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segunda-feira, 28 de setembro de 2015

O ajuste fiscal que não houve e a crise que já existia ou Fundação Perseu Abramo refuta Conselheiro Acácio

A Fundação Perseu Abramo ligada ao PT lançou um documento com análises a respeito da crise econômica e propostas de políticas que podem ajudar a retomar uma trajetória de desenvolvimento. O documento consiste em dois volumes, o primeiro volume trata da crise e o segundo volume apresenta as bases para um projeto de desenvolvimento, ambos estão disponíveis na página da fundação (link aqui). Naturalmente não tive tempo de ler todos os documentos, à medida que eu conseguir ler pretendo registrar meus comentários aqui no blog, porém já na introdução fica claro que o documento culpa a política econômica do segundo governo Dilma pela recessão que vivemos. O diagnóstico é exposto já no segundo parágrafo da apresentação do primeiro volume onde é dito que:

“O ajuste fiscal em curso está jogando o país numa recessão, promove a deterioração das contas públicas e a redução da capacidade de atuação do Estado em prol do desenvolvimento. Mais grave é a regressão no emprego, salários, no poder aquisitivo das famílias, nas políticas sociais.”

Os que me acompanham sabem que sou crítico da política de ajuste via elevação de impostos proposta pelo governo, não falo isso porque a política de Levy foi incapaz de conter a recessão, pelo contrário, já em janeiro apontei os problemas da política econômica (link aqui) e em fevereiro critiquei a aposta que a recuperação da confiança impediria a recessão (link aqui). Ocorre que entre constatar que o ajuste via aumento de impostos foi incapaz de conter a recessão e afirmar que o mesmo causou a recessão existe uma longa distância. Em primeiro lugar porque a recessão é anterior a posse de Joaquim Levy no Ministério da Fazenda e, portanto, anterior as medidas tomadas por Levy. Depois porque o ajuste não ocorreu de fato, a verdade é que as despesas do governo entre janeiro e julho de 2015, último mês disponível na página do Tesouro, foram maiores que as despesas realizadas no mesmo período de 2014 mesmo após o ajuste pela inflação. Entre janeiro e julho de 2014 o governo gastou R$ 625 bilhões em valores de julho de 2015, entre janeiro de julho de 2015 o gasto foi de R$ 627 bilhões também em valores de julho de 2015. Em resumo, a tese da Fundação Perseu Abramo parece consistir em culpar um corte de gastos que não ocorreu por uma crise que começou antes do corte ser anunciado.

Comecemos pelo começo. A crise que vivemos está no horizonte há vários anos, meu amigo e co-autor Adolfo Sachsida previu até o ano em que a crise ficaria incontrolável, o Leandro Narloch juntou a previsão do Adolfo e de outros economistas em um post chamado “Os economistas que previram a crise” (link aqui). Procurando na internet encontrei uma declaração minha de maio de 2008, antes da crise financeira, alertando para os riscos da mudança de política nos levar a uma crise (link aqui), na época eu falei:

“Nunca é demais lembrar as possíveis conseqüências desse tipo de política: duas décadas de baixo crescimento da economia e um processo inflacionário que culminou na hiperinflação do final dos anos 80 e inícios dos anos 90”

Tudo paranoia de economistas ortodoxos, poderiam dizer os defensores da tese que a crise decorre do ajuste fiscal de Levy. Então olhemos os dados, a figura abaixo mostra a variação trimestral do PIB a preços básicos, repare que entramos no terreno de variações negativas no segundo trimestre de 2014. Naquela época o governo não apenas não anunciava ajustes fiscais como jurava de pé junto que um ajuste fiscal era desnecessário e não seria feito. De fato, as despesas do governo no primeiro trimestre de 2014, período que antecede o encolhimento do PIB, foi quase dez por cento maior que as despesas do primeiro trimestre de 2013. Ao que parece o pessoal da Fundação Perseu Abramo resolveu refutar a máxima acaciana de que as consequências vêm depois.




Visto que a recessão começou antes do anúncio do ajuste fiscal passemos ao fato que não houve corte de gastos. A figura abaixo mostra a despesa do governo entre janeiro e julho para os anos de 2011 a 2015. Repare que a trajetória e crescente e que todo o barulho feito pela equipe econômica não evitou que em 2015 o governo gastasse mais que em 2014 que foi um ano eleitoral. Para que o leitor tenha uma ideia os gastos realizados em 2015 foram 17% maiores que os gastos realizados no mesmo período de 2011, primeiro ano do primeiro mandato de Dilma.




O fato que a recessão começou antes do anúncio das medidas de austeridade me parece impossível de ser explicado, quando muito alguém poderia dizer que o ajuste aprofundou ou alongou a recessão, mais do que isso me parece negar os fatos. Ficaria então a tarefa de explicar como um ajuste que não houve aprofundou uma recessão que já existia. Uma explicação seria apelar para as expectativas. A lógica é mais ou menos a seguinte: quando o governo avisa que fará cortes de gastos empresários antecipam a queda na demanda realizando cortes no investimento e na produção. A primeira dificuldade desse argumento é explicar porque empresários acreditariam no anúncio do governo de cortar gastos. Quem acredita no governo? Quem acredita no governo Dilma?

Suponha que acreditem. Se é verdade que um anúncio de tempos duros faz com que empresários percam confiança deveria ser verdade que um anúncio de tempos bons aumentasse a confiança dos empresários. O otimismo insano foi uma das marcas registradas do primeiro governo Dilma, não é difícil fazer uma coleção de previsões erradas do Ministro Mantega, a que mais gosto é uma em que ele chama de piada uma projeção do Credit Suisse que a economia brasileira cresceria 1,5% em 2012 (link aqui), de fato a previsão estava errada, não por excesso de pessimismo como afirmou Mantega, mas por excesso de otimismo, em 2012 a economia cresceu 1%. Outra previsão muito comentada na internet foi quando ele afirmou que quem apostasse no dólar quebraria a cara, a previsão foi feita em outubro de 2014 quando o dólar estava a R$ 2,43 (link aqui), hoje, em setembro de 2015, o dólar está a R$ 4,11. O gráfico abaixo mostra o efeito de tanto otimismo na confiança dos empresários. Parece que os empresários não são muito influenciados pelas declarações do ministro de plantão.



O leitor pode pensar em argumentar que empresários são neoliberais malvados que não acreditavam no governo só porque o Ministro Mantega estava tentando fazer uma gestão democrática e popular da economia. Se for o caso convido o leitor a dar uma olhada na figura abaixo que mostra a confiança do consumidor. Como pode ser visto o consumidor também vinha perdendo confiança na economia, o quadro foi revertido no período da campanha talvez porque o consumidor tenha acreditado nas mentiras que o governo contou para se reeleger, porém, tão logo as eleições acabaram e o consumidor-eleitor percebeu que foi enganado o processo de queda da confiança foi retomado. Alguém ainda poderias tentar dizer que a grande queda em janeiro e fevereiro é culpa do anúncio do ajuste fiscal, cada uma credita no que quer. Pessoalmente tendo a creditar que mentiras reveladas são mais prejudiciais à confiança do que novas promessas que não serão cumpridas.




Ao aceitar o convite para liderar o ajuste fiscal no segundo mandato de Dilma o Ministro Levy caiu em uma armadilha que, como todo respeito, era óbvia. Enquanto corria mundo falando de um ajuste fiscal que levaria a um superávit primário de 1,2% do PIB, valor que o próprio Ministro já reconheceu que não vai acontecer, os “economistas do PT”, talvez os mesmo que aplaudiram o congelamento de preços de Plano Cruzado e criticaram durante o “neoliberal” Plano Real, preparavam a narrativa que a crise que já existia foi causada pelo ajuste fiscal que não aconteceu.





sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Sobre Fadas e Anões: Confiança e os problemas reais da economia brasileria

Vez por outra leio textos de economistas dentro e fora a do governo apontando a confiança como o motor da economia. Sem confiança estamos destinados a estagnação, com confiança o céu é o limite. Como em um passe de mágica a confiança faz com que empresários decidam investir mais aumentando a produção e criando novos empregos, a mesma confiança faz com que os consumidores gastem mais garantindo a demanda necessária para o aumento de produção, mas fica melhor, com o aumento da produção, do emprego e dos gastos o governo arrecada mais e presta melhores serviços à população. É claro que em uma sociedade onde a produção aumenta, a demanda acompanha o aumento da produção, empregos são criados e os serviços públicos não param de melhorar a confiança cresce ainda mais e ciclo virtuoso se estabelece. Confiança gera prosperidade que gera ainda mais confiança.

Sendo assim a saída para tirar uma economia de uma crise é reestabelecer a confiança. Paul Krugman, prêmio Nobel em economia e ativista keynesiano por aumento de gastos públicos, cunhou a expressão “fada da confiança” (no original “confidence fairy”, link aqui e aqui) para ironizar os economistas que defendem austeridade como forma de estimular a economia. Krugman argumenta que nas condições dos EUA (e também da Europa) não existem bases teóricas para sustentar a tese que o corte nos gastos do governo levaria a um aumento de confiança nos investidores que colocaria em funcionamento a mágica da confiança. O debate por lá pegou fogo e muita gente boa entrou na discussão de um lado ou de outro. Não vou discutir economia americana ou europeia aqui, como de costume vou tratar da economia brasileira.

A fada da confiança que Krugman usou para ironizar os defensores da austeridade por lá tem uma irmã que vive por aqui, para facilitar vou chamar a versão original de fada azul e a irmã que vive por aqui de fada vermelha. A mágica da fada azul consiste em fazer que ao testemunhar cortes nos gastos públicos empresários passem a investir mais e consumidores passem a gastar mais pois antecipam redução na taxa de juros e nos impostos. Assim como a água que por aqui gira em direção contrária a que gira no hemisfério norte, a fada vermelha faz uma mágica que funciona de forma contrária a da fada azul. A mágica da fada vermelha faz que o aumento dos gastos do governo aumente a confiança dos empresários e dos consumidores. Empresários sob feitiço da fada vermelha investem mais por acreditarem que aumento do gasto representa garantia de demanda futura, consumidores encantados pela fada vermelha gastam mais por acreditarem que a aumento do gasto público garantirá empregos no futuro. Apesar da fada azul e da fada vermelha usarem truques diferentes para invocar a magia da confiança ambas garantem o mesmo resultado: a confiança aumentará investimentos, consumo e nos abençoará com um ciclo virtuoso.

Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda, era um devoto fiel da fada vermelha. Apostou suas fichas que aumento dos gastos e discursos para lá de otimistas fariam funcionar a mágica da fada vermelha. Joaquim Levy, atual ministro da Fazenda, parece ser discípulo da fada azul, porém até agora acendeu mais velas para o aumento de impostos do que para o corte de gastos. Talvez o novo ministro seja discípulo de uma fada verde que ainda não foi bem descrita. Seja lá a fada que siga Joaquim Levy, assim como Guido Mantega, parece acreditar que negar a existência de problemas é uma boa forma de ajudar as fadas da confiança (falei a respeito aqui).

O tempo ainda não permite saber a efetividade da magia da fada de Levy. Porém podemos tentar ver se a fada vermelha teve sucesso em trazer confiança a nossos empresários. A figura abaixo mostra o nível de confiança de nossos industriais durante o governo Dilma.




 A tendência de queda é inegável, quando a presidente tomou posso o índice de confiança do empresário industrial (ICEI) era de 61,7; hoje o ICEI está em 40,2. A tendência de queda do ICEI durante o primeiro governo Dilma sugere que a fada vermelha pode ser daquelas fadas atrapalhadas que fazem o encanto ter resultados opostos aos desejados. Será que a fada azul (ou seria verde?) de Joaquim Levy terá resultados melhores? Espero que sim, em geral aumento de confiança é um bom sinal.

Aqui entram em cena os anões. Nos mundos de fantasia anões são descritos como gananciosos, trabalhadores e não raro possuem aversão a mágica. Enquanto as fadas são descritas como seres delicados que costumam voar entre as flores os anões possuem trações grosseiros e geralmente aparecem enfiados em alguma montanha em busca de ouro ou pedras preciosas. Acredito que em nossa condição atual precisamos mais de anões do que de fadas. Não me entendam mal, o ajuste fiscal é necessário e será feito de um modo ou de outro, apenas não acredito que resolvido o problema fiscal a mágica da confiança nos fará retomar o crescimento. No mundo dos anões só consegue as coisas com trabalho.

O que impede nossos anões de trabalhar? De saída digo que nossa insistência em ver a ganância como algo a ser combatido é um banho de água fria em nossos anões. Qual a razão de enfrentar os riscos das montanhas se ficar com o ouro e as pedras preciosas é feio? Nossa cruzada contra a ganância faz com que criemos cada vez mais dificuldades para os anões. Exigimos licenças redundantes, criamos regras que retroagem contra os anões, taxamos em demasia o ouro dos anões... é difícil escavar por aqui. As dificuldades não param, existem alguns anões que são gananciosos mas preferem viver da amizade do Rei do que dos riscos de enfrentar as montanhas, destinamos recursos valiosos para estes anões. Tais anões aplicam estes recursos para que possam ficar ainda mais amigos do Rei e para que dificultar o trabalho dos outros anões de forma a não sofrer concorrência. Ao contrário dos anões normais os anões amigos do Rei escondem sua ganância e falam que trabalham em nome da sociedade e dos pobres do reino.

Não bastasse as dificuldades e a concorrência com os amigos do Rei nossos anões ainda sofrem para encontrar anões bem treinados que possam ajudar nas escavações. Os sábios da terra dizem que não é preciso treinar os novos anões pois não existem escavações para empregar anões treinados, estes mesmos sábios sentem dificuldade em entender a razão de anões sem treinamento não conseguirem criar novas tecnologias ou mesmo dominar tecnologias existentes. Tais sábios gostam de invocar feiticeiros que tornariam os anões amigos do Rei em grandes campeões que levariam a glória do reino para outras terras, os sábios garantem que os feiticeiros existem e já fizeram proezas em outras terras, por aqui ainda não se viu a mágica dos feiticeiros funcionar, mas este é assunto para outras conversas. Sem incentivos e sem anões treinados nossos valentes escavadores se deparam com ameaça de falta de energia e água para escavações e, quando conseguem retirar algo, faltam os trilhos para levar o ouro ao mercado. Diz-se que alguns anões tentaram construir tais trilhos, mas o Rei os ameaçou com o inferno eterno da burocracia infinita.

A verdade é que a situação desesperadora de nossos anões faz com que muitos prefiram apostar nas fadas. É pena. Melhor seria se enquanto Levy faz o ritual de invocação da fada azul o resto do governo buscasse uma forma de atrapalhar menos a vida dos anões.




segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Se quer ganhar confiança aprenda a fazer discursos... e evite mentiras óbvias

Gosto de política e de história, creio que por isso gosto de ler sobre grandes discursos feitos por estadistas de primeira linha e mesmo por políticos menores. Dos grandes estadistas tenho preferência por dois:  Abraham Lincoln e  Winston Churchill. O primeiro liderou o Norte na Guerra Civil Americana no século XIX, um conflito que mudou a história da humanidade e "criou" os EUA como o país que veio a se tornar a grande potencia do século XX. O segundo liderou as forças da liberdade contra a tirania nazista que aliada à tirania comunista ameaçava dominar a Europa. Longe de mim cobrar de algum de nossos políticos a grandeza de Lincoln ou de Churchill, até porque não vivemos nada parecido com as situações dramáticas que eles enfrentaram. Porém, os grandes discursos que fizeram podem (devem) servir de referência para que outros políticos criem seus próprios discursos e para que nós possamos avaliar os discursos de nossos políticos.

Tratei do assunto quando Dilma fez o discurso na seqüência das manifestações de 2013. Dilma foi a televisão pedir união e fez um discurso apagado que não surtiu efeito algum e que duvido muito que alguém lembre de algum trecho sem recorrer à internet ou outros arquivos. Na época falei que longe de mim cobrar de Dilma a grandeza de Lincoln e que as manifestação eram nada comparadas à Guerra Civil Americana, mas que qualquer político que fosse fazer um discurso a uma nação dividida deveria antes buscar inspiração no discurso da Casa Dividida de Lincoln, segue trecho do discurso:

"A house divided against itself cannot stand. I believe this government cannot endure, permanently, half slave and half free. I do not expect the Union to be dissolved — I do not expect the house to fall — but I do expect it will cease to be divided. It will become all one thing or all the other. Either the opponents of slavery will arrest the further spread of it, and place it where the public mind shall rest in the belief that it is in the course of ultimate extinction; or its advocates will push it forward, till it shall become lawful in all the States, old as well as new — North as well as South."

Abaixo a tradução que achei na Wikipédia:

"Uma casa dividida contra si mesma não pode permanecer. Eu acredito que este governo não pode suportar, permanentemente, ser metade escravo e metade livre. Eu não espero a divisão da União - Eu não espero ver a casa cair - mas espero que ela deixe de ser dividida. Ela terá que se tornar toda uma coisa ou outra.
Ou os adversários da escravidão irão deter a propagação da mesma, e a opinião pública deve repousar na crença de que deva ser extinta definitivamente, ou seus defensores irão estendê-la adiante, até que ela se torne legal em todos os Estados, velhos ou novos - Norte como no Sul."

Percebam que Lincoln não esconde os problemas vividos pelo governo dos Estados Unidos, porém não é um discurso pessimista, pelo contrário, é um discurso que mostra confiança em uma tarefa difícil mas necessária para o país.

Considerem agora o discurso que Churchill fez em 1940 a respeito da II Guerra Mundial. Era um momento critico. O exército alemão parecia invencível, a URSS de Stalin era aliada de Hitler, os Estados Unidos mantinham a política de não intervir militarmente, de fato a Inglaterra estava sozinha contra a ameaça nazista. Vejam o trecho mais conhecido do discurso:

"Even though large tracts of Europe and many old and famous States have fallen or may fall into the grip of the Gestapo and all the odious apparatus of Nazi rule, we shall not flag or fail. We shall go on to the end. We shall fight in France, we shall fight on the seas and oceans, we shall fight with growing confidence and growing strength in the air, we shall defend our island, whatever the cost may be. We shall fight on the beaches, we shall fight on the landing grounds, we shall fight in the fields and in the streets, we shall fight in the hills; we shall never surrender, and if, which I do not for a moment believe, this island or a large part of it were subjugated and starving, then our Empire beyond the seas, armed and guarded by the British Fleet, would carry on the struggle, until, in God's good time, the New World, with all its power and might, steps forth to the rescue and the liberation of the old."

Novamente a tradução da Wikipédia:

"Muito embora grandes extensões da Europa e antigos e famosos Estados tenham caído ou possam cair nos punhos da Gestapo e de todo o odioso aparato do domínio nazista, nós não devemos enfraquecer ou fracassar. Iremos até ao fim. Lutaremos na França. Lutaremos nos mares e oceanos, lutaremos com confiança crescente e força crescente no ar, defenderemos nossa ilha, qualquer que seja o custo. Lutaremos nas praias, lutaremos nos terrenos de desembarque, lutaremos nos campos e nas ruas, lutaremos nas colinas; nunca nos renderemos, e se, o que eu não acredito nem por um momento, esta ilha, ou uma grande porção dela fosse subjugada e passasse fome, então nosso Império del além-mar, armado e guardado pela Frota Britânica, prosseguiria com a luta, até que, na boa hora de Deus, o Novo Mundo, com toda a sua força e poder, daria um passo em frente para o resgate e libertação do Velho."

Churchill não esconde os perigos, não tenta vender uma confiança sem fundamentos, pelo contrário, fala de lutar até o fim, reconhece a possibilidade que a Inglaterra seja subjugada mesmo se negando a acreditar que a possibilidade venha a se tornar um fato. Com este discurso (na realidade foram três grandes discursos, além desse teve o do "sangue, suor, trabalho e lágrimas"  e o do "melhor momento") Churchill ajudou a recuperar a confiança dos ingleses e tornou possível a mudança de rumo que levou à derrota final do nazismo.

Toda esta conversa a respeito de discursos marcantes veio para que eu tentasse passar ao leitor como estou contrariado com o discurso de Joaquim Levy feito hoje para uma platéia de empresário. Segue o trecho que me incomodou a ponto de fazer este post:

"Não há nada de problemático na economia brasileira. Ainda há inúmeras vantagens no país, como nosso capital humano. Temos certeza de que temos condições de fazer essa reengenharia da nossa economia sem grande dificuldade. No ano passado, o governo fez alguns ajustes em programas de transferência, e atacou situações em que havia distorções para garantir sua efetividade conhecida pela população."

Ao contrário de Churchill e Lincoln o discurso de Joaquim Levy começa negando sequer a existência dos problemas. Se não temos problemas então por que nos impor sacrifícios? É uma pergunta legítima. Por que eu vou pagar mais impostos? Por que o jovem empregado vai ter de ficar mais tempo no emprego para receber seguro desemprego? Por que um terço dos recursos das universidades federais estão bloqueados (link aqui)? Por que os caminhoneiros estão bloqueando as estradas (link aqui)? Por que as viúvas vão ter suas pensões reduzidas? Por que os moradores da maior cidade do país estão sendo obrigados a poupar água? Por que tudo isto se "não há nada de problemático na economia brasileira"? Faria sentido Chruchill negar que a Inglaterra estava ameaçada e depois pedir o sacrifício dos ingleses? Faria sentido Lincoln negar que a União estava ameaçada e depois pedir o sacrifício dos americanos?

Não satisfeito em afirmar que não temos problemas o ministro segue dizendo que podemos fazer a "reengenharia da nossa economia sem grandes dificuldades". Hoje a noite o ministro que afirmou que não temos problemas e que não temos grandes dificuldades para fazer a reengenharia de nossa economia vai jantar com políticos do PMDB para pedir apoio as medidas do governo. Se eu estivesse na reunião levaria este trecho do discurso e perguntaria qual a razão dos sacrifícios pedidos.

Negar a existência dos problemas não foi o pior que o ministro fez. Sendo um economista brilhante é possível veja soluções fáceis para nossa economia e esteja nos impondo os sacrifícios por alguma razão que desconheço. Talvez por culpa de FHC, vai saber. Entre as duas frases que comentei o ministro coloca o capital humano como uma vantagem do país. De que país ele está falando? Do Brasil? O ministro ignora que nosso ensino é constantemente mal avaliado nas avaliações internacionais? O ministro ignora que não temos uma universidade entre as melhores do mundo? É assustador, mas ou o ministro está mentindo descaradamente ou não tem a menor ideia sobre o que está falando. É assim que o ministro quer ganhar a confiança do mercado? É assim que o ministro acredita que vai ganhar nossa confiança?

Não sei se vocês lembram de um porta voz do Iraque que durante a invasão americana dava declarações garantindo que o Iraque estava vencendo a guerra e destruindo as tropas invasoras. Era patético. É triste constatar que em uma escala com os discursos de Churchill como valor máximo e as declarações do tal porta voz iraquiano como valor mínimo a fala de nosso ministro está muito mais próxima do mínimo do que do meio da escala.





segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Economista X

Esta semana me juntei a turma do Economista X. Meu primeiro texto, como não poderia deixar de ser, é sobre crescimento. Argumento que a falta de confiança que tantos falam não é o maior problema da economia brasileira. Se por uma passe de mágica todos passássemos a confiar no governo ainda assim a economia cresceria pouco. Para os interessados o link está aqui.