Ontem a Standard & Poor’s (S&P) tirou o grau de
investimento da economia brasileira. Apesar de não ser nenhuma surpresa a
notícia causou impacto no governo e no mercado. Joaquim Levy, Ministro da
Fazenda, em um momento digno de Guido Mantega declarou que a decisão da S&P
foi política e precipitada (link
aqui), considero que a decisão não foi
política e muito menos precipitada. Acredito que se houve alguma influência
política foi no sentido de manter até ontem o grau de investimento do Brasil. Para
perceber o tamanho do problema da economia brasileira vou comparar nossos
indicadores com os indicadores de um grupo de países da América Latina (Argentina, México,
Chile, Colômbia e Peru) e com os dos países que formam o BRICS (Rússia, China,
Índia e África do Sul). A tabela abaixo mostra a avaliação de risco do Brasil e
de cada um dos países dos dois grupos de comparação.
|
País
|
Nota
|
|
Argentina
|
SD
|
|
Brasil
|
BB+
|
|
Chile
|
AA-
|
|
China
|
AA-
|
|
Colômbia
|
BBB
|
|
Índia
|
BBB-
|
|
México
|
BBB+
|
|
Peru
|
BBB+
|
|
Rússia
|
BB+
|
|
África do Sul
|
BBB-
|
Os países com nota igual ou maior que BBB- possuem o grau de
investimento (Chile, China, Colômbia, Índia, México, Peru e África do Sul), a
Argentina é considerada em default seletivo, ou seja, já está dando calote em alguns
credores, Brasil e Rússia são considerados de risco elevado. Vale notar que
África do Sul e Índia estão na fronteira para perder o grau de investimento. Mal
comparando com a Série A do campeonato brasileiro de futebol poderíamos dizer
que Chile e China estão com chances de ir para Libertadores; México, Peru e
Colômbia estão brigando pela Sul-Americana; Índia e África do Sul estão na zona
de rebaixamento. Brasil e Rússia já foram rebaixados e a Argentina não disputa
o campeonato.
Será justa a posição do Brasil? Comecemos pelo principal
indicador de solvência: a dívida do país. A figura abaixo mostra a dívida bruta
como proporção do PIB para os países do grupo da América Latina. Repare que o
Brasil é o país da amostra com a maior dívida bruta em relação ao PIB, repare
também que o país menos endividado, o Chile, é o país com melhor avaliação.
Se listarmos os países do menos endividado para o mais endividado vamos ter:
Chile, Peru, Colômbia, Argentina, México e Brasil; se listarmos do melhor para
o pior avaliado vamos ter: Chile, Peru e México, Colômbia, Brasil e Argentina.
Como a Argentina está renegociando dívida a redução da dívida não foi capaz de
melhorar a avaliação de risco do país, sendo assim podemos ignorar a Argentina
e concluir que o Brasil é o mais endividado e também o pior avaliado. Note que
excluindo a Argentina a ordem dos menos endividados é muito parecida com a dos
melhores avaliados, apenas o México quebra a ordem.

A próxima figura mostra a dívida bruta como proporção do PIB
para os países do BRICS. Na maior parte do período a Índia era o país mais
endividado, apenas nas projeções para 2015 o Brasil ultrapassa a Índia. Nessa
amostra a ordem do endividamento não é tão parecida com a ordem das avaliações,
a única consistência entre as duas ordenações é que o Brasil é novamente o mais
endividado e, junto com a Rússia, o pior avaliado. Vale notar que nas duas
amostras de países apenas o Brasil e a Índia possuem dívida bruta maior que 60%
do PIB, o México tem 51% e todos os outros estão abaixo de 50%. Observando a
dívida bruta creio que é mais justo perguntar a razão da Índia ter grau de
investimento do que do Brasil não ter.

Um outro indicador interessante é o que o FMI chama de resultado estrutural, trata-se de uma tentativa de ajustar o déficit do governo
pelos efeitos do ciclo econômico. As duas figuras abaixo mostram o resultado estrutural para os dez países das duas amostras, primeiro os da América Latina
e depois os do BRICS. No grupo da América Latina o Brasil é o país com o maior
déficit estrutural, creio que a “melhora” de 2015 toma por base a promessa de
superávit primário de 1,2% do PIB que o governo já reconheceu que não vai ser
cumprida. No grupo dos BRICS o Brasil só está pior do que a Índia, mais uma vez
perguntar a razão da Índia manter o grau de investimento é mais intuitivo do
que perguntar a razão do Brasil ter perdido.


Existem pelo menos duas razões para a Índia manter o grau de
investimento. A primeira é que, ao contrário do que acontece no Brasil, os
números da Índia estão melhorando, a dívida bruta está caindo como proporção do
PIB e o déficit apresenta uma leve tendência de redução. O outro motivo é que
enquanto o Brasil está enfrentando uma das piores crises do pós-guerra a Índia
deve tomar o lugar da China como o país grande que mais cresce no mundo. A
figura abaixo mostra as taxas de crescimento de Brasil e Índia desde 2011 (não
coloquei 2010 para não se acusado de excesso de má vontade com o governo
Dilma), o contraste é evidente: enquanto os dados mostram que o Brasil tem
crescimento negativo e as projeções do FMI apontam para crescimento de
2,25% a partir de 2017, na Índia os dados mostram crescimento acima de 5% e as
projeções apontam crescimento acima de 7%. Como o crescimento da economia
facilita o ajuste me parece que uma resposta plausível para Índia manter o grau
de investimento, ainda que na fronteira, é que a S&P também aposta no crescimento
da Índia. Considerando que o Brasil deve encolher esse ano e talvez no próximo,
que nossa dívida bruta como proporção do PIB já ultrapassou a da Índia e que provavelmente
a melhora no déficit estrutural projetada pelo FMI não vai acontecer de forma
que devemos ter um déficit estrutural próximo ao da Índia qual é a razão plausível
para manter o grau de investimento para o Brasil?

Existem dois pontos na análise acima que podem incomodar alguns
leitores. O primeiro é que eu não usei países europeus que estão muito mais
endividados que o Brasil e possuem grau de investimento. O fato é que apesar dos
devaneios dos últimos anos o grupo de comparação do Brasil não são os países
ricos, nosso grupo de comparação são os países emergentes e, levando em conta
os países emergentes, nossa dívida é sim muito alta. O segundo ponto é que eu usei
dívida bruta e não dívida líquida. Meu motivo para usar dívida bruta é que os
números da dívida líquida brasileira não são confiáveis, como hoje é público e
notório o governo brasileiro usou e abusou e artifícios para reduzir a dívida
líquida do Brasil, tais artifícios fizeram com que acompanhar a dívida líquida
brasileira passasse a ser um exercício inútil ou mesmo perigoso.
Uma forma de perceber o quão pouco informativo é analisar a
dívida líquida é comparar os dados do Banco Central de dívida líquida e
pagamento de juros como proporção do PIB (se não me engano o Mansueto argumentou nessa linha ontem no seminário na FACE/UnB). Era de se esperar que a redução na
dívida levasse a uma redução no pagamento de juros, um fenômeno observado em
2007 e até meados de 2008. Porém, como mostra a figura abaixo, a partir de 2009
fica claro que a redução da dívida não é acompanhada por uma redução no
pagamento dos juros. Uma possível explicação para o fenômeno seria um aumento
da taxa de juros, de fato a partir de agosto de 2014 tal explicação pode ser
razoável, porém entre janeiro de 2009 e julho de 2014 a taxa de juros ficou
razoavelmente estável como mostra a figura seguinte. A inconsistência que os
dados de dívida líquida e juros mostra é apenas um dos vários indícios que
foram usados para questionar a dívida líquida brasileira, hoje as técnicas de
manipulação são bem documentadas e reconhecidas pelo próprio governo.


Até agora o Brasil aparece na comparação como um país bem
mais endividado que a grande maioria dos outros países das duas amostras
(apenas a Índia está tão endividada quanto o Brasil, mas deve crescer muito
mais que o Brasil nos próximos anos), com um déficit estrutural maior que o da
maioria dos países da amostra (novamente a Índia é nossa companheira) e um país
com números suspeitos. Se o leitor acredita que tais motivos não são suficientes
para tirar o grau de investimento podemos olhar para as duas variáveis centrais
da política macroeconômica: a taxa de crescimento e a inflação.
Vimos que comparado à Índia o crescimento do Brasil é muito
baixo. Infelizmente nosso crescimento também é baixo se comparado aos outros
países da amostra. De acordo com as projeções do FMI dos dez países apenas a
Rússia vai crescer menos (na realidade encolher mais) do que o Brasil em 2015.
A figura abaixo ilustra esse fato. Sem perspectivas de crescimento fica muito
mais difícil ajustar a economia, a insistência do governo em alegar que tem
dificuldades em cortar gastos e por isso que tirar mais dinheiro das famílias
chega a ser patética diante das privações que as famílias passam em uma crise
como a que está começando. Fica aqui a sugestão para algum jornalista fazer uma
reportagem mostrando o orçamento de uma família da tão festejada nova classe
média e pedir para a presidente ou para o ministro da fazenda mostrar onde
cortar gastos.

A inflação de um país costuma ser um indicador de quão
arrumada está a política econômica, uma inflação alta é sinal que problemas
importantes não receberam o tratamento adequado. No grupo de países que
comentei no post o Brasil tem a terceira maior inflação prevista para 2015,
ficamos atrás apenas de Argentina e Rússia. O corte aqui é cristalino, todos os
países do grupo com inflação prevista abaixo de 5% para 2015 possuem grau de
investimento, a Índia, com inflação prevista de 6%, é o único país que tem grau
de investimento e tem inflação acima de 5%. Na base de dados do FMI a inflação
prevista para o Brasil em 2015 é de 7,8%, no Boletim Focus do Banco Central a
inflação prevista é de 9,3%, por uma previsão ou por outra apenas Argentina
(18,6%) e Rússia (17,9%), dois países se grau de investimento, vão ter inflação
maior que o Brasil em 2015.

Diante dos números de dívida bruta, crescimento e inflação
fica difícil sustentar a tese do ministro Joaquim Levy de que a perda do grau
de investimento foi motivada por razões políticas. A verdade é que nossa dívida
bruta é a maior da amostra, próxima a dívida da Índia, nosso déficit estrutural
é o segundo maior da amostra, nosso crescimento é o segundo menor da amostra
perdendo apenas para Rússia que não tem grau de investimento e nossa inflação é
a terceira maior perdendo apenas para Argentina e Rússia. Por triste que possa
ser o rebaixamento do Brasil foi merecido, Joaquim Levy poderia argumentar com razão
que quando tomou posse o rebaixamento era inevitável, mas ao ter se apresentado
como fiador do grau de investimento o ministro perdeu o argumento da
inevitabilidade. Como último consolo podíamos pensar que o rebaixamento será a oportunidade
de olharmos de frente para os problemas de nossa economia e começar a buscar
soluções. As reações de Lula, do líder do governo na Câmara e mesmo dos
ministros da área econômica infelizmente sugerem que no lugar de arrumar a casa
vamos culpar o juiz. Pena.
