Para não dizer que não falei do câmbio

Devo começar confessando que não gosto de falar de câmbio, aprendi desde cedo que Deus inventou o câmbio para ensinar humildade aos economistas. O passar do tempo não me fez pensar diferente, testes mostram que jogando uma moeda para saber se o câmbio vai subir ou descer você estará tão bem servido quando usando modelos econômicos para prever o câmbio (se quiser saber mais a respeito ver aqui, para ter alguma esperança ver aqui). Normalmente quando falo de câmbio é para dizer que o Banco Central deve deixar o câmbio flutuar ou para pegar no pé dos amigos que acreditam que a desvalorizar o câmbio é o caminho para fortalecer a indústria e colocar a economia brasileira em um caminho de crescimento de longo prazo.

Salvo engano a última vez que falei de câmbio no blog (link aqui) foi para dizer que eu acreditava que a desvalorização do câmbio em meados de 2013 parecia não ser igual as outras e para criticar a estratégia do Banco Central de usar swaps cambiais para tentar “segurar” o câmbio. De fato a desvalorização não foi passageira, pelo contrário, e a estratégia do Banco Central está saindo muito cara. Resolvi voltar ao tema porque vários amigos têm me questionado a respeito do câmbio. Vale a pena comprar agora? A desvalorização é culpa do governo? A crise política está afetando o câmbio? São perguntas que tenho recebido. De saída respondo que não vou desafiar Deus e tentar prever câmbio, tenho juízo. Porém é possível tirar algumas conclusões observando o que está acontecendo em outros países. Para fazer as comparações usei os dados Bloomberg (link aqui).

A primeira comparação foi com o Euro e com o Peso Colombiano. Escolhi o Euro porque é uma moda forte que está desvalorizando diante ao dólar e o Peso Colombiano porque a Colômbia é um país que “fez o dever de casa” e usufrui de uma combinação de taxa de juros baixa e crescimento razoável, porém a Ecopetrol, estatal colombiana de petróleo, tem tido fortes perdas nos últimos seis meses. No período as ADR da Ecopetrol na Bolsa de Nova York caíram 58% contra 69% da Petrobras, em um ano a Ecopetrol caiu 60% contra 54%, porém em três meses a Ecopetrol caiu pouco menos de 10% contra quase 30% da Petrobras. Sendo assim a Ecopetrol não vive o drama recente da Petrobras, mas está em situação bem difícil justificando a escolha da Colômbio no primeiro grupo.

A Figura abaixo mostra a taxa de câmbio entre o Real (em todos os gráficos será azul), Euro (roxo) e Peso Colombiano (verde) e o Dólar. Repare que as três moedas se desvalorizaram fortemente nos últimos meses. É verdade que de fevereiro para cá o Real se desvalorizou em ritmo mais intenso que as outras moedas (repare que a curva azul fica mais inclinada que as outras), porém em um ano a diferença entre as três taxas é muito pequena. Isto quer dizer que está tudo bem? Não. Durante o último ano o Banco Central entrou várias vezes no mercado para impedir a desvalorização do Real, além de implicar em possíveis perdas financeiras a estratégia do BC sinaliza que a desvalorização do Real incomoda o governo. A razão do incomodo é que com inflação bem acima do teto da meta que já é alto e previsão de crescimento negativo (salvo mudanças metodológicas de última hora) o governo teme que a desvalorização do Real deixe a inflação ainda mais alta e force um aumento na taxa de juros no meio de uma recessão. Na Colômbia a inflação está na casa de 3% ao ano, isto permite acomodar a desvalorização se perder o controle da inflação, mas mesmo que um aumento de juros seja inevitável, por não estar em recessão a Colômbia não tem muito a temer. Fazer o dever de casa não impediu a desvalorização da moeda colombiana, mas deixou o país preparado para não sofre e, quem sabe, até se beneficiar da desvalorização. Na Europa é um pouco diferente, a inflação lá está próxima a zero mas eles não estão crescendo bem, com a inflação perto de zero há muito espaço para absorver a alta do dólar. Na verdade a desvalorização do Euro era esperada e até desejada pelo Banco Central Europeu.




O segundo grupo que usei para fazer comparações é formado por México (verde) e Chile (roxo). O Chile por ser sempre referência para América Latina e o México por ser um país que até mesmo a turma que se ofende com comparações na América Latina aceita que comparem com o Brasil. Até fevereiro as moedas do México e do Chile apresentavam um padrão de desvalorização não muito diferente da nossa moeda. A partir de fevereiro porém o Real descolou das outras moedas mostrando uma forte desvalorização. Se o primeiro grupo sugeria que a desvalorização do Real não era uma questão interna este segundo grupo sugere o contrário, eu avisei que câmbio é um bicho cheio de surpresas.




O próximo grupo tem o Japão (verde) e a Austrália (roxo). O Japão está na lista por ter feito políticas de estímulo nos moldes que a Europa está fazendo e a Austrália por ser um país grande e rico que é forte em commodities. A Austrália vinha colada no Brasil até fevereiro, em padrão similar ao do Chile e do México a partir de fevereiro a moeda da Austrália não acompanha a forte desvalorização do Real. No Japão é possível perceber uma desvalorização mais intensa que a nossa desde o começo da comparação, esta desvalorização fica mais forte em novembro e partir de dezembro fica mais ou menos estável. Assim como Chile, México e Austrália a moeda do Japão não apresentou a forte desvalorização que a nossa apresentou nos últimos meses.




O último grupo é o dos BRICS, como só podia colocar dois países além do Brasil escolhi Rússia (roxo) e China (verde). A moeda da Índia fica mais ou menos estável como a da China e a da África do Sul tem uma desvalorização mais forte a partir de fevereiro, porém bem menor que a do Brasil. Como a Figura mostra a China mantém sua moeda colada no dólar, uma prática já antiga por lá. Na Rússia ocorreu uma brutal desvalorização no final de 2014 e agora há uma valorização do Rublo. Como um país fortemente dependente do petróleo, mais do que o Brasil, a Rússia está sentindo a queda do preço do petróleo que somada as sanções por conta dos conflitos na Ucrânia pode explicar o que ocorreu por lá. A lição da China é quem tem poupança alta pode ignorar solenemente o que acontece no mundo e “escolher” o câmbio que desejar, não é nosso caso. A lição da Rússia é que problemas específicos do país podem levar a uma desvalorização brutal da moeda, muito maior do que a estamos vivendo aqui.




Analisar câmbio é tarefa ingrata, os exemplos deste post mostraram isto, porém se é para tirar conclusões eu diria que apesar de existir uma tendência de valorização do dólar no mundo nossos problemas internos podem estar influenciando a atual desvalorização do Real (antes de fazer o post eu estava convencido que fatores externos eram bem mais relevantes). Outra conclusão é que se tivéssemos feito o dever de casa com uma inflação entre 3% e 4% ao ano poderíamos estar tranquilos e ao governo poderia até mesmo estar comemorando a desvalorização do Real sem que o Banco Central estivesse operando para segurar o câmbio. Uma terceira e última lição vem do exemplo da Rússia, condições específicas ao país podem levar a uma desvalorização ainda mais forte de nossa moeda.



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