvimentismo o tópico é um apelo às reformas, os itens do tópico são: financiamento à inovação e mercado de títulos privados. O primeiro merece melhor análise antes de qualquer comentário, o segundo é muito bem vindo, principalmente se o mercado de títulos privados reduzir o ativismo de BNDES. A figura abaixo (retirada da página 18 do sumário executivo) ilustra o abandono do discurso desenvolvimentista e a adoção do discurso reformista.





Não posso e não pretendo esconder minha satisfação com o novo tom da indústria nacional, no futuro pretendo ler todos os 42 volumes e quando for possível e interessante comentá-los aqui. Até lá vou aderir ao refrão da moda e mandar um beijinho no ombro para os desenvolvimentistas de plantão.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Comentários a Respeito do Programa Econômico do PT: Entendedores Entenderão.

Já comentei o programa econômico de Aécio Neves no blog (link aqui), na oportunidade apontei vários pontos que eu considerei ruins para a economia brasileira. Hoje farei o mesmo para o Programa Econômico do PT. Segue abaixo.
Ingredientes:
  • 4 ovos
  • 4 colheres de sopa de chocolate em pó
  • 2 colheres de sopa de manteiga
  • 3 xícaras de farinha de trigo
  • 2 xícaras de açúcar
  • 2 colheres de chá de fermento
  • 1 xícara de leite
Preparo
  • Bata todos os ingredientes por cinco minutos (menos o fermento)
  • Adicione o fermento e bata com uma espátula delicadamente
  • Coloque em uma forma untada e asse por 40 minutos
A receita completa com direito a calda pode ser encontrada aqui.
P.S. Para que no futuro o post não venha a perder o sentido recomendo a leitura do texto de 29/07/2014 no blog do Merval Pereira (link aqui).


sábado, 26 de julho de 2014

Conversa com os Lobos

Na quinta-feira, 24/07, tive a oportunidade de participar de um evento organizado pelos Lobos da Capital em parceria com o Instituto Liberal do Centro-Oeste (ILCO). Tratei da Agenda de Reformas iniciada na década de 1990, são as reformas inspiradas no hoje infame Consenso de Washington. Na conversa tentei explicar a necessidade de reformas a partir do fracasso da experiência desenvolvimentista em gerar crescimento sustentado e inclusivo e da herança de descalabro econômico deixada por essa experiência. Depois apresentei os dez tópicos do Consenso de Washington e argumentei alguns pontos:


  • O Consenso de Washington não foi uma Agenda Liberal, embora as prescrições do Consenso quando aplicadas à maioria dos países da América Latina implicasse em maior liberalização da economia, ou seja, o Consenso era mais liberal do que o status quo herdado do desenvolvimentismo, mas não propunha nada perto de uma utopia liberal.
  • Durante e o período das reformas e no período imediatamente posterior a América Latina estancou a crise da década de 1980 e inciou um processo de crescimento lento, porém inclusivo, aproveitei para lembrar que um crescimento lento e inclusivo sustentado por várias décadas é melhor do que uma série de Milagres Econômicos seguidos de estagnações e/ou depressões.
  • A agenda de contra-reformas, inciada no segundo mandato de Lula e implementada explicitamente no governo Dilma, está gerando resultados piores que os da época das reformas.
Agradeço o convite e espero que o encontro tenha sido proveitoso, eu tirei muito proveito. Aproveito para deixar o link para o artigo do Cole e do Ohanian no WSJ a que me referi (link aqui) e para disponibilizar a apresentação (link aqui).



quarta-feira, 23 de julho de 2014

Visita à Embaixada da Palestina

Ontem fui surpreendido por um convite do Prof. Carlos Alberto Torres com um convite para visitar a Embaixada da Palestina em Brasília e prestar solidariedade às vitimas dos ataques à Faixa de Gaza. Minha primeira reação foi declinar o convite, mas pelo respeito que tenho pelo colega de faculdade e antigo decano de orçamento da UnB decidi refletir melhor sobre o convite e acabei aceitando fazer a visita com um grupo de professores da UnB. Gostaria de compartilhar com os amigos algumas reflexões que me levaram a aceitar o convite, decisão da qual não me arrependi.

A negativa inicial tinha um motivo claro. Temia que a visita acabasse tomando ares de um ato de repúdio a Israel e eu não queria participar de nenhum ato deste tipo. Entendo que o caso entre Israel e Palestina é complexo o suficiente para que eu mantenha comigo minhas opiniões sobre o tema, no máximo me permito compartilhar tais opiniões com amigos. Participar de um ato público de repúdio exige uma convicção que eu não tenho. Porém ao refletir sobre o tema me vi forçado a separar o sentimento de solidariedade às famílias que estão sendo destruídas no conflito de qualquer opinião ou juízo de valor que eu possa ter a respeito dos envolvidos.

A verdade é que minha única experiência de morar fora do Brasil foi morar nos EUA. Ambos os países, assim como praticamente toda a América, não são exatamente um estado de uma nação. Descendentes de várias etnias e culturas convivem no Brasil e nos EUA sem se preocupar se o estado é de uma cultura ou de outra. Falamos a mesma língua e estamos sujeitos às mesmas leis não importando quem foram nossos antepassados. Mesmo as diferenças na cor da pele que por muito tempo excluíram os negros da cidadania plena não desempenham mais este nefasto papel, pelo menos não na letra da lei. O simples fato de Obama ser presidente dos EUA comprova esta realidade. Sendo assim a impossibilidade de um estado único que abrigue palestinos e israelitas quando muito me é compreensível por meio de conhecimento acumulados em leituras e aulas, mas é algo muito distante de minha experiência.

Como eu poderia negar um convite para mostrar solidariedade a um representante de uma área que vem sofrendo com mortes e destruição? Como colocar uma opinião a respeito de uma sociedade acima da dor de indivíduos? Não sou eu um adepto da tese de que apenas indivíduos realmente existem e importam? Não são indivíduos que estão sofrendo e morrendo?  São questões difíceis. Estou acostumado a pensar sobre economia, me deparar com tais reflexões não foi uma tarefa fácil. Não foi sem dúvidas que resolvi ir, mas fui.

Como esperado o embaixador da Palestina mostrou a versão dele dos fatos, nada de errado nisto. Mas mesmo assim colocou duas questões importantes: (i) o desejo de que todos que cometeram crimes de guerra sejam julgados e punidos, não importa o lado e (ii) reconheceu o direito a existência do Estado de Israel e ainda fez referência ao Holocausto. O embaixador me pareceu um homem equilibrado e ciente de seu papel. Quanto à possibilidade da visita se tornar um ato de repúdio a Israel eu creio ter exagerado em meus temores. É claro que alguns professores tomaram a posição de críticos das ações de Israel na Faixa de Gaza e é óbvio que o embaixador também acusou Israel de agressão, lembrem que um embaixador está lá para representar interesses de seu governo. Mas não fui convidado a assinar nenhuma nota conjunta, nem mesmo uma declaração oficial denunciando Israel foi feita. Os professores que falaram, eu inclusive, fizeram em seu próprio nome. Minha fala se concentrou em dizer que eu estava ali para demonstrar meus sentimentos e oferecer minha solidariedade às pessoas e famílias que estão sofrendo.

Enfim, não me arrependi de ter ido ao encontro e creio que estaria arrependido se não tivesse ido. Agradeço ao Prof. Carlos Alberto Torres pelo convite e pela oportunidade de refletir sobre o assunto. Em tempo, se alguém estiver se perguntando se eu aceitaria um convite para prestar solidariedade ao embaixador de Israel eu respondo que sim.




terça-feira, 22 de julho de 2014

Comentários a Respeito das Diretrizes Econômicas do Programa de Aécio Neves

O PSDB disponibilizou as diretrizes gerais do plano de governo de Aécio Neves (link aqui). As propostas estão divididas nos seguintes tópicos: Saúde, Segurança Pública, Economia, Sustentabilidade, estado Eficiente, Relações Exteriores e Defesa Nacional e Cidadania. Nesse post vou comentar a seção dedicada à economia. As diretrizes para economia estão dividias nos seguintes tópicos: Ciência, Tecnologia e Inovação, Comércio Exterior, Desburocratização – Simplificação, Desenvolvimento Regional, Empreendedorismo, Emprego e Renda, Infraestrutura e Logística, Política Agrícola, Política Industrial, Política Macroeconômica, Previdência Social, Reforma Tributária e Turismo. Cada um dos tópicos apresentam várias diretrizes que não listarei para evitar transformar o post em um catálogo telefônico, os interessado podem ver todas as diretrizes aqui.

Antes de partir para os tópicos o texto faz um preambulo onde descreve as linhas gerais das propostas para economia. Como é um texto curto vou colocá-lo integralmente:

“O desenvolvimento econômico será feito com recorte regional e com propostas para as regiões mais fragilizadas economicamente do Brasil. Além da melhoria do sistema tributário e do equilíbrio das contas da previdência social, com adoção do cadastro único para combate às fraudes, Aécio mantém o compromisso de combater a inflação e propõe medidas de incentivo à geração de empregos.
As questões econômicas têm um peso fundamental no desenvolvimento do país. Neste setor são considerados vários temas, todos a título de diretrizes, para serem detalhados e desenvolvidos no decorrer dos amplos debates que vão preceder a elaboração do Plano de Governo.
O desenvolvimento econômico terá, necessariamente, um corte regional, com propostas de desenvolvimento para as regiões mais fragilizadas economicamente do Brasil, que receberão tratamento especial, por meio de programas e projetos de fomento econômico.
Da mesma forma será dada forte prioridade ao apoio a micro e pequenas empresas, reconhecendo o seu papel gerador de riquezas e empregos no país.”

A primeira frase do texto dá o tom do enfoque regional. Sabendo que Samuel Pessôa é um dos economistas que conversam com Aécio Neves não posso negar certa frustração tanto com o lugar de destaque do tema quanto a abordagem de resolvê-lo por meio de programas e projetos de fomento econômico. Um dos textos que mais gosto de Samuel Pessôa chama-se “Existe um Problema de Desigualdade Regional no Brasil?” (link aqui). A tese do texto é que o problema de desigualdade pessoal de renda é muito maior do que o de desigualdade regional, mais ainda, Samuel Pessôa argumenta que atacando o problema de distribuição pessoal de renda o governo também reduzirá as desigualdades regionais. Nas palavras dele:

“Concluindo, a constatação de que para a economia brasileira o diferencial regional de renda entre trabalhadores com as mesmas características é muito baixo em comparação ao diferencial regional de produto per capita, aponta na direção que todo o esforço de desenvolvimento regional tem que ser focado no homem (bens meritórios, como saúde e educação) e em infra-estrutura (bens públicos). Não há motivo teórico e/ou empírico que sustente políticas de subsídio ao capital privado.”

Sendo eu um nordestino que pesou no Norte e caiu no Sul,grande cidade, eu levei muito a sério esse texto do Samuel Pessôa, é uma pena que a equipe de Aécio Neves não tenha feito o mesmo. Para além da questão regional o preambulo não apresenta na de novo e parece uma colcha de retalhos de propostas desenhadas para não desagradar ninguém. Sigamos para os tópicos.

Ciência, Tecnologia e Inovação.

Como já comentei no FB acredito que o tópico parte de um diagnóstico errado dos problemas que afligem a pesquisa no Brasil. É claro que mais apoio e mais dinheiro sempre são bem-vindos, mas não é aí que está o gargalo. Os que quiserem saber o que impede a universidade brasileira de fazer pesquisas que possam se transformar em inovação e em progresso técnico-científico podem começar olhando para esta resolução aprovada no Conselho Superior da UnB (link aqui). Não se trata de uma peculiaridade da UnB, é uma norma semelhante a de várias Universidades Federais e que é consistente com a legislação para carreira docente de nível superior, especificamente no que tange a dedicação exclusiva.

O próprio conceito de dedicação exclusiva já dá a pista do problema. Como esperar que um professor que dedica seu tempo exclusivamente à universidade possa se interessar por pesquisar temas voltados para indústria ou para o setor agropecuário? O treinamento que recebemos em nosso período de formação nos propicia conhecimentos que podem ser aplicados na solução dos problemas enfrentados pela sociedade brasileira, mas não nos permite conhecer quais são estes problemas. Para conhecer e se interessar por pesquisar a solução de problemas é preciso vivenciá-los em algum grau, isto é muito difícil para um professor que atua exclusivamente na universidade. O resultado é que pesquisadores reclamam que empresas ou outras organizações não compreendem suas pesquisas e as empresas reclamam que pesquisadores vivem em outro planeta. Estão todos certos! Para resolver o problema é preciso aproximá-los, tarefa muito difícil quando a lei limita o trabalho de conjunto.

As diretrizes do PSDB reconhecem que existe o problema, basta ver a seguinte passagem:

“Pouca pesquisa, porém, se faz direcionada para o desenvolvimento industrial, da agropecuária e do setor de serviços. Em patentes, a participação do Brasil continua muito reduzida, sem prioridades. Reforçar a mola do desenvolvimento significa elevar a capacidade de inovação tecnológica do país.”

Ao abordar a questão propondo criar mais órgãos, mais comissões e mais programas a equipe de Aécio aposta em receitas antigas que já deram o que tinha de dar. A CAPES e o CNPq dão conta do trabalho de apoio a pesquisa, talvez alguns ajustes sejam necessários, o que precisamos é de eliminar restrições legais.

Comércio Exterior

Ao apostar na integração comercial como forma de aumentar a competitividade da economia brasileira o PSDB mostra que acertou no diagnóstico e está no rumo correto. A proposta também acerta ao tratar das cadeias produtivas globais. As referências ao aperfeiçoamento e racionalização do sistema de proteção da economia brasileira me deixam um pouco incomodado, gostaria de saber mais detalhes, em particular gostaria de saber se um governo tucano escolheria setores estratégicos ou algo do tipo. A questão da China também não me pareceu satisfatória, se é verdade que a competição da China compromete setores da indústria também é verdade que os produtos chineses propiciam às pessoas mais pobres o acesso de bens de consumo que se fossem depender da indústria local essas pessoas não teriam acesso. É preciso deixar claro como o PSDB pretende tratar o assunto. Porém, de modo geral, gostei das proposta para comércio exterior.

Desburocratização – Simplificação

Os que me acompanham sabem que este é um tema que me é muito caro. Considero que o excesso de burocracia e complexidades nos trâmites legais é um dos maiores problemas da economia brasileira. É bom saber que o PSDB deu destaque à questão, mas as propostas estão muito vagas. Falar que vai reduzir a burocracia e simplificar procedimentos é fácil, todo mundo gosta de ouvir. É importante dizer como isto será feito. Agências serão extintas ou terão seu poder reduzido? Quais? Como ficarão as licenças ambientais? A regulação não existe por acaso, reduzi-la implica em ferir interesses e, portanto, causa reações. Isto tem que estar claro, do contrário a questão nunca sairá do discurso.
Gostei muito do tópico abaixo:

“5. A cultura brasileira de desconfiar e controlar precisa ser transformada em uma cultura que privilegie a confiança e o respeito ao direito do outro. Cabe a cada pessoa - física, jurídica, setor público e organizações - uma parcela dessa responsabilidade. O processo de mudança envolverá a mobilização e o convencimento através de um diálogo permanente, lembrando sempre o foco nas pessoas.”

A cultura do controle atrapalha o investimento e empreendedorismo tanto no setor público quanto no setor privado, uma sociedade onde todos são culpados até provar sua inocência não vai a lugar algum. Porém não podemos esquecer que boa parte desta cultura foi construída no governo do PSDB, seria interessante saber onde os tucanos acham que erraram no passado e o que pretendem fazer para corrigir os erros.

Desenvolvimento Regional

Comentei a questão regional na abertura do post. Apenas reforço minha decepção com o discurso da década de 1950 que ignora a contribuição de Samuel Pessôa ao tema.

Empreendedorismo

A primeira frase me incomodou. Estimular o empreendedorismo não é função do governo, quando muito o governo deve se contentar em não atrapalhar. Nas diretrizes o documento melhora o tom e trata de simplificação. Mas repete o erro do tópico de Desburocratização e Simplificação ao ficar em termos muito genéricos. Para deixar claro meu ponto coloco um problema específico. A vigilância sanitária exige uma série de facilidades em estabelecimentos comerciais, facilidades que costumam não existir em órgãos públicos, tais facilidades podem inviabilizar uma start-up. É difícil pensar em dois jovens que tiveram uma ideia de software e resolveram comercializar no quarto de fundos da casa de um deles conseguirem construir banheiros masculinos e femininos. Tais restrições serão retiradas? O PSDB pretende enfrentar os que consideram que a exigência dos dois banheiros é uma conquista que deve ser preservada? E se a lei de zoneamento proibir a empresa no quarto dos fundos?

Emprego e Renda

Nada de muito interessante, mais parece uma coleção de propostas que poderiam estar no programa de qualquer candidato. Eu me preocupo com o conceito que os ganhos reais do salário mínimo são passíveis de garantias por parte do governo. Se a equipe de Aécio acredita nisto então minha compreensão de como funciona a economia é muito diferente da compreensão deles. Também me parece estranho prometer ganhos reais de salário mínimo quando economistas que trabalham com Aécio apontam que os salários no Brasil estão altos. Não bastasse isso ainda tem o reconhecimento quase universal que haverá uma recessão em 2015.

Infraestrutura e Logística

Nenhuma referência à cultura do controle neste tópico? Pena. O grande problema da infraestrutura no Brasil não é a falta de dinheiro e nem mesmo falta de racionalidade no planejamento, embora esta última possa existir. O grande problema é a cultura do controle. Sem mudar isto criar programas, falar de PPPs e coisas do tipo serão pouco mais que palavras ao vento.

Política Agrícola

Mais uma vez o programa prefere o conforto dos lugares comuns do que partir para o embate de ideias. Como fica o Código Florestal? Como fica a lei do trabalho escravo? Tomar o crescimento da demanda por commodities como dado também pode ser uma aposta arriscada, e se não acontecer? Temos um plano B?

Política Industrial

Qualquer tópico de política industrial que não se resuma a dizer que tal política não será feita vira um jogo dos sete erros. Aponto dois e deixo aos leitores a tarefa de apontar outros: (i) o item cinco propõe que o governo defina setores estratégicos, inclusive é dito que o governo e os representantes de setores industriais decidirão “quais produtos manufaturados o país deve exportar”; (ii) o item onze propõe a manutenção de incentivos para indústria, temporários e avaliados, é claro... alguém já disse que nada é tão permanente como uma política temporária.

Política Macroeconômica

Discutir política macroeconômica com os economistas do PSDB é como jogar xadrez com um grande mestre, não caio nestas. Apenas digo que fico feliz em ver anunciada a volta do tripé.

Previdência Social

O tópico parte do diagnóstico correto, qual seja, o problema da previdência é uma questão demográfica. Porém as diretrizes seguem a estratégia de tópicos anteriores e se escondem do debate. É claro que crescimento e redução da informalidade ajudam, assim como o combate a fraudes é sempre bem-vindo, mas nada disso enfrenta a questão demográfica. Para tratar da questão demográfica é preciso encontrar formas de fazer com que as pessoas trabalhem por mais tempo, o fim da aposentadoria por tempo de contribuição é um caminho, pena que a equipe do Aécio não pense assim... ou não queira dizer que pensa...

Reforma Tributária

Meu primeiro estágio foi em 1991 no Instituto Euvaldo Lodina Federação das Indústrias do Estado de Ceará (IEL/FIEC), lá eu fui assistente em uma pesquisa sobre reforma tributária. Desde aquele tempo acompanhei vários debates a respeito da reforma tributária e ate organizei um livro sobre o tema (link aqui). Existe um quase consenso entre técnicos sobre os problemas de nossa estrutura tributária e sobre os caminhos para resolver tais problemas, porém todas as tentativas de reformas esbarram na questão federativa. É de impressionar que as diretrizes de Aécio Neves, que já foi governador de estado, ignorem a questão federativa.

Turismo

Sem comentários. Pensando melhor tenho um comentário: o Caribe tem praias tão belas quanto as nossas, porém lá tem cassinos, não se morre tanto quanto no Brasil e eles não pedem visto, em alguns países nem mesmo passaporte, de americanos, além de tudo isso é mais barato.


Assim termino os comentários. No geral é um bom programa, mas que peca por evitar o debate de ideias e se esconder em lugares comuns. Conheço alguns dos economistas que trabalham com Aécio e sei que eles têm boas ideias que não estão nas diretrizes. Pena, enquanto programas de governo forem escritos de acordo com orientações de marqueteiros que olham pesquisa de opinião não vamos ter um debate de ideias. No fim ficam todos dizendo as mesmas coisas e o candidato eleito passa a ser acusado de corrupto ou de não ter feito o que prometeu.