Esta semana a BBC Brasil repercutiu uma reportagem da The
Economist a respeito de Portugal, a chamada da BBC Brasil dizia: “Portugal está
superando crise econômica sem recorrer a fórmulas de austeridade, diz Economist”
(link aqui). Não consegui ler a reportagem da The Economist, logo não posso
falar a respeito do que escreveu a prestigiada revista inglesa que, não obstante
o prestígio, fez aquela capa com o Cristo Redentor decolando. Porém acompanhei
o ajuste em Portugal o suficiente para ficar intrigado com a matéria. Neste
post vou apresentar alguns dados ao leitor na tentativa de mostrar o que
aconteceu e está acontecendo em Portugal e o que podemos tirar de lição da
experiência da terrinha.
Como de costume os dados usados são do FMI e estão
disponíveis na internet (link aqui). A figura abaixo mostra a evolução do PIB per
capita português. Repare que a trajetória de crescimento para quando da Crise
de 2008, depois da crise ocorre uma queda no PIB per capita e, em 2014, a
trajetória de crescimento é retomada. Curioso é que segundo a reportagem da BBC
Brasil: “Portugal chegou a ensaiar um forte pacote de austeridade entre 2011 e
2014.”, ou seja, segundo a reportagem da BBC Brasil o crescimento retornou
durante o período da política de austeridade. De fato, a política de
austeridade foi revertida com a chegada de António Costa, do Partido
Socialista, ao poder, isto aconteceu em 2015. A valer a leitura da reportagem da
BBC Brasil, as datas em que ocorreram os eventos descritos e os dados de PIB
per capita o candidato socialista pegou a economia já crescendo.
Deixemos para lá a reportagem e olhemos mais para os dados.
A figura abaixo mostra o gasto público em Portugal. Em 2010, ano anterior ao
início do ajuste, o governo português gastou € 93,24 bilhões, em 2012 o
gasto chegou a € 81,72 bilhões, uma queda de mais de 10%. Em 2016, último
ano da série que estou usando, o gasto foi de € 85,92 bilhões, ainda menor que antes
da crise. Não sei para os jornalistas que fizeram a reportagem e para parte da
turma que andou comentando, mas para mim uma queda de mais de 10% do gasto em
dois anos e mais de cinco anos depois o gasto continuar abaixo do que estava
pode ser visto como uma política de austeridade.
A figura abaixo mostra o gasto como proporção do PIB. Repare que
de 2011 a 2012 o gasto caiu mais do que o PIB, indo de 51,8% do PIB em 2010
para 48,5% do PIB em 2012 mesmo com a economia em recessão. Na sequencia o
gasto volta a subir em relação ao PIB e, depois da volta do crescimento, o
gasto retoma a trajetória de queda em relação ao PIB. Vale notar que mesmo em
2014 o gasto como percentual do PIB ficou abaixo do observado em 2010.
Temos o que aprender com Portugal? Antes de responder
olhemos para os dados e comparemos o dito ajuste fiscal duríssimo que aconteceu
no Brasil com o que vimos de Portugal. A figura abaixo mostra os gastos do
governo brasileiro em reais entre 2002 e 2016, como estou preocupado com
trajetória e não com níveis preferi manter os dados nas moedas locais para não me
preocupar com efeitos de ajustes por câmbio ou paridade de compra. A figura
abaixo mostra o gasto público no Brasil. Repare que, ao contrário de Portugal,
aqui não tivemos queda de gasto, nem perto.
Por conta das diferenças entre a dinâmica do Euro e do Real alguém
pode reclamar da comparação de gastos em moeda local, olhemos então para a
comparação do gasto como proporção do PIB. Repare que desde 2014, quando o
governo brasileiro reconheceu que era necessário fazer um ajuste fiscal, o
gasto como proporção do PIB está sempre subindo. O máximo que conseguimos fazer
foi diminuir a velocidade de crescimento, é isso que estamos chamando de ajuste
fiscal duríssimo.
A comparação me parece deixar claro houve um ajuste fiscal
em Portugal, que o crescimento de Portugal voltou durante o período do ajuste
fiscal e que mesmo com a política expansionista de António Costa o governo português
está gastando menos do que gastava antes do ajuste tanto em euros como em
proporção do PIB. Deste lado do Atlântico não foi possível identificar nada
parecido com o ajuste fiscal português. Aparentemente há muito mais do que mar
a nos separar.
Concluo sugerindo que nos inspiremos no exemplo português, pelo
menos na fase de ajuste. E você? O que acha de seguirmos o exemplo da terrinha?
P.S. Agradeço ao Henrique Raineri, do grupo Economia no FB por ter apontado um erro na primeira figura e na análise do PIB per capita, de fato copiei errado o código da série e acabei trabalhando com valores nominais, peço desculpas aos leitores. O erro já foi corrigido, a conclusão principal permanece: o PIB per capita voltou a crescer ainda durante período de austeridade, só que em 2014. Vale registrar que António Costa, do Partido Socialista, tomou posse em novembro de 2015.






