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segunda-feira, 20 de abril de 2015

Não é a primeira vez que ouço falar no fim de Lula ou do PT... não creio que será a última.

A primeira vez que ouvi falar do fim do PT foi nas eleições de 1989. O argumento era que no segundo turno entre Brizola e Collor parte do PT ia optar por apoiar Brizola e outra parte ia querer ficar neutra o que causaria um racha fatal no PT. O tal segundo turno entre Brizola e Collor nunca aconteceu, Lula saiu das eleições como grande líder da esquerda e a eleição que acabaria com o PT colocou o partido definitivamente no cenário política nacional.

A segunda vez não foi exatamente o fim do PT, mas o fim de Lula. Após o impeachment de Collor havia o sentimento que a eleição de Lula em 1994 era inevitável. Porém no caminho apareceu o Plano Real, Lula cometeu o erro grave de falar contra o plano. A vitória certa se transformou em uma humilhante derrota para FHC ainda no primeiro turno. Vozes dizendo que a carreira política de Lula estava encerrada começaram a ser ouvidas. Com a derrota em 1998 novamente em primeiro turno, a terceira derrota seguida de Lula, mesmo no PT as vozes que decretavam o fim político de Lula ganharam força. Foi dessa a época o debate de primárias no PT e, salvo engano, foi por essa época que Suplicy ousou colocar o próprio nome como candidato presidencial do PT. Estavam errados, Lula foi eleito presidente em 2002.

A terceira vez foi no mensalão. Foi dado como certo que o escândalo enterraria Lula e o PT. Políticos da oposição profetizaram que Lula ia sangrar até as eleições de 2006 e então seria facilmente derrotado. Por conta de tal profecia a oposição entendeu que não devia pressionar pelo impeachment de Lula. Mais uma vez o fim de Lula e do PT não aconteceu, pelo contrário, Lula foi reeleito em 2006 no que talvez tenha sido a vitória presidencial mais fácil que o PT já obteve. Não falta quem acredite, talvez com razão, que não fosse pelo escândalo dos "aloprados" Lula teria ganho no primeiro turno.

A quarta não se chegou a falar de fim de Lula, talvez de uma morte natural do PT. A tese é que o PT não soube se renovar e construir novas lideranças para seguir no poder após o término do segundo mandato de Lula. Que tal tese tenha ganho força após a derrota de Marta Suplicy para Serra na disputa pela prefeitura de São Paulo é algo que nunca entendi bem, mas a tese existiu. Alguns chegaram a especular que em desespero Lula daria o "golpe do terceiro mandato". Mais uma vez Lula e o PT desmentiram a profecia, Lula encontrou o sucessor, no caso a sucessora, e, de quebra, ainda encontrou um nome jovem para vencer as eleições de 2012 para prefeitura de São Paulo.

Agora é a quinta vez que ouço falar do fim do PT. Está de volta a tese do deixar sangrar até as eleições, também está de volta a tese irmã de que oposição deve administrar a crise até as eleições sem mesmo tentar usar mecanismos legais para tirar o PT do planalto prematuramente. Pode ser que estejam certos, os que defendem a tese sabem infinitamente mais do que o que sei de política, tanto em termos teóricos quanto práticos. Mas sou gato escaldado e tenho medo d'água, creio que não se arriscar agora pode ser o caminho para um novo governo petista em 2018.

A crise será brutal esse ano e seguirá dura em 2016. Porém em 2017 a população estará anestesiada, não creio que o crescimento voltará aos níveis anteriores ao da crise, mas a inflação pode estar controlada. Basta que tenhamos um crescimento de 1,5% a 2% e inflação próxima 5% que haverá uma sensação de recuperação da economia e Lula será um nome viável para a presidência em 2018. Não me compreendam mal, não quero a volta de Lula, pelo contrário, costumo brincar que sou o único da minha geração que votou em Collor em 1989, nunca votei em Lula e pretendo continuar sem votar. Por isso estou preocupado, subestimar o adversário é o caminho para derrota. O que tenho visto é que toda vez que comemoram o fim do PT o partido ressurge maior e mais forte, não sei por qual razão acreditar que dessa vez será diferente.


terça-feira, 31 de março de 2015

Comentários curtos e grossos a respeito dos dez pontos do manifesto do PT

Estava planejando comentar o manifesto de dez pontos apresentados pelo PT. Li várias vezes o manifesto e cheguei a rabiscar alguns comentários, acabei concluindo que não valia a pena usar meu tempo no assunto. Pelo nível das propostas a impressão que fiquei é que quem escreveu o manifesto não perdeu nem uma hora para fazer o texto, não há porque usar uma tarde para comentar. Sendo assim me limito a fazer comentários curtos e grossos a respeito de cada um dos pontos.

1. Desencadear um amplo processo de debates, agitação e mobilização em defesa do PT e de nossas bandeiras históricas;
Em outras palavras significa fazer propaganda...
2. Defesa do nosso legado político-administrativo e do governo Dilma;
Mais propaganda...
3. Participar e ajudar a articular uma ampla frente de partidos e setores partidários progressistas, centrais sindicais, movimentos sociais da cidade e do campo, unificados em torno de uma plataforma de mudanças, que tenha no cerne a ampliação dos direitos dos trabalhadores, da reforma política, da democratização da mídia e da reforma tributária;
Ainda mais propaganda...
4. Apoiar o aprofundamento da reforma agrária e do apoio à agricultura familiar;
Sem entrar no mérito da reforma agrária me limito a registrar que o governo Dilma foi o que menos assentou famílias nas últimas décadas (link aqui)
5. Orientar nossa Bancada a votar o imposto sobre grandes fortunas e o projeto de direito de resposta do senador Roberto Requião, ambos em tramitação na Câmara dos Deputados;
Qual imposto sobre grandes fortunas? O que pega acima de um milhão que anda sendo comentado na internet? No lugar de tributar "fortunas" acima de um milhão não seria melhor para de usar o BNDES para financiar bilionários? De toda forma teria sido um tema interessante para a campanha do ano passado, pena que na campanha Dilma garantiu que não havia problema fiscal.
Requião é aquele que agride jornalistas? (link aqui)
6. Apoiar iniciativas para intensificar investimentos nas grandes e médias cidades, a fim de melhorar as condições de saneamento, habitação e mobilidade urbana;
Enquanto isto no Senado o Ministro da Fazenda está fazendo o possível para adiar a votação de um projeto que alivia as contas dos municípios....
7. Buscar novas fontes de financiamento para dar continuidade e fortalecimento ao Sistema Único de Saúde;
Sabe os mais de R$ 450 bilhões que o tesouro aportou no BNDES? Ajudariam muito no SUS...
8. Apoiar uma reforma educacional que corresponda aos objetivos de transformar o Brasil numa verdadeira Pátria Educadora;
Novamente sem entrar no mérito lembro que várias universidades estão sem pagar fornecedores por conta de cortes de orçamento implementados pelo governo Dilma... Agora entrando no mérito eu pergunto a razão do PT não colocar a proposta de reforma de educação na página do partido com o destaque que merece? Como? Doze anos no governo e não deu tempo de elaborar a proposta? Talvez se Dilma tivesse apresentado um plano de governo...
9. Levar o combate à corrupção a todos os partidos, a todos os Estados e Municípios da Federação, bem como aos setores privados da economia;
Chamando os condenados por corrupção de "guerreiros do povo brasileiro"?
10. Lutar pela integração política, econômica e cultural dos povos da América, por um mundo multipolar e pela paz mundial. O momento não é de pessimismo; é de reavivar as esperanças. A hora não é de recuo; é de avançar com coragem e determinação. O ódio de classe não nos impedirá de continuar amando o Brasil e de continuar mudando junto com nosso povo. Esta é a nossa tarefa, a nossa missão. É só querer e, amanhã, assim será!
Alguém falou Foro de São Paulo?


domingo, 15 de março de 2015

Fora Dilma! Fora Dilma!

Está maluco? Pirou? Pode estar perguntando o leitor. Há algo concreto que justifique o impeachment de Dilma? Como será um eventual governo Temer? É isto que você quer? Calma peço eu, vou explicar. Não creio que exista nada concreto que justifique o impeachment de Dilma, também não creio que ela será posta para fora sem que apareça algo do tipo. Então porque gritar "Fora Dilma"? Não vou responder, melhor, vou responder com uma pergunta. O que existia de concreto contra FHC quando Tarso Genro escreveu pedindo a saída de FHC e multidões petistas foram para as ruas gritar "Fora FHC"? Os petistas tiveram 12 anos para responder, tempo suficiente para investigar e para julgar, mas até agora não responderam. E quanto a Collor? Considerando que Collor foi absolvido pelo STF o que ficou de concreto para pedir e conseguir o impeachment de Collor? Mais de 20 anos depois do saída de Collor da presidência o que existe de concreto contra o homem que foi considerado inocente por uma corte onde apenas um dos juízes foi indicado por ele? Se os petistas não se sentem obrigados a responder mesmo com décadas para refletir e construir um argumento, por qual razão eu seria obrigado a responder no calor do desenrolar dos eventos?


O mesmo vale em relação ao eventual governo Temer. Cheguei em Brasília em 1998 quando tomei posse no cargo de Técnico de Pesquisa e Planejamento do IPEA, conheci e convivi com vários petistas durante o segundo governo FHC. Ouvi de vários deles que o governo FHC era inviável, também li muito sobre esta tese. Estelionato eleitoral, fracasso econômico, relação tensa com o Congresso, revolta da sociedade e várias outras teses justificavam o "Fora FHC". Não lembro de nenhuma conversa ou de nenhum texto onde os petistas analisavam um possível governo de Marco Maciel ou um governo do então PFL. Mais um vez me pergunto por que seria obrigado a responder as perguntas que os que me indagam não responderam.

Serei eu um golpista? Se eu for toda a cúpula do atual governo também é. Golpista que quer dar golpe em golpista tem cem anos de perdão? Não sei. Na verdade não me considero golpista e não considero as manifestações golpistas. Hoje saí de casa para dizer que não aguento mais tantos desmandos do governo. Como escrevi no FB um dia antes das manifestações:

Eu vou! 
Não é pela oposição, não é pelo governo, não é pelo país, não é pelos pobres, não é pelos ricos, não é nem mesmo contra a corrupção... É por mim. 
Vou para dizer que os donos do poder passaram dos limites. Vou para dizer que não sou servo, que vivo em uma república e que tenho direito a saber o que é feito com o poder que o Estado detém. Vou para dizer que não é possível viver em um país onde professores, médicos, radialistas, bancários e outros tantos entram para a política e poucos anos depois viram milionários. Vou para dizer que não quero financiar os empresários amigos do governo de plantão. Vou porque sou um cidadão e tenho direito de ir para onde quiser, não devo a explicações a governo nenhum, pelo contrário, os governos é que me devem explicações. Vou para dizer que já deu. Vou porque quero. 
O que querem os outros que estarão lá? Não é problema meu, cada um que vá ou fique por seus próprios motivos. Eu vou.

Hoje, após as manifestações, eu resumi tudo isto com o famoso "não pise em mim". Fui para avisar aos governantes que não pisem em mim.

Não me arrependo de ter ido. Vi uma multidão, a PM estima em 50 mil e há quem fale de 100 mil, que acredito que estava com o mesmo espírito que eu. Uma gente que foi acusada de pregar o ódio, muito embora não tenha um exército para chamar de seu, fez uma manifestação sem nenhuma ocorrência. O padrão foi o mesmo Brasil afora, mesmo em São Paulo, onde a PM estimou um milhão de pessoas, o clima foi de tranquilidade. É irônico que os nos acusam de pregar o ódio não faz muito tempo argumentavam que a violência é inevitável em grandes manifestações. Simbólico foi o espanto de uma repórter da Globonews com o tratamento dispensado a imprensa e a polícia por parte dos manifestantes, no lugar das tradicionais ameaças e agressões apareceram abraços, aplausos e fotos. Aqui em Brasília testemunhei o momento em que alguns jovens passaram com cartazes pró-governo e/ou pró-PT no meio dos manifestantes. Linchamento? Pancadaria? Não. Uma vaia. É muito ódio...

Não foi apenas uma multidão pacífica que vi. Hoje haviam várias ideias na Esplanada. Dos que estavam lá apenas para soltar o verbo contra um governo que está entre os piores da história republicana, caso em que me enquadram, aos que pediam o impeachment da presidente. Não vi referências a intervenção militar, pode ter sido por conta do local em que eu estava, mas não vi. Também não vi pedidos de reforma política, pelo contrário, fiquei com a impressão que quem estava lá não confia no atual governo para liderar tão importante reforma. Aliás esta é uma questão importante no atual momento político: confiança. Creio que muitos dos que perderam a paciência com o governo a ponto de vaiar entrevista de ministros estão irritados com o desapego do governo aos fatos e às próprias versões que criam dos fatos. Hoje um ministro dizia que as manifestações não eram golpismo, outro acusava os manifestantes de fascistas em ambos diziam falar em nome do governo e da presidente. O que esperar de um governo que passou a campanha inteira negando a existência de uma crise para agora, três meses depois de tomar posse, dizer que usou todo instrumental que tinha para a combater a crise que não existia?

Enfim, ainda estou perplexo com as multidões que foram às ruas. Sempre tive acostumado a estar na minoria que estranho quando vejo tanta gente pedindo o mesmo que eu. Ser um liberal e um individualista em um continente onde imperam o estatismo e coletivismo deixa suas marcas. Talvez por isto eu esteja tão surpreso, hoje é um dos raros dia que posso dizer que eu concordo e tenho o mesmo sentimento das massas nas ruas.


Antes que eu esqueça ou que algum outro ministro queira passar a mão nas manifestações. Não fui pela reforma política, não fui por mudanças no financiamento campanha e nem muito menos para mudar o sistema (seja lá o que for isto). Fui para dizer em alto e bom som, com razão ou sem razão, "Fora Dilma! Fora Dilma!"

segunda-feira, 9 de março de 2015

Comentários a respeito do discurso de Dilma

Segue abaixo o discurso da presidente Dilma por ocasião da comemoração do Dia Internacional da Mulher. O discurso está em preto e meus comentários estão em azul, o link para o discurso está aqui.

Meus queridos brasileiros, e, muito especialmente, minhas queridas brasileiras.
Hoje é o Dia Internacional da Mulher. Falar com vocês mulheres - minhas amigas e minhas iguais - é falar com o coração e a alma da nossa grande nação. Ninguém melhor do que uma mãe, uma dona de casa, uma trabalhadora, uma empresária, é capaz de sentir, em profundidade, o momento que um país vive.
Mas todos sabemos que há um longo caminho entre sentir e entender plenamente. É preciso, sempre, compartilharmos nossa visão dos fatos. Os noticiários são úteis, mas nem sempre são suficientes. Muitas vezes até nos confundem mais do que nos esclarecem. As conversas em casa, e no trabalho, também precisam ser completadas por dados que nem sempre estão ao alcance de todas e de todos.
Concordo totalmente. Conversas e noticiários devem ser confrontados com dados, faço isto de forma recorrente aqui no Blog. Imaginei que após falar isto a presidente fosse apresentar e analisar dados para defender as teses que apresentava, ledo engano, a presidente acredita que noticiários, conversas em casa e conversas no trabalho devem ser complementadas por dados, mas o que ela fala não, afinal ela é a presidente. 
Por isso, eu peço que você - e sua família - me ouçam com atenção. Tenho informações e reflexões importantes que se compartilhadas vão ajudá-los a entender melhor o momento que passamos. E a renovar a fé e a esperança no Brasil! É uma boa hora para que eu tenha uma conversa, mais calma e mais íntima, com cada família brasileira - e faça isso com a alma de uma mulher que ama seu povo, ama seu país e ama sua família.
Vamos começar pelo mais importante: o Brasil passa por um momento diferente do que vivemos nos últimos anos. Mas nem de longe está vivendo uma crise nas dimensões que dizem alguns. Passamos por problemas conjunturais, mas nossos fundamentos continuam sólidos. Muito diferente daquelas crises do passado que quebravam e paralisavam o país.
A presidente afirmou que a crise não é tão grande como dizem alguns, ela não especificou quem, e sugeriu que a crise é menor do que as crises do passado. A maneira tradicional de avaliar crise econômica é pela taxa de crescimento do PIB, a figura abaixo mostra a taxa de crescimento do PIB entre 1947 e 2013. Os dados são do Ipeadata e correspondem a série de PIB real a preços de 1980, que é a série de PIB real elaborada e disponibilizada pelo IBGE.


Reparem em todo período nunca foi observado crescimento negativo por dois anos seguidos, repare também que depois da estabilização apenas em 2009 tivemos crescimento negativo, para os que não lembram 2009 foi o ano em que o mundo sentiu os efeitos da grande crise que estourou em setembro de 2008. Praticamente todos os analistas, no Brasil e no exterior, que se dedicam a projetar o crescimento da economia brasileira projetam crescimento negativo em 2014 e e 2015. Mesmo assim a presidente afirma que a crise não é tão grande e que as do passado eram piores. Definitivamente é bom olhar os dados.
Nosso povo está protegido naquilo que é mais importante: sua capacidade de produzir, ganhar sua renda e de proteger sua família. As dificuldades que existem - e as medidas que estamos tomando para superá-las - não irão comprometer as suas conquistas. Tampouco irão fazer o Brasil parar ou comprometer nosso futuro.
O governo insiste na tese que a manutenção do nível de emprego implica que tudo está bem, uma análise mais cuidadosa dos números mostra que a manutenção da taxa de desemprego decorre mais da saída de trabalhadores da força de trabalho do que da criação de novos empregos. Fiz uma análise detalhada dos números de emprego no ano passado (link aqui), de lá para as coisas pioraram muito, todo dia temos notícias de grandes demissões em diversos setores da economia. Infelizmente parece que a falta de dinamismo da economia brasileira começa a afetar a taxa de desemprego, em janeiro deste ano a taxa de desemprego foi de 5,3%, ainda um número baixo comparado a série histórica, porém maior que a de dezembro de 2014 (4,8%), o que não quer dizer muita coisa, e maior que a de janeiro de 2014 (4,8%) o que pode ser um significado mais sério. Curioso notar que a taxa de janeiro nos colocou muito próximos aos EUA onde a taxa de desemprego está 5,5%, porém caindo. 
A questão central é a seguinte: estamos na segunda etapa do combate à mais grave crise internacional desde a grande depressão de 1929. E, nesta segunda etapa, estamos tendo que usar armas diferentes e mais duras daquelas que usamos no primeiro momento.
Como assim segunda etapa de combate a crise? Lula não tinha dito que a crise era uma marolinha? Se Dilma sabia que estávamos migrando para uma segunda etapa de combate a crise não teria sido mais honesto ela ter dito isto na campanha? O que ocorreu no cenário internacional entre a campanha e hoje que a levou a deflagrar esta segunda etapa?
Como o mundo mudou, o Brasil mudou e as circunstâncias mudaram, tivemos, também, de mudar a forma de enfrentar os problemas. As circunstâncias mudaram porque além de certos problemas terem se agravado - no Brasil e em grande parte do mundo -, há ainda a coincidência de estarmos enfrentando a maior seca da nossa história, no Sudeste e no Nordeste.
Não sei dizer se a atual seca é a maior de nossa história, ela bem que poderia ter mostrado uns dados... 
Entre muitos efeitos graves, esta seca tem trazido aumentos temporários no custo da energia e de alguns alimentos. Tudo isso, eu sei, traz reflexos na sua vida. Você tem todo direito de se irritar e de se preocupar. Mas lhe peço paciência e compreensão porque esta situação é passageira. O Brasil tem todas as condições de vencer estes problemas temporários - e esta vitória será ainda mais rápida se todos nós nos unirmos neste enfrentamento.
Tenho direito de me irritar? Sério? Onde devo agradecer por tamanho direito? Eu fico irritado quando o Botafogo perde, quando pego trânsito inesperado ou quando meu avião atrasa. O que está correndo com o Brasil não me deixa irritado, não sei devo usar o adjetivo que me ocorre, mas a destruição de vários dos avanços econômicos duramente conquistados desde a estabilização e meu consequentemente empobrecimento me deixa mais alterado que uma derrota do Botafogo de virada para o Flamengo em um final de campeonato, imagino que eu não seja o único.
Não vejo uma razão para acreditar que a crise é passageira, segundo o último Relatório Focus publicado pelo Banco Central (link aqui) este ano vamos ter crescimento negativo e em 2016 vamos crescer 1,6%, um número extremamente baixo. Como já mostrei em outro post (link aqui) o crescimento previsto pelo Relatório Focus costuma ser menor do que o crescimento que de fato ocorre. Lembram no Jornal Nacional quando a presidente falou dos indicadores de antecedente? Pois é, ela bem poderia ter nos mostrados quais indicadores justificam a tese que a crise é passageira, talvez a questão esteja na definição de passageira...
Peço a vocês que nos unamos e que confiem na condução deste processo pelo governo, pelo Congresso, e por todas as forças vivas do nosso país - e uma delas é você!
União? Mal tem uma semana que o líder do partido da presidente nos ameaçava com o que ele mesmo chamou de "exército do Stédile". 
Queremos e sabemos como fazer isso, distribuindo os esforços de maneira justa e suportável para todos. Como sempre, protegendo de forma especial as classes trabalhadoras, as classes médias e os setores mais vulneráveis.Temos compromissos profundos com o futuro do país e vamos continuar cumprindo, de forma inabalável, estes compromissos.
Minhas amigas e meus amigos,
A crise afetou severamente grandes economias, como os Estados Unidos, a União Europeia e o Japão. Até mesmo a China, a economia mais dinâmica do planeta, reduziu seu crescimento à metade de suas médias históricas recentes. Alguns países estão conseguindo se recuperar mais cedo.
Até pensei em fazer um gráfico mostrando os números, mas o blog Dinheiro Público & cia fez um que cabe bem aqui.

O Brasil, que foi um dos países que melhor reagiu em um primeiro momento, está agora implantando as bases para enfrentar a crise e dar um novo salto no seu desenvolvimento. Nos seis primeiros anos da crise, crescemos 19,9%, enquanto a economia dos países da Zona do Euro, caiu 1,7%.
É verdade que nos saímos bem nos primeiro anos, antes do governo Dilma e da nefasta Nova Matriz Econômica, depois da tal matriz trazida pela equipe econômica de Dilma só deu desgraça. Poderia parar aqui, mas creio que é preciso falar mais. Não é novidade que é possível comprar a saída de uma crise, o problema é que no futuro a crise pode vir com mais força. Existe um bom debate a este respeito, para os interessados pela tese que defendo recomendo o texto do Gonzalo Fernández de Córdoba e do Timothy J. Kehoe (link aqui). Para os que não quiserem ou puderem ler o texto inteiro deixo aqui o último parágrafo:

"Studying the experience of countries that have experienced great depressions during the twentieth century teaches us that massive public interventions in the economy to maintain employment and investment during a financial crisis can, if they distort incentives enough, lead to a great depression. Those who try to justify the sorts of Keynesian policies implemented by the Mexican government in the 1980s and the Japanese government in the 1990s often quote Keynes’s dictum from A Tract on Monetary Reform: “The long run is a misleading guide to current affairs. In the long run we are all dead.” Studying past great depressions turns this dictum on its head: “If we do not consider the consequences of policy for productivity, in the long run we could all be in a great depression.”"
O texto é de 2009, a conclusão acima é consistente com as conclusões de um livro anterior que foi editado pelo Timothy Kehoe (um dos autores do textto que citei acima) e pelo Edward Prescott (Nobel de Economia em 2004) que analisa grandes depressões em vários países (link aqui). A constatação feita pela presidente de de que começamos bem e estamos terminando muito mal no combate a crise é compatível com a análise de outras grandes depressões. Infelizmente como a presidente aumentou ainda mais as distorções na economia em seu primeiro mandato ela acabou por agravar a crise que estamos vivendo.
Pela primeira vez na história, o Brasil ao enfrentar uma crise econômica internacional não sofreu uma quebra financeira e cambial. O mais importante: enquanto nos outros países havia demissões em massa, nós aqui preservamos e aumentamos o emprego e o salário. Se conseguimos essas vitórias antes, temos tudo para conseguir novas vitórias outra vez. Inclusive, porque decidimos, corajosamente, mudar de método e buscar soluções mais adequadas ao atual momento. Mesmo que isso signifique alguns sacrifícios temporários para todos e críticas injustas e desmesuradas ao governo.
Mentira, quando ocorrem crises nas economias ricas não é raro o Brasil ficar de fora. Durante a crise do petróleo em 1973 o Brasil cresceu acima de 5% ao ano, basta olhar o gráfico acima ou lembrar da infame "Este é um Pais que vai pra frente, ou, ou, ou, ou, ou" muito cantadona época.
Na tentativa correta de defender a população, o governo absorveu, até o ano passado, todos os efeitos negativos da crise. Ou seja: usou o seu orçamento para proteger integralmente o crescimento, o emprego e a renda das pessoas. Realizamos elevadas reduções de impostos para estimular a economia e garantir empregos. Ampliamos os investimentos públicos para dinamizar setores econômicos estratégicos. Mas não havia como prever que a crise internacional duraria tanto. E, ainda por cima, seria acompanhada de uma grave crise climática. Absorvemos a carga negativa até onde podíamos e agora temos que dividir parte deste esforço com todos os setores da sociedade.
Ver o gráfico com o crescimento de diversas economias e os comentários sobre os resultados do Timothy Kehoe a respeito de grandes depressões que estão acima.
É por isso que estamos fazendo correções e ajustes na economia. Não é a primeira vez que o Brasil passa por isso. Em 2003, no início do governo Lula, tivemos que tomar medidas corretivas. Depois tudo se normalizou e o Brasil cresceu como poucas vezes na história. São medidas para sanear as nossas contas e, assim, dar continuidade ao processo de crescimento com distribuição de renda, de modo mais seguro, mais rápido e mais sustentável.
Todo mundo que acompanha economia sabia que as medidas de ajuste eram necessárias, mesmo assim a senhora negou categoricamente a necessidade de tais medidas durante a campanha.
Você que é dona de casa ou pai de família sabe disso. Às vezes temos de controlar mais os gastos para evitar que o nosso orçamento saia do controle. Para garantir melhor nosso futuro. Isso faz parte do dia a dia das famílias e das empresas. E de países também. Mas estamos fazendo de forma realista e da maneira mais justa, transparente e equilibrada possível. As medidas estão sendo aplicadas de forma que as pessoas, as empresas e a economia as suportem. Como é preciso ter equidade, cada um tem que fazer a sua parte. Mas de acordo com as suas condições.
Donas de casa e pais de família? As feministas viram isto? Disseram alguma coisa?
Foi por isso, que começamos cortando os gastos do governo, sem afetar fortemente os investimentos prioritários e os programas sociais. Revisamos certas distorções em alguns benefícios, preservando os direitos sagrados dos trabalhadores. E estamos implantando medidas que reduzem, parcialmente, os subsídios no crédito e também as desonerações nos impostos, dentro de limites suportáveis pelo setor produtivo.
Estamos fazendo tudo com equilíbrio, de forma que tenhamos o máximo possível de correção com o mínimo possível de sacrifício. Este processo vai durar o tempo que for necessário para reequilibrar a nossa economia. Como temos fundamentos sólidos e as dificuldades são conjunturais, esperamos uma primeira reação já no final do segundo semestre deste ano.
Cortando gastos? Sacrifícios para todos? Em dezembro de 2014 o Tesouro autorizou mais de R$ 30 bilhões para o BNDES. Enquanto os sacrifícios para a plebe eram anunciados nos jornais os bilhões da corte estavam sendo garantidos. O link para notícia está aqui.
Mais importante, no entanto, do que a duração destas medidas será a longa duração dos seus resultados e dos seus benefícios. Que devem ser perenes no combate à inflação e na garantia do emprego. Que devem ser permanentes na melhoria da saúde, da educação e da segurança pública.
As medidas serão suportáveis porque além de sermos um governo que se preocupa com a população, temos hoje um povo mais forte do que nunca. O Brasil tem hoje mais qualificação profissional, mais infraestrutura, mais oportunidades de estudar e mais empreendedores. Somos a 7a economia do mundo. Temos 371 bilhões de dólares de reservas internacionais. 36 milhões de pessoas saíram da miséria e 44 milhões foram para a classe media. Quase dez milhões de brasileiras e brasileiros são hoje micro e pequenos empreendedores. E continuamos com os melhores níveis de emprego e salário da nossa história.
As medidas serão duras, mas os benefícios serão sentidos por um longo período, somos grandes e etc. Teria sido interessante ouvir isto na campanha, agora soa falso.

Minhas amigas e meus amigos,
O que tenho de mais importante a garantir, hoje, vou resumir agora.
Primeiro: o esforço fiscal não é um fim em si mesmo. É apenas a travessia para um tempo melhor, que vai chegar rápido e de forma ainda mais duradoura.
Ajustes fiscais são feitos para levar a economia a tempos melhores, muitos concordam com isto, Dilma é que não concordavam. Quem lembra da ministra da Casa Civil que criticava duramente o ministra da Fazenda por conta de ajuste fiscal? Aquele ministro que em 2003 que hoje a presidente elogia. Ainda não lembrou? Eu digo: foi Dilma. Se quiser refrescara a memória leia a reportagem intitulada "Confronto com Dilma leva Palocci a cogitar deixar o Governo" (link aqui). A ministra que via o ajuste fiscal como que um mal em si mesmo mesmo hoje já não o enxerga como um fim em si mesmo. Alguma explicação? Algum pedido de desculpas?
Segundo: não vamos trair nossos compromissos com os trabalhadores e com a classe média, nem deixar que desapareçam suas conquistas e seus direitos.
Já traiu. Foram retirados direitos relativos ao seguro desemprego e as pensões. Ah mas as medidas foram boas e/ou necessárias, alguém dirá. Você está dizendo isto para mim? Sério? Logo eu que digo que são necessárias reformas que tornem nossa previdência menos generosa desde o final do século passado? Logo eu que fui acusado de não respeitar os mais velhos por economistas e políticos ligados ao PT? Não perca seu tempo dizendo para mim, diga para a presidente que várias vezes negou a necessidade de tais mudanças e chamou de inimigos do povo que defendeu propostas na linhas das medidas que ela tomou.
Terceiro: não estamos tomando estas medidas para voltarmos a ser iguais ao que já fomos. Mas, sim, para sermos muito melhores.
As medidas estão tomadas porque não tem como não tomar. A Nova Matriz Econômica simplesmente não é mais viável e o governo foi obrigado a bater em retirada em direção ao velho tripé macroeconômico, tanto sofrimento desnecessário... Vamos ter tempos melhores? Espero que sim, mas se temos tempos tão ruins é porque abandonamos o bom caminho que vínhamos seguindo e começamos a seguir atalhos. Dilma participou do abandono, primeiro como ministra da Casa Civil e depois como Presidente da República.
Quarto: durante o tempo que elas durarem, o país não vai parar. Ao contrário, vamos continuar trabalhando, produzindo, investindo e melhorando.
O país não está parado, o país está andando para trás. Previsão de queda do PIB, a produção industrial caiu 3,5% nos últimos doze meses, demissões em massa... Não foi a senhora quem mandou olhar os números?
As coisas vão continuar acontecendo. Junto com as novas medidas, estamos mantendo e melhorando os nossos programas. Entregando grandes obras. Nossas rodovias e ferrovias, nossos portos e aeroportos continuarão sendo melhorados e ampliados.
Grandes obras? Como Belo Monte? Como a transposição do São Francisco? Foram dua ou foram três campanhas em cima das tais grandes obras? Não seria melhor entregar as obras antes de voltar a falar delas? Está ficando chato.
Para isso, vamos fazer, ainda este ano, novas concessões e firmar novas parcerias com o setor privado. Incluímos - e vamos continuar incluindo - milhões e milhões de brasileiros. Mas agora a inclusão tem que se dar, sobretudo, pelo acesso a melhores oportunidades e a serviços públicos de maior qualidade.
Este esforço tem que ser visto como mais um tijolo, no grande processo de construção do novo Brasil. Esta construção não é só física, mas também espiritual. De fortalecimento moral e ético.
Com coragem e até sofrimento, o Brasil tem aprendido a praticar a justiça social em favor dos mais pobres, como também aplicar duramente a mão da justiça contra os corruptos. É isso, por exemplo, que vem acontecendo na apuração ampla, livre e rigorosa nos episódios lamentáveis contra a Petrobras.
Por episódios lamentáveis acontecendo com a Petrobras a presidente quer se referir a compras suspeitas realizadas quando ela era presidente do Conselho da Petrobras? A presidente se refere a escândalos de corrupção que até agora já levaram para cadeia diretores da Petrobras indicados pelo governo dela? A presidente se refere as relações suspeitas entre a Petrobras e alguns políticos que fizeram que o Procurador Geral da República indicado por Dilma recomendasse abertura de inquérito contra algumas dezenas de políticos que estão na base de apoio do governo? Aparentemente a grana rolava tão solta que o procurador geral parece suspeitar que sobrou até um troco para um político da oposição. Será que a presidente se refere as estratégias desenvolvimentistas que aumentaram de tal maneira os custos e impossibilitaram a Petrobras de ter preços compatíveis com seus custos? Quem sabe ela esta falando da aventura irresponsável do pré-sal? Difícil dizer, são tantas possibilidades e episódios lamentáveis é uma expressão tão vaga...
Minhas amigas mulheres homenageadas neste dia,
Por último, quero anunciar um novo passo no fortalecimento da justiça, em favor de nós, mulheres brasileiras. Vou sancionar, amanhã, a Lei do Feminicídio que transforma em crime hediondo, o assassinato de mulheres decorrente de violência doméstica ou de discriminação de gênero. Com isso, este odioso crime terá penas bem mais duras. Esta medida faz parte da política de tolerância zero em relação à violência contra a mulher brasileira.
Espero que os condenados não venham a ter suas penas perdoadas a partir de decretos presidenciais...
Brasileiros e brasileiras,
É assim, com medidas concretas e corajosas, em todas as áreas, que vamos, juntos, melhorar o Brasil. É uma tarefa conjunta de toda sociedade, mulheres e homens. Tenho certeza que contará com a participação decisiva do Congresso Nacional, que sempre cumpriu com seu papel histórico nos momentos em que o Brasil precisou.
Temos que encarar as dificuldades em sua real dimensão e encontrar o melhor caminho de resolvê-las. Pois, se toda vez que enfrentarmos uma dificuldade pensarmos que o mundo está acabando - ou que precisamos começar tudo do zero - só faremos aumentar nossos problemas.
Precisamos transformar dificuldades em soluções. Problemas temporários em avanços permanentes.
Reconhecer a natureza das dificuldades e entender como contribuímos para a construção de nossos problemas é condição necessária para transformar dificuldades, temporárias ou não, em soluções. Se culpamos fatores externos por nossos problemas temos pouco a fazer se não se lamentar ou praguejar e amaldiçoar os outros.
O Brasil é maior do que tudo isso e já mostrou muitas vezes ao mundo como fazer melhor e diferente. Mais que nunca é hora de acreditar em nosso futuro. De sonhar. De ter fé e esperança.
Viva a mulher brasileira! Viva o povo brasileiro. Viva o Brasil!
Viva!
Obrigada e boa noite.

sexta-feira, 6 de março de 2015

6 de março de 2015

De setembro a outubro do ano passado vivemos uma campanha eleitoral intensa que provocou vários debates a respeito do Brasil. Como não podia deixar de ser um dos temas mais acalorados foi o estado da economia. De um lado economistas governistas afirmavam que tudo estava bem e que a economia não precisava de ajustes, a própria presidente, que é economista, afirmou que a inflação estava controlada e em queda e que os indicadores de antecedentes apontavam para recuperação da economia. De outro lado vários economistas sem vínculos políticos e economistas ligados à oposição diziam que estávamos à beira de um abismo e que a crise era inevitável. A turma do "está tudo bem" não apenas negava a crise como afirmava que o outro lado estava inventando uma crise para tomar medidas duras tais como aumento da taxa de juros e elevação dos preços dos combustíveis. Um momento marcante desta estratégia foi a propagando governista mostrando como o aumento dos juros tirava a comida da mesa dos pobres.

Pois bem, eu estava na turma do "existe uma crise". Na realidade estou alertando que caminhamos para uma crise desde 2006 quando o governo abandonou a agenda de reformas e aderiu ao desenvolvimentismo. Como parte da turma contra o governo de plantão passei a ser considerado adversário do estado e inimigo do povo (sim, o partido passou a encarnar o estado e o povo... e o fascista era eu). Me disseram que eu estava inventando uma crise por ser vendido ao grande capital (peço ao grande capital que entre em contato para que eu mande a conta), ou por ser idiota e não perceber que tudo que estudei de economia nos últimos 25 anos é uma invenção de homens maus para maltratar o povo ou ainda por ser eu mesmo um homem mau que gosta de ver o povo passar fome. Pois bem, Dilma foi reeleita e hoje, 6 de março de 2015, resolvi mostrar para os leitores do blog o que aconteceu com algumas variáveis que foram citadas nos debates de 2014.

Comecemos com a inflação. A presidente garantiu que a inflação estava em queda e que quem dizia o contrário estava plantando inflação para colher juros. Economistas que insistiram em mostrar que a queda era por conta do período do ano e que a inflação voltaria a subir forma taxados de ignorantes e de não entenderem de Brasil. Pelos dados parece que os ignorantes que não entendem de Brasil estavam certos.




E os juros? A figura abaixo mostra o que aconteceu. Nunca foi tão verdade que um governo plantou inflação e colheu aumento de juros. O governo que acusou os críticos de propor sacrificar crescimento para combater inflação conseguiu reduzir o crescimento, aumentar a inflação e ainda subir os juros.



Uma turma que falou que a vitória de Dilma seria seguida de uma rápida desvalorização do Real. Terroristas econômicos! Gritaram os governistas. Quem apostar no dólar vai quebrar a cara bradou o ministro. Não sabem de nada e são lacaios dos bancos gritou a massa governista furiosa. A figura abaixo mostra o que aconteceu com o dólar. Espero que as hordas governistas não tenham acreditado no que diziam, não os quero mal... apenas não os quero mais.





E teve o "tarifaço", Dilma acusou a oposição de estar preparando um aumento da energia e dos combustíveis. Não soube da oposição ter ganho, mas o aumento da energia e dos combustíveis está em todos os jornais. A figura abaixo mostra o preço da gasolina. Ou os dados são de uma dimensão paralela onde Aécio é presidente ou Dima usou a máxima leninista de "acuse-os do que você faz, xingue-os do que você é". Não duvido que algum leitor que ainda mantém simpatia ao governo prefira acreditar na tese da dimensão paralela....



Por fim o salário mínimo. Reza o credo oficial que Dilma será a única capaz de garantir as conquistas dos trabalhadores e manter o poder de compra do salário mínimo. Quem me acompanha sabe que não compro esta tese, é o justo contrário, reduzir o salário em moeda forte é considerado pelas teses desenvolvimentistas com condição necessária para retomada do crescimento. Dilma é adepta do desenvolvimentismo. Liguei os pontos na figura abaixo e coloquei o salário mínimo em dólares (usei o câmbio da figura acima).




Para resumir o que foi o começo do governo Dilma fiz o gráfico abaixo com índices das variáveis que comentei. Todas parte de 100 em agosto de 2014 e sobem ou descem de acordo com a variável original. Como o leitor pode reparar tudo subiu, menos o salário mínimo em moeda forte.




Após fazer os gráficos fiquei com a impressão que os dados e os fatos se juntaram aos inimigos do povo na cruzada contra o governo popular e democrático dos trabalhadores brasileiros. A impressão passou rápido, não é isso que os números dizem, o que a realidade nos mostra é a mistura de incompetência e cinismo que toma conta do governo Dilma, mistura que passou dos limites do suportável durante a campanha de 2014.





segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Se quer ganhar confiança aprenda a fazer discursos... e evite mentiras óbvias

Gosto de política e de história, creio que por isso gosto de ler sobre grandes discursos feitos por estadistas de primeira linha e mesmo por políticos menores. Dos grandes estadistas tenho preferência por dois:  Abraham Lincoln e  Winston Churchill. O primeiro liderou o Norte na Guerra Civil Americana no século XIX, um conflito que mudou a história da humanidade e "criou" os EUA como o país que veio a se tornar a grande potencia do século XX. O segundo liderou as forças da liberdade contra a tirania nazista que aliada à tirania comunista ameaçava dominar a Europa. Longe de mim cobrar de algum de nossos políticos a grandeza de Lincoln ou de Churchill, até porque não vivemos nada parecido com as situações dramáticas que eles enfrentaram. Porém, os grandes discursos que fizeram podem (devem) servir de referência para que outros políticos criem seus próprios discursos e para que nós possamos avaliar os discursos de nossos políticos.

Tratei do assunto quando Dilma fez o discurso na seqüência das manifestações de 2013. Dilma foi a televisão pedir união e fez um discurso apagado que não surtiu efeito algum e que duvido muito que alguém lembre de algum trecho sem recorrer à internet ou outros arquivos. Na época falei que longe de mim cobrar de Dilma a grandeza de Lincoln e que as manifestação eram nada comparadas à Guerra Civil Americana, mas que qualquer político que fosse fazer um discurso a uma nação dividida deveria antes buscar inspiração no discurso da Casa Dividida de Lincoln, segue trecho do discurso:

"A house divided against itself cannot stand. I believe this government cannot endure, permanently, half slave and half free. I do not expect the Union to be dissolved — I do not expect the house to fall — but I do expect it will cease to be divided. It will become all one thing or all the other. Either the opponents of slavery will arrest the further spread of it, and place it where the public mind shall rest in the belief that it is in the course of ultimate extinction; or its advocates will push it forward, till it shall become lawful in all the States, old as well as new — North as well as South."

Abaixo a tradução que achei na Wikipédia:

"Uma casa dividida contra si mesma não pode permanecer. Eu acredito que este governo não pode suportar, permanentemente, ser metade escravo e metade livre. Eu não espero a divisão da União - Eu não espero ver a casa cair - mas espero que ela deixe de ser dividida. Ela terá que se tornar toda uma coisa ou outra.
Ou os adversários da escravidão irão deter a propagação da mesma, e a opinião pública deve repousar na crença de que deva ser extinta definitivamente, ou seus defensores irão estendê-la adiante, até que ela se torne legal em todos os Estados, velhos ou novos - Norte como no Sul."

Percebam que Lincoln não esconde os problemas vividos pelo governo dos Estados Unidos, porém não é um discurso pessimista, pelo contrário, é um discurso que mostra confiança em uma tarefa difícil mas necessária para o país.

Considerem agora o discurso que Churchill fez em 1940 a respeito da II Guerra Mundial. Era um momento critico. O exército alemão parecia invencível, a URSS de Stalin era aliada de Hitler, os Estados Unidos mantinham a política de não intervir militarmente, de fato a Inglaterra estava sozinha contra a ameaça nazista. Vejam o trecho mais conhecido do discurso:

"Even though large tracts of Europe and many old and famous States have fallen or may fall into the grip of the Gestapo and all the odious apparatus of Nazi rule, we shall not flag or fail. We shall go on to the end. We shall fight in France, we shall fight on the seas and oceans, we shall fight with growing confidence and growing strength in the air, we shall defend our island, whatever the cost may be. We shall fight on the beaches, we shall fight on the landing grounds, we shall fight in the fields and in the streets, we shall fight in the hills; we shall never surrender, and if, which I do not for a moment believe, this island or a large part of it were subjugated and starving, then our Empire beyond the seas, armed and guarded by the British Fleet, would carry on the struggle, until, in God's good time, the New World, with all its power and might, steps forth to the rescue and the liberation of the old."

Novamente a tradução da Wikipédia:

"Muito embora grandes extensões da Europa e antigos e famosos Estados tenham caído ou possam cair nos punhos da Gestapo e de todo o odioso aparato do domínio nazista, nós não devemos enfraquecer ou fracassar. Iremos até ao fim. Lutaremos na França. Lutaremos nos mares e oceanos, lutaremos com confiança crescente e força crescente no ar, defenderemos nossa ilha, qualquer que seja o custo. Lutaremos nas praias, lutaremos nos terrenos de desembarque, lutaremos nos campos e nas ruas, lutaremos nas colinas; nunca nos renderemos, e se, o que eu não acredito nem por um momento, esta ilha, ou uma grande porção dela fosse subjugada e passasse fome, então nosso Império del além-mar, armado e guardado pela Frota Britânica, prosseguiria com a luta, até que, na boa hora de Deus, o Novo Mundo, com toda a sua força e poder, daria um passo em frente para o resgate e libertação do Velho."

Churchill não esconde os perigos, não tenta vender uma confiança sem fundamentos, pelo contrário, fala de lutar até o fim, reconhece a possibilidade que a Inglaterra seja subjugada mesmo se negando a acreditar que a possibilidade venha a se tornar um fato. Com este discurso (na realidade foram três grandes discursos, além desse teve o do "sangue, suor, trabalho e lágrimas"  e o do "melhor momento") Churchill ajudou a recuperar a confiança dos ingleses e tornou possível a mudança de rumo que levou à derrota final do nazismo.

Toda esta conversa a respeito de discursos marcantes veio para que eu tentasse passar ao leitor como estou contrariado com o discurso de Joaquim Levy feito hoje para uma platéia de empresário. Segue o trecho que me incomodou a ponto de fazer este post:

"Não há nada de problemático na economia brasileira. Ainda há inúmeras vantagens no país, como nosso capital humano. Temos certeza de que temos condições de fazer essa reengenharia da nossa economia sem grande dificuldade. No ano passado, o governo fez alguns ajustes em programas de transferência, e atacou situações em que havia distorções para garantir sua efetividade conhecida pela população."

Ao contrário de Churchill e Lincoln o discurso de Joaquim Levy começa negando sequer a existência dos problemas. Se não temos problemas então por que nos impor sacrifícios? É uma pergunta legítima. Por que eu vou pagar mais impostos? Por que o jovem empregado vai ter de ficar mais tempo no emprego para receber seguro desemprego? Por que um terço dos recursos das universidades federais estão bloqueados (link aqui)? Por que os caminhoneiros estão bloqueando as estradas (link aqui)? Por que as viúvas vão ter suas pensões reduzidas? Por que os moradores da maior cidade do país estão sendo obrigados a poupar água? Por que tudo isto se "não há nada de problemático na economia brasileira"? Faria sentido Chruchill negar que a Inglaterra estava ameaçada e depois pedir o sacrifício dos ingleses? Faria sentido Lincoln negar que a União estava ameaçada e depois pedir o sacrifício dos americanos?

Não satisfeito em afirmar que não temos problemas o ministro segue dizendo que podemos fazer a "reengenharia da nossa economia sem grandes dificuldades". Hoje a noite o ministro que afirmou que não temos problemas e que não temos grandes dificuldades para fazer a reengenharia de nossa economia vai jantar com políticos do PMDB para pedir apoio as medidas do governo. Se eu estivesse na reunião levaria este trecho do discurso e perguntaria qual a razão dos sacrifícios pedidos.

Negar a existência dos problemas não foi o pior que o ministro fez. Sendo um economista brilhante é possível veja soluções fáceis para nossa economia e esteja nos impondo os sacrifícios por alguma razão que desconheço. Talvez por culpa de FHC, vai saber. Entre as duas frases que comentei o ministro coloca o capital humano como uma vantagem do país. De que país ele está falando? Do Brasil? O ministro ignora que nosso ensino é constantemente mal avaliado nas avaliações internacionais? O ministro ignora que não temos uma universidade entre as melhores do mundo? É assustador, mas ou o ministro está mentindo descaradamente ou não tem a menor ideia sobre o que está falando. É assim que o ministro quer ganhar a confiança do mercado? É assim que o ministro acredita que vai ganhar nossa confiança?

Não sei se vocês lembram de um porta voz do Iraque que durante a invasão americana dava declarações garantindo que o Iraque estava vencendo a guerra e destruindo as tropas invasoras. Era patético. É triste constatar que em uma escala com os discursos de Churchill como valor máximo e as declarações do tal porta voz iraquiano como valor mínimo a fala de nosso ministro está muito mais próxima do mínimo do que do meio da escala.





domingo, 22 de fevereiro de 2015

Com a palavra, Dilma

A era da internet é espetacular por vários motivos, um deles é que nossa capacidade de guardar e recuperar informações aumentou de modo espantoso. Enquanto no passado éramos obrigados a arquivar o que nos pareceria interessante e recorrer a nossa memória ou horas de pesquisa para recuperar um informação hoje podemos contar com informações armazenadas na rede e com a memória coletiva ou com o esforço de pesquisa coletivo para recuperar estas informações. Exemplo disto são os vários vídeos que circulam na internet com trechos de entrevistas dadas por autoridades onde o sábio inquilino do poder ensina a plebe ignara sobre a verdade das coisas, pobres sábios, suas certezas foram destruídas pelo desvendar dos fatos permitindo que a plebe se divirta um pouco. Como parte da plebe resolvi juntar e comentar alguns vídeos onde a suprema mandatária da nação, Dilma Roussef da Casa da Estrela Vermelha, divide a sapiência dela conosco e nos mostra como os poderosos podem falar tantas ou mais bobagem que uma criança, antes que alguém me critique por sugerir que a presidente fala bobagens lembro que esta é a melhor das hipóteses para justificar falas que se mostraram tão incompatíveis com os fatos.

1. Petrobras: No vídeo abaixo a presidente, então ministra chefe da Casa Civil, começa falando contra a necessidade de uma CPI da Petrobras, até aí tudo bem, o fato da Petrobras ser palco de diversos casos de corrupção não necessariamente implica que uma CPI teria sido útil. Na seqüência a presidente resolver falar sobre a contabilidade da Petrobras. Quem acreditou no discurso da presidente aprendeu que a Petrobras era uma empresa com excelentes práticas de governança corporativa e que se assim não fosse não atrairia investidores do mundo todo. Dilma não era alguém distante da empresa, quando ela deu as declarações já tinha experiência como ministra das Minas e Energia, presidente do Conselho da Petrobras e estava na Casa Civil.



Daí e veio o tempo cruel e mostrou que as práticas de governança da Petrobras eram muito ruins, a própria empresa reconheceu o problema e criou uma nova diretoria para cuidar da governança. O que fez a presidente? Reconheceu que errou ao afirmar que a empresa tinha excelentes práticas de governança? Longe disto, acusou o antecessor de não ter combatido os problemas na empresa. Agora eu pergunto ao amigo, se você recebesse uma empresa de alguém que não confia (ou mesmo de quem confia) não seria o caso de fazer uma auditoria completa para levantar todos os problemas antes de sair dizendo que empresa estava muito bem? Por quase dez anos Dilma teve todas as oportunidades de ver se tinha algum problema na Petrobras, depois de todo este tempo concluiu e disse para quem quis ouvir que a empresa não tinha problemas. Como eu fico? Acredito na Dilma que disse que a empresa não tinha problema ou na Dilma de hoje? Particularmente não acredito em nenhuma das duas...


2. Energia: Dilma se considera uma especialista em energia, deve ser, do contrário Lula nunca a teria posto como ministra das Minas e Energia (viram com eu sou um sujeito crédulo?). No vídeo abaixo Dilma garante que sua política para o setor nos garantiria uma energia mais barata, que éramos uma potência energética e que não havia "nenhum risco de racionamento ou de qualquer tipo de estrangulamento no curto, no médio ou no longo prazo". Ouvindo as palavras da presidente especialista em energia homens ainda mais crédulos do que eu só tinham uma coisa a fazer: gastar mais energia! Era o momento de investir em produção intensiva em energia, de comprar eletrodomésticos sem ligar para consumo de energia e etc. Foi nos dada a garantia de energia elétrica abundante e barata.



Novamente o tempo foi cruel e aprontou a presidente. O risco de racionamento é reconhecido pelas próprias autoridades do setor, as seguidas elevações no preço da energia destruíram a promessa da energia barata, mais uma vez a realidade foi o contrário do que a presidente afirmou. Pensa que ela reconheceu o erro e pediu desculpas? Que entendeu que a intervenção que o governo dela fez no setor elétrico foi das políticas mais desastrosas que temos registros? Se pensas assim estás muito enganado, a presidente simplesmente não fala mais no assunto, os apoiadores do governo que defenderam a intervenção também não gostam de falar no assunto e, se forçados a se pronunciar, se limitam a acusar quem mostra os fatos ou um governo que saiu do poder já faz mais de uma década.


3. Crescimento e Inflação: Durante a campanha Dilma foi entrevistada pelo Jornal Nacional, na entrevista William Bonner a questionou sobre o estado da economia. A resposta pode ser vista no vídeo abaixo lá pelo décimo segundo minuto (não encontrei uma versão do vídeo só com a parte da economia). Dilma nega a crise e fala que os indicadores de antecedentes apontam para a retomada do crescimento no segundo semestre de 2014, notem que ela parece se orgulhar do governo dela não ter aumentado impostos. A economista Dilma também rebate o comentário que a inflação estava no teto da meta argumentando que olhada mês a mês a inflação estava caindo (comentei aqui sobre a queda da inflação a que a presidente se referiu).



Sem dó nem piedade da presidente economista o tempo mais uma vez desvendou uma realidade contrária a que ela previu. A recuperação da economia não veio, pelo contrário, hoje já se fala de crescimento negativo em 2014 e 2015, crescimento negativo por dois anos seguido é algo que há muito não se vê por nossas bandas. A inflação ficou mesmo no teto da meta e queda prevista pela presidente não aconteceu, para 2015 mesmo o ministro da Fazenda já fala em inflação acima do teto da mera. E quanto a não aumentado impostos? Pois é, agora teve de aumentar... e cortar os direitos trabalhistas que em outro lugar ela garantiu não cortar "nem que a vaca tussa". Assim como nos outros casos Dilma nunca se desculpou e nunca reconheceu o erro. Sabe como é, os nobres não erram os fato é que conspiram contra os sábios líderes da Casa da Estrela Vermelha.